Só hoje resolvi sentar para escrever o que se passou comigo nesses 976 dias no cárcere



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COVARDES
(O Diário do Cárcere)

A prisão é um câncer na alma

Dedico ao meu filho e esposa que souberam me amar do princípio ao fim:
José Davi Barbosa Júnior e Aparecida Maria da Conceição.

É bem verdade que também dedico esta obra a todos os internos que conviveram comigo no PMRG desde a fatídica manhã do dia 17 de Dezembro de 2005 até o inesquecível e glorioso 01 de Setembro de 2008.

Aqui incluo todos os PMS, desde o soldado ao coronel, os funcionários civis, os religiosos que oravam conosco, os familiares dos colegas que me foram apresentados ou não, os fiéis e os não fiéis colegas de cárcere e todos os meus amigos que se lembraram de mim, através de suas orações ou cartas.

Dedico especialmente ao Major Carlos Eduardo Jorge Aguiar e família, aos colegas mais ‘chegados’ do cárcere, tais como Professor Pedro Luís Bianchi, Ricardo, Sr Almeida, Gabarron, Alves, Payão, Alessandro, Henrique “corneteiro”, Arruda, Belarmino, Alécio, Nicéias, “Datena”, Levorato, Tinoco, Roger, “Sandrinho”, Satélis, “Mastiguinha”, Michel, Dey, Aquino, Nascimento, Sachá, etc.

Não poderia deixar de incluir meus amigos católicos, Sr Antônio, Luiza e minha adorada Inês; bem como, as senhoras Ângela e Maria José.

Prefácio
]
A presente obra objetiva narrar os fatos por mim vividos durante o período que fiquei recluso no Presídio Militar Romão Gomes (PMRG), São Paulo. Não quero que o livro se torne ferramenta para delatar, menosprezar, humilhar, ofender, caluniar ou difamar quem quer que seja. E se isso, porventura, acontecer não será intencional.

Os fatos narrados foram todos ouvidos por mim, sem que qualquer interno se sentisse na obrigação de me prestar depoimentos dos seus ou dos crimes dos outros. Portanto, são reais as histórias aqui contidas, porém, se verdadeiras ou não, não me cabe dizer.

Relatei tudo o que pude e consegui ouvir durante os 976 dias que fiquei preso com a única intenção de me ocupar e para melhor suportar as agruras do cárcere. Li muito e nesta obra eu faço um convite ao meu leitor para que leia os grandes clássicos da literatura mundial e, principalmente, da brasileira e francesa que são extraordinários. Também são igualmente fantásticas as obras literárias alemãs, italianas, americanas, portuguesas, inglesas, russas e etc.p

Jamais desejo que o meu livro; COVARDES: O DIÁRIO DO CÁRCERE, (A prisão é um câncer na alma) seja instrumento de instrução processual para nenhum caso, mesmo porque cabe à polícia investigar crimes e não a mim. Não conheço nenhum caso de nenhum interno, exceto o meu, e por isso não tenho intenção de testemunhar nada, pois tudo o que tenho a dizer é o contido na obra. Infeliz foi aquele que a mim contou ou deixou chegar quaisquer informações a seu respeito. Eu não temo tornar público o conteúdo desta obra porque não sou um COVARDE qualquer e me senti vitimado por inúmeras “autoridades” que me intrujaram falsos crimes, causando-me um mal irremediável; incurável. Sinto-me com um câncer na alma.

Aos que se sentirem insultados, difamados ou caluniados sintam como se fosse eu mesmo em seu lugar (ou no lugar de vocês) ou como as centenas de pessoas que vocês feriram, mataram, roubaram, violentaram, estupraram, seduziram, colocaram no mundo das drogas e do crime, das crianças abusadas, das viúvas desamparadas, dos filhos órfãos, das esposas que ficaram sozinhas com seus filhos, dos lares destruídos, das jovens vitimadas pela luxúria de muitos que aí estão e continuarão presos por muito tempo, etc. Eu não me desculpo com policial bandido, pois quando eu exerci a função eu nunca me deixei corromper.

