Said, Eduard



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PROFESSORA MARIA GERALDA DE MIRANDA

DISCIPLINA: LITERATURA UNIVERSAL


(SAID, Eduard. Cultura e imperialismo. São Paulo : Cia das Letras, 1995, 33-50)
TERRITÓRIOS SOBREPOSTOS, HISTÓRIAS ENTRELAÇADAS

A ordem do dia era o silêncio, emanando e rodeando o as­sunto. Alguns dos silêncios/oram rompidos, outros manti­dos por autores que viveram e conviveram com as estraté­gias civiltzatórias. A mim, o que interessa são as estratégias para romper com isso.

Toni Morrison, Playing in lhe dark [Brincando no escuro]



Em outras palavras, a história não é uma máquina de cal­cular. Ela se desdobra no espirito e na imaginação, e adqui­re corpo nas múltiplas respostas da cultura de um povo, a qual, por sua vez, é a mediação infinitamente suíil de reali­dades materiais, de fatos económicos subjacentes, de áspe­ras objetividades.

Basil Davidson, África in modern history [A África na história moderna]



IMPÉRIO, GEOGRAFIA E CULTURA

A invocação do passado constitui uma das estratégias mais comuns nas interpretações do presente. O que inspira tais apelos não é apenas a divergência quanto ao que ocorreu no passado e o que teria sido esse passado, mas também a incerteza se o passado é de fato passado, morto e enterrado, ou se persiste, mesmo que talvez sob outras formas. Esse problema alimenta discussões de toda espécie — acerca de influências, responsabilidades e julgamentos, sobre realidades presentes e priorida­des futuras.

Em um de seus primeiros ensaios críticos mais famosos, T. S. Eliot aborda uma constelação similar de problemas e, mesmo sendo a oca­sião e o objetivo de seu ensaio quase que puramente estéticos, é possí­vel empregar suas formulações para esclarecer outros campos de expe­riência. Diz Eliot que o poeta é, evidentemente, um talento individual, mas trabalha dentro de uma tradição que não pode ser simplesmente herdada, tendo de ser obtida "com grande esforço". A tradição, pros­segue ele,

supõe, em primeiro lugar, o sentido histórico, que podemos dizer pratica­mente indispensável a qualquer um que continue a ser poeta depois dos 25 anos de idade; e o sentido histórico supõe uma percepção, não apenas do que é passado do passado, como também daquilo que permanece dele; o sentido histórico leva um homem a escrever não só com sua própria ge­ração entranhada até a medula, mas ainda com a sensação de que toda a literatura da Europa desde Homero, e dentro dela toda a literatura de seu país, possui uma existência simultânea e compõe uma ordem simultâ­nea. O sentido histórico, que é um sentido tanto do intemporal quanto do temporal, e do intemporal e do temporal juntos, é o que torna um es­critor tradicional. E é, ao mesmo tempo, o que torna um escritor profun­damente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporanei-dade.

Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte, tem seu pleno signifi­cado sozinho.*

A força desses comentários, penso eu, vale também para poetas que pensam criticamente e críticos com obras dedicadas a uma cuida­dosa apreciação do processo poético. A ideia principal é que, mesmo que se deva compreender inteiramente aquilo no passado que de fato já passou, não há nenhuma maneira de isolar o passado do presente. Ambos se modelam mutuamente, um inclui o outro e, no sentido total­mente ideal pretendido por Eliot, um coexiste com o outro. O que Eliot propõe, em suma, é uma visão da tradição literária que, mesmo respei­tando a sucessão temporal, não é de todo comandada por ela. Nem o passado, nem o presente, como tampouco qualquer poeta ou artista, tem pleno significado sozinho.

A síntese eliotiana do passado, presente e futuro, porém, é idealis­ta e, sob importantes aspectos, é função de sua própria história parti­cular;2 ademais, sua concepção temporal não leva em conta a comba­tividade com que os indivíduos e as instituições decidem o que é e o que não é tradição, o que é e o que não é pertinente. Mas sua ideia cen­tral é válida: a maneira como formulamos ou representamos o passado molda nossa compreensão e nossas concepções do presente. Vou dar um exemplo. Durante a Guerra do Golfo de 1990-91, o confronto en­tre o Iraque e os Estados Unidos foi resultado de duas histórias funda­mentalmente opostas, cada qual usada pelo establishment oficial do res­pectivo país em benefício próprio. Tal como é concebida pelo Partido Baath iraquiano, a história árabe moderna revela a promessa irrealizada da independência árabe, promessa traída tanto pelo "Ocidente" quan­to por uma série de inimigos mais recentes, como a reação árabe e o sionismo. Assim, a sangrenta ocupação iraquiana do Kuait justifica­va-se não só por razões bismarckianas, mas também porque se acredi­tava que os árabes deviam reparar os males cometidos contra eles e ar­rancar do imperialismo uma das suas principais presas. Inversamente, na visão americana do passado, os Estados Unidos não eram uma po­tência imperial clássica, e sim justiceiros reparando males pelo mundo afora, perseguindo a tirania, defendendo a liberdade a qualquer custo e em qualquer lugar. Era inevitável que, com a guerra, essas duas ver­sões do passado se entrechocassem.

