Sandra Canfield Tigers by Night



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Sandra Canfield

Corações Cativos

Super Julia 114
A fatalidade os impedia de amar...

A paixão os impedia de separar-se!

Um estranho desígnio uniu as vidas de Robin e Jake

Ao sentir que Robin não resistia a seu abraço, Jake não pôde controlar as emoções. Amava aquela mulher mais que tudo na vida e perceber que ela o aceitava o deixava louco de felicidade. Queria ignorar a voz da razão, que o mandava afastar-se, e permanecer ao lado dela para sempre, protegendo-a, arrancando-a do horror por que passava. Robin já sofrera demais... Por causa dele, lembrou-se de repente. E o remorso voltou atormentá-lo. Fora ele a disparar o tiro que a deixara viúva. Fora ele o instrumento do acaso quando Gerald Bauer morrera. E se soubesse disso, Robin jamais o perdoaria. Ela jamais aceitaria o amor do homem que assassinara seu marido!

Título original: Tigers by Night

Copyright © by Sandra Canfield

Publicado originalmente em 1990

Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Tradução: Vera Maria Marques Martins

Copyright para a língua portuguesa: 1991
Digitalização e revisão: Márcia Goto

Para Bete Davis, que, com tanta boa vontade, dividiu comigo tudo o que sabe sobre bebês prematuros. E para Sue Royer, que não só me ajudou com seus conhecimentos de enfermagem, como também me ofereceu sua amizade.

E para “M”, como sempre e para sempre.



Capítulo I

Jake Cameron pegou o bebê e constatou que a minúscula criatura cabia quase que completamente em sua mão.

Ela está atrasada, Peter Gerald Bauer — murmurou com sua voz profunda e um sorriso gentil para o prematuro.



Vestia o avental esterilizado, uma exigência para todos os que entravam na Unidade de Terapia Intensiva para Neonatos, a UTIN, do Hospital Brigham, um dos melhores de Boston.

Sempre falando em tom baixo e apaziguador, examinou a fralda descartável, aberta sob o corpinho do bebê, frágil e nu. Estava úmida. Com movimentos lentos e suaves, enquanto segurava a criança com uma das mãos, trocou a fralda por outra, cuidando para não deslocar nenhum dos tubos e fios ligados ao menininho e as máquinas que o mantinham vivo.

Pronto. Assim está melhor, não é? — Fez uma pausa, como se ouvisse a resposta. — Ótimo, então. Agora, escute: não se preocupe com sua mamãe, sim? O tempo está muito ruim e talvez ela tenha decidido ficar em casa. Mas aposto como virá amanhã bem cedinho.



Os olhos do bebê, de um azul bem escuro, fixavam-se no rosto de Jake, como se a criança estivesse compreendendo a conversa. A boca estava invisível, escondida sob o bocal de um tubo preso ao pequeno rosto com fita adesiva.

Eu não estou preocupado — Jake continuou — E você também não deve ficar certo?



Na verdade, vinha se preocupando com Robin Bauer, com quem nunca trocara uma única palavra, durante os três longos últimos meses. O psicólogo da Polícia Militar dissera-lhe que ele alimentava uma fixação mental, que acabaria com sua sanidade se não houvesse uma reação. Mas como reagir à culpa que o dilacerava?

O psicólogo, Dr. Daniel Jacoby, exigira que ele fosse afastado do trabalho durante algum tempo, em licença para tratamento de saúde. Jake não protestara, reconhecendo que o homem tinha razão. Um policial que não era mais capaz de sacar a arma tornava-se um perigo, não só para si mesmo, como para os companheiros, num momento de emergência.

Jake tentou imaginar o que o Dr. Daniel diria se soubesse como ele estava ocupando parte do tempo. O psicólogo o consideraria um caso perdido, se descobrisse que ele dera um jeito de aproximar-se das pessoas que mais reavivavam seu remorso. Contudo, depois de muito pensar, Jake chegara à conclusão de que não havia nada mais lógico. Sentia-se melhor ajudando, mesmo indiretamente, a jovem mãe e o bebê prematuro. Assim que tivesse certeza de que os dois haviam superado a crise, poderia continuar sua vida em paz. Paz. Ainda voltaria a experimentar tranqüilidade? Conseguiria apaziguar sua consciência algum dia?No fundo do coração, Jake duvidava, embora acreditasse que fora o destino que o enredara numa situação terrível e da qual talvez nunca mais se livrasse. Também fora o destino que o fizera ler o pequeno anúncio do jornal, pedindo voluntários para trabalhar na unidade de neonatos. E a idéia de apresentar-se se tornara atraente por vários motivos. Primeiro, ele adorava crianças. Segundo, sentia muita falta das duas filhas, separadas dele pelo divórcio. E, terceiro, sua irmã Whitney, muitos anos atrás, tivera um bebê prematuro que infelizmente não sobrevivera. Se tantas razões não bastassem, havia outra, igualmente poderosa: trabalhar duas tardes por semana no hospital seria o meio mais adequado para ele entrar na vida de Robin Bauer. Pensando em tudo isso, tomara uma decisão: apresentara-se como voluntário e já fazia dez dias que trabalhava na unidade.

