Romances de Agatha Christie



Baixar 0.92 Mb.
Página1/11
Encontro10.12.2017
Tamanho0.92 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


CAI O PANO
O ÚLTIMO CASO DE POIROT
Agatha Christie

Título original
CURTAIN (POIROT’S LAST CASE)
Tradução MASCARENHAS BARRETO
Capa FORTESPÓLIO


Editorial por cortesia de Livros do Brasil impresso e encadernado por Tilgráíica, S. A.
para Círculo de Leitores no mês de Outubro de 1998
Número de edição: 4040
Depósito legal número 126 210/98
ISBN 972-42-1893-7

Capítulo I



Quem não sentiu um súbito baque no coração ao reviver uma antiga experiência, ou ao sentir uma velha emoção?
«Já passei por isto, antes...»
Por que razão estas palavras nos emocionam tão profundamente ?
Foi a pergunta que fiz a mim próprio, quando me sentei no comboio, olhando para a paisagem plana de Essex.
Há quanto tempo tinha eu já feito esta viagem? E pensava então (ridiculamente) que o melhor da minha vida já tinha passado. Ferido nessa guerra que, para mim, fora sempre a guerra... a guerra que estava agora a ser fustigada por uma segunda e ainda mais desesperada guerra.
Ao então jovem Arthur Hastings parecera, em 1916, já ter atingido a maturidade. Nessa altura não podia aperceber-me de que a vida apenas estava no início.
Conquanto não o adivinhasse, nessa primeira viagem, ia ao encontro do homem cuja influência viria a modificar e moldar a minha vida futura. Concretamente ia apenas passar uns dias com o meu velho amigo John Cavendish, cuja mãe, recentemente casada em segundas núpcias, tinha uma casa de campo com o nome de Styles. Esperava encontrar aí pessoas minhas conhecidas, numa estada agradável e nunca mergulhar, como então aconteceu, nas malhas tenebrosas de um misterioso assassínio.
Era novamente em Styles que ia encontrar agora o estranho homenzinho, Hercule Poirot, que tivera ocasião de conhecer, pela primeira vez, na Bélgica.
Que bem recordava a estupefacção que senti ao ver o seu rosto bojudo, ornado por um grande bigode, vir ao meu encontro na rua da aldeia.
Hercule Poirot! Desde esses dias em que se tornou o meu mais querido amigo, a sua influência alterara-me a maneira de ser. Foi na sua companhia, na caça de um e, depois de muitos criminosos, que conheci minha mulher, a mais verdadeira e doce companheira que um homem poderia encontrar.
Jaz agora em solo argentino, tendo morrido como sempre desejara, sem sofrer a pena de uma longa doença, nem o depauperamento da velhice. Mas deixara, neste mundo, um homem muito solitário e infeliz.
Ah! Se eu pudesse voltar atrás, viver toda a minha vida, novamente... Se a tivesse conhecido logo nesse dia de 1916, quando, pela primeira vez, viajei até Styles... Que mudanças se teriam operado em toda a minha existência!
E quantas faltas notaria, agora, entre os rostos familiares com que iria deparar de novo! A própria casa Styles fora vendida pelos Cavendish. John Cavendish morrera e sua mulher, essa fascinante e enigmática criatura, conquanto estivesse ainda viva, morava agora em Devonshire, Laurence tinha-se fixado, com a sua mulher e os miúdos, na África do Sul. Mudanças... mudanças por toda a parte!
Mas pelo menos uma coisa era estranhamente certa. Ia agora até Styles ao encontro de Hercule Poirot.
E como fiquei estupefacto ao receber a sua carta, vendo no topo timbrado o indicativo: Casa Styles, Styles, Essex.
Já não via o meu querido amigo há mais de um ano. Da última vez que o encontrara, fiquei chocado e triste. Era agora um velho, quase impossibilitado de andar, por causa do artritismo. Estivera no Egipto, na esperança de melhorar, com o clima quente e seco, mas regressara desalentado e a sua carta noticiava que se achava pior.
Apesar disso escrevera carinhosamente:
«Não o intriga, meu amigo, ler a direcção de onde lhe escrevo? Recorda-nos velhas memórias, não é verdade? Sim, estou aqui em Styles. Imagine que isto é agora o que eles chamam uma casa de hóspedes. É dirigida por um dos vossos velhos coronéis britânicos, muita ”gravata distintiva da Academia Militar” e referências ao serviço na índia... ”Poona”. Bien entendu, é a mulher dele quem faz andar tudo isto. Tem tanto de boa administradora e dona de casa, como de língua viperina e envenena toda a vida do pobre coronel. Se fosse comigo já lhe tinha ferrado uma sobradai
Li o anúncio no jornal e a fantasia impeliu-me a ver uma vez mais o local que foi o meu primeiro lar, neste país. Na minha idade, temos prazer em reviver o passado.
E agora, imagine. Encontrei um cavalheiro, um baronete, que é amigo do patrão da sua filha. (Esta frase soa um pouco como um exercício de Francês-Inglês, não acha?)
Concebi imediatamente um plano. Ele desejava convencer o amigo e a esposa, os Franklin, como sabe, a virem até cá, no Verão. Franklin, que nunca interrompe o seu trabalho, traria Judith consigo, para auxiliá-lo. Isso induziu-me, pelo meu lado, a convencê-lo a si a juntar-se-nos. Estaríamos todos juntos, en famille, o que seria muito mais agradável. Portanto, meu caro Hastings, dépêchez-vous, e apareça-nos aqui com a maior brevidade possível. Arranjei-lhe um quarto com banho (a nossa querida Styles está agora modernizada) e discuti o preço com a ”coronela” Mrs. Luttrell, até conseguir chegar a um acordo três bon marche.
Os Franklin e a sua encantadora Judith já cá estão a alguns dias. Está já tudo arranjado e, portanto, não se ponha com fitas.

