Sargento Getúlio



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Sargento Getúlio

João Ubaldo Ribeiro

Nesta história, o Sargento Getúlio leva

um preso de Paulo Afonso à Barra dos

Coqueiros. É uma história de aretê.




l
A gota serena é assim, não é fixe. Deixar, se trans­forma-se em gancho e se degenera em outras mazelas, de sorte que é se precatar contra mulheres de viagem. Primeiro preceito. De Paulo Afonso até lá, um esticão, inda mais de noite nessas condições. Estrada de carroça, peste. Temos Canindé de São Francisco e Monte Alegre de Sergipe e Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora das Dores e Siriri e Capela e outros mundãos, sei quantos. Própria e Maruim, já viu, poeiras e caminhãos algodoados, a secura fria. E sertão do brabo: favelas e cansançãos, tudo ardiloso, quipás por baixo, um inferno. Plantas e mulheres reimosas, possibilitando chagas, bichos de muita aleiva, potós, lacraias, piolhos de cobra, veja. Matei uns três infelizes assim, pelo cima de uns quipás, sendo que um chegou devagar no chão, receando os espinhos sem dúvidas. Assunte se quem vai morrer se incomoda com conforto. Fosse dado a sangria, terminava o vivente no ferro, porém faz um barulho esquisito e não é asseado por causo de todo aquele esguincho que sai. E dessa forma acer­tei um disparo no cachaço, procurando atitude para não esperdiçar munição. Inda xinguei por me obrigar a caçar pelessas catingas, arremetido naquela soaeira, estropeando as reiúnas novas naquelas catanduvas embaracentas. Só se vê cabeça de frade, macambira, catingueira e urubu. Nem ouviu mais o xingamento, amunhecou e esfriou. Trabalheira ordinária. Ia me fazer chegar aonde? Itapicuru? Vitória da Conquista? Sei lá. Não tem limites para a frouxidão que faz o homem dar nas ca­nelas e botar a alma no mundo, correndo do destino. A hora de cada um é a hora de cada um. O bexiguento lá estrebuchado, agora ancho nos espinhos, como se o chão fosse forrado de bar­riguda. Que diferença faz? Quem já viu o derradeiro tiro sabe como é. Aquela sacudida no corpo, uma estremidela de uma vez só. Depois os urubus, que a tarefa aí já não é mais de punição, é de limpeza. Urubu é o asseio dos matos, enxerga no minuto que alguém deixa de andar naqueles agrestes e fica rodeando como um esprito. Arrodeia assim, estralando o bico e ufeúfe nas asas, aqueles pulos penados, almospenados. Vai e revai e vai e vem. De luto. Deve ter um bafo notável. Sabe-se que o urubu novo nasce branco e depois empretece e se ver um homem vo­mita de nojo, dá enguios. Nós temos nojo deles, eles tem nojo de nós. Naqueles agrestes, quando todos caldeirãos se acham secos e as arribaçães escavocam a lama no caminho do rio, dá um silêncio importante. Só o mato que bate castanhola, assim vez por outra. Como gaiteiras, só que nesta feita no terreno sem mangues. Não existe bom que não tenha medo dos urubus, por­que a fome traz ousadia no bicho e ele achega-se perto, pulando pelo chão, de asa aberta e bicão exalando. É o dono do mundo. A língua deles se vê e se ouve o barulho dos pés, naquele passo arredondado que ele dá. E pode esperar que o homem vai ser comido numas beliscadas puxantes, aos arranques: o bicho es­tica para trás, arrasta pelo chão e engole com a cabeça para cima, tudo muito calado e despachado. O segundo cabrunquento se finou quase que do mesmo jeito, só mais conformado, fazendo rezas. Dizem que já estava mordido de barbeiro mesmo, morria assim ou assado qualquer dia, mas parecia cevado e sustante. Enfim, quem come jaca e bebe qualquer espécie de cachaça estupora, mas nas horas antes parece ótimo, até chegar o estupora-mento. Dizem, nunca vi. Porque na minha frente nunca permiti um cristão misturar indevidos, beber água depois de chupar cana, comer coco tendo tosse. A morte morrida enfeia e dá sentimen­tos porque é devagar, não é pacífico. Sempre digo, nas festas de rua, quando o povo se junta feito besta de um lado para o outro: olhe as galinhas de Deus. Porque é igual às galinhas do quintal. Quando menas ela espera, ali galinhando no copiar, ali ciscando bendodela com aquela cara de galinha, o dono pega uma, raspa o pescoço bem raspado e sangra num prato fundo, com um vinagrinho por baixo. Quando menas a gente espera, Deus pega um e torce o pescoço e não tem chororô. Mesma coisa. Meu São Lázeo, meu São Ciprião, não adianta nada, que o santo não tem prevalência no destino. A criatura se desmancha-se em elementes. Udenista, pessedista, qualquer. Amaro já viu muito cabra na agonia, não viu, Amaro? Não tem jeito, quando está dirigindo não gosta de prosa. Não ser quando dá bigu às raparigas. Não semos raparigas, pelo menos eu não sou rapariga, desculpe. Ôi Amaro, uh-uh Amaro, ô seu peste, quando um homem fala tu responde. Um dia desses com essa macriação algum macho lhe tira-lhe o fato fora, que tu só vai ter tempo de espiar as tripas, rezar meia salverrainha, um quarto de atodecontição e escolher o melhor lugar no barro para se ajeitar, e ligeiro ligeiro, que possa ser que antes de chegar já tenha ido. Ôi Amaro, inda mais que tu é frouxo por demasiado. Vosmecê sabe, esse apustemado é de Muribeca. Povo de Muribeca não presta, tudo tabaréu, lá não tem nada, não sabe vosmecê. Amaro, ou você fala ou eu me ferro. An-bem. Hum. Chu. Estrada de carroça, tudo desmazelado. Já botei muito cabra para correr assim na escuridão peluma estrada dessa. Casos menores, remédios outros. Temos dois tonéus na delegacia de Frei Paulo, para ser enchidos com lata de gás furada. O bicho entra na chave e pega a encher os tonéus, só que tem de correr, do contrário a lata desvazia antes, pois os buracos são muitos e coculados. Bóia, sarôios e macasadas, quando há, dormidas ou não, de acordo. Azeda no bucho e pode dar malinagem na barriga. Domingo, feijão como vem, folha de couve ou outra naquela água acastanhada, não petece mesmo, não é comigo não. Casos mais graves requer a expulsão do alguém. Meia libra de bacalhau cru quando haja, quando não haja possa ser jabá mesmo, gorda ou não, sem escaldo. Se­gue um copo de óleo de rício, esse gordo que chega as bolhas a se abrir em cima, recindendo mamona. Bem, criaturo: se fizer efeito no Município, estamos acertados, vai dessa pras profun­das. Quem diz? Arriba até mesmo de cavalo, achando cavalo, ou senão numa boa carreirinha, e vai se aliviar longe das divisas. De Barracão a Simão Dias, sei lá. Bosta derretida onde marquei terreno, isso não. Nunca. Dessas fiz diversas, que era para não fazer mal pior. Infeliz tem mulher e filho, geme como um bacorinho, o que é que se vai fazer? Necessidade é necessidade, passe bem eu e o meu alazão, a mulher parindo ou não. Cabo eleitoral dessa laia não merece respeito. Mesmo agora que eu perdi a autoridade, sempre fica o prestígio. Em Aracaju tenho as costas quentes e não é assim que Getúlio vai se ver de uma hora para outra. Principalmente depois de entregar vosmecê. Tem ambientes em Aracaju, gente a seu favor. Coisas. Não gosto desse serviço, não gosto de levar preso. Avexame. Depois que levar vosmecê lá, assento os quartos num lugar e largo essa vida de cigano. Só se doutor Zé Antunes pedir muito. Mesmo assim. Me aposento-me. Essa água está quente na garrafa, mas
está boa. Nunca beba água onde não pode ver o purrão. Se­gundo preceito. Lampião andava com uma colher de prata no embornal. Todo de comer enfiava colher. Se a colher empretecia, tinha veneno, isso porque o veneno descurece a prata, não sabe vosmecê. Morte certa para o dono da casa. Se não empretecia, dava até presentes, sortia bodegas, fazia felicidades. Muitas vezes ficava arreliado por qualquer coisinha. Trancou os quibas de vários na gaveta, jogou a chave fora e tocou fogo na casa. Não sem antes botar uma faca ao pé do desgraçado. No meu pensar, antes morrer queimado do que perder os quibas. A voz vai afinando, a barba vai caindo, se torna-se pederástio, falso ao corpo. Mas a maior parte preferia cortar os ovos do que virar coivara. Hoje em dia não se faz mais essas coisas. Vosmecê aturava uma dessas? Outra vez, Lampião amarrou a mulher de um juiz, não sei se em Divina Pastôra ou Rosário do Catete ou Capela, amarrou essa mulher desse juiz num pé de pau e botou nuazinha em pêlo. Mas já se viu uma mulher velha dessa com tanto cabelo nas partes? Ora já se viu que indecência? Nem das piores raparigas, que é isso assim? E assuntou em cima dos oclos assim e assado e acabou arrancando todos os pentêios do xibiu da mulher na frente de todos, tudo ali reunido por obri­gação, porque Lampião só fazia tudo na frente de todo mundo. Ruindade era ali, matava sem idéias. Resultado, cabeça cortada na Bahia, de exposição como chifre de boi brabo. Antes porém brincou de manja com a milícia de todos Estados e deixou a marca no mundo desde o tempo de Dão Pedro. Dizem, nunca vi. Bicho ruim não morre fácil. Ô Amaro, porventura onde es­tamos? Me avise-me quando chegar em Curituba Velha, arreceio tocaias. Pior da quentura, os bichinhos de asa vão entrando pela janela e vão se grudando no suor da cara. Espécie de animal pestilento. Em Buquim, aquela mosquitaria, que era ver. Buquim é Brasil? Porto da Folha é Brasil, com aqueles alemãos falando arrastado? Aracaju não é Brasil. Socorro não é Brasil, é? A Bahia não é Brasil. Baiano fala cantando. Necessário to­mar banho uma hora dessas. Quentura do crânico rodête. E esses bichos batendo na cara dum cristão. Me aposento-me. Uma casa em Japaratuba, que é lugar fresco e assossegado, junto do rio Japaratuba, que o único defeito é nascer lá naquelas brenhas de Muribeca, hem Amaro? E fico encostado, comendo caran­guejo. Assino a orelha dum par de cabras de leite e fico lá en­costado, jogando gamão. Doce de leite, hum? Chu. Vida mansa, não sabe vosmecê. E eu de vinte mortes nas costas. Mais de vinte. Olhando para mim, não se diz. Mas se eu não sou um homem despachado ainda estava lá no sertão sem nome, mas­tigando semente de mucunã, magro como um filho do cão, dois trastes como possuídos, uma ruma de filhos, um tico de comida por semana e um cavalo mofino para buscar as tresmalhadas de qualquer dono. Espiando o dia de São José, aquelas secas espóticas, nuncão. Aquela chuva que antes de chegar em baixo já está subindo de novo, de tão queimosa a excomungada da terra, lembra labaredas. Japaratuba é menos agreste. Compro um binoclo, na tenção de olhar as paragens. Gosto de binoclos. Mais de vinte nas costas, veja vosmecê, é como mulher, não se consegue lembrar todas. A primeira é mais difícil, mas de­pois a gente aprende a não olhar a cara para não empatar a obra. De perto demais não é bom. Se agarram-se na gente, puxam a túnica para baixo. Verdade que pouco estou de. farda, mas quando estou me aborreço que suje minha farda. Não gosto de estar com uniforme descompleto. Estradinha da moléstia. Não sei, talvez possa ser melhor comprar uma plantação boa, um sítio quieto. Mandioca. Interessante, é venenosa mas nunca vi ninguém morrer de mandioca, agora todo mundo sabe que é venenosa. Matar de veneno é porcaria. Conheci um cabo que bebeu tatu e se vomitou todo. Morreu feio, lançando arroxeado na cama. O terceiro que morreu na catinga não me lembro o nome. Um com a cara de peru assoberbado, um vermelho. Teve morte demorada. Bicho valente, reagiu de facão, de maneiras que tivemos de encher logo o couro dele. Assim mesmo, a bo­checha de Alípio tomou um corte medonho e ficou escancarada como duas folhas soltas. Ferida feia. Preciso comprar brilhantina assim que chegar numa cidade de gente. Quando vou à paisana, o quepe não está para assentar as grenhas. Alípio que­ria falar mas não podia, só assoprava com descontrole de vento. Donde se vê que a sede da fala também é parte na bochecha. Pouco sangue, só o bastante para lambuzar mais ou menos o pescoço. Aquilo como duas bandeiras, uma desencontrando da outra. Compro uma brilhantina cheirosa e mando aparar as costeletas. Alípio ainda acertou as tripas do udenista com a baioneta três ou quatro vezes. Maioria dos udenistas custam de morrer, se prende no ar como camaleão. Não ser as mulheres, que morre como qualquer, udenista, pessedista, queremista, intregalista ou comunista. Também não sei muito de mulher. A gota serena, a bexiga da peste. Dá de gancho. Tem quem tome a Saúde da Mulher, para purgar a reima. Sei não. Arde. Até noite essa poeira vai entrando e suja a camisa de amarelo. Amaro só anda ripado pela estrada, mas com esse caminho de carroça não se pode fazer mais. Vosmecê garanto que não tem pressa. Compro Quina Petróleo Oriental, como o Chefe usa e sai todo busuntado, passeando na Rua João Pessoa, de roupa branca e um lenço no bolso e dando aquelas paradas para con­versar e explicar a situação e depois sentando para tomar cer­veja e comer queijo com um molho preto em cima. Para mim o Chefe campa as mulheres da miuçalha toda, quando quer. É entrar naquela sala e sair galada. Para mim é isso. Quina Petróleo Oriental. Arre. Diabo de mosca. Mosca não se afoga. Menino, eu pegava as moscas e botava numa garrafa dágua, sacudia bem e quando abria lá vem mosca voando que nem está aí nem vai chegando. Resiste bem. O que me reta é que a gente enxota e ela vem no mesminho lugar que estava quando a gente enxotou antes. Agora, pode se pegar uma se botar a mão palmo e meio para o lado e passar a mão mais ou menos para cima, que é para pegar o vôo dela. Depois, jogando com força na parede, ela achata. Mas aqui não posso fazer, não dá posição. Quina Petróleo Oriental, já usou? Se eu alisasse o ca­belo, possa ser que melhorasse, mas para alisar tinha que ir num salão em Aracaju. Isso não, ia acabar fazendo uns buracos nuns camarados por lá, quando me olhasse resvalado. Aracaju é mais difícil do que no interior, cidade grande tem testemunha por demasiado. A política não é bom em Aracaju. Política de macho é aqui. Diacho, até potó dá aqui dentro, já viu vosmecê? Um saqüé desses verte água em sua cara e encalomba tudo, nunca mais sara. Amaro, nós dormimos no primeiro lugar aí, não agüento mais essa viagem. Diacho, até potó dá aqui dentro. Menino, pegava praga de mucuim na grama. Necessário untar o corpo de pó de enxofre com água e ficar quentando até a praga amainar. Fede como a desgrama e eu ficava todo coscorento e amarelo. Bicho ruim, mucuim. Cuidado quando deitar na cama, sempre se aprevina. Terceiro preceito. Por dormir de­sarmado morreu muito macho bom. Preciso comprar um rádio. Dá chique. O homem que matei na cama, matei a raça toda. Assassinato misterioso em Itabaianinha. Massacre de família. Essas alturas, todo mundo leso e eu dormindo em Arauá. Não gosto de jornal como vosmecê, acho difícil, muitas palavras. Menas verdades. Udenistas, comunistas. Comunistas udenistas. Partido Social Democrátio. Quando fomos apanhar o camarado dentro da casa da mulher dama, ele estava lá todo entupigaitado, de roupa de diagonal e gravata lustrosa e dando muita risada e parecia que era uma festa que ele estava. Tárcio arreganhou a porta e deu aquele grito da pega. Conheceu o finado Tárcio? Amaro conheceu, ô Amaro. Conheceu? An. Hum. Deu aquele berro que ele dava. Todo mundo eu pego e capo, gente! Vá desafastando, vá desafastando, vá desafastando e passando pela revisão da porta. Se viu-se foi rapariga naqueles pinotes miudinhos se enfiando pelas portas, debaixo da cama, todas partes da casa. Espetaram uma no muro do quintal, quando quis pular. Esqueci de avisar que o quintal estava cercado, tinha homem até no oitão, e tudo péssimo. No meio daquele baba todo, o homem querendo fazer discurso. Que significa isso? Que significa isso? Que significa isso, sargento? Senhor desculpe, senhor vai com a gente, mestre. A dona da casa falando carioca, parecia até coisa que prestasse. Tárcio segurou ela pelo quengo e jogou lá dentro. Pensa que calou a boca? Ficou lá saturando a paciência, de maneiras que Tárcio foi e arregalou o olho cego em cima dela e soltou um bafo nela: não arrelia, mulher dama! Já se viu mulher dama ter querer, onde já se viu. Quando o diabo não vem, manda o secretário. Essa carioca sibite, acos­tumada a ver todo bichinho ximando o rabo dela. Sai, sai. Vasta, puta! Não é que vastou e mordeu a brida e Tárcio ainda arre­galou cego outra vez pelas grimpas dela e a putarreles ficou desencalmada. Aquele olho branquicento de Tárcio matou muita gente do coração, quando ele se aporrinhava aparecia também umas aveias vermelhas, era assombrado. O Chefe disse: me traga esse homem vivo, seu Getúlio. Quero o bicho vivão aqui, pu­lando. O homem era valente, quis combate, mas a subaqueira dele anganchou a arma, de sorte que foi o fim dele. Uma para-belada no focinho, passarinhou aqui e ali e parou. Foi manso, manso, de beiço quebrado. Tárcio queria logo passar uma má­quina zero no cabelo dele, mas não pôde ser. Era só questão de dar umas porretadas de ensinamento, não era como quando fomos quebrar o jornal comunista. Essa quebra ninguém man­dou, mas o jornal aporrinhava o Chefe, de sorte que um dia foi queimado e faltou água para os bombeiros. Não sobrou nada e tinha um comunista chorando na porta. Cabra frouxíssimo. Sem dúvidas baiano. Magro, sem sustança, devia de chorar assim de fraqueza. Todos casos, queimou está queimado, não sobrou nem tição para acender meu liberti. Foi o fim dos udenistas co­munistas, ô gente mofina só é comunista, embora estime a perturbação. Na hora que arrocha, se vão-se todos para cachaprego. Levei diversos. Luiz Carlos Preste, Luiz Carlos Preste. Faziam mítingue na praça Pinheiro Machado gritando isso e uma vez pertubaram toda a rua da Frente, não deixaram nin­guém passar. Não teve gueguê nem gagá. Seu Getúlio, me com­preenda uma coisa, me desça o pau nessa corja. Eles lá muito monarcas no distúrbio e nós destaboquemos pela praça Fausto Cardoso e casquemos a lenha. Cambada de cachorro, não acha vosmecê. Não teve essa cabeça boa, na hora do derrame de ca­valaria, que ficasse livre da bordoada. O jornal, depois o Chefe botou no outro jornal que os intregalistas era que tinha quei­mado. Prender os intregalistas, seu Getúlio, que é para eles aprender a não queimar o jornal dos outros. Me traga essa gente toda, pelo amor de Deus. Fomos buscar e daqui a pouco estava assim de intregalista na frente da gente. Bonita coisa queimar o jornal, bonita coisa queimar o jornal dos comunistas. Entrou tudo na Chefatura, reclamando, reclamando, ah porque não foi eu que queimei o jornal, ah porque isso não pode, ah porque não sei o quê, ah porque o pai dele é importante e vai soltar ele e essas coisas. Marchou tudo para dentro, abriram inquérito. Por mim, estava tudo lá até hoje. Essa gente não presta. Che­garam na casa do Chefe e avisaram, quer dizer, um caguête avisou que vamos pegar o homem em casa, se não tiver pega­mos a mulher do homem, se não tiver pegamos o filho. Veio força armada da Bahia, botaram cachorro, escondemos o me­nino e se dispomos por baixo dos oitizeiros da praça, pela riba do palanque, em cima da piçarra. Estava uma guerra. No alpen­dre, botemos eu e Tárcio, segurando duas máquinas engraxadas, das tinindo, novas, novas. Era entrar, era ser varado, sem uma nem duas. E a gente estava pronto para passar uma piaçaba de bala naquela praça, ô festival, hem Amaro? Aquilo quando estava silêncio, chega se ouvia quase as armas respirar e um ar pesado, virgem. Amaro viu, ih, estava lá se borrando nas calças, carregando um cano curto. Ô Amaro, revólver atira sem homem? Quem nasce em Muribeca é muribequense, hem Amaro? Ah-ah. Muribequino ou muribequeiro? Esse Amaro, ôi Amaro. Chofer bom está aí, a mão firme. É quem dirige o estudebêque do Chefe nas horas de maior precisão. ele e Batista, mas de Ba­tista não gosto, vosmecê conhece? Pois a gente estava ali com os cotovelos no balaústre, assuntando se vinha a invasão, só que com a cabeça para dentro, que era fatível mandarem um balaço lá da rua do Cedro e ninguém semos passarinho para o outro vir atirar assim sem mais. Tárcio saía de vez em quando, com a cabeça para cima por causo do olho cego e ia pegar um salame na bodega de Zé Corda, às vezes bolacha de goma, que ele gostava, uma garrafinha de jade, coisa assim. Eu não. Plan­tado ali. Mas a udenê — veio vosmecê? assim veio ela. Sabia que o pecidê estava pronto para qualquer política que viesse e podia vir como viesse. Isso em Aracaju, porque se fosse no in­terior a gente fazia com eles o que eles fizeram em Ribeirópolis, aliás sei que vosmecê tem parte nisso, quando eles até fogo em bezerro vivo tocaram e espalharam sal na terra e inda por cima arrancaram as portas e janelas das casas das famílias e botaram um homem em cada buraco, espiando para dentro. Isso eles não se alembram de contar. Mas ali não apareceram para o cerco do mais danado da política, naquele aceso, ia ser uma mortan­dade. Tinha boas mãos e dispostas, uma roda de chumbo. Mas não apareceram. Aparecesse, chovia ferro. Cristiano Machado, o homem é Cristiano Machado. Brasileiro. Presidente é presi­dente. Udenista é udenista. Talvez possa ser melhor, em vez de Quina Petróleo, Brilhantina Glostora, porque gosto mais do cheiro. Se lembra do preto Ramálio, Amaro? Esse vou dizer a vosmecê, esse era ladrão, esse não valia nada, teve sorte mere­cida. Amarraram atrás dum carro e arrastaram pelai. Os restos jogaram no apicum. Preto ruim, baiano. Preto e baiano não dá certo. Pois usava Glostora o infeliz, veja como era desassuntado. Vou aparar essas costeletas. Homem era Froriano. Dizem, nunca vi. Quantos anos tem não sei. Todo Peixoto é macho. Isso os antigos sabem. É Leite, é Sobral, é Prata, é importante, tem isso também. Vieira é que é um nome ruim. Mas já se viu que quentura tirana do estupor balaio, vosmecê não sente? Bom é de manhã na serra, quando a cerração ainda não se levantou e no que se fala sai aquela fumacinha da boca. ô mestre, ou então, hem Amaro, ou então ver a cana florindo em Riachuelo, dando umas parenças com o mar lá em Aracaju. É aquela ata­laia de cana que só vendo, tudo tudo envergada pela viração. Isso de cima dum morrinho, porque de baixo, pela estrada ou pelo caminho, parece umas vassouras desinvertidas, umas vas­sourinhas, e fica aquilo louro, louro. De manhã é o melhor, o mato ainda está quieto, sem as bichadas e as caças rebuliçando. Tenho uma irmã que ficou no barricão, e hoje vive na janela com as outras vitalinas lá em Vila Nova, que gostava de ver cana na floração. Foi ela que me ensinou, porque antes eu não via, passava desprecatado. Assim agora eu gosto e quando é tempo e eu tenho tempo, espio muitíssimo. Bom café, cigarro e muito sossego, já sem vontade de quedar na rede, mas gos­tando muito das coisas. Dá para pensar na vida como se não tivesse nada para dar apuquentação. Mas é só, porque com pouco o sol esquenta e com a quentura o mato fica todo vivo de bichos e coca e desconforta a vida. Peste, não existe lugar para morar. Usina de açúcar é bom, ninguém tira um cabra de lá. Não gosto disso, não sabe vosmecê. Ninguém entra numa usina para tirar um cabra. Não gosto disso, é contra a lei. Devia ser contra a lei. Por que o homem tem o direito de passar a vida corrido, atocaiado numa usina? É previlege. Mas agora pensando na vida, me vem na idéia o pão de Inhambupe. O pão de Inhambupe é especial. Já comeu? Amaro já. Não já? Hum. Chu. Que pão. Inhambupe é na Bahia, mas não é na Bahia. Quando chegar numa cidade, também engraxo as botas. Quando cheguei em Aracaju, antes de botar farda, fui engraxate. Era meninote, sem preocupação muita. Brigando só para malinar, briguinha besta. De baleadeira também se mata, bem pensando. Dizem, nunca vi. Só fogopagou. Possa ser que eu precise ir no médico, estou sentindo umas pontadas na caixa. Não sei como é que tem um sujeito que passa a vida apalpando as partes dos outros. Profis­são é profissão. Não gosto de médico. Nunca atirei num médico. Ou já atirei? Não me lembro. Sinimbu dizem que era médico em Pernambuco. Agora é finado, pronto, não é médico nem em Pernambuco nem em Petrolina. Nem no Maranhão, nem lugar nenhum, nem no fiofó de juda. Bicho seboso. Deram um banho de capuco de milho no cadave, esfregando bastante, se bem que nunca avermelhasse, porque cadave não avermelha, só fica lá parado ali, endurecendo. Ninguém não repara defunto sujo, veste a roupa de votar, enfia dentro, acabou. Coveiro, profissão mi­serável. Todo paraibano é coveiro. Paraíba é Brasil. Arrenego dessa peste dessa poeira, capaz de deixar a gente endefluxado. Uma desgraça, assoando o nariz só sai barro, como se fosse. O caso é tomar um conhaque de alcatrão. Veja vosmecê, trazer vosmecê de Paulo Afonso, puro Estado da Bahia, até aqui esses confins, uma viagem pequena até agora, se não fosse essa ben­dita bosta dessa estrada de carroça, já estou todo sujo e escor­rendo lodo pelas drobas do pescoço. Imagine o finado Caval­canti, que trouxeram de Paulo Afonso numa assistência que era mais marinete do que assistência, com vinte e seis rebites no corpo, em diversas posiçãos, e o bicho ainda chegou vivo em Aracaju, golfando sangue e tiveram que tirar sangue de uma porção de gente e botar nele. Vinte e seis buracos na carcaça e o bicho rebatendo a morte com toda a raça, feito galo de briga. Vosmecê não acredito que tenha visto um homem resis­tindo da morte, porque o que me dizem é que vosmecê manda, não faz. Está direito, na sua posição. Mas veja, quando o homem resiste da morte não tem visagem mais assombrada. Quando o adjutório chega na hora e alcança o homem em vida, se vê-se o peito subir e descer e as bufas da agonia e aquela ânsia e aquela briga e a cabeça se revirando e as mãos se encrespando. Quem nunca viu não sabe o que é. Tem quem diga que a morte é calma. Tem quem diga que dá até paz, como num descanso. Só se fôr depois, porque na hora o sofrente arregala as vistas e se segura no que achar, como quem se segura na vida. E se revira e range os dentes e levanta a cabeça e puxa o ar e busca conversa e espia os lados e fica retado porque todo mundo não está indo com ele e arroxeia os beiços e faz que se senta e se esfrega em tudo e se baba e se bate dos lados e olha duro para as pessoas e dá gofadas e fica com pena dele mesmo e estica as pernas e se treme todo e faz cara de medo e se destorce e faz barulhos e se bufa e se borra e grita e pensa naquilo que nunca fez e pede a Deus nas alturas e chuta o vento e estica a roupa e incha o peito e no fim faz uma força e revira os olhos de modo medonho e dá um arranque para cima e vai embora no seu caminho, que o dia de nós todos vem. A hora de cada um é a hora de cada um. Mas ninguém gosta de ir, isso é con­versa de padre. Qualquer perigo na terra, alguém já viu e pode contar como é. Lá quem viu não pode contar, é um despreparo. Quem quer ser passado nas armas? Vosmecê quer ver que já viu um derrame de cavalaria, quando o sabre é permitido, para bater com a lâmina nos quartos da raça. Num cavalo árdico, passarinheiro, com as patas no vento. Rinchando bruto. E lá vai pata, que ninguém é meu irmão preu alisar. Em Buquim, fize­mos uma tocaia amuntados uma vez. Pega-se por primeira o derradeiro, como caça. O primeiro fica para a segunda descarga. Eu, como não gosto de arma despalhafatosa, levei o meu chimi-te, mas Tônico levou a metralhadora anã e passou e não foi bom, que os miolos se desminliguiram-se e saiu pedaço de queixada e foi lasca de homem por tudo que era lado, igual a quando mataram um certo alguém aí em Itabaiana Grande. As ordens que vieram era: não encosta no corpo. Mas mal corpo havia, aquilo é uma espirrada que desparrama sangue por todo canta e não deixa nada inteiro. Tônico gostava, era mais pistoleiro do que político. Eu sou político, não mato à-toa. Tônico atira dando risada, é feio, porisso tem umas cens juras de morte em cima dele. Chamado mão de onça porque não treme a mão na gaguinha, só franze a testa e morde o beiço e segura de com força. Aponta assim para a frente e guenta firme com toda a sacudida, mesmo a bicha puxando para a canhota como de costumeiro, papocando uma bomba de um cruzado atrás da outra. Em Sal­gado, nessa feita, a perícia foi da capital, parecia uma procissão, e todo mundo falando meio nuns cochichos e encapotado, es­tava fazendo uma friagem muito grande e estava cheio de gente na rua, naquelas horas mesmo. Eu ainda estava lá, metido na japona preta e quando os homens chegaram pulei na frente: pronto, meu chefe. O médico me disse: sargento, arranje um homem para catar o cadave. ele nem sabia que era dois cadaves, não era um cadave só. An-bem, não se conhecia direito, tudo embolado naquela porqueira toda, uma sopa. Mandei dois ho­mens ajuntar tudo, mas não ficou um serviço perfeito, tinha dado formiga nuns pedaços e os miudinhos elas carregaram e o resto era assim das bichas. O doutor disse: sargento, como não tomou conta dos corpos e deixou as formigas levar os pedaços e está assim essa vergonheira que depõe contra; e porque tal porque vira, não está direito, aviu; e porque assim depõe contra, aviu; e eu respostei, de perfil: mas, excelença, ou bem olhava as for­migas ou bem dava uns tiros nuns tatus, tatu é doido por cadave. E tinha um par de pebas solto por ali, naquela carreirinha de tatu. Pior era se os tatus comesse. Tinha acertado mesmo um tatu, que estava lá estirado, muito mais inteiro do que os dois cabras, que o tatu foi eu que acertou, não foi Tônico Mão de Onça. Esse tinha fincado o pé na piçarra faz tempo. O Chefe veio, o enterro foi concorrido, comemos o tatu de ensopado. Seu Getúlio, o senhor não vai me deixar ninguém mais vivo em Sergipe, assim não podemos. Udenista safado, eu disse, e cuspi no chão a mascada que estava na boca. O Chefe deu uma gai­tada daquelas surdas, espiando o chão, com a biqueira cavo-queando. Dei a ele um passo preto que eu mesmo ceguei, nessa data, que até hoje ele tinha, se não desse para um amigo que visita ele de vez em quando, e que eu não gosto. Tem a cara de sariguê. É o tipo da testemunha, não vale nada. Moléstia de estrada, e eu que pensei que já tinha passado o tempo que eu levava caminhão e mais caminhão de eleitor por essas bandas para votar, veja vosmecê. Uma vez quiseram me tomar um ca­minhão de eleitor na bala e foi um tiroteio besta. Perdemos dois votos no baba, porém eles perderam mais, em gente já paga e contada. Povo brabo. Sergipe é um sertão só, mesmo que não seja.

Vosmecê me desculpe, mas desafaste dessa porta. De fato, essa é a metralhada, de maneiras que não abre de jeito e qua­lidade. Mas via das dúvidas não encoste, que vosmecê eu tenho responsabilidade. Vosmecê me desculpe eu ficar prosando o tempo todo. É para não dormir. Não sei nem o que eu estou falando, ou o que eu estou pensando. Quando estou pensando, estou falando, quando estou falando, estou pensando, não sei direito. Vosmecê não precisa responder, apesar de que é falta de educação. É como assim: se eu dormir, vosmecê faz por tirar a minha arma, me acertar, dar um tiro no toutiço de Amaro e se enfiar pelos matos até achar guarida. Enquanto isso, eu aqui prosando, como se vosmecê fosse meu compadre e a gente ti­vesse na beira do batistério. An-bem, não posso dizer que fosse do seu gosto conversar comigo, pois se vosmecê, se eu cochi­lasse, me sacava a garruchinha de fé e me socava um balaço nas fontes. Agora, eu também, se acordasse antes, com o puxavão da arma, com a mesma arma lhe brocava o crane e não me in­comodo se vosmecê me diz que tem ginásio. Se alembre: se em vez de lhe buscar em Paulo Afonso com todos cuidados e lhe trazer nessa viagem tirana da peste, peste, peste, peste! merda, Amaro, segure esse porra desse hudso que este pai dégua se desmantela-se! se em vez de lhe trazer eu lhe passasse o aço e lhe carregasse a cabeça dentro dum bocapio o que ia ter era muita sastifação em todo Estado de Sergipe, seu bosta, digo mesmo, bosta, bosta, seu cabeça de bosta, coração de tolôco, filho dum cabrunco! olhe o desgramado, espie aí, Amaro! fugir pra Paulo Afonso, ora fugir pra Paulo Afonso, fugir pra Paula Afonso feito uma vaca, bexiguento! fugir pra Paulo Afonso, pra Paulo Afonso, ia nos infernos, viu, cão da pustema apustemado, lhe faço uma desgraça, pirobo senvergonho, pirobão sacano, xibungo bexiguento chuparino do cão da gota do estupor balaio, mija na vareta, tem ginásio, tem ginásio! nunca vi ginásio fazer caráter, não responda porque é melhor, lhe meto a cabeça num bocapio e deixo o resto com os guarás, cachorro bexiguento, está pensando o quê, agora responda, capão do rabo entortado, peste! capão da peste, tiro um cunhão seu fora nesse minuto, para lhe ver amotinado e roncolho em Ribeirópolis daqui a pouco, nego fujão, fidumaégua, fidumavaca, fidumajega, viado corredor, peste, peste, peste, peste! lhe como a alma, está pen­sando! lhe tiro o figo, está pensando, ora fugir para Paulo Afonso, amisiado com mulher dama, adeus mestre, ora taí, Amaro, homem creia! Não se enxira, Amaro, quando a cabeça esquenta o melhor é deixar refrescar. Tu tem curso de ginásio, Amaro? Que eu sei, você andava lavando a escada do Ateneu. Se lavar escada do Ateneu dá ciência, você vai bem. Pergunte a esse co­munista daqui, esse maricão estrumado, esse capadócio desse udenista, esse peste ruim! pergunte, mas não vá pensando que ele responde, que ele não responde. Só fala com doutor, mas está aí de beiço tremendo como rabo de largatixa, com medo que eu dê um fim nele agora. Dou mesmo, peste! Ah-bom. Chô! Uh! Cabra ruim, se encolha, se encuruguje aí mesmo, que seu lugar é aí. Desencoste da porta, cara de cacêta! Sai! Dou umas porradas nesse peste, Amaro? Garanto que, na hora de apertar o gatilho para matar uma família toda, nem pensou. Valente que fazia gosto, todo desfricotado, todo muito de macho, todi-nho um cabra de Lampião, ah cafetino desterrado, pistoleiro de" meia pataca. Agora me diga. Se mijar nas calças, corto o ver-galho fora e pico cimento em cima, estou avisando. Sua sorte é que vão querer julgamento, tem jornalista a seu favor, está um sistema. Por mim era trancha, cabeça no bocapio, entrega em-brulhadinha, com papelotes. Agora, pegando menos de trinta, vai você, promotor, juiz, adevogado, não tem esse. E pegando mais de trinta, quando sair morre também. Sua vida faz uma volta, entra e sai no mesmo fim. Amaro, a gente dorme em qualquer lugar que tenha uma casa perto. Me ajude a atar esse peste num pé de pau. Suas necessidades faça amarrado mesmo.



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