As ideias de Eliot acerca da complexa relação entre o passado e o presente são particularmente sugestivas no debate sobre o sentido do "imperialismo", palavra e ideia hoje tão controversas, a tal ponto car­regadas de todo tipo de questões, dúvidas, polémicas e premissas ideo­lógicas que se torna difícil usar o termo. Claro que, em certa medida, o debate envolve definições e tentativas de delimitar a própria noção: foi o imperialismo essencialmente económico? Até onde se estendeu? Quais foram suas causas? Era sistemático? Quando terminou (se é que terminou)? A relação dos nomes que contribuíram para a discussão na Europa e nos Estados Unidos é impressionante: Kautsky, Hilferding, Luxemburgo, Hobson, Lenin, Schumpeter, Arendt, Magdoff, Paul Ken-nedy. E, nos últimos anos, obras publicadas nos Estados Unidos, co­mo The rise andfall ofthe greatpowers [Ascensão e queda das grandes potências], de Paul Kennedy, a história revisionista de William Appie-man Williams, Gabriel Kolko, Noam Chomsky, Howàrd Zinn e Wal-ter Lefeber, além de explicações e defesas eruditas da política america­na como não imperialista, escritas por vários estrategistas, teóricos e estudiosos — tudo isso mantém muito acesa a questão do imperialismo e sua aplicabilidade (ou não) aos Estados Unidos, a grande potência da atualidade.

Esses luminares debateram questões em larga medida políticas e económicas. No entanto, pouquíssima atenção tem sido dedicada ao papel privilegiado, no meu entender, da cultura na experiência imperial moderna, e quas moderna, e quase não se leva em conta o fato de que a extraordinária extensão mundial do imperialismo europeu clássico, do século xix e co­meço do xx, ainda lança sombras consideráveis sobre nossa própria época. Em nossos dias, não existe praticamente nenhum norte-americano, africano, europeu, latino-americano, indiano, caribenho ou australiano — a lista é bem grande — que não tenha sido afetado pêlos impérios do passado. Juntas, a Grã-Bretanha e a França controlavam territórios imensos: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, as colónias na América do Norte e do Sul, o Caribe, grandes extensões na África, Oriente Médio, Extremo Oriente (a Grã-Bretanha ainda conservará Hong Kong como colónia até 1997) e a totalidade do subcontinente in­diano — todos eles caíram sob o domínio inglês ou francês, e depois se liberaram; além disso, os Estados Unidos, a Rússia e vários países europeus menores, para não mencionar o Japão e a Turquia, também foram potências imperiais durante uma parte ou todo o século xix. Esse tipo de domínio ou possessão lançou as bases para o que, agora, é de fato um mundo inteiramente global. As comunicações eletrônicas, o al­cance mundial do comércio, da disponibilidade dos recursos, das via­gens, das informações sobre os padrões climáticos e as mudanças eco­lógicas unificaram até mesmo os locais mais remotos do mundo. Esse conjunto de padrões foi, a meu ver, possibilitado e inaugurado pelos impérios modernos.

Ora, por temperamento e posição filosófica, sou contrário à cons­trução de vastos sistemas ou teorias totalizantes da história humana. Mas devo reconhecer que, tendo estudado e inclusive vivido nos impé­rios modernos, impressionam-me a expansão contínua e o inexorável integracionismo que os constituíam. Seja em Marx ou em obras con­servadoras como as de J. R. Seeley, ou em análises modernas como as de D. K. Fieldhouse e C. C. Eldridge (cujo livro England's mission [Mis­são da Inglaterra] é fundamental),3 vemos que o império britânico fun­dia e integrava as coisas em si, e junto com outros impérios veio a uni­ficar o mundo. Mas ninguém, e certamente não eu, é capaz de ver ou apreender em toda a sua plenitude esse mundo imperial.

Quando lemos, como historiadores literários e culturais, o debate entre os historiadores contemporâneos Patrick 0'Brien4 e Davis Hut-tenback (cujo importante livro Mammon and the pursuit of empire [Mammon e a atividade imperial] tenta quantificar a rentabilidade efe-tiva dos negócios imperiais),5 ou quando examinamos debates anterio­res como a controvérsia Robinson-Gallagher,6 ou a obra dos economis­tas André Gunder Frank e Samir Amin, da teoria da dependência e da acumulação mundial,7 somos levados a perguntar o que significa tudo isso para as interpretações, digamos, do romance vitoriano, da histo­riografia francesa, da grande ópera italiana ou da metafísica alemã do mesmo período. Chegamos a um ponto em nosso trabalho em que nos­sos estudos não mais podem ignorar os impérios e o contexto imperial. Falar, como o faz 0'Brien, da "propaganda de um império em expan­são [que] criava, entre os que investiam além de suas fronteiras, ilusões de segurança e falsas expectativas que aumentavam com os altos lu­cros"8 é, na verdade, falar de um clima gerado tanto pelo império quanto pêlos romances, pela teoria racial e pela especulação geográfi­ca, pelo conceito de identidade nacional e pela rotina urbana (ou ru­ral). A expressão "falsas expectativas" faz lembrar Great expectations [Grandes esperanças], "investiam além de suas fronteiras" lembra Jo-seph Sediey e Becky Sharp, "criava ilusões" lembra Illusions perdues [Ilusões perdidas] — os cruzamentos entre cultura e imperialismo são irresistíveis.

É difícil vincular esses diversos âmbitos, mostrar o envolvimento da cultura com os impérios em expansão, fazer observações sobre as artes que preservem suas características próprias e, ao mesmo tempo, indiquem suas filiações, mas digo que devemos tentar, e devemos si­tuar a arte no contexto mundial concreto. Estão em jogo territórios e possessões, geografia e poder. Tudo na história humana tem suas raí­zes na terra, o que significa que devemos pensar sobre a habitação, mas significa também que as pessoas pensaram em ter mais territórios, e por­tanto precisaram fazer algo em relação aos habitantes nativos. Num nível muito básico, o imperialismo significa pensar, colonizar, controlar terras que não são nossas, que estão distantes, que são possuídas e habitadas por outros. Por inúmeras razões, elas atraem algumas pessoas e muitas vezes trazem uma miséria indescritível para outras. Porém, em termos gerais, é verdade que os historiadores literários que estudam o grande poeta quinhentista Edmund Spenser, por exemplo, não associam seus sangrentos planos para a Irlanda, nos quais imaginou um exército bri­tânico que praticamente exterminasse seus habitantes nativos, com suas realizações poéticas ou com a história do domínio britânico sobre a Ir­landa, que persiste ainda hoje..

