Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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Sem Regras para Amar – Eliana Machado Coelho

Psicografado por Eliana Machado Coelho

Pelo espírito Schellida



Indice



1

A tragédia da vida

3

2

Dúvidas amargas

12

3

Preconceitos revelados

24

4

As visões de Bianca

33

5

Difícil decisão

45

6

0 pesadelo de Bianca

57

7

A volta de Miguel

66

8

As exigências de Gilda

78

9

Lições de auto-estima

90

10

Fantasias perigosas

101

11

A realidade da vida

117

12

Assumindo os sentimentos

136

13

A influência de Nélio

150

14

As maldades de Gilda

162

15

Desarmonia entre irmãos

172

16

Momentos de angústia

186

17

Regras da vida

200

18

0 poder de uma prece

213

19

Acusações injustas

225

20

A implacável perseguição

236

21

A verdadeira Suzi

254

22

Nas malhas da traição

269

23

0 império da mentira

282

24

0 desespero de Eduardo

292

25

Erika vai embora

305

26

O auxílio providencial de Lara

317

27

Descendência negra

328

28

Tramas cruéis

340

29

A verdade sempre aparece

351

30

A decadência da mentira

363

31

0 futuro dos preconceituosos

374

32

Encontrando o passado

390

1

A tragédia da vida
Aquela manhã trazia uma brisa fresca, e a densa n inda pairava sobre a paisagem com suas graciosas flores anunciavam o início da primavera.

Era bem cedo, mas na casa de dona Júlia todos se reuniam animados ao redor da mesa farta e posta com muito carinho para o desjejum.

O perfume do café fresco enchia o ar quando se misturava ao aroma do bolo quase quente que era servido.

— Abençoada seja minha esposa! — anunciava seu Jairo com um largo sorriso no rosto, quando viu a aproximação mulher. — São poucos que aqui em São Paulo são servidos ia mesa de casa com café fresco, fartura e carinho. Ao pegar a mão da esposa, ele contemplou seu sorriso is a beijou no rosto quando a puxou para perto de si.

Dona Júlia sentiu-se lisonjeada e até orgulhosa, mas não tinha o que dizer. Era um pessoa simples, esposa e mãe muito dedicada e prestimosa, porém de personalidade firme, e fazia ara manter a família reunida e em harmonia. - Vejam só o papai! Exibindo-se como eterno apaixonado! -exclamou Carla, a filha mais nova do casal, com ar de brincadeira, completou: — E sem perder o jeito galanteador, hein!

- Isso mesmo, Jairo — disse Amélia, mãe de dona Júlia.

- Dê valor ao que sua mulher faz. Existem aqueles que os de casa só quando eles não são feitos

—Ah, vó, de mim a senhora não pode falar — afirmou Helena, filha do meio do casal. — Eu sempre dei valor a tudo que minha mãe faz — completou com jeito mimoso.

Nesse instante dona Júlia, irônica, tossiu forçosamente como se pigarreasse, atraindo a atenção de todos.


  • Oh, mãe! Vai dizer que eu não valorizo a senhora? — tornou Helena com jeitinho.

  • Eu não disse nada, Lena, somente tossi! — revidou a mãe em tom de brincadeira.

  • Como vamos fazer? — indagou Carla, atalhando o assunto. — Iremos primeiro para a casa do Mauro ou vamos direto para o sítio? — perguntou, referindo-se ao outro irmão.

  • Não sei por que a Lara e o Mauro vão fazer o aniversário da minha bisneta lá naquele sítio. Isso complica a vida da gente. Não gosto de viajar muito; já me basta ter vindo pra cá — reclamou dona Amélia.

  • Mãe, essa festa foi um presente da outra avó. Não podemos reclamar — lembrou dona Júlia. — Além disso, não é tão longe assim.

  • E eles não poderiam alugar um buffet e fazer essa festa aqui perto? — tornou dona Amélia — E lógico que a exibida da Gilda tinha que complicar e fazer tudo lá longe.

  • Mãe, deixa isso pra lá. Nós temos que...

O toque do telefone interrompeu o assunto, e Helena rapidamente se levantou para atender:

—Deve ser para mim.

Após os primeiros segundos de conversa, Helena exclamou meio aflita:

—Quando isso aconteceu, Mauro?!

Todos silenciaram atentos para ouvir quando Helena replicou:

—Ela está bem? — e completou: — Calma, vou passar para o papai, ele deve saber onde fica. Iremos agora mesmo.

E enquanto seu Jairo atendia o filho, ela se voltou para todos e avisou sem rodeios:

A Lara bateu o carro e está no hospital. É melhor eu e o papai irmos até lá.



  • Eu irei com vocês — avisou dona Júlia ao se levantar ligeira.

  • Eu também! — quase gritou Carla, afoita.

  • Carla, minha filha, é melhor você ficar aqui com a vovó. — E, virando-se para a outra filha, dona Júlia perguntou: — E a Bianca, com quem está?

  • Com a empregada.

  • Então, Carla, fique aqui, vou ver se mando trazer a Bianca para cá, está bem?

  • Carla — avisou a irmã —, se o Vagner ligar, você conta o que aconteceu. Diga que eu telefono para ele depois. Ah! E vê se não pendura no telefone, nós vamos ligar. Agora vou me trocar — resolveu Helena, saindo às pressas.

***


Algum tempo depois, Mauro recebia seus pais e a irmã no hospital.

Estava nervoso, quase desesperado. Após abraçá-los, secou as lágrimas e contou:

- A Lara saiu bem cedo e foi até a escola pegar o presente de aniversário da Bianca que ela havia escondido lá. Disse que voltaria antes dela acordar para irmos ao sítio. Mas aconteceu o acidente. Do hospital me ligaram e...


  • Mas por que esse presente estava lá no serviço dela? — perguntou dona Júlia.

  • A Bia estava ansiosa para saber o que ia ganhar, e a Lara quis fazer uma brincadeira e achou melhor escondê-lo lá, onde a Bia não iria procurar, já que ela havia vasculhado toda a casa. A Lara me disse que, na pressa para ir embora, se esqueceu de trazê-lo quando fechou a escola.

Mauro se calou quando percebeu a aproximação do médico. Indo em sua direção, ansioso, perguntou:

—Doutor, e minha esposa?

—Sinto muito, senhor Mauro. Ela não resistiu aos feri­mentos.

Mauro sentiu-se gelar. Aturdido de súbito pela trágica notícia, quase cambaleou ao virar-se para seus parentes.

Dona Júlia logo o abraçou, e ambos choravam quando seu Jairo, com lágrimas empoçadas nos olhos, se lembrou e comentou com Helena:


  • Filha, temos que avisar a família da Lara.

  • Pai, a dona Gilda está lá no sítio desde ontem.

  • Meu Deus, eu nem sei o que fazer.

  • Vou telefonar e ver se há alguém em casa. Caminhando lentamente até o telefone, Helena sentia-se

atordoada. Como dar tal notícia? E, mesmo sem saber o que falar, ligou:

—Pronto! — atendeu na casa dos pais de Lara.



  • Aqui é Helena, irmã do Mauro; por gentileza, quem está falando?

  • É o Eduardo, Helena — identificou-se o irmão de Lara com simplicidade. — Tudo bem?

—Nem tudo, Eduardo. Eu gostaria de saber da sua mãe.

  • Desde ontem meus pais estão lá no sítio preparando tudo para o aniversário da Bianca. Aliás, eu estava indo para lá agora mesmo; quase você não me pega em casa. Mas o que aconteceu?

  • Sabe, Eduardo — gaguejou —, eu, o Mauro e meus pais estamos aqui no hospital.

- O que aconteceu?! — ele inquietou-se, preocupado.

  • Houve um acidente com a Lara.

—Onde vocês estão? — perguntou aflito — Ela está bem? Helena ficou em silêncio por alguns instantes e, como não

havia forma de dizer aquilo de maneira diferente, avisou:



  • O acidente foi muito sério. A Lara estava sozinha e...

  • Como ela está? — exigiu.

—O médico acabou de dizer que ela não resistiu aos ferimentos.

O rapaz emudeceu. Então ela insistiu:

—Eduardo?! Você está me ouvindo?

Com voz abafada e trêmula, ele perguntou parecendo mais calmo:

—Onde vocês estão?

Helena passou o endereço e logo voltou para junto de seus pais, onde ficaram aguardando a chegada de Eduardo, que se fez presente em poucos minutos.

Uma névoa triste pairava sobre todos quando o irmão de Lara os cumprimentou com modos nervosos. Diante de Mauro, perguntou:

—O que houve? Até agora não estou acreditando. Mauro, em pranto, contou novamente o que ocorrera, e

Eduardo, confuso, comentou:

—Eu não sei como vou contar isso aos meus pais. Nunca estamos preparados para essa tragédia da vida.

—E sua irmã, a Erika, está com eles? — perguntou Helena.

—Sim, está. Estou pensando em telefonar para o sítio e dizer que a Lara está no hospital, que sofreu um acidente. Somente depois que estiverem aqui... — perdeu as palavras.

Observando sua difícil decisão, dona Júlia interferiu:


  • Faça isso mesmo, Eduardo. Será melhor sua mãe saber só quando estiver aqui.

  • E a Bianca? — lembrou o avô, apreensivo. — Quem vai contar?

Todos se entreolharam e permaneceram em absoluto silêncio.

—Gente! E o Miguel? — perguntou Helena, lembrando-se do outro irmão que estava na Europa.

Mais uma pergunta ficou sem resposta imediata, pois um funcionário do hospital se aproximou e chamou Mauro para as devidas providências, enquanto Eduardo, tentando ser firme, saiu de perto de todos para telefonar aos seus pais.
***
Poucos dias após o enterro, todos ainda estavam abalados, incrédulos e sofrendo muito com a fatalidade.

Miguel, o irmão mais velho de Helena, foi avisado, mas não pôde voltar ao Brasil.

Na casa de dona Júlia, o filho Mauro e a neta Bianca eram acolhidos com imenso carinho.

A pequena menina, apesar de seus cinco anos de idade, sentiu imensamente a separação e, agarrada à tia Helena, não queria sair do quarto, pouco falava e procurava se esconder, não querendo olhar para ninguém.

Carla tentava animar a sobrinha chamando-a para sair, prometendo-lhe comprar brinquedos e sorvetes, mas nada parecia convencer a pequena.

—Deixa, Carla — pediu Helena, que estava sentada na cama onde Bianca se encolhia —, não a force.

—Mas ela não pode ficar assim.


  • Claro que pode. Bianca é pequena, mas entende muito bem e tem sentimentos — tornou Helena com brandura.

  • Eu achei errado a dona Gilda levá-la para ver a mãe no caixão. Senti uma coisa! Tive vontade de tirar a Bia dos braços dela — reclamava Carla, indignada com o ocorrido. — Quem ela pensa que é?! Dona da verdade? Mulherzinha arrogante e orgulhosa que...

  • Carla! Por favor, né! — repreendeu Helena, indicando para Bianca como quem diz que aquilo era impróprio para ser comentado perto da menina.

  • Ora, Lena, é verdade. A Bianca ficou assim depois daquilo. Lembra que, assim que a dona Gilda a colocou no chão, ela saiu correndo, agarrou-se em você e não a largou mais?

Nesse instante dona Júlia abriu a porta do quarto e avisou:

—O Eduardo está aí. Ele veio dizer que a dona Gilda teve algumas crises nervosas e não vem passando muito bem. Hoje ela está melhor e pede que a Bianca vá lá um pouquinho para visitá-la.

—Aaah! Não...! Ela não merece!

—Calma, Carla! Não reaja assim, minha filha — repreendeu a mãe com veemência. — A dona Gilda pode ser o que for, mas e avó assim como eu e tem o direito de ver a menina. Ela acaba de perder a filha, e a única coisa que lhe restou da Lara, nesse mundo, foi a neta.



  • É! Mas quando ela não queria o casamento da Lara com o Mauro ela aprontou poucas e boas — lembrou Carla, falando com modos hostis — e quando não conseguiu separá-los disse que a filha tinha morrido naquele dia. A senhora lembra?!

  • Depois elas se reconciliaram. Foi uma discussão entre mãe e filha, e isso não se leva em consideração.

  • Como não se deve levar em consideração?! Essa mulher nos odeia, sempre nos detestou. E uma criatura monstruosa, maquiavélica, que só pensa em seu rico dinheirinho. A dona Gilda sempre achou que pode comprar tudo. Acho que só agora ela se vê no prejuízo porque não pôde comprar a vida da filha. Ela é daquelas que, se pudesse, iria fazer negócios até com Deus.

  • Carla!!! — repreendeu dona Júlia num grito.

  • É verdade! Ou vocês abrem os olhos ou ela vai querer nos tomar a Bianca. Vai querer comprar a menina com tudo o que tiver a seu alcance, com coisas que nós não podemos dar — respondeu revoltada.

  • Carla, por favor! — exclamou a irmã com firmeza, insatisfeita com a discussão. — Com esse tipo de pensamento você está agindo igual à dona Gilda. Pare, por favor. Respeite pelo menos a Bia!

  • Parem vocês duas! — ordenou dona Júlia. — Agora não é hora para isso. O problema é o seguinte: o Eduardo está aí e quer levar a Bianca para ver a avó. O Mauro falou que, se a Bia quiser ir, ela pode, desde que ele a traga de volta antes do anoitecer. Mas ele quer que uma de vocês duas vá junto. — Virando-se para Helena, pediu: — Lena, traga a Bia pra ela ver o tio, vamos ver o que ela decide.

Enquanto Helena, carinhosamente, pegava a sobrinha no colo, Carla resmungava, contrariada com a situação:

— Esse carinha é outro! Saiu tal qual a mãe. Escutem o que estou falando: se não colocarem um freio agora, essa gente vai tripudiar sobre nós.

Sem dar atenção ao que a irmã falava, Helena, com Bianca no colo, foi até a sala onde o cunhado de seu irmão aguardava.

Agarrada a Helena, a garotinha escondia o rosto no ombro da tia.

—Oi, Eduardo, tudo bem? — cumprimentou a jovem.

—É... quase tudo. — Procurando ver o rosto da menina, ele a tocou nas costinhas e pediu: — Vem com o tio, Bia.

—Olha o padrinho, Bia. Dá um beijo nele.


  • Oi, Bianca. Vamos lá na casa da vovó, vamos? Ela quer vê-la e quer que vá buscar seus presentes. Vamos com o tio?

  • É por isso que ela não me chama de madrinha nem a você de padrinho. Olha como ensina a nos tratar — reclamou Helena.

  • Ah, Helena, isso não é importante — tornou ele, tranqüilo.

  • Somos padrinhos dela, não somos? Para mim é importante sim, Eduardo.

Ele não deu atenção e tentou pegar Bianca do colo de Helena, mas a garota reclamou ao se debater um pouco, momento em que ele se deu por vencido.

Respirando fundo, o rapaz explicou:

—O problema é o seguinte: minha mãe está muito abatida; está sendo um golpe muito duro. Ela quer ver a Bianca, e eu penso que isso vai ajudá-la. Você quer vir comigo?

Helena olhou para Mauro e para sua mãe como se pedisse a opinião deles. Diante da falta de expressão de ambos, que indicava que a decisão ficava por sua conta, voltou-se para Eduardo, explicando:

—Meu namorado vai chegar logo mais e... Interrompendo-a com educação, ele gentilmente pediu:

—Por favor, Helena. Eu creio que o Vagner vai entender. É uma questão de compaixão. Além disso, não vamos demorar tanto.

Então me deixe trocar essa roupa.

Não! Você está bem, não precisa. Não há ninguém lá em casa além de nós, e eu a trago de volta. Não se preocupe com isso.

—... a bolsa, pelo menos.

Após chegarem na luxuosa residência, Helena teve que levar Bianca até a suíte onde a avó estava deitada.

Ao ver o avô, o senhor Adalberto, Bianca, ainda um tanto receosa, estendeu-lhe os frágeis bracinhos, indo para seu colo.

Dona Gilda, que estava largada sobre a cama, pareceu reagi! e se ergueu, sentando-se para abraçar a pequena garotinha.

Helena acreditou ser melhor deixá-los à vontade, já que sua presença havia passado quase despercebida, e voltou para a sala de estar, no andar inferior.

Agora, parada em pé quase no centro do requintado ambiente, passou a admirar a rica mansão.

Quando Érika, a filha mais nova de dona Gilda, soube dc presença de Helena, foi ao seu encontro.

—Oi, Lena!

Abraçando a amiga com carinho, Helena não sabia o que

dizer.


Ambas se sentaram, e Érika desabafou:

  • Parece que vivo um pesadelo. Hoje cedo, depois de um sono muito pesado, acordei e... Sabe, pensei que isso tudo não tinha acontecido. Não acreditei que fosse verdade e tive até c impulso de pegar o telefone para ligar pra ela... — sua voz embargou, mas logo a jovem prosseguiu: — Demorei a voltar i realidade e lembrar, entender o que havia acontecido.

  • Nem sei o que lhe dizer, Érika. Eu também me sinto atordoada. Puxa! Eu e a Lara sempre fomos muito amigas. No sábado à noite nós conversamos e... — Helena se calou por não querer falar sobre um pequeno detalhe da conversa que tivera com Lara e que a incomodava. A colega não percebeu, e ela prosseguiu: — Eu também não acredito. Imagino quanto sua mãe está sofrendo.

  • O que a dona Gilda tem é peso na consciência — desabafou a moça, como se estivesse revoltada.

—Não fale assim, Érika. É sua mãe.

  • É melhor ficar quieta mesmo, antes que... — Após uma breve pausa, prosseguiu: — Diz como o Mauro está.

  • Ele e a Bianca estão lá em casa, como você sabe. Parece que não querem voltar para a casa deles.

  • Que mundo cruel. Esses dois lutaram tanto para ficar juntos. Enfrentaram até a colérica dona Gilda, que tentou mover céus e terras para separá-los e...

Eduardo aproximou-se com os olhos vermelhos e, voltando-se para Helena, pediu:

—Lena, vamos lá em cima. A Bianca quer você. Rapidamente, Helena se levantou e subiu as escadas às pressas em direção ao quarto onde estava a menina.

Ao entrar, Bianca se agarrou a ela novamente, rejeitando ficar com a avó.


  • Bia, não faça isso — pediu a tia com jeitinho. — Vamos, fique com a vovó mais um pouquinho.

  • Deixe, Helena — pediu Gilda. — Não a force. Criança não gosta de gente triste ou amarga.

—Ela ainda está ressentida, dona Gilda. Todos estamos. Gilda suspirou profundamente, acomodou-se entre os

travesseiros e lençóis acetinados que revestiam seu confortável leito, deixando que seu olhar ficasse perdido no teto do quarto.

Ela parecia não querer conversar e, percebendo isso, Eduardo propôs:

— Helena, eu a levo quando quiser. A Bia não está satisfeita, é bom não forçá-la.

— Espere, Eduardo — pediu Gilda, levantando-se vagarosamente. — Vamos até ali, no outro quarto. Quero dar os presentes da minha neta.

Já no outro recinto, sempre agarrada à tia, a garotinha nem olhou o que lhe foi oferecido.

Gilda, parecendo compreensiva, entendeu e disse:

Não faz mal. Criança é assim mesmo. Sempre honesta com os próprios sentimentos. — Virando-se para a menina, ainda completou: — Não tem problema, meu bem. A vovó vai pedir para o tio Eduardo levar pra você brincar lá na sua casa. E ainda prometo uma coisa: vou montar, aqui em casa, uma brinquedoteca só para você. Assim, a qualquer hora que vier visitar a vovó, tudo, tudo o que você quiser, você terá.

Beijando a cabecinha da pequena, Gilda se despediu:

Nesse instante, Helena sentiu-se esquentar ao lembrar-se das palavras da irmã quando ela disse que Gilda iria querer "comprar a menina com tudo o que tiver ao seu alcance".

Virando-se para Helena, Gilda agradeceu:

— Obrigada, viu, meu bem. Obrigada mesmo por você vir junto com ela, mas não se preocupe, pois não vamos incomodá-la muito; você não terá que vir sempre aqui cada vez que quisermos ver nossa neta. Daqui algum tempo, tenho certeza, minha Bianca vai estar disposta e virá sozinha. Aí será só mandar o motorista ir pegá-la.

Helena deu um sorriso forçado e não disse nada. Seu coração estava apertado, e um sentimento de insegurança passou a incomodar.

* * *

O caminho de volta foi feito em silêncio, e, ao chegar em casa, Helena logo viu que Vagner estava no portão a sua espera.

Ela desceu do carro, agradeceu Eduardo e, após cumprimentar o namorado, entraram.

Bem mais tarde, conversando a sós com Vagner, tentou desabafar:



  • No sábado, quando conversei com a Lara, eu a senti tão estranha,: ela disse algo sobre...

  • Oh, Lena, dá pra parar de falar desse assunto? — pediu com certa rispidez, interrompendo-a bruscamente.

—Credo, Vagner! Que horror!

—Estou sendo sincero. Não agüento mais falar sobre morte. A mulher já se foi, deixe-a descansar em paz. Não é esse o correto?

Surpresa, Helena ficou perplexa. Aquela forma gélida de pensar revelava em seu namorado uma criatura insensível. No tempo oportuno ela haveria de censurá-lo; no momento, era melhor se calar.

2

Dúvidas amargas
Com o passar dos dias, Helena estava no serviço onde trabalhava como operadora de computador.

Seus colegas compreenderam sua quietude, entretanto uma amiga mais próxima a procurou para tentar elevar seu ânimo, após observar sua tristeza.

—E em casa, como todos estão? — perguntou Sueli. Helena ergueu o olhar tristonho e desabafou:

—Sabe, Sueli, eu sei que tudo está muito recente, mas...

—Seu irmão ainda está morando com vocês?


  • Está sim. A Bianca também não quer voltar pra casa. Ela está tão abatida, só come quando está comigo, dorme na minha cama e toda encolhida. Mal posso me mexer.

  • Coitadinha. Ela deve estar sofrendo tanto! Logo nessa idade, perder a mãe assim no momento que tanto se precisa de atenção, de carinho...

—Perder a mãe é difícil em qualquer idade, Sueli.

—Eu imagino. Mas a Bia é muito novinha, não entende nada da vida. Sabe, eu gosto tanto dela... — admitiu, extremamente sensibilizada. — Acho que vou lá para tentar conversar com ela um pouco, sair e levá-la pra passear, quem sabe...?

Gostaria que tentasse. Está sendo difícil não ter ânimo e tentar alegrar uma criança. Toda ajuda é bem-vinda.

- E você, Lena? O que tem? Brigou com o Vagner?



  • Sinto uma angústia. Meu coração está tão apertado, dolorido.

  • Você sabe qual é o motivo? — tornou Sueli.

Com o olhar cintilante, transparecendo profundo sentimento de dor, Helena desabafou:

  • Você sabe que a Lara era dona de uma escola de educação infantil, do maternal ao pré-primário, que o pai dela montou antes da Bianca nascer.

  • Sei. Lembro que você me contou que seu irmão não queria aceitar a ajuda do pai da Lara, mas acabou concordando.

  • Ele não queria porque a dona Gilda sempre foi contra o casamento deles. Ela queria que a filha se casasse com alguém do seu meio social.

  • Mas não. A Lara foi se apaixonar por alguém que trabalha na redação de uma revista. Que mulher ridícula!!! — reclamou Sueli, que já sabia de toda aquela história. — Preconceito ridículo!!!

—Só que, depois que a Bianca nasceu, a dona Gilda quebrou o orgulho e se aproximou da filha novamente. Meu irmão não gostou, mas decidiu que não seria ele quem iria estragar a reconciliação das duas.

  • Essa dona Gilda sempre foi um osso duro de roer.

  • Você nem imagina.

  • Sei pelo que você me conta.

—Ela é uma mulher que, garantida por sua posição social, por seu status, pensa e diz tudo o que quer sem se importar com o sentimento de ninguém. Ela é terrível. — Após alguns segundos, Helena prosseguiu: — Mas não era isso o que eu queria dizer. Acontece que meu irmão contou que a Lara, no dia do acidente, tinha ido até a escola buscar o presente de aniversário da Bianca, pois minha sobrinha estava ansiosa pelo brinquedo e o procurou por toda a casa. Disse o Mauro que a Lara, querendo fazer surpresa, guardou-o lá na escola e, naquela manhã, quando foi buscá-lo, aconteceu o acidente.

—Disso eu sei. Onde você quer chegar? — interessou-se



Sueli.

—Acontece que, quando ficou decidido que o Mauro e a Bia ficariam lá em casa, eu fui lá na casa deles buscar algumas roupas, entre outras coisas, e você não imagina como fiquei quando encontrei, no quarto da Bianca, bem escondido no maleiro, o seu presente de aniversário com um cartãozinho, muito carinhoso, com a letra da Lara.



Sueli arregalou seus olhos puxados, ficando com uma expressão interrogativa.

  • Isso não é tudo. O cartão, apesar de muito carinhoso, é um pouco melancólico, quase como uma despedida.

  • Que estranho!!! Você acha que a Lara se suicidou?!

  • Não acredito que ela tomasse uma atitude tão insana quanto essa e, principalmente, no dia do aniversário da filha. Só que é muito estranho ela ter ido buscar algo que, certamente, sabia que estava em sua casa. Ela mentiu, com certeza. Não creio que tivesse esquecido onde guardou o presente da filha.

  • Você contou isso ao seu irmão?

  • Não. De jeito nenhum.

  • O que você acha que a Lara tentou esconder?

  • Sábado à noite, quando nos falamos por um longo tempo ao telefone, a Lara estava estranha. Há algum tempo eu vinha percebendo que ela estava diferente, triste, melancólica, pensativa. Sempre fomos muito amigas e ela me contava tudo. Porém, dias antes, talvez um mês, a Lara parecia estar escondendo algo de mim. Não dei importância, até porque todos temos o direito à privacidade. Mas no sábado ela me fez algumas perguntas estranhas.

  • Estranhas como?

  • Ela me perguntou se eu achava que meu irmão tinha coragem de traí-la, se ele podia ser uma pessoa completamente diferente do que se apresentava. Depois quis saber se eu havia percebido nele alguma atitude desequilibrada, psicologicamente falando. A princípio eu ri, mas depois, quando me interessei pelo assunto, a Lara desconversou.

Será que ela desconfiava do Mauro? E, se desconfiasse, o que isso teria a ver com a mentira que contou sobre ir buscar o presente da filha?

  • Não sei, não faço a mínima idéia. Só sei de uma coisa: isso está acabando comigo. Sinto uma amargura que nem sei explicar. Além disso, sou muito apegada a Bianca e temo que a dona Gilda tente afastá-la de nós.

  • Não acredite nisso, Lena.

  • Tenho meus pressentimentos. Essa mulher é capaz de querer comprar a Bia com coisas que não podemos dar. Ao longo do tempo, percebemos que a Lara começou a se aproximar muito da mãe, talvez por estar sentindo falta do luxo. Eles vivem em um mundo completamente diferente do nosso, cravado de riqueza, luxo, de tudo do bom e do melhor.

  • Se você está com medo de perder a menina para valores materiais, esqueça. Criança gosta de carinho e amor, e isso não se compra.

  • Tenho lá minhas dúvidas.

  • Tudo é muito recente, Lena. Aguarde. Dê um tempo.

  • Além disso, Sueli, voltei a ter novamente aqueles sonhos estranhos.

  • Com aquele homem bonito?

  • No sonho, ele aparece sempre quando estou naquela praça. Parece ser uma cidade européia, com neblina densa, as roupas são pesadas... E um sonho tão real — disse com olhos brilhantes.

  • Não viva na ilusão. Veja se não vai querer brigar com o Vagner por causa de um sonho.

  • Se o homem desse sonho for minha cara-metade, estou condenada a ser infeliz, pois ele deve estar morto. Agora, falando em Vagner, ele anda tão diferente.

  • Não falei que você ia começar a implicar com ele — disse sorrindo.

As amigas continuaram a conversa um pouco mais, mas logo voltaram para seus afazeres.

Mesmo após ter desabafado, Helena ainda sentia-se triste pelo segredo que guardava.

Após alguns dias, mesmo sentindo o amargo sabor da perda, Adalberto, pai de Lara, precisou retomar seu cargo de presidente na empresa metalúrgica da qual era sócio majoritário.

Mascarando a dor, de seu lugar de destaque na mesa de reunião, ele falava aos assessores, diretores e conselheiros da empresa.



  • Hoje vendemos para mais de quarenta países um m/x de produtos, de peças para corte de mármores e granitos, acessórios de todas as espécies, produtos laminados de diversos materiais que vão do aço ao carbono e microligados. Diante das possíveis crises do mercado financeiro, sempre há uma preocupação muito grande em manter nosso nível de produtividade e conquistar novos clientes.

  • No ano passado tivemos uma venda de quinze mil e seiscentas toneladas de peças. E neste ano, até a presente data, já vendemos mais de vinte mil toneladas — lembrou Eduardo, que era um dos diretores presentes e satisfeitos.

  • O salto ainda é pequeno, meus caros! — tornou Adalberto com ênfase, chamando a atenção novamente para si. — Temos capacidade de produzir e vender muito mais. Hoje temos o mercado estrangeiro de braços abertos para os nossos produtos.

  • Bem lembrado, Adalberto — opinou outro diretor. — Podemos dizer que o domínio mercadológico da nossa empresa ultrapassa quarenta países. Sem contar que temos grupos de executivos nos representando em países que passaram por guerras e estão sendo reconstruídos, e certamente teremos contratos com esses clientes em breve.

  • Isso mesmo! — exclamou Adalberto. — A construção civil, principalmente nos países do Oriente Médio, vai garantir as vendas de peças em geral, ferramentas manuais, pás e principalmente peças para tratores, e é aí que a nossa margem de lucro se eleva.

  • A estratégia é simples — acrescentou Eduardo. — Investir em peças pesadas para a agricultura e a construção civil a fim de mantermos as exportações eficientes mediante os pedidos e nego­ciar bem com os principais países do Mercado Comum Europeu, como Alemanha, Espanha e Portugal. Em outras palavras, tratar bem os clientes, pois eles sempre têm razão.

  • Perdoem a minha insistência — interrompeu um gerente que participava da reunião —, mas não podemos esquecer de voltar nosso foco ao treinamento do pessoal e à segurança.

  • Não estamos nos esquecendo disso, meu caro! — consi­derou Adalberto, parecendo insatisfeito com a proposta, talvez incon­veniente. — Só creio que devemos marcar outra reunião para estabelecermos algumas bases, a fim de cuidarmos desses aspectos. — E, sem oferecer trégua, quis encerrar: — Se ninguém tiver mais comentários sobre o processo das nossas estratégias, podemos encerrar a reunião. E não nos resta mais nada, a não ser nos darmos os parabéns pelo sucesso alcançado até agora — concluiu sorridente.

A equipe se levantou e, após breves aplausos, um a um foi saindo depois de ligeiro aperto de mão ao presidente.

A sós com o pai, Eduardo largou-se na confortável cadeira, afrouxou a gravata e questionou:



  • Não achou estranho não terem comentado nada sobre a morte de Lara?

  • Antes de chegar, por telefone mesmo, pedi à Paula que ninguém tocasse nesse assunto. Já recebi visitas e condolências suficientes. Não quero ficar relembrando.

Eduardo pareceu ter tomado um choque com aquela respos­ta. Suas emoções pareciam ter brotado de tal forma que ques­tionou indignado, quase inquirindo:

—Isso é certo, pai?

—Preservar a minha paz interior, é! — respondeu arrogante, sem nenhuma gentileza; e, após reunir alguns papéis, retirou-se sem olhar para o filho.

Eduardo se sentiu mal, algo o incomodou. Foi então que dúvidas nunca surgidas antes passaram a latejar em sua cabeça. "Será que devemos esquecer alguém que se foi?", pensava. "A morte é o fim? Será que há vida além do túmulo?"

Nesse instante a secretária entrou na sala de reuniões e, discreta, tentou voltar para não tirá-lo do que percebeu ser uma profunda reflexão.


  • Paula!? — chamou, percebendo sua presença.

  • Pois não? — retornou a moça educadamente.

  • Algum recado para mim? Alguém ligou?

  • A Geisa. Mas, conforme me pediu, eu disse que estava em reunião.

  • Ótimo. Para ela, sempre estarei em reunião — concluiu com convicção.

Levantando-se, Eduardo arrumou a gravata, alinhou os cabelos rapidamente com os dedos e ia pegando o paletó quando Paula, um pouco constrangida, perguntou recatada:

  • E a dona Gilda, como está?

  • Minha mãe é forte — respondeu chateado. — Ela é uma mulher equilibrada e decidida. Dificilmente algo a abala por muito tempo. — Após alguns instantes de reflexão, com olhar distante, revelou: — Às vezes gostaria de ter um pouco de sua frieza, de sua força. — Mudando rapidamente o assunto, ele pediu: — Paula, por favor, leve esses documentos para minha sala. Vou almoçar agora e... mais tarde eu os examino.

  • Sim, certo — respondeu prontamente.

A partir de então, Eduardo passou a se ver às voltas com questões até então nunca pensadas; afinal, sua educação familiar só abrangia o mundo social dos negócios.

Era um rapaz privilegiado pela natureza, que o avultou com uma beleza nobre e uma superioridade evidentemente espontânea, mas, apesar disso, possuía uma boa índole e um bom coração. Muito cobiçado pelas moças, era alto, cabelos lisos, castanhos bem claros, que emolduravam o rosto alvo, de traços finos e bem delineados, e sempre com a barba bem-feita, onde um belo par de olhos azuis ressaltava como contas rutilantes cercados por longos cílios curvos.

Sua educação requintada, forjada na riqueza, o fez adotar um estilo clássico, porém jovial, de se portar e viver. Ele não conhecia um outro mundo menos glamouroso. Entretanto, essa mesma educação negou-lhe alguns conhecimentos. Ele só teve foco para idéias materialistas que inibiram suas reflexões com relação à eternidade, à fé e ao futuro do ser no além da vida.

Por conta disso tudo, Eduardo encontrava-se agora amar­gurado com a prova da perda irremediável da irmã que tanto amava, chocara-se com as considerações do pai, que se negava a falar sobre a morte de Lara, e com sua mãe, mulher orgulhosa e arrogante, que parecia recuperar-se facilmente de qualquer golpe, até mesmo daquele. Confuso, o rapaz não buscou resposta para suas questões íntimas, deixando-se corroer por pensamentos cruéis e causticantes. Porém, o sábio destino haveria de forçá-lo a situações que pudessem oferecer a oportunidade de questionar e aprender.




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