A bientôt


O seu, sempre, Hercule Poirot.»

A perspectiva de voltar a estar com o meu amigo era aliciante e decidi não demorar o encontro. Já nada me ligava a casa. Dos meus filhos, um estava na Marinha e o outro, casado e dirigindo um rancho, na Argentina. Minha filha Grace casara com um militar e achava-se presentemente na índia. A única garota que me restava na Inglaterra, Judith, era aquela a quem secretamente mais estimava, aquela a quem devotava mais amor, talvez por ser a última, embora nunca a tivesse compreendido. Uma moça reservada, metida consigo e com os seus segredos, com a paixão da independência pessoal e rejeitando quaisquer conselhos, a ponto de discutir comigo e, às vezes, magoar-me intimamente. Minha mulher entendia-a melhor do que eu, afirmando-me que não se tratava de falta de confiança de Judith na minha pessoa, mas de uma espécie de impulso orgulhoso. Mas também ela, como eu, se mostrou várias vezes preocupada com a nossa filha. Um dia considerou que os sentimentos de Judith eram demasiado intensos e concentrados e que a sua reserva instintiva a privava de qualquer válvula de segurança. Os seus miolos eram os melhores da família e foi com agrado que a vimos desejar seguir a Universidade. Formou-se, há um ano, em Ciências Biológicas, e aceitou o cargo de secretária de um médico que se ocupava de pesquisas relacionadas com doenças tropicais. A mulher deste era, mais ou menos, uma inválida.