O pior bandido é o bandido fardado ou que usa do poder para sacrificar pessoas inocentes. Portanto, COVARDES, somos todos nós. O Delegado que me prendeu, o Investigador que mentiu, o Sargento da PM que não me respeitou, o Promotor, a Juíza que me condenou e tantos outros que se aproveitaram de mim e que não me ofereceram condições de lutar contra eles com as mesmas armas. Jamais se ganha uma luta contra um exército de covardes armados, sendo você um inocente desarmado. Um homem, ainda que íntegro, quando cai na cilada de um covarde é como um inseto na teia de uma aranha. É eliminado; devorado.

Infelizmente eu caí entre lobos, mas felizmente não perdi a batalha porque Deus me deu força para a luta; luta renhida. “Vim, vi e venci!” E toda a alcatéia faminta não conseguiu e nem conseguirá me engolir; “ainda que tenha que me engolir”, usando a expressão do memorável técnico da seleção brasileira, o Sr Zagallo, vendo-me vencedor. Ferido na alma, com o coração sangrando, mas de cabeça erguida. Assim morrem os grandes guerreiros. Eu sou guerreiro! E ainda vivo!

Só agora resolvi sentar para reescrever, em português, o que se passou comigo nesses 976 dias no cárcere.

PRIMEIRA PARTE
PÁGINAS VERMELHAS

00116DEZ05


Triste sexta-feira. E por mais que eu não queira me lembrar, jamais sairá de minha memória. Este fantasma me atormentará pro resto da vida. Bem feito pra mim. Por que eu tinha que discutir com um ser tão desprezível e abjeto como aquele gordo e maldito investigador?

Como prêmio, ganhei o cárcere.

00217DEZ05
Cheguei apavorado e com muito medo. Não dá pra chegar de outra maneira no inferno! Todavia, as primeiras palavras que ouvi foram de conforto; “Você não está aqui por acaso, Deus tem uma promessa na sua vida”, disse-me o Feitosa.

Conheci meus colegas de X-5 numa manhã de sábado. Era dia de faxina geral e eu não participei dela.

Logo após, o mais antigo determinou a outro que me passasse algumas instruções.

Éramos oito: Feitosa, Miquita, Sandro, Douglas, Carvalho, Rosival, João e eu.

Ouvi pacientemente as histórias de cada um deles e em seguida fui bombardeado pelas inevitáveis perguntas de quase todos. O nervosismo era meu único aliado e eu não sabia se devia ou não falar de mim, porém optei por dizer e assim tornar-me benquisto.

Lembro-me que almocei pouco devido ao cansaço e dormi muito até o entardecer, só acordei antes do jantar. E como o domingo seria dia de visitas, tivemos que lavar a quadra e preparar as mesas. Fui batizado com vários baldes de água fria. É o costume.

00318DEZ05
Acordei nesta manhã de domingo menos nervoso. Todavia não tão menos. Tomei o café da manhã e me preparei para ficar o dia todo no X, pois como não terei visita não poderei sair. Assim como eu, meu companheiro Douglas permanecerá comigo.
00419DEZ05
Como todos os dias, acordei bem cedo, tomei o café, conversei com os demais, jogamos xadrez e assistimos televisão. Minha primeira vitória no xadrez foi contra o Carvalho.

Fui chamado, na manhã de hoje, para conversar com a Assistente Social e o Psicólogo. Lembro – me que nesta noite o nosso amigo Rosival nos deixou.


00520DEZ05
Ainda ontem à noite, eu e o João tivemos uma discussão interessante sobre a origem da criação. Ele nos fez rir muito.

Li muito durante o dia de hoje, toquei violão e cantei. Tive uma enorme dor de cabeça antes do jantar.


