Segundo as necessidades dos tempos



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Capítulo 11

A EDUCAÇAO DO “BOM CRISTÃO E HONESTO CIDADÃO” “SEGUNDO AS NECESSIDADES DOS TEMPOS”

O sistema educativo de Dom Bosco, como toda ação pastoral e a espiritualidade, não se apresenta com a radicalidade de outros modernos profetas da educação. Ele não visa a criação do homem novo como entenderam, em épocas e visões diferentes, Rousseau e Makarenko1. Mas não da lugar também, com mentalidade restauradora, a um puro retorno ao homem antigo, o da tradição cristã e civil do antigo regime. Dom Bosco concebeu e atuou a própria obra educativa para a consecução de fins ao mesmo tempo antigos e novos, levando os jovens a acolher e formar em si, tanto a fidelidade à perene novidade cristã quanto a capacidade de inserir-se em uma sociedade carregada dos mais pesados vínculos do antigo regime e projetada para novas conquistas. É a mesma compreensão, ainda que diferenciada, que dele têm os seus contemporâneos.

Do sujeito que ele quer formar tentaremos delinear neste capítulo os traços essenciais.


1. Uma visão teórico-prática dos fins da educação
As finalidades educativas que ele persegue e propõe, não são o resultado de uma orgânica teoria geral da educação. Todavia, definem-se no bojo de uma experiência, que não é só pragmática. Nela confluem evidentes elementos culturais: a fé vivida desde a infância na prática da oração, na catequese, na participação nos ritos da igreja, a formação humanista juvenil, os estudos filosóficos e teológicos, a formação moral e pastoral, as leituras históricas, apologéticas e espirituais. Somam-se ainda, não menos determinantes, os mais variados contatos com o mundo da pobreza e da necessidade, não só no âmbito do “espiritual”, mas também, maçiso e urgente, no âmbito do “material”. Como lhe ensinava a vida e o “pai nosso”, o pão cotidiano pedido era, ao mesmo tempo, fé, graça, Cristo, eucaristia, meio de subsistência, trabalho para ganha-lo.

Dom Bosco não elabora uma reflexa visão dos fins educativos dentro de uma mais ampla concepção humanista-cristã do mundo e da vida, filosófica e teologicamente estruturada, mas tem-na bem presente mental e operativamente. Impunham-na a cultura recebida, o temperamento, a sensibilidade e o impacto com jovens que tinham necessidade de tudo. À pergunta real não bastava a resposta só catequética e religiosa.

Dom Bosco narra isto nas mais variadas lembranças “históricas”: o Esboço histórico, os Esboços históricos, o proemio as constituições, as varias “noticias históricas” fornecidas como informações a autoridades eclesiásticas e civis, as memórias do Oratório, as inumeráveis cartas e circulares, os discursos e as conferencias para obter subsídios, beneficências.

É natural, que não tendo chegado a uma compacta e orgânica visão teórica, no uso cotidiano os vários elementos que a compõe podem, as vezes parecer desproporcionados em favor de um ou de outro valor. Pode ser percebido, sobre tudo um privilegiado apreço dos valores religiosos e sobrenaturais com relação aos terrenos, dos individuais em relação aos sociais e políticos. Mas a realidade vivida poderia justificar a legitima aprofundada recomposição da totalidade dos aspectos em um humanismo cristão completo2.


2. As finalidades educativas dentro de uma visão humanista-cristã entre o “antigo” e o “novo”.
São inumeráveis as expressões práticas e teóricas que revelam tal mentalidade. Ela,à parte acentuações características próprias, não é completamente nova para uma tradição que remonta aos primórdios do cristianismo, se afirma em clássicos tratados pedagógicos medievais, consolida-se na época humanística e do renascimento, expressa-se nas florescentes congregações de ensino masculinas e femininas da época moderna, que muitas vezes têm como modelo a Ratio studiorum da Companhia de Jesus3.

Dom Bosco fixa a própria convicção, que se torna programa, na repetida fórmula “bom cristão e honesto cidadão”, traduzida depois, no momento da iniciativa missionária, desde 1875, em outras de significado mais extenso, mas de idêntica inspiração, “civilização e religião”, “civilização e evangelização”, promoção do “bem da humanidade e da religião”, “dilatar o reino de Cristo, levando a religião e a civilização entre aqueles povos e nações que até agora ignoram uma e outra”4. A primeira – “bom cristão e honesto cidadão”- é a mais divulgada5, com diversas variantes: “bons cidadãos e verdadeiros cristãos”, “bons cristãos e sábios cidadãos”, “bons cristãos e homens probos”6.

Quanto aos conteúdos, a fórmula é a enunciação abreviada de um único “manifesto educativo” de sabor tradicional, mas virtualmente aberto e novo. Este é proclamado no primeiro importante livro de guia religiosa da vida, O jovem instruído: “Apresento-lhes um método de vida breve e fácil, mas suficiente o bastante para que vocês possam tornar-se o consolo de seus pais, a honra da pátria, bons cidadãos na terra para ser depois, um dia, afortunados habitantes do céu”7.

Mais ou menos explicitamente tais imagens exprimem uma mentalidade “moderada”, não rara em um mundo católico empenhado na obra de reconstrução moral e civil, depois da tempestade revolucionária.

Por um lado, não se pode ocultar certa saudade dos “bons tempos antigos”, aqueles que precederam as turbulências provocadas pela revolução francesa. É forte a aspiração ao retorno a uma sociedade vista como integralmente cristã, fundada sobre as clássicas virtudes religiosas e morais: a fé, a prática religiosa generalizada, a vida sacramental, a catequese familiar e eclesiástica, a prática das obras de misericórdia, a obediência ao “paterno” governo das legítimas autoridades religiosas e civis, o respeito às “ordens” e às “hierarquias”, o contentar-se com o próprio estado, a laboriosidade, a aceitação do sacrifício, a esperança do prêmio eterno.

Por outro, é bastante viva a sensação de que o mundo novo envolve com seu vigor, seu fascínio e suas conquistas de progresso e civilização. Seria irracional e vão opor-se a ele. “As coisas políticas de hoje – pensava Dom Bosco, referindo-se ao espírito dos tempos – podem ser comparados com uma máquina a vapor, que corre veloz sobre os trilhos, arrastando consigo um comboio, talvez até para o precipício e para a ruína. Vocês querem se meter no meio dos trilhos para detê-la?”8. De fato, ele participa de uma difusa tendência que não se fecha no protesto, mas age em função da construção de um novo tipo de homem e de cristão, que viva em síntese os valores autênticos do “crente” da tradição e do “cidadão” da nova ordem. A conciliação, porém, é imperfeita. “A figura e a obra de Dom Bosco não se enquadram em uma visão dicotômica da relação entre tradição e mdernidade; mas também não se prestam a uma interpretação dialética da relação entre dois elementos”; é virtual síntese pragmática9.