Ocasionalmente, cheguei a apoquentar-me com a ideia... se a sua absorção pelo trabalho e devoção ao patrão, não significariam que se apaixonara por ele, mas tranquilizei-me ao verificar que se tratava, puramente, de amor à ciência experimental.
Sempre acreditei que Judith gostava de mim, mas era naturalmente incapaz de demonstrá-lo, tornando-se impaciente e até hostil àquilo que ela considerava ideias sentimentais e ultrapassadas.
Para ser franco, sentia-me um pouco preocupado com a minha filha.
Neste ponto das minhas meditações, fui interrompido pela chegada do comboio à estação de St. Mary de Styles. Esta não tinha mudado, ao fim de tantos anos. Erguia-se ainda no meio dos campos, sem razão aparente para aí permanecer, afastada da aldeia. Contudo, quando o táxi me levou até esta, notei as alterações causadas pelos novos tempos. St. Mary de Styles estava quase irreconhecível, com garagens, bombas de gasolina, um cinema, dois grandes hotéis, novos edifícios e um grande bairro de casas camarárias.
Finalmente, entrámos em Styles. Aqui parecia retrocedermos aos tempos antigos. O parque estava como eu o conhecera, embora se visse bastante erva por aparar, dando um triste aspecto de abandono ao relvado. Virámos uma esquina e ficámos à vista da casa. Do lado exterior mostrava-se inalterada, conquanto carecesse de uma boa camada de tinta.
Tal como sucedera, anos atrás, quando da minha primeira chegada àquele local, achava-se um vulto feminino parado junto aos canteiros do jardim. Senti o coração bater um pouco mais vivamente. Então, o vulto endireitou-se e dirigiu-se na minha direcção. Ri interiormente, pois não poderia haver maior contraste entre a robusta Evelyn Howard de outros tempos e a frágil senhora, muito mais velha, com que agora deparava. Esta tinha cabelos brancos, levemente amarelados, maçãs do rosto rosadas, um par de olhos azuis, muito pálidos e um à-vontade de maneiras que estava longe de me agradar.
- E com certeza o capitão Hastings, não é verdade? - perguntou ela. - E eu com as mãos mais que sujas, sem poder cumprimentá-lo! Ficamos encantados Por tê-lo cá, por tudo quanto temos ouvido a seu respeiito. Ainda não me apresentei. Sou Mistress Luttrell. Meu marido e eu comprámos este lugar, num rasgo de loucura, e temos tentado tirar dele algum rendimento. Nunca pensara vir, um dia, a tornar-me hoteleira. Mas vou já tratar de si, capitão Hastings. Sou uma mulher de negócios, sabe? Arranjo sempre maneira de aumentar-vos as contas com uma série de extras.
Rimo-nos ambos, como se ela dissesse uma piada excelente, mas ocorreu-me que, provavelmente, Mrs. Luttrell estava a gracejar com o que seria pura verdade. E para além das maneiras encantadoras de senhora idosa, pude vislumbrar uma certa dureza no brilho dos olhos.
Embora lhe notasse na fala um certo sotaque, rolando as palavras, não me pareceu que tivesse sangue irlandês. Devia tratar-se de mera afectação.
Perguntei-lhe pelo meu amigo.
- Ah, coitadinho de Mister Poirot. Como ele tem estado ansioso à sua espera! Até despedaçaria um coração de pedra! Tenho uma enorme pena dele, a sofrer como sofre.
Enquanto caminhávamos para casa, a minha hospedeira ia descalçando as luvas.
- E a sua filha, capitão - prosseguiu ela -, que linda rapariga que ela é! Todos a admiramos tremendamente. Mas sou o que se costuma chamar uma mulher fora de moda e parece-me uma vergonha e até um pecado uma moça tão bonita como é, em vez de ir a reuniões e a bailes com rapazes, da sua idade, enterrar-se constantemente no laboratório, todo o dia debruçada sobre o microscópio. Aquilo é trabalho para estafermos, penso eu.
- Onde está Judith? - inquiri. - Está perto daqui?
Mrs. Luttrell fez uma careta e lamentou:
- Pobrezinha dela! Está encafuada numa espécie de estúdio, ao fundo do jardim. O doutor Franklin alugou-mo e transformou-o num laboratório improvisado, é claro. Encheu aquilo de porquinhos-da-índia... coitadinha das pobres cobaias... de ratos e de coelhos.
- Não me parece que pudesse vir a gostar dessas experiências, não acha, capitão Hastings? Ah, aqui está meu marido.
O coronel Luttrell acabava de contornar a esquina da casa. Era um homem muito alto, de certa idade, um rosto cadavérico, olhos azuis e o hábito de cofiar irresolutamente o seu bigodinho branco.
