Rosa, João Guimarães



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ROSA, João Guimarães. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizarri. 3ª. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

O tradutor como ciclope, a tradução como jogo

1. Um idioma que aceita pouco = “Traduzir para o italiano, sei que é das proezas mais difíceis, é idioma que “aceita pouco”, conforme li, não me lembro onde nem quem. E, mesmo assim a façanha se fez !” GR  EB , 21/11/62, p. 17


o autor corteja o tradutor!!
2. A crítica do tradutor como confirmação para o autor = “Assim, pode imaginar como já estou pedindo a Deus que lhe permita, e mesmo o instigue, constranja, force, obrigue a levar a cabo o ensaio de interpretação sobre toda a minha obra. Já o sonho! – e não por simples vaidade, creia. Mas a gente está sempre precisando de coisas sérias, assim, como conformação e para ajuda.” GR  EB , 21/11/62, p. 18
3. Traduzir é .... = “Tinha decidido encerrar definitivamente minhas experiências de tradutor. Traduzir é praticar um exercício de estilo, uma pesquisa de interpretação; é, afinal, um ato de amor, pois trata-se de se transferir por inteiro numa outra personalidade.” EB  GR , 03/12/62, p. 19
O tradutor entre a vaidade e a obrigação
4. A vaidade do tradutor = “Tudo certo. Mas aqui chegou a sua carta, acordando a amizade e a vaidade, e, com elas, vaidosas preocupações. Será que Grande sertão: veredas, ou outra obra do Guimarães Rosa, vai cair nas mãos de um tradutor inexperiente, que a estrague mais do que é inevitável, ao vertê-la para o italiano? E na luta entre meus velhos problemas e o que me se afigura como dever de amigo, encontro-me numa aflição tremenda. Da qual posso sair só abrindo o coração à sugestão da amizade e deixando, com a sabedoria da terra, a decisão final ao acso. Autorizo portanto o ilustre Amigo...” EB  GR , 03/12/62, p. 19
5. O autor ansioso = “Agora, se a coisa pega – e por que não haveria de pegar? – sei que as traduções italianas de meus livros poderão ser, de longe, as muito melhores, as “melhoríssimas” ! Então, lhe estou grato, agradecido vivamente, por tudo, pelo futuro Ensaio também; sua boa-vontade desperta em mim uma ganância, uma avidez descomedida...” GR  EB , 25/01/63, p. 20, 21
Continua o cortejo ao tradutor
6. Juras ao tradutor = “Agora, o importante : não sei porque, só por palpite, estou pensando que o melhor é Você não responder imediatamente à Feltrinelli, mas esperar um pouco, até que Mondadori se manifeste. Que é que Você acha? Se Você puder ficar com os dois, melhor ! Se não, porém, estou sentindo que talvez preferiria Você com o “Grande Sertão: Veredas”, coisa maior e mais retumbante. Naturalmente, o que Você pensar e preferir, está ótimo. Isto aqui são apenas bolhas e borbulhas de minha emoção e afobamento, entusiasmadíssimo de ver que as coisas vêm vindo para Você ser o meu tradutor na Itália ! No mínimo, rezo para você ser um ciclope, e pegar os dois livros, logo, um em cada mão.” GR  EB , 01/03/63, p. 22; cotejar p. 37
O tradutor se rende
7. O tradutor ciclope = “Ganhei complexo de ciclope? Deus sabe. Eu sei que ciclópicas são apenas a minha admiração para o Guimarães Rosa e a vontade de que seja devidamente apreciado na Itália.” EB  GR , 07/03/63, p. 23
Continuam as loas ao tradutor
8. O parentesco entre autor e tradutor = “Creia, meu caro Bizarri, chega a constranger-me ter de louvá-lo, assim direta e superlativamente ; mas, como poderia eu ficar calado ? Lido, agora, em livro, limpo e definitivo, seu texto me parece simplesmente mágico. As palavras ficam tão belas, que fico ansioso por estudar mais o italiano, a fim de segui-las até o lontano. Quanta escolha, quanta vida, quanta sutileza, quanta energia. Com a mesma mão com que Você dá pouso a beija-flor ou acaricia uma borboleta, também pode demolir um búfalo com um murro. Depois, e mais que tudo, eu sinto que há uma correspondência íntima, um tom anímico de família, um parentesco entre nós dois: eu “continúo”, no texto seu italiano, e, não duvide, e muitas passagens me sinto superado, ultrapassado. O ritmo, a dinâmica, os timbres. Bem, não sei dizer mais.” GR  EB , 05/04/63, p. 26
A irmandade
9. O tradutor a caminho, atravessando águas = “Por último, A NOTÍCIA: chegou anteontem o contrato do Feltrinelli, já assinado, e hoje mesmo volta para a Itália, registrado aéreo. Alea jacta est, guardadas as devidas proporções. Só que o meu Rubicão não é um riachozinho, mais pedras do que água, transponível sem se molhar os pés, como aquele que originou a metáfora; mas um verdadeiro São Francisco, enorme, com águas profundas, as margens que se perdem no horizonte; e nele vou entrar, diria Dante, que “in piccioleta barca”, ou melhor, diria o nosso caipira, numa canoa furada. Que Deus me ajude. Basta; em todo caso, a nossa irmandade está agora selada com novo elo, e a futura correspondência fadada a disquisições semânticas e lexicais.”

