Romances Históricos PÚblico 08



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Romances Históricos

PÚBLICO

08

O Alienista Caleb Carr

Título original: The Alienist Tradução: Lucinda Maria dos Santos Silva

Copyright © 1994 Caleb Carr © 1998 Editorial Noticias / Casa das Letras

© 2006 Mediasat Group, S.A. para esta edição

Mediasat Portugal

RuaTierno Galván. Edifício Amoreiras

Torre 3, escr. 609. 1070274 Lisboa (Portugal)

Design Gráfico das capas: Graça Castanheira

Nota do editor: Não foi possível, relativamente a algumas das imagens de capa desta colecção, identificar os detentores de direitos das mesmas. Quanto a outras imagens, embora identificado o detentor dos direitos, não foi obtida resposta à solicitação de

autorização para a publicação feita pelo PÚBLICO. Assim sendo, para as duas

situações, o PÚBLICO assume perante quaisquer detentores legais dos direitos das

respectivas imagens, os direitos devidos pela publicação das mesmas nestes livros, de

acordo com a prática corrente da editora para autores nacionais.

Impressão: Impresso na UE

Data de impressão Fevereiro de 2006

ISBN 8498195349 ISBN colecção 8498194784 Depósito Legal Ml 1662006

PÚBLICO COMUNICAÇÃO SOCIAL, S.A.

Rua João de Barros 265

4150414 Porto

Este livro é vendido exclusivamente com o jornal PÚBLICO. Todos os direitos reservados.

CALEB

CARR


O Alienista

Tradução de Lucinda Maria dos Santos Silva

ROMANCES HISTÓRICOS







Este livro é dedicado a

ELLEN BLAIN, MEGHANN HALDEMAN,

ETHAN RANDALL, JACK EVANS

E EUGENE BYRD



«Os que vierem a ser jovens enquanto velhos, têm de ser velhos enquanto jovens.

JOHN RAY, 1670


NOTA

Até ao século XX, as pessoas que sofriam de doenças mentais eram tidas como alienadas não só do resto da sociedade mas também das suas verdadeiras naturezas. Os peritos que estudavam as patologias mentais eram, por conseguinte, conhecidos por



alienistas.






Embora uma parte daquilo que apreendemos venha através do que os nossos sentidos nos transmitem acerca do objecto diante de nós, outra parte (que é capaz de ser a maior) provém sempre da nossa própria mente.

William James Princípios de Psicologia

De que nascem,

estes malditos pensamentos?

Piave,

Macbeth de Verdi







CAPITULO UM

8 de Janeiro de 1919

Theodore está debaixo da terra.

Ao escrevê-las, estas palavras fazem tão pouco sentido como a imagem da sua urna a ser descida para uma cova de solo arenoso nas imediações de Sagamore Hill, o local que ele mais adorava na Terra. Quando lá estava esta tarde, ao vento frio que soprava dos lados de Long Island Sound, pensei para comigo mesmo: «Claro que é uma brincadeira. Claro que ele vai levantar a tampa, ofuscar-nos a todos com aquele sorriso tolo e romper-nos os tímpanos com uma estridente gargalhada. Depois gritará que há trabalho para fazer — "Mãos à obra!" — e vamos ser todos recrutados para a missão de proteger alguma espécie desconhecida de tritão das garras de um gigantesco predador industrial apostado em construir uma fábrica pestilenta no território do pequeno réptil. Não estava sozinho nessas fantasias; toda a gente, no funeral, esperava algo desse tipo, bem se via nas caras deles. Todos os comunicados indicam que a quase totalidade do país e grande parte do mundo se sente dessa maneira. A ideia de que Theodore Roosevelt morreu é isso mesmo — inaceitável.