Para os objetivos deste livro, concentrei-me nas disputas efetivas pelas terras e pelos povos dessas terras. O que tentei fazer foi uma es­pécie de exame geográfico da experiência histórica, tendo em mente a ideia de que a terra é, de fato, um único e mesmo mundo, onde prati­camente não existem espaços vazios e inabitados. Assim como nenhum de nós está fora ou além da geografia, da mesma forma nenhum de nós está totalmente ausente da luta pela geografia. Essa luta é comple­xa e interessante porque não se restringe a soldados e canhões, abran­gendo também ideias, formas, imagens e representações.

Muita gente no chamado mundo ocidental ou metropolitano, bem como seus parceiros do Terceiro Mundo ou das ex-colônias, concorda que a época do grande imperialismo clássico, o qual atingiu seu clímax na "era do império", segundo a descrição de Eric Hobsbawm, e che­gou ao fim mais ou menos formal com o desmantelamento das grandes estruturas coloniais após a Segunda Guerra Mundial, continua a exer­cer, de uma ou outra maneira, uma influência cultural considerável no presente. Pelas mais variadas razões, sente-se uma nova premência de entender o que permanece ou não permanece do passado, e essa pre­mência se introduz nas percepções do presente e do futuro.

No centro dessas percepções está algo que poucos questionam, a saber, que no século xix um poderio sem precedentes — em compara­ção a ele, o poder de Roma, Espanha, Bagdá ou Constantinopla era muito menor — estava concentrado na Grã-Bretanha e França, e de­pois em outros países ocidentais (sobretudo os Estados Unidos). Esse século foi o apogeu da "ascensão do Ocidente", e o poderio ocidental possibilitou aos centros metropolitanos imperiais a aquisição e acumu­lação de territórios e súditos a uma escala verdadeiramente assombro­sa. Considere-se que, em 1800, as potências ocidentais reivindicavam 55%, mas na verdade detinham 35% da superfície do globo, e em 1878 essa proporção atingiu 67%, numa taxa de crescimento de cerca de 220 mil quilómetros quadrados por ano. Em 1914, a taxa anual havia subi­do para vertiginosos 620 mil quilómetros quadrados, e a Europa deti­nha um total aproximado de 85% do mundo, na forma de colónias, pro-tetorados, dependências, domínios e commonwealths.9 Nunca existiu em toda a história um conjunto de colónias tão grande, sob domínio tão completo, com um poder tão desigual em relação às metrópoles oci­dentais. Em decorrência disso, afirma William McNeill em Thepursuit of power [A busca de poder], "como nunca antes, o mundo foi unifi­cado num só conjunto de interações".10 E na própria Europa, no fi­nal do século XIX, não havia praticamente nenhum aspecto da vida que não fosse tocado pêlos fatos do império; as economias tinham avidez por mercados ultramarinos, matérias-primas, mão-de-obra barata e ter­ras imensamente rentáveis, e os sistemas de defesa e política exterior empenhavam-se cada vez mais na manutenção de vastas extensões de territórios distantes e grandes contingentes de povos subjugados. Quando as potências ocidentais não estavam mergulhadas em uma disputa acir­rada e às vezes implacável por maior número de colónias — todos os impérios modernos, diz V. G. Kiernan,11 imitavam uns aos outros —, estavam se esforçando para colonizar, fazer levantamentos, estudar e, naturalmente, governar os territórios sob suas jurisdições.

A experiência americana, como mostra Richard van Aistyne em The rising american empire [O nascente império americano], desde o início se fundou na ideia de "um imperium — um domínio. Estado ou soberania que se expandiria em população e território, e aumentaria em força e poder".12 Era preciso reivindicar e lutar pela anexação de novas áreas ao território norte-americano (o que foi feito com um êxi­to assombroso); havia povos nativos a dominar, exterminar e expulsar; depois, conforme a república ia envelhecendo e se ampliava seu pode­rio no hemisfério, havia terras distantes a considerar como vitais para os interesses americanos, objeto de intervenções e disputas — por exem­plo, as Filipinas, Caribe, América Central, o litoral norte da África, partes da Europa e do Oriente Médio, Vietnam, Coreia. Curiosamen­te, porém, tão influente foi o discurso que insistia no caráter especial, no altruísmo, no senso de oportunidade americanos que o "imperialis­mo", como palavra ou ideologia, raras vezes e apenas recentemente apa­receu nas explicações da cultura, política e história dos Estados Uni­dos. Mas o vínculo entre cultura e política imperial é assombrosamente direto. A postura americana diante da "grandeza" americana, das hie­rarquias raciais, dos perigos de outras revoluções (a Revolução ameri­cana sendo considerada única e de certa forma irrepetível em qualquer outra parte do mundo)13 permanece constante, ditando e obscurecen­do as realidades do império, enquanto apologistas dos interesses ame­ricanos ultramarinos insistem na inocência americana, praticando o bem, lutando pela liberdade. Pyle, o protagonista de The quiet american [O americano tranquilo], de Graham Greene, encarna essa formação cul­tural com impiedosa exatidão.

Mas, para os cidadãos da Inglaterra e França oitocentistas, o im­pério era um grande tema de atenção cultural sem que houvesse qual­quer constrangimento. As Índias britânicas e o norte da África francês desempenharam um papel inestimável na imaginação, economia^ vida política e trama social das sociedades britânica e francesa, e ao men­cionar nomes como Delacroix, Edmund Burke^ Ruskin, Carlyle, James e John Stuart Mill, Kipling, Balzac, Nerval, Flaubert ou Conrad, esta­remos mapeando um ângulo minúsculo de uma realidade muito mais vasta do que abarcam seus talentos coletivos, mesmo que imensos. Havia estudiosos, administradores, viajantes, comerciantes, parlamentares, ex­portadores, romancistas, teóricos, especuladores, aventureiros, visio­nários, poetas, párias e desajustados de toda espécie nas possessões es­trangeiras dessas duas potências imperiais, todos contribuindo para formar uma realidade colonial no centro da vida metropolitana.