EB  GR , 20/05/63, p. 32


10. O espanto =

“De volta de Roma – onde enfrentei um calor horroroso em companhia de Miguilim e Manuelzão – aqui estou de novo, e encontro a notícia da triunfal eleição do Amigo para a Academia.

Quanto à tradução estou com inúmeros problemas; não vou ficar desanimado ou arrependido, mas meio espantado, sim.” EB  GR , 18/08/63, p. 35; cotejar p. 51
11. O jogo = “Tanto é verdade o que digo e sinto, que duas preocupações me invadem, agora nesta resposta. Primo : fico com pena de ter de entrar no jogo, ainda que apenas com primárias indicações, sem importância, porque quero guardar-me para o formidável prazer de comer o “doce” pronto, isto é, de ver como prestigiará V. o “Corpo de Baile”, com sua manipulação pessoal e corajosa. Segundo : de um modo menos egoísta, vejo que coisa terrível deve ser traduzir o livro ! Tanto sertão, tanta diabrura, tanto engurgitamento. Tinha me esquecido do texto. O que deve aumentar a dor de cabeça do tradutor, é que : o concreto, o exótico e mal conhecido ; e, o resto, que devia ser brando e compensador, são vaguezas intencionais, personagens e autor querendo subir à poesia e à metafísica, juntas, ou, com uma e outra como asas, ascender a incapturáveis planos místicos. Deus te defenda.” GR  EB , 11/10/63, p. 37, 38

[...]


“2. – NOMES PRÓPRIOS. – Exato. Assim também é que eu pensava : V. deixando uns como estão, e traduzindo outros. Ou, mesmo, “inventando”. Quando entra seu “critério exclusivamente pessoal, arbitrário e fônico”, fico alegre e tranqüilo. Nele é que eu, sinceramente, confio.” GR  EB , 11/10/63, p. 38

[...]


“Bem, meu caro Bizarri, escrevi isto tudo de um arranco, e estou esvaído, demolido. Mas não queria retardar, nem um momento, a nossa retomada auspiciosa do contacto. Da pressa, o desordenado desalinhavo, de tudo. Será que estou sendo útil a Você?

Retome a mão, faça a segunda jogada.”

[...]

“P.S. – Já ia me esquecendo do Coco do Chico. Eis :



Verso 8 – Suponho que seja um desses meninos que guiam os cegos pedidores de esmolas, pelas estradas, e vão guardando, numa sacola ou capanga, o dinheirinho arrecadado.

Verso 10 – A tampa do balaio, ou do cumbuco : recipiente de chifre, para rapé, etc.

