Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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* * *
Decorridos vários meses dos últimos acontecimentos, na casa de dona Júlia e de seu Jairo, Helena procurava conversar com seu irmão, que, a cada dia, parecia mais deprimido.

— Mauro, sei que você e Lara eram muito apegados, que essa separação brusca trouxe muita dor, mas você não pode ficar assim abatido, desanimado. Ultimamente eu o vejo agir de modo automático, com frieza e sem dar importância às coisas.

Pálido, muito abatido, Mauro se mostrava sem forças até para se explicar.


  • Dia e noite eu penso nela. Quase não durmo. — Lágrimas começaram a rolar em seu rosto e, após secá-las com as mãos, prosseguiu: — Em meus pensamentos eu vejo a sua imagem, ouço a sua voz e... sei que Lara sente a minha falta. Imagino que sofre muito.

  • Será? — ponderou Helena. — Será mesmo que ela não está bem ou está descansando em um lugar bom como achamos que deveria ser após a morte? De repente, a sua amargura, a sua tristeza a está deixando infeliz. Acredito que a morte é um descanso para aqueles que cumpriram sua missão, mas esse descanso eterno pode ser abalado pela tristeza daqueles que aqui ficaram e não esquecem dos que se foram. Se Deus a levou, é porque você pode seguir seu caminho sozinho.

—Não consigo. Não tenho forças para continuar.

—Mauro, você precisa reagir! Pense na Bianca, ela precisa de você.

Encarando a irmã com olhos úmidos e voz rouca, ele disse:

—Não sei o que fazer. Nem coragem para voltar à minha casa eu tive. As vezes penso em vender tudo, até a escola. Mas não sei se a Lara gostaria. Por que isso aconteceu, Helena? Por quê?

Ela não sabia responder. Lembrou-se do presente da sobrinha que havia encontrado e que certamente Lara mentira quando disse que iria buscá-lo, mas não ousou contar. Também não falaria sobre a conversa que tivera com Lara, na qual ela apresentara algumas dúvidas estranhas a respeito do comportamento do marido.

Helena confiou tais revelações somente à sua mãe, dona Júlia, e esta sabiamente lhe pediu que não comentasse nada e que, bem discretamente, colocasse o brinquedo no meio de outros presentes que Bianca havia ganhado, sem dizer nada a respeito dele.

Preocupada com o irmão e tentando ajudá-lo, Helena lembrou:

—Mauro, na próxima semana terminam suas férias, foram mais de dois meses. Lembre-se de que o seu chefe é um homem consciencioso, que entendeu bem sua situação, seus pesares, mas toda empresa precisa de um funcionário, não de um problema a mais. Creio que lá na redação você tem que voltar a ser o que sempre foi, prestativo, dinâmico, com ampla visão sobre os fatos...

—Nem tenho vontade de voltar a trabalhar, sabia?

—Quer ficar aqui enfiado nesse quarto o tempo todo? E o momento de reagir. Pense na Bianca, que precisa muito de você, da sua atenção.

—Minha filha está bem.

—Está bem?! — repetiu com tom de censura na voz. — Ora, Mauro! Ela não quer ir à escola, está triste, deprimida, chora quando o vê nesse estado. E você vem me dizer que ela está bem?

—O que quer que eu faça?

—Dê-lhe atenção, amor... sua presença é muito importante. Ou você não pensa nisso? Já basta ter perdido a mãe. Sua ausência é uma tortura ainda maior.

Nesse instante, dona Júlia entrou no quarto interrompendo a conversa sem perceber e avisou:


  • Helena, telefone. E o Vagner. Levantando-se, a jovem arrematou:

  • Pense nisso tudo, Mauro. E para o seu bem.

—O que foi, Helena? — perguntou dona Júlia com simplicidade.

—Nada, mãe. Vem, deixe-o pensar.

Helena foi até a sala e, depois de atender a ligação que durou um tempo considerável, ficou pensativa por alguns instantes, até que sua mãe tirou-a de suas reflexões.

—E o Vagner, Lena? Já arrumou um emprego?

Com a voz fraca, sentindo-se envergonhada, a moça respondeu:


  • As coisas estão difíceis, mãe. Encontrar um bom emprego não é fácil.

  • Principalmente para ele que não tem uma especialização, não é?

Helena ficou em silêncio, não tinha argumentos para defender o namorado.

Logo dona Júlia considerou:

—Filha, entendo que um bom emprego não está fácil, mas, não sei se você reparou — disse agora com jeitinho —, o Vagner não se esforça, não se empenha, não tem iniciativa. Vejo você trabalhando no mesmo lugar há mais de seis anos e, depois que terminou a faculdade, não pára de fazer curso de informática, atualização nisso e naquilo. E ele? Vocês estão namorando faz tempo, não é?

—Eu sei, mãe — admitiu, aborrecida.

—Sei que você sabe, Helena. Mas vejo que não se mexe, não cobra do Vagner uma atitude, uma melhora de vida. Até quando pretendem ficar aí só namorando? Até quando ele vai viver de "bico"? ... sendo vendedor ali numa loja de sapato numa hora, na outra é repositor em um mercado, depois se torna ajudante de feirante... Não que essas não sejam profissões dignas, mas ele não chega a ficar seis meses empregado! Será que a culpa é sempre do patrão? Você quer saber de uma coisa? O Vagner pode fazer faculdade, pós-graduação, mestrado, doutorado e, mesmo assim, não vai parar em emprego nenhum. Penso que isso é do gênio dele, da personalidade dele, não parar em emprego. Por que será que algumas pessoas simples, que não têm nada na vida, de repente se destacam e conseguem tantas coisas? — sem esperar pela resposta, completou: — Porque aproveitam a oportunidade, possuem um gênio bom, uma personalidade tranqüila, são interessadas em aprender, têm iniciativa para ajudar, não são exigentes, mandonas ou briguentas. Os patrões não gostam de gente metida a besta, e é por isso que muitos conseguem permanecer no emprego, porque são pessoas flexíveis, fáceis de lidar. Enquanto outras, com curso superior e tudo, não param no serviço, não arrumam qualificação. Sabe por quê? Umas pessoas porque acham que sabem tudo, outras porque são arrogantes, pensam que podem dizer tudo a todos, não sendo ponderadas nem flexíveis, mas mandonas, irritadas, exigentes, ou então sendo criaturas desinteressadas, sem ânimo e sem iniciativa. Ninguém suporta conviver com gente assim, por isso os patrões mandam embora mesmo.

