Às desordens e aos sentidos: a narrativa como problema de pesquisa



Baixar 79.62 Kb.
Encontro27.07.2018
Tamanho79.62 Kb.

Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação





Às desordens e aos sentidos: a narrativa como problema de pesquisa1

Fernando Resende 2



Resumo: Este artigo pensa a narrativa como um problema de pesquisa e busca contribuir para a compreensão de que, além de uma questão de ordem metodológica e relativa aos objetos, o olhar para as narrativas demanda uma reflexão de natureza epistemológica. Assim, o domínio discursivo no qual o jornalismo está imbricado o deixa atravessado por um paradoxo: dar a ver o mundo que, na sua totalidade, por meio da linguagem, é inapreensível. Parte-se deste problema para sugerir a premência de assumirmos uma postura epistemológica crítica que suspeite de princípios dados como fixos, na medida em que considerar a narrativa como lugar de produção de sentido é também entendê-la como objeto que produz conhecimento. Por este viés, o jornalismo é compreendido como um conjunto de problemas, orientações, intenções e dizeres que, pela via do discurso, dá a ver o possível do mundo. Somente assim se pode compreendê-lo a partir de suas narrativas, plenas de ordens e desordens, aprisionamentos e potencialidades.

Palavras-Chave: jornalismo 1. narrativa 2. pesquisa3.


Apontamentos iniciais

Este artigo propõe pensar a narrativa como um problema de pesquisa no jornalismo e busca contribuir para a compreensão de que o olhar para as narrativas, neste campo específico, demanda uma reflexão de natureza epistemológica. Antes mesmo de anunciar uma questão de ordem metodológica e relativa aos objetos de que lançamos mão para compreender o jornalismo, ao pensar e problematizar narrativas no e do jornalismo, faz-se fundamental, minimamente, suspeitar de alguns dos preceitos que por muitos anos nos serviram como baliza para pensar e conhecer sua disciplina e sua prática. Nesse sentido, o tipo de pesquisa a que este artigo se propõe refletir requer um olhar menos tomado pelo disciplinar e mais afeito à “epistemologia da comunicação [que] se desenvolve a partir de metodologias estrategicamente elaboradas para enfrentar [o] objeto científico na sua mobilidade” (Ferrara, 2008, p. 12).

Compreendido por um viés iluminista (Marcondes Filho, 2000), o jornalismo fez-se predominantemente valer de uma instrumentação teórica através da qual o exercício da linguagem se vê cerceado pelo impositivo de ordens e lógicas atentas ao esforço da simplificação (Resende, 2002b). Se tal esforço efetivamente resultasse no seu intuito primeiro – com eficácia e imparcialidade, dar a ver os fatos de forma objetiva –, o seu caráter redutor não se revelaria problemático.

Em rota muito próxima à da ciência positivista, cujo

desejo de conhecimento e de controle do espaço exigiu o despojamento da natureza de seus aspectos heterogêneos qualitativos [e] plurais, a fim de reduzi-la a algo passível de ser medido e apreendido por números (Matos, 2006, p. 103),
o jornalismo legitimou uma linguagem que, também pontuada por números e dados estatísticos, visa ao esforço de apagamento, tanto quanto possível, de marcas de enunciação. Uma instância eminentemente discursiva, como é o caso do jornalismo, atravessada fortemente por um viés tecnicista e que busca cumprir o desejo da evidência – próprio da ciência cartesiana –, funda seu alicerce na retórica da verdade, fazendo-se, ao mesmo tempo, devedora de uma suposta realidade do acontecimento. É por este viés que foram tecidos seus marcos teóricos basilares, muitos dos quais ancoram estudos que não dão conta do discurso – e menos ainda da narrativa – como dilema da linguagem3.

O olhar para este problema recupera alguns expoentes que deram importantes contribuições para que compreendêssemos as notícias como estórias, entre eles Schudson (1999), Bird & Dardenne (1999) e Tuchman (1999). Além disso, ele nos impõe a lembrança de que, no Brasil, Cremilda Medina, com A arte de tecer o presente, é quem inaugura, do ponto de vista teórico e com um viés diferenciado, o marco de uma proposta que visa à reflexão sobre o texto jornalístico. É esta autora que, levando em consideração a narrativa, nos diz da necessidade de reavaliar as epistemologias do jornalismo. Em um outro trabalho, Povo e personagem, ela diz: “os horizontes da mediação social da informação necessitam (...) de um alargamento.” (Medina, 1996, p. 11). Para ela,

não convém o corte pela estilística ou pela semiótica da mensagem jornalística. (...) convém reverificar o discurso verbal tradicional e aí questionar pontos de estrangulamento quanto à simbolização complexa ou não do real imediato. (1996, p. 226)
Este artigo, contudo, insiste na necessidade de avançar, na medida em que reconhece como fundamental o caminho feito pelos estudos literários e por Paul Ricoeur, no campo da história, no que diz respeito à compreensão da narrativa como lugar de produção de sentido4. Sem este pressuposto, muito dos estudos do jornalismo que se pretendem tomados pela narrativa ficam fadados a tangenciar problemas, sem de fato atravessar o próprio jornalismo. E sob esse prisma, esses estudos, de modo geral, reiteram dicotomias e reforçam categorizações, fazendo com que a narrativa, por exemplo, antes de ser compreendida como um problema de pesquisa a partir do qual se pode também buscar conhecer o jornalismo, seja vista como um fenômeno da literatura, como um artifício do qual o jornalismo – ou algum jornalista em particular – às vezes lança mão5.

No âmbito deste artigo, a narrativa, constitutiva de uma poética (Ricoeur, 1994)6, não é sinônimo de discurso, mas, antes, uma questão discursiva. E é sob essa perspectiva que se faz possível reconhecer que a necessária obediência ao acontecido – ou à realidade, se assim quisermos pensar – oferece ao jornalismo, a priori, a condição de uma narrativa de pretensão realista, ainda aos moldes do romance do século XVIII (Resende, 2002a); aquela no qual referente e significado parecem inevitavelmente se confundir.