Com efeito, vinha a definhar há muito mais tempo do que qualquer um de nós queria admitir, particularmente desde a morte do filho, Quentin, nos últimos dias da Grande Carnificina. Cecil opring-Rice arengou um dia, no seu melhor misto britânico de aíecto e acinte, que Roosevelt vivera toda a sua vida com cerca de seis anos; e Herm Hagedorn afirmou que, depois de Quentin ser abatido durante um voo no Verão de 1918, a criança que havia



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dentro de Theodore morrera. Esta noite jantei com Laszlo Kreizler no Delmonico's e referi-lhe o comentário de Hagedorn. Os dois pratos seguintes da minha refeição foram acompanhados por uma longa e tipicamente acalorada explicação dos motivos pelos quais a morte de Quentin fora, para Theodore, mais do que um profundo desgosto: sentira também um profundo remorso, remorso por ter instigado a sua filosofia de uma vida estréma em todos os seus filhos, a ponto de eles muitas vezes se colocarem deliberadamente em situações de risco sabendo que isso encantaria o seu adorado pai. A mágoa era, para Theodore, quase insuportável, isso eu soubera sempre; quando tinha de confrontar-se com a morte de um ente querido parecia incapaz de tal provação. Mas só esta noite, ao ouvir Kreizler, percebi até que ponto a incerteza moral era também insuportável para o vigésimo-sexto presidente, que por vezes parecia considerar-se a Justiça personificada.

Laszlo Kreizler... Não quis assistir ao funeral, embora Edith Roosevelt tivesse gostado de que ele o fizesse. Ela sempre foi uma verdadeira defensora do homem a quem chama o enigma, o médico brilhante cujos estudos da mente humana tão profundamente incomodaram tanta gente ao longo dos últimos quarenta anos. Kreizler escreveu um bilhete a Edith explicando que não lhe agradava a ideia de um mundo sem Theodore e que, estando agora com sessenta e quatro anos e tendo passado a sua vida a encarar as feias realidades, julgava poder dar-se ao luxo de ignorar o facto do falecimento do amigo. Edith disse-me hoje que a leitura do bilhete de Kreizler a fizera chorar de comoção, pois constatou que os transbordantes afecto e dinamismo de Theodore haviam sido suficientemente fortes para sensibilizarem um homem cujo distanciamento de grande parte da sociedade humana parecia, a quase todos, intransponível.

Alguns dos rapazes do Times queriam que eu fosse hoje à noite a um jantar evocativo, mas um serão tranquilo com Kreizler pareceu-me o mais indicado. Não foi por nostalgia de uma infância partilhada em Nova Iorque que erguemos as nossas taças, pois Laszlo e Theodore só se conheceram em Harvard. Não, Kreizler e eu estávamos a pensar na Primavera de 1896 — há quase um quarto



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de século! — e numa série de acontecimentos que ainda parece estranho terem ocorrido, mesmo nesta cidade. No fim da sobremesa e do Madeira (e que comovente foi fazer um jantar evocativo no Delmonico's, no velho Deis, agora à beira da reforma como todos nós mas, na época, cenário buliçoso de algumas das nossas reuniões importantes), já nos ríamos e abanávamos a cabeça, até hoje admirados por termos escapado com vida a esse ordálio; e ainda entristecidos, como pude ver no rosto de Kreizler e sentir no meu próprio peito, pela recordação daqueles que o não haviam logrado.

Não se pode descrevê-lo de forma simples. Podia dizer que, em retrospectiva, foi como se as vidas de nós três, e as de muitos outros, se encaminhassem inevitável e fatidicamente para essa única experiência; mas com isso estaria a trazer a lume o determinismo psicológico e a questionar o livre arbítrio humano — reabrindo, por outras palavras, a charada filosófica que se enreda irreprimivelmente por todo o hediondo processo como único som trauteante de uma ópera difícil. Ou podia dizer que no decurso desses meses, Roosevelt, Kreizler e eu, ajudados por algumas das melhores pessoas que conheci, seguimos o rasto de um monstro assassino e acabámos por deparar com uma criança assustada. Não, há apenas uma maneira de o fazer, ou seja, contar a história toda, regressando àquela primeira noite macabra e àquele primeiro corpo retalhado; recuando, com efeito, ainda mais, aos nossos tempos de Harvard com o Professor James. Sim, desenterrar tudo e finalmente torná-lo público — é o melhor.