Na terça-feira e na quinta da semana anterior, vira Robin, mas mantivera-se discretamente à distância. Não queria assustá-la e nem fazia idéia de como abordá-la. Talvez nem tivesse o direito de lhe dirigir a palavra e o mais acertado fosse observá-la, sem se aproximar.

Olhou para o relógio na parede da unidade. Quase sete horas da noite. Seu horário de trabalho terminava as cinco, mas ele nunca tinha pressa de ir embora. Quem teria pressa de voltar para um apartamento frio e vazio, onde imagens perturbadoras o espreitavam cada canto, atacando-o com lembranças que o faziam estremecer?

Não podia acreditar que Robin não fora ver o filho naquele dia, mesmo levando em conta o tempo chuvoso e a distância de quarenta quilômetros que ela precisaria percorrer desde Lowell, Massachusetts, para onde se mudara depois da morte do marido. A enfermeira-chefe tinha dito que ela nunca deixara de visitar o filho um único dia, desde que o bebezinho fora transferido do hospital de Lowell para o Brigham.

O ribombar do trovão ecoou com violência, como se a natureza aplaudisse a chuva torrencial. Um dos bebês começou a chorar e uma enfermeira correu para o cubículo, acalmando-o com palavras doces. Jake olhou para o rostinho de Peter.

Coragem, rapaz. Foi apenas um trovão.



No mesmo instante o monitor acusou um desaceleramento do pequeno coração, um fenômeno já notado pela enfermeira-chefe em outras ocasiões. Ela dissera que a voz de Jake tinha o poder de acabar com sustos mais rapidamente que uma canção de ninar.

É isso aí, garoto — Jake continuou a falar. — Foi só um trovão. Um futuro escoteiro não deve ter medo de tempestades. O bebê chutou o ar. Jake sorriu e as linhas do rosto suavizaram-se, fazendo-o parecer muito mais jovem, embora já estivesse com quarenta e um anos, a maioria deles vividos em contato com a violência e o lado escuro da vida.

Muito bem, Peter. Não se deixe abater — murmurou, acariciando com um dedo a perninha cor de marfim — Mostre aos outros rapazes que você é corajoso.

O menininho tornou a chutar.

Já sabe das novidades, Peter? Estão falando em tirar você da respiração artificial. E hoje começaram a lhe dar alimentação contínua, através desse tubo ligado à sua barriguinha. Bem, isso não quer dizer que você já possa comer um hambúrguer, mas paciência.



O fato de que Peter seria retirado do respirador e colocado numa tenda de oxigênio, onde respiraria normalmente, era bastante animador, assim como a alimentação contínua representava progresso no tratamento. O bebê de um mês de vida melhorava gradualmente e já ganhara peso, o que deixava Jake aliviado e feliz. De alguma forma, que ele jamais seria capaz de explicar sua sobrevivência emocional e a sobrevivência física da criança pareciam profundamente ligadas. A voz da intuição dizia-lhe que em Peter estava à absolvição de sua culpa e que na coragem da frágil criatura, que lutava para manter-se viva, ele encontraria coragem para continuar vivendo.

Por falar em comida, Peter, hoje, como sempre, vou jantar na frente da televisão. Não sei bem o que comprar. O que você sugere: peru assado e salada, ou bife e purê de batatas? — Esperou o tempo necessário para uma resposta. — Sim, você está certo. Bife e purê de batatas. Quer fugir daqui e jantar comigo?



O trovão ecoou novamente entre as paredes da unidade e a chuva intensa, açoitada pelo vento, batia nas janelas. Não, a mãe de Peter não sairia de casa com um tempo daqueles. Nem mesmo para ver o filho.

Ela virá amanhã — dirigiu-se ao bebê— Seja bonzinho e não fique triste.



Acariciou mais uma vez a perninha esguia e afastou-se do pequeno leito aquecido. Querendo protestar contra o afastamento da voz acariciante, mas sem poder chorar por causa do tubo afixado à boca, Peter cerrou as mãozinhas erguidas no ar.