(Como Você vê, eu mesmo não sei. Ouvi esse coco, no sertão, e, justamente pela poesia de sua estranha mixórida, ele me impressionou vivamente. Não escaparão a Você os requintes, absolutamente imprevistos: “o pé” da mulher, o “sapato” – toque anacreôntico. Mas, principalmente, traduz ele, de modo cômico aparente, mas cheio de vitalidade, uma ânsia de posse da totalidade, do absoluto, da simultaneidade e plenitude, eternas. O cantor, ele mesmo, reconhece que os outros, os comuns e medíocres, o tomam por louco. Mas ele, assim mesmo, persiste em querer tudo : o conteúdo e a própria caixa de Pandora – até sua tampa ! – e seja ela o que for : balaio ou cumbuco...) ” GR  EB , 11/10/63, p. 42, 43

[...]


“11.p. 51. [64] linha 11 [29]: “Céu-de-Lalau” (inferno? Mas quam é o Lalau?)

Confesso que a expressão existe, mas não sei de que Lalau ela vem. (cielo-de-ladri – ?) Como por lá eles têem a interjeição – Babau ! para indicar que alguma coisa levou a breca, mais ou menos como o – Kaput ! – alemão, pode ser que venha daí...

GR  EB , 11/10/63, p. 45; seguem várias explicações
12. As dúvidas em aumento = “Meu caro Guimarães Rosa,

Recebi ontem a sua de 11 do corrente. Obrigadíssimo. E aqui vai, sem delongas, a segunda jogada. Confiava, progredindo na tradução, reduzir o número das “dúvidas”. Parece que está acontecendo o contrário. A luta com o concreto, o exótico, o termo no seu sentido material e na sua ligação etimológica é, de fato, brava; mas preciso enfrentá-la e esmiuçar tudo, para depois tentar chegar à reconstrução da mensagem poética. Chegarei? Deus sabe. Por enquanto, cem vezes por dia, me dá descordo. Teimosia, talvez, de um tri-tri-tris-etc.-neto dos construtores de aqueductos. [...]

Deixo, desta vez, de lado os probleminhas de ordem geral. Ficam para a próxima jogada.” EB  GR , 17/10/63, p. 50
13. O tradutor sertanejo = “Quanto à nossa festinha, se V. não se importar e não houver inconveniência, acharia melhor adiá-la para depois, terminada a tradução; neste período penso que estou sertanejo demais para isso.” EB  GR , 17/10/63, p. 51
14. Os sócios = “Meu caro Bizarri,

Aqui vem a segunda, com prazer. O retardo foi porque andei não passando muito bem, na semana passada ; a hipertensão arterial, lábil, faz dessas coisas. Vá mandando, sem cerimônia, certo de que toda dúvida é fecunda. E de que, nós dois, juntos, seremos fortíssimos, invencíveis. Você não é apenas um tradutor. Somos “sócios”, isto sim, e a invenção e criação devem ser constantes. Com Você não tenho medo de nada !”

GR  EB , 28/10/63, p. 51
15. Não sei = “Albuquerque papagaios – (p. 26[255], l. 10ª. última [1]) – Ouvi assim, mas não pude saber o que era. Há uma sugestão de firmeza e força, na palavra, e no tom com que o contador a proferia. Talvez se prenda à importância de uma família e estirpe, dos Albuquerques, sertanejos, gente valente e brava.” GR  EB , 28/10/63, p. 58, 59

Ver também p. 59 = “Mas, o verbo sarajava, eu o ouvi, e o contador não soube explicar-me o que é. Verbo só em aa, belíssimo !”


