Santuário



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SANTUÁRIO

Nora Roberts

(Sanctuary)

Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos

Copyright© 1997 by Nora Roberts

Título original: Sanctuary

Capa: Leonardo Carvalho

2007


Impresso no Brasil - Printed in Brazil

CIP-Brasil. Catalogação na fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Todos os direitos reservados pela:

EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA.
Digitalização e revisão: Zaira Machado

Rio de Janeiro, 08 de setembro de 2008



Às Damas do Salão
PARTE UM
Quando eu volto, abatido pelo tempo...

Meu corpo um saco de ossos, quebrado por dentro...

John Donne
Capítulo Um
Ela sonhou com Sanctuary. A enorme casa refulgia ao luar, branca como um vestido de noiva, tão imponente e poderosa quanto uma força que desafiava a encosta. Reinava sobre as dunas a leste e o pântano a oeste, como uma rainha em seu trono. O nome era apropriado, pois podia mesmo servir como um santuário, um refúgio. A casa se destacava ali havia mais de um século, um grande tributo à vaidade e ao talento do homem, perto das sombras escuras da floresta de carvalhos-da-virgínia, por onde o rio corria, num silencio solene.

Ao abrigo das árvores, os vaga-lumes piscavam dourados. As criaturas noturnas agitavam-se, prontas para caçar ou serem caçadas. As coisas selvagens vicejavam ali, nas sombras, em segredo.

Nao havia luzes acesas para iluminar as janelas altas e estreitas de Sanctuary. Não havia luzes acesas para irradiar as boas-vindas nas varandas graciosas e portas imponentes. A noite era profunda e uma brisa úmida soprava do mar. O único som que se podia ouvir ali era o farfalhar das copas dos carvalhos e os estalos secos — como se viessem de dedos — das folhas das palmeiras. As colunas brancas eram como soldados guardando a varanda larga. Mas ninguém abriu a porta da frente para recebê-la.

Ao se aproximar, ela podia ouvir o rangido de areia e conchas sob seus pés na estrada. Os sinos de vento retiniam, em pequenos acordes musicais. O balanço da varanda mexeu-se, mas não havia ninguém sentado ali para aproveitar a noite e o luar.

O perfume de jasmim e rosa impregnava o ar, realçado pelo cheiro de maresia. E logo ela começou a ouvir também o murmúrio do mar, derramando-se pela areia, para em seguida voltar.

O ritmo era firme e paciente, lembrando a todos os habitantes de Lost Desire, a ilha do desejo perdido, que o mar podia reclamar a terra e tudo o que nela havia, a seu capricho.

Mesmo assim, ela sentiu-se mais animada ao ouvi-lo, a música do lar, a música que embalara sua infância. Houvera um tempo em que vagueava livre e solta por aquela floresta, como uma corça, explorava o pântano, corria pela areia da praia, com o privilégio despreocupado da pouca idade.

Agora, não era mais uma criança, mas estava outra vez em seu lar.

Passou a andar mais depressa. Subiu os degraus, atravessou a varanda. Estendeu a mão para a enorme maçaneta de latão, que brilhava como um tesouro perdido.

A porta estava trancada.

Ela virou para a direita, depois para a esquerda, e tentou de novo. Deixem-me entrar, pensou ela, enquanto o coração começava a bater forte. Voltei para casa. Estou aqui.

Mas a porta permaneceu imóvel. Quando pressionou o rosto contra o vidro da janela alta, no lado da porta, não pôde ver nada lá dentro. Só a escuridão.

E sentiu medo.

Correu agora, pelo lado da casa, ao longo do terraço, onde as flores projetavam-se de vasos e os lírios dançavam fileiras de coristas de cores brilhantes. A música dos sinos de vento tornou se estridente e dissonante, os estalos das folhas de palmeiras soavam como advertências. Ela lutou com a porta seguinte, chorando enquanto batia com os punhos.



Por favor, não me deixem aqui fora! Quero voltar para casa!

Ela soluçava enquanto descia cambaleando pelo caminho do jardim. Iria para os fundos da casa, entraria pela varanda fechada com tela. Nunca ficava trancada... a mãe dizia que uma cozinha devia estar sempre aberta para as visitas.

Mas ela não conseguia encontrá-la. As árvores afloravam à sua frente, enormes e juntas, os galhos e as cortinas de musgo barrando sua passagem.

Estava perdida. Tropeçava a todo instante nas raízes, em sua confusão. Fazia um enorme esforço para avistar qualquer coisa, agora que o dossel das árvores não deixava o luar passar. O vento aumentou de intensidade, uivando. Atingia seu rosto como se fossem tapas violentos. Folhas serrilhadas de palmeiras projetavam-se em sua direção, como espadas. Ela virou-se para voltar, mas o rio passava agora pelo lugar em que antes ficava o caminho, isolando-a de Sanctuary. O mato alto nas margens balançava vertiginosamente.

Foi nesse instante que ela se viu, parada sozinha, chorando, na outra margem.

E foi também nesse instante que ela compreendeu que havia morrido.


JO FEZ UM TREMENDO ESFORÇO PARA SAIR DO SONHO. QUASE podia sentir as beiras afiadas arranhando sua pele, enquanto se arrastava para a superfície do túnel do sono. Os pulmões ardiam, tinha o rosto molhado de suor e lágrimas. Estendeu a mão trêmula para o abajur na mesinha-de-cabeceira. Em sua pressa para sair da escurião, jogou no chão um livro e um cinzeiro cheio.

Quando a luz acendeu, ela levantou os joelhos para o peito, passou os braços ao redor e embalou-se até ficar mais calma.

Era apenai um sonho, disse a si mesma. Apenas um pesadelo.

Estava em seu lar, sua própria cama, seu apartamento, a quilômetros da ilha em que ficava Sanctuary. Uma mulher adulta, de vinte e sete anos, não tinha por que se assustar com um sonho absurdo.

Mas ainda tremia quando pegou um cigarro. Precisou de três tentativas para conseguir acender um fósforo.

Três e quinze da madrugada, ela notou ao olhar para o relógio na mesinha-de-cabeceira. Aquilo começava a se tornar típico. Não havia nada pior do que crises de nervosismo às três horas da madrugada. Ela estendeu as pernas pelo lado da cama e abaixou-se para pegar o cinzeiro no chão. Disse a si mesma que limparia a sujeira pela manha. Ficou sentada na cama, a camiseta enorme caída sobre as coxas, enquanto dava uma ordem para si mesma: trate de se controlar.

Não sabia por que os sonhos levavam-na de volta à ilha de Lost Desire, ao lar de onde escapara aos dezoito anos. Mas Jo calculava que qualquer estudante de psicologia do primeiro ano poderia traduzir o resto do simbolismo. A casa estava trancada porque ela duvidava que alguém pudesse acolhê-la se voltasse agora. Pensara um pouco a respeito nos últimos dias, mas especulara se seria capaz de encontrar o caminho de volta.

E aproximava-se da idade que a mãe tinha quando deixara a ilha. Desaparecera, abandonando o marido e três crianças, sem olhar para trás.

Annabelle alguma vez sonhara em voltar para casa?, especulou Jo. E também descobrira que a porta estava trancada?

Ela não queria pensar a respeito. Não queria lembrar a mulher que partira seu coração, vinte anos antes. Jo lembrou a si mesma que, a esta altura, já deveria ter superado todas essas coisas. Vivera sem a mãe, sem Sanctuary, sem a família. Até crescera... pelo menos em termos profissionais.

Jo bateu a cinza do cigarro, distraída. Correu os olhos pelo quarto. Mantinha-o simples, prático. Embora viajasse bastante, havia poucas lembranças. Exceto pelas fotos. Emoldurara as fotos, em preto-e-branco, escolhendo as que considerava mais repousantes para decorar as paredes do quarto em que dormia.

Ali, um banco de parque vazio, a armação preta de ferro batido descrevendo curvas graciosas. E ali um salgueiro solitário, as folhas rendadas pendendo para um lago pequeno, a superfície parecendo um espelho. Um jardim enluarado era um estudo de sombra e textura de formas contrastantes. A praia deserta, com o sol rompendo no horizonte, tentava o espectador a entrar na foto e sentir a areia sob seus pés.

Pendurara a paisagem marinha na semana passada, depois de voltar de uma viagem às ilhas Outer Banks, na Carolina do Norte. Talvez fosse um dos motivos para que começasse a pensar em Sanctuary, refletiu Jo. Poderia ter viajado mais um pouco para o sul, até a Geórgia, e pego a barca do continente para a ilha.

Não havia estradas para Desire, não havia pontes estendendo-se pelo estreito.

Mas ela não fora para o sul. Completara o serviço e voltara para Charlotte, a fim de se enterrar no trabalho.

E nos pesadelos.

Jo apagou o cigarro e levantou-se. Sabia que não conseguiria mais dormir, e por isso vestiu uma calça de training. Faria algum trabalho no laboratório, para afastar a mente dos problemas.

Era bem provável que a proposta do livro a estivesse deixando nervosa, decidiu ela, enquanto saía do quarto. Era um enorme passo em sua carreira. Embora soubesse que seu trabalho era bom, a oferta de uma grande editora de fazer um livro de arte com suas fotos fora inesperada e emocionante.



Estudos Naturais, de Jo Ellen Hathaway, ela pensou ao entrar na pequena cozinha para fazer um café. Não. Mais parecia um projeto de ciências. Vislumbres da Vida? Muito pomposo.

Ela sorriu um pouco, empurrando para trás os cabelos ruivos. Deveria se limitar a fazer as fotos, deixando a escolha do título para os especialistas.

Afinal, sabia quando recuar e quando assumir uma posição firme. Vinha fazendo uma ou outra coisa durante a maior parte de sua vida. Talvez mandasse um exemplar do livro para casa. O que sua família pensaria a respeito? Acabaria ornamentando uma das mesinhas de café, onde um hóspede o folhearia, especulando se Jo Ellen Hathaway tinha algum parentesco com os Hathaway que dirigiam a pousada em Sanctuary?

Seu pai algum dia abriria o livro e veria o que ela aprendera a fazer? Ou se limitaria a dar de ombros, deixaria o livro intocado e sairia para passear por sua ilha? A ilha de Annabelle.

Era duvidoso que ele se interessasse agora pela filha mais velha, e era um absurdo que a filha se importasse.

Jo deu de ombros, descartando o pensamento. Tirou uma caneca azul de um gancho. Enquanto esperava que o café ficasse pronto, olhou pela pequena janela.

Havia algumas vantagens em estar acordada e em pé às três horas da madrugada, refletiu ela. O telefone não tocaria. Ninguém ligaria ou mandaria um fax, ninguém esperaria uma chamada sua. Durante algumas horas, não precisava ser alguém que os outros esperavam nem fazer qualquer coisa. Se sentia o estômago embrulhado ou a cabeça doía, era a única que sabia da fraqueza.

Por baixo da janela da cozinha, as ruas estavam escuras e vazias, molhadas da chuva do final do inverno. Um lampião espalhava uma pequena poça de luz... uma luz solitária, pensou Jo. Não havia ninguém para apreciá-la. A solidão tinha seus mistérios, meditou ela. Possibilidades intermináveis.

Ela se sentiu atraída, como era freqüente com cenas assim. Descobriu-se a ignorar o aroma do café. Pegou a Nikon e saiu descalça para a noite fria, a fim de fotografar a rua deserta.

Tranqüilizou-a, como nenhuma outra coisa era capaz de fazer. Com uma câmera na mão e uma imagem na mente, podia esquecer todo o resto. Os pés compridos pisavam nas poças geladas, enquanto deslocava-se de um lado para outro, experimentando ângulos diferentes. Com uma irritação distraída, empurrou os cabelos para trás. Não estariam caindo em seu rosto se estivessem aparados. Mas não tivera tempo cortá-los, e era por isso que se projetavam para a frente, numa onda desgrenhada, fazendo-a desejar um elástico.

Tirou quase uma dúzia de fotos antes de ficar satisfeita. Quando se virou, o olhar foi atraído para cima. Deixara as luzes acesas. E nem percebera que havia acendido tantas luzes no percurso do quarto à cozinha.

Os lábios contraídos, atravessou a rua. Tornou a focalizar a câmera. Agachou-se, calculando tudo, e bateu outra foto, registrando as janelas iluminadas no prédio escuro. O Covil da Insone, decidiu ela. Depois, com uma meia-risada, que ecoou de uma maneira tão estranha que a fez estremecer, Jo tornou a baixar a câmera.

Talvez estivesse perdendo o juízo. Uma mulher sã estaria na rua às três horas da madrugada, só meio vestida e tremendo de frio, enquanto batia fotos de suas próprias janelas?

Comprimiu os dedos contra os olhos e desejou, mais do que nunca, a única coisa que sempre parecera se esquivar à sua busca. Normalidade.

Você precisava dormir para ser normal, pensou ela. E não tinha uma noite inteira de sono há mais de um ano. Precisava fazer refeições regulares. Perdera quatro quilos nas últimas semanas, o corpo comprido e esguio deixando os ossos à mostra. Precisava de paz de espírito. E não podia lembrar se algum dia já tivera isso. Amigos? Claro que tinha, mas nenhum bastante íntimo que pudesse ligar no meio da noite em busca de conforto.

Família... Tinha uma família, é verdade. Um irmão e uma irmã cujas vidas não combinavam com a sua. Um pai que era quase um estranho. Uma mãe que não via e de quem não tinha notícias há vinte anos.

Não foi culpa minha, pensou Jo, enquanto atravessava a rua. A culpa era de Annabelle. Tudo mudara quando Annabelle fugira de Sanctuary, deixando a família atordoada e desesperada. O problema, na opinião de Jo, era que os outros não haviam superado. Ela conseguira.

Não permanecera na ilha tomando conta de cada grão de areia, como o pai. Não dedicara a vida a dirigir e cuidar de Sanctuary, como o irmão, Brian. E não tentara escapar para as fantasias insensatas ou para uma emoção depois de outra, como a irmã, Lexy.

Em vez disso, estudara, trabalhara, criara sua própria vida. Se agora sentia-se um pouco nervosa, era apenas porque exagerara nos compromissos, deixando que a pressão a dominasse. Estava um pouco cansada. Isso era tudo. Bastava acrescentar algumas vitaminas a sua dieta e recuperaria a forma.

Podia até tirar umas férias, pensou Jo, enquanto pegava a chave no bolso. Fazia três anos — não, quatro — desde que fizera a última viagem sem qualquer plano de trabalho específico. Talvez o México, ou as Índias Ocidentais, algum lugar com um ritmo de vida lento e um sol quente. Para relaxar e esvaziar a mente. Era a maneira de superar aquele pequeno problema em sua vida.

Ao entrar no apartamento, ela chutou um pequeno envelope pardo quadrado que estava no chão. Por um momento, Jo permaneceu imóvel, uma das mãos na porta, a outra segurando a câmera. E ficou olhando para o envelope.

Já se encontrava ali quando saíra? E por que estava ali, em primeiro lugar? O outro envelope chegara um mês antes, esperando na pilha com o resto da correspondência, apenas com seu nome escrito, de uma forma meticulosa.

As mãos começaram a tremer outra vez, enquanto dizia a si mesma para fechar e trancar a porta. Tinha dificuldade para respirar, mas abaixou-se e pegou o envelope. Com todo cuidado, largou a câmera na mesinha e abriu o envelope.

Ao retirar o conteúdo, deixou escapar um gemido baixo e longo. A foto era profissional, cortada com perfeição. Como as outras três. Os olhos de uma mulher, com as pálpebras pesadas, amendoados, pestanas grossas e sobrancelhas arqueadas. Jo sabia que a cor seria azul, um azul profundo, porque os olhos eram os seus. E havia neles um terror intenso.

Quando fora tirada? Como e por quê? Ela comprimiu a mão contra a boca, olhando para a foto. Sabia que seus olhos refletiam a imagem com perfeição. O terror dominou-a. Correu pelo apartamento, até o segundo e menor quarto, que convertera em laboratório. Frenética, abriu uma gaveta, remexendo no conteúdo, até encontrar os envelopes que guardara ali. Havia uma foto em preto-e-branco em cada um, no tamanho de cinco por quinze.

O coração trovejava em seus ouvidos quando alinhou as fotos. A primeira mostrava os olhos fechados, como se tivessem sido fotografados durante o sono. As outras seguiam o processo de despertar. Pestanas que começavam a levantar, mostrando apenas uma insinuação das íris. Na terceira foto os olhos já estavam abertos, mas ainda desfocados, turvados pela confusão.

Haviam-na perturbado, é verdade, deixaram-na inquieta, quando as encontrara no meio de sua correspondência. Mas não a assustaram.

Agora, a última foto concentrava-se nos olhos, bem despertos e brilhando de pavor.

Jo deu um passo para trás, estremecendo. Fez um esforço para manter a calma. Por que apenas os olhos?, perguntou a si mesma. Como alguém chegara tão perto para tirar aquelas fotos sem que ela percebesse? E agora tinha de se perguntar quem chegara tão perto da porta do apartamento.

Impelida por uma nova onda de pânico, ela correu para a sala e verificou as trancas da porta, frenética. O coração batia ainda mais forte quando se encostou na porta. E, depois, a raiva prevaleceu.

Que desgraçado! Ele queria aterrorizá-la. Queria que ela se escondesse naqueles cômodos, em sobressalto com as sombras, não querendo sair, com medo de que ele estivesse lá fora, observando-a. Logo ela, que sempre fora destemida, reagia agora como o homem queria.

Vagueara sozinha por cidades de outros países, percorrera ruas ameaçadoras e vazias, escalara montanhas, atravessara selvas perigosas. Com a câmera como escudo, nunca pensara no medo. E agora, por causa de algumas fotos, sentia as pernas bambas.

O medo fora se acumulando, Jo admitiu. Fora aumentando, ao longo das semanas, pouco a pouco. Fazia com que se sentisse desamparada, exposta, brutalmente sozinha.

Ela afastou-se da porta. Não podia e não viveria assim. Ignoraria as fotos, poria de lado. Enterraria bem fundo. Deus sabia que era uma perita em sepultar traumas, pequenos e grandes. Aquele era apenas mais um.

Tomaria seu café e voltaria ao trabalho.
POR VOLTA DE OITO HORAS DA MANHÃ, ELA COMPLETARA O círculo: resvalara pela fadiga, recuperara-se com a energia nervosa, a calma criativa, e agora tornava a mergulhar no cansaço.

Não podia trabalhar de uma forma mecânica, nem mesmo nas tarefas mais básicas que tinham de ser desempenhadas no laboratório. Insistia em dispensar toda a sua atenção a cada etapa. Para isso, tivera de se acalmar, livrar-se da raiva e do medo. Enquanto tomava a primeira xícara de café, convencera-se de que encontrara o raciocínio por trás das fotos que vinha recebendo. Alguém admirava seu trabalho e tentava atrair sua atenção, empenhar a influência que Jo tinha para promover suas próprias fotos.

Isso fazia sentido.

De vez em quando ela fazia conferências ou realizava oficinas. Além disso, tivera três grandes exposições nos últimos três anos. Não era tão difícil ou tão extraordinário que alguém tirasse uma foto sua... várias fotos, para ser mais precisa.

Era até razoável.

E quem quer que fosse se mostrava criativo. Era só isso. Ampliara a área dos olhos, cortara e enviara as fotos numa espécie de série. Embora as fotos dessem a impressão de terem sido copiadas há pouco tempo, não se podia determinar quando ou onde tinham sido tiradas. Os negativos podiam ter um ano. Ou dois. Ou cinco.

Não restava a menor dúvida de que haviam atraído sua atenção, mas também ela exagerara, levara para termos pessoais.

Ao longo dos últimos dois ou três anos, recebem amostras do trabalho de admiradores seus. Em geral, eram acompanhadas por uma cana, elogiando as fotos de Jo, antes que o remetente pedisse seu conselho ou ajuda. Em uns poucos casos, havia também sugestões de colaboração num projeto.

O sucesso profissional que ela desfrutava ainda era relativamente recente. Não se acostumara com as pressões inerentes ao sucesso comercial nem com as expectativas dos outros, que podiam ser opressivas.

E ela teve de admitir, enquanto ignorava as contrações do estômago e tomava um gole do café já frio, que não estava absorvendo esse sucesso tão bem quanto deveria.

Seria muito melhor, refletiu, girando a cabeça dolorida sobre os ombros doloridos, se todos a deixassem em paz para fazer o que melhor sabia fazer.

As cópias prontas estavam penduradas para secar no lado do laboratório. O último rolo de negativos já fora revelado. Sentada num banco, junto do balcão de trabalho, ela ajeitou uma folha de contatos no painel luminoso. Estudou-os através da lupa, um a um.

Por um momento, sentiu um ímpeto de pânico e desespero Cada contato examinado estava desfocado, indistinto. Droga! Droga! Como era possível? Teria acontecido com todo o rolo? Elu mudou de posição, contraiu os olhos com força e tornou a verificar a imagem ampliada das dunas e vegetação rasteira, subitamente nítida outra vez.

Jo recostou-se, com um som que se situava entre um grunhido e uma risada.

Não são as fotos que estão desfocadas, sua idiota, mas você murmurou em voz alta.

Ela largou a lupa e fechou os olhos para descansá-los. Carecia da energia para se levantar e fazer mais café. Sabia que deveria comer, oferecer alguma coisa sólida ao organismo. E sabia também que deveria dormir. Estender o corpo na cama, desligar tudo e mergulhar no sono.

Mas tinha medo, No sono, perderia até mesmo aquele controle precário.

Já começava a pensar que deveria procurar um médico, tomar alguma coisa para os nervos abalados, antes que se rompessem de uma maneira irreparável. Mas essa idéia fazia-a pensar em psiquiatras. E com certeza eles iam querer sondar e bisbilhotar, desencavar coisas que ela estava determinada a esquecer.

Daria um jeito. Era eficiente em cuidar de si mesma. Ou, como Brian sempre dissera, era boa para afastar a cotoveladas as pessoas que estivessem em seu caminho e cuidar de tudo sozinha.

Que opção tinha... que opção qualquer deles tinha, deixados à deriva naquele fragmento de terra a quilômetros de lugar nenhum?

A raiva que irrompeu dentro dela fê-la estremecer de tão repentina e intensa. Cerrou os punhos no colo e teve de fazer um esforço para reprimir as palavras veementes que queriam aflorar contra o irmão, que nem sequer estava presente.

Era cansaço, ela disse a si mesma. Apenas sentia-se cansada. Só isso. Precisava pôr o trabalho de lado, tomar uma daquelas pílulas para dormir sem receita médica, que comprara e ainda não experimentara, desligar o telefone e mergulhar no sono. Estaria mais firme depois, mais forte.

Quando a mão tocou em seu ombro, ela soltou um grito e largou a caneca.

— Jesus, Jo!

Bobby Banes recuou, aturdido, espalhando pelo chão a correspondência que trouxera.

— O que está fazendo? Que diabo está fazendo?

Jo pulou do banco, derrubando-o, com o maior estardalhaço, enquanto ele a fitava, espantado.

— Eu... você disse que queria começar às oito horas. Só estou uns poucos minutos atrasado.

Jo fez um esforço para respirar. Pôs as mãos na beira do balcão, para conseguir manter o equilíbrio.

— Oito?


Seu assistente, um estudante, acenou com a cabeça em confirmação, cauteloso. Engoliu em seco, mantendo-se a distância. A seus olhos, Jo ainda parecia desvairada, prestes a atacar. Era o segundo semestre de trabalho com ela e pensava que aprendera a antecipar suas ordens, avaliar os ânimos, evitar as explosões. Mas não tinha a menor idéia sobre a maneira de lidar com aquele medo intenso nos olhos de Jo.

— Por que você não bateu? — perguntou ela, ríspida.

— Bati. Mas, como não respondeu, achei que devia estar aqui. Usei a chave que me deu quando viajou em seu último trabalho.

— Devolva-a. Agora.

— Claro, Jo. — Sem desviar os olhos dela, Bobby enfiou a mão no bolso da frente dos jeans desbotados, como era a moda. — Não tinha a intenção de assustá-la.

Jo procurou se controlar, enquanto pegava a chave estendida. Agora, ela compreendeu, o embaraço era tão grande quanto o medo. Para se dar um momento, curvou-se e levantou o banco.

— Desculpe, Bobby. Você me deu um susto. Não o ouvi bater.

— Não tem importância. Quer que eu pegue mais café?

Ela sacudiu a cabeça em negativa. Cedeu aos joelhos bambos, sentando no banco. Conseguiu sorrir para Bobby. Era um bom assistente, pensou Jo... talvez ainda um pouco pomposo em relação ao seu trabalho, mas também tinha apenas vinte e um anos.

Bobby tinha a aparência de um artista que se torna universitário, pensou ela, com os cabelos louros compridos presos num rabo-de-cavalo, uma pequena argola de ouro numa orelha, o rosto comprido e estreito. Os dentes eram perfeitos. Seus pais acreditavam em aparelho, refletiu Jo, que era um pouco dentuça.

Além disso, Bobby tinha um bom olho. E muito potencial. Era por isso que estava ali, no final das contas. Jo estava sempre disposta a retribuir o que recebera.

Como os enormes olhos castanhos ainda a fitavam com uma certa cautela, ela se empenhou ainda mais no sorriso.

— Tive uma noite difícil.

— É a impressão que dá. — Ele também ensaiou um sorriso quando Jo alteou as sobrancelhas. — A arte consiste em perceber o que existe de fato, não é mesmo? E você parece exausta. Nao conseguiu dormir?

Vaidade era uma coisa que Jo não tinha. Deu de ombros e esfregou os olhos cansados.

— Quase nada.

— Devia experimentar aquela melatonina. Minha mãe jura que funciona. — Bobby agachou-se para recolher os cacos da caneca. — E talvez pudesse reduzir a quantidade de café.

Ele levantou os olhos, mas Jo não estava prestando atenção. Embarcara outra vez em uma de suas viagens, pensou Bobby. Um novo hábito. Ele quase desistira de persuadir sua mentora a levar um estilo de vida mais saudável. Mas decidiu tentar de novo.

— Vem subsistindo outra vez de café e cigarro.

— E verdade.

Jo começara a divagar, meio adormecida.

— Isso ainda vai matá-la. E precisa de um programa de exercícios. Perdeu quase cinco quilos nas últimas semanas. Com sua altura, deve ter mais peso. E tem ossos grandes... corre o risco de acabar com osteoporose. Tem de reforçar os ossos e fortalecer os músculos.

— Hum-hum...

— E deve procurar um médico. Se quer minha opinião, está anêmica, cada vez mais pálida... e podia levar metade de seus equipamentos nas bolsas sob os olhos.

— É muita gentileza sua notar.

Ele recolheu os cacos maiores e largou-os na cesta de lixo. Claro que ele notara. Afinal, Jo tinha um rosto que atraía atenção. Não tinha importância se ela parecia trabalhar tanto que o resto ficava em segundo plano. Bobby nunca a vira com maquiagem e ela sempre mantinha os cabelos penteados para trás e presos, mas qualquer pessoa com algum bom gosto podia imaginá-los a emoldurar aquele rosto oval, com os ossos delicados, olhos exóticos e boca sensual.

Bobby tratou de se controlar, enquanto sentia o calor espalha-se pelas laces. Jo riria se soubesse que ele sentira uma extrema atração quando fora contratado. E essa atração física era tão importante quanto a admiração profissional. Mas ele já superara a parte da atração... isto é, quase toda.

Mas não tinha a menor dúvida de que, se ela fizesse alguma coisa para realçar aquela pele cor de magnólia, acrescentasse alguma cor aos lábios generosos e acentuasse aqueles olhos de pálpebras compridas, seria deslumbrante.

— Posso preparar seu café da manhã — sugeriu ele. — Se tiver alguma coisa em casa além de barras de chocolate e pão mofado.

Jo respirou fundo.

— Não se preocupe. Talvez eu pare em algum lugar para comer. Já estou atrasada.

Ela saiu do banco e abaixou-se para recolher a correspondência.

— Não faria mal nenhum se tirasse alguns dias de folga, para se preocupar apenas com você mesma. Minha mãe vai para um spa em Miami.

As palavras de Bobby eram agora apenas um zumbido em seu ouvido. Ela pegou o envelope pardo com seu nome em letras maiúsculas. Teve de limpar uma camada de suor da testa. Havia um nó de medo no fundo do estômago.

O envelope era mais cheio do que os outros, mais pesado. Jogue-o fora!, bradou sua mente. Não abra! Não veja o que tem dentro!

Mas seus dedos já começavam a puxar a aba. Um som baixo de lamento escapou de seus lábios quando rasgou o papel no pequeno fecho de metal. E desta vez uma avalanche de fotos derramou-se pelo chão. Jo pegou uma. Era bem produzida, em preto-e-branco, doze por dezoito.

Não apenas os seus olhos desta vez, mas ela toda. Jo reconheceu o lugar, uma praça perto do prédio, por onde costumava passar. Outra foto mostrava-a no centro de Charlotte, parada na beira da calçada, a bolsa da câmera pendurada no ombro.

— Ei, é uma boa foto sua!

Quando Bobby se inclinou para pegar uma das fotos, ela deu um tapa em sua mão e disse, ríspida:

— Fique longe! Não toque em nada!

— Jo, eu...

— Fique longe de mim!

Ofegante, ela ficou de quatro no chão, mexendo nas fotos, frenética. Era uma foto depois de outra em que ela fazia coisas corriqueiras, da vida cotidiana. Como sair do supermercado com uma bolsa de compras, embarcar ou saltar do carro.

Ele está por toda parte, observando-me. Aonde quer que eu vá, o que quer que faça. Vem me caçando, pensou ela, enquanto os dentes começavam a bater. Vem me espreitando e não há nada que eu possa fazer. Absolutamente nada, a menos...

E foi nesse instante que tudo dentro dela desligou. A foto em sua mão tremia, como se uma brisa forte tivesse invadido o apartamento. Não podia gritar. Parecia não haver qualquer ar dentro dela.

Simplesmente não podia mais sentir o próprio corpo.

A foto fora produzida com extremo talento, a iluminação e o uso de sombras e texturas eram magistrais. Estava nua, a pele brilhando de maneira sobrenatural. O corpo fora disposto numa pose repousante, o queixo frágil baixado, a cabeça virada num ângulo suave. Um braço estendia-se por sua cintura, o outro por cima da cabeça, numa posição de sono profundo, povoado por sonhos.

Mas os olhos estavam abertos, com um olhar fixo. Olhos de uma boneca. Olhos mortos.

Por um momento, ela foi lançada de volta a seu pesadelo, desamparada, olhando para si mesma, incapaz de lutar para sair da

escuridão.

Mas mesmo através do terror, ainda podia perceber as diferenças. A mulher na foto tinha uma massa de cabelos ondulados, espalhados em torno da cabeça. E o rosto era mais suave, o corpo mais

maduro do que o seu.

— Mamãe? — sussurrou ela, apertando a loto com as duas mãos. — Mamãe?

— O que foi, Jo? — Abalado, Bobby escutou sua própria voz subir e descer, enquanto fitava os olhos vidrados de Jo. — O que está acontecendo?

— Onde estão suas roupas? — Jo inclinou a cabeça para trás, começando a balançar. Os sons mais variados explodiam em sua mente, incessantes, trovejantes. — Onde ela está?

— Fique calma.

Bobby deu um passo para a frente, estendendo a mão para pegar a foto. Jo levantou a cabeça, num movimento brusco.

— Fique longe! — A cor retornara às suas faces, um vermelho intenso. Alguma coisa que não era muito sã faiscava em seus olhos. — Não me toque! Não toque nela!

Assustado, aturdido, ele tornou a se empertigar, as mãos estendidas, com as palmas para a frente.

— Claro, Jo, claro...

— Não quero que você toque nela. — Ela estava fria, muito fria. Baixou os olhos para a foto. Era Annabelle. Jovem, de uma beleza fantástica e fria como a morte. — Ela não deveria ter nos deixado. Não deveria ter ido embora. Por que ela partiu?

— Talvez ela não tivesse outro jeito — murmurou Bobby.

— Não. Seu lugar era conosco. Precisávamos dela, mas ela não nos queria. Era tão linda... —As lágrimas escorriam pelas faces de Jo, enquanto a foto continuava a tremer em suas mãos. — Era a mulher mais bonita que já conheci. Como uma princesa de contos de fadas. Eu costumava pensar que era mesmo uma princesa. Mas ela nos deixou. Foi embora. E agora está morta.

A visão se tornou turva, a pele ainda mais quente. Jo comprimiu a foto contra os seios, enroscou-se como uma bola no chão e desatou a chorar.

— Venha comigo, Jo — murmurou Bobby, gentilmente, estendendo as mãos para levantá-la. - Vamos procurar ajuda.

— Eu me sinto tão cansada... — Jo deixou que ele a levantasse, como se fosse uma criança. — Quero ir para casa.

— Está bem. Apenas feche os olhos agora.

A foto escapuliu de suas mãos e flutuou até o chão, caindo sobre as outras, virada para baixo. E Jo pôde ler o que estava escrito no verso, em letras grandes:

MORTE DE UM ANJO

Seu último pensamento, enquanto a escuridão a envolvia, foi Sanctuary.




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