Na porta da enfermaria, Jake tirou o avental e vestiu o suéter de gola alta que deixara pendurado no cabide. Pegou o relógio que colocara numa gaveta e colocou-o no pulso, antes de vestir o casaco de couro.

Tchau — despediu-se da enfermeira que examinava algumas fichas.

Vai enfrentar a chuva? Cuidado para não se molhar. Não queremos que pegue um resfriado.

Não pegarei — ele afirmou, empurrando a porta de vaivém que abria para o corredor.

Ei, Sr. Cameron! — a enfermeira chamou.

Ele voltou-se, segurando uma das folhas da porta.

Sim?

O grupo vai se reunir na quinta-feira, às sete horas da noite, no salão de conferências.

Uma das enfermeiras, que também tivera um filho prematuro, formara um grupo de apoio para dar assistência aos pais que passavam pela mesma experiência traumática. Os voluntários eram encorajados a comparecer às reuniões para adquirir conhecimento, não só a respeito de bebês prematuros, como também sobre os receios e preocupações dos pais.

Está bem. Estarei presente.

Ótimo. Boa noite.

Boa noite.



Ele saiu e soltou a porta, que se fechou silenciosamente. Andou até o elevador vazio e desceu para a garagem, no térreo. Apesar da área de estacionamento ser quase toda fechada, o vento forte de setembro empurrava a chuva pelas laterais abertas, molhando o piso de concreto e os carros. Jake encolheu-se ao sentir a umidade penetrar-lhe o jeans e o frio bater-lhe no rosto bem escanhoado. Puxou o zíper do casaco até em cima e enfiou as mãos nos bolsos, correndo para o jipe com a cabeça abaixada para proteger-se das rajadas de vento.

Noite de cachorro! — resmungou aborrecido.



Robin Bauer colocou o carro numa das vagas do estacionamento, pensando que o dia fora simplesmente miserável. E a noite prometia ser uma desgraça. Amanhecera resfriada e sentia-se cada vez pior, com o nariz pingando sem cessar, os olhos lacrimejantes e a cabeça pesada e dolorida, para tornar tudo mais desagradável, não parava de chover. Sentira-se tão indisposta que se deitara no sofá para descansar um pouco e acabara adormecendo. Despertara menos de uma hora atrás e decidira que iria ao hospital de qualquer maneira, embora o bom senso a aconselhasse a ficar em casa, embaixo das cobertas, tomando suco de laranja e aspirina. Nem pensar. Não ficaria um dia sem ver seu filhinho, nem que o céu desabasse. Não a deixariam chegar perto dele, resfriada como estava, mas ela ficaria no corredor, olhando-o pelo vidro, enviando-lhe pensamentos de amor.

Além disso, precisava entregar o leite que retirava dos seios com o auxílio de uma bomba, para ser congelado no hospital. Assim, quando Peter começasse a alimentar-se por via oral, o leite seria descongelado e oferecido a ele, por meio de mamadeira de bico com o formato e a textura de um mamilo. A enfermeira-chefe explicara que, assim que Peter começasse a mamar, estaria próximo de receber alta e ir para casa.

Robin mal podia esperar pelo momento de levar o bebê e alimentá-lo ao seio, passando-lhe a nutrição e amor. Nem queria pensar na possibilidade de tudo dar errado e esse dia nunca chegar.

Espirrou e despertou do devaneio. Assoou o nariz num lenço de papel, e olhou ao redor. A despeito de ser uma noite tempestuosa, o estacionamento encontrava-se surpreendentemente cheio. Foi quando viu a placa avisando que a vaga que ocupara pertencia ao Dr. Timothy Brant. Resmungando, ligou o motor e saiu pelo corredor, olhando à procura de outro espaço. Nada. Então viu um jipe vermelho como um carro de bombeiros afastar-se de uma vaga, à direita do corredor, quase na saída. Bem, um pouco de sorte vinha a calhar num dia tão tumultuado.

Espirrou novamente e diminuiu a velocidade, até parar. As lanternas traseiras do jipe lançaram um clarão vermelho na lataria de seu carro e ela percebeu que precisava dar ré para deixar o outro veículo sair. Moveu a alavanca do câmbio e naquele momento à garrafa de leite, em seu invólucro esterilizado, rolou no banco, ameaçando cair. Tornou a espirrar. Agarrou a garrafa com a mão direita e com a esquerda virou a direção, mas o carro derrapou no chão molhado. O resultado desastroso foi que os dois veículos chocaram-se e o ruído de um farol estilhaçado subiu no ar.

Robin ficou aturdida. Mais um problema. Viu o homem descer do jipe e examinar os estragos. Sentindo vontade de desaparecer para não ter de enfrentar discussões e talvez até grosserias, desligou o motor e abriu a porta do carro, expondo-se aos respingos de chuva trazidos pelo vento, que colocaram manchas escuras em sua saia de veludo cotelê marrom e na jaqueta que fazia conjunto. O cabelo solto esvoaçava ao redor de seu rosto e ela estremeceu, acometida de arrepios.

Você está bem? — o homem perguntou, sem olhar para ela.

Estou. O estrago foi muito grande? — ela perguntou em tom mais alto que o normal, para ser ouvida acima do barulho persistente da chuva.

O estranho ajoelhou-se no chão de concreto e o jeans molhado colou-se às coxas musculosas. Depois de examinar o jipe, começou a investigar os danos sofridos pelo carro de Robin, ainda sem fitá-la.

Como nunca se envolvera em qualquer tipo de acidente de trânsito, ela não sabia como agir, mas sentiu-se na obrigação de também avaliar a extensão do prejuízo. Não que entendesse muita coisa de veículos, mas, a julgar pelos cacos espalhados no chão, o caso poderia ser grave. Além do farol quebrado, talvez houvesse peças internas afetadas, cujo conserto abalaria seu orçamento. A idéia a fez suspirar.

Foi só o farol? — perguntou, com medo de ouvir a resposta.



Jake levantou-se, finalmente olhando para ela. Apesar de seu controle sobre as próprias reações, característica essencial num policial, não pôde refrear a expressão de surpresa que lhe passou pelo rosto. Teve sorte, pois Robin não olhava para ele no momento, mantendo a atenção no que restara do farol. Ela ergueu o rosto para ele, finalmente, precisando curvar a cabeça para trás para encará-lo.

Espantou-se com a altura do homem, calculando automaticamente que ele devia ter aproximadamente quarenta anos e que o rosto de feições irregulares era bastante atraente. O cabelo crespo era espesso, castanho-escuro, prateado nas têmporas. As mechas caíam-lhe na testa de modo indisciplinado. Os olhos, também castanhos, mostravam-se gentis e ao mesmo tempo severos. Não. Severos, não. Tristes, talvez. O olhar do estranho era o de quem já vira muita coisa desagradável na vida e perdera todas as ilusões. O mesmo olhar que ela via ao mirar-se no espelho.

Jake não podia desviar o olhar do rosto voltado para ele. Nunca vira Robin tão de perto, limitando-se a observá-la de longe, tanto durante os funerais do marido dela, como no hospital, em suas visitas a Peter. No cemitério, vira apenas uma mulher de rosto encoberto por véu negro, que se mantivera em atitude digna apesar da grande dor que se abatera sobre ela. Percebera que era miúda, de estrutura delicada, mas tendo-a a sua frente, descobria que se tratava de uma criatura frágil, que mal lhe chegava aos ombros.

A estatura baixa e o penteado despretensioso, que lhe deixava os cabelos soltos, a não ser por algumas mechas na frente, que ela trançara e prendera para o lado, dava-lhe aparência extremamente jovem, como se ela ainda não tivesse vinte anos. Jake, porém, sabia que ela já passara dos trinta. As roupas, conjunto de veludo, suéter com cinto largo, complementadas por botas de couro, reforçavam o ar juvenil. Tudo em Robin Bauer era jovem, com exceção dos olhos. Castanho-esverdeados com fagulhas douradas pareciam cansando e tristes. Olhos trágicos. Jake jamais poderia adivinhar quantas lágrimas haviam derramado. E tudo por sua culpa.

Subitamente, percebeu que ela o fitava com curiosidade, talvez espantada com sua demora em responder.

Hã... sim... foi só o farol.

Tem certeza?

A batida foi fraca. Não pode ter causado nenhum dano interno — ele respondeu, inclinando-se para apanhar um fragmento de vidro do chão.



O gesto chamou a atenção de Robin para suas mãos e ela notou como eram grandes e fortes.

E seu carro? — ela perguntou, olhando para o jipe e descobrindo que o pára-choque estava amassado — Oh, desculpe.

Não se preocupe. Pára-choques foram feitos para aparar golpes.

Eu sei, mas devo pagar pelo estrago.

Não. Só não se esqueça de mandar colocar outro farol antes de voltar para... — ele interrompeu-se bruscamente. Estivera a ponto de dizer “para Lowell”. E como explicaria o fato de que sabia onde ela morava? Para todos os efeitos, eram estranhos.

Mande colocar um farol antes de voltar para casa. Certas oficinas ficam abertas até tarde e alguns postos de gasolina prestam esses pequenos serviços.

Está bem. Será necessário chamar a polícia para notificar o acontecido?

Jake visualizou a cena desagradável: um de seus colegas visitando o local do acidente e acabando por revelar quem ele era. Não tinha a menor dúvida de que Daniel Jacoby acabaria por descobrir tudo e que o chamaria para perguntar-lhe por que insistia em perseguir a viúva Bauer.

Não há necessidade de chamar a polícia — respondeu, aparentando calma. — Só houve um farol quebrado e o seguro não cobre esse tipo de prejuízo, mas se quiser notificar...

Não, não. Este foi meu primeiro acidente e realmente não sei o que fazer. De qualquer forma, espero que me desculpe o transtorno e... — Robin espirrou inesperadamente. — Oh, perdão. Estou resfriada e este frio... — Tornou a espirrar, ficando totalmente embaraçada.

Já tranqüilizado quanto à possibilidade de ela desejar chamar a polícia, Jake retirou o lenço do bolso detrás do jeans e ofereceu-o. Robin hesitou por breves segundos apenas, pois o nariz estava úmido e ameaçando escorrer e ela não tinha a mínima vontade de passar por mais uma humilhação. Tomou o lenço e levou-o ao nariz bem-feito.

Jake viu que ela ainda usava a aliança de casamento, um aro de ouro lindamente trabalhado. A visão daquele símbolo de amor e fidelidade fez com que sua consciência doesse.

Robin ia devolver o lenço, mas mudou de idéia. Não seria elegante devolver um lenço sujo.

Fique com ele — Jake sugeriu. — Ainda poderá ser útil, principalmente se ficar muito tempo exposta ao frio e à umidade.



Desejava ralhar com ela por ter saído de casa com um tempo tão ruim, estando doente, mas não podia. Contudo, não conseguia parar de preocupar-se com sua segurança e seu bem-estar, um castigo que se impusera, tentando expiar sua culpa.

Os dois ficavam mais molhados a cada minuto e o cabelo de Robin encaracolava-se umedecido, enquanto respingos de chuva brilhavam nas faces de pele perfeita. Jake sabia que precisava acabar com aquilo o mais rápido possível, todavia hesitava assaltado pela necessidade de conversar com ela, fazer perguntas e aconselhá-la a não voltar para Lowell com um farol só.

Já vou tirar o jipe para que possa ocupar minha vaga. — disse por fim, percebendo que bloqueavam o caminho e que alguns carros davam voltas, procurando espaço para estacionar.



Entrou no jipe, enquanto Robin voltava para o carro, e tirou-o da vaga, parando no corredor. Ela estacionou e, depois de pegar a garrafa com o leite, saiu, ajeitando as alças da bolsa no ombro. Trancou o carro e apressou-se na direção da entrada do hospital, olhando para trás para acenar para Jake, que saía devagar.

Desculpe — gritou ainda uma vez.

Não foi nada. Esqueça. E mande colocar outro farol!

Ela tornou a acenar e correu para a porta. O balanço dos quadris disfarçados sob o casaco nada tinha de juvenil. Era o movimento de um corpo cheio de feminilidade exuberante. Ao passar sob as lâmpadas fluorescentes da entrada, a luz fez o cabelo castanho-claro, estriado de dourado, brilhar de modo encantador. Sem precisar ver, Jake sabia que os olhos esverdeados também brilhavam e que a expressão de dor tornava-se mais evidente. Sem se incomodar com os pingos gelados que entravam pela janela aberta do jipe, parou na alameda e ficou olhando para a porta larga por onde Robin desaparecera. Tentou adivinhar qual seria a reação dela se ele lhe dissesse quem era. Robin o amaldiçoaria? Cuspiria em seu rosto? Ou simplesmente ficaria em silêncio, odiando-o com todas as forças de seu coração?

Quando a enfermeira viu Robin do lado de fora da unidade de terapia intensiva, olhou para o relógio e fez um gesto, indicando-lhe que poderia entrar, apesar de o horário de visita já estar esgotado. Robin sacudiu a cabeça, negando, e ergueu o pacote que continha a garrafa de leite.

Segundos depois a enfermeira reunia-se a ela, na saleta.

Estou resfriada—Robin explicou. —Não posso entrar.

Porque veio com esse tempo horrível? — a mulher, com idade suficiente para ser sua mãe, ralhou. — Não deve brincar com resfriados, querida.

Queria trazer o leite e ver meu bebê.



A enfermeira pegou o pacote.

Não faria diferença se trouxesse o leite hoje ou amanhã. E seu filho passou o dia muito bem.



Robin sorriu, esquecendo-se do mal-estar e da dor no corpo.

Que bom!



Ignorando as regras que proibiam os funcionários do hospital de se envolverem emocionalmente com os pacientes e suas famílias, a mulher também sorriu satisfeita.

Na verdade, Peter está tão bem que começou a ser alimentado de forma contínua, ontem. E, se tudo continuar como está ele será retirado do respirador e colocado numa tenda de oxigênio.



O rosto de Robin iluminou-se, cheio de felicidade.

Será uma tentativa — a enfermeira continuou, em tom cauteloso, não desejando alimentar falsas esperanças. — Peter voltará ao respirador se não conseguir respirar sozinho. E você não deve se preocupar, se isso acontecer.

Eu sei! Eu sei! Etapa por etapa, vagarosamente.

Exato — a enfermeira concordou. — Passo a passo, com muita paciência e coragem.



Robin não replicou, mas pensou que nos últimos meses o que mais exercitara fora a paciência e a coragem para suportar todos os golpes que a vida lhe desferira. A princípio quase entrara em desespero, mas depois, por amor ao ser que se criava em seu ventre, procurou aceitar com resignação o que não podia mudar.

De qualquer forma, só de estarem pensando em tirá-lo do respirador já é bom sinal, não é mesmo? — perguntou, sorrindo para a mulher.

Sim, é bom sinal. E agora, mocinha, volte já para casa e vá para a cama.

Posso ver Peter primeiro?

Claro, mas prometa que não virá amanhã, se não estiver melhor. Ouviu?

Ouvi, sim — Robin respondeu, sabendo que nada a impediria de ir ver o filho, enquanto pudesse manter-se de pé.



A cortina da parede envidraçada já fora puxada, mas a enfermeira tornou a abri-la. A caminha aquecida de Peter não ficava distante e Robin podia vê-lo perfeitamente. A enfermeira sorriu para ela e afastou-se.

Como sempre, o coração de Robin encheu-se de ternura ante a visão do pequenino corpo rosado e enrugado e ela mais uma vez maravilhou-se com a intensidade de seu amor por um ser tão frágil, que nunca apertara contra o peito. Ela amava os pais, amara o marido, mas jamais experimentara uma espécie de amor tão intenso, feito de felicidade e sofrimento. Depois do nascimento de Peter, compreendera o paradoxo do instinto maternal, complexo e simples ao mesmo tempo.

Olhando para o bebê, sentia o impulso de livrá-lo de todos os fios e tubos que lhe pareciam horríveis e torturantes, mesmo sendo absolutamente necessários para a sobrevivência do pequeno ser. O tubo do respirador seria retirado em breve, felizmente. Então, a boca minúscula ficaria livre e ela poderia ouvir Peter respirar, chorar, gorgolejar em sua linguagem terna e inocente. Mais tarde ouviria o riso do bebê e suas primeiras palavras hesitantes.

Ao pensar que um dia a criança a chamaria de “mamãe”, Robin sentiu um nó na garganta e apoiou as mãos no vidro, como se, através do gesto, pudesse passar ao bebê a certeza de que era amado.

Oi, Peter — balbuciou com lágrimas nos olhos. — É a mamãe, filhinho. Não pude vir mais cedo, hoje, porque estou resfriada. Nem posso chegar perto de você. Sentiu minha falta? — A criança dormia, mas Robin imaginou a resposta que receberia se o filho pudesse falar. — Também senti saudade, nenê. A enfermeira disse que você passou bem o dia e estou orgulhosa de você e de sua coragem. Continue lutando, meu bem, para que eu possa levá-lo para casa logo. Ah, Peter, vão tirá-lo do respirador. Você deve aprender a respirar sozinho. Filhinho, por favor, respire, lute, pela mamãe, sim?



Por longos minutos ela permaneceu observando a criança, vendo o peitinho delicado subir e descer à medida que o tubo do respirador injetava ar nos pequenos pulmões, prejudicados por falta de uma substância que dava elasticidade aos tecidos. As pálpebras translúcidas estremeciam a intervalos, como se o bebê estivesse sonhando. Com que sonhariam as criancinhas de um mês?

Sonhos. Oh, meu Deus, como ela gostaria de parar de sonhar com Gerald! Se ao menos em sonhos o visse cheio de vida, rindo, brincando... Mas sua mente torturada insistia em exibi-lo morto, com o rosto atraente imóvel para sempre.

Ela balançou a cabeça, espantando os pensamentos tristes.

Seus avós telefonaram hoje, Peter, e mandaram um beijinho para você. — Sorriu trêmulamente. — Acho que eles ainda estão furiosos porque eu não quis ir com eles para Tucson depois do... do enterro. Mas eu não podia Peter. Você entende, não é? Sim, eu sabia que precisava sair de Boston, mas não podia ir para tão longe. Eu não queria deixar seu pai aqui.



Ela tentara de tudo para convencer os pais de que seu lugar era nas redondezas de Boston, onde Gerald fora sepultado, mas havia sido inútil. Como poderia fazê-los entender algo que ela própria não compreendia? Tudo o que sabia era que precisava afastar-se da cidade, da curiosidade das pessoas e da imprensa, mas não para muito longe. Lowell, onde ela e o marido se conheceram e viveram durante algum tempo antes da decisão de mudarem-se para Boston, parecera-lhe então o lugar ideal. A cidadezinha era tranqüila, acolhedora e ficava perto o suficiente de Boston para que ela continuasse a desenhar e tricotar suéteres para uma butique que comprava todos os seus trabalhos, lembrou-se de alguns desenhos que ainda não terminara e fez uma ligeira careta de desgosto.

Passei tão mal, Peter, que não acabei uns desenhos que estava fazendo. Não é só por causa do resfriado. Não durmo bem à noite, pensando em você e no papai. Fico cansada e desanimada durante o dia. Ah, nenê, sinto falta de seu pai e gostaria muito de levar você para casa...



Pousou a testa no vidro e fechou os olhos para impedir as lágrimas de caírem, mas era tarde demais e ela sentiu seu calor úmido nas faces.

Peter, Peter, não foi isso que eu sonhei meu amorzinho. A vida pode ser muito má, às vezes.



Ela visualizara uma vida feliz para os três, com as preocupações e problemas inevitáveis, sim, mas com alegria também e muito amor. Ela e Gerald veriam juntos Peter dar os primeiros passos, ouviriam juntos suas primeiras palavras. Quando o bebê fosse maior, pela época do Natal, Gerald se vestiria de Papai Noel e entregaria os presentes, provocando uma expressão maravilhosa no rostinho da criança. Teriam cachorros brincalhões e no verão os três iriam à praia e brincariam na arrebentação.

Gerald amaria o filho tanto quanto ela? De cada vez que o pensamento se insinuava em sua mente, Robin sentia-se culpada pelo simples fato de duvidar. Naturalmente, Gerald amaria o filho com a mesma intensidade. Apenas, no início, ele não ficara tão entusiasmado com a gravidez como Robin. Ele explicara que a fase que atravessavam não era muito propícia para a chegada de um bebê, porque acabara de conseguir emprego no Centro de Aeronáutica Century, como inspetor, e eles haviam comprado a casa e um novo carro. Robin replicara que, com tantas novidades, a vinda da criança seria mais um motivo de alegria.

Desencostando o rosto do vidro e abrindo os olhos, ela fitou novamente o rostinho do filho.

Seu papai lhe daria muito amor, Peter.



Então, porque o bebê era tão fraquinho e ela temia tanto por sua vida, porque Gerald estava morto e teriam de viver sem ele, as lágrimas transbordaram com mais força e Robin sufocou um soluço.

Filhinho, por favor, fique forte depressa. Não se entregue. Mamãe só tem você.



Fungou e abriu a bolsa, procurando um lenço de papel. Encontrou um de tecido, o que o homem do jipe lhe emprestara. Usou-o e ao dobrá-lo notou a letra “C” bordada em um dos cantos. Voltou a ver os olhos compreensivos e a ouvir a voz mansa que a tranqüilizara.

Robin não conseguiu repor o farol naquela noite. Parou numa oficina e desanimou ao notar que estava fechada. O primeiro posto de serviço não trabalhava com peças e o segundo possuía todos os tipos de faróis, desde para motocicletas até para caminhões, mas nenhum era adequado ao carro dela. Deixara os funcionários discutindo sobre quem deveria ser responsabilizado pela falta de uma peça tão comum e tomara a direção de casa, sob chuva torrencial e à luz de um único farol. E ela nunca pensara nas pequeninas coisas que Gerald fazia, manter o carro em ordem, por exemplo, com peças sobressalentes para o caso de uma emergência. Nunca fora grata.Exausta, forçou-se a tomar um prato de sopa de tomate e a banhar-se sob a água escaldante da ducha, esperando que os arrepios de frio cessassem. Vestiu um pijama de malha grossa e foi para a cama, considerando a possibilidade de tomar uma aspirina. Contudo, não conseguia lembrar-se se a droga estava na lista de medicamentos proibidos a mães que amamentavam e desistiu da idéia. Na dúvida, melhor não se arriscar. E preparou-se para enfrentar a noite, doente e solitária. Adormeceu quando faltavam poucos minutos para a meia-noite. A chuva ainda tamborilava nas janelas.
Jake chegou em casa e colocou o jantar que comprara no forno, para aquecê-lo, enquanto tomava um banho rápido. Trinta minutos mais tarde acabava de engolir o bife e o purê de batatas. Um tinha gosto de papelão e o outro, de cola. Com um suspiro desanimado, sentou-se com um livro nas mãos para logo descobrir que não era bom. Inevitavelmente, os pensamentos voltaram-se para Robin. Teria ela mandado colocar outro farol? Chegara em casa em segurança?

Telefonou para as filhas. A mais velha, de dezesseis anos, estava no ensaio do teatro da escola, mas a de doze, que tinha covinhas no rosto e aparelho nos dentes, falou quinze minutos sem parar, numa torrente de lamentações sobre um garoto de sua classe que só tinha olhos para sua melhor amiga, ignorando-lhe a paixonite.A conversa quase infantil foi um raio de luz no dia escuro e cheio de preocupações.

Mas, então, a ex-esposa decidiu falar com ele e nem se incomodou em cumprimentá-lo ou perguntar-lhe como estava. Pôs- se a elogiar Ed, o novo marido, exaltando suas qualidades de chefe de família, informando entre risos excitados que ele a levaria, assim como às meninas, para passar os feriados de fim de ano no Cobrado. Ao menos teve a decência de perguntar-lhe se ele concordava em ficar sem as filha no Natal e no Ano-Novo. Sim, concordaria, mas desligou o telefone sentindo-se não só mais solitário, como deprimido. Um estranho chamado Ed convivia mais com suas filhas do que ele jamais conseguiria.

Talvez porque tomasse consciência da profunda solidão que o assaltava,ou porque o menino que ainda existia nele precisava da voz do pai para sentir-se melhor,discou o número de Henry Cameron, o Hank. Com oitenta e três anos, viúvo e reformado da Polícia Militar, o pai vivia no outro lado da cidade, numa pequena casa. A mulher que ele e a irmã contrataram para fazer companhia ao velho e cuidar dele depois que tivera o infarto atendeu. O capitão já fora dormir e Jake não permitiu que a governanta o acordasse.

Muito mais inquieto, perambulou pelo apartamento e acabou na cozinha, onde bebeu meio litro de leite achocolatado, seu melhor remédio para tudo o que o perturbava. Amassou a embalagem de papelão, jogou-a no lixo e foi para o quarto.

Por milagre, adormeceu assim que se deitou. E o sonho começou quase que imediatamente. A noite era silenciosa e ele podia ouvir as batidas aceleradas do coração. Um assalto acontecia. Os policiais arrombaram a porta dos fundos do edifício e entraram. Ele e um companheiro deslizaram em silêncio para a parte da frente do prédio. Jake sacou a arma e encostou-se à parede do corredor, antes de empurrar a porta de uma sala e entrar. Luzes brilhantes. Escrivaninhas reviradas. Um guarda do serviço de segurança jazia morto no chão. De repente, um homem apareceu na porta de comunicação com outra sala e atirou, Com precisão adquirida por meio de exaustivos treinamentos, Jake apontou a arma e atirou também, O homem caiu.

Você o pegou... pegou... pegou... — o companheiro gritava.

Pegamos os assaltantes na porta de trás.

No sonho, Jake ouviu a terrível informação dada por um dos policiais da retaguarda.

Então... quem...

Meu Deus! — exclamou o presidente da companhia, que acabava de chegar. — Vocês mataram meu inspetor! Mataram um inocente!

Um inocente! Um inocente!”



Jake acordou e sentou-se na cama num movimento brusco, molhado de suor e de lágrimas.

Robin também acordou sobressaltada. O sonho era sempre o mesmo: coroas adornadas com fitas negras, a voz de um pastor na cantilena monótona do serviço fúnebre.. “As cinzas voltarão para as cinzas e o pó, para o pó. O Senhor deu, o Senhor tomou. Louvado seja o nome do Senhor.”

Um cadáver ensangüentado. Sangue... sangue!

Ela passou os dedos trêmulos pelos cabelos úmidos.

Jake agarrou um punhado de cabelos, quase arrancando-o.

Robin respirou fundo e Jake abriu a boca para receber o ar que lhe faltava nos pulmões. Ela saiu da cama e ele também.

Ambos temiam voltar a dormir. O sono era território de pavor, onde os tigres selvagens do pesadelo espreitavam para saltar sobre eles.



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