16. Traduzir é... = “Aqui estou, antecipando-me na terceira jogada, para preencher o oco da vagarice do correio. [...]

O Coco do Chico é de fato bem gostoso; mas daqui a dizer que possa ser traduzido... Em todo caso, tentei transpô-lo para o italiano. E aqui vai a minha tentativa: procurei dar o ritmo, a rima, o gosto das aproximações inesperadas, o sentido geral e jocoso do absurdo anseio humano, fugindo forçosamente de uma tradução ao pé da letra. Acha que pode servir? Inclusive a rápida explicação que o acompanharia, em substituição à sua? Sem receios. V. concordando, penso que ficaria bem como epígrafe da estória de Lélio, pois Lélio também quer das coisas o miúdo e o inteiro, demais.

Por hoje é só. Estou afobadíssimo. Às voltas com “Dão-Lalalão”, e meio desanimado: mas é mais por causa de meu pobre italiano que de seu exuberante português. Desculpe a amolação e aceite o abraço amigo de, E.B.

EB  GR , 30/10/63, p. 60, 61


17. O jogo segue e novas loas = “Já estou gostando do jogo, embora às vezes me pareça acusador exame-de-consciência, para penitência de antigos pecados.

A tradução do COCO saiu fabulosa, formidável, estupenda, incrível. [...] Não sei, mas V. para mim cresce a cada momento. Parodio a Bayer: ...“Se é Bizarri – é bom” ! Você é um mistério. V., em tudo, me permite o puro prazer de admirar. Não há linha, nem coisinha, de sua lavra, que não me dê o “frêmito”. Tenho recebido, já editadas ou ainda datilografadas, peças de tradutôres meus, em francês, italiano, inglês, norte-americano, alemão, “austríaco”, espanhol e “uruguaio/argentino” (platenho) ; tudo bem, em geral, mas sem transmitir-me essa imediata sensação de invulnerabilidade e plenitude, de façanha acabada e perfeita, ida ao limite – que o que V. escreve me traz. E, como isto que digo não é euforia egocêntrica minha, nem lisonja barata, mas constatação sincera, fico pensando. Que predisposição é esta ? Alguma espécie de correspondência anímica, ou de igual cumprimento-de-ondas de sensibilidades ? Sinto-me com vocação para ser...seu discípulo.” GR  EB , 06/11/63, p. 61, 62; seguem várias explicações


18. As armas do tradutor =

“Meu caro Guimarães Rosa,

Coragem! Quarto e quinto rol de “dúvidas” ( e as outras? As desapercebidas, as desinterpretadas, os enganos? Deus nos acuda, nem quero pensar) vão de uma vez, num arranco, confiando no seu entusiasmo e embalo didático. Gosto que não desgoste do jogo; pois suas elucidações têm, para mim, grande valor de orientação poética, ainda mais do que lexical.

Agora vou entrar na tradução de “Cara-de-Bronze”. Ainda não enfrentei, firme, o problema, mas duvido que as relações de nomes de plantas e bichos, e de gritos dos vaqueiros, possam ter tradução cabível em outra língua. O que é que V. acha? O glossário está se tornando um verdadeiro monte-de-mato. Que fazer? Estou soropitando. Diabos dos problemas. Vou deixar tudo para depois da terminada a tradução bruta, na hora da revisão final e limpeza.

Até breve: os vaqueiros do Urubúquaquá estão me esperando; gente brava e complicada. Um abração, E.B.

P.S. – Nas “dúvidas”, procurei deixar espaços mais convidativos. Estou abusando?”

EB  GR , 07/11/63, p. 67, 68.
19. Sobre a estética de GR, influências e método de composição =

p. 69-84 = explicações de GR sobre as palavras escolhidas: “Valeu, no texto, pela rima, ritmo, aliteração. E pelo agudo, insistido, da vogal i.” (70); “grande valor, de som e de aspecto, sinto nesta palavra” (72); “”Mais usado, principalmente, pela expressiva carga de estranheza e mistério, por causa da sonoridade e do aspecto,e não menos, por ser palavra nova, desconhecida, inventada” (73); “Consultei entretanto, agora, 6 livros de Botânica, e dele não pude encontrar a mínima menção” (75); “inidentificável” (75); “inidentificado” (75); “Usei também pela beleza física da palavra” (75); “planta afrodisíaca que não consegui identificar” (76); “azedim = não consegui identificar a planta”(77); “Bronzes [...] Além disso tudo, e talvez principalmente, porque a palavra, em si, é fortíssima : com o grupo consonantal BR e o ON nasal e mugidor...” (79);



