Romaria do Padre Cícero



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Uma reflexão comunicacional na festa popular do Padre Cícero
Maria Érica de Oliveira Lima1

Resumo

As festas populares fazem parte do imaginário popular, especialmente, no Nordeste. Este artigo pretende registrar a festa da romaria do Padre Cícero - da cidade de Juazeiro do Norte, região do Cariri, no sul do Estado do Ceará (Brasil) - estudar a natureza das festas populares identificando os processos comunicacionais que as determinam como um espaço de diversão cultural e ao mesmo tempo, uma "celebração cívica".



Palavras-chave

Festas populares, comunicação, religiosidade.




Abstract

Popular festivities make part of the popular imaginary, specially, in the Northwest. This article intends to register the Priest Cicero pilgrimage festivity, of Juazeiro do Norte city, located in Cariri, in the south of the State of Ceara, to study the nature of the popular festivities identifying the comunication processes that decide how a culture space of entertainment and is at same time, a "civic celebration".



key-words
Popular festivities, comunication, devotion.
1. Introdução
Estudar a natureza das festas populares é o objetivo do IV Folkcom – Conferência Brasileira de Folkcomunicação que tem como intenção explorar o dinamismo que constitui alguns elementos do folclore brasileiro. Este artigo pretende registrar a festa popular a partir das romarias do Padre Cícero – da cidade de Juazeiro do Norte, região do Cariri, no sul do Estado do Ceará – estudar a natureza das festas populares, identificando os processos comunicacionais que as determinam como um espaço de diversão cultural e ao mesmo tempo, uma celebração cívica.
A festa é um acontecimento social, coletivo, que envolve toda a sociedade, significando mais do que um elemento de diversão – comemorativo ou celebração – , mas também um fator que quebra a rotina cotidiana, valorizando a natureza social em si.
As festas populares fazem parte do imaginário popular, especialmente, no Nordeste. No Estado do Ceará, por exemplo, as festas populares são temas de muitos trabalhos científicos e culturais. Recentemente, em Fortaleza, encontra-se uma exposição fotográfica sobre as “festas populares” numa série de álbuns e produções isoladas, “enfocando uma das temáticas mais sofisticadas do imaginário popular nordestino, em particular, o cearense” (2001, p. 6). Neste trabalho é apresentado xilogravuras que representam festividades tradicionais, como a Festa do Pau da Bandeira, em Barbalha, sul do Ceará; as festas juninas por vários lugares do interior da região do Cariri; as cantorias; os maracatus, e etc. O destaque está na concentração de ritos na região do Cariri onde se encontra a principal cidade do interior do estado, Juazeiro do Norte.
Segundo João Pedro (2001, p.6) “(...) a exposição mostra um pouco dessas festas, muito ligadas à religiosidade e que não morrem jamais”. Esse sentido “imortal” da festa popular caracteriza a necessidade social que está muito representada em cada rito, seja uma festa religiosa – do padroeiro –, ou profana – do carnaval.
As romarias do Padre Cícero representam mais do que uma religiosidade em si, mas também um grande caráter festivo e divertido. Por traz da manifestação religiosa, o povo nordestino também comemora, de maneira lúdica, sua devoção ao “santo” querido.
Padre Cícero nasceu na cidade do Crato, sul do Ceará, em março de 1844, no dia 24, inclusive, uma data muito especial e comemorada pelos romeiros. No natal de 1871, após a conclusão de seus estudos e ordenação, Padre Cícero é convidado pelo Prof. Semeão Correia de Mâcedo para visitar o povoado de Juazeiro – distrito que pertencia à cidade do Crato. No povoado, Padre Cícero celebrou a tradicional “missa do galo”. Em 1972, 11 de abril, Padre Cícero fixa residência no povoado de Juazeiro. A partir daí, inicia-se o trabalho pastoral e político de um dos maiores mitos do Nordeste brasileiro.
As romarias da cidade de Juazeiro do Norte representam muito bem, características do conceito de festa, pois além da necessidade social, da superação das condições normais da vida – especialmente do nordestino, sertanejo, que ainda sofre com a seca e outras injustiças sociais e econômicas –, é um acontecimento que se espera, criam-se expectativas, tensão coletiva, pois toda a cidade se prepara para receber os romeiros. A festa também expressa momentos de esperança – sentimento fundamental à pessoa religiosa.
“ (...) A festa é a expressão de uma expansividade coletiva, uma válvula de escape ao constrangimento da vida quotidiana. Da economia passa-se à prodigalidade; da discrição à exuberância. Surgem as manifestações de excesso, nos mais ricos por ostentação, nos mais pobres por compensação” (BIROU, 1966, P. 166).
Mais do que a festa em si, de caráter comemorativo, poderemos observar a excessiva religiosidade do povo nordestino, que se manifesta através do imaginário popular; os processos comunicacionais que estão inseridos nas festas, através dos significados e símbolos que representam, na tentativa de uma hegemonia cultural; os espaços sociais que revelam as formas de relações sociais, como por exemplo, a integração, às vezes, não muito cordial, de pessoas de classes econômicas distintas e também uma questão industrial no qual a mídia e outras instituições comerciais transformam as festas em espetáculos grandiosos e massificados.