Sob o prisma do problema que este artigo evoca, é imprescindível considerar que o domínio discursivo no qual o jornalismo está imbricado o deixa atravessado por um paradoxo: dar a ver o mundo que, na sua totalidade, por meio da linguagem, é inapreensível. Um paradoxo que nos obriga a buscar caminhos teórico-metodológicos que suscite interrogantes e, inclusive, expanda nossos objetos de investigação, de modo a contribuir para que melhor se compreenda o problema. É à luz deste desafio que se articula esta reflexão.
Por que narrar?

Entre as várias perguntas que os estudos da narrativa impõem ao jornalismo, por que narrar talvez seja uma que, de início, mereça especial atenção. Em uma perspectiva ampliada, o olhar para a narrativa nos ensina que ao narrar criamos o acontecimento (Ricoeur, 1994). Para além de informar ou dar ao outro a possibilidade de vir a conhecer ou saber a respeito de um fato, ao narrar damos vida aos objetos de que falamos e aos sujeitos a quem nos referimos ou com quem pretendemos falar. Clarice Lispector ia ainda mais longe, para ela, seu ofício oferecia, a ela própria, a chance de continuar viva; o que não é pouco, em se tratando de alguém que reconhecia quão árdua é a tarefa de dar sentido à existência. Assim, de um modo ou de outro, a resposta é clara: narramos porque é preciso, narramos para que haja vida.

É verdade, esta pergunta, que de forma absoluta coloca em questão tanto o narrado como o narrador, tem se mostrado relevante, particularmente, no domínio dos estudos literários. A narrativa, nesse lugar, ao se apresentar como um espaço de reflexão e criação, fornece um rico material de análise e conhecimento para o que diz respeito ao desenvolvimento de questões que lhe são bastante caras. Tal é sua relevância que, em se tratando da literatura, por exemplo, Todorov nos alerta para o risco de ela ser “reduzida ao absurdo” (2009, p. 25) caso se sustente a tendência atual de focarmos a disciplina, deixando de lado os textos. Uma crítica que certamente retoma questões já anunciadas pelos pós-estruturalistas, mas que, nas palavras renovadas de Todorov, chama atenção para a importância de compreendermos que nas disciplinas cujos objetos/textos cumprem o papel de falar (d)o mundo, negligenciá-los como lugar de produção de conhecimento e significação é, no mínimo, um gesto redutor. Para Todorov, e é esta a razão da sua crítica, os estudos literários e a literatura devem ter como primordial o fato de que ali a narrativa é potência. Observação que, no entender desta reflexão, também serve ao jornalismo.
A obediência ao real: prenúncios para uma problemática epistemológica

O paradoxo que atravessa o jornalismo — como diz Michel de Certeau (2002) acerca da historiografia — é gerado, antes de tudo, a partir do esforço de colocar em relação dois termos antinômicos: o discurso e o real. Em se tratando de tecer considerações sobre os estudos do jornalismo, parece relevante pontuar um dos problemas que funda a reflexão sobre conhecimentos e métodos produzidos: a dicotomia — construída e muitas vezes reiterada — entre o material e o simbólico. A escrita, tanto para a história quanto para o jornalismo, enquanto espaço de construção da representação de um real — acontecido ou em acontecimento — é, ao que parece, o lugar para o qual conflui o paradoxo de que se trata. Na escrita, o real deve se revelar, porém é também nela que descobrimos as faltas próprias a qualquer sistema de representação.

Esta reflexão considera a premissa de que raramente se lidou com este paradoxo, na medida em que as dicotomias geradas no processo de construção de conhecimento sobre o jornalismo, por exemplo, informação x comunicação, conteúdo x forma e objetividade x subjetividade, sempre serviram ao propósito de dividir o campo entre estudos que visam à compreensão ora do jornalismo como técnica e prática ora como teoria7. A força com que a noção de jornalismo informativo se instala entre nós, em meados do século passado, somada aos acontecimentos e mudanças sócio-culturais – um rápido processo de urbanização, elevada densidade demográfica e um contundente avanço tecnológico – parecem ter contribuído para legitimar esta divisão, tornando complicada a relação entre os que mais efetivamente começavam a pensar o jornalismo e os que o tinham como prática.

Naquele momento, as problematizações, mesmo quando entendidas como teóricas, primavam por uma ênfase normativa que muito mais reiterava modos de conceber uma prática – a jornalística – cujas funções seriam organizar o caos e explicar ao homem os acontecimentos do mundo. À luz de preceitos como, por exemplo, ser objetivo, este viés hegemônico dos estudos do jornalismo tem a informação como elemento esclarecedor e é nele que o impresso se legitima como instância privilegiada de enunciação na qual prevaleceria a verdade do fato.

A televisão, nesse mesmo momento, aponta suas projeções iniciais, é certo, mas é o imaginário em torno da cultura da escrita como símbolo do registro (Certeau, 2002) que predomina como um fator relevante e que, de forma bastante significativa, corrobora não só para a reiteração da antinomia antes referida como também para o que a cultura do jornalismo impresso construiu como duas de suas perspectivas epistemológicas centrais: a ênfase na problemática do conteúdo – o que dizer é a pergunta primordial a ser respondida (Resende, 2002b) – e a idéia de que o valor da informação se mede pelo viés quantitativo.

A história das teorias da comunicação, considerando os aspectos que por razões econômicas, políticas e culturais se fizeram hegemônicos, nos leva a pensar o quanto se fez necessário dicotomizar lugares, práticas e saberes (Mattelart & Mattelart, 1999). O olhar voltado para os meios, a atenção em relação ao pólo da produção e a preocupação com os efeitos da mensagem, o que por muitos anos se apresentou como o caminho para a solução dos problemas, são perspectivas que iluminam nossos modos de conceber e problematizar o jornalismo.