Após uma pequena pausa, vendo que a filha permanecia calada, a mãe perguntou:

—Voltemos ao Vagner. Como ele pretende se casar com você? Sim, porque se estão namorando é porque pensam em um futuro juntos, devem pensar em casamento, claro. Ou vocês vão namorar pelo resto da vida?

—Claro que não, né, mãe! Afinal de contas... Interrompendo-a, dona Júlia completou:



  • Afinal de contas você trabalha e pode sustentá-lo muito bem. Acho que é isso que ele pensa. Se vivêssemos anos atrás, eu diria que ele é um caça-dotes.

  • Ora, mãe! — disse, levantando-se do sofá insatisfeita com o assunto.

  • Filha! Estou falando isso para o seu bem! Estou alertando para que você cobre do Vagner uma posição, uma atitude.

  • Que atitude, mãe?

  • Não se faça de desentendida, Helena! Ou ele a deixa para que você não perca seu tempo com esse namoro e tenha liberdade de conhecer alguém que a ame e seja responsável, ou ele que procure se estabilizar profissionalmente, financeiramente. Se o Vagner gostasse mesmo de você, estaria fazendo de tudo para progredir na vida.

  • Eu gosto do Vagner, mãe.

—Será, filha? Será que não se acostumou a ele? Helena enxugava o rosto com as mãos, escondendo-o entre

os belos e longos cabelos, enquanto a mãe continuava alertando:



  • Você acabou de fazer vinte e cinco anos, filha. Quando é que vai pensar em você mesma? Quando tiver trinta e cinco ou quarenta? Quando não tiver mais tanta oportunidade de conhecer um rapaz jovem, animado, trabalhador e que goste de você? Pense, Helena. Você está perdendo sua juventude com uma pessoa que não a valoriza, que não a ama de verdade.

  • Chega, mãe. Tá bom.

  • Só quero saber uma coisa — perguntou, sempre mantendo um tom baixo na voz firme —, quem é que paga as contas quando saem, quando vão ao cinema, a um barzinho...?

O som da campainha interrompeu a conversa, e dona Júlia foi atender.

Helena se sentiu aliviada, retirando-se para o banheiro a fim de ir lavar o rosto.



Dona Júlia, com muito prazer, recebeu Sueli, amiga da filha, fazendo-a entrar e colocando-a bem à vontade.

  • A Helena já vem, Sueli. Mas, me diga, por que está tão sumida? Há tempos não vem aqui em casa.

  • Sabe o que é, dona Júlia, minha mãe não esteve bem nos últimos tempos e eu tive que ir visitá-la nos fins de semana.

  • Ela mora na cidade de Casa Branca, não é? — lembrou a anfitriã.

  • Sim, mas não é no centro da cidade. Meus pais moram em um sítio, um pouco afastado. Qualquer dia faço questão de que a senhora vá visitá-la; minha mãe vai adorar. Ela já conhece a Helena. Tenho certeza de que a dona Kioko vai ficar recomendando: "Se precisar, pode puxar as orelhas da Sueli. Pode dar broncas como se fosse sua filha" — disse arremedando com um jeito engraçado e descontraído.

  • Ah! Se ela me der essa permissão, você estará perdida — afirmou em tom de brincadeira.

Adoro a senhora, dona Júlia. Quando estou aqui me sinto como se fosse da família. Nem lembro que tenho olhos puxados — falou, abraçando-a com meiguice ao brincar.

  • Você é da nossa família, Sueli — argumentou, retribuindo o carinho. — Mas não espere que eu vá a Casa Branca; traga sua mãe aqui quando ela vier a São Paulo.

  • Vou me lembrar.

  • E seu irmão, Sueli? Como está?

  • Estudando feito um louco! E seu último ano de faculdade, sabe como é... O Felipe sempre foi muito dedicado, bem diferente de mim. A senhora viu quanto penei na faculdade, se não fosse a Helena... Sabe, meu irmão não está dormindo nem quatro horas por noite. Admiro a disposição que ele tem. Acredite, o Felipe nem reclama de ter que levantar cedo.

  • Queria que o Vagner fosse assim. Não sei como uma moça como a Helena se dispõe a namorar um rapaz como ele.

Sueli ficou em silêncio, pois sabia do que se tratava, e dona Júlia desabafou:

  • Agora há pouco eu dei uma chamada na Helena. Onde já se viu? Esse rapaz não quer saber de nada com nada! Não fica nem seis meses no mesmo emprego. Então, se acontece isso em todo lugar em que trabalha, o problema não é na empresa, é com ele. Você não acha?

  • Para dizer a verdade, dona Júlia, eu já andei dando uns toques à Helena. Acho que o Vagner não tem futuro, e ela com ele também não terá. Mas ela não reage e acaba ficando chateada com o que a gente fala. Tenho medo de insistir nesse assunto e acabar perdendo a amizade.

  • Você acha que o Vagner tem muita influência sobre ela?

  • Eu acho que sim.

  • Nem sei mais o que faço, viu Sueli — reclamou, desalentada. — Acho que, de hoje em diante, a Helena vai ter que me ouvir todos os dias. Se esse moço não se decidir na vida, a Helena vai ter que tomar uma atitude.

Estampando no rosto um semblante preocupado, dona Júlia se calou no mesmo instante em que a filha chegou e cumpri­mentou a amiga.

  • Vou fazer um suco para vocês.

  • Não, dona Júlia. Não se dê ao trabalho — pediu Sueli. — Vim chamar a Helena para ir comigo ao shopping. — Virando-se para a amiga, esclareceu: — Quero que me ajude a escolher uma roupa para aquele casamento do colega do Felipe.

Helena parecia triste enquanto o vermelho em torno dos olhos continuava nítido.

Sem exibir alegria, com voz fraca, avisou timidamente:

—O Vagner vem aqui mais tarde e...

Com uma energia nada desprezível, dona Júlia sentiu um brando de calor aquecer-lhe e, imediatamente, interrompeu a filha, dizendo firme, mas sem ser agressiva:



  • Helena, minha filha, por acaso o Vagner vai levá-la a algum lugar, a algum passeio que valha a pena? Porque, se for a mesmice de sempre, eu aconselho que vá ao shopping com a Sueli. Tenho certeza de que será mais proveitoso.

  • Puxa, mãe! A senhora não vê que está me magoando? — respondeu com voz embargada, começando a chorar novamente.

—Eu estou alertando você, minha filha. Vai se arrumar logo e saia para passear com sua amiga. Não se prenda por quem não vale a pena.

Com cautela a amiga interferiu na conversa, argumentando:



  • Olha, Lena, eu não queria me intrometer, mas, veja, sua mãe tem certa razão. E hora de você olhar para cima, pensar mais em você.

  • Achei que fosse minha amiga, Sueli — disse com certa melancolia.

  • E sou! Só quero o seu bem! Olha, vamos sair, esfriar a cabeça e depois, se quiser, podemos conversar sobre isso.

  • Helena, estamos falando para o seu bem — tornou a mãe. — Esse moço não a merece.

  • Está bem, mãe. Deixe-me pensar e decidir sozinha — respondeu ainda magoada.

  • Vamos, Lena. Pegue sua bolsa e vamos logo — chamou a amiga.

—Vem aqui no quarto — pediu Helena, tristonha. Dona Júlia, com toda razão, preocupava-se com o futuro

da filha e, conseqüentemente, com seu namoro com um rapaz que não se importava em progredir. Ela sabia que a acomodação de Vagner poderia durar enquanto Helena fosse tolerante. Por isso, decidida, a mãe não iria descansar até que aquela situação se resolvesse.

3

Preconceitos revelados

Na semana que se seguiu, Gilda, acompanhada de sua irmã, Isabel, e de sua melhor amiga, Marisa, apareceu de surpresa na empresa da qual era sócia com o marido.

Exuberantes e ricamente trajadas, elas chegaram ao andar onde ficava a presidência.

Aproveitando a ausência da secretária, adentraram na sala que pertencia a Adalberto sem se fazerem anunciar. Mas não havia ninguém.



  • Gilda, não é melhor esperarmos a Paula chegar? — aconselhou a irmã.

  • O que é isso, minha filha?! — retrucou arrogante e imponente enquanto ria. — Mesmo que eu não seja uma executiva dessa companhia, sou sócia do Adalberto e tenho direito a metade de tudo o que é dele. Se bem que, para muitos aqui, eu não passo de uma mera figura decorativa. Entretanto, cada conta, cada ação, cada título que pertence ao meu marido, também me pertence.

  • Até o valoroso tapete dessa sala, não é Gilda? — brincou Marisa com risos de ironia.

No confortável ambiente executivo ricamente decorado, Gilda caminhou alguns passos, puxou a poltrona que ficava à mesa da presidência e se acomodou bem à vontade, girando-se suavemente de um lado para outro.

—Onde será que está o Adalberto? — reclamou a esposa exigente, sempre trazendo um tom irônico em seu jeito de falar.

—De certo, em alguma reunião — opinou Isabel, sua

irmã.


Gilda não deu importância e, de súbito, começou a mexer nas pastas sobre a mesa e a olhar nas gavetas.

  • O que você está procurando, minha amiga? Pode encontrar coisas que não deseja! — alertou Marisa, sempre sorrindo mecanicamente para se fazer agradável.

  • Meu bem, não é sempre que podemos entrar na toca do lobo sem que ele esteja. E, quando temos oportunidade para isso, o melhor a fazer é conhecer tudo direitinho.

  • O que você quer não deve estar aí! — retrucou Marisa com certa zombaria. — Imagine se o Adalberto vai "guardar o ouro onde o ladrão pode encontrar com facilidade".

  • Nunca se sabe, queridinha. Além do mais, o meu marido não é tão inteligente assim; sem contar que ele nunca sabe quando eu vou aparecer aqui — tornou Gilda.

  • Você teme perder o Adalberto para outra, Gilda? — questionou Marisa.

  • Imagine se vou ter medo de perdê-lo! — afirmou, depois gargalhou. — Para mim seria um favor. Agora, o que eu não admito é perder a fortuna dele! — exclamou com sarcasmo gargalhando a seguir, levando as companheiras também ao riso. Mas logo prosseguiu: — Pense bem, um marido como o meu qualquer uma pode arrumar, mas o patrimônio que temos...!

  • Eu ficaria desesperada se perdesse o meu marido — revelou Isabel um pouco mais séria e com um olhar de censura para a irmã.

  • Pensará assim, irmãzinha, até saber que o Pedro lhe arrumou aqueles lindos pares, você sabe do quê, bem no alto da cabeça. Os homens hoje em dia acham que é moda trair. Eles querem se auto-afirmar, principalmente quando estão ficando coroas; só pensam em arrumar menininhas para se exibirem, mostrarem aos colegas que estão em forma.

  • Ai! Que assunto terrível, Gilda! — reclamou Isabel, insatisfeita. — Vamos parar?

E a realidade, minha filha. E eu não gosto de me iludir.

Nesse instante Eduardo entrou na sala e ficou surpreso com a visita.

—Ora, ora! Quanta honra! — exclamou o rapaz que, beijando uma a uma, as cumprimentou educada e gentilmente

—Olá, tia! Oi, Marisa!

—Esse seu filho, Gilda, sempre elegante, bonito e gentil

—considerou a amiga. — Ah!!! Se eu tivesse uma filha...!



  • O Edu nasceu do amor das entranhas da minha alma! Sou loucamente apaixonada por esse meu filho!

  • ... que certamente deve dar um trabalho! — tornou Marisa, sorridente.

  • Que nada — defendeu a tia. — O Edu é sensato, ponderado e não se envolve em encrencas.

  • E! Mas bem que as encrenquinhas vivem telefonando lá para casa. Se eu fosse anotar o nome de todas elas, não caberia num caderno de cem folhas.

  • Não exagera, mãe — reclamou o moço, sorrindo. — Também não é assim. Só quem liga são colegas lá do clube...

  • Ah, é?! Então devem ser do seu fã-clube, meu amor, porque lá só tem mulher — avisou Gilda alegremente.

  • E em meio a tantas não há nenhuma que preencha o vazio de seu coração? — perguntou Marisa com certa malícia e, voltando-se para Gilda, indagou: — Quem será essa privilegiada ou coitada, dependendo da sua mãe.

  • Ela ainda não existe, Marisa — respondeu o rapaz sorrindo, agora para ser amável.

  • Também, quando surgir, coitadinha, nem quero ver — brincou a tia. — A Gilda vai massacrar essa moça.

  • Massacrar eu não digo, Isabel. Mas vou ser bem exigente sim! — Agora, aproximando-se do filho, Gilda o abraçou, o beijou e disse: — Esse meu filho querido vale ouro, e a moça que o quiser terá que pagar o preço da onça*, e pode ter certeza de que vou cobrar em dólar!

Onça: medida de peso inglesa designada normalmente para pesar ouro; equivale a 28,349 gramas (Nota da Autora Espiritual).



  • Ih, mãe! Não exagera! — pediu, afastando-se do abraço.

  • Exagero, sim.

  • A Verinha é quem parece ser louca por você, não é Edu? — perguntou Marisa, indiscreta.

* onça: medida de peso inglesa designada normalmente para pesar ouro; equivale a 28,349 gramas ( Nota da Autora Espiritual).


- Eu já disse para a minha filha — comentou Isabel, mãe da moça em questão: — Vocês são primos, e isso não é bom. Além do mais, a Vera é uma criatura muito difícil, tenho que admitir.

  • Você é boba, Isabel. Isso é besteira. Eu adoraria ver meu filho com a minha sobrinha. A Verinha é das minhas!

  • Hei, hei, hei!!! — alertou o rapaz quase sério. — Não planejem nada para a minha vida. Só tenho vinte e sete anos e muito para aproveitar.

  • Acho que já está na hora de arrumar um netinho para a Gilda — propôs Marisa com ironia.

  • Vamos mudar de assunto? — pediu Eduardo, não suportando mais aquela conversa. — Mãe, se você veio aqui para ver o pai, esqueça. Ele foi a um almoço com um cliente, nem deve voltar.

—Cliente?! Sei...! — disse Gilda. — Conheço esses almoços. Eduardo pendeu negativamente com a cabeça e sorriu, não

concordando com sua mãe. Então perguntou:

—Em que posso ajudá-la?

Aproximando-se novamente, enquanto lhe beijava o rosto se despedindo, Gilda respondeu:



  • A mim, em nada, meu amor. Eu tenho talão de cheques e cartões. Tchauzinho!

  • Credo, Gilda! Que horror! — censurou Isabel, que também foi se despedir.

Após a saída delas, Eduardo ficou sozinho na sala. Sentando-se na cadeira de seu pai, pensativo, esboçou um suave sorriso no rosto pela cena que acabara de acontecer. "Por que será que minha mãe é assim tão...", pensava, mas foi interrompido pelo vulto que percebeu presente.

—Oi!


Recompondo-se, ele se ajeitou, sorriu e retribuiu o cumprimento:

—Olá, Geisa! Como vai?

Após se aproximar e o beijar, a moça respondeu:


  • Melhor agora. Mas me diga uma coisa, Eduardo: por que você está me evitando? Perdoe-me por ser tão direta, mas isso está me incomodando.

  • Não estou evitando ninguém.

  • Não minta — falou sorrindo. — Está se esquecendo de que minha mãe é a Natália, diretora dessa empresa também e que acompanha todas as reuniões?

—Nem todas, meu bem — respondeu quase insatisfeito.

—A sua mãe, excelente executiva e grande mulher de negócios, acompanha as reuniões onde entram assuntos da contabilidade, números.



  • Ela me disse que não houve reunião nenhuma ontem no horário que eu liguei e a Paula me informou que você não podia atender porque estava em uma — falou a jovem que caminhava lentamente pela sala, exibindo gestos forçosamente delicados, além do tom quase debochado na voz.

  • Eu estava em uma videoconferência. Era isso — replicou, irritado.

  • Faça de conta que eu acredito, tá?

  • O que faz aqui, Geisa?

  • Vim ver você. Já que "Maomé não vai até a montanha...". Passei em sua sala e imaginei que pudesse estar aqui.

  • Mas infelizmente, Geisa, já estou saindo. Tenho que trabalhar — avisou, levantando e se preparando para sair.

  • Eduardo, não fuja! — pediu, se aproximando.

  • Eu não tenho do que fugir. Só tenho que ir trabalhar. Preciso despachar alguns contratos ainda hoje, há muitos para ler.

  • Vamos sair hoje? — convidou com jeito dengoso.

  • Hoje não dá. Agora, com licença, Geisa, eu...

  • Na sexta — insistiu.

  • Olha... — Contrariado, ele perdeu as palavras e finalizou:

-Vou ver. Eu ligo. Agora me desculpe, eu preciso mesmo ir. Tchau.

—Ei! Eu não ganho nem um beijinho?

Ele voltou, beijou-lhe o rosto e saiu em seguida. A moça ficou a sós por alguns minutos até que Natália, sua mãe, entrou.

Natália era uma mulher independente e inteligente que se trajava sempre com muita classe. Com um corpo escultural, mantinha no rosto um sorriso constante que exibia jovialidade, parecendo mais irmã de Geisa, filha que criou sozinha, pois sempre fora auto-suficiente. Dona de um temperamento possessivo que procurava mascarar com ponderação e gestos gentis, almejava sempre o melhor para si e para a filha sem se importar com os obstáculos a vencer.

Ao ver Geisa sozinha, logo questionou após beijá-la:

—Por que está aqui?



  • Eu estava conversando com o Eduardo, mas ele preci­sou ir.

  • Não podemos espantar a presa quando estamos caçando, minha filha — disse, rindo, como se debochasse da moça enquanto a circulava. Logo completou: — Não se fala xô! quando se quer pegar aves.

  • E o que você quer que eu faça?! — irritou-se a moça, sentando-se em uma cadeira em frente à mesa.

Natália curvou-se e, próximo a seu ouvido, cochichou baixinho:

—Se correr atrás de um homem, ele foge. Encontre um motivo para chamar a atenção dele. — Levantando-se, completou com outro tom de voz: — Faça com que ele se interesse por você. Nunca se ofereça. — Andando alguns passos negligentes, avisou: — Todo homem gosta de se sentir no poder, gosta de conquistar, de proteger. Eles sempre querem ser dominantes. E aí que você tem que ser inteligente. Mostre-se frágil, encontre um jeito de atrair a atenção do Eduardo.

—Tá na cara que ele não gosta de mim! — exasperou-se.


  • Quem falou que ele precisa gostar de você, bobinha? — riu.

  • Já que é assim tão simples como você diz, por que você mesma não encontra um cara que a proteja, que a domine e que cubra seus cheques e pague as faturas, hein?

Os olhos de Natália brilharam. Ela suspirou fundo, sorriu largamente, olhou para a filha e respondeu:

— Sabe que você teve uma ótima idéia? Só que vou precisar muito de você!

Virando-se, Natália saiu andando como se desfilasse, sem se despedir da filha.
***
Antes que o dia terminasse, Gilda estava em sua luxuosa residência, andando de um lado para outro da sala de estar, inconformada com o que acabara de acontecer.

Sua amiga Marisa, sentada confortavelmente no sofá, assistia à cena, sustentando sempre um sorriso.

— Onde já se viu?!!! Quem ele pensa que é para não deixar a Bianca vir pra cá comigo?! — vociferava irritada. — Saí daqui, fui até aquele fim de mundo para ouvir um não! Nunca vou aceitar um não. Quando quero uma coisa...

Erika, a filha mais nova de Gilda, que acabava de chegar, interessou-se pelo que a mãe dizia:



  • O que a senhora não vai aceitar, dona Gilda? — perguntou com certa ironia.

  • O comportamento do seu cunhado. Você imagina que o Mauro teve a petulância de não deixar minha neta vir para cá e ficar comigo hoje? — contou em tom exclamativo, voz firme e arrogante.

  • Se bem, Gilda — interferiu Marisa —, que você queria que a menina ficasse aqui até domingo.

  • E daí?! O que a Bianca vai ficar fazendo lá naquela casa pobre, sem graça, que está precisando é de uma boa reforma e pintura, se não de uma demolição?!

  • Ele é o pai, dona Gilda — lembrou a filha que sempre a tratava com certo desprezo. — O Mauro tem todo o direito de lhe dizer um não. Além do mais, a Bia não está acostumada a ficar muito tempo aqui. Vejo que ela só aceita vir com a Helena e, mesmo assim, não agüenta ficar muito tempo.

  • E o que você quer? Que eu fique de braços cruzados vendo a minha neta se acostumar àquela pobreza? Não! Isso vai ter que mudar. A Bianca, quando tomar o gostinho, não vai sair daqui de casa — falava como se delirasse, imaginando como seria o futuro. Levantando o queixo, perguntou: — Quem não gostaria de viver nessa casa linda e maravilhosa, com esse grande jardim, essa bela piscina, onde se tem todo conforto e segurança?

  • Eu! — respondeu a filha impertinente que parecia sentir prazer em irritar a mãe.

Gilda sentiu-se enfurecer. Ela se calou com os olhos arregalados e fixos em Erika, que, com certo deboche, desabafava:

  • Apesar de tanto luxo e conforto, essa casa é fria. O carinho e a atenção que recebi aqui terminaram quando minhas babás e enfermeiras se foram.

  • Ora! Cale a boca, menina! Você não sabe o que está falando.

  • Ah! Sei sim, mãe! Dinheiro nunca aqueceu meu coração nos momentos em que fiquei triste, insegura...

  • Mas aqueceu sua barriguinha, viu, meu bem? Nunca deixou você passar fome, frio ou qualquer necessidade. — Passados alguns segundos, perguntou ainda irritada: — E me diz uma coisa: quando é que você se sentiu insegura, hein?

  • Quando você estava nas clínicas de estética, nos spas, nas reuniões sociais com suas amigas...

  • Suma daqui, Erika! Desapareça!

  • Posso garantir que vou fazer isso, sim. E insuportável ficar perto de alguém como você.

Virando as costas, a moça saiu pisando firme sem olhar para trás.

  • Você viu, Marisa? Viu como ela é? Saiu tal qual o pai. Eu deveria ter tido só o Eduardo. Deveria ter abortado o resto. Aaaah!!! Que ódio!!!! — exclamou, enfurecida.

  • Isso é crise de adolescência. Não se preocupe.

  • Crise de adolescência?!!! Isso é safadeza, isso sim! A Erika já tem vinte e um anos; tava na hora dessa menina se ajeitar na vida e parar de me dar trabalho.

  • Quem sabe o namorado não dá um jeito — argumentou Marisa, rindo.

  • E ela lá quer saber de namorar?

Marisa deixou escapar uma expressão estranha, apertando os lábios como se quisesse segurar o riso.

  • O que é que você está escondendo?

  • Bem, é que todo mundo, lá no clube, está comentando sobre o namoro da Erika com o João Carlos.

  • O quê?!!! — quase gritou Gilda. — O João Carlos, aquele negrão, professor que fica lá na musculação?!

  • Ele mesmo! Mas, minha amiga, temos que admitir uma coisa: o homem é lindo! Ah... que sorriso, que músculos. Como ele é sarado — afirmou de um jeito manso, suspirando. — Isso não podemos negar.

  • Não posso acreditar. Ah! Que ódio! E eu sou a última a saber! Mas não tem nada não — dizia, enquanto caminhava de um lado para outro, enfurecida —, vou acabar com isso logo, logo. Imagine só se isso vai continuar. Não mesmo! A minha filha já namorou e dispensou ótimos partidos do nosso meio. Ela não vai acabar com um pé-rapado daqueles, que ainda por cima...

  • Veja lá, hein? Eu não contei nada.

  • Deixe de ser boba, Marisa. Quando foi que traí você?

  • Mas isso deve ser um namoro bobo, Gilda. Talvez até para desafiá-la. Você vai ver como passará logo.

—Isso nunca deveria ter acontecido. Eu mato a Erika! Nem posso sonhar com esse namoro indo adiante — esbravejava irada, andando nervosamente de um lado para outro. — Uma menina linda como a minha filha com um negro!

Agora, parecendo querer irritar propositadamente a amiga, Marisa debochou:

—Já pensou nos seus netinhos?

Gilda parou, arregalou os olhos assustados e, com a feição transtornada, comentou devagar, quase sussurrando, e com drama na voz:

—Eu, Gilda Araújo Brandão, rica, de olhos azuis, loira, linda e maravilhosa, apresentando à sociedade paulistana os meus netinhos... todos moreninhos e de cabelinhos... Não! — disse, agora aumentando o tom de voz. — Não vai dar para negar que eles têm um pezinho lá na África, vai?! — Depois de alguns segundos, exibindo certo espanto, reforçou: — Não, isso não vai acontecer. Nem que eu tenha que cometer um crime! Mas a Erika não vai me fazer passar por essa vergonha!

Gilda tinha uma personalidade dominadora, sempre às voltas com idéias de forçar as pessoas a agirem conforme sua vontade. Repleta de preconceitos, gostava de criar regras, beneficiando-se, ressaltando-se para ser admirada, invejada. Sim, era isso que Gilda queria ser. Possuía uma anormalidade de caráter, pois não sofria de nenhum tipo de desequilíbrio, já que era por vontade própria, por maldade da alma, que possuía tanto preconceito e insensibilidade. Negava-se sempre a ter qualquer espécie de reflexão na qual pudesse pensar em ter, no mínimo, compaixão.

Na verdade, Gilda era uma mulher infeliz, que não se satisfazia com os simples prazeres da vida e não sabia amar, compreender, nem mesmo tolerar.

Pelo filho Eduardo, a quem dizia adorar, na realidade sentia um apego excessivo, dominador, que estava longe de ser comparado a amor. Mas também havia um motivo para isso; afinal, era uma mulher que acreditava ser importante dizer a verdade, que falava fria e agressivamente tudo o que, para ela, estava correto, sem se importar com os sentimentos, com os desejos e opiniões daqueles que a rodeavam. E uma pessoa, para fazer isso, jamais poderia estar de bem consigo mesma. Seu objetivo na vida era a elegância, estar em evidência nas colunas sociais e ser ressaltada pelo valor da sua fortuna, do seu luxo, do seu status e de sua beleza.

Certamente seu amor verdadeiro havia se atrofiado em algum lugar do passado, onde talvez tenha preferido trocar pelas jóias caras, cravadas de pedras preciosas e raras, sem felicidade e bem-querer.

Adorava seus bens pessoais: perfumes caros, roupas finas de grifes internacionais. Sempre se corroendo de raiva por aquilo que não conseguia dominar; entretanto, sempre tentava, até por meios ilícitos, obter o controle de uma situação de acordo com seus interesses ou suas vontades. Gilda jamais se deixava vencer, invadindo a privacidade alheia e interferindo no destino dos outros.

Só que ela não sabia que sua personalidade impulsiva e forte iria lhe trazer uma onda de negatividade e tristezas futuras, porque deste mundo só levamos conosco, quando partimos, as vibrações que recebemos, as amizades que conquistamos e o amor que cultivamos, nada mais.

4

As visões de Bianca

Seria um fim de semana longo pelo feriado que cairia na segunda-feira. Na casa de dona Júlia todos, sem planos para viagens, ficariam por lá mesmo.

Sueli, sempre animada, procurava trazer a alegria ao rosto de sua amiga, que, ultimamente, não parecia muito feliz.

Elas conversavam no quarto, e a amiga dizia:


  • Vai, Helena! Vê se põe um sorriso nesse rosto!

  • Não enche, Sueli.

  • O que foi desta vez? E o Vagner?

—Não. — Depois de algum tempo, Helena comentou: — Sonhei com aquele homem de novo. E tão estranho, parece que o conheço.

—Huuuumm! — brincou a colega.

—No sonho, ele me deu um beijo. Disse algumas coisas, como me alertando para ser mais firme, mais decidida.

—Sério?


—Disse também que não consegue viver sem mim. Que ficaremos juntos.

—Tem certeza de que não o conhece?

—Tenho. Ele é muito bonito, tem uma fala mansa, um jeito... Mas sabe, Sueli, há momentos em que eu tenho um certo medo dele. Sinto uma coisa, entende? E tão real, tão vivo... Quando acordo, penso que vou encontrá-lo.

Brincando, a colega falou rindo:

- Podemos dizer que você se apaixonou pelo homem dos seus sonhos.


  • Ele pede para eu não fraquejar. Para não ter piedade.

  • Como assim, piedade?

  • Ainda estou pensando nisso. Mas acho que sei o que é

—considerou com um olhar perdido, significando profunda reflexão.

Diante do silêncio, a amiga falou, mudando de assunto:



  • Sabe, estou achando o Mauro um pouco melhor.

  • Aparentemente, sim. Mas meu irmão ainda não é o mesmo. Tem algo errado com ele.

  • Nós conversamos. E verdade que ele colocou a casa à venda?

  • E sim. Ele não quer voltar a morar lá por nada desse mundo. Ah! Sabe, Sueli, aconteceu uma coisa tão esquisita!

  • O quê? — Sueli ficou curiosa.

  • Em uma das vezes que fui até a casa do Mauro, levei a Bianca comigo e, sabe — relatava Helena com certa emoção —, estávamos lá na cozinha, eu tirava algumas coisas da geladeira para desligá-la, e a Bia, de repente, falou assim: "Já vou, mamãe!"

—contou, imitando a voz da sobrinha. — Ela saiu correndo e eu fui atrás, lógico, e na ponta do pés, claro. Quando ela chegou lá no quarto em que dormia, e eu de longe olhando, a Bia disse baixinho: "Oi, mamãe! Eu estava com saudade".

  • E você?! — perguntou assustada.

  • Eu não disse nada. Só fiquei olhando assombrada, claro.

  • Você viu alguma coisa?

  • Nada! Aí, né, a Bia perguntou — contava sempre imitando a voz da sobrinha: — "Você tá triste, mamãe? Fala, fala comigo." Então eu não me agüentei e perguntei com quem ela estava falando.

  • E aí?

  • Ela fez uma carinha feia e disse que eu tinha espantado a mãe dela.

  • Já ouvi dizer que as crianças são bem sensíveis. Algumas conseguem ver coisas que nós não conseguimos.

Então o clima de mistério foi interrompido por dona Júlia, que chegou no quarto dizendo:

—Lena, o Vagner está aí. Imediatamente Helena pareceu se transformar.

Com um ar de insatisfação e semblante preocupado, ela não disse nada. Levantou-se e saiu do quarto, indo até a sala onde o namorado estava.


  • Oi, Vagner — disse friamente, beijando-lhe rápido.

  • E aí, tudo bem?

  • Tudo.

  • Puxa, que calor, hein?

  • É mesmo. A temperatura deve estar passando dos trinta e cinco.

  • Como eu queria estar na beira de uma praia, tomando uma geladinha, comendo camarão... — desejou, sentando-se muito à vontade no sofá, deixando o corpo bem largado.

Helena nada comentou, acomodando-se em outra poltrona enquanto ele continuava:

—Se eu tivesse dinheiro, a esta hora eu estaria longe.

—Ontem você foi ver aquele emprego lá? — perguntou bem firme.

O rapaz demorou um pouco para responder, titubeou, mas acabou contando:



  • Olha, Lena, não me pareceu grande coisa, sabe.

  • Você nem foi ver?! — espantou-se, quase incrédula.

—Vou encontrar coisa melhor, você vai ver. Esticando-se no sofá, ele aproximou-se da namorada e tentou

tocar seu rosto, momento em que Helena fugiu ao contato, levantou-se e reclamou:



  • Eu não vejo perspectiva para o nosso futuro, Vagner. Você sem trabalhar e, quando arruma alguma coisa, não dura nem seis meses.

  • Emprego está difícil para todo mundo — defendeu-se Vagner, gesticulando como se nada pudesse fazer.

  • Eu sei, mas quando se tem uma profissão, uma especialização, fica mais fácil, não acha?

  • Olha, Lena, o que surgir eu faço. É só aparecer. Eu traba­lho em qualquer coisa.

  • Qualquer coisa?! — indagou, quase irritada. E logo passou a perguntar rapidamente: — Você acha mesmo que pode trabalhar em qualquer coisa? Você conseguiria trabalhar em contabilidade? Teria condições de assumir, hoje, um cargo de metalúrgico? Um programador de computador? Ou, então, um especialista em mecânica de elevadores? Engenheiro? Administrador? Advogado? Mecânico de auto?

  • Ei! Calma lá!

  • Você não pode ter nenhuma dessas profissões. Então não diga que pode trabalhar em qualquer coisa. As pessoas que fazem de tudo, que se submetem a isso, é porque não se especializaram em nada. Por exemplo, eu, no próximo mês, deixarei de ser operadora para ser programadora de computadores, sabe por quê? Por que eu me esforcei, estudei, me matei para aprender e, quando surgiu a vaga, a oportunidade lá na companhia, eu estava pronta, preparada. — Agora, andando pela sala, ela falava em um tom baixo, mas bem nervosa: — Eu já cansei de falar: faça um curso, faça uma faculdade, se não quer ser graduado, porque são quatro anos ou mais para se formar, faça uma faculdade tecnológica de dois anos. Tá legal que não é a mesma coisa, mas você terá um campo de trabalho específico e será mais fácil.

  • Você gosta de mim ou quer um homem que tenha um diploma nas mãos? — perguntou irritado, quase grosseiro.

  • Eu quero o melhor para você. E, pela minha experiência, o melhor é que alguém se especialize, se profissionalize. Sabe qual é a primeira coisa que me perguntam quando eu digo que tenho um namorado? "Que profissão ele tem?"

  • Tá bem! Eu entro num curso e pago com o quê? Hã?

  • Se você arrumasse um emprego simples e parasse nele, conseguiria pagar até uma faculdade, pois tenho certeza de que iria aparecer ajuda de alguma forma. Sua irmã poderia lhe dar uma força, sua família...

  • Você é que pensa!

—Até eu o ajudo, por que não o faria? Vou contar um caso que até acho que já contei: Lá na faculdade, onde estudei, havia um cara que era faxineiro. Todo mundo o incentivava para que estudasse, pois nem o ensino fundamental completo ele tinha. Daí que esse moço fez um supletivo, depois passou no vestibular. Eu terminei a faculdade, saí de lá e, há uns seis meses, aconteceu uma palestra empresarial lá no anfiteatro da faculdade. O assunto em questão era de muita importância para a minha área e eu fui assistir. Quando cheguei, qual não foi a minha surpresa quando vi aquele moço, que era faxineiro, barbeado, bem arrumado e muito atento ao evento. Não resisti e fui até ele perguntar como ele estava e quais eram as novidades. Sabe, ele estava terminando o curso de Mestrado e já dava aula ali mesmo e em outras universidades.

Vagner respirava fundo, envergava os lábios para baixo e olhava para o lado, exibindo-se insatisfeito com o assunto. Mas Helena não se importou e continuou:



  • Sabe o que aprendi? Que quando realmente queremos nós realizamos, fazemos. Moveremos céus e terras, mas conseguiremos. Agora, se você só reclamar da vida, do governo, dos empresários e ficar parado de braços cruzados, nada vai acontecer. Pode ter certeza de que ninguém bate na porta da gente dizendo: "Olha, eu tenho uma vaga para gerente ou diretor lá na minha empresa, você quer?"

  • O que deu em você hoje, hein?!

  • Há algum tempo estou engasgada com tudo isso e decidi falar com você a respeito. Está sendo difícil...

  • Lena, a gente se ama. Tudo vai dar certo.

  • Quando? Acabei de fazer vinte e cinco anos, você tem vinte e sete, namoramos há muito tempo. O que vamos fazer das nossas vidas? Vamos namorar a vida inteira?

  • Podemos nos casar, se é isso o que você quer — respondeu meio estúpido.

  • Casar?! Você enlouqueceu?! — perguntou firme. — Casar e viver do quê? Vou trabalhar e sustentar você e a casa, sozinha? Vamos morar onde? Viver de aluguel? Ou vamos nos sujeitar a morar na casa dos meus pais ou da sua mãe com a sua irmã?

  • Eu vou arrumar alguma coisa. E questão de tempo! Calma!

  • Tempo?! — alarmou-se. — Já tivemos tempo demais. Já tive calma demais.

O silêncio reinou absoluto.

Helena, agora sentada à beira do sofá, abaixou a cabeça, deixando que seus longos cabelos cobrissem seu rosto, enquanto cruzava as mãos na frente do corpo.

Após alguns minutos, aproveitando que Vagner não se manifestava, ela desfechou com um só golpe, parecendo bem decidida, e, apesar de sua voz delicada, foi firme:


  • Estou cansada, Vagner. Quero dar um tempo entre nós. Ele pareceu não acreditar. E ela voltou a afirmar:

  • Não dá mais.

Vagner agora se transformou. Seu olhar tinha um brilho de raiva e contrariedade. Seu rosto se cobriu por um rubor intenso, e, com voz grave, áspera, quase ameaçadora, falou em tom baixo:

—Eu não vou me afastar de você! Eu a amo muito, Helena. Se você me deixar...

Surpresa por desconhecer aquele lado de sua personalidade, Helena levantou vagarosamente o olhar, experimentando um choque. Sentiu que teria de ser firme, categórica, e por isso forçou-se a dizer:


  • Não podemos continuar namorando, Vagner. Acabou. Não quero mais ficar com você.

  • Existe outro, não é? — perguntou com voz cortante e orgulho ferido.

  • Não. Não existe ninguém.

  • Então foi sua mãe que encheu sua cabeça?

—Você acha que eu não sou capaz de tomar uma decisão dessa sozinha? Pensa que sou ingênua, que não tenho opinião?

  • Penso que você me ama e por amor fazemos tudo.

  • Não! Nem tudo. — Mais firme, ela respondeu: — Para que duas pessoas fiquem juntas, não basta só o amor. Junto com o amor é preciso vir a verdade, a lealdade, a sinceridade, a confiança e, principalmente, a responsabilidade.

  • Quando foi que eu menti para você? — irritou-se. — Quando eu não fui leal e a traí? Quando não fui sincero e dei motivo para que desconfiasse de mim?

  • Você não foi leal quando me disse que ia ver um emprego e eu arrumava dinheiro para se vestir, para ir até a empresa e, depois, você acabava não indo. E isso não foi só uma vez. Você mentiu para mim, não foi sincero e por isso, e muito mais, não posso confiar em você. — A essa altura dos acontecimentos, Helena não conseguia conter as lágrimas teimosas que corriam longas em sua face. Mesmo assim, agora com voz mais branda, ela pediu: — Vamos terminar por aqui antes que a gente se magoe muito.

  • Você está jogando na minha cara o dinheiro que me emprestou?

  • Não. Estou falando das vezes que me enganou, que não foi responsável.

Vagner ficou nervoso e, com o dedo em riste apontado para Helena, falou em tom alto e grave:

  • Se você pensa que tudo vai ficar assim, está muito enganada. Ninguém faz isso comigo não, viu?!

  • O que está acontecendo aqui?! — perguntou dona Júlia, firme, exibindo autoridade. — Você está na minha casa, Vagner, lembre-se disso.

O rapaz sentiu-se aquecer, agitando-se de um lado para outro, e, com olhar colérico para a dona da casa, encarou-a e ameaçou com voz quase feroz:

  • Olha aqui! Isso não vai ficar assim não, entendeu? Apontando para a porta da rua, a mulher quase gritou:

  • Fora daqui, Vagner!

Virando-se, ele saiu a passos firmes, batendo a porta principal após passar por ela.

Voltando-se para a filha, dona Júlia, entendendo o que havia acontecido, comoveu-se ao vê-la nervosa e chorando.

—Filha, não fique assim. — Sentando-se ao seu lado, afagou-lhe com carinho, confortando-a ao puxá-la para que recostasse em seu peito.

Soluços repetidos entrecortaram a fala de Helena, quando



disse:

  • Terminei tudo, mãe.

  • Não fique assim. Calma. Ele não era mesmo um bom rapaz para você. Estou surpresa com sua decisão, pensei que fosse se demorar mais para fazer isso. Mas estou feliz.

  • Há algum tempo me sinto cansada dessa situação.

  • Ainda bem que você enxergou isso a tempo, filha. Eu estava com tanto medo. Uma vida a dois não se sustenta só de amor. Ambos têm de assumir responsabilidades — comentava a mulher experiente enquanto acarinhava a filha. — Agora você está nervosa, triste porque tudo isso acabou de acontecer. — Pegando no rosto de Helena com carinho, ela o ergueu, secou as lágrimas e, sorrindo, sugeriu: — Vá, tome um banho frio, do jeito que você gosta. Pode até demorar que eu não ligo. — Depois de rir para animá-la, prosseguiu: — Aproveite que está muito calor, se arrume e, depois do almoço, pegue a Sueli e vão dar uma volta no shopping, como vocês gostam de fazer. Você é bonita, filha. E inteligente, delicada, responsável. Não vale a pena ficar sofrendo por alguém que não pensa em você, que não se esforça para lhe dar segurança, proteção. Você jamais poderia confiar nele. Mas agora tudo acabou. — E, animando-a, propôs: — Tome um banho e ponha uma roupa bem bonita, vai!

  • Eu me esqueci da Sueli...

  • Quando vocês começaram a discutir, nós demos uma espiadinha, né — revelou a senhora com um jeito maroto para alegrar a filha. — Então, quando vimos o que estava acontecendo, saímos de fininho. Fui terminar o almoço e a Su está lá no quarto brincando com a Bia.

  • Ainda bem que o papai não está em casa.

  • A oficina hoje deve estar bem cheia. Daqui a pouco ele e o Mauro chegam. Ainda é cedo.

Nesse instante, a porta abriu, e Carla entrou eufórica.

  • Gente!!! O que aconteceu?! — Sem esperar por uma resposta, contou esbaforida: — Encontrei o Vagner lá embaixo, na rua, com uma cara igual a do capeta. Nem olhou pra mim! Quando pensei em falar, ele disse bem áspero: "Fala pra sua irmã que eu não vou ficar mendigando por ela, não! Mas ela vai me pagar!"

  • Nós terminamos — revelou Helena.

  • E você está chorando por isso?! — perguntou Carla com seu jeito eufórico, entusiasmado. — Deveria é soltar fogos! Aquele lá não merece nem uma gota de lágrima sua.

  • Bem, vamos esquecer tudo isso — aconselhou dona Júlia. — Vai, Lena, toma um banho, tira esse vermelho do rosto e... vida nova, minha filha! — Virando-se para Carla, exigiu: — E quanto a você, mocinha, onde estava até agora? Saiu cedo e nem falou aonde ia!

  • Credo, mãe!!! Ainda não são nem dez horas! Fui na casa da Cristina. Na terça-feira nós vamos fazer umas fotos.

  • Carla! Já disse, não quero saber disso. Tira essas fantasias da cabeça. Não viva de ilusão. Arrume um emprego, tenha uma profissão...

  • Mãe, a senhora não entende! — continuou animada. — Ser modelo, manequim, artista, é uma profissão!

  • E uma profissão que, se der certo, quando a idade chegar, você estará desempregada. Minha filha...

  • Que nada, mãe! A senhora vai ver como é legal ter uma filha famosa — respondeu, indo para o quarto sem dar nenhuma chance para que a mãe dissesse algo.

  • Meu Deus! Quando essa minha filha vai criar juízo?


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