A opinião pública talvez não goste; tem sido, aliás, o receio da opinião pública que nos tem levado, durante tantos anos, a guardar o nosso segredo. Mesmo a maioria dos elogios fúnebres de Theodore omitiram tal evento. Ao enumerarem os seus feitos enquanto presidente do Conselho de Comissários da Polícia de Nova Iorque de 1895 a 1897, apenas o Herald— que hoje em dia quase ninguém lê — acrescentou constrangidamente: «e, claro, a solução dos hediondos crimes de 1896 que tanto apavoraram a cidade. Contudo, Theodore nunca reclamou as honras dessa solução. E certo que teve a perspicácia, não obstante as suas próprias reticencias, de depositar a investigação nas mãos de um homem que



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podia solucionar o quebra-cabeças. Mas na intimidade sempre reconheceu que esse homem era Kreizler.

Dificilmente o poderia ter feito às claras. Theodore sabia que o povo americano não estava disposto a acreditar nele, nem sequer a ouvir os pormenores da asserção. Será que agora já está? Kreizler duvida. Disse-lhe que tencionava escrever a história e ele brindou-me com uma das suas risadinhas sardónicas, comentando que isso só iria assustar e afugentar as pessoas, nada mais. O país, afirmou esta noite, não se alterou assim tanto desde 1896, apesar de todos os esforços de pessoas como Theodore, Jake Riis e Lincoln Steffens, e de muitos outros homens e mulheres da sua estirpe. Continuamos a fugir, segundo Kreizler — nos nossos momentos íntimos, nós, os Americanos, continuamos a fugir com a mesma velocidade e temor que na altura, a fugir das trevas que sabemos ocultarem-se por detrás de muitas pseudotranquilas portas de casas, dos pesadelos que continuam a ser injectados nas mentes das crianças por pessoas a quem diz a Natureza que deviam amar e confiar, a recorrer ainda mais depressa e em maior número a essas poções, pós, padres e filosofias que prometem obliterar tais medos e pesadelos pedindo em troca apenas uma submissa devoção. Será mesmo verdade o que ele diz..?

Continuo com dúvidas. Comecemos, pois!

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CAPÍTULO DOIS

Um bater sacrílego na porta da casa da minha avó, no número dezanove da Washington Square North, fez sair primeiro a criada e depois a própria velhota dos seus quartos, às duas da manhã de 3 de Março de 1896. Deixei-me ficar na cama, naquele estado já não ébrio mas ainda não totalmente sóbrio que por regra é amenizado pelo sono, ciente de que quem quer que estivesse a bater devia ter assuntos a tratar comigo e não com a minha avó. Enterrei a cara nos travesseiros com fronhas de linho esperando que ele desistisse e se fosse embora.Mistress Moore! — ouvi a criada chamar. — Que grande barulheira... devo abrir Não? — respondeu a minha avó na sua voz bem timbrada, austera. — Acorde o meu neto, Harriet. De certeza que se esqueceu de alguma dívida de jogo!

Ouvi então passos a dirigirem-se para o meu quarto e achei melhor preparar-me. Desde o rompimento do meu noivado com Miss Júlia Pratt, de Washington, há uns dois anos, que eu vivia com a minha avó e durante esse período a velhota mostrara-se cada vez mais céptica quanto à forma como eu aproveitava os tempos livres. Explicara lhe várias vezes que, como repórter policial do New York Times, era obrigado a frequentar muitas das zonas e casas mais sórdidas da cidade e a conviver com pessoas menos recomendáveis; mas ela lembrava-se bem de mais da mmha juventude para aceitar uma desculpa tão obviamente rebuscada. A minha conduta, ao voltar para casa numa noite normal, reforçava por regra a sua desconfiança de que era um estado de espírito e não o dever profissional que me atraía todas