Nesse quadro histórico-cultural, moldurado pelas hegemonias, problemáticas relativas à linguagem tornaram-se verdades menos verdadeiras, se quisermos pensar com Foucault (1996); elas foram obliteradas, na medida em que iam de encontro à lógica de um discurso ordenador. Santaella corrobora esta reflexão ao apontar o mesmo problema no que diz respeito aos estudos da Comunicação. Para esta autora, o chamado “fetiche das mídias” fez com que deixássemos de entender que “[nos meios], a mediação primeira vem dos signos, linguagem e pensamento que eles veiculam” (2003, p. 222), o que legitimou em nós a crença de que “tudo é mídia” e, assim, contribuiu para que se negligenciasse o papel da linguagem na constitutibilidade dos meios.

É sob essa ótica que o olhar voltado para a narrativa no jornalismo, ao se haver com os estudos da linguagem, atravessa uma problemática de cunho epistemológico: há um saber e um pensamento, de certo modo atrofiados, que legitimam e nos fazem conhecer um modo também atrofiado de compreender a problemática da enunciação no jornalismo. As narrativas concebidas sob esse prisma, antes de nos oferecer potencialidades, sofrem de aprisionamentos, pois são a priori regidas por ordens discursivas8.

Assim, há de se sugerir a premência de assumirmos uma postura epistemológica crítica, na medida em que considerar a narrativa como lugar de produção de sentido é também entendê-la como lugar de produção de conhecimento. Um conhecimento produzido pelo avesso (Resende, 2002b), não só por implicar um olhar voltado para a narração como objeto, como também porque a problemática da linguagem e da narrativa constituiu-se como ausência9 no âmbito dos estudos do jornalismo.

Levando em conta o paradoxo tratado nesta reflexão, me parece fundamental entender que assumir essa postura não deve se valer do propósito esvaziado de definir modelos contrários ao estabelecido, mas, antes, cumprir o objetivo de entrelaçar interrogantes que possam contribuir para que, mais que explicar o funcionamento do nosso objeto, se possa trabalhar com proposições e descobertas de práticas e pensamentos tornados menores diante de perspectivas hegemônicas. Ao lidarmos com um campo que carrega no seu histórico o esforço de minimizar, quando não desqualificar, este paradoxo, penso que nosso esforço deve ser o de complexificar a questão e contribuir para que se reconheça que, na dimensão ambígua na qual se instala o jornalístico, olhar para a narrativa significa enfrentar o dilema de saber que o discurso que obedece a lei de se referendar no real é também estruturado – e tecido – a partir do simbólico.


Comunicar, por quê?

Esse caminho implica tratar o jornalismo como prática discursiva, e portanto cultural (Hall, 1997), afeita às mudanças a que estão sujeitas todas e quaisquer práticas histórico-culturais. Dessa forma, é inevitável, do ponto de vista metodológico, uma constante indagação acerca das idéias e dos princípios que regem e determinam tais práticas. Se de fato escolhemos nos defrontar com a questão das mediações, como sugere Martín-Barbero (1997), os regimes conceituais daquilo que aprendemos como sendo “jornalismo”, além de alguns dos propósitos que justificam seus pressupostos, entram em estado de suspeição.

Por exemplo, se por um lado pode parecer demasiado simplório oferecer ao jornalismo a mesma resposta acolhida pela literatura para o gesto de narrar, por outro, é nesse espaço em que as mediações e as representações acontecem em concomitância – como é próprio das práticas comunicacionais (França, 2004) – que parece necessário perguntar por que se comunica. Para Flusser – e aí a consonância com a resposta dada à questão da narrativa é crucial –, o propósito da comunicação é “promover o esquecimento da falta de sentido e da solidão de uma vida para a morte”. Ainda, segundo este autor, comunicamos “para tornar a vida vivível” (2007, p. 96); ou seja, nosso desejo, nossa intenção, menos que informar, é promover e ganhar sentido, compartilhar.

Se acolhemos esta resposta como também relevante para o jornalismo – ou, no mínimo, desafiadora –, entra em suspeição tanto a condição na qual se inscreve o discurso jornalístico como a concepção de discurso sob a qual se ancoram seus estudos. Se frente ao desafio de falar a verdade, em se tratando do jornalismo particularmente, não nos atentarmos para o fato de que, no máximo, o que se consegue é fazer uso de estratégias discursivas, inclusive coibidoras, muitas vezes, da suposta verdade, não assumimos uma postura crítica que minimamente problematize o papel mediador do jornalismo10.

Quando os acontecimentos, no seu curso, nos escorrem pelas mãos, toda e qualquer prática discursiva que os tem como objetos da narrativa e que busque sustentação em um suposto lugar da verdade, só pode fundar seus pilares em estratégias de uso da linguagem ou esforços de aplicação de teorias. À luz de uma idéia de discurso que não indaga os efeitos e pressupostos do paradigma informacional, corremos o risco de negligenciar o problema da enunciação no jornalismo e contribuir para que o uso de tais estratégias continuem sendo muito úteis para justificar o vão esforço de ser imparcial e objetivo, sustentando, ao mesmo tempo, a lógica de uma comunicação – também jornalística – supostamente eficaz.

Mais ainda, por esta via, o discurso ordenador – lembrando Foucault (1996) – encontra um terreno fértil, ele se instala, se organiza e gera saberes a partir da disciplina e de seus poderes legitimadores. E sob essa ótica, o esforço pela sustentação de um lugar de fala legitimado e a crença na força das normatizações e das regras que enquadram o seu discurso encontram ancoradouro e se colam na “vontade de verdade” (Foucault, 1996) a que se submete todo e qualquer discurso11. Nesse sentido, a fala jornalística é tomada antes por um desejo de saber e poder que, se a princípio não a distinguiria de quaisquer outras falas, acena veementemente para uma contradição em relação aos motivos que a mobiliza: com o intuito de compartilhar, ela exclui e segrega – ainda pensando com Foucault – de forma acachapante (Resende, 2007b).