Usarei o termo "imperialismo" para designar a prática, a teoria e as atitudes de um centro metropolitano dominante governando um território distante; o "colonialismo", quase sempre uma consequência do imperialismo, é a implantação de colónias em territórios distantes. Como diz Michael Doyle: "0 império e uma-relação, formal ou informal, em que um Estado controla a soberania política efetiva de outra sociedade política. Ele pode ser alcançado pela força, pela colaboração política, por dependência económica, social ou cultural. O imperialis­mo é simplesmente o processo ou a política de estabelecer ou manter um império".14 Em nossa época, o colonialismo direto se extinguiu em boa medida; o imperialismo, como veremos, sobrevive onde sempre existiu, numa espécie de esfera cultural geral, bem como em determinadas práticas políticas, ideológicas, econômicas e sociais.

Nem o imperialismo, nem o colonialismo é um simples ato de acu­mulação e aquisição. Ambos são sustentados e talvez impelidos por po­tentes formações ideológicas que incluem a noção de que certos territó­rios e povos precisam e imploram pela dominação, bem como formas de conhecimento filiadas à dominação: o vocabulário da cultura impe­rial oitocentista clássica está repleto de palavras e conceitos como "ra­ças servis" ou "inferiores", "povos subordinados", "dependência", "expansão" e "autoridade". E as ideias sobre a cultura eram explici­tadas, reforçadas, criticadas ou rejeitadas a partir das experiências im­periais. Quanto à posição curiosa, mas talvez aceitável, propagada um século atrás por J. R. Seeley, de que alguns dos impérios ultramarinos da Europa foram no início estabelecidos de maneira desinteressada, ela não explica de forma nenhuma, por mais que forcemos a imaginação, a persistência, o caráter sistemático, a aquisição e administração metó­dicas desses impérios, sem falar do aumento de seu poder e de sua me­ra presença. Como disse David Landes em The unbound Prometheus [Prometeu desacorrentado]: "A decisão de algumas potências europeias [...] de montar plantations', isto é, de tratar suas colónias como ne­gócios com continuidade própria, foi uma inovação fundamental, a despeito do que se possa pensar sobre os aspectos morais".15 É esta a questão que aqui me interessa: dado o movimento inicial, ainda que obscuro em suas origens e motivações, da Europa para o resto do mun- do no rumo do imperialismo, de que maneira tal idéia e prática ganhou o caráter denso e sistemático de um empreendimento contínuo, o que se deu na segunda metade do século xix?

A primazia dos impérios britânico e francês não obscurece de for­ma alguma a expansão moderna realmente notável da Espanha, Portu­gal, Holanda, Bélgica, Alemanha, Itália e, de outra maneira, da Rús­sia e dos Estados Unidos. A Rússia, porém, adquiriu seus territórios imperiais quase exclusivamente por contiguidade. Ao contrário da In­glaterra ou da França, que saltavam para outros continentes a milhares de quilómetros de suas fronteiras, a Rússiaja engolindo qualquer terra ou povo que estivesse perto de seus limites, os quais, com isso, conti­nuavam avançando cada vez mais para o sul e o leste. Mas, nos casos inglês e francês, a simples distância de territórios atraentes exigia a ar-regimentação de vastos interesses, e este é o foco que adoto aqui, em parte porque estou interessado em examinar o conjunto de formas cul­turais e estruturas de sentimentos assim produzidas, em parte porque o domínio ultramarino é o mundo onde cresci e nele ainda permaneço. A condiçao de superpotência da Rússia e dos Estados Unidos, usufruí­da por quase meio século, deriva de histórias muito diferentes e de tra-jetórias imperiais diversas. Existem muitas variedades de dominação e reação, mas o tema deste livro é a "ocidental", junto com a resistência por ela gerada.

Na expansão dos grandes impérios ocidentais, o lucro e a perspec­tiva de mais lucro foram, evidentemente, de enorme importância, co­mo provam amplamente os atrativos das especiarias, açúcar, escravos, borracha, algodão, ópio, estanho, ouro e prata ao longo dos séculos. Também havia a inércia, o investimento em negócios já existentes, a tradição e o mercado ou forças institucionais que mantinham os em­preendimentos em atividade. Mas, para o imperialismo e o colonialismo, não é só isso. Havia um comprometimento por causa do lucro, e que ia além dele, um comprometimento na circulação e recirculação constantes, o qual, por um lado, permitia quepessoasjlecentes aceitas-sem a ideia de que territórios distantes e respectivos povos deviam ser subjugados e, por outro, revigorava as energias metropolitanas, de maneira que essas pessoas decentes riudessem pensar no imperium como um dever planejado, quase metafísico de governar povos subordinados. inferiores ou menos avançados. Não podemos esquecer que era mínina a resistência doméstica a esses impérios, ainda que muitas vezes fos­sem fundados e mantidos em condições adversas e até desvantajosas. Além das imensas dificuldades enfrentadas pelos colonizadores, havia ainda a disparidade física, tremendamente arriscada, entre um peque­no número de europeus a uma enorme distância do lar e o número muito maior de autóctones em seu território natal. Na Índia, por exemplo, na década de 1930 "meros 4 mil funcionários públicos ingleses, assisti­dos por 60 mil soldados e 90 mil civis (em sua maioria, homens de negócios e membros do clero) tinham se imposto a um país de 300 mi­lhões de habitantes".16 Mal conseguimos fazer ideia da força de von­tade, da autoconfiança e até da arrogância necessárias para manter tal estado de coisas, mas, como veremos nos textos de A passage to índia [Passagem para a Índia] e Kim, essas atitudes têm uma importância pe­lo menos equivalente à da mera quantidade de membros do serviço pú­blico ou das forças armadas, ou aos milhões de libras que a Inglaterra extraía da Índia.

