Romances, Novelas, Folhetins



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Histórias, Memórias, Aventuras, Vidas...








Histórias, Memórias, Aventuras, Vidas...

As grandes cidades precisam de espetáculos, e os povos corrompidos, de romances.

(Jean-Jacques Rousseau)


  1. Livros, leitores, romances.

Acerca do romance e da sua repercussão, até hoje se buscam respostas que sejam satisfatórias para perguntas em torno do gênero que trouxe inovações ao discurso literário tradicional: a forma do romance diferiria dos clássicos gregos? onde e como teria surgido esta nova forma literária? São algumas das perguntas feitas por críticos dos séculos XIX e XX.

Contudo, a origem tanto quanto a propagação do gênero são irrelevantes para alguns estudiosos. O fato é que, indiferente à crítica, a forma romanesca se expandiu de maneira a satisfazer os anseios do público. Diante da importância que essa forma literária assumiu na vida dos leitores, da maneira como identificaram suas próprias fraquezas e alegrias com as dos personagens dos romances, discutir em qual nação teria nascido o gênero não é assunto de grande importância para alguns críticos, como Sade, que, ao defender o gênero, afirma serem irrelevantes seu tempo e lugar de origem:

Chamamos de romance a obra de ficção composta das mais singulares aventuras da vida dos homens. (...) Não é preciso, portanto, tentar procurar a origem desse gênero nesta ou naquela nação privilegiada.1


No entanto, no instante em que começa a surgir este novo gênero, que tinha como títulos "A história de...", "As memórias de...", "As aventuras de...", "A vida de..."2 e correspondia a toda essa variedade de publicações daqueles momentos iniciais, tinha como objetivo encontrar uma correspondência entre o texto literário e a realidade recriada, conforme aponta Sandra Vasconcelos:

(...) a variedade de publicações daqueles momentos iniciais (...) parecia pretender dar alguma verossimilhança aos relatos e torná-los mais aceitáveis pelo público leitor que colocava sob suspeita tudo o que contivesse um conteúdo ficcional.3


No espaço em que surgiu a prosa de ficção, diversas foram as reações da crítica e dos leitores. A crítica reproduzia o pensamento sobre a forma como os textos foram recebidos por uma camada de intelectuais e, identificava a leitura de romances como moralmente perigosa se comparada às leituras eruditas que ampliavam o conhecimento e aos textos religiosos que aperfeiçoavam o espírito. Márcia Abreu faz uma análise comparativa do que significava ler romances no século XVIII em relação à leitura de outros tipos de textos:

Embora fonte de inconvenientes físicos, há leituras que valem a pena, enquanto outras são unicamente perniciosas. Dentre essas, muitos incluem a leitura dos romances, tida como perigosa pois faz com que se perca tempo precioso, corrompe o gosto e apresenta situações moralmente condenáveis. A leitura de romances traz à baila discussões de natureza ética, religiosa e intelectual, tanto mais acaloradas quanto mais se percebe a disseminação do gênero e sua influência sobre os leitores.

(...) Enquanto a leitura das belas letras tem por objetivo formar um estilo e ampliar a erudição e as leituras religiosas visam aprimorar o espírito e indicar o caminho da virtude e da salvação, a leitura dos romances parece sem finalidade.4

Esse conceito em torno da leitura provinha das idéias pautadas por alguns eruditos que tinham como modelo para a excelência dos textos o padrão clássico, ou ainda os textos religiosos que serviam como parâmetro para avaliar a boa leitura. As leituras consideradas “benéficas”, ou que faziam parte do seleto grupo das “belas letras”, tinham como objetivo não só instruir, mas edificar o espírito. Tais considerações derivam de um conceito de literatura no qual se incluem as belas letras:

Assim, a leitura prescrita centrava-se nos textos clássicos e naqueles escritos sob sua inspiração, bem como nos tratados de arte poética e retórica, que teorizavam a produção e regulavam a recepção. O modelo de leitura funda-se no reconhecimento e não na descoberta de algo novo e individual. Leitura é, fundamentalmente, comparação e julgamento.5
Sabe-se que o romance tornou-se popular inicialmente na Inglaterra, através das obras de Defoe, Richardson, Fielding e Sterne e, posteriormente com Charles Dickens, as irmãs Brontë (Charlotte, Emily e Anne Brontë) e outros novelistas como Mary Elizabeth Braddon, George Gissing e Thomas Hardy, dentre tantos. Na França, o romance também ganha representatividade desde o século XVIII, quando já era um gênero de sucesso com a repercussão das obras de Prévost, Sage e Saint Pierre. Nos anos 30 do século XIX, o gênero se distingue com os romancistas Balzac, Paul de Kock, Eugenie Sue e, a partir dos anos 40, com Flaubert que alcança sucesso com a novela Novembro (1842), o romance histórico Salambô (1862) e o polêmico Madame Bovary (1857). 6

Nesse momento do aparecimento do romance e do seu reconhecimento, o conceito da leitura de romances como algo maléfico esteve presente no imaginário de grande parte das famílias que queriam conduzir as leituras das filhas. A idéia de que a leitura de romances poderia provocar danos à alma humana também era corrente no Brasil. Nos anos oitocentos os romances eram tratados como “leitura perigosa”, pois podiam depreciar a moral, ou ainda como leitura pouco instrutiva.7 Esse tipo de leitura não fazia parte da biblioteca dos homens sábios e era alvo da crítica. Tal observação pode ser comprovada no prefácio que Alencar escreveu ao seu romance Sonhos d’ Ouro, intitulado “A Bênção Paterna”, no qual descreve a situação do romance enquanto gênero e do romancista enquanto profissional das letras:

Ainda romance! Com alguma exclamação, nesse teor, hás de ser natural­mente acolhido, pobre livrinho, desde já te previno.

Não faltará quem te acuse de filho de certa musa industrial, que nesse dizer tão novo, por aí anda a fabricar romances e dramas aos feixes. Musa industrial no Brasil! Se já houve deidade mitológica, é sem dúvida essa de que tive primeira notícia, lendo um artigo bibliográfico. Não consta que alguém já vivesse nesta abençoada terra do produto de obras literárias. E nosso atraso provém disso mesmo, e não daquilo que se vai desacreditando de antemão. Quando as letras forem entre nós uma profissão, talentos que hoje apenas aí buscam passatempo ao espírito convergirão para tão nobre esfera suas poderosas faculdades (...) Ingrato país que é este. Ao homem laborioso, que sobrepujando as contrariedades e dissabores, esforça por abrir caminho ao futuro, ou o abalem pela indiferença mal encetou a jornada, ou se ele alcançou, não a meia, mas um pouso adiantado, o apelidando-lhe a musa de industrial! Dá-te advertido, pois, livrinho; e, se não queres incor­rer na pecha passando por um produto de fábrica, já sabes o meio. É não caíres no goto da pouca gente que lê, e deixares-te ficar bem sossegado, gravemente envolto em uma crosta de pó, à espera do dente da traça ou da mão do taberneiro que te há de transformar em cartucho para embrulhar cominhos. Também encontrarás algum crítico moralista que te receba de sobrolho franzido, somente ao ver-te tio rosto o dístico fatal! Se já anunciaram às tubas que o romance desacredita quem o escreve! De minha parte perguntarás ao ilustrado crítico em quais rodas, ou círculos, como ele as chamou portuguesmente, se não consente que penetre o romance. Tenho muito empenho em saber disso para fugir o mais longe que possa dessa latitude social. Deve de haver aí tal bafio de mofo, que pode sufocar o espírito não atreito à pieguice.8


O romance como leitura desprovida de maiores aprofundamentos foi descrito pelo escritor Machado de Assis no Diário do Rio de Janeiro, em 1862:

Pode-se dizer que nosso movimento literário é dos mais insignificantes possíveis. Poucos livros se publicam e ainda menos se lêem. Aprecia-se muito a leitura superficial e palhenta, do mal travado romance, mas não passa daí o pecúlio literário do povo.9

De fato Machado só iria publicar seu primeiro romance, Ressurreição (1872) dez anos depois do que havia escrito no Diário do Rio de Janeiro. E, depois se consagraria como um dos grandes romancistas do século.