Esta crítica não deixa de lado a função que cabe ao jornalismo: repassar ao outro informações sobre os fatos do dia. Porém, com ela, procura-se advertir que, se não nos atentarmos para este princípio organizador da fala jornalística, ao olharmos para suas narrativas nada veremos senão a ordem do discurso sob a qual e na qual o jornalismo, e qualquer outro regime discursivo, subjaz e se instala. Do ponto de vista de uma pesquisa que visa à compreensão das narrativas do e no jornalismo e do desafio de concebê-lo a partir dos pressupostos aqui reiterados, esta crítica, entretanto, expande e tensiona esta função. Os fatos não falam por si e é na narração que, a partir de um jogo de forças, o compartilhamento é (e não é) potencializado, ao mesmo tempo em que é (ou não) viabilizado o propósito da comunicação.
Mobilidades e desordens na narrativa

O olhar aqui reivindicado compreende o discurso como o lugar onde o acontecimento se configura em sentido, processo este que não só gera lacunas como também se nutre, ao mesmo tempo, dos vazios que instaura (Ricoeur, 2005). Em se tratando da comunicação, à frente do inexorável da linguagem, Ricoeur chama atenção para o fato de que não há como considerar uma teoria do discurso resvalando-se dos abismos que ele próprio cria. Acompanhando Benveniste e Austin, e, ao mesmo tempo, indo além, Ricoeur desenvolve sua reflexão problematizando a relação que se estabelece na tríade lógica / força / intenção. Em conjunção com a ideia de que os atos de fala, para além da mera realização de uma ação, se constituem das intencionalidades, esta tríade assegura possibilidades de se pensar os enunciados como instâncias atadas ao referente, uma dimensão da qual também compartilha Foucault (1996).

No entanto, para Ricoeur, em se tratando de considerar o enigma da comunicação – o desejo de compartilhar –, há que se pensar para além da ordem do discurso. À luz da tríade por ele sugerida, revela-se o fato de que a comunicação acontece em algum lugar para fora do que entendemos como sentido. Ela se dá na dimensão de uma força ilocucionária, própria de um jogo de linguagem, que só se realiza por que quem fala “tem a intenção de que o outro saiba que ele tem a intenção de” (Ricoeur, 2005, p. 17). A este princípio Ricoeur dá o nome de “intenção desejante”, artifício que conduzirá o processo no qual o discurso pode realizar seu papel transgressor: tornar possível a comunicabilidade.

O olhar para a narrativa no e do jornalismo como um problema de pesquisa não se sustenta caso se abra mão desses princípios. Ele não compreende o jornalismo como sendo, exclusivamente, uma instância enunciativa de transmissão de informação e só pode se fazer valer à luz da idéia de que o enigma da comunicação está em ela ser potencialmente o espaço no qual o discurso possa realizar o seu papel transgressor (Ricoeur, 2005); quando ele, portanto, resvala de suas próprias ordens. Assim, se o jornalismo é “um lugar de circulação e produção de sentidos” (Benetti, 2007, p. 107), o olhar para a narrativa deve contribuir para que se possa problematizá-lo enquanto espaço de mediações possíveis. Se ele é uma instância na qual o processo de enunciação é constitutivo, há de se haver com o fato de que é este um processo que se dá a partir da “tessitura da intriga”, o que, segundo Ricoeur, “nunca é o simples triunfo da ordem” (1994, I, p. 13).

Isto equivale a dizer que não se trata de enxergar o jornalismo fora do discurso, ainda que, como prática, ele também não possa ser pensado, em si, como se nada fora para além do texto. Ele é uma prática social, cultural, construtora de realidades e, por esta razão, uma prática discursiva cujo propósito é, através dos seus discursos instituídos e instituintes, “tornar um acontecimento inteligível” (Hall, 1999: p. 226). E para cumprir o seu intuito, os processos de que se utiliza e aos quais se submete – suas pressuposições teóricas, suas pressões internas e externas, suas rotinas produtivas, os embates ideológicos, os imaginários em jogo, a produção discursiva orientada por estratégias, como a objetividade (Tuchman, 1999), por exemplo, e as narrativas tornadas possíveis – hão de ser entendidos como entrelaçamentos que fazem com que o jornalismo seja a prática que é12. Ele é este conjunto de problemas, orientações, intenções e dizeres que, de forma inseparável, dá a ver o possível do mundo. Somente assim, ressignificado, se pode compreendê-lo a partir de suas narrativas, plenas de aprisionamentos e potencialidades.

Desse modo, o esforço de compreender o jornalismo como lugar de mediação – insistindo no fato de que como prática discursiva ele não se descola da comunicação -, implica avanços ainda maiores. Por exemplo, precisamos nos atentar para a natureza do objeto tanto dessa prática como da comunicação propriamente dita. Se “a comunicação é o lugar da observação do mundo em movimento” (França, 2004, p. 23), reconhecemos seu objeto como algo móvel; ou seja, o mundo e os sujeitos no qual e do(s) qual(is) falamos ao narrar pelas mídias é em acontecimento. Podemos até nos esforçar para estancá-los, de fato os enquadramentos – também jornalísticos – nos obrigam que assim seja, mas todo esforço se esvai na própria realidade que segue seu curso enquanto é narrada.