Pois o empreendimento imperial depende da ideia de possuir um império, como Conrad parece ter entendido com grande clareza, e nu­ma cultura fazem-se preparativos de toda espécie para isso; aí o impe­rialismo, por sua vez, adquire uma espécie de coerência, forma um con­junto de experiências, com a presença tanto do dominante quanto do dominado dentro da cultura. Como colocou de maneira precisa um es­tudioso moderno do imperialismo:

O imperialismo moderno consistiu num aglomerado de elementos, nem to­dos de mesmo peso, que podem ser remontados a todas as épocas da his­tória. Talvez suas causas últimas, ao lado da guerra, encontrem-se não tanto em necessidades materiais tangíveis e sim nas difíceis tensões de socieda­des distorcidas por divisões de classe, refletindo-se em ideias distorcidas na meate dos homens.17

D. K. Fieldhouse, ilustre historiador conservador do imperialismo, dá uma arguta indicação do nível crucial em que as tensões, desigual­dades e injustiças da sociedade metropolitana se refratavam e se elabo­ravam na cultura imperial: "A base da autoridade imperial", diz ele, "foi a atitude mental do colono. Sua aceitação da subordinação — fosse num sentido positivo de comungar interesses com o Estado de origem, fosse pela incapacidade de conceber outra alternativa — deu durabili­dade ao império".18 Fieldhouse estava se referindo aos colonos bran­cos nas Américas, mas sua argumentação como um todo vai mais além: a durabilidade do império foi sustentada por ambos os lados, pêlos do­minantes e pêlos distantes dominados, e cada qual, por sua vez, tinha dessa história compartilhada um leque de interpretações com suas pers­pectivas, sentidos históricos, emoções e tradições próprias. O que um intelectual argelino lembra hoje do passado colonial de seu país con­centra-se rigorosamente em fatos tais como os ataques militares da Fran­ça a aldeias e a tortura dos prisioneiros durante a guerra da libertação, ou na exultação pela independência em 1962; já seu colega francês, que pode ter participado dos assuntos argelinos ou cuja família morava na Argélia, sente mágoa por ter "perdido" a Argélia, e adota uma atitude mais positiva em relação à missão colonizadora francesa — com suas escolas, as cidades belamente planejadas, a vida amena — e talvez te­nha inclusive a sensação de que os comunistas e "criadores de caso" vieram atrapalhar a relação idílica entre "nós" e "eles".

Em larguíssima medida, a era do grande imperialismo oitocentista está encerrada: a França e a Inglaterra entregaram suas mais esplêndi­das possessões após a Segunda Guerra Mundial, e potências menores também se desfizeram de seus extensos domínios. Mas, evocando ou­tra vez as palavras de T. S. Eliot, embora tal era possuísse claramente uma identidade toda própria, o significado do passado imperial não se encerra apenas dentro dela, tendo se introduzido na realidade de cente­nas de milhões de pessoas, onde sua existência como memória coletiva e trama altamente conflituosa de cultura, ideologia e política ainda exerce enorme força. Frantz Fanon diz: "Devemos recusar categoricamente a situação a que os países ocidentais querem nos condenar. O colonia­lismo e o imperialismo não pagaram suas contas quando retiraram suas bandeiras e suas forças policiais de nossos territórios. Durante séculos, os capitalistas (estrangeiros) se conduziram no mundo subdesenvolvi­do como verdadeiros criminosos".19 Temos de avaliar a nostalgia im­perial, bem como o ódio e o ressentimento que o imperialismo desperta nos dominados, e devemos tentar examinar de forma abrangente e cui­dadosa a cultura que alimentou o sentimento, a lógica e sobretudo a imaginação imperialista. E devemos também tentar entender a hegemo­nia da ideologia imperial, que no final do século xix havia se entra­nhado totalmente nos assuntos de culturas cujos aspectos menos de­ploráveis ainda celebramos.

Creio existir hoje uma gravíssima cisão em nossa consciência críti­ca, que faz com que passemos um tempo enorme trabalhando as teo­rias estéticas, por exemplo, de Ruskin e Carlyle, sem dar atenção à au­toridade que suas ideias simultaneamente conferiam à subjugação de povos inferiores e territórios coloniais. Para tomar outro exemplo, se não conseguirmos compreender como o grande romance realista euro­peu cumpriu um de seus principais objetivos — sustentando de maneira quase imperceptível o consentimento da sociedade com a expansão ul­tramarina, consentimento para o qual, nas palavras de J. A. Hobson, "as forças egoístas que orientam o Imperialismo deviam utilizar as co­res protetoras de [...] movimentos desinteressados",20 como a filantro­pia, a religião, a ciência e a arte —, não entenderemos a importância da cultura e suas ressonâncias no império, naquela época e agora.

