Rompendo limites



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XXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - INTERCOM/2000

GT História e Comunicação

Coordenadora: Profa. Dra. Alice Mitika Koshiyama

Expositora: Gisely Valentim Vaz Coelho Hime

SALTANDO BARREIRAS, LANÇANDO DARDOS,

ROMPENDO LIMITES

O Vespertino Paulistano A Gazeta E

A Prática Esportiva Feminina, Nos Anos 30

Gisely Valentim Vaz Coelho Hime é jornalista, formada pela ECA/USP, mestre e

doutoranda em Ciências da Comunicação, pela mesma instituição, sob a orientação da

Profa. Dra. Alice Mitika Koshiyama. É tradutora e consultora de empresas na área de

Comunicação Institucional.

No início dos anos 30, o vespertino paulistano A Gazeta, ousa se dirigir às suas

leitoras como se falasse à mulher do ano 2000. Em nome da modernidade, temas como a

prática esportiva feminina são valorizados não apenas na cobertura jornalística, mas na

promoção de eventos, estimulando mudanças comportamentais profundas. A leitora d’A



Gazeta é convidada a repensar os seus hábitos, a ter uma vida mais saudável, a conquistar

novos domínios, a exemplo de mulheres corajosas e talentosas que não ficam em nada a

dever aos homens. Tal iniciativa é fruto de um projeto jornalístico, fundamentado na

modernização - da produção à linha editorial – e implantado pelo diretor-proprietário do

vespertino: o jornalista Cásper Líbero (Pesquisa realizada com o apoio da Capes).

PALAVRAS-CHAVES: JORNALISMO, GÊNERO, HISTÓRIA, FEMINISMO,



ESPORTE



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2

Praticar um esporte ou simplesmente fazer ginástica, não importa. O que interessa é

não ficar parada: fazer do exercício físico parte da rotina diária. Tão fundamental para a

saúde e a beleza, quanto uma alimentação balanceada e umas boas horas de sono. Qualquer



mulher está cansada de recitar esta cartilha! Que novidade... De fato, mais do que novidade,

uma ousadia, quando se tem como leitora a brasileira da década de 30.

É sabido que a primeira metade do século XX marca a inserção da mulher no mundo

esportivo, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas no Brasil, essa inserção se

dá de maneira bastante lenta. Existe muito preconceito - preconceito de que a atividade

esportiva seja coisa de homem; preconceito de que torne a mulher menos feminina; e

preconceito até de que prejudique a saúde da mulher. Por isso, as primeiras mulheres a

praticar esporte, no País, normalmente, são descendentes de famílias estrangeiras que, vêem

tal atitude com naturalidade. Para as brasileiras, durante muito tempo, o esporte ficará

restrito às mais arrojadas, às chamadas moças modernas.

E é justamente a essas moças que se dirige o vespertino paulistano A Gazeta, um dos

principais jornais do País na década de 40, em franco processo de modernização na década

de 30. Dirigido pelo jornalista Cásper Líbero, tinha como princípio ser sinônimo do

progresso

1

. Tanto o progresso das instalações e do maquinário, quanto o progresso das



idéias transmitidas, do conteúdo, colocando-se em sintonia com a vanguarda cultural da

época. O progresso é a tecnologia, o transporte, a comunicação, a metrópole, a velocidade

que gradativamente se imprime ao cotidiano. E é também o esporte, principalmente o

esporte feminino, como destaca, em 1936, a jornalista Elza Forte, no seu artigo semanal

para a seção feminina do jornal:

Estamos uma época em que as mulheres, tendo invadido quase todos os campos de atividade

masculina, aderiram, também, com furor ao esporte.

(...) E realmente, desde que estamos em pleno século XX, a mulher ideal para qualquer

homem já não é uma enferma e pálida figura como o desejavam os nossos românticos

antepassados.

1

Para maiores informações, consultar Gisely Valentim Vaz Coelho Hime. A Hora e a Vez do Progresso -



Cásper Líbero e o Exercício do Jornalismo nas Páginas d'A Gazeta. São Paulo, dissertação de mestrado,

Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), 1997.





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3

Para o homem de nossos dias, forte, atleta, a companheira ideal também será uma jovem de

músculos fortalecidos, de encanto e elegância natural, adquiridos pelo são equilíbrio físico e

mental. (...)

O que as mulheres devem ter sempre em vista é que, em qualquer momento, o esporte será o

aliado seguro e dedicado para vigorizar o corpo, conservar a saúde e, sobretudo, para proporcionar

esse encanto natural que só um corpo são e uma mente sã poderão dar

2

.



A Gazeta e o esporte: da cobertura aos eventos

Desde que passou às mãos de Cásper Líbero, em 1918, o vespertino paulistano A



Gazeta começou a dedicar especial atenção ao esporte. Cásper via no esporte um

instrumento fundamental na formação moral e cívica do indivíduo. Da mesma forma que o

jornalismo. Por esse motivo, fez do seu jornal um espaço de valorização do esporte, tanto

por intermédio de reportagens, quanto pela promoção de eventos.

Foi Cásper Líbero quem criou, em 1925, a Corrida de São Silvestre, inspirado nos

Jogos Olímpicos que, no ano anterior, assistira em Paris. Foi ele também o idealizador da

primeira "transmissão" de futebol, por ocasião de um clássico entre paulistas e cariocas,

disputado no Rio de Janeiro. Cásper recebia as informações por telefone e as repassava

para Miguel Arco e Flexa que, por sua vez, com um megafone, retransmitia o jogo para os

torcedores aglomerados na frente do prédio d'A Gazeta. A rua Líbero Badaró ficou lotada.

Conta o jornalista Américo Bologna que, quando entrou para A Gazeta, em 1928, era

comum o vespertino dedicar quatro, cinco páginas aos esportes - coisa que os outros jornais

só viriam a fazer muito tempo depois. No mesmo ano, aliás, foi lançada A Gazeta

Esportiva, um suplemento semanal reservado exclusivamente ao assunto. O sucesso do

suplemento esportivo foi tão grande que, no ano seguinte, ganhou vida própria. Atendendo

a vários pedidos, notadamente de leitores do interior do Estado, a empresa resolveu aceitar

assinaturas para a edição esportiva, que saía às segundas-feiras. Em 1931, com apenas três

anos de vida, o suplemento em tamanho tablóide já preenchia dezesseis páginas.

Desde o início, na cobertura dos eventos esportivos, a atividade feminina é

equiparada à atividade masculina, talvez até mais valorizada, considerando-se o seu caráter

2

Elza Forte. A Mulher e o Esporte In: A Gazeta, 23 de março de 1936.





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4

de arrojo, de conquista de novos domínios

3

. A localização da matéria contribui muito para a



diferenciação do tom do tratamento. São quatro os espaços possíveis:

1. seção Todos os Esportes: as páginas esportivas, publicadas diariamente; em geral,

quatro ou cinco, durante a Segunda Guerra foram reduzidas a duas, devido ao

racionamento da cota de papel; trazem a cobertura dos principais eventos esportivos e

alguns artigos analisando o desempenho dos atletas;

2. A Gazeta Esportiva: amplamente ilustrada, chegava facilmente a dezesseis páginas,

com a cobertura dos principais eventos esportivos e respectivos comentários;

3. coluna No Mundo da Aeronáutica: como o nome indica, exclusiva dos assuntos da

aviação que, na época, está em franca expansão; acompanha os raides, registra os novos

recordes, traz a biografia dos principais pilotos;

4. Página Feminina ou A Sua Página, Senhora: lançada em maio de 1929, a seção

feminina do vespertino, que, na década de 40, mudaria de nome, tem uma coluna

intitulada Cultura Física, onde encontramos artigos sobre a importância do esporte para

a saúde da mulher, reportagens sobre a ampliação dos domínios femininos no esporte,

orientações sobre exercícios que podem – e devem – ser praticados no dia-a-dia e dicas

sobre roupas mais adequadas aos novos hábitos esportivos da mulher.

Além da valorização na pauta, A Gazeta também se utiliza da promoção de eventos

para incentivar a prática esportiva. Nessa perspectiva, surge, em 1924, a Travessia de São

Paulo a Nado, prova mista de natação, disputada anualmente no rio Tietê. Considerada uma

das principais provas do calendário brasileiro de natação, a Travessia revelou grandes

nadadoras, tais como as irmãs Lenk.

Mito da natação feminina brasileira, Maria Lenk, foi campeã da Travessia em 1932,

1933, 1934 e 1935, ano em que integrou a equipe que conquistou o 2

º

lugar no revezamento



4X100, durante o Campeonato Sul-Americano, batendo o recorde brasileiro. Para se ter

idéia do que essa atleta representou para a natação feminina nacional, lembramos alguns

dos seus principais resultados: em 1936, foi campeã nos 100 m nado de costas e nos 200 m

nado de peito nos Jogos Femininos do Estado de São Paulo, registrando um dos sete

melhores resultados da natação sul-americana e, por esse motivo, integrou a seleção

brasileira nos Jogos Olímpicos; ainda em 1936, na Competição Internacional da Saxônia,

3

As reflexões apresentadas aqui são fruto de nossa pesquisa sobre a mulher nas páginas d’A Gazeta, com





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derrubou o recorde europeu no revezamento 3X100 jardas, ao lado da irmã Sieglinda e da

alemã Christensen Hoger; em 1938, bateu o recorde sul-americano nos 200 m nado de

peito, durante o Campeonato Sul-Americano; no ano seguinte, novamente no Sul-

Americano, venceu a final dos 200 m, nado de peito, batendo o recorde mundial; dois anos

depois, mais uma vez representando o Brasil no Sul-Americano, foi vencedora nos 100 e

nos 200 m, nado de peito.

Sua irmã Sieglinda classificou-se em 3

º

lugar na Travessia, em 1935, e em 1



º

, em


1936 e em 1938. Destacou-se no cenário nacional, conquistando entre outros: o 1º lugar nos

100 m nado livre e nos 400 m nado livre dos Jogos Femininos do Estado de São Paulo de

1936; um dos sete melhores resultados da natação sul-americana, no mesmo ano; o recorde

europeu no revezamento 3X100 jardas, ao lado da irmã, Maria, ainda em 1936, na

Competição Internacional da Saxônia; o 3

º

lugar nos 200 m, nado de peito, e o 1



º

nos 200


m, nado de costas, batendo o recorde sul-americano ao participar do Campeonato Sul-

Americano, em 1939; o 1

º

nos 100 m, nado de costas, novamente no Sul-Americano, em



1941. Além delas, destacamos:

Dinorah Cordts, campeã nos 200m nado costas, no Campeonato Paulista de Natação em

1941 e integrante da seleção paulista no mesmo ano;

Edith Heimpel, em 1941, campeã nos 100m nado de peito, no Campeonato Paulista de

Natação, integrante da seleção paulista e da brasileira, participando do Campeonato

Sul-Americano, na categoria nado de peito;

Elza Richter, classificada em 2º lugar nos 200m nado livre e em 3º lugar nos 200m nado

costas, no Campeonato Paulista de Natação em 1941 e integrante da seleção paulista no

mesmo ano;

Hilda Coltro, classificada em 2º lugar nos 100m nado peito, no Campeonato Paulista de

Natação em 1941 e integrante da seleção paulista no mesmo ano;

Liselotte Krauss, em 1941, campeã nos 200m nado livre, no Campeonato Paulista de

Natação, integrante da seleção paulista e da brasileira, participando do Campeonato

Sul-Americano, na categoria nado livre; e

Scyla Venâncio, que, na Travessia, ficou em 4

º

lugar, em 1934, em 2



º

, em 1935, e em 1

º

,

em 1937; além disso, integrando a equipe brasileira no Campeonato Sul-Americano,



vistas à tese de doutoramento.



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6

realizado no Rio, em 1935, bateu o recorde brasileiro do revezamento 4X100, ficando

em 2

º

lugar.



Outra forma de incentivo à natação foi o Torneio Atlético Feminino, promovido em

janeiro de 1931, pelo vespertino, em conjunto com o então Clube Germânia (atual Clube

Pinheiros). Primeira iniciativa no gênero, em São Paulo, para as adeptas do atletismo,

também revelou esportistas talentosas que, mais tarde, terão destaque no cenário esportivo,

como por exemplo Frieda Schmieder, nadadora e atleta da Sociedade Alemã de Esportes

Aquáticos, que conquistou o 2º lugar no arremesso de dardos e no arremesso de disco dos

Jogos Femininos do Estado de São Paulo de 1936. Conforme ressaltamos anteriormente,

devido ao preconceito que as famílias brasileiras têm em relação à prática esportiva, as

participantes do evento são todas de origem germânica, associadas do próprio Germânia ou

da Sociedade Alemã de Esportes Aquáticos.

Convidado a participar da organização do torneio, Max de Barros Erhart, presidente

da Federação Paulista de Atletismo, sente-se estimulado a criar eventos semelhantes.

Surgem assim, com o apoio d’A Gazeta, o Torneio Atlético Misto da Federação Paulista de

Atletismo, realizado pela primeira vez em junho do mesmo ano, e o I Campeonato

Feminino de Atletismo de São Paulo, promovido em outubro de 1931. O vespertino inovará

ainda com o Torneio Raqueta de Ouro, em abril de 1932, e com o Infância, Juventude e

Feminismo, em maio de 1933. Trata-se o primeiro, como o nome indica, de um campeonato

misto de tênis. Enquanto o segundo promove mais uma vez o atletismo, abrangendo agora

também as categorias infantil e juvenil.

O vespertino apoiará ainda os Jogos Femininos do Estado de São Paulo, em 1936,

ano, aliás, em que Cásper Líbero, pelo seu envolvimento com o esporte nacional, integra o

Comitê Olímpico Brasileiro, que prepara a ida do País aos Jogos Olímpicos de Berlim. Sua

participação é fundamental para o esporte feminino, uma vez que, por sua intercessão, as

atletas brasileiras têm, pela primeira vez, a oportunidade de estar nas Olimpíadas.

Além de promover e cobrir torneios esportivos, A Gazeta dedicava especial atenção

às conquistas femininas nos mais diferentes esportes. Em 1936, por exemplo, durante

tradicional prova automobilística que, então, era realizada nas ruas de São Paulo, deu ampla

cobertura à participação da única mulher inscrita, a francesa Hellé Nice. No mesmo ano,

enfatizou a importância da mulher ampliar mais e mais os seus domínios, ao registrar a



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formatura de mais uma turma de moças-paraquedistas na Rússia. Cada nova investida era

cuidadosamente pinçada, retratada e transformada em exemplo: a primeira mulher-árbitro

de futebol, em 1931; a magistrada e a criada, campeãs de golfe, respectivamente em 1936 e

1937; as adeptas dos esportes náuticos, em 1936.

A aviação, contudo, recebia atenção especial, resultado do grande desenvolvimento

registrado na década de 30, que a transformou em um dos principais ícones do progresso no

século XX. Seja pela coluna exclusiva, No Mundo da Aeronáutica, seja por meio dos

artigos e notas na seção feminina, a paulistana pôde acompanhar de perto as principais

conquistas, tanto dos homens, quanto das mulheres, estas, louvadas com freqüência por sua

coragem e determinação que, efetivamente, as equiparavam ao desempenho masculino. O

artigo assinado pela jornalista Elza Forte resume exemplarmente o enfoque dado pelo

vespertino em sua cobertura do assunto:

Por séculos e séculos, a fragilidade e os nervos sensíveis foram qualidades preponderantes

na mulher. (...)

Mas hoje em dia tudo se tem modificado. Saindo do marasmo em que vivia, a Eva moderna

soube fazer de si própria uma criatura fisicamente forte, aprendendo como os homens a domesticar

os seus nervos, demonstrando, pouco a pouco, que a sua coragem e o seu sangue frio podiam ser

postos à prova.

Começaram [sic] guiando automóveis, não parando, porém, aí: foram [sic] além, dedicando-

se também à aviação, que se dizia imprópria e perigosa para os próprios homens... E foram também

dela as sensações das alturas vertiginosas, das descidas velozes, dos “loopings” estonteantes, que

até aí só tinham sido dos homens...

A tudo isso ela se entregou não somente com ardor, mas também com valor, demonstrando

poder rivalizar com os melhores pilotos e os melhores técnicos e tendo dado sobejas provas do seu

sangue frio, da sua capacidade, da sua coragem e da sua resistência física. Enão se diga que o que

afirmamos seja um exagero, pois para prová-lo aí estão os feitos de tantas aviadoras, que são

diariamente divulgados pelos jornais

4

.

E conclui: “a mulher (...) tem na aviação moderna um papel preponderante e de tanto



valor quanto o homem”. A brasileira vê assim passar diante de si um “desfile” de jovens

corajosas, intrépidas, transformadas em exemplo a ser seguido pelas mulheres modernas,

nas mais diversas carreiras. E sua vida é acompanhada com o destaque somente dedicado às



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8

artistas de cinema. A organização de um novo raide, cada recorde estabelecido, os

acidentes, tudo é registrado. Entre as “divas da aviação” estão as americanas Amélia

Earhart, primeira a atravessar o Atlântico Norte (do oeste para leste) e o Pacífico, sendo

premiada pela Liga Internacional dos Aviadores como um dos melhores pilotos de 1935; e

Jacqueline Cochran, considerada a melhor aviadora de 1938, pela Liga Internacional de

Aviadores, e primeira a pilotar um Hudson de bombardeio, conduzindo-o dos Estados

Unidos à Inglaterra, em 1941; as inglesas Amy Johnson, que, em 1932, estabeleceu novo

recorde no trajeto Cidade do Cabo – Londres, e que, durante a Guerra, foi chefe do

Conselho da Reserva Aérea Feminina, na Inglaterra; e Beryl Markhan, primeira a atravessar

o Atlântico Norte, de leste para oeste; as francesas Deutsche De La Meurthe, vice-

presidente do Aero-Clube da França e presidente do Clube Roland Garros, na década de 30;

e Marise Hiltz, primeira a chegar a Tókio, vinda da Europa, premiada pela Liga

Internacional dos Aviadores como um dos melhores pilotos de 1935; a alemã Elly

Beinhors, primeira a sobrevoar sozinha os Alpes; e a neo-zelandesa Joan Batten, primeira a

atravessar o Atlântico Sul e primeira a ser condecorada, em 1937, pela Federação

Aeronáutica Internacional pelo maior feito do ano – vôo recorde da Inglaterra à Austrália.

A maioria esmagadora é de estrangeiras, uma vez que a aviação, no País, apenas

engatinha. Mas, as poucas brasileiras são, sempre que possível, enaltecidas pelo vespertino.

Temos:


Thereza de Marzo, primeira aviadora brasileira, brevetou-se em 1922, pelas mãos de

Fritz Roesler;

Anésia Pinheiro Machado, que também se brevetou em 1922, pelas mãos de Reynaldo

Gonçalves e, em 1941, faz seu vôo de despedida;

Edméa Dezonne, primeira aviadora brevetada em Santos, em 1940;

Joana Martins de Castilho, que, aos 14 anos, completados em 1940, era a mais jovem

aviadora brasileira, tendo vencido as provas de vôo acrobático, disputadas no Rio, como

parte do programa comemorativo da Semana da Asa, no mesmo ano; e

Rosa Helena Shorling, que, na mesma ocasião, venceu as provas do circuito Cruzeiro

do Sul (regularidade sobre a cidade).

4

Elza Forte. O Valor da Mulher na Aviação In: A Gazeta, 26 de outubro de 1936.





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A Gazeta e a prática esportiva feminina: dos reflexos econômicos aos sócio-culturais

A ampliação da participação feminina no mundo dos esportes leva a uma profunda

alteração sócio-cultural e econômica, nos mais diversos níveis, cuidadosamente

caracterizada pelo vespertino. Sua cobertura jornalística demonstra, por exemplo, que se,



no início, a aviadora tinha por objetivo a quebra dos limites de altura e distância, num

segundo momento, começa a lutar por seu espaço na aviação comercial e na militar. Da

mesma forma, ressalta que as mulheres passam dos volantes dos carros de prova à direção

dos bondes e ambulâncias. Dessa forma, A Gazeta revela como a prática esportiva vai

desmontando pouco a pouco o mito do sexo frágil e vai contribuindo para que a mulher

amplie sua participação no mercado de trabalho, a exemplo do que ocorre no esporte.

O mundo da moda é outro a sentir de perto os reflexos da intensificação da prática

esportiva feminina. A primeira reação é a de se adaptar às necessidades impostas pelos

novos hábitos. Surgem roupas próprias à cada modalidade esportiva, todas, contudo, com

uma preocupação comum: facilitar os movimentos do esportista. Nas suas páginas

femininas, A Gazeta destaca as novidades que a moda internacional coloca à disposição da

mulher. As matérias começam a falar em praticidade, conforto, simplicidade – discurso

característico da moda contemporânea -, mas destacam sempre a feminilidade. O vespertino

preocupa-se assim em tornar essa nova moda atraente aos olhos da mulher, principalmente

aos daquela que ainda está reticente em relação ao esporte, por medo de se tornar

masculinizada.

Na Europa e nos Estados Unidos, a moda esportiva começa a deixar as quadras, pistas

e piscinas dos clubes para invadir as ruas e praias, influenciando na criação de uma moda

mais despojada e descontraída para os momentos de lazer. A seção feminina d’A Gazeta

publica fotografias de européias e americanas nas ruas e praias, ilustrando esse novo modo

de se vestir. Destaca nas legendas a confluência da moda esportiva com os tempos

modernos, sinônimo de agilidade e praticidade. Enquanto isso, as articulistas ressaltam que

é possível adotar as roupas esportivas sem perder a feminilidade e a elegância, atacando de

frente o preconceito das brasileiras: “Observadas inicialmente as condições de segurança,

desembaraço, facilidade de esforço, pode-se então cogitar do embelezamento do traje (...)”,

afirma a jornalista que, sob o pseudônimo Cinderella, assina semanalmente uma coluna



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sobre moda na seção feminina, nos anos de 1929 e 1930. E continua assim sua análise dos

trajes esportivos, especificamente, neste caso, os de montaria:

Existem vestuários modernos que resolvem da melhor maneira possível o problema [da

praticidade e comodidade aliadas à elegância]. São calças inteiramente ocultas por saias semi-

longas abertas na frente, mas cuja abertura é disfarçada por um transpasse amplo. Postas as

perneiras (...), tem-se um gracioso traje de montaria americana; retiradas as mesmas o vestido

singelo tanto pode servir para ciclismo, automobilismo ou excursões alpestres, como para danças

ao ar livre, chás dançantes agrestes ou partidas de tênis

5

.



A Gazeta vai então se servindo da moda para gradativamente associar o esporte a um

novo modo de vida e à beleza. Nessa perspectiva, surgem os primeiros artigos que

vinculam diretamente esporte e beleza. Tais artigos podem vir na coluna sobre beleza, na

coluna de moda, na específica sobre cultura física ou ainda nas colunas de variedades,

dependendo do enfoque que trazem.

Num primeiro momento, os textos destacam as possibilidades de modelar o corpo a

exemplo desta ou daquela atriz de Hollywood – referência dos padrões estéticos da época.

Um dos principais argumentos, a que freqüentemente se recorre, é contundente: a beleza

não é privilégio das estrelas, mas está ao alcance de qualquer mulher e a chave para isso é o

esporte. Mathilde D. Rocha que, em 1932, assina uma série de artigos sobre o tema,

publicados ao lado dos editoriais na página 2 do vespertino, alerta “Toda mulher pode ser

bonita. (...) Toda mulher possui, em grau maior ou menor, graça e encanto feminis. É

preciso, todavia, que saiba conservá-los e desenvolvê-los

6

”. E continua, apontando o



“caminho da perdição” e o “caminho da salvação”:

As enfermidades, os micróbios e a velhice, à semelhança de inimigos ocultos, estão a

espreitar e a ameaçar o organismo humano, e mais depressa será combalido e vencido aquele que

não estiver em condições de defender-se.

E se o sexo masculino é incitado e aconselhado a praticar o esporte, a movimentar-se ao ar

livre, repousar, alimentar-se convenientemente etc., a fim de evitar a morbidez física, quanto mais

não o necessita a mulher (...)

7

.



5

Cinderella. A Moda

In: A Gazeta, 22 de abril de 1930.

6

Mathilde D. Rocha. Toda mulher pode ser bonita In: A Gazeta, 2 de março de 1932.



7

Idem.




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11

Mathilde reforça sua tese com o exemplo de países como a Inglaterra, a Alemanha e

os Estados Unidos, onde as mulheres, desde a infância, são incentivadas a se dedicarem ao

esporte. E para defender-se daqueles que condenam a prática esportiva feminina, Mathilde

recorre à admirada e respeitada cultura grega: “Na Grécia, (...) as mulheres belas eram

apreciadas como divindades, e para atingir a máxima perfeição do seu corpo, aquele povo,

amante do belo, se dedicava com ardor à ginástica e a outros exercícios ao ar livre

8

”. E


desafia: “(...) se em épocas remotas a mulher se dedicou aos exercícios físicos, a fim de

manter, aperfeiçoar e embelezar as linhas corpóreas, por que então censurar ou olhar com

malevolência as que hodiernamente desejam praticar ginástica e treinos ao ar livre, que lhes

aumentam a beleza (...)?”

A mulher é convocada a transformar seus hábitos diários. Mathilde lembra que a Miss

Estados Unidos 1929 “praticava com ardor a ginástica e toda espécie de jogos ao ar livre.

Não tomava café ou outras bebidas estimulantes; não freqüentava festas, bailes ou

espetáculos noturnos; estudava entre as flores e nos campos; deitava-se cedo; via o sol

nascer, tinha regime alimentar (...)

9

”. Várias rotinas de exercícios são propostas a fim de



que a leitora possa optar por aquela que mais se adequa ao seu dia-a-dia e temperamento.

Até mesmo a mulher que trabalha fora – podemos dizer que a exceção dos anos 30 e 40 – é

lembrada com matérias do tipo “Um bom exercício para as mulheres que não podem

praticar uma ginástica diária – pular corda”, publicada a 13 de julho de 1936, na Página



Feminina. A reportagem enfatiza que toda mulher deve praticar esporte. Inclusive e

sobretudo a mulher de vida sedentária, que passa o dia trancafiada num escritório ou em

outros espaços fechados, apesar das dificuldades em encontrar um tempinho. Como?

(...) A resposta é muito fácil. (...) Há certos exercícios que, sem requerer muito tempo das

que praticam, são excelentes meios para conservar nas mulheres a sua flexibilidade, a sua esbelteza

e, conseqüentemente, a sua juventude. Um deles é o de se pular corda, durante dez minutos, todas

as manhãs e, em seguida, [tomar] um banho frio. Pensem bem as leitoras: somente dez minutos por

dia e muita gordura superflua desaparecerá, dando ao corpo a esbelteza com que sonham todas as

mulheres. Se, durante o verão, conseguir praticar um pouco de natação, então o quadro estará

completo (...).

8

Mathilde D. Rocha. A mulher e o esporte In: A Gazeta, 19 de março de 1932.





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Com a aproximação do verão, são incentivados os esportes náuticos, a natação e

aquelas modalidades que podem ser praticadas ao ar livre. Nessas matérias, começa-se a

tratar a prática esportiva não apenas como forma de alcançar e manter a beleza, mas

também como fator fundamental para uma vida saudável. No verão, principalmente, busca-

se em tais artigos e reportagens contextualizar o esporte num quadro mais amplo de

comportamento moderno, que visa o desenvolvimento pleno – e portanto saudável – do ser

humano, a exemplo do que se tornou tendência na imprensa a partir dos anos 80. A mesma

receita, com pequenas variações, é repetida em inúmeros textos (que poderiam ter sido

escritos hoje): acordar cedo, fazer exercícios – de preferência ao ar livre -, fazer refeições

mais leves, beber muito líqüido, usar roupas adequadas e dormir cedo. Os alertas também

se repetem: cuidado com os excessos de sol, de rigor na dieta e de exercício! Curiosamente,

os mesmos que se lêem na imprensa atual.

É interessante observar que A Gazeta, ao se preocupar com as conseqüências da

prática esportiva em excesso no corpo feminino, se aproxima, por um lado, das críticas

mais recentes registradas pela imprensa atual, enquanto, por outro, alinha-se com

preconceitos muito em voga nas décadas de 30 e 40, aos quais ela própria combatia. O

mesmo artigo que nos serviu de ilustração no início deste ensaio oferece-nos um bom

exemplo:

Não demorará muito para que certas filhas de Eva, dotadas de vigor físico, se julguem com

capacidade para se dedicar ao futebol, ao “rugby”, a corridas longas, - e por que não dizer? – ao

“catch-as-catch-can” e ao box...

E, se esses esportes violentos são considerados prejudiciais aos próprios homens, o que não

se dirá de sua influência maléfica sobre o organismo mais delicado das mulheres?

10

Uma certa dose de preconceito é plenamente justificável se pensarmos na posição



vanguardista do vespertino ao vir em defesa da prática esportiva feminina: diante de idéias

tão novas é natural se observar uma espécie de “junta de dilatação”, que permite, dentro de

alguns limites, avançar e recuar nas posições. Por outro lado, a crítica aos excessos

9

Idem.



10

Elza Forte. A Mulher e o Esporte In: A Gazeta, 23 de março de 1936.





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13

continua até os dias de hoje. Por isso, quando o artigo afirma que: “(...) conforme andam as

coisas, chegaremos dentro em pouco ao exagero, prejudicial às próprias mulheres. É

justamente esse exagero que cumpre evitar”. Para depois concluir: “é preciso chegar tão

somente aí [corpo são e mente sã] e praticar esportes bem orientados e na devida medida”,

resta-nos apenas sorrir diante da ousadia de um jornal que, nos anos 30, ousou se dirigir à



mulher do ano 2000.

BIBLIOGRAFIA

AUSTREGÉSILO, Athayde. Perfil da Mulher Brasileira: Esboço Acerca do Feminismo



no Brasil, 2º edição, Rio de Janeiro, 1937.

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