AAAcerca da prevenção contra a leitura de romances ou novelas, o Padre Lopes Gama é severo e, em um artigo escrito em 6 de maio de 1843, para o jornal O Carapuceiro, assevera:

Se alguma ingerência tivesse nos colégios estabelecidos em Pernambuco, eu recomendaria às Sras. Diretoras, não consentissem às suas educandas a perniciosa leitura de novelas, porque para dizer de uma vez tudo a quem bem me entende, nenhuma necessidade há de ensinar ao gato o caminho da despensa. Não faltará quem já me estranhe o muito que embirro com as tais novelas; mas não sou eu só, todos os moralistas as reprovam e entendem que são prejudiciais, mormente ao belo sexo no verdor dos anos.10

Para ratificar suas idéias, o Pe. Lopes Gama cita a Sra. Campan, em cuja obra sobre a educação de meninas se expressa o mesmo tom contrário à leitura de novelas destinadas às moças, comungando das idéias do padre:

Estas obras têm o perigo de abalar o coração e o espírito por sentimentos nascidos do poder do amor, por inclinações contrariadas e por sucessos imaginários que o talento do autor envolve de uma verossimilhança enganosa. (...) Tão sedutora pintura fere a imaginação de uma menina, e desde logo ela entra a procurar no mundo a quimérica imagem dos heróis cujas aventuras tem lido e se (o que muitas vezes acontece) o marido que lhes fora destinado não lhe oferece semelhanças com essa imagem querida, também muitas vezes acontece que a moça casada tem a desgraça de a procurar ainda.11
De acordo com o Pe. Lopes Gama a leitura para edificar o espírito da moça deveria ser instrutiva e conter princípios morais. À mãe, muitas vezes, cabia a tarefa de mediar as leituras das filhas. Parte da história que narra o contato das leitoras com os livros está registrada nas memórias da escritora baiana Anna Ribeiro:

Já compreendia tudo o que lia, e minha mãe só se preocupava em evitar leituras contrárias aos princípios de moral que não cessava de incutir-me.12


As várias tentativas de disseminar a idéia de que a leitura de romances ou novelas seria prejudicial ou nociva à educação feminina encontra espaço também nas próprias páginas da ficção oitocentista. De acordo com Ubiratan Machado, alguns escritores de romances precaviam as mulheres quanto aos perigos da leitura de romances; dentre eles está Bernardo Guimarães, que adverte sobre a ameaça fornecida pela emoção da leitura:

O amor ideal, alimentado pela leitura de romances e poesias, que sem escolha e sem critério lhe eram fornecidos com todas as suas exaltações febris e romanescas aberrações escaldava-lhe a imaginação já de si mesma viva e apaixonada.13


Em contrapartida, também aparecem nas páginas de ficção outros tipos de considerações sobre o romance, sejam para se referir a ele como simples instrumento de diversão, seja para enobrecê-lo através de alguma qualidade:

Quais são os romances preferidos? São os de complicado enredo, os magnificentes, os emaranhados que não passam de ampliações de contos de fadas para crianças grandes. Não há ainda o critério estético; não sei se posso dizer assim. O leitor não se preocupa com a substância nem com a forma; a inverossimilhança é o seu ideal, quanto mais irreal melhor. Dê o senhor a um homem um bom estudo de caracteres e uma fábula bem lantejoulada que ele não hesitará um momento. Se os senhores quisessem tentar o gênero Ponson, isso sim... mas psicologias... hum! (...) Agora, eu te digo: também não vou muito com as tais psicologias. A ciência tem o seu lugar no real; o romance faz-se de sonhos e, até para o equilíbrio intelectual, acha necessária a discriminação — a cada um o que lhe cabe: ao sábio, a investigação; ao poeta, a fantasia. Cada macaco no seu galho. Eu, por exemplo, depois de um livro científico gosto de repousar em uma página de Dumas ou de Mery, como depois de umas horas de trabalho no meu gabinete, sinto-me bem no meu jardim, olhando as flores, ao

fresco da tarde. É um alívio. Não posso com as tais psicologias, são quase sempre falsas — os autores não estudam caracteres, fazem-nos para as situações que imaginam. 14
Nesta citação do romance A Conquista, de Coelho Neto, o narrador comenta que cada leitor deve procurar a leitura pela qual se sinta atraído independente de valorizar mais um ou outro tipo de leitura. A prosa de ficção oitocentista encontra defesa e valorização nas páginas da crítica, conforme palavras do Cônego Fernandes Pinheiro:

O romance é d’origem moderna; veio substituir as novelas e as histórias, que tanto deleitavam a nossos pais. É uma leitura agradável e diríamos quase um alimento de fácil digestão proporcionado a estômagos fracos. Por seu intermédio pode-se moralizar e instruir o povo fazendo-lhe chegar o conhecimento de algumas verdades metafísicas, que aliás escapariam à sua compreensão. Se o teatro foi justamente chamado a escola dos costumes, o romance é a moral em ação.15


Durante a fase inicial, o romance foi associado, como vimos, a uma leitura frívola e como entretenimento de pessoas desocupadas. Neste sentido alguns romances aparecem com a função de diversão, e, no prefácio, o autor orienta à leitura:

Para entreter huns dias de plena ociosidade, escrevi este romance fundado em actos verdadeiros da história da descoberta e uso do café, que tão interesante se tornou para a nossa patria. Pareceo-me o assumpto util e agradavel, ainda que desviado da estrada ordinaria dos romances (a e omicos), para quem são as intrigas de amar o ente ao ponto de suas vibrações: respeitando contudo este gosto e opinião commum desenvolvida sempre n’essa especie de composições.16


***
Estes folhetins têm o grande mérito de se fazerem esquecer depressa no borboletear prodigioso da imprensa diária; sem deixarem sequer na passagem o traço do aerólito, ou a espuma da vaga que se desfaz com a brisa!

(...) Os tipos de que lancei mão para esses ligeiríssimos contos são grotescos e ridículos; meio único de divertir o leitor que não gosta de obituários e prefere o riso franco, rápido, efêmero, como o folhetim que lho arrancar dos lábios, à cruel e sen­saborona tristeza, que é afinal de contas partilha de todos nós, os lidos e os leitores da terra!”

(...) O folhetim entra hoje de cabeça alta por toda a parte; é uma espécie de viveur que tem medo de duelos e provoca-os a todo momento, brinca, passeia, conversa e tira pares infatigavelmente para a contradança da alegria universal!17

Neste momento em que o gênero ainda não estava estabelecido, cabia aos escritores defendê-lo e tentar enobrecê-lo. O espaço dos prefácios funciona como um diálogo que o escritor estabelece com a crítica e com o público a fim de definir o novo gênero literário.

As questões levantadas nos prefácios que pretendem definir e enobrecer o gênero merecem atenção porque elas apontam o caminho pelo qual foi constituído o gênero romanesco. As estratégias de associar o romance a este ou àquele fato eram as armas de que os escritores dispunham para conquistar seus espaços.

Entretanto, a crítica brasileira demorou a reconhecer como válidos e significantes os romances publicados por nossos romancistas. Repetiam discursos em que elegiam os europeus e colocavam em desvantagem as produções nacionais. Dentre muitas das críticas publicadas em jornais do século XIX, cito duas de Manuel Antônio de Almeida, que exemplificam o enaltecimento dos escritores europeus:

São poucos os que escrevendo a história atingem ao ponto desejado; porque é mister ter a vista muito larga para abranger o horizonte imenso da humanidade e copiar as sombras que este ou aquele povo desenhou em sua passagem por essa extensão.

São poucos, porém alguns realizam em toda a sua grandeza a missão da história. Entre esses, faço grande violência ao meu entusiasmo para dar apenas a Lamartine um lugar dos mais distintos: eu queria dar-lhe o primeiro.18


***
Eis-me aqui um livro sobre o qual posso escrever sem o mais leve escrúpulo.

Não se trata de um nome novo, nem de uma reputação indecisa. (...) É tempo, mesmo para que se esteja a salvo daquilo que chamam ficções da escola romântica, de tomar as idéias como elas são representadas, de tomar as palavras no seu sentido próprio. Há muito que os prólogos dos livros são tidos na conta de uma página mentirosa que se escreve para engrossar o volume. (...) O talento de Bocage foi um fenômeno intelectual que raras vezes se repete; e a escola que arremeda, pensando que o copia, não se pode autorizar com aquela exceção.19