2. Os processos comunicacionais

2.1– A festa popular

A festa popular apresenta uma natureza muito complexa, mas a partir de uma reflexão sobre o conceito de “frentes culturais” no sentido de observar os “espaços sociais, entrecruzamentos e formas de relações sociais não especializadas, onde luta ou se vem lutando pelo monopólio legítimo da construção e reconstrução semiótica (modulação e modelação) de determinados elementos culturais transclassistas” (GONZALES, 1994, P. 82), podemos entender como a questão comunicacional permeia as festas populares.
O processo comunicacional se dá na medida em que nas festas populares, no mesmo espaço social, classes distintas se interagem, numa tentativa à hegemonia cultural, já que agentes sociais de diferentes características culturais-econômicas “se misturam” no mesmo espaço. Mas esse “se misturam” entre aspas revelam uma interação dialética.
“(...) coexistindo de forma aparente, mas na verdade enfrentando-se, ora sutil, ora de modo ostensivo, na tentativa de conquista da hegemonia cultural. Por isso mesmo, elas se caracterizam como processos comunicacionais, na medida em que agentes socialmente desnivelados operam intercâmbios sígnicos, negociam significados e produzem mensagens coletivas, cujo conteúdo vai se alterando conjunturalmente, sempre de acordo com a correlação de forças em movimento” (MARQUES DE MELO, 2000, p 6).
Também ainda podemos completar o processo comunicacional das festas populares através do exemplo assumido, atualmente, da apropriação da mídia e outras instituições das manifestações populares.
“Esse perfil eminentemente comunicacional assumido hoje pelas festas populares alterou-lhes profundamente a fisionomia primitiva. As antigas tradições vão sendo substituídas por novos padrões de interação sócio-cultural. A mídia e as instituições comerciais transformam as festas em espetáculos coletivos, fruídos por usuários dispersos, muitas vezes, convocados aleatoriamente, até mesmo fora dos calendários cívicos ou religiosos” (MARQUES DE MELO, 2000, p 7).

As romarias do Padre Cícero sempre são notícias nos principais jornais do Estado, como fonte de renda e atividade econômica da cidade de Juazeiro do Norte. O destaque, às vezes, não está no caráter religioso da festa, mas o grande evento comercial que a festa adquiriu atualmente:


“Na realidade, a maior fonte de riqueza do município está no turismo de motivação religiosa. Diariamente, centenas de pessoas desembarcam na movimentada Estação Rodoviária ou no Aeroporto Regional do Cariri para realizar negócios ou, como faz a grande maioria, pagar suas promessas, cumprindo um roteiro tradicional (...)” (O POVO, 1999, p. 6)
Portanto, a festa passa a ter um caráter mais de valor “conteudístico, preenchendo espaços na programação das emissoras de rádio ou TV, bem como motivando reportagens e coberturas especiais nos jornais diários ou revistas semanais” (MARQUES DE MELO, 2000, p. 07). Por isso, todos os anos, a romaria de Padre Cícero é pauta nos telejornais de âmbito nacional, como o “Jornal Nacional” da Rede Globo e “Jornal da Record”, Rede Record; cobertura especial nas TV locais, como a retransmissão ao vivo da missa do Padre Cícero – no dia 24 de março, data do seu nascimento – pelo Canal 22, do sistema Verdes Mares de Comunicação; destaque em matérias nos principais jornais impressos da capital e cobertura das celebrações de missas e shows pelas emissoras de rádio.
Segundo Marques de Melo (2000), este processo comunicacional, ao mesmo tempo, ainda funciona como “alavancas para o acionamento da engrenagem econômica, mobilizando produtores industriais, entrepostos comerciais e prestadores de serviços”.
Nas romarias de Juazeiro do Norte, o artesanato é o principal produto que “alavanca” a economia local. O consumo dos romeiros sobre objetos religiosos, como fitinhas coloridas de lembrança do Padre Cícero, estátuas de gesso do padre, quadros, camisetas, e a estampa do rosto do Padre Cícero em muitos outros objetos, além do tradicional artesanato, fazem destes produtos o dinamismo da economia local.
“(...) Juazeiro do Norte é o maior empório comercial da região, com grandes lojas, magazines e supermercados. Ali está localizado o principal pólo de artesanato do Estado, responsável pela produção de objetos de palha, cerâmica, madeira, couro, sisal, metais, bordados (...)” (O POVO, 1999, p. 07).
Paralelo à figura do fundador de Juazeiro do Norte, Padre Cícero; as festas populares, romarias; as divulgações pela mídia; os investimentos e atividades econômicas do comércio, do turismo e das indústrias locais; o folclore é outro elemento fundamental ao imaginário popular nordestino.
“(...) o folclore também é uma forte atração. Violeiros-repentistas animam as festas com suas emboladas; as bandas cabaçais, características da região, reminiscências dos antigos escravos; o Maneiro-Pau e o Reisado e outras danças trazidas de outros lugares pelos romeiros são manifestações autênticas da alma e criatividade popular. A literatura em cordel e a xilogravura são também formas de expressão do povo, que contam em versos e imagens histórias de fé, da violência, do sobrenatural e do cangaço” (O POVO, 1999, p. 07).
Todos estes elementos são atrativos ao comércio e à mídia. Portanto, surge uma teia complexa de relações e interesses, do qual participam também o Estado e a questão política local. Como o poder político é responsável pelo espaço público onde se realizam as festas populares, muitas vezes, não só a questão da segurança, mas também o sucesso e a organização da festa dependem muito do apoio da política local. Neste sentido, os políticos da situação, como prefeitos e deputados estaduais aproveitam para se promoverem, politicamente, diante da população. As influências de um político junto à comunidade extrapolam o caráter significativo e festivo da manifestação cultural. Em muitas cidades do interior do Nordeste, em época de eleição, muitos candidatos oferecem caminhões – “paus-de-arara”, ônibus e caminhonetes de graça para aqueles que desejam ir às romarias de Juazeiro. Ou então, depois de eleito, oferecem transporte gratuito como pagamento de promessa. Assim, as oligarquias se perpetuam através de muitas ações, inclusive, nas festas populares.

“(...) as influências das práticas políticas locais – os chefes políticos – são áreas controladas principalmente, pelas oligarquias e são beneficiadas com a destinação de verbas, as comunidades a serem favorecidas e que estariam automaticamente, manipuladas pelo interesse eleitoral” (LIMA, 2000, p. 81).

Ainda identificando o caráter comunicacional da festa popular, podemos citar o pensamento de Marques de Melo (1970), como um processo que determina fluxos convergentes: a festa como ativadora das relações humanas; a festa enquanto mobilizadora das relações entre os grupos primários, a coletividade, e a festa enquanto articuladora de ralações institucionais.
“Relações humanas, produzindo comunhão grupal ou comunitária em torno de motivações socialmente relevantes. Trata-se de um fluxo de comunicação interpessoal. (...) das relações primárias e a coletiva, através das mediações tecnológicas propiciadas pelas indústrias midiáticas, em espaços geograficamente delimitados – locais, regionais, nacionais. Trata-se de um fluxo de comunicação massiva. (...) Institucionais desencadeando iniciativas de entidade enraizadas comunitariamente e antenadas coletivamente, que decidem o que celebrar, em que circunstâncias, com que parceiros. Trata-se de um fluxo de intermediação comunicativa, produzindo a interação das comunicações interpessoais e massivas”.
Portanto, a festa popular apresenta fluxos interdependentes que geram processos comunicacionais. Esses processos potencializam outras variáveis como no campo da cultura, política e economia.