Tinha uma expressão um pouco vaga e gestos nervosos.
- Olá, George, o capitão Hastings acaba de chegar - anunciou ela.
O coronel apertou-me a mão.
- Veio no das cinco e quarenta, hem? perguntou.
- Em que outro poderia ter vindo? - criticou Mrs. Luttrell, azedamente. - E que interesse tem isso? Leva-o para cima e mostra-lhe o quarto, George. E talvez queira ir ver imediatamente Mister Poirot... ou prefere tomar chá, primeiro?
Assegurei-lhe que não desejava tomar chá e que desejava ver o meu amigo, quanto antes.
O coronel Luttrell estendeu o braço em direcção à porta e convidou:
- Certo. Venha daí. Espero que... a... já tenham levado as suas coisas lá para cima... hem, Dasy?
Mrs. Luttrell retorquiu asperamente:
- Isso é da tua lavra, George. Tenho estado a jardinar e não posso tratar de todas as coisas ao mesmo tempo.
- Não, não certamente! A... vou ver isso, minha querida.
Subi com ele as escadas de acesso à porta da frente e cruzámo-nos à entrada com um sujeito de cabelo grisalho, de constituição débil, que saía apressadamente, empunhando um binóculo de campo. Exteriorizava uma animação de certo modo infantil e exclamou:
- Vi-as agora mesmo: um par de toutinegras, a armarem ninho, lá em baixo, na figueira-do-egipto.
Quando entrámos no átrio, Luttrell esclareceu:
- É Norton. Tipo catita. Maluco por pássaros.
Estava ali mesmo outra pessoa, de pé junto da mesa do telefone. Era um homem de boa aparência, que estivera obviamente fazendo uma ligação.
Fitou-nos e protestou:
- Parece impossível! Gostaria de poder enforcar, esquartejar e queimar todos os empreiteiros e mestres-de-obras. Nunca fazem nada de jeito, o Diabo que os carregue!
Já devia ter passado dos cinquenta anos e tinha um rosto muito bronzeado e uma expressão atraente. Dava a impressão de ter vivido sempre ao ar livre, lembrando esse tipo de indivíduos, cada vez mais raros em Inglaterra, da velha escola, lançados para diante, adoradores do movimento e capazes de comandar.
Fiquei deveras surpreendido quando o coronel Luttrell mo apresentou como sendo Sir William Boyd Carrington. Eu sabia perfeitamente que fora governador de uma província na índia onde obtivera verdadeiro êxito. Também se tornara famoso como atirador de primeira classe e caçador de caça-grossa. O género de homem, reflecti com tristeza, que parece estar a extinguir-se nestes nossos degenerados dias.
- Ah! - exclamou ele. - Tenho gosto em conhecer, em carne e osso, essa famosa personagem: mom ami Hastings.
Riu-se e acrescentou:
- O querido velho belga farta-se de falar em si, sabe? E temos aqui, como sabe, sua filha, entre nós. É uma moça muito gentil.
- Não creio que Judith se «farte» de falar de mim - observei, sorrindo.
- Oh, não. E moderna de mais para isso. Hoje em dia, as raparigas parecem embaraçadas quando são levadas a admitir que tiveram um pai e uma mãe.
- Os pais - comentei -, são praticamente uma desgraça.
Sir William riu-se francamente.
- Bem, não leve o caso para esse lado - animou. - Não tenho filhos, o que é uma sorte muito pior. A sua Judith é um rebento muito formoso, mas sempre de sobrolho franzido. Acho isso um pouco alarmante.
Tornou a pegar no auscultador e justificou-se:
- Espero que não leve a mal, Luttrell, se eu mandar a sua central telefónica para o Inferno, hem?
- Que os leve o Diabo! Nunca fazem uma ligação em termos! - apoiou o coronel.
Começou a subir as escadas e segui-o. Conduziu-me ao longo da ala esquerda da casa, até a uma porta do extremo e depreendi que fora esse o quarto que Poirot me destinara. Era o mesmo que eu ocupara, em tempos idos.
Tinham operado mudanças na casa. Conforme tínhamos percorrido o corredor, notei, através de algumas portas abertas, que os espaçosos quartos antigos tinham sido seccionados de maneira a constituírem vários, mais pequenos.
O meu quarto, que nunca fora dos maiores, tinha sido poupado a essa compartimentação, não sofrendo qualquer alteração, salvo a instalação de água quente e fria, e de uma parede a um canto, que abrigava um pequeno quarto de banho. Mas fiquei desapontado quando notei que o tinham mobilado com móveis modernos, naturalmente muito mais baratos, em substituição dos que se adequavam à arquitectura da casa.
Afinal de contas, a minha bagagem já estava no quarto e o coronel explicou que o do Poirot ficava exactamente em frente do meu. Ia começar a dizer-me qualquer coisa, quando ecoou um grito, proveniente do átrio.
- George!
Luttrell estacou como um cavalo nervoso. Levou as costas da mão à boca e titubeou:
- Eu... a... acha isto bem?... Se precisar de alguma coisa, é só tocar...
- Georgel
- Vou já, querida. Vou já!
Correu para a porta e lançou-se a trote, pelo corredor. Por momentos, fiquei a vê-lo afastar-se, e, em seguida, senti o coração palpitar acelerado. Dei alguns passos e bati à porta do quarto de Poirot.
CAPITULO II
Nada é mais triste, na minha opinião, do que a devastação causada pela idade.
Meu pobre amigo! Já tive ocasião de descrevê-lo várias vezes. Faço-o agora novamente para que possam aperceber-se da diferença sofrida.
Coxo, em virtude do artritismo, via-se obrigado a impelir-se, a braços, numa cadeira de rodas. A sua cara gorducha mostrava-se agora flácida e pendurada. Tornara-se num homenzinho magro. Na verdade, o bigode e o cabelo mostravam-se, perfeitamente, negros de azeviche, contrastando com a palidez do rosto macilento e enrugado. Por nada deste mundo seria capaz de magoá-lo, exprimindo o que candidamente senti nesse momento. Aquele contraste era um triste erro. Há uma altura na vida em que a cor do cabelo morre, causando certo desgosto a quem vê, nessa despigmentação natural, um falso indício de senilidade. Se alguns anos antes me tivessem dito que a cor negra do cabelo e do bigode de Poirot saíam de um frasco de tinta, deixar-me-iam deveras surpreendido. Mas agora essa característica era por demais teatral, criando a impressão de que usava chino e adornava o lábio superior na intenção de divertir as crianças.
Só os seus olhos eram os mesmos de sempre, penetrantes e cintilantes, e agora, indubitavelmente, ternos de emoção.
- Ah, mon ami Hastings!... mon ami Hastings!
Avancei a cabeça e, como de costume, beijou-me nas faces. Depois, recostou-se ligeiramente, para ver-me melhor no conjunto, e repetiu:
- Mon ami Hastings!
Inclinou um pouco a cabeça para um dos lados e apreciou:
- Sim, está na mesma, as costas direitas, os ombros recuados, o cabelo grisalho... três distingue. Sabe, meu amigo, que resistiu bem ao tempo? Lês femmes, ainda manifestam interesse por si? Sim?
- Francamente, Poirot - protestei -, acha próprio?...
- Mas é um teste, meu amigo. E o único teste positivo. Quando garotas muito novas se aproximam de si, para falarem-lhe ternamente, muito ternamente... é o fim! «Pobre velhote», pensam elas, «devemos ser agradáveis para com ele. Deve ser horrível, chegar-se a este estado...» Mas você, Hastings, vous êtes encore jeune. Ainda tem possibilidade. É como lhe digo, cofie esse bigode, indireite os ombros e avance. O que é de estranhar é que você não se aperceba disso.
Forçou-me a rir.
- Você é o cúmulo, Poirot! Diga-me como é que se sente.
Com uma careta, confessou:
- Eu, meu caro, estou numa ruína. Não posso andar. Estou coxo e trémulo. Misericordiosamente, ainda posso alimentar-me sozinho, mas, no resto, tenho de ser tratado como um bebé. Posto na cama, lavado e vestido. Enfin, não é nada divertido. Mas se o exterior decai, o miolo ainda vibra como dantes.
- Sim, na realidade, você tem o melhor coração do mundo.
- O coração? Talvez, mas não me referia a isso. O cérebro, mon cher, é o que interessa, aquilo a que chamo o miolo. Estas circunvoluções cerebrais ainda funcionam magnificamente.
Pelo menos pude verificar claramente que não sofrera deterioração do cérebro, no que se referia à modéstia.
- E gosta de estar aqui? - interessei-me. Poirot encolheu os ombros.
- Para mim, basta-me. Não é o Ritz, como vê facilmente. Nada que se lhe compare. Quando vim para cá, o quarto que me deram não só era pequeno, mas também mal mobilado. Mudei-me para este, sem aumento de preço. Depois a cozinha é inglesa e péssima. Os grelos, de que os Ingleses gostam tanto, são enormes e rijos; as batatas, sempre cozidas, esboroam-se-nos na boca e todos os vegetais sabem a água e só a água. Ainda por cima, a completa ausência de sal e de pimenta em todos os pratos...
Fez uma pausa expressiva.
- Parece horrível - comentei.
