Saudade da Maloca



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Saudade da Maloca”: representações e

rememorações no centenário de João Rubinato
Vandré Aparecido Teotônio da Silva

Mestrando em História Social pela Universidade de São Paulo, bolsista CNPQ.



vandreteotonio@yahoo.com.br



  1. João, Adoniran ou as duas coisas?

No programa Ensaio, MPB Especial de 1972, estreava na TV Cultura um tipo já muito conhecido dos telespectadores: o paulista Adoniran Barbosa. O programa, dirigido por Fernando Faro, inovava no modo de apresentar o artista ao público: um cenário semi-iluminado e composto por closes fechados colocavam o artista numa rodada de música, perguntas – que eram feitas pelo diretor longe do microfone, causando ao espectador um silêncio dramático do entrevistado – e de construção autobiográfica (CAMPOS JR., 2009, p. 465). Adoniran, após inaugurar sua participação com o samba Filosofia, de Noel Rosa, que não por coincidência, a mesma canção que estreou no rádio como calouro, se lança na empreitada de recontar sua história de vida:


Eu nasci em Valinhos, nasci em mil novecentos e... Não, que vê o negócio? Eu nasci, eu nasci em doze, né? Mais pra mim trabalha, depois que me arranjaram um “batistério”. Sabe o que é um batistério? Pois é, antigamente isso era batistério, hoje é atestado de nascimento, antigamente era batistério. Como tinha sido em dez para ter dois anos mais pra trabalha, compreende filho? Que na fábrica não aceitava com dez anos, só com doze, então arrumaram um de dez pra mim pega o basquete logo cedo, entendeu? Aí que é o “buzílios”, entendeu?1
Adoniran, que antes de tudo é João, vivendo mais um momento de redescoberta, em suas sazonais idas e vindas aos palcos da fama – assunto que trataremos futuramente – recria e reorganiza sua história de vida a seu bel prazer: era comum “dar diferentes datas de seu próprio nascimento” conforme a ocasião (MUGNAINI JR, 2002, p. 11). Não só a data de seu nascimento era alvo de sua eterna reconstrução de sua própria memória, mas fatos, histórias, lorotas e demais devaneios eram o recheio que dava liga a sua narração descompromissada. Na entrevista acima, Rubinato reconstrói não somente seu passado, mas o justifica com um cenário coerente que ateste sua posição individual no mundo: o salto do nascimento para o mundo do trabalho, confirmado por um possível atestado falsificado.

Essas narrativas, um (re)construir a si mesmo, muito comum nas falas de Adoniran, está relacionado ao seu próprio fazer artístico: sua experiência múltipla nos mais diversos meios de comunicação – do rádio ao cinema, passando por circos, TV e palcos – onde atuou vezes como cantor, ator, radialista, diskjoquéi ou compositor. Suas múltiplas experiências requerem uma análise igualmente prismática para entender as contribuições de João/Adoniran na cultura popular brasileira.

Para Francisco Rocha, ao analisar o artista e parte da obra de Rubinato a partir de seu “estar” na cidade e seus mecanismos de “reapropriação” da mesma através de seu fazer poético, “(...) o agir e falar que integram a história protagonizada por João Rubinato estão nitidamente sinalizados na trajetória e obra do artista Adoniran Barbosa. Não como um movimento de simples transcrição do vivido, mas como um gesto de criação, de inventividade” (2002, p. 21). Assim sendo, Adoniran e Rubinato se fundem, se confundem e nutrem uma construção de uma memória onde a criatura devora o criador. Os traços dessas memórias, todavia, acabam colocando em evidência determinados signos acerca da vida e obra de Rubinato: a permanência de seu papel como compositor do samba paulista e a diminuição, comum em biografias, de seu fazer artístico em outros campos da arte. Nesse caso, há não somente a predominância da imagem do sambista, mas também do personagem “Adoniran Barbosa”, deixando de lado, em muitos casos, outros caminhos tomados por Rubinato para alcançar os holofotes.

O ano de 2010 será marcado pelas comemorações do nascimento do Adoniran Barbosa. São Paulo, palco de suas criações e personagens, se transforma, ao longo deste ano, em lugar privilegiado de celebração, requisitando para si a figura do sambista Adoniran. Todavia, em tempos de seu centenário, é pertinente questionar: o que se rememora de João/Adoniran? Quais permanências oriundas desses processos de reconstrução da história de vida deste múltiplo artista?

Para responder essas questões, se assim for possível, devemos levar em conta que Adoniran Barbosa é, antes de tudo, João Rubinato. Partindo deste princípio, objetivamos repensar os processos de rememoração e celebração do centenário do múltiplo artista João Rubinato, poeta da cotidianeidade paulista que, tanto para fazer samba, como atuar ou narrar, se vale de elementos das ruas, dos botequins e das conversas fiadas. Deste modo, tal análise e exercício de rememoração irão possibilitar novos caminhos para o entendimento do papel de personagem tão cortejado no cenário musical brasileiro.

Em resposta à pergunta proposta no título de início, nada mais definidor da imagem do sambista do que as palavras do crítico literário Antônio Cândido, “talvez João Rubinato não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa” 2.





  1. O milionário criador de tipo radiofônico”

Nos idos de 1930, João Rubinato passa por uma verdadeira repaginação em sua vida: troca de profissão, de cidade e assume um novo nome.

No mundo do trabalho, iniciado ainda na infância, João irá exercer os mais diversos ofícios: varredor, carregador, encanador, mascate, garçom, tecelão, pintor de paredes, serralheiro, metalúrgico e, já em São Paulo, vendedor de tecidos na Rua 25 de março. Nas palavras de Adoniran, “eu já fiz de tudo na minha vida (...) menos ladrão, só não roubei” (ROCHA, 2002, p. 22-23). Esse mosaico de labores marcam a infância e adolescência de Rubinato, influenciando sua arte, esta marcada pela diversidade de produções culturais nos mais diversos meios.

João Rubinato irá sair da vizinha Santo André, em 1932, para desempenhar um novo ofício: um emprego indicado pelo cunhado como vendedor de tecidos na Seabra & Cia. Morando em uma pensão nas proximidades, cotidianamente o jovem João irá entrar em contato com uma rede de sociabilidade que se estende dos botecos do centro de São Paulo às rádios. Essa rede, construída nos intervalos do almoço e depois do expediente, alimentava as esperanças de João em entrar no mundo artístico. O caminho mais certeiro era o Rádio.

Sua estreia nas ondas hertzianas será no Programa de Calouros, da rádio Cruzeiro do Sul, em 1934. Após alguns programas e persistência, consegue chegar até o final da música sem ser “gongado”. No entanto, sua voz, longe de se assemelhar ao padrão dos cantores da época, é considerada “boa para acompanhar defunto” (MATOS, 2007, p. 116).

Para se ter uma ideia, na década de 1930, Adoniran Barbosa, já assumindo sua nova personalidade, irá transitar em diversas rádios (Cruzeiro do Sul, São Paulo, Fontoura, Cosmos, Bandeirantes, Educadora e por fim Record), contudo, não será compondo que se firmará profissionalmente:

Os caminhos tomados por João/Adoniran nas rádios, concomitante à sua produção musical – como, por exemplo, em 1935, quando vence o concurso de marchinhas de carnaval da Prefeitura de São Paulo com a marcha Dona Boa – serão trilhados na execução de diversos papéis no humorismo. Em 1936, o múltiplo artista Adoniran Barbosa irá estrear no universo do riso em programas como Teatro Alegre, na rádio Cruzeiro do Sul, Sossega Leão, na Cosmos em 1937, Só... Riso, em 1938 na Bandeirantes, Brincando no Ar, em 1939 na Educadora, e por fim, quando sua volta para a Cruzeiro do Sul, em 1940, como comediante no República dos Estudantes. Quando em 1941, é convidado a fazer parte do quadro de humoristas da “Maior”, como se autonomeava a Record na época, irá desempenhar os mais diversos tipos humanos em programas como PR Gessy, Buraco da fechadura da história, Barbosadas do Barbosa, Sitio do bicho de pé, Palmolive no Palco, Serões Domingueiros, Universidade Record, Escola Risonha e Franca e, o mais popular de todos, História das Malocas (MATOS, 2007, p. 118-119).

Será na Record, segundo Celso Campos Jr., quando ocorre a entrada de Oswaldo Moles como diretor de programação da emissora, que os personagens de João Rubinato, incluindo na lista o próprio “Adoniran Barbosa”, irão ganhar popularidade graças ao programa Casa da Sogra. Para o autor, “boa parte do êxito de Adoniran no contato com os espectadores se devia a proliferação dos programas de auditório nas rádios de São Paulo” na época (2009, p. 122). Nessa fase de muito trabalho e pouco dinheiro, Rubinato se virava em mais de 16 personagens, participando de diversos programas humorísticos, seja atuando, cantando ou fazendo propaganda3 (MATOS, 2007, p. 120).

A experiência como rádio-ator, mesmo que não lhe rendesse o retorno financeiro esperado – causa de inúmeras mágoas que o artista não cansava de repetir em entrevistas – lhe rendia fama. Seus personagens, popularmente conhecidos, traziam consigo elementos que permitiam uma fácil identificação com o ouvinte. Se enumerássemos, perderíamos a conta: Charutinho, Mata-Ratos, Dr. Sinésio Trombone, Moisés Rabinovitch, Dom Segundo Sombra, Barbosinha Mal-Educado da Silva... A lista se estende. Chegando ao ponto da revista It, em 1946, chamá-lo de “o milionário criador de tipos radiofônicos” (MUGNAINI JR., 2002, p. 56).

Esse período, anterior ao sucesso de sambas como Saudosa Maloca (1951) ou o conhecidíssimo Trem das Onze (1965), demonstra que embora boa parte dos estudos se concentre em suas canções, a intensa e variada atividade artística empreendida pelo ator Adoniran Barbosa dialoga com suas futuras composições. Entre os anos de 1930 e 1950, firmando-se como ator na rádio Record, João Rubinato verá a popularização de seu “Adoniran Barbosa” não como compositor de sambas, muito menos como cantor, e sim, como “cartaz” de destaque no rádio paulistano. Deixado de lado pelos estudiosos, o “Adoniran das rádios” é esquecido, ou melhor, posto em segundo plano, criando um plano acabado de se ver o artista. Acaba-se firmando a lógica simplificada da imagem Adoniran-samba-composição em detrimento de suas múltiplas experiências no campo da atuação e da comunicação4.



  1. A construção de um sambista

Em boa parte da bibliografia sobre Adoniran Barbosa, que não é extensa, é lugar comum a identificação e o fortalecimento de determinados símbolos atrelados à figura de compositor: sua consolidação, já nos anos 1950, como autor de sambas5. Embora seja pincelada sua atuação como rádio-ator, fundamental para o entendimento de seu fazer artístico, inclusive no samba6, fica a desejar a compreensão de sua participação em programas humorísticos, propagandas, novelas, cinema e artes circenses. Tal como essa “figura” múltipla que se apresenta, Adoniran Barbosa é digno de uma análise mais abrangente.

Segundo Flávio Moura e André Nigri, Adoniran Barbosa “era o samba em pessoa”. Para os autores, a figura de Adoniran Barbosa se consolida com seus sambas, pois esses “assumem, na medida em que se ocupam antes em retratar o mundo suburbano do trabalho do que o mundo marginal da malandragem e da boêmia” (2002, p. 148). Nesse caso, há certa separação do ator-locutor-humorista do compositor. Em alguns casos, suas experiências de vida, seja nos meios radiofônicos, cinema7 ou televisão, são colocadas como elementos que irão apenas influenciar, de modo tangencial, o fazer artístico de João Rubinato, ou quando muito, servem apenas como espaço para autoexibição de Adoniran Barbosa enquanto compositor. Em não poucos trechos, a participação de João Rubinato em produções artísticas, que não a composição, é posta em segundo plano, pintando, deste modo, um Adoniran Barbosa na busca constante pelo sucesso através da música, que muitas vezes se apresentava como passageira ou minguada e nunca como fruto das trocas e experiências vivenciadas por Rubinato nos mais diversos meios artísticos.

De modo mais direto, Bruno Gomes na obra Adoniran: um sambista diferente, como o próprio título sugere, constrói a trajetória de João Rubinato a partir do samba. Embora o autor ressalte “a atração especial de Adoniran pelo teatro”, não há uma real preocupação na análise de sua atuação em outras mídias e formatos, onde reafirma, quase que como num “destino manifesto”, seu papel como “sambista”, pois, segundo o autor, “seu coração estava afinado com o samba”, construindo, deste modo, um Adoniran Barbosa exclusivamente ligado à composição, um Adoniran essencialmente “sambista” (1987, p. 30 e 35).

Por outro lado, demais autores, especialmente biógrafos, tentaram expandir suas análises para além de um Adoniran sambista. Este é o caso de Ayrton Mugnaini Jr., na obra Adoniran Barbosa, dá licença de conta, e Celso Campos Jr., em Adoniran: uma biografia.

Na obra de Mugnaini, rica na coleta de informações e contendo um índice completo da múltipla produção cultural do artista João/Adoniran, o autor proporciona uma construção da memória de Adoniran Barbosa de modo mais abrangente: “Adoniran pode ser considerado, conforme a ocasião, sambista que atuava ou ator que compunha sambas” (2002, p. 11). Contudo, mesmo objetivando uma análise mais diversificada da obra de Rubinato, não há preocupação por parte do autor em inter-relacionar sua produção artística como um todo de sua produção musical. As fontes utilizadas, maioria esmagadora, são sempre as composições. A participação no rádio, na televisão ou no cinema, embora citadas, não figuram seu foco de análise: a preocupação sempre recai em sua “consagração” no panteão do samba.

Mais pretensioso, a obra Adoniran: uma biografia, de Celso Campos Jr., lançada inicialmente em 2002, ganhando edição comemorativa em 2009 por conta do centenário, tão logo o primeiro capítulo, intitulado Filosofia de Calouro, em alusão à sua estreia como calouro na rádio Cruzeiro do Sul, citada anteriormente, é sintomático: a narração biográfica se inicia com a carreira na rádio como cantor, profissão só reconhecida muito tempo depois, já na velhice.

Embora o livro, considerado a “maior” biografia de Adoniran Barbosa, “a mais completa”, não deixe de lado a extensa participação de Rubinato tanto nas rádios, cinema e televisão, há, na construção da narrativa sobre a história de vida do artista, uma tendência em privilegiar novamente a figura de sambista-compositor, acometido pelo mesma unilateralidade de boa parte das análises. Não que o autor desconsidere a multiplicidade de atuações de Adoniran Barbosa. Isso não ocorre. Contudo, há novamente certo “destino” a ser cumprido pelo artista na composição de sambas, demarcado pelo autor com a morte de Oswaldo Moles em 1968 e a consequente queda de audiência do programa História das Malocas, “a Adoniran restava a lavra de compositor” (2009, p. 419). Em outras palavras: a composição surge como consequência da instabilidade como profissional da rádio8.

Outra obra que trabalha com tal perspectiva, e talvez a mais influenciada com o clima sombrio após a morte de Rubinato, é sua primeira biografia: Adoniran Barbosa: pelas ruas da cidade, de Valter Kraushe. Lançada em 1985, essa biografia irá inaugurar o processo de construção da imagem de sambista. Analisando suas composições e relacionando-as com os locais de memória cantados pelo compositor, o autor estabelece uma relação direta: Adoniran-samba-paulistaneidade9.

De modo diverso das demais, mas ainda se valendo das composições como objeto privilegiado de análise, duas obras se destacam: Adoniran Barbosa: o poeta da cidade, de Flávio Moura e A cidade, a noite e o cronista, de Maria Izilda Matos.

Partindo do pressuposto da existência de uma rede de sociabilidade, fruto da experiência vivida pelo artista e fonte de inspiração que irá desencadear a captação de uma “paisagem sonora”, onde Adoniran é colocado na posição de cronista da cidade, ou melhor, um anti-cronista, a autora de A cidade, a noite e o cronista, busca captar essas sensibilidades inerentes na produção musical do artista (2007, p. 36-38). Segundo Matos, “Adoniran captava instantâneos do cotidiano e os transformava poeticamente em versos musicados, criando e recriando a comicidade, como narrador da maioria de suas músicas criava diálogos polarizando o trágico e o cômico” (2007, p. 156). Mais uma vez, embora a análise da autora seja instigante e levante novos problemas que inter-relacionam o espaço de memória (São Paulo) e o fazer artístico do artista, caímos na análise exclusiva das composições como objeto de análise da produção cultural de Adoniran Barbosa. Para autora, Adoniran Barbosa fez parte de um processo de “invenção da paulistaneidade” não pela via oficial, mas por meio de um processo de ressignificação da cidade e de seus espaços impressos em suas letras.

De modo análogo a Matos, a obra de Francisco Rocha inova ao ver o fazer artístico de Adoniran Barbosa como fruto de sua experiência nas rádios, onde o artista se “projeta para esta audiência, procura manter-se dentro de uma estética afinada com a sensibilidade do público” (2002, p. 39). Essa “sintonia” com seu público, resultado de mais de quarenta anos de trabalho nas rádios paulistanas, favoreceram não somente para o aumento da popularidade do Adoniran compositor, mas, sobretudo, influenciando diretamente seu “fazer poético, que sinaliza certa forma de estar na cidade, e de se apropriar dela, construindo assim, uma narrativa considerada como lugar privilegiado das elaborações da memória” (2002, p. 20).

Embora Rocha confirme essa influência da vida radiofônica de Adoniran em seu fazer artístico, novamente estamos lidando com mais uma construção de sua memória por meio da composição. Do mesmo modo que Matos, Francisco Rocha estabelece as relações empreendidas entre o “poeta” Adoniran e seu modo peculiar de evocar a memória para “narrar uma prática de espaço”, constituindo seus sambas como “representação da cidade” (2002, p. 159). O Adoniran, nessas duas obras citadas, é ainda um Adoniran essencialmente compositor10, faltando outros elementos que exemplifiquem de modo mais abrangente a atuação de um Adoniran mais múltiplo do que se supõe.



  1. Saudade da Maloca”: resignificando Adoniran Barbosa

O resgate da memória de “Adoniran Barbosa” em seu centenário vai de encontro com processos de rememoração que, por motivos diversos, legitimam uma determinada imagem quando se pensa João Rubinato. Aspectos da construção de sua carreira artística junto aos programas de auditório, rádio, humorísticos, circos e cinemas, somados à sua experiência pessoal como trabalhador em diversas funções, demonstram, antes de tudo, como se deu a formação e consolidação da figura de sambista. Contudo, acreditamos que sua participação em diversos meios culturais tenham sido responsáveis para seu aperfeiçoamento como arguto observador do cotidiano.

Mas qual Adoniran é relembrado? O sambista? O compositor? O ator? Ou todos eles? Em tempos de “comemoração” devemos repensar a função social dessa memória sobre Rubinato.

Para Silva, “comemorar significa, então, reviver de forma coletiva a memória de um acontecimento considerado como ato fundador, a sacralização dos grandes valores e ideais de uma comunidade constituindo-se no objetivo principal” (2002, p. 3). Portanto, “comemorar” é “rememorar” de forma coletiva um passado comum, onde determinados signos são eleitos como símbolos da memória que se evoca. Vimos que, no caso da memória de Adoniran Barbosa, a eleição da identificação direta entre Adoniran e a imagem de compositor. Em casos mais extremos, o elegem como símbolo de paulistaneidade.

Baseando-se nesses processos de rememoração, latentes em datas comemorativas, podemos visualizar alguns acontecimentos que ocorreram na carreira artística de Adoniran Barbosa, localizados no final da década de 1960 e início da de 1970, que poderão responder a questão: o Adoniran “compositor”, quando surge?

Diferentemente da afirmação de boa parte de seus biógrafos, João Rubinato, vivendo uma crise de instabilidade profissional no final dos anos 1960, irá cair em novo ostracismo após o sucesso de Trem das Onze (CAMPOS JR., 2009, p. 452). Será na virada da década que a construção da imagem de sambista ganha força, e alguns eventos irão contribuir para o fortalecimento do compositor: a participação em O fino da bossa, no programa Ensaio, MPB Especial e o lançamento de seus dois primeiros LPs.

Em 1965, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, o programa O fino da bossa, da TV Record, receberia seu convidado ilustre dando início a popularização do artista como cantor-compositor. Com a audiência nas alturas, “o interprete Adoniran Barbosa encontraria a aclamação na Meca dos cantores de rádio – após três longas décadas de espera” (CAMPOS JR., 2009, p. 402-405). Dá-se aí o início de um novo recomeço para Rubinato11.

Já o programa Ensaio, MPB Especial irá fortalecer ainda mais a imagem do sambista12. Conforme dito anteriormente, inovador no formato e sucesso de audiência, Ensaio contribuiu para que a imagem de sambista se fortalecesse. Vindo de uma relação conflituosa com a Record após sua aposentadoria, depois de trinta e cinco anos na casa, Adoniran vê suas composições ganharem cada vez mais a boca do povo (CAMPOS JR., 2009, p. 465).

Outro elemento que irá fortalecer a imagem do Adoniran compositor será o lançamento de seu primeiro LP. Produzido por João Carlos Botezelli, o Pelão, após a finalização das gravações da novela Mulheres de Areia, o disco irá consagrar não somente as composições de Adoniran Barbosa, mas, sobretudo, sua afirmação como cantor de seus sambas. Depois do atraso na confecção das bolachas, devido ao encasquetamento dos censores13 com as músicas Samba do Arnesto e Um samba no Bixiga, a primeira como um “atentado à língua pátria” e, a última, desrespeitosa para com as autoridades, o produtor Pelão resolveu, como protesto, não colocar texto algum na contracapa do disco. No lugar, o verso foi ilustrado por uma foto antiga de São Paulo (CAMPOS JR., 2009, p. 481). Em suma: criava-se uma relação direta de seus sambas com uma São Paulo que já passou.

O sucesso do primeiro disco, de crítica e público, deu novo fôlego ao produtor Pelão que, em 1975, encomendaria ao compositor a gravação de um segundo LP. Segundo Campos Jr., como o produtor “ouvia o crítico Antônio Cândido dizer que gostava das músicas de Adoniran (...) resolveu encomendar um texto sobre o compositor ao intelectual” consolidando, assim, a figura de compositor nato do samba paulista (CAMPOS JR., 2009, p. 486).

Tais eventos, citados acima, contribuíram para o fortalecimento da imagem do “Adoniran sambista”, fazendo com que reintroduzissem “Adoniran no mundo dos shows”, proporcionando ao artista sexagenário “uma nova geração” que aclamava o compositor (CAMPOS JR., 2009, p. 494-495). De todo modo, acreditamos que essa série de “redescobertas”, comuns à carreira instável de Rubinato, proporcionou novo fôlego a carreira de sambista, sendo cada vez mais reafirmada por processos de rememoração no cenário musical paulistano14.

Em época de rememorações a proliferação de símbolos, imagens e bens culturais são comuns nas mídias, resta-nos saber, antes de tudo, que elementos irão compor esse relembrar Adoniran Barbosa15.



No ano do centenário16 deste múltiplo artista nos deparamos com uma verdadeira “seleção da memória” que acaba por elencar determinados signos ligados ao lembrar Adoniran Barbosa (POLLAK, 1989, p. 4). Acreditamos que novas análises e desafios possam ser colocados em evidencia em tempos de centenário, em tempos de “comemoração”. Muita coisa ainda está para ser feita, tanto no campo da memória17 quanto no plano da análise acadêmica, dissolvendo, deste modo, reconstruções analíticas que se baseiem exclusivamente na composição musical de João Rubinato, mas, antes de tudo, que estabeleçam amplas relações entre sua história profissional e de vida com seu fazer artístico, que por sinal, deve ser tão prismático quanto à multiplicidade inerente de um personagem tão ilustre.


Referências Bibliográficas
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1 Futuramente, abordaremos o programa Ensaio como um dos elementos que, acreditamos, ser a peça chave para o entendimento da (re)construção da memória de João Rubinato como compositor de sambas. Esse e outros programas, entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, contribuíram para a efetivação da imagem de sambista representante de certa “paulistaneidade”. Ensaio, MPB Especial Adoniran Barbosa (1972). Direção: Fernando Faro. DVD. 43 min. Distribuição: Biscoito Fino, 2007.

2 A importância deste texto, incluído na contra capa de seu segundo LP Adoniran Barbosa de 1975 é, juntamente com o programa Ensaio, MPB Especial, mais um dos elementos que acreditamos contribuir para a (re)construção de sua imagem de sambista que trataremos mais adiante. O texto do disco referido acima pode ser encontrado em CAMPOS JR., Celso. Adoniran Barbosa: uma biografia. São Paulo: Globo, 2009, p. 488-489.

3 É interessante notar a participação do personagem Adoniran Barbosa como garoto propaganda no rádio dos anos 1930 a 1960. Antes de firmar-se em qualquer outra atividade artística, sua voz era inicialmente reconhecida pelos ouvintes paulistanos como propagadora de remédios, roupas, lojas, chapéus e os mais variados produtos (MOURA; NIGRI, 2002, p. 54).

4 A consolidação da imagem de Adoniran Barbosa na rádio como ator nos anos 1940 e 1950 acabou por sobrepor sua atividade como compositor. Embora tenha criado diversas composições no período, boa parte foi em parceria com amigos de sua rede de sociabilidade criada graças ao trabalho nas rádios. Para Mugnaini Jr., “primeiro surgiu o cantor-compositor, que fez pouco sucesso; depois se revelou o ator, fazendo um sucesso tão grande que, nos anos 1960, muita gente se surpreenderia ao descobrir que Adoniran era também cantor-compositor”. Vide que o selo da primeira gravação do Samba do Arnesto (1951) trazia como autor da canção “Adoniran Barbosa” e seguido, entre parênteses, “Zé Conversa” – um de seus diversos personagens no programa Serões Domingueiros (MUGNAINI JR., 2002, p. 43).

5 Deve-se levar em consideração que entre os anos de 1937 e 1951, Adoniran Barbosa não registrou uma composição sequer. Para Flávio Moura e André Nigri, esse hiato foi devido a “dedicação com mais afinco” do artista na consolidação de seu papel na rádio. Tanto que, ainda segundo os autores, “os discos da década de 1950 e início de 1960 (...), percebe-se a tentativa das gravadoras de associar a imagem do compositor, ainda desconhecido, aos personagens do programa de rádio, então no auge da notoriedade” (2002, p. 156).

6 Quando deu início a sua carreira nas rádios, na década de 1930, Adoniran Barbosa sempre esteve ligado ao carnaval e a composição de marchas. Já em 1940, consolidado como “cartaz” da rádio Cosmos, irá cobrir o carnaval popular nas periferias de São Paulo, repetindo sua participação no carnaval seguinte com o mesmo êxito (CAMPOS JR., 2009, p. 104-105).

7 A participação de Adoniran Barbosa na sétima arte é tão importante quanto é pouco estudada: entre os anos de 1945, com a estreia nas telas na comédia Pif-Paf, e 1981, com Eles não usam Black-Tie, foram dezoito aparições como ator, entre pontas e papéis de destaque (MUGNAINI JR., 2002, p. 237-240).

8 A segunda edição da obra de Celso Campos Jr sofreu pequenas alterações desde o lançamento da primeira: além de revisada, foram incluídos como anexo scripts do programa radiofônico História das Malocas. Isso reflete, de certo modo, uma preocupação em ampliar, em tempos de centenário, a análise da vida e obra de João Rubinato.

9 Não queremos de forma alguma negar a temática e inspiração dominante na composição musical de Adoniran Barbosa, mas instigar por novas e variadas análises não somente de sua vida e atuação em diversos meios de comunicabilidade, como também, a extensa produção não musical do artista durante boa parte de sua vida, todas, paralelas a composição. Visto que, entre os anos de 1950 e 1960, Adoniran Barbosa acumula cinco prêmios Roquete Pinto por suas atuações como humorista na rádio Record, um feito considerável do artista. Somente com o sucesso de Saudosa Maloca, em 1955 na gravação dos Demônios da Garoa, que o compositor irá se sobressair, mas ainda permanecendo sua imagem como sinônimo de humor e rádio (ROCHA, 2002, p. 134).

10 Outra obra que trabalha sob tal perspectiva é o livreto Adoniran Barbosa, de Juliana Lins e André Diniz. Esta obra, com o subtítulo “Uma história para os avós contarem e cantarem para os netos”, demonstra o quanto processos de reconstrução da memória artística de Rubinato se estende aos livros infantis. Tratando-se de uma biografia destinada a crianças, vemos a mesma estrutura discursiva quando os autores questionam aos jovens leitores: “(...) quando foi que as pessoas passaram a conhecer o compositor Adoniran Barbosa?” – e os autores respondem – “Aos 45 anos de idade, depois de balançar numa gangorra de altos e baixos, Adoniran foi finalmente reconhecido pelo Brasil inteiro como o grande poeta, cantor e compositor de samba que é” (2003, p. 24).

11 Por outro lado, entre os anos de 1965 e 1979, Adoniran Barbosa irá participar de novelas que irão contribuir mais ainda para sua (re)popularização: serão 11 telenovelas, desde pontas a papéis secundários (MUGNAINI JR., 2002, p. 240-243).

12 No mesmo ano de 1972, Adoniran Barbosa iria participar de uma série de comerciais da cervejaria Antártica. A famosa frase “Nós viemos aqui para beber ou para conversar?” não demorou em cair no gosto popular, dando posteriormente origem à marcha de nome análogo. Acreditamos que essa série de peças publicitárias, somadas à popularização como ator de novelas, contribuíram cada vez mais com a associação estabelecida diretamente entre Adoniran-samba-boemia (CAMPOS JR., 2009, p. 461-462).

13 Questão importante, e pouco estudada, é a relação de Adoniran com a censura. O artista foi, não poucas vezes, silenciado pelos governos militares. Embora, em algumas declarações, assumisse que “tem que existir, sim, senão abusam muito”, a censura, no caso de Despejo na Favela, foi classificada pelo compositor como “não inteligente”, pois “tratava-se de um fato comum (os despejos) e que acontecia todos os dias” (MUGNAINI JR., 2002, p. 124-125).

14 Diga-se de passagem, o esforço empreendido pela Prefeitura de São Paulo em eleger o compositor como símbolo da musicalidade paulistana: desde a primeira Virada Cultural, em 2005, Adoniran Barbosa, o compositor, é homenageado anualmente como símbolo do evento. No evento atual, em 2010, esses processos de apropriação ficaram mais evidentes por conta do ano de seu centenário. Disponível em: www.viradacultural.org. Acessado em: 29/04/2010.

15 O ano de 2010 será marcado com a realização de diversas produções e bens culturais a cerca da memória de Adoniran Barbosa: agenda temática, reedição de biografia, minisséries televisivas, discos, shows, tributos e documentários. SKUJS, Henrique. Adoniran Barbosa tem centenário marcado com shows e lançamentos. Veja São Paulo. Disponível em: http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2148/adoniran-barbosa-tem-centenario-comemorado-com-shows-lancamentos. Acessado em: 10/05/2010.

16 Outro suporte de reconstrução de sua memória é o projeto Centenário Adoniran Barbosa que irá centralizar, por meio do web site, eventos e comemorações do artista. O Adoniran do século XXI ganhou até uma página no facebook e Twitter! Os textos e a famigerada “linha do tempo” são de autoria de Celso Campos Jr., autor da biografia citada anteriormente. Disponível em: www.adoniranbarbosa.com.br. Acessado em: 15/05/2010.

17 Caso limite é o esmaecimento da memória pessoal de João Rubinato com o fechamento do Museu Adoniran Barbosa, em 1990, sendo atualmente confiada a guarda ao MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo - (MUGNAINI JR., 2002, p. 151).



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