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as noites para os cabarés e mesas de jogo do bairro do vício; concluí, tendo ouvido o comentário que ela acabara de fazer a Harriet sobre o jogo, que era então crucial projectar uma imagem de homem sóbrio com sérias preocupações. Enfiei um roupão preto chinês, acachapei o cabelo curto e abri vigorosamente a porta no exacto instante em que Harriet lá chegou.Ah, Harriet — disse, calmamente, com uma mão enfiada no roupão. — Não há motivo para alarme. Estava a rever uns apontamentos para uma reportagem e descobri que precisava de algumas notas do escritório. De certeza que é o estafeta que as vem trazer.John! — estrondeou a minha avó, enquanto Harriet abanava aturdidamente a cabeça. — És tu?Não, avó — respondi, calcando a espessa carpete persa da escadaria. — É o doutor Holmes. — O Dr. H. H. Holmes era um assassino indescritivelmente sádico e vigarista que nessa altura aguardava enforcamento em Filadélfia. A possibilidade de ele conseguir fugir antes do encontro com o carrasco e viajar para Nova Iorque para assassinar a minha avó era, por qualquer razão inexplicável, o seu maior pesadelo. Cheguei à porta do quarto dela e dei-lhe um beijo na face que ela aceitou sem um sorriso, embora lhe tenha agradado.Não sejas insolente, John. É o teu pior defeito. E não julgues que as tuas meiguices me deixam menos irritada. — As batidas na porta recomeçaram, seguidas de uma voz jovem a chamar por mim. O sobrolho da minha avó ainda se franziu mais. — Quem diacho será e que diacho quer?Deve ser um estafeta do escritório — repliquei, mantendo a mentira, mas eu próprio intrigado com a identidade do rapaz qui com tal fúria batia na porta da frente.Do escritório? — retorquiu a minha avó sem acreditar minimamente em tal hipótese. — Então está bem, abre lá.

Dirigi-me rápido mas cautelosamente para o fundo da escadaria onde me dei conta de que, na verdade, conhecia a voz que mi chamava, embora não conseguisse identificá-la com exactidão. e senti-me tranquilizado pelo facto de se tratar de uma voz jovem.

um dos ladrões e assassinos mais cruéis que eu conhecera na Nova Iorque de 1896 não passavam de adolescentes.

Mister Moore! — tornou a suplicar o jovem, acrescentando

alguns pontapés vigorosos às suas batidas. — Tenho de falar com Mister John Schuyler Moore!

Estaquei no vestíbulo de mármore preto e branco.

Quem é? — perguntei com uma mão na maçaneta.

Sou eu! O Stevie!

Soltei um ligeiro suspiro de alívio e destranquei o pesado portal de madeira. Lá fora, especado sob a luz fraca de um candeeiro a gás suspenso do tecto — o único da casa que a minha avó se recusara a substituir por uma lâmpada eléctrica — estava Stevie Taggert, o «Stevepipe, como era conhecido. Nos primeiros onze anos da sua vida, Stevie conseguira tornar-se hóspede habitual de quinze esquadras da Polícia, mas depois fora regenerado pelo eminente médico e alienista, o meu bom amigo Dr. Laszlo Kreizler, do qual era agora cocheiro e moço de recados. Stevie encostara-se a uma das colunas brancas do lado de fora da casa e tentava controlar a respiração — percebia-se que algo aterrorizara o moço.Stevie! — exclamei, vendo que ele tinha a longa melena de cabelo castanho liso ensopada em suor. — Que aconteceu? — Olhando para trás dele, vi a pequena caleça canadiana de Kreizler puxada por um capão negro chamado Frederick. O animal estava, como Stevie, banhado em suor, que fumegava ao ar da madrugada de Março. — O doutor Kreizler veio contigo?O doutor diz para o senhor vir comigo! — respondeu Stevie de ma assentada, recuperado o fôlego. — Imediatamente!Mas aonde? São duas da manhã...Imediatamente!

Ele não estava, era óbvio, em condições de explicar; por isso, disse lhe para esperar enquanto eu me vestia. Enquanto o fazia, a minha avó gritou-me através da porta do quarto que fosse o que fosse em que esse esquisito Dr. Kreizler e eu nos íamos meter às duas da manhã, não seria, tinha ela a certeza, coisa decente. Ignorando-a o melhor que podia, tornei a sair de casa, aconchegando-me no meu casaco de tweed quando saltei para dentro da carruagem.




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Nem sequer tivera tempo de me sentar e já Stevie fustigava o cavalo. Crissler,jostificou a tomar conta do garoto e a responsabilizar-se pela sua

Vida e de Frederick com um comprido chicote. Projectado contra o couro e conduta futura. Na altura achei que Laszlo estava maluco de todo, mas

Do grená do assento, apeteceu-me ralhar com o rapaz, mas fiquei de verdade foi que no espaço de um ano Stevie se transformou num rapaz

com a expressão de medo no rosto dele.jovem muito diferente. E, como quase todos os que trabalhavam para

o isco.Agarrei-me com força quando a carruagem derrapou num ritmo Tzlo. o rapaz era dedicado ao patrão, apesar daquela estranha faceta.

