Secretários, engenheiros e autores: ordem e mudança entre adolescentes brasileiros usuários de computadores



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SECRETÁRIOS, ENGENHEIROS E AUTORES: ORDEM E
MUDANÇA ENTRE ADOLESCENTES BRASILEIROS
USUÁRIOS DE COMPUTADORES*


Tom Dwyer


“Je vois un animal moins fort que les uns,

moins agile que les autres, mais, à tout perdre,

organisé le plus avantageusement de tous.”

Jean-Jacques Rousseau

Discours sur 1 'origine de inégalité parmi les hommes


Este texto é fruto de uma pesquisa realizada, no segundo semestre de 1995, com adolescentes na cidade de São Paulo e em cidades no interior do Estado de São Paulo. Mais observações sobre a vida dos adolescentes foram obtidas na cidade de Belo Horizonte. Os adolescentes foram observados e cerca de 80 entrevistas, das quais 40 em profundidade, foram feitas nos ambientes de sala de aula, escolas, bares, shows e lares. O trabalho de alguns foi reproduzido.

Os grupos estudados foram cuidadosamente selecionados de modo a refletir as vidas, opiniões e desejos de vários estratos de adolescentes com relação a novas tecnologias e, acima de tudo, ao computador.

Estudantes de duas escolas particulares, ambas consideradas entre as melhores da cidade de São Paulo, uma equipada com IBMs e a outra com Macintoshes, constituíram o foco do que foi inicialmente considerado um estudo comparativo. Os níveis socioeconômicos desses estudantes, supunha-se, permitiriam que fossem comparados mais aproximadamente aos seus congêneres nos países ricos, onde se concentra a maioria de estudos sobre adolescentes e computadores. As escolas particulares constituíram o foco porque o sistema público, que educa a vasta maioria dos adolescentes brasileiros, não é equipado com computadores, sendo que uma pequena rede de escolas técnicas públicas constitui a exceção.

O segundo foco da pesquisa se situa no interior do Estado de São Paulo. Duas escolas técnicas, uma pública e a outra particular, foram escolhidas por refletirem um esforço importante no sistema educacional para desenvolver a economia através do treinamento de técnicos. O estudo concentrou-se em estudantes matriculados num curso de “processamento de dados”. Uma escola pública de primeiro grau foi também pesquisada. As escolas públicas recebiam aporte importante de universidades de excelência.1

O terceiro e último foco empírico do estudo foi um grupo de oftice-boys empregados de uma grande corporação multinacional. Responsáveis pela entrega de mensagens e execução de tarefas auxiliares de secretariado, eles têm, através de seu trabalho, acesso a computadores. Sua posição socioeconômica normalmente não permitiria tal acesso. Por serem irradiadores de cultura na sociedade e por suas possibilidades de mobilidade social ascendente, foram considerados um grupo interessante para o estudo.

Para escolher os locais de estudo, várias instituições foram procuradas, pelo critério de sua reputação. Algumas mostraram-se apropriadas e foi solicitada a permissão para a condução do estudo. Em resposta, algumas abriram suas portas. Foram inicialmente realizadas cerca de 80 entrevistas com adolescentes, assim como entrevistas principalmente com professores e educadores. Estas levaram a mais uma série de entrevistas e observações, que produziram a base empírica para a maioria dos estudos etnográficos realizados.

Esta pesquisa foi realizada dentro da estrutura de um projeto comparativo sobre adolescentes e tecnologia nos Estados Unidos, Alemanha, Brasil e Japão.2


ANTECEDENTES

Como em qualquer processo social, a “informatização da sociedade” (Nora & Minc,

1978) pode ser considerada como um movimento social. Movimento pelo qual as posições de atores sociais em relação a grupos de referência e em relação à tecnologia mudam. Parte dessa mudança pode ser forçada, outra corresponde a transformações em valores e ainda outra parte, a transformações no conhecimento. Informação, interesses e valores são os três níveis macrossociais nos quais o pensamento sobre processos de mudança pode ser organizado.3

Durante muito tempo, uma represa retardou o desenvolvimento da informatização no

Brasil: uma política nacional de processamento de informações, fruto de interesses industriais e militares que governaram muito tempo, combinada a um sistema de valores que apoiava a idéia de que o desenvolvimento autônomo de tecnologia nessa área era uma parte desejável de um processo de industrialização nacional. O processo era chamado de “industrialização de substituições de importações”.

Esse processo resultou em fabricantes locais produzindo “clones” caros de IBMs, o que levou à dominação do mercado por esse padrão. Outros produtos chegaram ao País pelas mãos de contrabandistas4 e, legalmente, através de procedimentos administrativos complexos que consumiam tempo e resultavam no pagamento de taxas de importação muito altas. Por causa desse processo o Brasil recebeu investimentos muito mais baixos de investimento na informática do que teria ocorrido se não fosse por ele. No fim de 1992, a política governamental mudou, e desde então barreiras caíram e ocorreram rápidos aumentos na potência e nas vendas de computadores,5 especialmente nos mercados doméstico e educacional.

Na área relacionada com as telecomunicações, os interesses foram fortes o suficiente para manter um monopólio estatal de serviços de telecomunicação. O resultado é um sistema caro, linhas e serviços de baixa qualidade em muitas áreas e um baixo número de telefones per capita. Dentro da estrutura dessa política geral, o acesso à Internet ficou restrito a professores universitários e cientistas e somente em maio de 1995 foi aberto oficialmente ao público em geral.

O resultado desses dois processos é que 53% dos proprietários de computadores que responderam a um survey recente haviam comprado seu primeiro computador nos dois anos anteriores. Há 11 habitantes por telefone (versus 1,3 nos listados Unidos, 1,7 na Alemanha e 1,8 no Japão) e espera-se que isso mude rapidamente durante os próximos anos, já que a Constituição do País foi alterada recentemente, permitindo investimentos estrangeiros no setor. Em 19 de julho de 1996, uma lei foi assinada abrindo o mercado de telefones celulares a empresas privadas e há políticos que calculam um investimento de US$ 10 bilhões somente nesse setor num futuro próximo.

Foi no meio desse rápido processo de mudanças no nível macro que esta pesquisa foi realizada.

No início de 1995, o novo governo federal anunciou que, para estimular e facilitar a entrada do País na era da informação, a sua infra-estrutura de comunicações seria renovada. Mudanças em curso colocaram um alvo móvel na frente do pesquisador. O acesso á Internet tornou-se possível entre agosto e novembro, enquanto a pesquisa estava sendo realizada. Para acrescentar à natureza dinâmica dos eventos, uma telenovela da Rede Globo começou em novembro e retratava um caso de amor transoceânico entre uma cigana e um executivo. Os efeitos das telenovelas na consciência nacional são freqüentemente significativos.


BIBLIOGRAFIA
É conveniente começar esta seção observando, em primeiro lugar, que os acervos de bibliotecas no Brasil são poucos e não estão organizados. Isso freqüentemente resulta numa dificuldade de localizar estudos feitos sobre diversos assuntos. Por causa disso, duas instituições especializadas foram procuradas, a Escola do Futuro, na Universidade de São Paulo, e uma ONG envolvida em educação popular, para requisitarmos bibliografias sobre juventude e informática. Os poucos estudos que eles nos apresentaram após pesquisas online e consulta a centros de documentação especializados revelaram ainda outra dificuldade: publicações nessa área freqüentemente envolvem mais ideologia que ciência, mais conjecturas sobre o futuro que fatos concretos sobre o presente.

Enfrentando essa situação, uma breve resenha da bibliografia irá relatar alguns resultados de dois projetos comparativos de pesquisa. Um, sobre a juventude em geral, que deve fornecer algum tipo de “sensação” de como se parecem e se diferenciam os brasileiros da classe média alta e seus pares na Alemanha e nos Estados Unidos. O segundo, baseado em pesquisas de survey, traz à luz dados comparativos sobre o uso de computadores por adolescentes no Japão, Estados Unidos, Alemanha e Brasil. Embora ambos os estudos contenham sérias limitações metodológicas, eles fornecem, a meu ver, algumas coordenadas que permitem situar os adolescentes, nos diferentes países estudados, uns em relação aos outros.

O primeiro estudo, publicado na revista semanal mais lida no Brasil, Veja, é sobre adolescentes e reúne dados sobre a juventude de classe média alta brasileira, norte-americana e alemã.6 O segundo, realizado por uma equipe sediada na Universidade de Michigan, examinou as relações da juventude com as comunicações e outros meios em vários países, incluindo os quatro estudados no projeto comparativo.

O Estudo dos Teens: “Eles se acham engraçados e originais. Confiam em si mesmos - e desconfiam dos políticos.... Querem terminar os estudos, ter sucesso na carreira. O dinheiro não é tudo, mas contam com uma vida confortável, uma boa casa, uma família feliz. Adoram televisão, ouvem pirâmides de CD, saem muito com os amigos. Não estão com a cabeça para longas reflexões filosóficas. Usam jeans e camiseta, bem descontraídos - e de preferência com boas etiquetas. Devoram hamburgers e dedilham computadores com presteza. Qualquer pessoa pode identificar nessas definições um retrato de jovens brasileiros que inundam os shoppings e engarrafam o trânsito nas portas dos colégios de classe média. Jovens brasileiros? Acrescentam-se à lista americanos de todas as origens étnicas,(...), tailandeses, argentinos, egípcios... O planeta teen, com todas as diferenças nacionais, é hoje extraordinariamente parecido, numa escala como jamais se viu antes.”7

O artigo compara a juventude brasileira com seus congêneres na Alemanha, Colômbia, Itália e Estados Unidos. Apesar dos pontos de convergência, o retrato que emerge dos brasileiros é que eles são bem diferentes dos outros. Somente 3% se acham rebeldes, comparados com 13% na Alemanha e 21 % nos Estados Unidos; 72% dos brasileiros imaginam que irão terminar seus estudos, comparados com 93% dos americanos e 74% dos alemães; 25% estão preocupados com a ecologia, comparados com 40% dos americanos e 45% dos alemães. Comparadas as médias de todos os 26 países estudados, os brasileiros estão abaixo da média em todas as dimensões do estudo, com duas exceções: seu medo de serem vítimas de um crime ou de pegarem Aids.



Os brasileiros pesquisados estavam menos engajados que a média de seus congêneres estrangeiros em todas as 15 atividades de lazer listadas: 77% relatam assistir televisão, contra 95% dos americanos e 93% dos alemães; somente 66% declaram ouvir música gravada, comparados com 96% dos americanos e 95% dos alemães; somente 39% dos brasileiros declaram assistir a shows, contra 70% dos americanos e 63% dos alemães; a leitura de livros toma tempo de 42% dos brasileiros, diante de 70% dos americanos e 70% dos alemães. Eles acreditam menos em si próprios, em seus pais, amigos e políticos que os americanos, os alemães e a média de seus congêneres estrangeiros. Têm a metade do otimismo em relação ao futuro (17%) que seus colegas americanos (34%) e o dobro dos alemães (9%).

O Estudo do Uso da Mídia: Uma equipe americana pesquisou orientações para os meios de comunicação de massa numa série de países. Quando os resultados foram apurados, foi observado que os brasileiros parecem “se diferenciar das crianças que estudamos em outros lugares no seu desprezo pela noção de que a televisão apresenta personagens, comportamentos e localidades que são como os da vida real. Em sua maioria, estas crianças recusam-se a aceitar a vasta maioria das personagens e situações como sendo realistas; é mais provável que eles as rotulem como irreais. Seria intrigante determinar porque eles têm tanto ‘desconto adulto’ já assimilado nas suas concepções da realidade da televisão” (Greenberg et al., 1992, p. 51-52). Esse descrédito manifesto na televisão é congruente com a falta geral de confiança mostrada pela juventude brasileira no estudo “Planeta Teen”. O estudo da mídia relata que no Brasil “os jovens assistiam à televisão quatro horas por dia; duas outras horas eram dedicadas ao rádio e uma hora e meia a escutar música em algum tipo de aparelho pessoal; ler o jornal tomava outra meia hora diária, em acréscimo a 45 minutos para a lição de casa, e aproximadamente outros 30 minutos para leituras de diversão e revistas. Falar ao telefone consumia outra meia hora diária” (Greenberg et al., 1992, p. 47). Em resumo, eles disseram, “permanece uma forte inclinação pela imprensa (jornais, livros, revistas)... assim como uma crescente dependência da televisão... estes jovens têm longos dias de mídia... você tem quantidades extraordinárias de mídia consumidas” (Greenberg et al., 1992, p. 51). Na Alemanha, “três horas por dia eram dedicadas à televisão, outras duas horas a escutar fitas-cassete, uma hora ao rádio e um pouco mais de meia hora ao jornal; leituras para a lição de casa, para a diversão e revistas consumiram cada uma aproximadamente 30 minutos no dia anterior. Então o dia de mídia composto ocupava por volta de oito horas, reconhecendo-se que algumas atividades de mídia podem ocorrer simultaneamente” (Greenberg et al., 1990, p. 53). Nos Estados Unidos, os autores encontraram: “nos dias da semana, assistir à TV atingia uma média de 3,5 horas, ouvir o rádio quase 2,5 horas e fitas cassete duas horas por dia. A leitura de jornais alcançou uma média de 30 minutos por dia, outras leituras l ,5 horas, video games 30 minutos e aproximadamente 1,5 horas de filmes no mês anterior” (Greenberg et al., 1989, p. 61). No Japão “nos dias da semana, assistir à televisão chegou a uma média de 2,5 horas, tocar fitas-cassete e CDs uma hora, jogar videogames 30 minutos e o rádio aproximadamente 20 minutos por dia. Ler teve uma média de uma hora por dia e ir ao cinema era muito infreqüente”. (Greenberg et al., 1989, p. 61)

A amostra brasileira, como no estudo anterior, é de classe média. Como nos outros países, foram entrevistadas aproximadamente 500 pessoas e foram buscadas distribuições iguais entre os sexos. Os dados foram todos coletados na cidade de São Paulo. Os dados comparativos internacionais sobre os uso de computadores estão demonstrados nos Quadros 1 a 4.

Um ponto de grande relevância no estudo são as diferenças estatisticamente significativas entre os níveis relatados de uso masculino e feminino de computadores.

No Japão, os “computadores estavam mais freqüentemente disponíveis aos garotos, que relataram significativamente mais uso que as garotas... eram principalmente usados para video games (Greenberg et al., 1989, p. 59). Nos Estados Unidos, “computadores estavam mais freqüentemente disponíveis para os garotos, que também relataram mais uso que as garotas... eram usados mais freqüentemente para jogar video games, muito mais do que para qualquer outra atividade mencionada. Garotos jogavam mais video game do que garotas e também faziam


Quadro 1


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