- Não estou a queixar-me - precisou Poirot. Mas há-de concordar que esta chamada modernização... As casas de banho enfiadas dentro dos quartos de dormir, os ralos por todo o lado e as emanações que se exalam por eles e nos invadem o ambiente. Canos de água quente a gargarejarem durante todo o dia, mon ami, e ainda se fosse quente, mas só cá chega morna. É as toalhas, tão estreitinhas e tão finas!
- Há muito que dizer acerca dos tempos antigos - observei, pensativamente.
Lembrei-me da enorme casa de banho que existia em cada andar de Styles, com uma enorme banheira de mármore, forrada exteriormente a mogno, e as nuvens de vapor que se evolavam dela; os grandes vasos metálicos cheios de água fervente e as imensas toalhas de banho, felpudas e macias, que nos envolviam inteiramente e enxugavam a sério.
- Mas não estou a queixar-me - repetiu Poirot.
- Sinto-me feliz por sofrer por uma boa causa. Subitamente assaltou-me uma ideia.
- Você não está... quero dizer... Bem sei que a guerra prejudicou grandemente os investimentos e...
Poirot apressou-se a tranquilizar-me:
- Não, não, mon ami. Encontro-me nas melhores circunstâncias financeiras, se é nisso que pensa. Na verdade, sou um homem rico. Não foi uma questão de economia que me trouxe até cá.
- Ainda bem - murmurei. - Penso que compreendo o que sente. Conforme os dias vão passando, maior necessidade temos de recordar o passado. Cada qual procura recapturar, nas antigas imagens, emoções de tempos idos. No que me diz respeito, acho penoso reviver milhares de momentos emotivos, considerando preferível mante-los no esquecimento em que se envolveram. Gostaria que fizesse o mesmo. Temos que esquecer o passado e apenas viver o presente, se ainda nos resta algum futuro. De outra maneira, é como se abdicássemos...
- Não, de maneira nenhuma. Não me sinto nada inclinado a abdicações de espécie alguma.
- Passámos realmente uns dias maravilhosos - concedi tristemente.
- Está a falar por si próprio, Hastings. Quanto a mim, a minha chegada a Styles, quando aqui entrei pela primeira vez, nada teve de alegre. Era um refugiado, ferido, exilado da pátria; sobrevivendo por caridade numa nação estrangeira. Esses dias, para mim, em St. Mary de Styles não foram de forma alguma alegres. Nessa altura ainda não sabia que a Inglaterra viria a tornar-se-me numa segunda pátria; que acabaria por sentir-me aqui completamente feliz.
- Esqueci-me disso - admiti.
- Precisamente. Você atribui sempre aos outros os sentimentos que o possuem e as ideias que resultam da sua própria experiência. Se Hastings se sentia feliz, toda a gente deveria sentir-se igualmente feliz.
- Não, não - protestei, rindo.
- E mesmo que assim não seja - prosseguiu Poirot - quando você olha para trás, no tempo, afloram-lhe lágrimas aos olhos e exclama: «Oh! Aqueles dias felizes! Era então jovem!» Mas, na realidade, Hastings, você não era tão feliz como agora pensa. Foi duramente ferido, sofreu o inevitável afastamento do serviço activo, andou envolvido num complicado problema sentimental por apaixonar-se por duas mulheres ao mesmo tempo...
Ri-me e observei:
- Que memória maravilhosa você tem, Poirot!
- Ta, ta, ta. Recordo-me perfeitamente das fatuidades melancólicas que você murmurava, acerca de duas mulheres encantadoras.
- E lembra-se do que então me dizia? «Nenhuma delas será para si, mas coragem, man ami. Vamos caçar juntos e talvez...»
Calei-me. No consenso de Poirot, eu fora caçar para França e conhecera aí uma mulher...
Gentilmente, o meu amigo deu-me umas palmadinhas no braço.
- Eu sei, Hastings, eu sei. A ferida ainda está fresca. Mas não lhe serve de nada olhar para trás. Para a frente é que é o caminho.
Esbocei um gesto de desgosto.
- Olhar para a frente - objectei. - Para a frente, para onde e para quê?
- Eh bien, meu caro, temos trabalho para fazer.
- Trabalho? Onde?
- Aqui. Fitei-o espantado.
- Agora mesmo - insistiu ele - você acabou de perguntar-me porque decidi vir enterrar-me aqui. Talvez não notasse que não respondi a essa pergunta. Vou fazê-lo agora. Ando à caça de um assassino.
O meu espanto recrudesceu e confesso que, por um momento, pensei que ele não estivesse no seu juízo perfeito.


Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal