Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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* * *
Ao chegarem em casa, Gilda parecia revoltada com o ocorrido. Caminhando pela luxuosa sala da mansão, ela esbravejava ofendida:

  • E você, Eduardo, em quem eu pensava poder confiar, sabia de tudo!

  • Não vejo nenhum motivo para a Erika não estar com o João Carlos. Eles se gostam. Deixe a Erika em paz.

  • Não mesmo! Não criei uma filha para que se envolva com uma raça inferior da sociedade e jogue o nome da nossa família na lama. Prefiro vê-la morta. Já basta a burrada que a Lara fez ao se casar com o Mauro e se envolver com aquela família pobre, aquela gentalha.

Raciocinando rápido, Eduardo perguntou-lhe num impulso:

—Se ainda é tão contra a Lara ter-se unido àquela família, por que não implica comigo por namorar a Helena?

Gilda se sobressaltou; não esperava cair em contradição.

Procurando desculpar-se de maneira astuciosa, respondeu quase embaraçada:

Não queira comparar a Helena com o irmão. Ela é fina, requenta nossa casa, comporta-se bem em qualquer recepção. Agora o Mauro sempre quis nos afastar da Lara. Ele é bem diferente.

Aproximando-se, Eduardo avisou-a em um tom quase ameaçador e olhar firme:

- Mãe, se eu descobrir que está ou esteve ajudando a Vera para me indispor com Helena, não sei do que sou capaz. Todos sempre me consideraram uma pessoa mansa, ponderada, prudente, só que me reservo, me controlo muito. Creio que ninguém me conhece bem. Tomara que você não esteja envolvida nisso.

Quando Gilda olhou para o lado, viu a empregada parada observando-os e gritou nervosa:



  • O que você está fazendo aí, estrupido?! Não basta ouvir atrás das portas, agora prefere ver ao vivo e em cores?

  • Desculpe-me, dona Gilda. E que tenho um recado para o seu Eduardo.

  • Vai, desembucha logo! — exigiu Gilda sem nenhuma classe.

  • E que a dona Isabel telefonou para ele seis vezes. Ela estava nervosa e pediu para o seu Eduardo retornar a ligação assim que chegasse.

  • Se alguém tivesse morrido a Isabel teria dito o nome e o lugar do velório. Como não é o caso, não deve ser tão importante assim — quase gritou Gilda. — Agora, vai! Vai, vai, vai...

Eduardo, sem dizer nada, subiu os dois degraus do hall da porta principal, quando Gilda o interpelou:

  • Aonde você vai?

  • Na casa da tia. Quem sabe...

Sem esperar por outra pergunta, ele saiu e se foi.
***
Pouco tempo depois, no apartamento de Isabel, Eduardo, ainda muito amargurado, ouvia a tia explicar:

  • Depois que ela se negou a ir falar com a Helena dizendo que, se nós a obrigássemos, ela iria dizer que foi você quem a seduziu, o Pedro perdeu a cabeça. Pela primeira vez ele bateu na Vera. Foi horrível. Se quiser, Eduardo, eu mesma vou lá conversar com a Helena e admitir que minha filha não tem juízo.

  • Nem sei se isso adiantaria, tia. Minha mãe foi até lá, conversou por mais de uma hora, mas Helena foi irredutível. Num acesso de loucura que me deu, invadi o quarto, falei um monte de coisas, mas ela ficou mais nervosa ainda e a situação piorou.

  • Só quem poderia reverter isso é a Vera. Estou decep­cionada e revoltada com minha própria filha. A Vera nunca foi minha amiga nem companheira. Eu sempre quis ser mãe, perdi quatro bebês, quase enlouqueci, e depois de tanto tratamento tive a Vera, que vem me decepcionando a cada dia. Há momentos em que acho que minha filha é insana para fazer o que faz.

—Se eu tentasse falar com ela novamente, tia, será que conseguiria?

  • Será que você está preparado, Edu?

  • Tenho outra alternativa?

Os dois se entreolharam e, minutos depois, Eduardo bateu na porta do quarto da prima. Vera pediu que entrasse, e ele assim o fez.

Tentando manter-se calmo, o rapaz perguntou para puxar conversa:



  • Você está bem?

  • Acho que já deve saber o que meu pai fez.

  • Por que não diz a verdade, Vera? Seria bem melhor e mais fácil. Você não precisa disso.

  • Quer saber por quê? E porque eu o adoro, Edu. Não vivo sem você. Não agüento ver a Helena do seu lado e sou capaz de tudo, tudo para tê-lo, nem que seja só por um minuto, como agora.

—Não passa pela sua cabeça que posso odiá-la por isso? perguntou calmo, mas magoado.

—Não. Você não é capaz de odiar ninguém. Pode ficar um pouquinho triste, mas logo esquece tudo. Você não se irrita nem com a sua mãe, a quem todos odeiam.

Eu amo a Helena, estamos esperando um filho que quero muito e...

Será que é seu? Tentando se controlar, ele suspirou fundo, ponderou o tom ue voz e argumentou:

- Helena não é uma qualquer. Ela não fica com um e com outro.

- Não na sua frente, claro. Talvez ela tenha dúvidas sobre e o pai do filho que espera, por isso não quer nem ouvir o que você tem a dizer.



  • Por que você fala isso, Vera?

  • Nenhuma mulher é honesta. Se ela o amasse de verdade, você poderia aprontar todas que Helena estaria a seus pés. Com um filho seu na barriga, eu beijaria o chão que você pisa. Agora, preste atenção, se ela não o quer por perto só porque nos viu juntos, pode ter certeza de que encontrou um motivo para se afastar e, como falei, talvez o filho não seja seu.

  • Vamos parar com essa história. Não preciso provar nem pra você nem pra ninguém que esse filho é meu. Se tive uma mulher que foi minha, ela é a Helena. Agora quero saber por que você não me ajuda, já que beijaria até o chão que eu piso?

  • Se eu engravidasse de você eu faria isso.

  • Por favor, Vera. Não brinque com essa situação.

  • Não brinque você comigo. O que está pensando? Que pode me usar e jogar fora?

  • Nunca tivemos nada, Vera. Nós nos encontramos só uma vez numa boate, nos beijamos, sim, mas lembre-se de que eu havia bebido... pelo amor de Deus. Admita que nunca tivemos nada. Não passou disso.

  • Nos meus desejos secretos, sim — falava mansamente e com um suave sorriso. — Sempre tivemos algo, sempre dor­mimos juntos. Além disso, essa não foi a primeira vez que dormi no seu quarto. Adoro vê-lo dormir, beijá-lo dormindo, acariciá-lo, abraçá-lo...

Indignado, mas tentando manter a calma, Eduardo disse:

  • Você é louca. Só isso pode explicar sua atitude. Você é louca, Vera.

  • Sabe, vou anunciar pra todo mundo que estou esperando um filho seu.

  • Isso é burrice! — respondeu agora mais firme. — Mesmo porque existem exames infalíveis para a comprovação da paternidade até antes do nascimento.

Ela gargalhou ao avisar:

—Mas até que se prove o contrário...!

Eduardo sentia crescer imensa raiva em seu íntimo. Estava enojado diante de tanta sordidez. E para não se descontrolar, cometendo algum ato agressivo do qual pudesse se arrepender, virou-se para sair.

Quando estava próximo da porta, quase tora do quarto, Vera o chamou dizendo:

- Já telefonei para a Helena avisando que vou ter um filho seu.

Ele virou-se e, num ato de loucura, foi na direção da prima, iniciando uma violenta agressão.

Isabel, que a certa distância se mantinha na expectativa, escutou o barulho e correu até o quarto pedindo:

—Eduardo, não! Pelo amor de Deus! — implorou, tentando segurar o sobrinho.

A muito custo Isabel conteve o rapaz que, violento, só parou de agredir Vera quando viu a tia interpondo-se entre eles.


  • Venha, Eduardo! Saia daqui — pediu a mulher, já chorando.

  • Não adianta me bater, não! Vou contar pra todo mundo que dormi com você e que é o pai do meu filho! — gritava Vera descontrolada. — E, olha, ainda vou dizer que perdi essa criança porque você me agrediu!

Já fora do quarto, estonteado, ele explicou:

  • Tia! Você está ouvindo? Não pude suportar!

  • Deixa, Eduardo. Venha, sente-se aqui.

—Não. Tenho que ir embora ou vou matar a Vera hoje mesmo.

Foi por isso que o pai bateu nela também. Não sabemos mais o que fazer.

-Isso é mentira, tia. Tudo isso é mentira!
- Eu sei, Edu. Infelizmente conheço a minha filha e...

Além de ter visto a Vera fazer isso antes, acho que ela deve estar usando algo, você me entende?

Quando Vera percebeu que o primo ainda estava em sua casa, começou a gritar novamente, ameaçando-o. Para evitar outro confronto, Isabel pediu: — Vai, Eduardo. Prometo que vou ajudá-lo de alguma forma. Quero você como a um filho.

- Tchau, tia.

O rapaz se foi desorientado, vendo crescer em seu íntimo uma revolta sem igual. Imerso em profundas idéias causticantes Eduardo planejava meios de se vingar de Vera. Ficava imaginando como agredi-la, até mesmo como matá-la, mas fazendo-a admitir segundos antes da morte, que ele era inocente. O que Eduardo não sabia era que o espírito Nélio o atormentava com planos em pensamentos, descontrolando-o cada vez mais. E ele acabara se afinando com esse espírito, aceitando suas sugestões, por não se desvencilhar daqueles pensamentos negativos. Era o intuito de Nélio vê-lo descontrolado, insano, pois se Eduardo comete qualquer desatino seria mais fácil separá-lo definitivamente Helena.


25

Érika vai embora

Naquela mesma tarde, Gilda, bem animada, recebia algumas amigas para um chá.

Todas as mulheres, senhoras elegantes da alta sociedade paulistana, acomodavam-se finamente na sala de estar, rindo e contando suas experiências em alguma situação que para elas era interessante.

Subitamente, Érika chegou, entrou e, aproximando-se um pouco, cumprimentou todas de um modo geral. Quando ia saindo, uma das amigas de Gilda a chamou, perguntando:

— E o namorado, Érika? Está firme?

Não resistindo à ironia, a moça se voltou e sorriu ao

falar:

- É difícil alguém com um metro e noventa e cinco de altura, pesando cem quilos de puro músculo, não estar firme, nao é? Tenho certeza de que o seu marido, com cento e trinta quilos e seu um e sessenta de altura é que não está nada firme.



Cuidado , hein! Ou ele ainda se desmancha. – Antes de se retirar, disse: - Ah!! Sei que ele tem um e sessenta porque é a minha altura, tá queridinha? Agora, com licença.

- Erika!!! — advertiu Gilda num grito.

- Oi mami? Quer que eu fique para conversar mais um pouco com suas amigas? — disse sorridente e com uma pitada de cinismo.

Gilda temeu que a filha prosseguisse com algum outro tipo de comentário inconveniente e não disse mais nada, mas a olho, furiosa por alguns segundos. Erika se retirou.

Só bem mais tarde Gilda adentrou de modo violento n quarto da filha, quase colérica.


  • O que deu em você, Erika?!

  • Em mim? Ora, mãe! O que deu em você para trazer essas peruas aqui pra casa. Por acaso vai escolher alguma para Natal?

  • Não brinque comigo! Quem você pensa que é para falar assim? Pensa que vou deixar barato as suas mentiras?! Você vem enganando a todos dizendo que está estudando, mas não passa de uma enganação para ficar com aquele negro!

  • Sim, mãe — respondeu agora com tranqüilidade. — é negro, e daí?

  • Prefiro que morra a vê-la com um negro!

  • Aliás, mãe, quem não segue seus conselhos e sugestões você sempre quer que morra, não é? De você espero tudo. Não pense que vai me manipular como fez com a Lara. Não acreditei naquelas fotos feitas com uma montagem computadorizada, que diga-se de passagem, foram bem-feitas. E, quanto ao prejuízo que nos deu na academia, já recuperamos. E, quer saber? dizia Erika tranqüilamente, sem o intuito de desafiar. Recuperamos a academia com o dinheiro da sua própria empresa. O papai pagou o prejuízo e investiu muito mais.

  • Do que você está falando?

  • Acho que já é hora de saber de tudo isso. O Edu cobriu os prejuízos que tivemos com o furto encomendado por você. Estou trabalhando na academia, com o João Carlos, pois somos sócios. O Edu ainda investiu mais dinheiro, o que ajudou ampliarmos tudo e abrirmos outra filial. — Após alguns segundos observando o choque da mãe, pediu: — Mãe, deixe de viver nesse mundo de ilusão. Acorde enquanto é tempo. Aprenda a ser feliz, a amar sem se preocupar que alguém seja branco ou negro, rico ou pobre. Ame acima de tudo, ame sem regras, sem...

- Quem você pensa que é? Não fale assim comigo! — interrompeu-a num grito.

- Vamos conversar, mãe. Diga por que você é assim tão preconceituosa, racista, cheia de valores tão inúteis e temporários? Por acaso nunca amou alguém? Nunca se sentiu amada?

Num gesto impulsivo e violento, tomada por um imenso ódio Gilda esbofeteou Érika várias vezes, até que a filha, num momento inesperado, segurou-a pelos pulsos e, com lágrimas no rosto, avisou encarando-a:

- Cheguei a odiar meu irmão pensando que você só fazia isso comigo porque o amava mais do que a mim. Hoje tenho pena de você, que chegou ao ponto de me agredir porque eu sempre, de alguma forma, digo as verdades que você não quer encarar. Pobre Edu que, bondoso por índole, apesar de não confiar em você, ainda não enxergou quem está por trás dessa história nojenta e sórdida que houve entre ele e a Vera. Não é, mãe? Tenho certeza de que você, ao falar com a Helena, deve ter dito que o caso do Edu com a Vera é antigo, que eles não se separam e que, apesar disso, ela deveria perdoá-lo. Não foi? Não perguntei nada disso para a Helena. Hoje ela não estava bem. Nem conversamos direito, mas, conhecendo você, mãe, posso imaginar que foi até lá para garantir que ela nunca perdoe o seu filho nem pense em voltar para ele.

Gilda permaneceu calada, em choque, com o que ouvia.

Largando os pulsos da mãe, calmamente continuou:

- Já tive raiva de você. Agora tenho dó. Foi capaz de trair seu filho querido por causa de seus caprichos. Que amor é esse que tem exigências? — Após alguns segundos em que o silêncio reinou, terminou: — Quero que saiba de uma coisa: a verdade sempre aparece. E fico preocupada em saber como o Edu vai reagir quando souber de tudo o que você fez com ele e com a Helena.

Com lágrimas brotando nos olhos, Gilda falou baixo, mas exigente:

- Saia dessa casa. Você não é minha filha. Saia daqui.

-Você nunca soube ser mãe a nenhum de seus filhos.



  • Suma daqui.

  • Só vou pegar minha bolsa. Não se irrite. Gilda saiu do quarto da filha indo para sua suíte a passos

firmes. Ela estava enfurecida com a situação.

Tranqüilamente, como se já esperasse que aquilo fosse acontecer, Erika pegou algumas coisas, juntou tudo em uma pequena bolsa de viagem e deu uma última olhada em seu quarto como uma despedida.

Ao chegar nas escadas, encontrou com o pai, que ia chegando em casa.


  • Onde está o Eduardo que não deu as caras nem ligou lá para a empresa hoje?

  • Ele teve sérios problemas com a Helena. Ela ficou internada e...

  • Puxa! Custava avisar?! — reclamou Adalberto sem deixar que a filha prosseguisse.

  • Já que ele não avisou — disse Erika sorrindo, beijando-o como sempre fazia —, deixa que eu faço isso. Acontece que o senhor vai ser avô novamente. — Quando viu o pai arregalar os olhos observando-a de cima a baixo, Erika riu e avisou: — Ei! Não olhe pra mim assim não! E a Helena quem está grávida.

  • A Helena?! — admirou-se sorridente. — Quem diria, hein? O seu irmão também...! Não perdeu tempo.

  • Só que ele está com alguns problemas, pai — avisou mais séria. — Sabe, ontem...

Erika contou detalhadamente tudo o que aconteceu, e Adalberto falou irritado no final:

  • A Vera é uma insana! Uma demente! A Helena não pode levar em consideração qualquer coisa que venha dessa louca.

  • Mas a Helena viu os dois juntos, abraçados na cama. Como dizer o contrário?

  • Vou lá falar com a Helena. Gosto muito dessa menina. O seu irmão é um tolo. Vou só tomar um banho.

Erika sabia que o pai era entusiasta momentâneo, que inflamava com uma notícia no primeiro instante, mas após algum tempo já se esquecia e nem queria ajudar mais. Mesmo assim, ela resolveu falar, pois quem sabe o pai resolvesse tomar alguma atitude e ajudar: _

-Pai acho que isso tudo foi trama da mãe.

Olhando melhor para a filha, Adalberto a viu com a mala e

perguntou:

—Vai viajar?

-Não. Quando eu disse algumas verdades, agora há pouco, para a mãe, até mesmo que ela está por trás dessa história, ela me expulsou de casa. Estou indo embora — avisou com tranqüilidade.

—A Gilda ficou louca?!


  • Acho que sempre foi. Nós é que não percebemos, pois para alguém fazer o que ela já fez...

  • Filho meu não sai de casa! Além disso, se ela estiver por trás dessa história toda, hoje essa casa cai.

  • Não estou preocupada comigo. Chegou a hora de eu ir, pai. Estou cansada dessa casa mesmo. Mas esse caso do Edu não pode ficar assim; entretanto, não temos como provar. Arrancar a verdade da dona Gilda ou da Vera é exigir um milagre na Terra.

  • E para aonde você vai?

  • Vou para a casa do João Carlos.

—Não estou gostando disso, Erika. Não quero que minha filha...

Interrompendo-o com um jeito meigo, disse sorrindo:

—Mas gostou de saber que a Helena vai lhe dar um neto, não é?

É diferente. O Eduardo é responsável. Sabe o que quer. E eu não? — ainda retrucou sorrindo. Quero dizer que seu irmão vai assumir o que fez. Tenho certeza disso.

—Isso se a Helena se convencer de que ele e a Vera não tiveram nada.

Nesse instante Eduardo entrou na sala fazendo um grande barulho ao bater a porta.

- Edu! E aí?— interessou-se a irmã, que, com a proximidade, observou sua camisa rasgada. — O que é isso, Edu? Você andou brigando?!

- Rasguei quando estava batendo na Vera — revelou irritado



  • Você está brincando?! — preocupou-se o pai.

  • Só não matei a desgraçada porque a tia entrou no meio — Jogando-se no sofá, esfregou o rosto num movimento nervoso e esbravejou antes de desabafar: — Ah!!! Que ódio! Nunca senti tanto ódio por alguém. Vocês não imaginam que a Vera ainda disse que ligou para a Helena avisando que está esperando um filho meu!

  • E é verdade?! — assustou-se Adalberto.

  • Que absurdo, pai! Claro que não! Nunca tive nada com essa vadia, sem-vergonha — gritou.

  • Ela ligou mesmo, Edu? — perguntou Erika preocupada.

  • Pior que ligou. Telefonei pro Miguel e ele disse que a Helena está inconformada.

  • Não se preocupe. Depois que eu tomar um banho, vou lá falar com a Helena. Vamos resolver isso tudo, você vai ver — avisou o pai, como sempre, com a sua empolgação momentânea.

  • Pai, hoje a Helena não está bem. Além disso, já é bem tarde para uma visita — avisou Erika ponderada.

Eduardo estava esgotado. Com o olhar perdido, envolvia-se em pensamentos transtornados que o abatiam profundamente.

  • Edu, não fique assim. Você...

  • O que aconteceu? Aonde você vai com essa mala? surpreendeu-se ao olhá-la melhor.

  • A mãe me expulsou de casa.

  • E você vai?

  • Fui — afirmou sorrindo, abaixando-se para beijá-lo. Afinal, Edu, você sabe que já está tudo arranjado. Faltam poucos dias... né? Não vai esquecer — disse como se falasse em código para que o pai não percebesse.

  • Não. Não vou esquecer, mas, Érika, eu gostaria de ajudá-la, só que...

  • Hoje tudo ainda está muito tumultuado. — Érika pensou em falar a respeito da certeza que tivera sobre sua mãe estar envolvida, mas acreditou que não era um bom momento. O irmão estava nervoso e já havia cometido muitas loucuras por aquele dia - Não podemos fazer nada um pelo outro por enquanto. Tentei conversar com a Helena, mas... você sabe, ela não quer ouvir ninguém. Agora tenho que ir. Não quero assustar a dona Ermínia chegando muito tarde e ainda ter que contar o que aconteceu.

  • Estou completamente esgotado. Nem sei o que fazer.

Só tenho como idéia fixa matar a Vera.

Adalberto, que havia se servido de um aperitivo, andava de um lado para o outro com um copo na mão, parecendo nem prestar atenção nos filhos.

Após Érika se despedir, ele voltou-se para Eduardo e perguntou:


  • Sabe me dizer se aquela licitação que foi feita...

  • Ah! Não, pai! Pelo amor de Deus! Negócios, não!

  • Mas é que...

Eduardo se levantou e avisou:

—Aceite meu pedido de férias em caráter excepcional e por tempo indeterminado, por favor. Não quero nem ouvir falar de negócios.

Levantando-se, o rapaz ia subindo as escadas quando o pai perguntou:


  • Você acha que eu não devo ir lá falar com a Helena?

  • Acho que não — respondeu sem se deter.

***
Enquanto isso, na casa de dona Júlia, a senhora ainda estava inconformada com o ocorrido.

Helena, após o telefonema de Vera, chorou quase incessantemente. Miguel e Juliana estavam com ela e procuravam falar de outros assuntos para confortá-la, mas somente Bianca, com seu jeitinho meigo, deitada ao lado da tia, a fez parar de chorar.

Na cozinha, dona Júlia, parecendo um pouco mais nada, conversava com o marido, que se demonstrava bem mais equilibrado.

- Sempre eduquei minhas filhas, sempre as orientei como tudo isso pôde acontecer? E o pior é que a Helena não v, querer mais ver o rapaz. Também...


  • Tudo é muito recente, Júlia. Acredito no Eduardo, nei sei bem por quê. Essa situação vai ser explicada. Você vai ver.

  • Sempre confiei nele, muito educado, sensato... Mc agora, diante de tudo isso... Ele traiu nossa confiança.

  • Ele não traiu nossa confiança. A Helena não foi forçac a nada. Você tem que pensar que os tempos são outros. Ela v levar a vida com maiores encargos a partir de agora. Mas, com disse o Miguel, o mundo não acabou.

  • O que vamos dizer para os outros? E os parentes?

  • Diremos que ele quer assumir a Helena e o filho e e não quer. Ninguém tem nada a ver com isso.

  • O Eduardo foi criado na luxúria. Sempre teve tudo que quis. Eduquei meus filhos homens para respeitar as filh dos outros. Veja só, por pior que seja a Suzi, mesmo com casamento marcado, o Miguel a respeita. O Mauro se casou coi a Lara e só depois de anos a Bianca nasceu. Agora, mesm viúvo e namorando a Sueli, reparamos que ele a respeita... Nei quero ver quando o Mauro souber, ele sempre foi...

Um barulho anunciava Mauro, que chegava em casa ma tarde naquele dia, pois tivera de ficar com Sueli por um long tempo.

  • A bênção, mãe! A bênção, pai! — pediu o moço. .Depois do cumprimento, ele perguntou preocupado: — E Helena, como está?

  • Nem te conto, Mauro. Nós nem avisamos por telefoi porque é muito sério.

  • Ela está bem?

  • Sim, está — tornou a mãe.

  • Então o que aconteceu para a senhora estar assim Parece que andou chorando!

  • E que temos uma novidade, filho — avisou o pai, men' sério. — Sua irmã está grávida.

  • A Helena?! Grávida?!

Dona Júlia começou a chorar de novo enquanto seu Jairo f ou aguardando a reação de Mauro, que, estranhamente, não se manifestou.

Abaixando o olhar, ficou pensativo como perdido em profundas reflexões.

- Eu não sei onde errei com as minhas filhas. Que vergonha!

— reclamava a mãe.

Suspirando profundamente, Mauro olhou para os pais e, sem trégua, avisou:

—A Sueli também está grávida.

Seu Jairo arregalou os grandes olhos verdes para o filho e ficou boquiaberto, sem palavras.

Dona Júlia, numa reação inesperada, levantou-se e investiu-se contra Mauro, estapeando-o nos braços, enquanto vociferava:



  • Seu irresponsável! Moleque! O que você fez?!

  • Ei, mãe, pare com isso — pediu Mauro, tentando se desvencilhar dos tapas ardidos e ligeiros.

  • Você tem uma filha! Gostaria que isso acontecesse com ela? Pode dar um jeito de casar o quanto antes! — gritava indignada. — Essa moça praticamente vive aqui em casa. Nós a consideramos como uma filha!

Espalmando ambas as mãos sobre a mesa, a mulher falou em tom mais baixo:

- O que eu fiz, meu Deus? Onde meus filhos estão com a cabeça?

- Mãe, isso também não é coisa do outro mundo.

—Você deveria respeitar mais a Sueli!

- Eu gosto muito dela, vamos nos casar, claro!

- Ah! Se vai! Vai mesmo! Filho meu não vai dar uma de

moleque.

- Calma, Júlia — pediu o marido, tentando amenizar a situação. - Tudo vai se resolver.

- Tudo está é se complicando. Como se não bastasse, agora mais essa.

- O que está acontecendo, gente? — indagou Miguel, atraído pelos gritos da mãe. — Que barulho é esse?

Mauro, contrariado pela reação de sua mãe, ia saindo da cozinha quando dona Júlia exigiu:

—Conta pro seu irmão!

O filho voltou e, cabisbaixo, comunicou:

—A Sueli está esperando um bebê. Vamos nos casar. Miguel não conteve o riso imediato e quase gargalhou quando dona Júlia, irritada, o fez parar, dando-lhe alguns tapas rápidos que lhe arderam nas costas.

—Ai, mãe! Pára! — reclamou Miguel enquanto Mauro saiu sem dizer nada.

Miguel conhecia bem sua mãe e, para não vê-la mais nervosa ainda, saiu sorrateiramente, indo para o quarto onde estava sua irmã.

Porém, ao passar pela sala, surpreendeu-se com a presença de Suzi, que era recebida pelo irmão.

—Oi! O que houve? — perguntou a moça em tom meigo. — Desde ontem não consigo encontrá-lo! O que aconteceu?

Uma imediata sensação de raiva, quase impossível de conter, tomou conta de Miguel, que, a custo, tentou dissimular. Ele não queria conversar com Suzi naquele momento. Desejava estar mais tranqüilo. Temia ter uma reação da qual pudesse se arrepender. Estava por demais ofendido.

—Precisei vir até aqui, já que não atendia nem aos meus telefonemas.



—Minha irmã ficou internada até hoje cedo. Tivemos um dia bem tumultuado, só agora tudo se acalmou.

Suzi se aproximou, tomou-lhe a mão e o puxou para que se sentassem no sofá. Ao tentar beijá-lo, Miguel se levantou e> mesmo assim, ela adotou um tom de ternura na voz frágil e, com um sorriso mimoso, perguntou:

—Está acontecendo algum problema que eu não saiba? Com o sobrecenho enrugado, Miguel respondeu sem encará-la-

—Digo que minha irmã não passou bem, que ficou internada, e você ainda acha que não há problema algum?

- Não quis dizer isso. Mas estou achando você diferente comigo e...

- Estou cansado. Estou preocupado com a Helena. Ela está grávida e minha mãe, como era de esperar, reagiu contrariada.

- Mas isso hoje em dia é tão comum!

- Não na minha casa e com a educação que tivemos.

-Nossa, Miguel! Como você está amargo! Gravidez não é um bicho-de-sete-cabeças. Se não querem mesmo, é só tirar.

Fitando-a com seriedade, ele pareceu indignado com a proposta.

—Por que o espanto? Isso é tão comum.


  • Isso é comum para vadias, não para a minha irmã. Uma pessoa responsável se lembra de que, após a concepção, existe uma vida, e essa vida é de um ser humano criado por Deus. Ninguém tem o direito de matá-lo. Aborto é assassinato.

  • Não há vida nos primeiros meses. Só um aglomerado de células.

  • Se não houvesse vida, aquelas células não se multiplicariam, não formariam órgãos e nem... Sabe de uma coisa? — falou irritado: — Não quero ficar aqui discutindo. Por favor.

—Credo, Miguel! O que deu em você?

Nada, Suzi. Preciso descansar. Quero chegar amanhã bem cedo no serviço, pois já faltei hoje e... gostaria que fosse embora.

- Não vai me levar?


  • Não.

_ Sentindo que alguma coisa não estava bem, Suzi decidiu não alongar o assunto.

- Não fique assim nervoso, meu bem — aconselhou, fazendo-lhe um delicado afago. — Em breve tudo se resolverá.

- Sem dúvida — respondeu secamente.

—Então, tchau. Tchau.

Sentindo-se gelar,Suzi decidiu não dizer nada e se foi.

Inquieto, com o coração apertado, Miguel foi para o quarto onde estavam sua irmã e Juliana.

—Nossa, gente! Preciso ir embora — disse Juliana.

Amanhã preciso estar bem cedo no estúdio. Hoje abandonei a Bete sozinha, coitada.



  • Dorme aqui — pediu Helena.

  • Minha mãe fica preocupada. É melhor que eu vá.

  • Obrigada por tudo e me desculpe por tanto trabalho, Juliana — disse Helena ainda abatida. — Sabe, nossa conversa aliviou muito meu coração. Estou bem melhor agora.

  • Pense bem no que falei. Essa moça, a Vera, não tem nada a perder, e a dona Gilda não vai querer ajudar você. Posso estar julgando, mas pense bem: diante de tudo o que ela já fez para separar meu irmão da Erika, armar essa entre o Edu e a prima seria planejar um piquenique no parque.

  • Agora estou nervosa, magoada. Tenho medo do que posso falar ou fazer. Preciso de um tempo.

  • Fale com o Edu. Deixe que ele se explique. Pense naquilo que contei de como ele chegou no hospital e de como reagiu quando não sabia por que você o tratava daquele jeito.

Miguel, que já estava no quarto, ainda lembrou:

  • Se ele tivesse culpa não insistiria tanto, não faria a cena que fez aqui no quarto, nem falaria com o pai como falou, quando estávamos lá na sala. Acho que não me humilharia tanto, não como ele fez, se eu estivesse no lugar dele.

  • Talvez você não entenda, Miguel. Eu os vi juntos, depois a outra liga pra cá e diz que está grávida! Como posso reagir? Tenho sentimentos, sensibilidade... Estou com pensamentos terríveis. No mínimo, é normal que eu não queira ver o Edu argumentou Helena com o rosto se transformando para chorar.

  • Helena — tornou Juliana —, lembra-se do que eu falei. Isso pode ser espiritual. Pode ser que algum espírito que não quer vê-la junto do Edu a esteja envolvendo com um sentimento de repulsa a ele. Faça o que combinamos, relaxe, ore e durma-Quando você melhorar, iremos ao centro espírita para uma assistência. Depois você vai ver como pensará de modo diferente.

  • Conversar com você me faz bem, Juliana.

—A Juliana tem algo superior que não consigo explicar — afirmou Miguel sorrindo. — Ela tem o dom de espargir um brilho, algo que nos contamina com bom ânimo, esperança...

—Eu?!


—Você mesma! — disse o amigo, que logo lembrou: — Ah! Sabem quem acabou de sair daqui? — Sem esperar pela resposta, completou: — A Suzi.

- E você?! — perguntou Juliana arregalando seus lindos olhos negros e expressivos.

- Não consegui disfarçar muito bem. Nem queria chegar perto dela, mas também não disse nada sobre o que descobri. Aí pedi que fosse embora porque eu queria dormir.


  • E o que você vai fazer? Não vai dizer que sabe de tudo? — perguntou Helena.

  • Tenho uma idéia melhor. Quero desmascará-la. Vou descobrir onde ela trabalha.

  • Miguel! — assustou-se Juliana.

  • Quero encará-la. Só isso. Não vou dizer nada.

  • Você é corajoso — disse a amiga.

  • Escuta, Miguel — cortou Helena. — Que falatório foi aquele lá na cozinha?

  • Ah! Nem te conto! O Mauro havia acabado de contar pra mãe que a Sueli está grávida.

Juliana, perplexa, sentou-se novamente na cama da amiga como se deixasse seu corpo cair, e Helena exclamou, parecendo assombrada:

—A Sueli?!!!

Miguel começou a rir e a contar o que havia acontecido.
***

Aquela foi uma noite longa para dona Júlia, uma senhora tão conservadora, com tantas preocupações. Mas na manhã seguinte, quando o dia havia clareado, ela já estava na cozinha, bem atarefada, quando a campainha tocou.

- Logo cedo? Quem será? — murmurou sozinha.

Ela foi atender quando percebeu o vulto da pessoa que já estava perto da porta principal. Por segurança, abriu o vidro para ver quem era, quando reconheceu Carla, parada aguardando Então rapidamente a mulher abriu a porta, recebeu a filha com lágrimas já a rolar pelo rosto e a abraçou:

—Carla! Filha!

Já acomodadas no sofá, depois de muito choro, Carla pediu:

—Mãe, preciso da senhora. Quero voltar, mãe.


  • Mas é claro, filha — respondeu, secando-lhe o rosto banhado pelo choro. — Nós cuidaremos de você. Mas, por favor, não faça mais o que você fez.

  • Não agüentei mais ficar lá na casa da Sueli. Tudo o que tentei com as agências deu errado. Fiquei vivendo de favor até saber que vocês estavam me custeando lá. Tentei sair e ir morar em outro lugar, mas... sabe, ninguém nos recebe como a própria família. Voltei pra lá e... depois que vocês não me procuraram mais... me senti tão abandonada — disse chorando novamente.

  • Nunca esquecemos você.

  • Eu sei.

—Oh, filha, como você está maltratada, magra... Vamos cuidar de você, quero que volte aos estudos, a ser aquela menina viva, esperta como sempre foi, só que mais sábia.

  • E a Lena, mãe? Já foi trabalhar?

  • Não, filha. A Lena não passou bem. Ela está esperando

nenê.

—A Lena?!

—Mas não tem problema. Depois ela mesma conta. Agora quero que tome um banho e se arrume. Vamos cuidar de tudo, certo?

Apesar da situação tumultuada, dona Júlia ofertava amor e compreensão à filha, que se decepcionara muito com a busca do estrelato.

Carla estava magra, feia e abatida. Parecia ter mais idade do que realmente tinha. Mas, para sua sorte, os pais, compreensivos e amorosos, lhe dariam, além das provisões necessárias, grande parcela de ajuda moral, algo que ela sempre recusara.


26

O AUXÍLIO PROVIDENCIAL DE LARA


Após algum tempo na espiritualidade, Lara se encontrava mais esclarecida sobre a vida além da vida. O espírito Leopoldo, seu instrutor e amigo, havia solicitado sua presença para que conversassem um pouco.

Diante do companheiro, Lara mostrava-se alegre, disposta e bem animada, diferente daquele espírito sofredor e ignorante que se arrastava junto aos encarnados queridos suplicando por algo irreversível, que era prosseguir ao lado deles como se pudesse ressuscitar.


  • Quer falar comigo, Leopoldo?

  • Bom-dia, Lara! Que bom vê-la alegre!

Ah! Hoje é o grande dia! As crianças apresentarão a peça teatral. Acabamos os últimos ensaios. Estou tão ansiosa!

Dá para perceber. Fico muito satisfeito pelo seu restabelecimento tão rápido. Quanto progresso!

Ai, Leopoldo, fico imaginando quanto tempo perdi junto aos encarnados, incomodando-os e me abstendo do socorro. Não Posso negar que sinto falta deles. A saudade é algo inevitável.

mpre acho que são poucos os momentos em que, no estado de sono deles, posso visitá-los.

- Sem esquecer que, para isso, sempre é preciso que eles estejam equilibrados e você também — disse sorrindo.

- É verdade.

- Agora, vamos ao que interessa — propôs animado. —


A Raimunda me contou que você já tem ciência do motivo que tanto a incomodou, que é ter desencarnado tão nova em um acidente de carro, deixando a pequena e querida filha e o marido amado.

  • Ah, sim — respondeu agora sem entusiasmo e cor meio sorriso, demonstrando certa vergonha. Logo, porém, revelou: — Em tempos bem distantes, alguns séculos atrás, conheci Mauro, só que ele não tinha esse nome, é claro.

  • Sim, claro. Prossiga — pediu bondoso —, quero saber dessa história por você.

  • O Mauro tinha mulher e uma filha. Vi-me apaixonada por ele. Cedi a impulsos e vontades inferiores e o assediei, muito custo, Mauro se apaixonou por mim. Eu o influenciava ele fazia tudo o que eu queria. Mauro por fim acabou se separando da mulher, simplesmente a abandonou com a filha. Vivemos apaixonados por um longo tempo em um vilarejo vizinho, até que a morte da esposa, em um acidente, fez com que um mascate que viajava de vila em vila e que conhecia bem a todos trouxesse a pequena menina para o pai, uma vez que não havia parente da esposa por ali. Fiquei louca, enfurecida. Tanto fiz que obrigue Mauro a levar a filha para que sua mãe, uma mulher viúva, e irmã tomassem conta. Eu não suportava a menina, pois achava que ela poderia atrapalhar nossa vida.

  • Você sabe quem é essa menina que você mandoi embora?

  • Bianca, minha filha hoje — respondeu abaixando cabeça e deixando as lágrimas correrem em seu rosto. Logo continuou: — Depois disso não vivemos mais tão bem quanto antes. Alguns anos se passaram e essa irmã do Mauro também morreu. Era uma moça jovem, mas que ficou muito doente após o rompimento de um noivado. O rapaz a deixou por causa de uma moça com um grande dote, além de um título de nobreza. Ele a queria como amante e a jovem não aceitou essa condição. Contrariado, ele a difamou, e isso era algo tão terrível naquela época que a moça ficou doente e sucumbiu até morrer de desgosto. A mãe deles ficou doente e pediu que ele pegasse

a filha de volta. Não suportando aquela jovenzinha, filha de outra mulher dentro da minha casa, mandei-a para um convento. Vivi infeliz pelo resto dos meus dias. Principalmente quando minha mocidade terminou. Fiquei feia, acabada, e Mauro completamente indiferente a mim.

- Hoje essa que foi a irmã do Mauro está encarnada e você sabe quem é ela?



  • Sim, é a Helena. E o rapaz que tanto a fez sofrer é o Nélio, aquele espírito que vive como louco, sofrendo arrependido pelo que deixou acontecer a ela.

  • Então você também entende por que Bianca se dá tão bem com a tia?

  • Sim. Ela, depois que perdeu a mãe naquela época, apegou-se muito a Helena.

  • E você sabe quem é hoje a moça que foi a esposa de Mauro, naquela época, e mãe de Bianca? — tornou Leopoldo bondoso.

—Não. Não a identifiquei.

  • O que sente por essa moça, mulher do Mauro, quando se lembra dela naquela época?

  • Por ela, eu não sei. Mas, pela situação toda, sinto ver­gonha. Arrependimento por ter feito tanta coisa errada. A experiência terrena é tão curta, tão rápida! Representa um segundo diante da eternidade. Não vale a pena trapacear, trair, enganar, matar, roubar... Mas pela ambição de experimentarmos uma gota de prazer nos dispomos a sofrer amargas desilusões, as quais teremos que harmonizar, reconstruir um dia.

  • Lara, se você pudesse, o que faria hoje se reencontrasse aquela que foi a esposa de Mauro? — perguntou o instrutor sondando-lhe as intenções.

Tentaria reparar meu erro. Tentaria fazer com que ela e Mauro se reencontrassem. Se eu tivesse o poder, gostaria de fazer com que eles continuassem de onde eu os separei.

Parabéns! — exclamou sorridente e com olhar bondoso. Como eu suspeitava, creio que já está preparada para irmos até a crosta, junto aos encarnados.



  • Eu? Por quê? — perguntou animada. — Terei a chan de fazer com que Mauro se encontre com essa moça?

  • Não, não — respondeu satisfeito e vagarosamente. Isso já aconteceu e, forçados pelas circunstâncias, eles já encontraram e têm um ótimo motivo para prosseguirem de onde pararam. Na verdade, o motivo para irmos à crosta terrena é outro, e percebo que, pela sua evolução moral em tão pouco tempo, você nos será incrivelmente útil.

Quando percebeu que Lara iria argumentar alguma coisa, adivinhando-lhe os pensamentos, Leopoldo explicou gentilmente

—No momento certo terá detalhes de nosso trabalho nessa excursão. Não é aconselhável que tenha detalhes antecipados pois, se os tiver, ficará despendendo tempo e energia co imaginação e anseios que não nos serão muito úteis, muito pelo contrário.

Lara sorriu e perguntou compreensiva:


  • Posso saber quando partiremos?

  • Daqui dois dias — respondeu o instrutor satisfeito.

***
Conforme o planejado, Leopoldo e sua comitiva, amigos e estudantes na espiritualidade, chegaram à crosta da Terra. Todos, sem exceção, estavam repletos de alegria e bom ânimo em ajudar e aprender.

Lara, com grande expectativa, não negava estar ansiosa, contudo feliz.

—Parece que foi ontem que estive aqui. Mas tenho que admitir que me sinto mudada, apesar de tudo estar praticamente como antes.

Leopoldo sorriu e, após trocar algumas palavras com o grupo de espíritos amigos, explicou:

—Primeiro os queridos companheiros irão até o lugar indicado. Eu e Lara os encontramos depois. Iremos à casa onde vive a filhinha querida da nossa irmã.

Lara encheu-se de alegria, mas não disse nada.

Em poucos segundos, ela e Leopoldo estavam na casa de dona Júlia, onde, com inenarrável prazer, Lara pôde abraçar a

filha amada.

- Bia, meu amor!

Bianca, com sua sensibilidade diminuída pelo tempo, percebeu algo diferente, mas não soube explicar o que era. Ela estava mais crescida e com pensamentos voltados a outros assuntos.

Lara a beijou e a abraçou com carinho, mesmo sabendo que a pequena não a via. A saudade lhe rasgava o peito, e era uma bênção poder estar ali ao lado de quem ela tanto queria.

—Ela não pode me perceber como antes?

—Talvez em uma outra hora — lembrou Leopoldo generoso, logo sugerindo: — Venha comigo, vamos ver como está sua cunhada, a Helena.

Deitada em sua cama, encolhendo-se e chorando, Helena ainda estava deprimida. Todo ânimo que havia ganhado com a conversa que tivera com Juliana e seu irmão fora embora quando passou a ver, a todo instante, a cena chocante de Eduardo e a prima abraçados e dormindo juntos.

O espírito Nélio era quem estava a seu lado provocando, em sua tela mental, seguidas imagens repugnantes do que poderia ter acontecido, o que a abalava imensamente. Como se não bastasse, o mesmo espírito, incessantemente, insuflava-lhe frases sobre traição, desprezo, humilhação e todos os piores sentimentos que pudessem torturá-la.

Ele não pode nos ver? — perguntou Lara. Não. O pobre Nélio está fechado em sua psicosfera de vingança. Suas vibrações são tão inferiores que ele não pode nos perceber.

—Ela está tão deprimida. Está grávida! Veja só. Pobre Helena - apiedou-se Lara.

- Sim, pobre Helena — repetiu o amigo, que logo explicou:

- Mas não podemos nos apiedar dela pela gravidez, mas sim por não buscar na fé verdadeira forças para reagir contra esses pensamentos tão funestos.



  • Mas ela está passando por uma terrível obsessão.

  • Se Helena rogasse a Deus amparo e se despendesse forças e desejos interiores para se apartar desse choro, desses pensamentos, obviamente ela olharia a situação com outros olhos e, além de encontrar harmonia, pois nem tudo é como ela vê iria se desligar das vibrações e dos desejos inferiores aos quais Nélio a condena.

  • Foi por isso que viemos aqui? Quer que eu auxilie e leve alguns esclarecimentos a Nélio?

  • Você não vai tentar auxiliar Nélio. Irá auxiliar a si mesma. Lembre-se de que, há algum tempo, com sua vibração triste e depressiva, ajudou Nélio a impregnar Helena com esse tipo de energia.

Abaixando o olhar, Lara admitiu:

  • É verdade. Puxa, eu não sabia.

  • Mas agora você tem a oportunidade de desfazer o que começou. Entretanto, o momento ainda não é esse. Outros companheiros espirituais estão se empenhando ao máximo para que Helena se erga e vá a uma casa de oração e reavive sua fé, despojando-se dessas energias inferiores que a envolvem. Quando isso acontecer, aí sim, Lara, você terá a sua chance para trabalhar. — Em seguida, pediu: — Agora venha.

Passando pela casa, eles encontraram na sala dona Júlia conversando com Sueli, que, sentada no sofá, estava cabis­baixa.

  • Deverá contar para sua mãe, sim. Onde já se viu? Até quando pretende esconder?

  • Mas eu queria primeiro marcar a data do casamento. Minha mãe vai ficar...

  • Não posso interferir na sua opinião, Sueli. Eu a considero como uma filha. Por mais que eu tenha ficado surpresa e insatisfeita, quando a Lena nos contou que estava grávida fiquei triste pelo acontecido, mas, ao mesmo tempo, feliz por não estar sendo enganada. Pensa bem, filha. Seria melhor você e o Mauro irem até o sítio no fim de semana e contar tudo.

  • Passo até mal só de pensar nisso, dona Júlia.

- Mas vão se sentir bem melhor depois. Se quiser, posso ir junto.

- A senhora faria isso? — perguntou iluminando o rosto com um sorriso.

- Por você, pelo Mauro — ela sorriu e completou —, pelo meu netinho ou netinha, faço isso sim — e puxou-a para um abraço.

Na espiritualidade, Lara olhou para Leopoldo e perguntou:


- Deixe-me ver se entendi: a Sueli está grávida do Mauro?

  • Sim, está — afirmou sorridente.

  • Então é ela?

  • Os planos de Deus são perfeitos, querida Lara.

Muito emocionada pela súbita notícia, Lara não conteve a felicidade de ver a vida sob os desígnios de Deus e discretamente chorou entre um sorriso após abraçar Sueli com imenso carinho, mesmo sem ser percebida pela encarnada.

Após alguns segundos, Lara comentou:

— Agora compreendo que não podemos culpar alguém pelo que nos acontece ou pelas fatalidades da vida. No dia do acidente, eu julgava estar ali, naquela hora, por culpa de minha mãe. Mas hoje entendo que, se não fosse ali, seria num outro momento, em outro lugar. Tinha que acontecer.

—Sem dúvida.

Deixei o Mauro e minha filha nesse período da vida para que eles prosseguissem de onde eu os interrompi.

Exatamente. — Então Leopoldo lembrou: — Agora vamos. Temos que nos encontrar com os outros. Depois voltamos para cá.


***

Enquanto Lara e Leopoldo se retiravam, Juliana chegava na residência de dona Júlia.

- oh, dona Júlia, vim assim que soube que a Helena não está bem. – Ao ver Sueli, cumprimentou-a sorridente: - Oi Su! Como vai?!

-Estou bem, obrigada.



  • Foi bom você ter vindo, Juliana. Espero não estar atrapalhando sua vida. Sei que trabalha e... — explicou-se dona Júlia.

  • Tenho um cliente para visitar, mas é aqui perto e bem mais tarde. Mas, me diga, o que aconteceu?

  • A Helena havia melhorado na terça-feira de manhã, estava bem-disposta, conversando muito com a Carla, que passa toda aquela energia, você sabe como ela é. E foi a Carla quem a convenceu de que a dona Gilda está envolvida nessa história toda. Aí a Helena até aceitou a idéia de conversar com o Eduardo, caso ele aparecesse por aqui. Mas aí, logo à tarde, a Lena voltou a ficar tristonha, abatida, e começou a chorar. Parece uma coisa, só bem depois descobri que o telefone estava mudo, que não recebíamos ligações, e à noite o Eduardo apareceu e ela novamente não quis vê-lo de jeito nenhum, achando que ele deveria tê-la procurado mais cedo. Não deu para entender. Fiquei com ele lá na cozinha, conversamos muito, ele até chorou e, sabe, comecei a ficar com pena dele. Justo eu, que estava tão furiosa com esse menino. Deu vontade de dar uns tapas na Lena.

Não sei mais o que faço, Juliana. A Helena não se levanta, mal come e nem foi trabalhar. E ela não está doente. Daí pensei em ligar para sua mãe e ver se você teria um tempinho, afinal você tem um jeito todo especial, filha. Desculpe se eu a incomodei.

  • Não incomodou não, dona Júlia. Se não desse para vir agora, eu viria à noite. Gosto muito da Helena e de todos vocês. Quero ajudar sempre, se eu puder.

  • Vá lá no quarto, filha. Ela está lá.

Assim que Juliana entrou no quarto ficou comovida pelo estado da jovem.

—Helena, o que é isso, minha amiga? Sentando-se ao lado dela, Juliana afagou-lhe a testa

escaldante e suada e procurou logo acomodá-la melhor para que prestasse atenção.


  • Por que está assim, hein?

  • Não sei — respondeu chorando.

Você falou com o Eduardo? — perguntou mesmo sabendo do caso.

- Não sei o que me deu... Estou morrendo de ódio dele. Quero que o Edu suma. Fico lembrando de quando o vi com a outra... imagino o que fizeram...

- Esses sentimentos não são seus. Pense em como era antes, em como o amava...

- Mas depois que o peguei com a prima...

-Sei que já deve estar cansada de ouvir isso, mas, pense bem: será que essa história é verdadeira?



razão.

Juliana ficou um longo tempo conversando com Helena, procurando trazê-la à realidade, fazendo com que pensasse e agisse de modo diferente. Depois de muito falar, Juliana conseguiu com que Helena aceitasse acompanhá-la, naquela mesma noite, ao centro espírita onde a amiga, através de palestras, receberia orientação para começar a pensar diferente, e onde também, através dos passes, receberia energias revigorantes tão necessárias para o seu fortalecimento espiritual.

O passe funcionaria como uma substância medicamentosa que iniciaria a quebra dos vínculos energéticos entre o espírito Nélio e Helena cada vez que os pensamentos da jovem se fortalecessem na fé e na esperança.

Deus permite que os espíritos inferiores nos abalem porque são nossos pensamentos, nossas más tendências e nossa falta de te que nos ligam a eles*.



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