Pois bem, a menos que se negue a ver no jornalismo sua dimensão social e simbólica, parece fundamental problematizá-lo para além da sua vontade de verdade. E o elemento que nos permite expandir este problema, no recorte específico desta reflexão, é a própria narrativa. Se além de ser atravessada por aprisionamentos, também a concebemos como sendo potência – inevitável percurso quando acolhemos, com o propósito da comunicação, os vazios instaurados pelo discurso e o paradoxo da linguagem –, talvez nela possamos reconhecer os problemas e os desafios relativos às mediações e às representações no jornalismo. A retórica de que o jornalismo tem feito uso para se sustentar no lugar privilegiado de narrar o acontecimento em tempo presente – como se ali coubesse uma apreensão totalizadora do mundo – se esfacela na condição que é própria da narrativa: ser o espaço no qual a linguagem acontece (Barthes, 2001) e, por este motivo, ser delirante, como nos faz pensar Guattari (1992).
Dos objetos, perguntas e embates

Entender o jornalismo envolto nessa dimensão discursiva é a ele atribuir a dimensão relacional na qual se instala o processo mimético de que fala Ricoeur (1994), este no qual a narrativa, pelo viés da tessitura da intriga, se inscreve numa dinâmica que compreende tanto os mundos do agir, do “como se” e da leitura. Uma dinâmica que inviabiliza a suposta autonomia dos três mundos, pois, para este autor, a compreensão da tríplice mimese implica lançar-se a uma “tarefa hermenêutica” cujo princípio é “(...) reconstruir o conjunto de operações pelas quais uma obra eleva-se do fundo opaco do viver, do agir e do sofrer, para ser dada, por um ator, a um leitor que a recebe e assim muda seu agir” (1994, p. 86)13.

Em outras palavras, deixar que este viés teórico atravesse o jornalismo significa (re)conhecer as circunstâncias de enunciação como dispositivos de produção de subjetividades e acolher a idéia de que esta produção não se dá senão num processo de luta por poder e legitimidade. Se para Ricoeur, a narrativa, através da tessitura da intriga, é uma articulação de formas simbólicas, de “processos culturais que articulam a experiência inteira” (1994: I, p. 92), ao produzir e ler a narrativa no e do jornalismo, trazemos à tona a dimensão simbólica inscrita no mundo prefigurado. É este o mundo do agir – ou o que experimentamos fora da notícia – que, sabemos, é tomado pela dinâmica das relações sociais, um mundo pleno de negociações, conflitos, poderes, ideologias, inserções e exclusões de (novos e velhos) atores.

Compreender a narrativa por este viés, em se tratando do jornalismo, significa tomá-lo como problema. No recorte desta reflexão, a chance de entendê-lo como um lugar em que “consonâncias e dissonâncias [são] estabelecidas por sujeitos ativos e atuantes que, em conjunto, e no atrito de suas afinidades e diferenças, constroem [com os meios] seu mundo partilhado” (França, 2004, p. 25), se dá através da possibilidade de tomarmos a narração como problema. É no processo de análise de suas narrativas, acompanhado das indagações acerca de seus aprisionamentos e potencialidades no corpo discursivo do jornalismo e do cotejamento de objetos distintos, que se fará possível compreender os modos de instalação dos jogos de poder e produção de sentidos.

Quando Todorov defende a narrativa como importante objeto de estudo, ele o faz face às chances atuais de a literatura ser compreendida, antes e tão-somente, por perspectivas teóricas de caráter hegemônico e mercadológico. E, segundo este autor, a narrativa “está necessariamente inserida num diálogo do qual os homens não são apenas o objeto, mas também os protagonistas” (2009, p. 86, grifo meu). Uma observação que me parece também pertinente ao jornalismo, já que nele, hegemonias e mercados, a despeito dos sujeitos, historicamente ocupam papéis preponderantes, especialmente, na legitimação de suas práticas.

Os tempos atuais têm sido particularmente reveladores de problemas que atingem o jornalismo na sua demanda enunciativa: quem hoje pode/deve narrar, de que modo e através de qual instância os acontecimentos do presente? As novas mídias, por exemplo, têm sido contumazes em apresentar a este campo um caminho que, no entender desta reflexão, se bifurca entre continuar se esforçando para sustentar sua legitimação a partir das retóricas que lhe eram suficientes quando o impresso se apresentava como materialidade absoluta ou ressignificar e ampliar seus modos de ser, investindo, por exemplo, na compreensão das diferenças que os narrares suscitam. No momento atual, quando entendemos melhor a força e a velocidade com que as narrativas migram de um suporte a outro(s), o esforço por angariar legitimidade pela via das ordens é nada mais que o desejo de manutenção de um lugar de fala alicerçado em uma vontade de verdade.

À luz do paradigma informacional, este caminho aparentemente se sustenta. No entanto, sob a ótica do que se entende por narrativa, conforme aqui reiterado, o que está em jogo, atualmente, é uma dinâmica cultural que desmonta as retóricas que durante muito tempo serviram para sustentar a primazia do jornalismo como instância exclusiva, enunciadora da verdade e da objetividade. Sendo o jornalismo constitutivo de um processo social, sua pretensão também é o compartilhamento e, sob essa perspectiva, os estudos da narrativa no e do jornalismo não podem deixar de se haver com o fato de que o avanço tecnológico exacerba a produção, diversificando e aumentando a pluralidade de modos e lugares de narrar os fatos do cotidiano. Sob essa ótica, é impossível para o jornalismo não reconhecer como problema de pesquisa o fato de que

há relatos que dotam o mundo de diferenças, enquanto há outros que não; há os que rechaçam as particularidades e ainda há os que as ressaltam; há os que dizem de um lugar em movimento (...) e há os que narram o mundo como algo estático. (Resende, 2008b, p. 147)


Novamente, a análise e o cotejamento de narrativas e lugares distintos podem contribuir para esclarecer modos, também diferenciados, de narrar o cotidiano. É dessa forma que, à luz de uma epistemologia complexificada, os estudos da narrativa no e do jornalismo ampliam as fronteiras do nosso viés metodológico, incluindo as perguntas de que se pode lançar mão e acenando para uma diversidade maior de objetos com os quais se pode e deve confrontar para investigarmos o jornalismo.