As publicações brasileiras não eram vistas com bons olhos pelos críticos, lamento constante nas linhas de José de Alencar, cuja obra Iracema (1867) foi alvo de severas críticas:

Não, esse não é o defeito que me parece dever notar-se na Iracema; o defeito que eu vejo em todos os livros brasileiros e contra o qual não cessarei de bradar intrepidamente é a falta de correção na linguagem portuguesa, ou antes a mania de tornar o brasileiro uma língua diferente do velho português por meio de neologismos arrojados e injustificáveis e de insubordinações gramaticais, que (tenham cautela) chegarão a ser risíveis se quiserem tomar as proporções duma insurreição em regra contra a tirania de Lobato.20


A crítica fechava os olhos para o fato de que o romance brasileiro procurava reproduzir a feição mais próxima da realidade nacional e, conseqüentemente, mais próxima da vida do público leitor da época. Daí a justificativa de haver uma significativa produção de prosa de ficção no século XIX brasileiro, permitindo ao leitor de hoje entender como este gênero se impôs entre nós.

O discurso ecoa também em alguns dos prefácios que introduziam os romances brasileiros oitocentistas, fazendo ressoar a idéia de que o romance brasileiro deveria comparar-se ao europeu ou elevando nomes de romancistas estrangeiros como distintivo de reconhecimento:

Assim, pois, é com a maior humildade que me apresento a vós, benévolo leitor, rogando-vos animeis com o vosso acolhimento a primeira produção de meu espírito. Se realizardes as minhas esperanças, fareis desenvolver o meu talento, que se aniquilará até a última centelha com o vosso desapreço. D. Narcisa de Villar foi escrita quando apenas tinha eu 16 anos: merece, portanto que desculpeis a mediocridade da linguagem e a singeleza com que decorei as cenas.

A Delphina de Madame Staël não é sem defeitos, e, entretanto ela foi recebida em Paris com estrondoso acolhimento, assim como a tímida e ingênua Clara d’Alba por simples que é de atavio, não deixou de ganhar à boa Madame Cottin, um nome ilustre na república das letras. Permiti-me contar que fareis também com que um dia seja tão favoravelmente acolhido, por seus compatriotas, o humilde e grato nome com que subscreve os seus ainda mais humildes escritos a    Indígena do Ypiranga 21

***

Aqui há a realidade das crenças e costumes do cristianismo, unida à ideal sublimidade do assunto. Reclama, pois esta parte um outro estilo, em tom mais grave e solene, uma linguagem como essa que Chateaubriand e Lamartine sabem falar quando tratam de tão elevado assunto.22



***

É provavel que, se assim não fosse, mais cedo tivesse regressado aos arraiaes do Direito Romano. Não foi porem o.que aconteceo. Atirei-me inconsideradamente aos mares da publicidade, devorado por um prurido de compor, escrevendo a torto e a direito, sem possuir os elementos necessarios, alheio as leituras fortificantes, apenas influenciado pelo dissolvente dos romances de Ponson du Terrail e outros.

Ignorava ainda que, para vir a ser alguma coisa em lettras, dando como admissivel a hypothese, como bem pondera Balzac, seria preciso primeiro varrer da cabeça o montão de tolices, que a occupava, antes de principiar a escrever coisas com geito.23
Quando o gênero ainda não tinha a devida identidade nacional, alguns autores procuravam elevar sua obra buscando comparações com os autores europeus já consagrados, conhecidos e lidos no Brasil. Um bom exemplo é o da escritora Ana Luiza de Azevedo Castro que, lançando-se como escritora, como está relatado na citação acima, compara-se a outras escritoras femininos de expressão européia para valorizar seu nome pouco conhecido na Literatura Brasileira.