GR EB , 18/11/63, p. 68-79

“Aqui – pleno delírio do autor, ao que hoje me parece.... – creio que Você terá que omitir a maluqueira” (81); “O Zambezão = inventei. Porque podia ser um “monstro africano” (De Zambeze, o rio, de nome sugestivo). O quibungo-branco = Este, existe. Isto é, existe o QUIBUNGO. Monstro,devorador de meninos, das lendas africanas, trazidas pelos escravos. Deve ser entidade da mitologia bântu.” (85)

Cânticos dos Cânticos; Apocalipse; DANTE;

GR  EB , 19/11/63, p. 81-85


20. A fórmula da transculturação = “Continuando. Para não ficarem de-todo arbitrárias as representações imaginadas ou “entrevistas” naquele revolutear fantomático de poeira espectral – e devendo trata-se de espectador rude, roceiro inculto, – alguns elementos básicos, estes, sim, foram utilizados : à moda ou ad instar de “cavalo-de-enxerto”, de planta rústica que serve para receber os enxertos exóticos. Por exemplo:

Onhã-ã = anhangá (o diabo dos índios tupis e guaranís, dado em forma de propósito deturpada, reduzida a “fórmula”). Além disso, visando a uma possível e ampliada ressonância universal, isto é, atendendo ao que já disse a V., a respeito de acorde, cacho, multiplicidade de conotações, empastamento semântico, há Ngaa, o adversário do Criador (do mundo e do homem), conforme um mito espalhado na Sibéria, sobretudo entre os Tártaros do Sul. Ngaa é “a morte personificada”. Alem disso, em NHÃ-Ã (nhã-ã, nhanhan) reluz o “esqueleto”, o substrato de nenhum, ninguém, etc. = isto é, o nada, a negação = o mal, o Diabo.

GR EB , 19/11/63, p. 84, 85

*** nas páginas 86 e 87 continua explicação sobre seu processo de criação; o escritor troca de papel com o tradutor


21. Traduzir interpretando = Mas um arranco e aqui vão as perguntinhas ligadas a “Cara-de-Bronze”; quando possível, não sendo amolação demais, gostaria de esclarecimentos na base etimológica: orientam melhor para traduzir interpretando. O que é que vamos fazer com as notas? [...]

“Estou entrando na tradução de “Buriti”, que é mesmo compridão (nem tenho aqui januária para beijar, nem butiri para contemplar), e os ossos do ofício, muitos e chatos (Consulado, Instituto e outras besteiras), infelizmente me deixam pouco tempo e pouquíssimo sossego.” EB  GR , 21/11/63, p. 88


22. O processo criador = GR explica seu processo de criação, em que busca a ajuda de vários críticos para entender sua própria obra.... GR  EB , 25/11/63 p. 89-95
23. A sugestão do autor = “P.S. – Mas, não é que ia me esquecendo do principal ? Pois, o mais importante é dizer a Você que, no “Cara-de-Bronze”, por tantos motivos, é onde Você poderá ter mais liberdade. Para acentuar mais, o que achar necessário. Para omitir o que, numa tradução, venha a se mostrar inútil experiência. Para deixar de lado o que for intraduzível, ou resumir, depurar, concentrar. Obrigado ! G.R.”

GR  EB , 25/11/63, p. 95.


24. O método de “Procusto (alongar as palavras?) = “Infelizmente, o habitual sistema à “Procusto” não adianta muito neste caso, pois inúmeras são as minhas ignorâncias. Achei, portanto, mais rápido e conveniente transcrever o trecho que derrotou todos os meus brios de tradutor, sublinhando com traço inteiriço o que não entendo de todo e com traço alternado o que entendo muito duvidosamente. O que não está sublinhado é só presumido entendimento.” EB  GR , 30/11/63, p. 96
**Procusto = da mitologia grega, tipo cruel que costumava esticar ou amputar os hóspedes recebia em sua casa. Ver wikipedia.
25. O tradutor como crítico literário = EB  GR , 03/12/63, p. 98
26. O autor traduzindo = “Nada de sentimento de culpa. Você jamais me decepcionará. Porém, para melhor tranqüilizá-lo, digo a verdade a Você. Eu, quando escrevo um livro, vou fazendo como se o estivesse “traduzindo”, de algum alto original, existente alhures, no mundo astral ou no “plano das idéias”, dos arquétipos, por exemplo. Nunca sei se estou acertando ou falhando, nessa “tradução”. Assim, que me “re-traduzem para outro idioma, nunca sei, também, em casos de divergência, se não foi o Tradutor que, de fato, acertou, restabelecendo a verdade do “original ideal”, que eu desvirtuara...[...]

Por exemplo : concordo, inteiramente com Você, a respeito de eliminarmos as notas de pé-de-página. [...] As sobre árvores e plantas, e animais [....] deixo inteiramente à sua decisão – sobre se devem ser omitidas, em todo ou em parte. Apenas a da página 613 [165/166] é que poderia ser conservada ; mas, mesmo assim, se Você achar vantagem. A orientação válida é mesmo aquela – de só pensarmos nos eventuais leitores italianos. Não se prensa estreito ao original. Vôe por cima, e adapte, quando e como bem lhe parecer.” GR EB , 04/12/63, p. 99, 100


27. A invenção e o processo criador =: “As Cantigas do sertão existem, ou são invenção minha? Invenção minha.” GR  EB , 04/12/63, p. 100

**explicações pag. 100-109; ver especialmente 101,103, 104 e 105.


28. O método = “Tudo ótimo. Coraggio ! Você é que é um homem temível-terrível – graças a Deus. E o Chefe Zequiel, um pobre-de-Cristo, semi-enlouquecida sua ignorância. Vamos ver se o deciframos, um pouco, ao longo de alguma de suas possíveis “variantes”, e até onde. O melhor, creio, sempre é a gente partir o difícil em reles pedacinhos.” GR  EB , 10/12/1963, p. 104
29. Novas confissões do autor = ““visargo” Antes de tudo : não é uma palavra estranha, forte, mágica, cheia de dinâmica de mistério? Pode ser feiticeiro ou dono de arcanos ou ultra-lúcido ou tantas coisas mais.” (116); “Confesso que não sei bem, exatamente” (116); “Não sei bem. Parece-me mais genérico...” (117); “Talvez. Pode ser, com vantagem”(117); GR  EB , 02/01/1964

** o tradutor corrige o tradutor: seja na epígrafe ao Coco, seja apontando nome errado na pág. 118.


30. O autor se explica ao tradutor = “As palavras em preto, ou sublinhadas com tracinhos, mostram minha ignorância do italiano ; assim como não sei qual o bom diminutivo de Francesco.) O importante é enriquecer a coisa com “humor”, menos importante a estricta equivalência.” GR  EB , 03/01/1964, p. 124
31. O tradutor, leitor ideal = ver p. 126 anotações de possíveis equívocos na obra de GR por EB. EB  GR , 15/01/64, p. 126; cotejar com pag. 131.
32. Os finais = “P.S. – Será também um pouquinho de covardia... ou é mesmo só confiança e admiração, como acho, - o que vejo que estou, no mais íntimo, desejando : que o livro, em italiano, tenha um tanto mais de Bizarri e um tanto menos de Guimarães Rosa?” GR  EB , 20/01/1964, p. 134; ver pag. Anterior, sobre o vazio pós-tradução..
33. A via crucis pelo sertão e a despedida = ver longo texto pag. 151, 152.
34. Novas investidas do autor sobre o tradutor = pag. 154-164; pequenas correções do autor e as palavras sem dicionário, pag. 164, 165;

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