00621DEZ05
Um novo companheiro chegou nesta manhã; é o Alves. Passei – lhe as instruções conforme me determinou o mais antigo. Ouvi as reclamações do João Jorge que se dizia incomodado com o meu ronco.
00722DEZ05
Ontem fui ao culto religioso e emocionei – me muito. Espero com impaciência minha liberdade, a solução para os meus problemas e penso constantemente em minha família. Jamais poderia me imaginar nesta situação horrível.
00823DEZ05
Seis dias privados de minha liberdade!

Descontente, porém mais tranqüilo. Fala – se muito em Deus aqui neste lugar.


00924DEZ05
Sonhei com minha mãe a noite inteira. Certamente passarei o Natal na prisão e só terei novidades sobre o processo somente após passarem as festas. O que fazem minha mulher e filho neste momento?
01025DEZ05
É Natal!

Minha irmã e minha mulher vieram me visitar e trouxeram uma carta da minha irmã Matilde. Comi bem, apesar de não estar com muito apetite.

Acredito em Deus e tenho certeza que sairei em breve daqui. Tivemos uma bonita Ceia de Natal após o término da visita.
01126DEZ05
Um dia normal como todos os outros e sem nenhuma novidade. Li Álvares de Azevedo e depois pretendo ler Euclides da Cunha.
01227DEZ05
Durante três dias os novatos de prisão são obrigados a fazer a limpeza do X, assim como eu fiz. Passei por alguns momentos de tortura psicológica por causa de minha atitude em relação ao guarda da prisão. Quando sairei daqui meu Deus?

Agora somos nove no X – 5. O novo amigo é de Candido Mota e se chama Vasconcelos.


01328DEZ05
Tive um sonho maravilhoso esta noite.

Sonhei com Nossa Senhora, ela me olhou, me acenou com a cabeça dizendo que estava ao meu lado e que em breve me livraria deste inferno.

Tive problemas de estômago o dia todo.
01429DEZ05
Novas pressões psicológicas sobre mim. Fui convidado a participar do conjunto musical da prisão, nada confirmado até então.

Comentei que escreverei um livro sobre esses terríveis dias que aqui passo e isso despertou a curiosidade dos colegas. É certo que faço o meu diário, mas não estou certo de que escreverei um livro.


01530DEZ05
Minha primeira briga nesta merda de cadeia!

O Carvalho me encheu o saco por causa de uma partida de xadrez. Aqui se briga por pouca coisa e por isso não brincarei com mais ninguém.

Participei novamente de um culto maravilhoso com o pastor Pereira que esteve preso por quatorze anos nesta mesma prisão. Hoje ele trabalha na Cruz Azul aqui em São Paulo. Ele nos disse que foi condenado a quarenta e três anos e oito meses.
001631DEZ05
São duas semanas na prisão. Espero sair em uma semana, afinal é o que dizem os colegas de cela.

É o ultimo dia do ano! Fizemos uma linda prece aqui no X – 5 ao mesmo tempo em que acontecia uma balburdia no X – 4 que fica bem defronte ao nosso. Choramos.

2006
01701JAN06
É ano novo e eu espero que seja o ano da minha libertação. Eu não terei visita, mas estou feliz porque sei que os meus familiares estão bem.
01802JAN06
Comemos bem aqui neste lugar. Aos domingos, após as visitas, sempre temos a mesa farta.

O Vasconcelos não tem boa saúde e ninguém se importa com ele. Tenho medo de ficar doente neste lugar, pois pior que estar preso é ficar doente.

O Guga está indo embora hoje. Sua saída foi triunfal. Dizem que ele está aqui há mais de três anos e ele foi absolvido dos crimes que lhe imputaram.
01903JAN06
Aguardo para ir ao médico. Tive problemas de saúde devido à falta dos meus medicamentos.

Rimos a noite toda.


02004JAN06
Chove há mais de quatro dias. E com isso os dias parecem intermináveis. Estou cansado.

Feitosa me agrediu com um cabo de vassoura na noite passada por causa do meu ronco.


02105JAN06
Intranquilo. Nada muda. Ninguém respeita ninguém neste lugar. O Vasconcelos é língua solta e por isso não se pode dizer nada na presença dele. Ele me chateou hoje.
02206JAN06
Todos estavam nervosos comigo nesta manhã porque disseram que eu ronquei muito. Miseráveis! Será que não sabem que o ronco é involuntário?
02307JAN06
A desconfiança é a melhor arma para se defender de todos. Aqui devemos observar mais e falar menos. Não necessitamos da amizade de ninguém, quanto mais só, melhor.
02408JAN06
Barracas montadas. É domingo, dia de visita. Eu não terei.

Enquanto escrevo estas linhas, ouço os colegas tocando cavaquinho e cantando lá na quadra enquanto esperam a liberação para a visita.

Ontem o Cristiano me pediu que escrevesse dois poemas às suas duas esposas. Descobriram que eu gosto de escrever.
02509JAN06
Ainda não disse ao leitor o porquê da minha prisão. É que nem mesmo eu quero acreditar que eu tenha sido enclausurado em razão de tão pouco. Imputaram – me injustamente os crimes capitulados nos artigos 147, 331 e 344, todos do Código Penal Brasileiro. Falarei mais adiante sobre tudo isso.

Só sei que no dia de hoje eu quis saber qual a medida do X – 5, para saber qual era a medida que caberia a mim neste cubículo fétido, úmido e hostil.

Temos aqui dois violões que pertencem ao Douglas e ao Feitosa, os quais me são úteis quando me sinto entristecido.

02610JAN06


Todas as manhãs nos acordam com o irritante toque da corneta. Somos 77 internos em forma nesta manhã. Somos obrigados a cantar o Hino Nacional e outros hinos militares todas as manhãs, mas nenhum superior militar quer saber se temos condições psicológicas para cantarmos. Acredito que seria muito mais fácil chorarmos, haja vista a nossa miserável condição. É um absurdo o que fazem conosco, pois se não cantarmos seremos punidos. A rotina me enlouquece. Aqui somos reduzidos a nada e até mesmo um cão moribundo que habita as ruas fétidas desta grande metrópole é bem mais feliz que qualquer um de nós.

E para piorar estou com uma enorme dor de barriga e sinto a cabeça doer.


02711JAN06
Acabo de receber uma carta de minha irmã com notícias pouco agradáveis, aliás, não há nada aqui que seja agradável, exceto a alimentação.

Tenho tomado meus medicamentos desde que aqui cheguei, mas irei abandoná-los o mais rápido possível.

Aqui somos submetidos a constantes humilhações e a pior delas é ter que utilizar o sanitário na presença de todos sem que tenhamos privacidade nem neste momento de prazer fisiológico. Pior ainda é ter que obrigar os colegas a sentirem o mau cheiro. O mesmo acontece quando outros utilizam o sanitário. Não há nada mais deprimente e desagradável!
02812JAN06
Falei com minha mulher ao telefone esta manhã e ela me disse que minha irmã virá me visitar no próximo domingo. Fiquei triste ao ouvir a voz de minha mulher e me senti mal o dia todo. Sinto saudades de casa.
02913JAN06
Solicitei uma consulta com o psicólogo, mas não me foi concedida.

Temos bons e maus guardas aqui. O Alfredo é odiado por todos ao passo que Tuschi é o melhor. Sobre a muralha desfilam tantos outros que ainda não conheço.

Passamos o dia todo no X e só podemos sair uma hora no período da manhã e outra no período da tarde, o que é pouco demais.

Hoje conheci um colega do X – 4, filho de polonês e que se chama Sachá. Ele me contou que seu pai lutou na segunda guerra mundial e que foi prisioneiro nos campos de concentração na Alemanha. Sachá me afirmou que a história se repete, porém que sua situação é bem melhor que a de seu pai porque aqui ele come e bebe muito bem sem ter que trabalhar duro e não ter o que comer.

