Romance que narra a dramática fixaçÃO



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UM QUARTO DE LÉGUA EM QUADRO,

romance, de Luiz Antonio de Assis Brasil.
Entrevista a Caio Fernando Abreu
Um quarto de légua em quadro, romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, que leva como subtítulo Diário do Doutor Gaspar de Fróis, Médico, é o lançamento de hoje ás 18h, na Freira do Livro. A editora é a Movimento, em convênio com o Instituto Estadual do livro e o Departamento de Assuntos Culturais da SEC. Porto-alegrense de 30 anos, professor de Filosofia do Direito na PUC, funcionário da Divisão de Cultura da SMEC e violoncelista da Ospa, este é o primeiro livro de Luiz Antonio, que antes já publicara, no Caderno de Sábado do Correio do povo, ensaios, críticos e trabalhos sobre História e Sociologia da nossa colonização.

  • Quem pegar o livro, ver a capa e ler alguma coisa – diz Luiz Antonio – vai ter a impressão de que se trata de um romance histórico. Mas, antes de mais nada, é um romance, com um telão histórico ao fundo. A ação transcorre no nosso passado histórico: é um lapso na vida de uma pessoa, que vai de dois de janeiro de 1752 a 20 de junho de 1753. Quanto à história, ela é muito simples – um médico acompanha uma leva de imigrantes açorianos que vieram colonizar o Estado no século XVIII. Então esse médico conta tudo que vai acontecendo com esses casais. Entretanto com isso, há flash-backs que contam, paralelamente, a história pessoal do médico. Há duas tragédias intercaladas: a tragédia coletiva do povo açoriano, já que a colonização foi um desastre, e a tragédia pessoal do Dr. Gaspar, que no final se fundem numa só.

Como músico, Luiz Antonio vê seu próprio livro em termos musicais – dois temas em contraponto, até se tornarem, no final, um canto uníssono: “No decorrer do livro, procuro mostrar como a colonização foi improvisada e malfeita, com promessas não cumpridas pelos poderes e também todo o desencanto, a amargura e a frustração do povo açoriano. O sistema de distribuição de terras era extremamente injusto. Há um chavão histórico que diz que a vinda dos casais açorianos se deu principalmente por dois fatores: as ilhas estariam superpovoadas, enquanto o Continente de são Pedro estaria despovoado. Mas isso não é verdade. O que havia, era uma má distribuição de terras e de população. Os açorianos foram enviados para cá a fim de servir de anteparo à invasão dos castelhanos. Do século XVIII ao século XX a coisa não mudou muito. Ainda no período salazarista, em Portugal, os açorianos eram mandados para lutar na África – a tradição portuguesa de massacrar os açorianos é antiqüíssima”.

Sobre suas possíveis influências literárias, Luiz Antonio avisa: “Você vai me achar muito careta – mas acho que minha influência mais marcante foi Eça de Queiroz. Dentro da época em que ele viveu, acho que levou ao máximo a descrição de ambientes e personagens. Acho até que os livros dele são meio mágicos: eu leio e releio e sempre descubro coisas novas. Uma outra influência – claro – foi Erico Veríssimo. Creio que não há nenhum autor gaúcho contemporâneo que possa dizer que não foi influenciado por ele. Admiro principalmente a sua universidade”.

Para Luiza Antônio, o período atual de literatura no Rio Grande do sul é “muito bom”. Ele se refere, principalmente, à área do conto e da poesia, falando, com entusiasmo, ao último livro de Carlos Nejar, Somos Poucos, lançado esta semana na feira do livro: “O romance, por outro lado, está meio desacreditado pelo público. Se a gente for analisar, além do Josué Guimarães, atualmente não há nenhum outro romancista no Estado. O romance é muito difícil de escrever – na época em que se vive, é quase um ato de heroísmo: já passou o tempo em que Camilo Castelo Branco se trancava num quarto e, em uma semana, escrevia o Amor de Perdição. O escritor agora precisa trabalhar, e sobra pouquíssimo tempo. E para um romance é preciso, antes de mais nada, tempo. Num fim-de-semana, é possível escrever um conto; mas um romance leva um ano e meio ou dois. É preciso mergulhar num outro mundo durante um largo tempo”.

Um ano e meio foi o tempo que ele levou para escrever Um quarto de légua em quadro – a primeira metade, a conta-gotas, em horas roubadas do trabalho, à noite, nos fins-de-semana; a segunda metade, em menos de dois meses passados na praia: “Voltei mais branco do que quando fui. Mas o romance ficou pronto. Eu não tinha intenção de publicar, mas dei pra algumas pessoas lerem e me aconselharam a procurar o Instituto Estadual do Livro”. Luiz Antonio se refere à gestão de Lygia Averbuck no IEL, como “um trabalho excepcional – acho que no Brasil todo ninguém fez um trabalho semelhante”.

Outro problema enfrentado por Luiz Antonio foi a pesquisa histórica sobre a fundação de Porto Alegre. Segundo ele, os dois autores consultados – Guilhermino César e Riopardense de Macedo – se contradizem em alguns pontos: “Acabei optando pela versão de Guilhermino César que, como elemento dramático, era mais interessante. Esse assunto da colonização foi muito oculto pelas autoridades da época, para que os espanhóis não tomassem conhecimento. O resultado isso foi a escassez de documentação”.

Apesar das dificuldades encontradas neste primeiro livro, não só no que de refere à pesquisa, mas também à edição, Luiz Antonio está trabalhando num outro romance – A prole do corvo, que abrange o período do último ano da Guerra dos Farrapos, de 1845: é a história de um sujeito jogado no meio da Guerra dos Farrapos, sem saber como nem porquê. Em última análise, é um libelo contra a guerra. Contra todos esses bélicos, ou parabélicos, herdeiros do corvo – todos esses que se alimentam da morte dos outros”.


Porto Alegre, Folha da Manhã, 6.nov.1976

Romance que narra a dramática fixação

dos açorianos no sul é lançado à tarde

Entrevista a Antonio Hohlfeldt

“O açoriano foi o elemento que realmente moldou o caráter do gaúcho”, afirma Luiz Antonio de Assis Brasil, autor do romance “Um quarto de légua em quadro”, que a Editora Movimento e o Instituto Estadual do Livro lançam hoje, em sessão de autógrafos às 18 horas, fazendo com que este jovem advogado, músico e pesquisador de história, assessor da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, estréie também na literatura:
O que havia
“Havia os degredados, os paulistas, os contrabandistas. Todos eram gente sem raízes, sem nada. O açoriano, contudo, não. É um tipo mais tranqüilo, dedicado à agricultura, distante do gado. Quando eles chegam aqui, encontram outro elemento já estabilizado. Mas com o contato estabelecido, na sua pequena propriedade, contrastando com a grande extensão de território da campanha, as coisas vão mudando gradativamente”.

As primeiras grandes distâncias estavam aí nesta região de colonização já mais antiga, oriunda de velhos troncos paulistas do século XVI. O resto da campanha era mais espanhol do que português, segundo o escritor. Missões eram a Espanha. O povoamento açoriano, porém, foi do litoral pelo Jacuí adentro, e com os tratados políticos deste século XVIII, entram em direção ao Alto Uruguai. Dá-se então o contato.





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