Os fins educativos por ele pré-fixados e os programas predispostos supõem, em substância, a recuperação da secular tríade educativa, renovada e atualizada: piedade e moralidade, “ciência e civilização10, em um desenho operativo que prevê a assunção dos valores do sujeito-cidadão e do cristão, da razão e da religião.

Nesta prospectiva é substancialmente afirmado o valor intrínseco de cada uma das três realidades programáticas clássicas, mas ao mesmo tempo vem claramente propugnada a finalização última da cultura e da civilização na piedade e na moralidade, em uma visão de conjunto que tende a se tornar integral. Concretamente Dom Bosco pensa e crê, com toda a tradição cristã, que na ordem da fé, a recuperação dos valores terrenos deve acontecer no interior da realidade medicinal e divinizante da graça. É constante nele homem, padre, educador, a vontade de valorizar o humano no cristão, de promover tudo aquilo que é positivo na criação, de cristianizar a civilização, mostrando que só assim ela pode ser plenamente salva11.

A coexistência dos valores é o estilo constante de todo o trabalho de Dom Bosco educador: católico convicto, imerso em Deus, fiel à Igreja e ao papa, padre em qualquer lugar; e, indissoluvelmente cidadão envolvido na sociedade, empenhado em dar uma contribuição específica para o progresso material e espiritual da mesma. Neste modo ele entendia a posição jurídica e operativa dos membros de sua sociedade religiosa no Esboço histórico sobre a sociedade salesiana de 1874: “Todo salesiano, perante a Igreja seja um religioso, e na sociedade civil seja um cidadão livre”12. Os Cooperadores eram convidados a condividir o mesmo estilo de ação: “O nosso programa será inalteravelmente este: deixem-nos cuidar dos jovens pobres e abandonados, e nós envidaremos todos os esforços para fazer a eles o maior bem possível, pois é assim que queremos ajudar os bons costumes e a civilização”13.

A tantas vezes declarada neutralidade política significava, para ele, mais precisamente, uma inserção viva na sociedade, estranha a qualquer coloração partidária, em confirmação do profundo enraizamento terreno de sua obra educativa. Ele referia com prazer o que Leão XIII lhe havia dito na audiência de 9 de maio de 1884: A vocês foi confiada a missão de mostrar ao mundo que se pode ser bom católico, e ao mesmo tempo bom e honesto cidadão; que se pode fazer um grande bem à juventude pobre e abandonada em todos os tempos, sem entrar em choque com o vai e vem da política, mas conservando-se sempre bons católicos”14

Neste sentido ele pretendia pôr em ato a convergência da diferente ação sua e dos governantes, educativa e política. Escrevia sobre isto lapidarmente a um ministro do interior bem conhecido, José Zanardelli: “Eu lhe peço dispor de minha constante vontade de fazer todo o possível para diminuir o número dos baderneiros e de aumentar o dos cidadãos honestos”15. A vontade do político orientava-se para a manutenção da ordem pública, a do educador, para promover a retidão das consciências.

3. A polaridade de base e hierarquia orgânica dos fins educativos
A ação assistencial e educativa em favor dos jovens, desenvolvida por Dom Bosco e ulteriormente ilustrada pelas palavras e pelos escritos, antes de por em relevo seus caminhos, põe em evidencia suas metas e seus conteúdos.

Destes se faz menção agora, enquanto dos itinerários, das orientações “metodológicas”, se falara nos próximos dois capítulos.

Nos limitamos aqui a recolher os dados a partir das mais explícitas situações pedagógicas juvenis. Mas, para uma visão mais rica e articulada deveriam ser utilizada muitas outras fontes: os perfis de cristãos autênticos que Dom Bosco espalha pelos seus livros de histórias edificantes; As figuras de militantes católicos, homens e mulheres, por ele encontrados e apreciado no abundante epistolário; os santos ou pessoas de particular exemplo lembrados nos sermões e instruções festivas, as conferencias, os pequenos colóquios noturnos de “boa-noite”, os discursos de circunstancias, as conversas familiares16.

Antes de tudo, em relação ao que foi observado a propósito do humanismo pedagógico cristão de Dom Bosco, é logo evidente a bipolaridade que caracteriza seu conjunto : de uma parte, é afirmada a centralidade da fé religiosa, do transcendente, do específico cristão; da outra está presente uma franca avaliação das realidad3es temporais, sinceramente, intrinsecamente e não só instrumentalmente apreciadas e utilizadas. Mas do que a coexistência igualitária entre dois pólos, trata-se de duas realidades de igual dignidade na própria ordem, mas com a subordinação do pólo temporal ao pólo transcendente.

Desta polaridade hierarquizada dão singular testemunho complementar dois observadores de diferentes conotação ideológica: o pedagogista idealista José Lombardo Radice eo filosofo Francisco Orestaneo. O primeiro, ainda que mentalidade láica, sublinhava na experincia de Dom Bosco, a absoluta centralidade da inspiração religiosa: “Dom Bosco. Era um grande, que você poderia procurar conhecer. No âmbito da Igreja foi o corretor do Jesuitismo, e mesmo sem ter a estatura de Santo Inácio, soube criar um imponente movimento de educação, tornando a dar à Igreja o contato com as massas, que ela vinha perdendo (...).O segredo está ali: Uma idéia (...). Uma idéia quero dizer uma alma.17

Também Francisco acentuava vigorosamente a inspiração cristã, quase mística, de toda a ação de Dom Bosco, dedicando-lhe um sugestivo capitulo com i Titulo Teologia Mística18. Mas ele evidenciava particularmente “a parte de atividade humana” e o positivo apreço pelas realidades terrenas, sobretudo a alegria de viver e o trabalho, como traço originais do seu projeto educativo. Dom Bosco “santificou o trabalho e a alegria. Ele é o santo do otimismo cristão, da vida cristã operosa e alegre. Esta é a sua síntese pessoal de coisas novas e velhas. Aqui esta a sua verdadeira originalidade”. Ensiste ainda “Necessidade educativa e sociais, profundamente entuidas em perfeita relação com os novos tempos, fizeram-no descobrir a grande lei de educar com o trabalho e para o trabalho (...).E ele não valorizou só como instrumento educativo, mas também como conteúdo de vida (...). E não é tudo. Em uma arrancada genial da sua caridade cheia de compreenção humana, convicto das naturais e honestas exigências da juventude e da vida sadia, Dom Bosco santificou junto com o trabalho a alegria, alegria de viver, de trabalhar, de rezar”19.

É humanismo tendencialmente pleno, que, inadequadamente fundado e elaborado em nível de “teoria” aparece claramente visível no plano da vida. É significativo que de Dom Bosco e do seu ideal e estilo de ação tenha sido possível traça os mais variados perfis, com títulos os mais diversos, todos confluindo para a sua síntese vital divino/humana, cidade celeste/cidade terrena, salvação eterna/alegria de viver e de operar no tempo: Vida íntima de Dom João Bosco, Dom Bosco com Deus, os dons do Espírito Santo na alma do Bem-aventurado João Bosco, Um gigante da caridade, Sorrisos de Dom Bosco, O Santo dos meninos, O rei dos garotos, Dom Bosco amigo dos jovens, Dom Bosco com os jovens, O apostolo dos jovens, O Santo dos meninos, O chefe dos meninos, O santo dos meninos, O santo dos rapazes alegres, Dom Bosco conquistador de alma, Um grande pescador de alma, O salvador de alma, O santo do século, A maior maravilha do século XIX, O santo do trabalho, Um santo para o nosso tempo, Dom Bosco o homem para os outros, Profundamente homem profundamente santo, Homem e santo.

Mas ele mesmo com as mais variadas formas sintéticas recolhia na unidade as muitas qualificações, não sem estabelecer uma precisa hierarquia, bem notada por quantos o ouviam propor.

A primeira constitue o título de uma capitulo da biografia Francisco Besuco: “alegria, estudo, piedade”20.A ela se ajunta a tríade “Saúde, sabedoria, santidade”21, os três SSS, as vezes enriquecidos pelos cincos misteriosos SSSSS. Aos alunos do colégio de Turin-Valsalice, através do seu direto inviava esta menssagem: “Eu lhe asseguro que todos os dias na santa missa eu os lembro, pedindo para cada um os três costumeiros “esses” que os nossos espertos alunos sabem interpretar: Saúde, Sabedoria e Santidade”22.

Dons idênticos desejava ao filho da condessa Callori, comunicando-lhe que tinha pedido ao Papa uma benção especial “para os três esses ao Senhor Emanuel, isto é que seja sadio, sábio e santo”23.

Mensagem semelhante mandava, pelo Padre Francesia, aos alunos do colégio de Varazze: “saúde estável, progresso nos estudos e a verdadeira riqueza, o santo temor de Deus”24.

Em contexto mais amplos, trabalho, religião e virtude são apresentados como meios de salvação de tantos “jovens em perigos”25, em um grande projeto de regeneração social fundado na tríade “leiga” “Trabalho, Instrução, Humanidade”26.

É evidente que o “programa” supõe um regime de “cristandade”, segundo o qual a religião é o fundamento da moral e ambos de uma segura ordem social.




  1. Um sentido de vida, a “salvação”, para ser recuperada e consolidada

Para isto é fundamental que sejam despertadas e mobilitadas no próprio jovem as virtualidades das quais é dotado. Estas podem ser reduzidas a três tipos essenciais: 1) as faculdades de conhecimentos, sensível e intelectual, especialmente a “razão”, que impede, como já foi visto, de comportar-se como o cavalo e o burro que não têm inteligência; 2) o variegado patrimônio afetivo, os “desejos”, as “paixões”, o “coração”; 3) a vontade qualificada pela liberdade audaz, impregnada de razão, fé e inflamada caridade.

É um organismo, já maravilhoso em nível de criação, mas imcomensuravelmente mas belo enquanto elevado à ordem sobrenatural, graças à redenção operada por Cristo Salvador. A consciência da altíssima dignidade do homem, “imagem e semelhança de Deus” na ordem da natureza e da graça, está na base de uma adequada visão dos fins de uma autentica educação. Dom Bosco escreve isto no seu notabilíssimo Mês de maio, onde, sublinhando as “maravilhas da graça divina”27, ele não exclui, mas supõe e aprecia, como obvia e certa, a base natural, não menos adimirável na sua ordem.
“Por dignidade do cristão eu não entendo o bem corporais, nem as preciosas qualidades da alma criada à imagem e semelhança do mesmo criador; eu entendo somente falar da tua dignidade, ó homem, porquanto foste feito cristão por meio do santo batismo e recebido no seio da Santa Mãe Igreja. Antes que tu fosses regenerado nas águas do batismo, tu eras escravos do demônio e inimigo de Deus e excluído para sempre do paraíso. Mas no mesmo ato em que este augusto sacramento abriu para ti a porta da verdadeira igreja, romperam-se as cadeias com as quais mantinha-te ligado o inimigo da tua alma; Para ti fechou-se o inferno e abriu-se o paraíso. Ao mesmo tempo tu te tornaste objeto de parcial amor por parte de Deus; em ti foram infusas as virtudes da fé, da esperança e da caridade. Assim feito cristão, tu pudeste levantar o olhos ao céu e dizer: Deus, é criador do céu e da terra é também o meu Deus. Ele é meu pai, ama-me, e ordena-me chamá-lo com este nome. Pai nosso que estais no céu; Jesus salvador chama-me seu irmão, e como irmão eu pertenço a Ele, a sue méritos, à sua paixão, à sua morte, à sua glória, à sua dignidade”28.
O redator do dialogo entre Dom Bosco e Francisco Bodrato, em Mornese em outubro de 1864, imagina que o já célebre educador tenha delineado para o humilde professor de roça à antropologia juvenil que sustem seu sistema educativo, baseado em “Religião e Razão”. Os jovens são “seres racionais”, “seres criados para conHecer Deus, para amá-lo, para servi-lo e depois poder ir goza-lo no paraíso”. “O educador deve persuadir-se que todos ou quase todos estes caros jovens têm uma natural inteligência para conhecer o bem que lhes é feito, e um coração sensível facilmente aberto ao reconhecimento”29.

Se o educador-continuará em 1877, com as páginas sobre o sistema preventivo-, com o método da razão e da amorevolezza “faz o aluno raciocinar”e consegue “ganhar seu coração”, o aluno irá responder com maior capacidade de compreensão e mais viva afetividade. Em força da razão, haverá percepção da racionalidade da lei do trabalho, do compromisso pessoal em construir junto e dar paga pelo êxitos felizes conseguidos na escola e na oficina. Graças ao coração, acontecerá a experiência vitalizante “da família” na comunidade de superiores e companheiros, na confiança recíproca, na amizade. Enfim, aflorará a alegre consciência da validade de viver e de trabalhar unidos, iniciação efetiva à socialidade.

Além disso, o “sentido de vida”é potenciado em níveis mais altos e maduros, pela experiência religiosa cristã, graças a qual o “êxito temporal” dilata-se num horizonte mais vastos da salvação eterna. Na base está a séria assimilação da admoestação evangélica: Que adianta o homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder sua alma?30 “Este pensamento- comenta Dom Bosco- levou tantos jovens a deixar o mundo, tantos ricos a distribuir aos pobres as suas riquezas, tantos missionários abandonar a pátria, ir a paises muitos distantes, tantos mártires a dar a vida pela fé”31.

A busca da “salvação” é apresentada aos jovens como a aprendizagem da mais alta “profissão” do cristão, aquela que dá sentido e coroamento a todas as outras: do alfaiate, do carpinteiro, do estudante. Dom Bosco ilustrava o seu pensamento em uma apaixonada boa –noite em 30 de abril de 1865.


Oh se eu pudesse dizer a vocês o que estou sentindo, as palavras faltam de tão importante que é o assunto. Oh se todos vocês tivessem no pensamento essa grande verdade, se todos trabalhassem unicamente para salvar a própria alma, então não seriam necessárias nem pregações, nem meditações, nem exercícios da boa morte, porque teriam tudo que é necessário para sua felicidade. Se a ações de vocês tivessem um fim tão importante, que fortuna seria para vocês, que felicidade para Dom Bosco. Seria isso que eu desejo de melhor, seria o oratório um verdadeiro paraíso terrestre. Então não sucederia mais roubos, mais conversas, leituras escandalosas, murmurações etc. Todos fariam seu dever porque, persuadamo-nos, o Padre, o clérigo, o estudante e o artesão, o pobre e o rico, o superior e o aluno, todos devem trabalhar para este fim, do contrário será vã qualquer fadiga”32.


  1. Os “graus” na consecução da “salvação”

A vida de graça, na sua forma mais simples, que significa libertação do pecado até à mais alta perfeição e santidade, não admite seleções de princípio e se desenvolve em continuidade entre libertação da condenação e crescimento nas mais altas formas da caridade, amor de Deus e do próximo. A “salvação” é realidade unitária e completa. Por isso, na sua admirável síntese de espiritualidade cristã, F. X. Durrwell, pode escrever: “a doutrina da santificação do homem é a mesma doutrina da sua salvação eterna- não podendo o homem salvar-se a não ser na sua santificação em Deus- e sabe-se que a doutrina da salvação se estende tanto quanto se estende a teologia”33.

Dom Bosco conhece os “graus” da vida espiritual- nos discursos fúnebres sobre José Cafasso fala de teologia moral, ascética e mística34- mas não os evidencia como convessor ou diretor espiritual. Pratica-os, informalmente, escreve sobre eles, ainda que não em termo explícitos, a propósito da gradual “pedagogia da salvação”, atenta para as diversas disponibilidades ou indisponibilidade para ela dos diferentes tipos de jovens, remitentes, maus, indiferentes, bons.

Para jovens pobres e abandonados ele propõe fins e conteúdos hierarquicamente diferenciados. Alguns podem prever até graus anteriores à “vida espiritual” verdadeira e própria.

O primeiro é ajudar os jovens completamente perdidos a encontra a mais elementar “razão para viver”. Significava induzi-los à vontade e à alegria de viver, com a intenção de ganhar com o trabalho e o suor os meios para uma existência digna para si e para os próprios familiares35.

O trabalho educativo podia exigir uma preliminar purificação da mente e do coração, uma obscurecida pela ignorância e pelos preconceitos, o outro corrompido pelos vícios e pelos maus hábitos. “Iluminar a mente para tornar bom o coração” foi para Dom Bosco, desde os inícios a finalidade específica de seus livros, como ele mesmo declarava – já foi visto- no prefácio à História Sagrada e História eclesiástica.

Para os muitos afetivamente carente ou depalperados, com a formação de convivência de “estilo familiar”, ele mirava criar uma atmosfera e uma rica rede de relações, paternas/maternas, fraternas, amigas, capazes de restaurar uma vida afetiva, “passional”, carregada de intensos envolvimentos operativos e emocionais.

Naturalmente, o trabalho de recuperação e formação atinge um nível mais alto e rico quando a afetividade, a amorevolezza vivida, recebida e regenerada, tendem a integra-se a interagir com a razão e com a religião. Com efeito, a tríade razão-religião-amorevolezza é, antes de tudo, indicação de fins e de conteúdos; é substancia educativa, mas e antes que meio e método.

No vértice do caminho da “salvação”, Dom Bosco põe claramente proclamado, o objetivo educativo máximo da “santidade”. Não é mensagem dada a um único privilegiado, é “pregação” feita a todos: “vontade de Deus que sejamos todos santos; é fácil conseguir; há um grande premio preparado no céu para quem se faz santo”36.


  1. Amor e temor de Deus no serviço

Em segundo lugar, a atenção do jovem, ao longo de todo o seu itinerário educativo, é atraída para o “fim” que já ouvira explicar desde o tempo de sua infância, nas aulas de catecismo: conhecer, amar e servir a Deus, Criador e Senhor do céu e da terra. O amor ao Pai, com efeito, supõe a honra, a reverência, o serviço ao Criador e Senhor, em síntese, o temor de Deus. Este está presente, explícito ou implícito, em toda ação e operação moral e espiritual de Dom Bosco. É remotamente dispositivo ao amor como “temor servil” não inútil para os fins da conversão do pecado, mediante a confissão e o perdão. Torna-se “temor inicial” quando é “temor filial”, que é repúdio da culpa. Ele convive com o amor-caridade, no tempo e na eternidade, e cresce quanto mais aumenta a caridade, vivido como respeito que adora, obséquio, reverência, honra diante da grandeza, da majestade, da santidade, da justiça de Deus Criador onipotente e providente. O jovem educado retamente sente habitualmente a presença amável e adorável de Deus Pai onipotente e ao mesmo tempo misericordioso. Faz experiência disto, em ambas as vertentes, aquele que crê, sensível ao lema muitas vezesvisto e ouvido: “Deus me vê”. O “fazer-se amar antes que fazer-se temer”, usado tão abundantemente por Dom Bosco na sua “pedagogia”, não é se não o reflexo do “fazer-se amar mais do que fazer-se temer”, que caracteriza as relações do fiel cristão com o seu Deus, “Pai de nosso Senhor de Jesus Cristo, Pai das Misericórdias e Deus de toda consolação”37.

O enunciado bíblico, “o principio da sabedoria é o temor de Deus”, torna-se para o jovem, já adulto, horror da separação de Deus, motivo de fuga do pecado, saudade da graça, desejo de purificação efetiva e exigência de reconciliação, realizada nos sacramentos da penitencia e da eucaristia. Ele volta a ouvir antigas pregações, que lhe haviam tocado o coração no temo da educação: “Este pensamento da presença de Deus deve acompanhar-nos em todo tempo, em todo lugar e em cada ação. E quem tiver ainda a coragem de cometer um pecado, que possa ofender o Senhor, quando pensa que Aquele, que ele quer ofender, pode , no mesmo instante em que ele quer pronunciar aquela palavra, secar-lhe a língua, pode paralisa-lhe a mão, com a qual pensa pecar?”38”.Todo pecado irrita grandemente a Justiça divina, e nos torna merecedores de graves castigos que se não acontecerem na vida presente, serão maiores na outra. Uma emende sincera pode acalmar a justiça de Deus"39. “Deus é misericordioso e perdoa qualquer pecado, contanto que o homem esteja sinceramente arrependido, e faça a devida penitência40 são os dois rostos de Deus vistos na punição da malvada Gezebel e no perdão dos Ninivites convertidos.

Fica claro que na linguagem de Dom Bosco ter, “conservar”, o santo temor de Deus é o mesmo que viver uma vida cristã completa. O “temente a Deus”é, substancialmente, o fiel observante e exemplar, o bom cristão. O temor inclui o amor. Dom Bosco acolhe de boa mente o que no Leva contigo, cristão é recomendado aos “chefes de família” a propósito dos “Deveres para com os filhos”: “2. Educai-os com todo cuidado no santo temor de Deus, dependendo deste sua salvação, e a benção da casa, e tendo a divina providencia confiado aos vossos cuidados, para que sejam educados cristãmente (Ef VI, 4). 3. Imprimir logo em seus corações o santo temor de Deus, o desejo ardente de servi-lo e um forte amor à virtude (Tb I, 10)41.




  1. Na Igreja Católica

“Continuem amando a religião nos seus ministros- é a antiga lição de Dom Bosco aos seus-, continuem praticando esta nossa Santa Religião Católica para que possa faze-los felizes nesta terra a única que pode fazê-los eternamente no céu42.

No sentido da pertença a Igreja Católica é indicado por Dom Bosco um ulterior inconfundível caráter do bom cristão e do honesto cidadão. É um dos pilares da sua “teologia” catequética e pratica: “A Igreja Católica- Apostólica- Romana é a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo”43. Aí incluem-se com excepcional força com agarramento e com fidelidade a seu chefe, o Papa: “Estejam intimamente persuadido destas grandes verdades: onde está o sucessor de São Pedro, lá está a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Ninguém encontra-se na verdadeira Religião se não for católico; ninguém é católico sem o Papa. Os nossos Pastores, e especialmente os Bispos, nos unem ao Papa, o Papa nos une a Deus”44.

O jovem católico retamente educado será o fiel instruído na “doutrina cristã”, corajoso no professar o credo da Igreja, alheio a compromissos com a heresia e com qualquer radicalismo político, resolutamente alinhado com o Papa e com os pastores. Entre os conselhos mais freqüentemente ouvidos estavam aqueles difusos desde 1853 em Três especiais lembranças à juventude, colocados como conclusão do já citado opúsculo Avisos aos católicos: “fugir o mais possível da companhia daquele que falam coisas imodestas, ou procuram ridicularizar a nossa Santa Religião” [“O Papa, os Bispos e os outro ministros da nossa santa religião”, escreverá em 1872]; “Aborrecer” e “rejeitar” “livros ou jornais irreligiosos”, que forem oferecidos; se depois alguém insistisse em dizer que estamos “em tempo de liberdade, por isso cada um pode viver com quer”,rebater: “se estamos em tempo de liberdade, deixem-nos viver nossa Religião, como nos agrada”45.





  1. O cristão homem de eternidade” operante no mundo

Uma qualificação emergente e específica do cristão, “homem de eternidade”46, enquanto ao mesmo tempo honesto cidadão, é para dom Bosco a capacidade de envolvimento ordenado e laborioso na sociedade, mediante o trabalho, como artesão, agricultor, operário, empregado, professor, militar, sacerdote; para aqueles que têm posse e aqueles que vivem de renda, a mais, com o bom uso das riquezas. É para todos em formas diferenciadas, o exato cumprimento dos deveres do próprio estado, inseparável honestidade e exemplaridade de vida, e portanto uma substancial utilidade social.

Existe uma íntima ligação entre fim eterno e compromisso terreno e o jovem maduro aprendeu a vive-lo em síntese, com o olho voltado para o céu e os pés solidamente apoiados na terra, em um caminho constelado de boas obras. “Diga aos meus irmãos e às minhas irmãs- escreve à mãe Pedro, de partida para a campanha da Creméia em 1854- , que o trabalho faz bons cidadãos, a religião faz bons cristãos; mas que trabalho e religião levam ao céu”47.

Sobre o compromisso no estudo e no trabalho, estudante e artesãos haviam ouvido Dom Bosco propor, na leitura anual do Regulamento para as casas, uma formulação sintética das muitas recomendações espalhadas por todo o período formativo. Ela oferecia em três breves artigos um verdadeiro perfil do homem trabalhador cristão, objetivo capital do processo educativo conduzido por Dom Bosco.

“1. O homem, meus jovens, nasceu para trabalhar. Adão foi colocado no paraíso terrestre para cultiva-lo. O apostolo São Paulo diz é indigno de comer quem não quer trabalhar; 2. Por trabalho entende-se o cumprimento do próprio estado, tanto de estudo, quanto de arte ou ofício. 3. Através do trabalho vocês poderão tornar-se beneméritos da sociedade, da religião, e fazer bem a suas almas, especialmente se oferecerem a Deus suas ocupações”48.


  1. Socialidade

Sobre a contribuição dos leigos para a missão da Igreja, em particular para a educação da juventude e, mais especificamente, sobre o uso social das riquezas é muito singular a insistência de Dom Bosco nas numerosas conferencias do ultimo período da vida. É típica a sua exigente posição a respeito da “esmola”, interpretada e proposta como rigoroso e obrigatório exercício de “justiça social” antes da literatura49.



Não se encontra, ao inverso, no conjunto dos fins educativos perseguidos por Dom Bosco uma desenvolvida concepção do homem social e politicamente empenhado. Esta é parcamente elaborada como fim específico, explicitada mais no interior do fim moral e religioso. Isto é devido em parte à situação social da Itália do tempo, onde a “política” ativa e passiva era reservada àqueles que podiam gozar de uma condição cultural e econômica privilegiada. Acrescenta-se, mais decisiva, a escolha “política”claramente “educacional” querida por Dom Bosco, para si e para seus colaboradores. Para ele, definitivamente o homem inserido ativamente na sociedade civil e política é, antes de tudo e principalmente, o cristão competente o honesto no exercício do seu dever profissional. Ele contribui para a ordem e para o progresso da sociedade, governando com sabedoria a própria família, participando, segundo as próprias possibilidades, nas obras de beneficência e de solidariedade, exemplar na prática da fé e das chamadas “obras de misericórdia espiritual e temporal”.

São significativas as expressões usadas no encontro familiar de 25 de julho de 1880 com os ex-alunos leigos do Oratório. Depois de referir-se a alguém que havia criticado o lugar da sua educação e depois de convidar a todos ao perdão e à oração pelos ingratos prosseguia: “Somos Salesianos, e como tais esqueçamos tudo perdoemos a todos, faremos o bem a todos o quanto pudermos e o mal a ninguém (...) Assim usaremos ao mesmo tempo a simplicidade da pomba e a prudência da serpente, acautelando-nos contra os traidores e as traições”50.




  1. A vida é vocação e missão

A posição de cada um na sociedade civil e eclesial não é casual nem arbitraria. Cada um é chamado a viver segundo a própria vocação, a ocupar um lugar bem preciso, que responde à vontade de Deus e garante as graças que lhe são próprias. Muitas vezes Dom Bosco declara a escolha vocacional como “o ponto mais importante da vida”51. A escolha, em quanto responde a perguntas que vêm do próximo, em particular do jovem, é conforme às aptidões e às inclinações, que qualificam o sujeito para um compromisso que pode ser “secular”, eclesiástico, “religioso”.

O problema é colocado e resolvido nos termos mais precisos em uma carta aos alunos dos dois últimos anos do ginásio do colégio de Borgo São Martinho. São dois os estados nos quais se caminha “pela via do céu”, “Eclesiástico ou secular”. “Para o estado secular- declara abertamente – cada um deve escolher aqueles estudos, empregos, profissões que lhes permitam o cumprimento dos deveres do bom cristão e que são do agrado dos próprios pais”. “Para o estado eclesiástico”, dá diretivas mais detalhadas. Antes de qualquer outra coisa indica claramente os desapegos que comporta: “Renunciar às riquezas, à glória do mundo, aos prazeres da terra para entrega-se ao serviço de Deus”. Ao fazer a escolha o único conselheiro decisivo é o confessor, que deve ser ouvido “sem se importar nem com superiores, nem com inferiores, nem com parentes nem com amigos”. Quem entra para o estado eclesiástico com a única intenção de “entregar-se ao serviço de Deus” e de “percorrer o caminho da salvação”, “tem certeza moral de fazer grande bem à própria alma e à alma do próximo”. No interior dessa escolha de base são possíveis três diferentes opções: “padre no mundo, padre na religião, padre nas missões estrangeiras”. “Cada um pode escolher o que lhe está mais a peito, mais adaptado às suas forças físicas e morais aconselhando-se com pessoas piedosa, douta e prudente”. Porém, “devem toda partir de um ponto e tender ao mesmo centro que é Deus”52.

É de notar-se que, falando freqüentemente a jovens que se encontram diante da escolha eclesiástica ou religiosa, Dom Bosco não dá excessiva importância a “secular”: “uma vez conhecido que alguém não é chamado ao estado eclesiástico ou religioso diz durante um retiro espiritual em Lanzo no verão de 1875- , então será de pouca importância que venha a ser ferreiro ou carpinteiro, alfaiate ou sapateiro, empregado ou negociante”53.

Particularmente se detém às vezes a indicar com predileção a vocação religiosa àqueles que, ele pensava, poderiam encontrar-se em perigo no mundo54. Depois como ocorreram dos anos, dom Bosco falará de vocação religiosa leiga também aos alunos artesãos: “as vocações religiosas não são somente para os senhorzinhos estudantes”55.


  1. A vocação de todos: a caridade e o apostolado

A vocação comum a todos, eclesiásticos e leigo, é de qualquer forma, a caridade, o amor.

Todos, segundo as respectivas possibilidades e responsabilidades, estão obrigados a uma explicita presença caritativa e apostólica expressa em diversos modos: a esmola, o compromisso na ação catequética e educativa, “a união no campo da ação e do trabalho apostólico”56. Isto poderá realizar-se com frutos mais copiosos e para a “maior glória de Deus”- a força unida é mais forte- com a agregação a grupos e associações de cristianismo militante, abrindo-se, se Deus chama, às mais ousadas prospectivas apostólicas e missionárias57. Para todos vale o que com ousada intuição Dom Bosco sugeria a um adolescente, que será proclamado santo: “A primeira coisa que lhe foi aconselhada para tornar-se santo foi desdobrar-se para ganhar almas para Deus; Porque não existe coisa mais santa no mundo, do que cooperar para o bem das almas, para cuja salvação Jesus Cristo derramou até à ultima gota seu precioso sangue”58


  1. Estilo de vida na esperança e na alegria

Enfim, o jovem plasmado pelo sistema preventivo, está habilitado também para o futuro ao exercício das tradicionais virtudes da caridade, da temperança, da obediência, da honestidade, da modéstia, a encontrar motivo de alegria aqui e de firme esperança na eternidade feliz.

Aos jovens em formação e às portas da idade adulta é reservada a observação do O Jovem instruído: “Nós vemos que aquele que vivem na graça de Deus estão sempre alegres e mesmo nas aflições têm um coração feliz. Ao contrario, aqueles que se entregam aos prazeres vivem nervosos, e se esforçam para encontrar a paz em seus passatempos, mas são sempre infelizes: Não existe paz para os ímpios”59. Era por isso obvia e habitual a exortação ao bom uso do tempo da juventude: “O homem colherá aquilo que tiver semeado”; Como acontece com os camponeses que semeiam e cultivam o campo. “Assim também acontecerá com vocês, meus queridos jovens, se semearem, terão a alegria de fazer uma bela colheita no tempo oportuno”. “e quem não semeia na juventude, não recolherá na velhice”60. “ Feliz o homem que leva o seu jugo desde a sua adolescência (...).tomem cuidado por tanto, agora que são jovens, e observem os mandamentos de Deus e serão felizes nesta e na outra vida”61. “Os santos enquanto pensavam seriamente na eternidade das penas, viviam em suma alegria com a firme confiança em Deus de evita-las, e um dia ir tomar posse dos bens infinitos que o Senhor têm preparado a quem o serve”62.

O legítimo “temor”, que evita a presunção, com a filial trepidação de poder separa-se de Deus e de não perseverar até o fim, encontra conforto na segura esperança de que Deus é fiel e não falta às suas promessas.Daí surge a alegria de quem se entrega, mas que aos próprios méritos, à benevolência de um Pai, que honra e serve com amor de filho.



1 É o significado do Emilio (1762) e da revolução antropológica russoniana, como ilustram felizmente A.RAVIER, A educação do Homem novo. Paris, SPES 1944, e M.RANG, A doutrina de Rousseau sobre os homens. Göttingen, Vandenhoeck e Ruprecht 1959; e do inicio absoluto, “fazer o homem novo”, o coletivista soviético, querido e descrito por A.S.MAKARENKO, Poema pedagógico (1935) e Bandeiras sobre as torres (1938).

2 Sobre a dificuldade e sobre certa conciliação escreve J.Schepens no ensaio já citado, a natureza humana na visão educacional de João Bosco, particularmente, RSS 8 (1989) 265-277.

3 É história traçada em linhas essenciais por PEDRO BRAIDO, Breve história do “sistema preventivo”. Roma, LAS, 1993, particularmente páginas 15-45. Conspícuo testemunha deste sistema, no que se refere à família, é Sílvio Antoniano, sobre o qual já falamos.

4 Cartas ao Padre Bodrato, 15 de abril de 1880,E III 576-577, e a um benfeitor húngaro, em 1 de novembro de 1886, E IV 364.

5 Cfr. PEDRO BRAIDO, Bom cristão e honesto cidadão. Uma fórmula do “ humanismo educativo” de Dom Bosco, RSS 13 (1994) 7-75.

6 Cfr. por exemplo, o discurso aos participantes de sua festa onomástica, 24 de junho de 1879, BS 3 (1879) número 7, julho, página 9; a ex-alunos do Oratório, 24 de junho de 1880, BS 4 (1880) número 9, setembro, página 10; conferência aos cooperadores de Florença, em 15 de maio de 1881, BS 5 (1881) número 7, julho, página 9. O apanhado citado na nota precedente oferece sobre isto uma longa lista, não exaustiva, precedida e seguida de fórmulas análogas (cfr. PEDRO BRAIDO, Bom cristão e honesto cidadão..., páginas 61-74.

7 JOÃO BOSCO, O jovem instruído..., página 7, OE II 187.

8 Discurso a ex-alunos do Oratório em 24 de junho de 1883, BS 7 (1883), número 8, agosto, página 128.

9 P. SCOPPOLA, Dom Bosco e a modernidade, em MÁRIO MIDALI, Dom Bosco na história..., página 537.

10 A tríade costumes-ciência-civilidade aparece nos Regulamentos para os senhores Pensionistas dos Padres Jesuítas, que podem servir-lhes de norma de conduta para toda sua vida. Do Reverendo Padre João Croiset (Lyon, Irmãos Bruyset 1749, VI edição): “Existem deveres religiosos a serem cumpridos, boas condutas a preservar, ciências a adquirir” (página 2); “pretende-se aqui formar um jovem nos bons costumes, nas belas artes e em todas as boas condutas e deveres da vida civil (...). Queremos tornar um jovem completo, mas queremos formar também um verdadeiro cristão, um homem perfeito e honesto” (página 6)

11 Fica ainda, em certa medida, a interrogação sobre a relação entre temporal e espiritual de B. PLONGERON, Afirmação e transformações de uma “civilização cristã” no fim do século XVIII, no volume Civilização cristã.Abordagem histórica de uma ideologia, séculos 18 e 19 (Paris, Beauchesne 1975): “Cristianizar civilizando ou o contrário?” (página 10). No mesmo volume encontra-se um trabalho de X. de Montclos sobre Lavigerie, o Cristianismo e a Civilização (páginas 309-348). O arcebispo da Algéria teve contacto com Dom Bosco, a quem enviou jovens seus e depois encontraram-se em Paris em 1883. A posição de Dom Bosco sobre a relação entre “Cristianismo” e “civilização”, apresenta semelhanças com a do cardeal, naturalmente em um nível teórico mais fraco, condividindo a persuasão da conciliabilidade entre os dois: cfr. em particular as Reflexões sobre a ideologia da civilização em Lavigerie, páginas 337-347.

12 Cfr. PEDRO BRAIDO, A idéia da sociedade salesiana no “Esboço histórico” de Dom Bosco de 1873/1874, RSS 6 (1987) 264.

13 É a mensagem aos cooperadores salesianos que abre o primeiro fascículo do Bibliófilo catótico ou Boletim salesiano mensal, ano III, número 5, agosto 1877, página 2; repetido em Bibliófilo católico ou Boletim salesiano mensal, ano III, número 6, setembro 1877, página 2.

14 Citado em MB XVII 100. No dia anterior, 8 de maio, o cardeal Vigário Lúcido M. Parocchi tinha desenvolvido tema análogo, marcando na caridade exercida segundo as exigências do século, “a nota essencial da Sociedade Salesiana”, BS 8 (1884) número 6, junho, página 90.

15 Carta de 23 de julho de 1878, E III 367.

16 Algum elemento pode ser encontrado em dois breves documentos: PEDRO BRAIDO, Laicidade eleigos no projeto educativo de Dom Bosco, no volume Os leigos na família Salesiana. Roma, Editora SDB 1986, páginas 17-34; IDEM, Pedagogia eclesial de Dom Bosco, no volume Com os jovens acolhamos a profecia do Concilio. Roma, Editora SDB 1987, páginas 23-63.

17 “JOSÉ LOMBARDO RADICE, Melhor Dom Bosco?, em “O Renascimento Escolástico. Revista pedagógica, didática, literária, quinzenal” (Catania), 16 de fevereiro de 1920; reeditado pelo autor no volume Clericais e Maçons diante do problema da escola. Roma, A Voz Socialista, Editora Anônima 1920, páginas 62-64

18 FRANCISCO ORESTANO, Celebrações, volume I.Milão, Bocca 1940 página 47.

19 FRANCISCO ORESTANO, Celebrações, volume I, página 74-76.

20 JOÃO BOSCO, O pastorzinho dos Alpes..., página 90,OE XV 332; o título do capitulo XVII é Alegria, seguido do XVIII Estudo e diligencia, páginas 90-93, 94-99, OE XV 332-335, 336-341.

21 Carta à condesa Grabriela Corci de 12 de agosto de 1871, E II 172: “Para a donzela Maria (...) pedirei ao Senhor três grandes ESSES, isto é que seja sadia, sábia e santa”.

22 Carta ao Padre Francisco Dalmazzo, 08 de março de 1875, E II 465.

23 Carta de 08 de março de 1874, E II 362. Emanuel era oficial de cavalaria.

24 Carta de 10 de janeiro de 1876, E III 6.

25 Cfr. a já sitada conferencia aos Cooperadores salesianos em Roma, em 29 de janeiro 1878, BS 2 (1878) número 3, março, páginas 12-13.

26 Conferencia aos Cooperadores salesianos em São Benigno Canavese de 04 de junho de 1880, BS 4 (1880) número 07, julho, página 12.

27 Como é sabido, é o título de uma das obras de arte, publicada em 1863, do jovem teólogo alemão Matthias José Scheebem (1835-1888).

28 JOÃO BOSCO, O Mês de maio..., páginas 60-61, OE X 354-355.

29 ANTÔNIO DA SILVA FERREIRA, O diálogo entre Dom Bosco e o professor Francisco Bodatro-1864, RSS 3 (1984) 385.

30 Mt 16, 26

31 JOÃO BOSCO, O Jubileu e práticas devotas para as visita da Igrejas. Turin, tipografia P.De –Agostini 1854, página 48, OE V 526.

32 JOÃO BATISTA LEMOYNE, Crônica 1864 SS, Boa-noite de 30 de abril de 1865, página 133-135.

33 F.X. DURRWELL, No Cristo Redentor.Notas de vida espiritual.Lê Puy/Lyon, Edições X. Mappus 1960, página 7.

34 JOÃO BOSCO, Biografia do Padre José Cafasso,página 67 e 89, OE XII 427 e 429.

35 Escreve sobre isso, como já vimos, nos Esboços históricos, a propósito dos “remitentes”: Esboços e históricos... Em PEDRO BRAIDO, Dom Bosco na Igreja..., páginas 78-79.

36 JOÃO BOSCO,Vida do jovem Domingos Sávio...,página 50, OE XI 200.

37 2Cor 1,3.

38 JULIO BARBERIS (G. Grecino), Cronica caderno 3, palestra noturna aos jovens em 21 de agosto 1877, página 11; CFR Outra redação ( E. Dompè), caderno 15, páginas 24-25.

39 JOÃO BOSCO, História sagrada para uso da escola...Segunda edição melhorada. Turin, tipografia Speirani e Tortone 1853, página 90.

40 JOÃO BOSCO, História sagrada para o uso das escolas e especialmente da classes elementares...Terceira edição aumentada. Turin, tipografia do Oratório de São Francisco de Sales 1863, página 97.

41 Leva contigo, cristão...,páginas 24-25, OE XI 24-25.

42 Carta aos Sócios da confraria de Nossa Senhora da Misericórdia de Buenos Aires, 30 de setembro de 1877, E 3 225.

43 É o subtítulo da primeira edição Aviso aos católicos.Turin, tipografia Speirani e Ferrero 1850, 23 páginas, OE IV 121-143.

44 Aviso aos católicos. Turin, tipografia P. De-Agostini 1853, página 6, OE IV 168. Foram marcados os evidentes limites da concepção eclesiológica de Dom Bosco: CFR PEDRO BRAIDO, Pedagogia eclesial de Dom Bosco, páginas 24-42; J. M. LABOA, A experiência e o sentido de igreja na obra de Dom Bosco, em MÁRIO MIDALI, Dom Bosco na história..., páginas 107-133;F. MOLINARI, Igreja e mundo na “História eclesiástica”de Dom Bosco, em MÁRIO MIDALI, Dom Bosco na história..., páginas 143-155.

45 Avisos aos católicos (1853), páginas 25-27, OE IV 187-189.

46 “Lembra-te ó cristão, que tu és homem de eternidade” (a chave do paraíso na mão do católico que pratica os deveres do bom cristão. Turin tipografia Paravia e companhia 1856, página 24 OE VIII 24.

47 JOÃO BOSCO, A força da boa educação..., página 89, OE VI 363.

48 Regulamento para as casas...,Segunda parte, capítulo V do trabalho, páginas 68-69, OE XXIX 164-165; Revela uma precisa hierarquia de valores o fato de que o capítulo V segue imediatamente os capítulos II e IV com o título Da piedade e Comportamento na Igreja. O trabalho com destino do homem, com marca parcialmente diferente antes e depois do pecado original, e antídoto contra o ósseo é já um dos temas capitais da História sagrada (1847): CFR N. CERRATO, a catequese de Dom Bosco na “História sagrada”.Roma, LAS 1979, páginas 308-318.

49 CFR. PEDRO BRAIDO, Laisidade e leigos no projeto operativo de Dom Bosco...,páginas 23-30.

50 BS 4 (1880) numero 9, setembro página 10.

51 CFR.Por exemplo, boa-noite de 07 de julho de 1876, JULIO BARBERIS, Crônica, caderno 2, página 42.

52 Carta de 17 de junho de 1879, E III 476.

53 JÚLIO BARBERIS, Crônica, caderno 19, página 2.

54 CFR Por exemplo o boa-noite de 10 de maio de 1875, JÚLIO BARBERIS, crônica, caderno 1, páginas 2-3.

55 JÚLIO BARBERIS (E. Dompè), Crônica, caderno 15, boa-noite de 21 de abril de 1877, página 7. A fala foi toda dedicada ao diferente perigo ao qual vai de encontro quem escolhe a vocação eclesiástica secular e quem opta pela vida religiosa (Ibidem, páginas 4-6).

56 Conferencia aos Cooperadores de Borgo São Martinho, 01 de julho de 1880, BS 4 (1880). numero 8,agosto página 9.

57 CFR PEDRO BRAIDO, Laisidade e leigos no projeto operativo de Dom Bosco..., páginas 30-31.

58 JOÃO BOSCO, Vida do jovem Domingos Sávio..., página 53, OE XI 203.

59 JOÃO BOSCO, O jovem instruído..., página 28, OE II 208.

60 JÚLIO BARBERIS, Crônica, caderno 2, boa-noite de 07 de julho de 1875,páginas 39-40.

61 MB XI 253, boa-noite aos jovens, em 28 de julho de 1875.

62 JOÃO BOSCO, O jovem instruído..., página 29, OE II 209.


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