Para entender uma forma que aparecia como um novo modelo de ficção, é importante conhecer algumas definições que conceituam o romance e passam a legitimá-lo. Entre os teóricos mais modernos, destaca-se Mikhail Bakhtin (1895-1975) que identifica a origem do gênero no modelo grego e nos romances de cavalaria medievais, pois já nestas obras eram costumeiras as tramas com aventuras, as descrições minuciosas de lugares e espaços e as histórias de amor que engendram o enredo narrativo. Bakhtin identifica no terreno dos antigos clássicos a tradição estética em que se insere a prosa de ficção moderna:

Chamaremos por convenção o primeiro tipo de romance clássico (primeiro não no sentido cronológico) de “romance de aventuras de provações”. (...) assim chamado romance “grego”. (...) Nesses romances, encontraremos um tipo de tempo de aventuras profunda e meticulosamente desenvolvido, com todas as suas nuanças e particularidades específicas. A elaboração desse tempo de aventuras e a técnica de sua utilização no romance são tão profundas e completas, que todo o desenvolvimento posterior do verdadeiro romance de aventuras até nossos dias não lhe acrescenta nada de substancial. (...) Os enredos desses romances revelam enorme semelhança e constituem-se essencialmente dos mesmos elementos. (...) São dadas no romance descrições às vezes detalhadas de algumas particularidades de países, cidades, construções diversas, obras de arte, usos e costumes da população (...) e outras curiosidades e raridades. Paralelamente a isso, são incluídas no romance reflexões (às vezes bastante vastas), acerca de diferentes temas religiosos, filosóficos, políticos e científicos (sobre o destino, os presságios (...) as paixões humanas, lágrimas, etc.) (...) Todos os elementos do romance, (...) sejam os de enredo, os descritivos, ou os retóricos, não são de modo algum novos: todos eles encontravam-se e foram bem desenvolvidos em outros gêneros da literatura clássica. (...) Todas as ações do romance desenrolam-se entre os dois pontos – pólos de ação do enredo – são os acontecimentos essenciais na vida dos heróis; eles trazem em si o significado biográfico.24

A idéia do romance como uma decorrência dos antigos clássicos não constitui uma novidade. No século XVIII, o Marquês de Sade já postulava a filiação do romance aos gregos, apresentando as fontes originais na tradição das histórias dos deuses:


(...) foi nas regiões que primeiramente reconheceram os deuses que os romances tiveram origem (...) eis as obras de ficção a partir do momento em que a ficção se apossa do espírito dos homens. Há livros de ficção a partir do momento em que existem quimeras. (...) o nome romance outrora era dado às histórias, e que foi aplicado, depois, às ficções, o que é uma prova incontestável de que umas vieram das outras. (...) O homem está sujeito a duas fraquezas inerentes à sua existência, que a caracterizam. Por toda parte cumpre que ele reze, por toda parte cumpre que ele ame, eis a base de todos os romances: fê-lo para pintar os seres a quem implorava, fê-lo para celebrar aqueles a quem amava. (....) E como o homem rezou e amou em todas as partes do globo onde habitou, houve romances, isto é, obras de ficção que ora pintaram os objetos fabulosos de seu culto, ora os mais reais de seu amor.25
Num processo de ascensão ou de desenvolvimento, a prosa romanesca misturaria gêneros ancestrais com a reformulação da figura heróica, transformando-a numa personagem mais identificável com o homem moderno e que daria prazer vicário ao leitor de romances.

A essa evolução, que se constitui sobretudo pela inserção de múltiplas vozes num mesmo gênero, pela interlocução de diálogos entrecruzados, pela presença de diferentes modalidades de escrita como cartas, diários e documentos, num mesmo espaço e até por descontinuidades cronológicas, Bakhtin deu o nome de “plurilingüismo”:

É justamente o caráter plurilíngüe, e não a unidade de uma linguagem comum normativa, que apresenta a base do estilo. (...) Desta forma, a estratificação da linguagem literária, seu caráter plurilíngüe, é postulado indispensável (...) cujos elementos devem projetar-se sobre diferentes planos lingüísticos. (...) O romance admite introduzir na sua composição diferentes gêneros, tanto literários como extraliterários. (...) Os gêneros introduzidos no romance conservam habitualmente a sua elasticidade estrutural, a sua autonomia e a sua originalidade lingüística e estilística.26
Bakhtin postula uma das teorias do romance que se enquadra à da prosa de ficção oitocentista e perdura até nossos dias, pois avalia, em amplo sentido, as características que definem a prosa romanesca.