um tudo-nada assustador nas calçadas da Washington Square. distanciamento emocional que fazia de Kreizler um homem tão especial.

abanos e estremeções abrandaram apenas ao de leve quando virámos misterioso para muitos dos que o conheciam.

para as compridas e amplas lajes do pavimento russo da Broadway. Stevie — gritei por causa da chinfrineira que as rodas da caleche

faziam.Dirigíamo-nos para a baixa, para a baixa e para leste, para o bairro, acarruagem fazia estremecer-me ao bater nos bordos gastos das lajes de granito

de Manhattan onde Laszlo Kreizler exercia o seu ofício e a vida. — onde está o doutor Kreizler? Ele está bem?

tornava, quanto mais nos embrenhávamos na zona, ainda mais — No Instituto! — respondeu Stevie com os olhos azuis


miserável e mais sórdida: o Lower East Side.

Por momentos, cheguei a pensar que tivesse acontecido alguma. O trabalho de Laszlo centrava-se no Instituto Pediátrico.

Aconteceu alguma coisa a Laszlo. O que sem dúvida justificaria a forma imprudente como fustigara o animal, para o centro. um misto de escola e centro de pesquisa que ele fundara na altura.
Stevie chicoteava e conduzia Frederick, um animal que, sabia eu, ele Preparava-me para lhe perguntar o que estava lá a fazer àquelas

pessoas que costumava tratar com toda a delicadeza. Kreizler foi o primeiro ser mas engoli a pergunta quando atravessámos o ainda

que conseguiu obter de Stevie mais do que uma dentada ou movimentado cruzamento da Broadway com a Houston. Ali, como

um murro e era, sem dúvida, o único motivo pelo qual o rapazola ainda sabiamente um dia alguém afirmou, podia-se disparar uma caçadeira

não fora parar àquela instituição de Randalls Island eufemisticamente em qualquer direcção sem atingir um único indivíduo honesto.


— Então também vamos para o Instituto? — berrei.

Mas Stevie limitou-se a puxar as rédeas com brusquidão, obrigando o cavalo a descrever uma curva apertada para a esquerda na Spring, onde atrapalhámos o negócio à porta de dois ou três cabarés, casas de passe onde prostitutas disfarçadas de dançarinas marcavam encontros para mais tarde em hotéis baratos com os desgraçados dos tansos que eram, por regra, de fora da cidade. Da Spring, Stevie seguiu para a Delancey — em vias de ser alargada para acolher o esperado afluxo da nova Williamsburg Bridge, cuja construção se iniciara havia pouco tempo — e depois passámos rapidamente por vários teatros às escuras. Ecoando de cada uma das transversais, eu conseguia ouvir os sons desesperados, dementes das tascas, baiucas nojentas que vendiam zurrapas baptizadas com tudo e mais alguma coisa, desde benzina a cânfora, a um níquel o copo em cima de uma tábua suja que servia de balcão. Stevie não olhou.




onhecida por Casa de Refúgio de Rapazes. Para além de ser, como à Polícia afirmara, ladrão, carteirista, bebedolas, viciado em nicotina! isco — membro de um grupo de jogadores que atrai os papalvos para a casa de jogo — e uma ameaça congenitamente destruidora, apenas com dez anos agredira e desfigurara gravemente um dos guardas di Randalls Island que, segundo ele, tentara atacá-lo. («Atacar linguagem jornalística de há um quarto de século, significava invariavelmente violar.) Como o guarda tinha mulher e filhos, honestidade do garoto e, eventualmente, a sua sanidade mental haviam sido questionadas — altura em que Kreizler, um dos mais reputados especialistas da época em psiquiatria forense, entrou em cena. na audiência para avaliação da sanidade mental de Stevie, Kreizler pintou um retrato magistral da vida de rua do garoto desde os três anos de idade, quando fora abandonado pela mãe, que preferira o vício do ópio aos cuidados maternos. O juiz ficou impressionado com o discurso. Ia-mos ao que


parecia mesmo para a


Kreizler e mostrou-se céptico quanto ao testemunho do guarda abfandou — dirig


extremidade da ilha.


agredido; mas só concordou em libertar Stevie quando Kreizler si

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Fiz uma última tentativa de comunicação:

— Não vamos para o Instituto?

Stevie abanou a cabeça em resposta, depois fez estalar de novo o comprido chicote. Encolhi os ombros, recostando-me para me agarrar aos lados da carruagem e interroguei-me sobre o que teria assustado assim tanto o rapaz.

Na Delancey passámos pelas bancas fechadas dos vendedores de fruta e roupa até desembocarmos na pior zona do Lower East Side, o bairro ribeirinho mesmo por cima de Corlears Hook. Um mar imenso, desolador, de pequenas barracas e prédios novos de construção fraca estendia-se de ambos os lados. O local era uma amálgama de diferentes culturas e línguas imigrantes, predominando os irlandeses a norte da Delancey e os húngaros ainda mais a norte, junto à Houston. Aqui e ali avistava-se uma igreja com uma designação qualquer por entre as filas e mais filas de casas decrépitas que mesmo naquela fria madrugada exibiam estendais cheios. Algumas das peças de roupa de vestir e de cama estavam quase tesas de tão geladas, hirtamente retorcidas pelo vento em bizarras posições; mas, na verdade, nada havia naquele lugar a que pudesse chamar-se verdadeiramente bizarro. Estávamos num bairro que pouco sabia de leis, feitas pelo homem ou não, um bairro que só dava alegria a visitantes e moradores quando lhes era permitido vê-lo desaparecer ao longe depois de se porem a andar de lá para fora.

Já no fim da Delancey, os cheiros a mar e água fresca, juntamente com o pivete dos dejectos simplesmente despejado todos os dias na orla de Manhattan, combinavam-se para produzirem o característico aroma dessa poça de água a que chamamos rio East. Em breve se ergueu diante de nós uma grande construção inclinada: a rampa de acesso à nascente Williamsburg Bridge. Sem parar, e para grande desilusão minha, Stevie enfiou pelo tablado, com os cascos do cavalo e as rodas da carruagem a chocalharem muito mais ruidosamente na madeira do que na pedra.

Um complexo labirinto de pilares metálicos sob a rampa içou-nos vários metros no ar da noite. Interrogando-me sobre qual seria o nosso destino — pois as torres da ponte estavam tudo menos prontas.

A inauguração da obra a anos de distância —, comecei a vislumbrar o que me pareceram ser as paredes de um grande templo chinês ornando de repente ao longe. Composta por enormes blocos de granito e culminada por duas torres de vigia baixas, cada uma delas rodeada por um frágil passadiço metálico, a estranha edificação era a ancoragem do lado de Manhattan, estrutura que fixaria um conjunto de pontas dos enormes cabos de aço suspensos que iriam suportar o vão central. Mas, de certa forma, a ideia que me dava de um templo chinês não era assim tão despropositada: tal como a Brooklyn Bridge, cujos arcos góticos eu conseguia ver para sul em silhueta contra o céu nocturno, esta nova via sobre o rio East era um local onde muitas vidas humanas haviam sido sacrificadas à fé da engenharia, que nos últimos quinze anos produzira imponentes maravilhas por toda a Manhattan. O que eu não sabia era que o sacrifício de sangue que nessa noite fora feito no cimo da ancoragem ocidental da Williamsburg Bridge era de uma natureza muito diferente.

Junto da entrada para as torres de vigia, à luz fraca de algumas lâmpadas eléctricas e transportando lampiões portáteis, encontravam-se alguns patrulheiros cujas baixas patentes os identificavam como pertencendo à Décima-Terceira Esquadra (passáramos por lá, momentos antes, na Delancey). Com eles estava um sargento da Décima Quinta, facto que me pareceu logo estranho — em dois anos de jornalismo policial para o Times, já para não falar de uma infância em Nova Iorque, eu ficara a saber que cada uma das esquadras da cidade defendia ciosamente o seu território. Para a Décima-Terceira ter mandado vir um homem da iJécima-Quinta era porque algo importante se passava.

Finalmente Stevie fez parar o capão ao pé de um grupo de

sobretudos azuis, depois saltou da boleia e segurou o ofegante cavalo

pelo freio, levando-o para a berma da rampa junto de uma pilha

enorme de material de construção. O rapaz mirou os agentes com a

abitual desconfiança. O sargento da Décima-Quinta Esquadra,

um olandês alto, cujo rosto macilento só dava nas vistas por não

ter o farfalhudo bigode tão comum na sua profissão, deu um



passo em frente e observou Stevie com um sorriso ameaçador.

olha o pequeno Stevie Taggert, não é? — perguntou com o




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seu sotaque acentuado. — Não estás a pensar que o comissário fez vir até tão longe para te dar um puxão de orelhas, pois nãoj Stevie, meu mariola?

Desci da carruagem e aproximei-me de Stevie, que lançou ao sargento um olhar carrancudo.

— Não ligues, Stevie — disse-lhe o mais solidariamente que
pude. — A estupidez condiz com o capacete de couro. — O rapaz,
fez um pequeno sorriso. — Mas não me importava nada que me
dissesses o que vim eu aqui fazer.

Stevie acenou com a cabeça na direcção da torre de vigia do lado norte.

— Lá em cima. O doutor diz para o senhor subir.
Encaminhei-me para a abertura no muro de granito mas Stevie

manteve-se junto do cavalo.

— Não vens?
O rapaz estremeceu e virou-se de costas, tirando do bolso u

cigarro amachucado.

— Já vi uma vez. E espero bem não tornar a ver.
Foi com crescente apreensão que me dirigi para a entrada, que

O acesso me foi vedado pelo braço do sargento da Polícia.

— E quem é você, a passear pela cidade com o jovem Stevepipt
estas horas da noite? Isto é um local de crime, sabia? — Disse-lhe
nome e a profissão, ao que ele reagiu com um sorriso mostrando um
enorme dente de ouro. — Ah, um cavalheiro da imprensa — e logo
do Times. Bom, Mister Moore, eu próprio acabo de chegar. Uma
chamada urgente, pelos vistos não havia mais nenhum homem em
quem confiassem. Saiba o senhor que o meu nome se escreve F-1-y-n-M
e não ponha lá que sou polícia de giro. Sou sargento! Venha daí que
subimos juntos. Porta-te bem, Stevie, ou mando-te outra vez para
Randalls Island enquanto o diabo esfrega um olho!

Stevie voltou-se para o cavalo:

— E se fosses ver se chove? — resmungou suficientemente ali
para o sargento ouvir.

Flynn virou-se para trás com um olhar furioso mas, lembrando-se da minha presença, conteve-se.

— Aquele é mesmo incorrigível, Mister Moore. Não percebo

que um homem como o senhor faz na companhia dele. Deve

pricisar dele como contacto com o submundo. Toca a subir e cuidado que aqui está escuro como breu!

E estava mesmo. As cegas e aos tropeções, lá subi um tosco lanço de escadas ao cimo do qual pude descortinar o vulto de outra cabeça de couro. Um polícia de giro da Décima-Terceira Esquadra virou-se quando chegámos e depois gritou para mais alguém:

É o Flynn, senhor comissário. Já chegou.

Da escada passámos para uma pequena divisão atulhada de cavaletes, pranchas de madeira, baldes de pregos e bocados de arame e fios. Janelas amplas davam uma panorâmica geral do horizonte em todas as direcções — a cidade aos nossos pés, o rio e as torres da ponte, parcialmente concluídas, à nossa frente. Uma porta dava acesso ao passadiço que envolvia a torre. Junto a ela, encontrava-se um sargento da Polícia pitosga e barbudo chamado Patrick Connor que reconheci das minhas visitas ao Comando Geral da Polícia na Mulberry. A seu lado, a olhar para o rio com as mãos apertadas atrás das costas e balouçando-se nos calcanhares, uma figura muito mais familiar: Theodore.

— Sargento Flynn — afirmou Roosevelt sem se voltar —, foi uma obra sinistra que nos levou a chamá-lo. Sinistra.

A minha inquietação aumentou subitamente quando Theodore se voltou de frente para nós. Não havia nada de invulgar na sua aparência: um fato aos quadrados, caro e um pouco ajanotado de mais, do género dos que ele gostava na altura; uns óculos que eram, tal como os olhos por detrás deles, demasiado pequenos para o rosto sério, quadrado; o farto bigode cerdoso sob o nariz largo. Mesmo assim, o semblante pareceu-me excessivamente estranho, enttão lembrei-me: os dentes. Os numerosos e afiados dentes — não se lhe viam. Tinha os maxilares cerrados numa expressão de raiva incontida, ou remorso. Alguma coisa o abalara profundamente.

o seu desalento pareceu aumentar quando me viu.

Moore?! Que diabo está você aqui a fazer? Igualmente prazer em vê-lo, Roosevelt — consegui replicar, aPesar do nervosismo, estendendo-lhe a mão.




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Apertou-a, embora, para variar, não me tenha desconjuntado o braço.Como... Oh, desculpe lá, Moore. É um prazer vê-lo, claro, um prazer. Mas quem é que lhe contou...?Contou o quê? Fui sequestrado e trazido para aqui pelo rapaz do Kreizler. Segundo ordens dele, sem uma única explicação.

Kreizler! — murmurou Theodore num tom de ligeira impaciência, olhando pela janela com uma expressão aturdida, receosa até, que não era nada típica nele. — Sim, o Kreizler? Quer dizer que já se foi embora?Antes de eu chegar. Deixou um bilhete. E um relatório. — Theodore mostrou uma folha de papel que tinha na mão. Preliminar, está-se a ver. Foi o primeiro médico que eles conseguiram arranjar. Embora já nada houvesse a fazer...

Agarrei-o pelo ombro:Roosevelt. Que se passa?Já agora, senhor comissário, eu próprio gostaria de saber acrescentou o sargento Flynn com tanto servilismo que até metia dó. — Nós pouco descanso temos na Décima-Quinta e eu mal tinha. . .

muito bem — retorquiu Theodore, enchendo-se de coragem. — Como estão os vossos estômagos, meus senhores?

Eu não disse nada e Flynn largou uma graçola qualquer sobre o vasto leque de imagens chocantes que já se lhe haviam deparado na sua vida; mas a expressão de Theodore manteve-se impávida. A ponte! para a porta de acesso à plataforma exterior. O sargento detectiví Connor chegou-se para o lado e Flynn dirigiu-se lá para fora.

O primeiro pensamento que tive ao sair, não obstante a minha apreensão, foi que a vista do passadiço era ainda mais deslumbrante! do que das janelas da torre. Na outra margem ficava Williamsbura em tempos uma tranquila cidadezinha de província mas agora tornar-se rapidamente numa zona movimentada da metrópole que se destinava, dentro de meses, a integrar oficialmente a região Grande Nova Iorque. Para sul, de novo a Brooklyn Bridge; longínquo sudoeste, as novas torres da Printing House Square e, por baixo de nós, as revoltas e negras águas do rio...

Foi então que o vi.

CAPÍTULO TRÊS

Estranho o tempo que a minha mente levou a interpretar a imagem. Ou talvez não; havia tanta coisa errada, tão deslocada, tão... distorcida. Como podia eu esperar captá-la rapidamente?

Sobre o passadiço estava o corpo de uma pessoa jovem. Digo



pessoa porque,

embora os atributos físicos fossem os de um

rapaz adolescente, as roupas (pouco mais do que uma camisa de dormir a que faltava uma manga) e a pintura facial eram de uma rapariga. Ou, melhor dizendo, de uma mulher e, já agora, de uma mulher de reputação duvidosa. Os pulsos da pobre criatura estavam atados atrás das costas e as pernas dobradas numa posição ajoelhada que lhe comprimia o rosto contra o aço do passadiço. Não havia sinais de cuecas ou sapatos, apenas uma peúga pendendo pateticamente de um dos pés. Mas o que tinha sido feito ao corpo...

O rosto não exibia marcas de espancamento nem nódoas negras — a pintura e o pó de arroz mantinham-se intactos — mas onde dantes houvera olhos havia agora apenas dois buracos ensanguentados, cavernosos. Um estranho bocado de carne saía-lhe da boca. Um grande rasgão atravessava-lhe a garganta, embora houvesse pouco sangue junto à abertura. Largos cortes entrecruzavam-se sobre o abdómen, pondo à mostra o conjunto dos órgãos internos. A mão direita fora decepada com precisão. No baixo ventre havia outra ferida aberta, ferida essa que explicava os órgãos genitais tinham sido cortados e metidos entre os axilares. Também as nádegas tinham sido retalhadas com que Pareciam ser grandes... só se lhes podia chamar golpes de cutelo.




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