Isso não significa lançar críticas sumárias contra a arte e a cultura europeias ou, de modo mais geral, ocidentais, numa condenação em bloco. De forma alguma. O que pretendo examinar é a maneira pela qual os processos imperialistas ocorreram além do plano das leis eco­nómicas e das decisões políticas, e — por predisposição, pela autoridade de formações culturais identificáveis, pela consolidação contínua na edu­cação, literatura, artes visuais e musicais — manifestaram-se em outro nível de grande importância, o da cultura nacional, que tendemos a apre­sentar como algo asséptico, um campo de monumentos intelectuais imutáveis, livre de filiações mundanas. William Blake é muito franco nesse ponto: "O Fundamento do Império", diz ele em suas anotações aos Discourses [Discursos] de Reynolds, "é a Arte e a Ciência. Retire-as, ou Desgaste-as e Não existirá mais Império. O Império segue a Arte, 'e não vice-versa, como supõem os Ingleses".21

Assim, portanto, qual é o vínculo entre a busca de objetivos na­cionais imperiais e a cultura nacional como um todo? O recente dis­curso intelectual e académico revelou uma tendência a separá-las e divi­di-las: inúmeros estudiosos são especialistas; boa parte da atenção tida como especializada volta-se para temas bastante autónomos, por exem­plo, o romance vitoriano industrial, a política colonial francesa no norte da África, e assim por diante. Venho sustentando de longa data que a tendência de disciplinas e especializações em se subdividir e proliferar é contrária à compreensão do todo, quando se trata do caráter, da in­terpretação e direção ou tendência da experiência cultural. Perder de vista ou ignorar o contexto nacional e internacional, digamos, das re­presentações que Dickens fez dos homens de negócios vitorianos, e en­focar apenas a coerência interna de seus papéis nos romances do autor é perder uma ligação essencial entre sua ficção e o mundo histórico dessa ficção. E compreender essa ligação não significa reduzir ou diminuir o valor dos romances como obras de arte: pelo contrário, devido à sua concretude, devido a suas complexas filiações a seu quadro real, eles são mais interessantes e mais preciosos como obras de arte.

No começo de Dombey and son [Dombey e filho], Dickens quer ressaltar a importância do nascimento do filho para Dombey:

A terra era feita para que Dombey e Filho comerciassem, e o sol e a lua eram feitos para lhes dar luz. Rios e mares eram formados para sustentar seus navios; os arco-íris lhes prometiam bom tempo; os ventos sopravam contra ou a favor de seus negócios; as estrelas e os planetas giravam em suas órbitas para manter inviolado um sistema que os tinha como centro. Abreviaturas comuns assumiam novos significados aos olhos dele, e referiam-se exclusivamente aos dois: A.D. não guardava nenhuma rela­ção com Anno Domini, mas queria dizer Anno Dombei — e Filho.22

Como descrição da empáfia arrogante de Dombey, de sua desa­tenção narcisista, de sua atitude coercitiva com o filho recém-nascido, é evidente o serviço prestado por esse trecho. Mas também devemos per­guntar como Dombey podia pensar que o universo e todo o decurso temporal estavam a sua disposição para que fizesse seus negócios. De­vemos ainda ver nesta passagem — que não ocupa nenhum lugar cen­tral no romance — um pressuposto específico de um romancista britâ­nico da década de 1840: a saber, como diz Raymond Williams, esse foi "o período decisivo em que estava se formando e se expressando a cons­ciência de uma nova fase da civilização". Mas então por que Williams descreve "esse tempo transformador, liberador e ameaçador"23 sem se referir à Índia, à África, ao Oriente Médio e à Ásia, visto que foi para essas terras que a vida britânica em transformação se expandiu e as ocu­pou, como indica Dickens timidamente?

Williams é um grande crítico; admiro-o e aprendi muito com sua obra, mas parece-me limitada sua concepção de que a literatura inglesa refere-se principalmente à Inglaterra, ideia esta central para seus en­saios, bem como para os de inúmeros estudiosos e críticos. Além disso, os estudiosos que escrevem sobre romances tratam-nos de forma mais ou menos exclusiva (embora Williams não esteja entre eles). Esses hábi­tos parecem guiados por uma noção muito forte, ainda que imprecisa, de que as obras literárias são autónomas, ao passo que, como tentarei mostrar ao longo de todo este livro, a própria literatura faz referências constantes a si mesma como partícipe, de alguma forma, da expansão europeia no ultramar, assim criando o que Williams chama de "estru­turas de sentimento" que sustentam, elaboram e consolidam a prática imperial. É verdade que Dombey não é Dickens nem a literatura ingle­sa em sua totalidade, mas a forma pela qual Dickens expressa o egoís­mo de Dombey evoca, satiriza, mas em última análise deriva dos dis­cursos efetivos do livre-cambismo imperial, dos princípios comerciais britânicos e da convicção inglesa quanto às oportunidades praticamen­te ilimitadas de prosperidade comercial no exterior.

Não devemos estabelecer uma separação entre esses problemas e nossa compreensão do romance oitocentista, da mesma forma como não devemos isolar a literatura da história e da sociedade. A suposta autonomia das obras de arte acarreta uma espécie de separação que, a meu ver, impõe uma limitação indesejável, a qual não é de forma al­guma colocada pelas próprias obras. Todavia, abstive-me deliberada-mente de apresentar uma teoria totalmente articulada dos vínculos en­tre literatura e cultura, de um lado, e o imperialismo de outro. Em vez disso, espero que as conexões brotem de seus pontos explícitos nos vá­rios textos, com o contexto abrangente — o império — ali presente, para que sejam estabelecidas as relações, para desenvolvê-las, elaborá-las, ampliá-las ou criticá-las. Como nem a cultura nem o imperialismo são inertes, as conexões entre eles, enquanto experiências históricas, são dinâmicas e complexas. Meu objetivo principal não é separar, e sim es­tabelecer conexões, e estou interessado nisso pela grande razão filosó­fica e metodológica de que as formas culturais são híbridas, ambíguas, impuras, e chegou a hora de a análise cultural voltar a vincular o estu­do e a realidade delas.

IMAGENS DO PASSADO, PURAS E IMPURAS

 medida que o século xx se aproxima de seu fim, cresce em qua­se todo o mundo uma consciência das linhas entre culturas, as divisões e diferenças que não só nos permitem diferenciar as culturas, como tam­bém nos habilitam a ver até que ponto as culturas são estruturas de au­toridade e participação criadas pêlos homens, benévolas no que abran­gem, incorporam e validam, menos benévolas no que excluem e rebaixam.