2.2 – A religiosidade

A religiosidade nordestina, em especial a de Juazeiro do Norte, está intrinsecamente ligada não só a uma questão religiosa em si, mas também a uma questão cultural, econômica e política.
O sertão nordestino, em fins do século 18 e início do século 19, foi um campo fértil para o surgimento de líderes religiosos. Padre Cícero, ao instalar-se no povoado de Juazeiro, encontra um lugar propício para seu desenvolvimento pastoral e político.
“(...) Padre Cícero, encontra em Juazeiro terra propícia para a formação de ‘feudo religioso’, mais tarde, também econômico e político, embora nos primeiros dezessete anos de seu apostolado (1872-1889) tenha vivido uma fase de ‘profundo misticismo, penitência, meditação e pobreza’” (BARBOSA, 2000, p. 32).
Depois da emancipação do distrito de Juazeiro, em 22 de julho de 1911, Padre Cícero foi eleito Prefeito do recém município. Era filiado ao Partido Republicano Conservador – PRC. Aos 82 anos de idade foi eleito Deputado Federal, mas nunca assumiu a vaga.
Portanto, a vida política de Padre Cícero faz parte da religiosidade e da história cultural do Nordeste. Apesar de não ter sido canonizado pela Igreja, é tido como santo por sua imensa legião de fiéis por todo o Nordeste e outras cidades do Brasil.
“Suas primeiras desavenças com o poder constituído só se manifestam a partir daquela última data, quando a Igreja não aceita os ‘prováveis’ milagres que começa a fazer e o proíbe de ministrar as missas na Igreja. Sua incompatibilidade com as autoridades políticas é manifestada mais tarde, quando ele próprio, mesmo que indiretamente, lidera um movimento para derrubar o Coronel Franco Rabelo, então presidente do Ceará (1913-1914) e daí, até pouco antes da sua morte, sempre exerceu grande influência na política” (BARBOSA, 2000, p. 32).
As posturas religiosas como o “cristianismo e a umbanda interagem no imaginário popular (...)”, portanto, as festas populares são ritos provenientes da religião e misticismo. Neste sentido, identificamos que as festas populares – as romarias – não representam apenas o significado religioso, mas também comercial, comunicacional e profano, no âmbito ultra-festivo e divertido.

2.3 - As romarias

Em Juazeiro do Norte, as romarias iniciam-se em fevereiro, no dia 2, na festa de Nossa Senhora das Candeias; em setembro a festa da Padroeira, Nossa Senhora das Dores e em novembro, no dia 2, feriado de finados. Todas são datas que aglomeram milhares de fiéis, romeiros e turistas. Além destas datas fixas ainda são comemorados o nascimento de Padre Cícero, 24 de março, e a morte em 20 de julho. Ocasionalmente, nesta data, do dia 20, os juazeirenses e romeiros vestem-se de preto, na tradicional “missa do dia 20” de cada mês.
Todo ano 1,2 milhão2 de pessoas visitam Juazeiro. A maioria são nordestinos que chegam de pau-de-arara ou a pé. Muitos hospedam-se nos 427 ranchos da cidade – casarões com banheiro coletivo e redes com capacidade para até 500 pessoas. Os turistas pagam de R$ 5 a R$ 10 por três dias, e seu roteiro inclui o túmulo do padre, a Capela do Socorro, o memorial ao padre e uma estátua de 27 metros erguida em sua homenagem. Embora a Igreja não o tenha canonizado, Padre Cícero para eles é santo.
O Ceará revelou sua religiosidade ao eleger como Cearense do Século, padre Cícero Romão Batista, com quase 1 milhão de votos, seguido do industrial Edson Queiroz, com diferença de 9,08%. A campanha da Rede Globo e TV Verdes Mares disponibilizou 44 urnas em todo o Estado, em 20 dias de participação efetiva, na Capital e no Interior. Ao todo, foram 1.694.930 votos, sendo 38,78% para o vencedor 3. A lista com outros mais oito nomes foi sugerida por representantes de 18 entidades cearenses ligadas à cultura popular, política, economia, literatura, religião, educação, magistério e medicina. A escolha foi feita através de votação entre membros e dirigentes das instituições. O mesmo processo foi desenvolvido em todos os estados brasileiros, com o objetivo de homenagear brasileiros ilustres que contribuíram para o desenvolvimento do País.

Juazeiro do Norte muda muito na época das datas festivas. No dia de comemorar a festa de Nossa Senhora das Candeias – ocasião em que Juazeiro, de ruas calmas e ar brejeiro, de casas de apenas um andar, de bucólicas praças – a cidade rende-se ao movimento frenético de centenas de milhares de pessoas. Luxuosos ônibus de turismo até velhos caminhões “paus-de-arara” passam a transitar por todo município. “São grupos e mais grupos de romeiros, de vendedores ambulantes e pedintes. Na maioria, gente que passou a vida toda em longínquos vilarejos e que, chegando a Juazeiro, sente-se ao mesmo tempo encantada e perdida na ‘grandiosidade’ desta cidade. E muitos se perdem mesmo! Ficam horas perambulando boquiabertos (ou apavorados) procurando os seus ‘ranchos’, os cortiços onde se apinham os peregrinos a preços módicos” (VELOSO, 2001, p. 6).


Na romaria do dia 2 de fevereiro ascender velas é o maior símbolo da religiosidade dos romeiros. Desde a estátua do Padre Cícero – com o pensamento voltado à Nossa Senhora das Candeias – até as pedras ditas sagradas do morro do Santo Sepulcro, na Matriz ou na Igreja do Perpétuo Socorro, onde está a sepultura do Padre Cícero, as pessoas se “esquecem da enxada, da terra dura e seca, das agruras, do sol calcinante, e partem em busca do místico, do sobrenatural. Do alento para suas vidas. Um sorriso para suas faces enrugadas. É esta confiança cega em dias melhores que faz toda a magia de Juazeiro” ((VELOSO, 2001, p. 7).
Nesta época de festa em Juazeiro, todos estão protegidos e desde o alto, na serra do Horto, por este santo popular, beatificado não pelo Vaticano, mas pela fé de um povo. Segundo Veloso (2001) a festa das Candeias representa a festa das luzes:
“´A luz que mais alumeia´”, segundo o canto dos romeiros do Padre Cícero. A luz das velas que acendem (ou ascendem) pedidos ao céus. A luz que traz o calor nas noites frias. Romeiros e suas velas plantadas no chão da Praça da Igreja do Socorro. Pontinhos de luz na escuridão da noite marcando para Deus, que do alto tudo e a todos observa, as suas presenças ora iluminadas na Terra. Como se cada um suplicasse ‘olhe aqui para baixo’!, ‘olha para mim’!.
Na época de finados, Juazeiro também recebe muitos romeiros e turistas. Muitas pessoas humildes, que passam o ano juntando dinheiro que não têm para fazer a tão sonhada viagem, e reverenciar seus mortos e a imagem de Padre Cícero. “Elas vão cantando os benditos ao longo do caminho, benditos que rasgam o sertão” (PERSICHETTI, 2000, p.01).
As romarias de Juazeiro já foram retratadas em muitas exposições fotográficas. Uma das mais conhecidas é do fotógrafo Tiago Santana que recebeu em 1995 o prêmio Marc Ferraz de Fotografia e que resultou no livro “Benditos”. Apesar das matérias da imprensa, as exposições sobre as romarias revelam, como diz o fotógrafo, “algo investigativo, um mergulho no tema, sem pressa e sem pré-conceitos” (PERSICHETTI, 2000, p. 01) . Neste mesmo raciocínio, Tiago Santana critica a superficialidade das imagens divulgadas pela imprensa: “(...) o fim único de levar o leitor não a refletir, mas a consumir” (PERSICHETTI, 2000, p. 01).
Dentro do processo comunicacional de uma festa popular, na maioria das vezes, os meios de comunicação retratam de maneira superficial e rápida a manifestação popular. Portanto, o conteúdo cultural da festa, muitas vezes, não é destacado, mais sim, o movimento comercial, turístico ou trágico – caso aconteça algum acidente. Os meios de comunicação, seja rádio, TVs ou jornais estarão voltados ao imediatismo da notícia e a cobertura voltada ao âmbito da indústria cultural ou comercial.
“Acho que a imprensa se esquece de que o leitor merece ter acesso a imagens que não sejam meramente ilustrações descartáveis, e sim expressões de uma linguagem que possibilite uma melhor leitura e reflexão do mundo em que vivemos” (SANTANA, entrevista a PERSICHETTI, 2000).

As festas populares do Ceará revelam muito mais do que a diversão ou a religiosidade. É possível perceber a importância de rituais, principalmente, os religiosos, assim como os processos comunicacionais. As festas populares, as romarias, estão presentes nas pesquisas científicas, no cinema, nas exposições de telas, xilogravuras e, etc.


3. Conclusão



O estudo das festas populares é muito importante para a produção cultural brasileira. É neste campo que podemos destacar os elementos comunicacionais e seus processos. Esta reflexão busca registrar os processos comunicacionais que estão inseridos nas festas populares, que muitas vezes, são desconsiderados por muitos pesquisadores.

Não podemos desconsiderar a comunicação nas grandes romarias e manifestações culturais, seja através da relação interpessoal, ou de divulgação massiva, a comunicação influência consideravelmente o significado da festa. Mas do que uma festa religiosa ou profana, que seja, a comunicação está pulverizada valorizando elementos que tornam o evento um acontecimento rico em símbolos e motivos.


As romarias de Juazeiro do Norte não são apenas para cultuarem a imagem e memória do Padre Cícero. Elas representam uma atividade econômica para a cidade, uma integração social, um acontecimento cultural, uma devoção mística e religiosa.
As romarias – manifestação da festa popular – de Juazeiro do Norte representam em suas estruturas caráter nacional que acaba gerando projeções midiáticas, nos quais várias emissoras de rádio e TVs registram como um fenômeno da “religiosidade do povo nordestino”. Como pesquisadores da área de comunicação, não podemos apenas pensar a festa popular como elemento cultural, sociológico ou religioso. Mas do que esses pontos, a comunicação determina muitas ações e novos valores que são adequados às manifestações folclóricas ou as mais antigas. Tanto a mídia como a indústria, atreladas ao desenvolvimento, acabam contribuindo, significativamente, para grandes mudanças no caráter da festa em si.
As festas populares “nunca morrem”, mas certamente, sofrem grandes modificações no decorrer dos anos.

4. Bibliografia


ARARIPE, Antônio de Alencar. O Padre Cícero: pretensos milagres de Juazeiro.

Revista Itaitera nº. 19, Crato/CE, 1975.

BARBOSA, Sérgio. Antônio Conselheiro e Padre Cícero: uma abordagem mística


de um ensaio jornalístico. Revista Omnia, v.3, Faculdades Adamantinenses

Integradas, Adamantina: Editora Omnia, 2000.

BIROU, A. Vocabulaire Pratique des Sciences Sociales. Paris: Editions Ouvriéres.

(Edição portuguesa – Dicionário das Ciências Sociais, Lisboa, Dom Quixote, 2ª.

ed. 1976).

JORNAL O POVO. Juazeiro do Norte em tempo de romaria. Fortaleza, 1999.

JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE. As “festas populares” segundo João Pedro.

Fortaleza, junho 2001.

JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE. Padre Cícero é o cearense do Século.

Fortaleza, 22 de março de 2001.

LIMA, Maria Érica de O. Neo-Coronelismo na Mídia Nordestina. Dissertação

(Mestrado). Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo,

2000.

MARQUES DE MELO, José. Comunicação social: teoria e pesquisa. Petrópolis:



Vozes, 1970.

PERSICHETTI, Simonetta. Um olhar reflexivo sobre Juazeiro do Norte. O Estado



de S. Paulo, caderno 2. 5 de outubro de 2000.

REVISTA ISTOÉ. Em nome do Padim. São Paulo: Editora Três, 1998.



VELOSO, Guy. Candeias: a fé anônima de um povo. www.arvoredavida.com.br.

1 Jornalista, doutoranda em Comunicação Social, UMESP. Profa. de Comunicação, FAE.

2 Fonte: Revista IstoÉ, 30 de dezembro de 1998.

3 Fonte: Diário do Nordeste, 22 de março de 2001.


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