As notícias de jornais são relevantes objetos de pesquisa, pois elas abrigam, sim, uma grande diversidade de modos narrativos – e não necessariamente por serem constitutivas de um ou outro gênero14. No entanto, outros objetos, que, por exemplo, podem ser vistos como parajornalísticos quando postos à luz do chão epistemológico que legitima uma narração que se quer objetiva, devem ser agregados às pesquisas, já que suscitam questões de extrema relevância para a complexificação e a compreensão dos possíveis modos de dizer no jornalismo. As histórias em quadrinhos, por exemplo, que abrigam relatos factuais, são de grande importância. Para Edward Said, nos trabalhos de Joe Sacco os acontecimentos são descritos “com precisão quase assustadora e, paradoxalmente, de forma delicada” (in: Sacco, 2005, p. XI). Trata-se, diz Said, de uma experiência que temos através dos “gibis em sua objetividade implacável” (in: Sacco, 2005, p. VIII).

É fato que os constrangimentos e as demandas, incluindo o tempo e o espaço de produção das histórias narradas por Sacco são distintos daqueles que geralmente acompanham o jornalista numa cobertura de guerra, por exemplo, se quisermos nos ater à temática deste que se auto-denomina um “repórter-quadrinista”. Ainda que essas diferenças não devam ser apagadas, à luz da narrativa e das questões que ela suscita, elas também não devem ser dadas como premissas que inviabilizariam a comparação acerca dos modos de narrar. O olhar para a narrativa implica reconhecer que é a partir dos usos da linguagem que os problemas devem ser balizados; em um caminho inverso, é desses usos que surgem as perguntas e os dilemas que afetam o jornalismo no contemporâneo. O interesse central, em uma pesquisa desta natureza, é buscar conhecer estratégias e táticas textuais à luz de narrativas que são tanto devedoras de uma referencialidade como portadoras do simbólico.

Além dos quadrinhos, os documentários são também fontes muito ricas de investigação. Nota-se hoje, particularmente no Brasil, um avanço teórico muito significativo em relação às questões suscitadas por este tipo de narração. Para Migliorin, o documentário é atravessado por “um interesse pelo humano” (...), pelo “que esse homem comum faz, como aquela mulher ganha a vida, como conta seu passado, como mobiliza a palavra e enfrenta os poderes (...)” (2010, p. 10); observação que, por si só, nos autoriza, de antemão, a minimamente aproximar dos interesses do jornalismo, desde que este seja entendido como instância tomada pelo social e pela cultura.

Ao que parece, para o documentário tem sido bastante profícuo o esforço na “busca de uma maneira de abordar o mundo” (Migliorin: 2010, p. 10); as reflexões e análises que ele tem provocado, históricas e conceituais, são contundentes no sentido de mostrar como este modo de narrar tem se renovado ao longo do tempo. Com o intuito de que assim o seja para o jornalismo, o que se pode reivindicar, a partir dos estudos da narrativa, é a condição, necessária e que também se quer renovadora, de refletir sobre o jornalismo. Diante da cultura das mídias (Santaella, 2003), a complexidade própria da justaposição das formações culturais nos coloca, de forma crítica e não dual, atentos à necessidade de balizarmos lugares, modos e contextos.

Como exemplo, na narrativa de Sacco, nos documentários de Avi Mograbi e naquelas produzidas para a coluna “O Diário de Bagdá” (Folha de São Paulo), o implacável da objetividade não está nos números de mortos ou nas manchas de sangue que evidenciam e comprovam a guerra. Ela está na forma de enunciar, nos espaços abertos que a narrativa cria de modo a fazer com que ali surjam sujeitos, nas condições que o repórter cria para que o leitor minimamente compreenda os mistérios que se escondem por detrás do fato aparente, no esforço, vale assim dizer, de construir diálogos15.

Tais análises permitem, por exemplo, problematizar aspectos relativos ao papel do jornalista e à questão das vozes que operam sua narrativa e dos sujeitos nela representados, elas indagam e colocam em evidência o caráter (que se pressupõe) dialógico do discurso jornalístico; um caminho que nos faz defrontar, no exercício de compreensão da narrativa jornalística e do jornalismo, com as ordens impostas a este discurso encarregado de exprimir o real. Além disso, conhecer os modos de inscrição dos sujeitos-narradores em contraponto aos autores empíricos – que no caso dos jornalistas são absolutamente respaldados pelas ordens discursivas –, por exemplo, torna possível o conhecimento de outros modos através dos quais os discursos do referente podem se manifestar. Um percurso metodológico que também nos permite, por conseguinte, avaliar a coexistência de outras narrativas possíveis no âmbito do jornalismo.

Um dos temores que aflige os estudos que visam a reiterar a sustentação das retóricas parece, muitas vezes, dizer respeito à possível perda de um espaço privilegiado de enunciação. O objetivo dessas análises, que além de problematizar os usos da linguagem também partem da diversificação de objetos e lugares de fala, nunca é a categorização ou o esforço de definir o que é ou deixa de ser jornalismo, ainda que inevitavelmente tais pesquisas sejam atravessadas por essas questões. A perspectiva mais relevante, e este artigo procura chamar atenção, é o fato de que os estudos da narrativa podem e devem contribuir para uma maior compreensão e um maior conhecimento em relação aos modos de narrar o cotidiano, expandindo, do ponto de vista da sua linguagem, as formas de o jornalismo existir.


Considerações finais

Para Maria Esther Maciel, “nas frestas, nas margens e nas dobras [do] ato de narrar emerge sempre uma frase, uma cadeia sonora, um devaneio, o que acaba por desestabilizar o fluxo narrativo”16. É sob esta perspectiva, o da narrativa como um lugar que, a despeito de almejar a ordem é, ao mesmo tempo, desestabilizador, que se sugere compreender a importância de tomá-la como lugar de produção de sentidos e conhecimento no jornalismo. É à luz dessas desordens, entretecidas nas ordens do discurso jornalístico, que também se faz possível, nas pesquisas, discutir o jornalismo, colocando em suspeição aspectos que por vezes se apresentam fechados ou exclusivos deste lugar de enunciação e aventando hipóteses que nos levem a certos arejamentos em torno dos seus modos de enunciar.