Em todas as culturas nacionalmente definidas, creio eu, existe uma aspiração à soberania, à influência e ao predomínio. Nesse aspecto, as culturas francesa e inglesa, indiana e japonesa rivalizam. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, nunca tivemos tanta consciência da singular hibridez das experiências históricas e culturais, de sua presença em muitas experiências e setores amiúde contraditórios, do fato de transporem as fronteiras nacionais, de desafiarem a ação policial dos dogmas simplis­tas e do patriotismo ufanista. Longe de serem algo unitário, monolíti­co ou autónomo, as culturas, na verdade, mais adotam elementos "es­trangeiros", alteridades e diferenças do que os excluem conscientemente. Quem, na Índia ou na Argélia de hoje, é capaz de joeirar com seguran­ça o elemento britânico ou francês do passado entre as realidades presentes, e quem na Inglaterra ou na França é capaz de traçar um círculo nítido em torno da Londres britânica ou da Paris francesa, excluindo o impacto da Índia e da Argélia sobre essas duas cidades imperiais? Não são questões nostalgicamente académicas ou teóricas, pois, como uma ou duas rápidas digressões mostrarão, elas possuem impor­tantes consequências sociais e políticas. Londres e Paris contam com numerosas populações vindas das ex-colônias, as quais, por sua vez, guardam fortes resíduos da cultura inglesa e francesa em sua vida coti-diana. Mas isso é óbvio. Vejamos, num exemplo mais complexo, as co­nhecidas questões da imagem da tradição ou da Antiguidade clássica grega como determinante da identidade nacional. Estudos como Black Athena [Atena negra], de Martin Bernal, e The invention of tradition [A invenção da tradição], de Eric Hobsbawm e Terence Ranger, ressal­taram a extraordinária influência da preocupação atual com as imagens puras (e até expurgadas) que elaboramos a respeito de um passado pri­vilegiado e genealogicamente útil, do qual excluímos elementos, vestí­gios e narrativas indesejáveis. Assim, segundo Bernal, de início sabia-se que a civilização grega tinha raízes na cultura egípcia, semita e várias outras meridionais e orientais, mas no decorrer do século xix ela foi remodelada como uma cultura "ariana", na qual foram ocultas ou eli­minadas de maneira ativa suas raízes semitas e africanas. Como os pró­prios escritores gregos reconheciam abertamente o passado híbrido de sua cultura, os filólogos europeus contraíram o hábito ideológico de passar por cima dessas passagens embaraçosas, sem as comentar, em prol da pureza ática.24 (Vale lembrar também que foi apenas no sécu­lo xix que os historiadores europeus das Cruzadas começaram a não mencionar a prática do canibalismo entre os cavaleiros francos, muito embora as crónicas dos cruzados da época se refiram sem pejo ao con­sumo de carne humana.)

Assim como a imagem da Grécia, imagens da autoridade europeia foram alicerçadas e modeladas durante o século xix — e onde fazê-lo, a não ser na fabricação de rituais, cerimónias e tradições? Tal é o argu­mento apresentado por Hobsbawm, Ranger e os outros colaboradores ^ de Invention of tradition. Numa época em que os vínculos e asJargani-zações mais antigas que unem internamente as sociedades_Bre^iipdernas estavam começando a ceder, e aumentavam as pressões sociais de ad-ministrar numerosos territórios ultramarinos e grandes e recentes elei-torados nacionais, as elites dirigentes da Europa sentiram claramente a necessidade de projetar seu poder sobre o passado, dando-lhe uma história e uma legitimidade que só podiam advir da tradição e da longevidade. Assim, em 1876, Vitória foi proclamada imperatriz da Índia, e enviou seu vice-rei, lorde Lytton, em visita até lá, sendo aclamado e celebrado em festas e darbares "tradicionais" por todo o país, bem como numa grande Assembleia Imperial em Delhi, como se seu gover­no não fosse, acima de tudo, uma questão de poder e decreto unilate­ral, e sim um costume tradicional.25

Criaram-se invenções semelhantes no lado oposto, ou seja, entre os "nativos" insurgentes em relação a seu passado pré-colonial, como no caso da Argélia durante a Guerra da Independência (1954-62), quando a descolonização incentivou os argelinos e muçulmanos a criar imagens daquilo que julgavam ser antes da colonização francesa. Essa estraté­gia se faz presente nas palavras de muitos poetas literatos nacionais durante as lutas de independência ou libertação em outras partes do mun­do colonial. Quero enfatizar o poder de mobilização das imagens e tra­dições apresentadas e seu caráter fictício ou, pelo menos, fantasiosa-,mente tingido de cores românticas. Pense-se no que Yeats faz com o passado irlandês, com seus gigantes como Cuchulain e grandes solares, que oferecem à luta nacionalista algo para ser admirado e revivido. Nos Estados nacionais pós-coloniais, é evidente a flexibilidade de essências tais como o espírito celta, a negritude ou o islamismo: elas têm muito a ver com os manipuladores nativos, que também as utilizam para en­cobrir faltas, corrupções, tiranias contemporâneas, e ainda com os con­textos imperiais conflituosos de onde surgiram, tendo se afigurado co­mo necessárias naquele momento.

Embora as colónias, em sua maioria, tenham conquistado a inde­pendência, muitas atitudes imperiais concomitantes à conquista colo­nial ainda persistem. Em 1910, o defensor francês do colonialismo Ju-les Harmand dizia:

É necessário, pois, aceitar como princípio e ponto de partida o fato de que existe uma hierarquia de raças e civilizações, e que nós pertencemos à raça e civilização superior, reconhecendo ainda que a superioridade con­fere direitos, mas, em contrapartida, impõe obrigações estritas. A legiti­mação básica da conquista de povos nativos é a convicção de nossa supe­rioridade, não simplesmente nossa superioridade mecânica, económica e & militar, mas nossa superioridade moral. Nossa dignidade se baseia nessa qualidade, e ela funda nosso direito de dirigir o resto da humanidade. O poder material é apenas um meio para esse fim.26

Como precursor da atual polémica sobre a superioridade da civili­zação ocidental sobre as demais, o valor supremo das humanidades pu­ramente ocidentais, tal como é enaltecido por filósofos conservadores como Allan Bloom, a inferioridade (e a ameaça) essencial do não-ocidental, tal como é apregoada pela campanha antinipônica, pêlos orientalistas ideológicos e críticos da regressão "nativa" na África e Ásia, a declaração de Harmand é de uma antevisão assombrosa.

Mais importante do que o próprio passado, portanto, é sua influên­cia sobre as atitudes culturais do presente. Por razões apenas em parte enraizadas na experiência imperial, as velhas divisões entre coloniza-dor e colonizado ressurgiram naquilo que muitas vezes é denominado de relação Norte – Sul, a qual tem acarretado uma postura defensiva, além de vários tipos de combate retórico e ideológico e uma hostilida­de latente muito capaz de desencadear guerras devastadoras – o que em alguns casos já ocorreu. Haverá maneiras de conceber a experiên­cia imperial sem recorrer a termos compartimentalizados, de forma a transformar nossa compreensão tanto do passado quanto do presente e nossa atitude em relação ao futuro?

Devemos começar caracterizando as maneiras mais usuais com que as pessoas tratam o múltiplo e complexo legado do imperialismo, não apenas aquelas que saíram das colónias, mas também as que já esta­vam lá originalmente e lá permaneceram, ou seja, os nativos. Muita gente na Inglaterra provavelmente sente certo remorso ou pesar pela experiência indiana de seu país, mas há também muita gente que sente saudades dos velhos e bons tempos, mesmo que o valor desses tempos, a causa de terem chegado ao fim e as próprias atitudes dessas pessoas em relação ao nacionalismo nativo sejam questões voláteis e ainda não resolvidas. É este o caso sobretudo quando se trata de relações raciais, como, por exemplo, na crise quando da publicação dos Thesatanic ver­ses [Versos satânicos], de Salman Rushdie, e a subsequente fatwa con­clamando para a morte de Rushdie, decretada pelo aiatolá Khomeini.

Mas, da mesma forma, o debate nos países do Terceiro Mundo so-bre a prática colonialista e a ideologia imperialista que lhe dá respaldo é extremamente aceso e diversificado. Inúmeros grupos acreditam que a amargura e as humilhações da experiência que praticamente os escra­vizou mesmo assim trouxeram benefícios — ideias liberais, autocons­ciência nacional e bens tecnológicos — que, com o tempo, parecem ter diminuído em muito o caráter desagradável do imperialismo. Outras pessoas na era pós-colonial refletiram retrospectivamente sobre o colo­nialismo para melhor entender as dificuldades do presente em países de independência recente. Que existem problemas reais quanto ao ru mo, à democracia e ao desenvolvimento desses países, comprova-o a perseguição do Estado a intelectuais que sustentam corajosamente suas ideias e práticas em âmbito público — Eqbal Ahmad e Faiz Ahmad Faiz no Paquistão, Ngugi wa Thiongo no Quénia, Abdelrahman el Munif no mundo árabe —, grandes pensadores e artistas cujos sofrimentos não embotaram a intransigência de seu pensamento nem atenuaram o rigor de seus castigos.

Munif, Ngugi, Faiz e todos os outros parecidos com eles não fa­ziam senão nutrir um ódio irrestrito ao colonialismo implantado ou ao imperialismo que o acionava. Ironicamente, foram ouvidos apenas em parte, tanto no Ocidente quanto pelas autoridades governamentais de seus países. Por um lado, sujeitavam-se a ser considerados por muitos intelectuais ocidentais como Jeremias retrospectivos denunciando os ma­les de um colonialismo passado, e por outro lado a ser tratados por seus governos na Arábia Saudita, Quénia ou Paquistão como agentes de po­tências estrangeiras que mereciam a prisão ou o exílio. A tragédia des­sa experiência e, na verdade, de inúmeras experiências pós-coloniais decorre das limitações de se tentar lidar com relações que são polariza­das, radicalmente desiguais e rememoradas de diferentes formas. As esferas, os pontos de intensidade, as prioridades e os componentes no mundo metropolitano e no mundo ex-colonizado coincidem apenas em parte. A pequena área vista como campo comum atende, nesse ponto, apenas ao que se poderia chamar de retórica da culpa.



Quero considerar em primeiro lugar as realidades dos campos in­telectuais, tanto os concordantes quanto os divergentes, no discurso pú­blico pós-imperial, concentrando-me sobretudo naquilo que, em tal dis­curso, dá origem e estímulo à retórica e às políticas da culpa. Assim, utilizando as perspectivas e os métodos do que se poderia chamar de literatura comparativa do imperialismo, irei considerar como seria pos­sível ampliar o campo de sobreposições dos aspectos comuns entre as sociedades metropolitanas e as ex-colonizadas, a partir de reavaliações ou revisões do conceito sobre as atitudes intelectuais pós-imperiais. Ob­servando as diversas experiências em contraponto, como que formando um conjunto de histórias entrelaçadas e sobrepostas, tentarei formular uma alternativa para a política da culpa e também para a política mais destrutiva do confronto e da hostilidade. Talvez isto dê origem a um tipo de interpretação secular mais interessante, muito mais profícua do que as denúncias do passado, os lamentos pelo fim dessa época ou — ainda mais prejudicial por ser violenta e muito mais fácil e atraente — a hostilidade entre as culturas ocidentais e não ocidentais que leva à eclosão de crises. O mundo é pequeno e interdependente demais para deixarmos passivamente que elas ocorram.

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