Sachá me disse que seu pai via constantemente o “diabo”, isto é, o nazista Adolf Hitler. Disse-me ainda que seu pai cavou sepulturas para enterrar os judeus e que ele só não foi morto porque era polonês.

Com o final da guerra o seu pai foi convidado a retornar para a Polônia, ir aos Estados Unidos ou ao Brasil. Ele escolheu o Brasil porque ouvia falar bem de nosso país nos anos de 1945.

Seu pai era relojoeiro e viveu em São Paulo. Após mudou-se para o Paraná onde encontrou sua esposa que é a mãe do Sachá e de sua irmã Tânia Kondratjws.

O Sachá está preso porque efetuou alguns disparos contra bandidos que tentaram lhe assaltar. Ele foi acusado de pôr em perigo a vida de transeuntes.

O seu comportamento é bizarro. Ele parece que está numa praia e não demonstra intranqüilidade.

03014JAN06


Acordei bem apesar dos pesares e ocupei meu tempo relacionando alguns vocábulos da gíria prisional. É interessante perceber como a linguagem é tratada por esses homens de pouca instrução. Eles criam palavras vulgares para dar nome aos objetos de uso diário. Eles criam um novo vocabulário como estratégia de defesa e uma maneira nada criativa para se comunicarem neste submundo do crime. Mais adiante tratarei de mencionar alguns desses vocábulos.
03115JAN06
Jamais me esquecerei das coisas que aqui estou aprendendo!

Não sei de onde tenho retirado forças para suportar o peso deste fardo que me puseram sobre as costas.

Aguardei a visita de minha irmã nesta manhã de domingo, mas não sei o porquê de não ter vindo. Pedi para irmã do Sachá dizer a ela que preciso de algumas coisas.

Como de costume fiquei o dia todo preso na companhia do Douglas e do Miquita.

003216JAN06
Nada de diferente dos outros dias, pois aqui “c’est toujours la même chanson” !

À noite, pela primeira vez eu vi a lua! É cômico se trágico não fosse, já que todos dizem que na prisão a gente vê o sol nascer quadrado e eu ainda não tive esta visão porque aqui no primeiro estágio mal dá pra ver o sol. E também não dá pra ver a lua porque somos obrigados a ir pro X antes mesmo do sol se pôr. Então comecei a sentir a falta da lua e das estrelas.

De repente o Martelinho conseguiu vislumbrar uma nesga da lua do ponto onde ele estava, mas foi preciso subir em algumas cadeiras. Foi assim que matei meu desejo de vê-la.

Hoje eu ouvi a história dos dois candidomotenses que estão recolhidos aqui. Eles são acusados de homicídio, mas segundo eles o fato não procede porque eles foram solicitados para atender uma ocorrência e chegando lá encontraram dois homens baleados. De imediato eles foram conduzidos ao pronto socorro, porém um deles já estava morto.

As testemunhas disseram que esses homens foram alvejados por outros que estavam em um pálio branco, quatro portas, e que este veículo pertencia a um policial civil. Os policiais militares estão sendo acusados de proteger o policial civil e por isso eles respondem pelo crime na prisão até que se esclareça melhor a ocorrência, Faz mais de setenta dias que eles estão reclusos, o Vasconcelos e o Cardoso (este último, não sei o porquê, eu insisto em chamá-lo de Oliveira).

03317JAN06


Os mais antigos de prisão não gostam que os novatos sejam simpáticos com os guardas porque, segundo eles, são todos “traíras” que a qualquer momento nos humilharão por nada.

Hoje eu vivenciei o pior de todos os dias - até então- aqui neste inferno, pois o demônio mostrou sua face na pessoa desgraçada do Major Spinielli que gritou conosco porque nós não nos levantamos durante a sua visita com mais dois outros senhores que não sei quem são. Fomos obrigados a nos levantar em sinal de obediência militar ao “superior”.

Desejei estar morto para não ser tão humilhado por este verme militar. Feliz mesmo foi o Albieri que saiu esta tarde deste lugar insano. Chegou pra ele a tão sonhada liberdade.

Fui falar com o psicólogo, esta tarde, sobre um documento que foi enviado pela Dra Cleonice de Maracaí. Ele prometeu ajudar-me aqui na prisão, mas eu não acredito. Neste momento é difícil acreditar em alguém.


03418JAN06

Acordar, fazer a toalete, tomar café, entrar em forma, banho de sol e xadrez. Que horror!

Por que o chamam de “martelinho”? Só agora soube através dele próprio a razão do seu apelido. Disse-me ele: “comecei a namorar uma garota e fizemos amor por dez dias de uma maneira louca e irresponsável. Mesmo sendo casado, traí minha esposa com esta vadia e um dia, após muita bebedeira, saímos como de costume para passear. Tivemos uma discussão e ela atirou em mim um martelo que atingiu minha perna e meu pé. Isso me irritou profundamente. Tomei-lhe o martelo e atingi sua cabeça matando-a com várias marteladas; não conseguia me controlar. Ela morreu e eu estou preso. E para consumar o crime eu ateei fogo em seu corpo.” E finalizou:

“Há mais de um ano que estou aqui e espero sair ainda este ano se Deus quiser.”

Como pode falar em Deus alguém que cometeu tamanha atrocidade? E ainda completou dizendo que os acontecimentos de nossas vidas são como acidentes que nos acontecem sem que possamos evitá-los. São situações que não compreendemos.

O André se foi. Desertor.

Falei com a Cidinha hoje e isso me trouxe um grande desconforto porque a saudade me nocauteou.


03519JAN06

Vejo que as plantinhas insistem em nascer nos muros úmidos desta prisão ensinando-me que a vida é mesmo teimosa. Se eu fosse planta não iria querer nascer num lugar tão feio e frio como aqui.

Hoje eu vi um pássaro voando sobre o gradil que nos protege. Mesmo sabendo que há uma mata aqui ao lado com muitos animais, poucos deles nos honram com suas visitas, exceto alguns gatinhos e raros pássaros como este que acabo de ver sem me atentar para a sua espécie.

A equipe de hoje é cruel e ficamos o dia todo no X. Tenho tantas coisas pra fazer fora daqui!Estou desesperado! Quando serei liberto? Estou enlouquecendo!


03620JAN06


Tuschi é o guarda hoje. Teremos um pouco mais de liberdade porque ele é o melhor dos guardas, digo, ele é bom conosco.

Na prisão não se tem muitas novidades para relatar porque a rotina nos enlouquece, nos empobrece, nos faz sedentários a contragosto. Vegetamos aqui. Somos como porcos de engorda e precisamos controlar a ansiedade para que não fiquemos obesos.

Recebi duas cartas esta manhã. Uma da Cidinha e outra da minha irmã dizendo que trocaram de advogado. Por quê? Justo hoje que fui procurado por um advogado aqui de São Paulo!
03721JAN06
Minhas revistas francesas chegaram e agora terei algo em francês para ler. Isso me fará bem. São exemplares do Réveillez-vous.

Dois outros hóspedes chegaram. Aqui é assim mesmo, uns saem e outros chegam; infelizmente. Um é de Mogi Guaçu e o outro é de Santo Anastácio. Este último disse ter passado por aqui há dez anos atrás.

Conversei um pouco mais com o Conceição hoje e trocamos endereço para futuras correspondências. Ele viveu nos Estados Unidos.

Faz calor neste sábado e hoje há culto após o almoço com um Pastor que adora berrar. Não irei. Não gosto de toda essa loucura dos crentes. Prefiro ficar na quadra me refrescando com baldes d’água.

Minha decisão de não ir ao culto não agradou o irmão Feitosa.
03822JAN06
Domingo de novo. Quantos domingos deverei passar aqui meu Deus?

Nada pra fazer, então me pus a ouvir a história do “Oliveira” que me disse ter chegado aqui em agosto de 2005. Fazia muito frio, ficou na cela forte com um único cobertor. Logo sentiu vontade de se banhar porque estava sujo e cansado. Mas como passava das 22 horas e a energia estava desligada, ele teve que se banhar na água fria e suportar o frio sem dizer nada. Foram mais de dez dias sozinho na cela10; a forte. Faz mais de 05 meses que ele está aqui e recorda com tristeza da sua chegada.

A irmã do Sachá me trouxe algumas coisas úteis e indispensáveis pro meu dia-a-dia. Que bom tê-los como amigos!
03923JAN06
A labirintite me pegou e cheguei a vomitar esta noite passada. Ninguém se importou. Sofri sozinho e calado. A vida não vale nada aqui; o ser humano não vale nada aqui. Não tem medicamentos e não há médico de plantão. O médico militar vem quando quer e nos atende com desprezo. Tem um sargento meio biruta que nem é enfermeiro e que nos traz alguns medicamentos que mais parecem placebos.

Senti fortes dores no estômago e minha cabeça rodava. Passei momentos difíceis hoje.


04024JAN06
Disse aos colegas que escreveria um livro contando minhas experiências do cárcere e eles estão entusiasmados com a idéia. Todos querem participar escolhendo o título, mas, sobretudo querem contar suas histórias. Todos aqueles que quiserem contar terão sua oportunidade para isso. Alguns acreditam em mim e outros não. Eu mesmo chego a pensar que não será um trabalho fácil. Precisarei de paciência, algo que não tenho para escrever e sim só pra ler.

Enquanto faço estas anotações, muitos jogam futebol e outros jogam dominó no refeitório. Entristeço-me e sinto vontade de chorar, mas é preciso fazer das desgraças um trampolim para darmos saltos maiores rumo à felicidade, pois nem tudo está perdido ainda.

Pedi ao desenhista Abner que faça as ilustrações do meu futuro livro. Veremos! O Cassalho confirmou sua intenção de me contar sua história.
04125JAN06
Quarta-feira! Aniversário da cidade de São Paulo; 452 anos. Ainda não me habituei com a maldita corneta que nos acorda todas as manhãs. Vou odiar o corneteiro por um bom tempo.
04226JAN06
Obrigam-nos a cantar todas as manhãs. Como cantar com um coração que chora? Impossível. É preciso que a Pátria nos respeite para que nós aprendamos a respeitá-la. Tudo em mim é tristeza. Preciso manter a calma para não fazer besteiras. Dá-me Deus paciência.

Aqui se perde a auto-estima e a dignidade, pois somos humilhados diuturnamente. Eles fazem conosco o que querem e somente Deus é a nossa única esperança.

Chegaram dois novos colegas no alojamento. O Capitão Jair do bombeiro e o Canella que é Tenente. Diminuiu o metro quadrado por pessoa. Ainda bem que o colega de Estiva Gerbi se foi; o Simangi.
04327JAN06
Não gosto de militares e similares. Aqui se encontram muitos que estão revoltados com o militarismo e assim como eu só agora veem o quão injustiçados estamos sendo. Os presos conhecem muito bem o que é a ruína, a desolação, a miséria, as necessidades, a saudade de casa, a tristeza e tudo mais. Aqui não há vida. O inferno é aqui. Ainda que ouçamos o nome de Deus o dia todo, os corações estão cheios de mágoa e revolta.

Aqui muitos se escondem atrás das palavras de Deus para se sentirem fortes, quando na verdade estão fragilizados. A Bíblia é o manto que serve para aquecê-los da frieza espiritual. Eram lobos famintos que devoravam impiedosamente suas presas e agora se veem como cordeiros sendo devorados pelo sistema.

Enquanto isso o jornal Le Figaro anuncia: “Le mouvement Islamiste face au pouvoir”.

Tenho repensado minha vida e sei que cometi inúmeras injustiças com minhas irmãs e mãe. Perdão meu Deus! Vejo a vida diferente agora e meus valores são outros. Foi preciso que eu viesse preso para dar valor à liberdade. Todavia há muitos colegas que não mudarão, tenho certeza.


04428JAN06
Detesto militares. Não gosto nem de guardas de banco. O homem fardado me causa repulsa. Só quando você é hostilizado pelos militares, aí então você é capaz de sentir o quanto eles são covardes. E aqui na prisão a gente encontra muitos desses miseráveis que outrora foram maus e covardes com muitos outros cidadãos e que por isso aqui estão provando do próprio veneno

Amanhã será domingo de novo e eu não terei visitas. Prefiro que meus familiares não venham devido a vários fatores que explicarei nas próximas páginas, mas o principal é porque não os quero sendo humilhados nas revistas.


04529JAN06
Não ajudei a montar a barraca pra receber as visitas e receio que vão me encher o saco. Mas não me importa, pois os outros são os outros e só.

Aqui somos constantemente ameaçados por pequenas coisas e não somos respeitados em nossa individualidade.

Meu Deus! Que boa e má surpresa eu tive hoje, pois não esperava que minha irmã viesse e trouxesse meu filho. Ele trouxe um montão de coisas pra comer, mas eu não consegui comer nada porque a ansiedade era muito grande ao vê-lo. Criou-se uma bola na minha garganta que me impediu de comer naquele momento e pedi a ele que levasse de volta tudo o que trouxe.

Falei-lhe rapidamente sobre a prisão e pedi a ele que não viesse mais aqui porque já havia sido provocado pelo Fábio na manhã de hoje e que sua visita inesperada havia me causado alguns embaraços. Disse-lhe que aqui não se pode vir sem avisar porque os lugares precisam ser reservados para recebermos nossas visitas e que há um monte de recomendações a serem seguidas no dia de visitas.

O outro é mesmo um país desconhecido a nós! Outras brigas ocorreram hoje minutos antes da visita porque um desavisado usou o banheiro de visitas após ter sido limpo, o que não é permitido no domingo. Após a limpeza fica proibido o uso por parte dos internos. É de uso exclusivo das famílias.

A discussão entre o Douglas e o Vinícius foi a pior delas. Eles quase se pegaram, trocaram ofensas e tiveram que se explicar com os comandantes.

Todavia, o pior momento do dia foi quando despedi do meu filho que não chegou a ficar nem uma hora comigo a pedido meu. Eu não quis vê-lo no meio dessa gente miserável. Basta o meu sofrimento, e eu não tenho o direito de mantê-lo preso comigo. Chorei ao abraçar meu filho e pedi a ele que cuidasse da mãe dele.
04630JAN06
Estou triste por ter proporcionado ao meu filho enorme dissabor.

Neste lugar insano, calar é mesmo ouro e por isso a partir de hoje vou falar menos e observar mais o comportamento desses miseráveis. Tomarei cuidado com as coisas que escrevo e despacharei o mais breve possível o que eu puder através da minha irmã quando ela vier aqui me visitar.

Canella me falou de sua irmã e de seu comportamento diante da justiça tentando incriminá-lo ainda mais. Ela o acusa e quer arruiná-lo. Acredito que outros interesses estão por trás de tudo isso; grana. Eu o vejo como um bom camarada e muito inteligente pra média geral. Gosto da companhia dele.

O Sachá me disse que minha irmã fez amizade com a irmã dele e isso é muito bom porque posso precisar dos favores dela.

Está pronto o cadastro de minha irmã para que ela possa me visitar.
04731JAN06
Terça-Feira. O café atrasou hoje.

Há homens perigosos neste lugar e capazes de atrocidades inenarráveis. Os mais antigos se acham no direito de terem privilégios e por isso escravizam os mais recrutas. Aceitar as diferenças e respeitar o outro não é tarefa fácil neste lugar. E muitos dizem com orgulho a seguinte frase que é repetida com freqüência neste pardieiro: “



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