Essas diferentes formas de texto que aparecem no romance sejam elas — cartas, diários, documentos, ou mesmo os diálogos que cruzam a narrativa, nada mais são do que a soma de relatos da vida comum do indivíduo. Neste sentido, o gênero romanesco seria a forma que mais se aproxima da descrição da vida real. Bakhtin define como plurilingüismo o encontro de múltiplas vozes na narrativa, e se aproxima do que o teórico inglês Ian Watt chama de “realismo formal”, que seria as descrições da vida comum no enredo da prosa de ficção marcada pelas interferências de textos na narrativa, tais como as cartas que têm grande significado na teoria de Watt.

Desta forma, dentre as marcas que determinam o perfil da nova forma literária, Ian Watt enumera algumas das principais peculiaridades do gênero romanesco. Primeiramente Watt chama atenção para o “realismo”, assinalando esta como a principal diferença entre a obra romanesca e a ficção anterior.27 A forma realista imprimia ao romance a característica de enredos que pudessem se assemelhar com a realidade, de forma a não parecerem criação inventiva. Watt considera o realismo “a característica mais original do gênero romanesco”28:

(...) esse emprego do termo “realismo” tem o grave defeito de esconder o que é a característica mais original do romance. (...) na verdade, porém, certamente procura retratar todo tipo de experiência humana e não só as que prestam a determinada perspectiva literária: seu realismo não está na espécie de vida apresentada, e sim na maneira como a apresenta.29


De acordo com a premissa postulada por Watt, o realismo valida os romances ingleses de Defoe, Richardson e Fielding porque estão agregados a acontecimentos verossímeis vivenciados por personagens como Moll Flanders, que é uma ladra, Pamela, uma hipócrita, e Tom Jones, um fornicador.30

Da mesma forma, há também nas obras brasileiras personagens que se enquadram nos padrões de verossimilhança, apresentando fatos cotidianos e caracterizados como seres vulneráveis — Lucíola era uma prostituta, Jorge ambicioso, Virgília adúltera e, Leôncio um explorador de escravos. Deve-se atenção especial à importância do realismo no romance pela correspondência entre a realidade e o texto da prosa de ficção, principalmente no que se refere à identificação do indivíduo com o enredo ou com as personagens, de acordo com Ian Watt::

O romance é a forma literária que reflete mais plenamente essa reorientação individualista e inovadora. As formas literárias anteriores refletiam a tendência geral de suas culturas a conformarem-se à prática tradicional (...) O primeiro grande desafio a esse tradicionalismo partiu do romance. (...) Assim, o romance é o veículo literário lógico de uma cultura que, nos últimos séculos, conferiu um valor sem precedentes à originalidade, à novidade.31
O romance propõe uma nova representação da realidade, o que Ian Watt chama de “tradição coletiva pela experiência individual” e isso não constitui tarefa das mais fáceis. Watt chama atenção para uma segunda e importante característica que deve estar presente na nova forma: o enredo deveria envolver situações e pessoas comuns, caracterizar identidades particulares:

Era preciso mudar muitas coisas na tradição da ficção para que o romance pudesse incorporar a percepção individual da realidade com a mesma liberdade (...) Para começar os agentes no enredo e o local de suas ações deviam ser situados numa nova perspectiva literária: o enredo envolveria pessoas específicas, e não, como fora usual no passado, tipos humanos genéricos atuando num cenário basicamente determinado pela convenção literária adequada.32


O gênero romanesco apresentava em maior ou menor escala traços da vida comum, os que oferecem uma maior aproximação com a realidade. Nos enredos do romance foram pintadas cenas concernentes à vida íntima familiar, aos ambientes caseiros, situações rotineiras do cotidiano, quadros que expressaram o homem comum nos seus sentimentos de amor, dor, felicidade, rejeição, insegurança, e os anseios de sucesso e ambição entre tantas sensações e dramas que compõem a alma humana. Esta forma narrativa também trazia em seu enredo temas polêmicos e tabus nunca antes tratados na prosa, como a mistura de classes sociais, intrigas, trapaças, amores e desamores.

O novo gênero que chegava às mãos dos leitores contava geralmente histórias urbanas, com personagens típicas de uma cidade ou de uma região onde se desenvolve a ação, composta de personagens que reproduzem a vida com problemas comuns a todas as pessoas, criando verossimilhança e credibilidade. Das crises aos momentos de glória, das lágrimas às realizações de amor, os personagens estabelecem cumplicidade com o público que se identifica com o que lê.




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