Ao tomarmos como problema a compreensão de que o jornalismo seja um espaço no qual o discursivo e o narrativo estão instalados, faz-se necessário reconhecer que a narrativa no e do jornalismo, com todos os seus aprisionamentos e potencialidades, mais que efeitos, produz sentidos. Se, como sugere Traquina, “a notícia cria o acontecimento” (1999, p. 170), há de se entender que só se sabe do mundo através dos jornais, bem e mal, porque neles os fatos são tecidos. Em outras palavras, aos conteúdos dos acontecimentos narrados inserimos modos de dizer, inscrevendo e excluindo sujeitos, ressaltando e apagando saberes e poderes, concedendo e negando espaços e direitos. O mundo contado nos jornais, à luz da narrativa, é menos da ordem da retórica das imparcialidades e objetividades, do que do jogo de forças, das negociações e dos embates próprios do mundo da vida.

Assim, enquanto prática discursiva e cultural, o jornalismo pode ser lido como envolto no comum que partilhamos e problematizado a partir dos jogos de poder que nele se instalam. Uma perspectiva que, teoricamente, nos enlaça a Ricoeur (1994), com quem aprendemos que a intriga é tecida pelo viés de um processo no qual se reconhecem marcas do vivido inscritas na experiência cotidiana dos protagonistas do presente. Essa noção faz com que o jornalismo, através dos seus suportes e suas narrativas, tenha um importante papel a desempenhar na contemporaneidade: entrelaçar mundos e tecer redes com todos os percalços e potências de que este gesto se constitui.


Referencias

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo : Martins Fontes, 1997.

BARBOSA, M. Percursos do olhar: comunicação, narrativa e memória. Niterói: Eduff, 2007.

BARTHES, R. A aventura semiológica. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

BENETTI, M. “Análise do discurso em jornalismo: estudo de vozes e sentidos”. In: BENETTI, M. & LAGO, C. (orgs.). Metodologia de pesquisa em jornalismo. Petrópolis: Vozes, 2007.

BENETTI, M. & LAGO, C. (orgs.). Metodologia de pesquisa em jornalismo. Petrópolis: Vozes, 2007.

BIRD, E. & DARDENNE, R. “Mito, registro e estórias: explorando as qualidades narrativas das notícias”. In: TRAQUINA, N. (org.). Jornalismo: questões, teorias e ‘estórias’. Lisboa: Vega, 1999.

CERTEAU, M. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forensa, 2002.

FERRARA, L. (2008). “Radical Indeterminação: epistemologia e objeto científico da comunicação”. Artigo apresentado ao Grupo de Trabalho Epistemologia da Comunicação, por ocasião do XVII Encontro da Compôs, São Paulo, junho de 2008. http://www.compos.org.br/data/biblioteca_349.pdf

FLUSSER, V. O mundo codificado. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

FRANÇA, V. “Representações, mediações e práticas comunicativas”. In., FOLLAIN & GOMES & PEREIRA (orgs.). Comunicação, representação e práticas sociais. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2004.

GOMES, M. R. Jornalismo e ciências da linguagem. São Paulo: Hacker/Edusp, 2000.

GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: 34, 1992.

HALL, S. “A produção social das notícias: o mugging nos media”. In. TRAQUINA, N. (org.). Jornalismo: questões, teorias e ‘estórias’. Lisboa: Vega, 1999.

. “A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo”. In: THOMPSON, K. (org.). Media and cultural regulation. Londres, 1997.

MARCONDES FILHO, C. A saga dos cães perdidos. São Paulo: Hacker, 2000.

MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações – comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.

MATTELART, A. & MATTELART, M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola,1999.

MATOS, O. Discretas esperanças – reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.

MIGLIORIN, C. “Documentário recente brasileiro e a política das imagens”. In: MIGLIORIN, C. (org.). Ensaios no real – o documentário brasileiro hoje. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2010.

RESENDE, F. “Espaços parciais, espaços de resistência: relatos e conflito no cenário contemporâneo”. In: GOMES & MARGATO (orgs.). Espécies de espaço: territorialidades, literatura, mídia. Belo Horizonte: UFMG, 2008b.

. “(Des)caminhos: o jornalismo e seus desafios metodológicos”. In: Revista Galáxia. São Paulo: PUC-SP, n.15 / julho, 2008a

. “O discurso jornalístico contemporâneo: entre o velamento e a produção de diferenças”. In: Revista Galáxia. São Paulo: PUC-SP, n.14 / dez, 2007b.

. “Discursividade e narratividade: vértices redimensionados no jornalismo”. Revista Fronteiras - Estudos Midiáticos, Vol. 9, No 2, 2007a.

. “o olhar às avessas – a lógica do texto jornalístico”. São Paulo: ECA/USP, 2002b (tese de doutoramento).

. Textuações: ficção e fato no Novo Jornalismo de Tom Wolfe. São Paulo: Annablume / FAPESP, 2002a

RICOEUR, P. “Discours et communication”. In: Cahier de L’Herne Ricoeur. Paris: Editions de L’Herne, n.81, 2005.



. O único e o singular. São Paulo: Unesp / Uepa, 2002.

. Tempo e narrativa. V. I. Campinas: Papirus, 1994.

SACCO, J. Palestina – na Faixa de Gaza. São Paulo: Conrad, 2005.

SANTAELLA, L. (). “Da cultura das mídias à cibercultura: o advento do pós-humano”. Revista FAMECOS. Porto Alegre, no 22 / dezembro, 2003.

SANTOS, B. “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n.63, outubro/2002.

SCHUDSON, M. Discovering the news: a social history of American newspapers. New York: Basic Books, 1978.

TODOROV, T. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2009.



. Os gêneros do discurso. São Paulo: Martins Fontes, 1980.

TRAQUINA, N. (org.). Jornalismo: questões, teorias e ‘estórias’. Lisboa: Vega, 1999.



TUCHMAN, G. “Contando estórias”. In: TRAQUINA, N. (org.). Jornalismo: questões, teorias e ‘estórias’. Lisboa: Vega, 1999.

1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho (nome do grupo de trabalho ao qual submete o texto) do XX Encontro da Compós, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, de 14 a 17 de junho de 2011.

2 Professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e do Programa de Pós-Gradação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor em Ciências da Comunicação (USP) e Mestre em Estudos Literários (UFMG). Coordenador do [LAN] Laboratório de Experimentação e Pesquisa de Narrativas da Mídia (CNPq/UFF). Email: fernandoresende1501@gmail.com

3 Bakhtin (1997) faz uma reflexão fundamental acerca da diferença entre os modos de conceber o discurso pelo viés da lingüística – que basicamente o vê como um aglomerado de frases – e o que seria o viés da linguagem – quando sentidos e relações, na dinâmica do social, se instalam para além das frases. Os estudos da narrativa, que acompanham as problemáticas do discurso, são aqui entendidos à luz dos problemas da linguagem.

4 É imprescindível que também se faça referência ao diálogo que este artigo faz com o trabalho de Luiz Gonzaga Mota, especialmente em “Narrativa jornalística e conhecimento imediato de mundo: construção cognitiva da história do presente” (http://sbpjor.kamotini.kinghost.net/sbpjor/admjor/arquivos/coord4_luiz_gonzaga_motta.pdf). Este autor, no jornalismo, tem desenvolvido vasta pesquisa em torno dos interesses teóricos e metodológicos aqui expostos.

5 Muitos desses estudos, por exemplo, dão lugar ao que muitas vezes é chamado de “jornalismo literário”; no entender desta reflexão, um modo de categorização que contraria o problema da narrativa e do jornalismo, conforme aqui se busca esclarecer.

6 Em outro trabalho, Ricoeur esclarece: “Estendo a palavra ‘poético’ para além da poesia no sentido de rimado e ritmado, ao sentido de produção de sentido” (2002, p. 55).


7 É certo que esses estudos estão sendo aqui generalizados. Em Benetti & Lago (2007) é possível se haver com um conjunto de pesquisas que apresentam a variedade de percursos que têm sido feitos nos estudos do Jornalismo e em Resende (2008a) encontra-se uma reflexão mais elaborada sobre esses percursos.

8 Um esforço de compreensão e maior aprofundamento em relação à idéia de “narrativas atrofiadas” e da primazia da discursividade sobre a narratividade no campo do jornalismo, encontra-se, respectivamente, em Resende (2002b e 2007a).

9 Santos (2002) desenvolve uma reflexão bastante significativa, neste caso, acerca das “ausências” no que diz respeito à produção de conhecimento na ciências sociais e da necessidade de as recuperarmos, caso o intuito seja rever nossos modos de compreender as dinâmicas sociais nos dias de hoje. No nosso caso, o olhar voltado para a dimensão discursiva e narrativa quer também ser um modo de recuperação de ausências no âmbito dos estudos do jornalismo, dado com o qual corrobora Ferrara (2008) acerca da comunicação.

10 Já disse Schudson: “Com a ideologia da objetividade, os jornalistas substituíram uma fé simples nos fatos por uma fidelidade às regras e procedimento criados para um mundo no qual até os fatos eram postos em dúvida” (1978, p. 122).

11 Neste ponto parece fundamental ressaltar que, somada à reflexão de Foucault, a noção de discurso da qual parte esta reflexão se ancora no pensamento de Bakhtin, na medida em que é este o autor que primeiro o concebe como próprio de uma dinâmica social e presumivelmente dialógica.

12 Aqui também cabe, perfeitamente, a definição de Gomes: “antes de registrar, informar, antes de ser colocado pelas condições que o caracterizam, por exemplo, periodicidade, universalidade, atualidade, difusão (...) o jornalismo é ele próprio um fato de língua. Seu papel e sua função na instituição social implica o de organizar discursivamente, o que, aliás, é a prática jornalística por excelência” (2000, p. 19)


13 Barbosa (2007, p. 24) esclarece de que se trata a “tarefa hermenêutica” para Ricoeur: “(...) a arte da interpretação de decifração do sentido de textos, por intermédio da compreensão e da explicação. Nesse sentido, compreender não é conhecer, mas ser e relacionar-se com outros seres. A hermenêutica é a filosofia da compreensão e não um conjunto de técnicas de interpretação”.

14 Não cabe neste artigo uma discussão sobre a validade ou não do conceito de gêneros, no entanto, do ponto de vista da narrativa e do discurso, o próprio Todorov (1980) já dá como resolvida esta questão quando alerta para o fato de que os gêneros são propriedades discursivas.

15 Atualmente, desenvolvo o projeto “Narrativas de conflito: a representação do outro no discurso midiático” (UFF / CNPq / Faperj) no qual análises de documentários do israelense Avi Mograbi, sobre o conflito Israel/Palestina, e os quadrinhos de Sacco têm sido muito importantes no desenvolvimento da reflexão aqui sugerida. Também, em Resende (2008b), é feita, nesses termos, uma análise da coluna “O diário de Bagdá”, que o jornal Folha de São Paulo publicou durante o mês de abril/2003. Nos 3 casos, as análises nos permitem conhecer relatos marcados, por exemplo, por aspectos intertextuais e metanarrativos bastante significativos para a reflexão e a critica do jornalismo.

16 “Encontro textual com Maria Esther Maciel”, em Revista Agulha de Cultura, #57. Em: http://www.revista.agulha.nom.br/ag57capa.htm (acesso 06/11/2010)

www.compos.org.br




Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal