Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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* * *

Gilda havia chamado amigos íntimos, alguns membros da diretoria da empresa, para oferecer um almoço em volta da piscina.

Isabel, sua irmã, sempre ponderada, não tirava os olhos da filha Vera, que se insinuava com extrema liberdade, exibindo-se para o primo Eduardo.

O rapaz nem parecia notá-la, a princípio, mas com o decorrer do tempo sentiu-se saturado com tanto oferecimento.

Na primeira oportunidade, Isabel atraiu Vera para um canto e a repreendeu:

—Não me faça passar mais vergonha, Vera! — exigiu, falando com os dentes cerrados.

—Qual é, mãe?


  • Você só falta se atirar em cima do Edu. Isso está ficando ridículo! Deixa de ser oferecida.

  • Se ele deixasse, bem que eu me atiraria — falou zombando.

—Vera!!!

A aproximação de Gilda interrompeu a repreensão, e a moça, aproveitando a ocasião, saiu de perto da mãe.

—Veja só — observou Gilda —, um dia desse, com esse sol radiante... E pensar que minha neta está socada lá naquela casa. Deve estar empoleirada lá naquele quarto.

—Você não a convidou? — indagou Isabel.



  • Lógico que sim! Pedi que a menina ficasse aqui até o feriado, mas o Mauro não deixou. Será que ele acha que eu vou arrancar algum pedaço da minha neta? — considerou arrogante e com deboche.

  • Quando os filhos são pequenos, os pais costumam fazer isso, Gilda. Principalmente na situação dele, que está viúvo há tão pouco tempo — reconheceu a irmã.

  • Não se esqueça de que a mulher dele era minha filha e que a filha dele é minha neta. Na verdade, a Bianca foi tudo o que restou da Lara. Minha filha morreu por culpa desse amaldiçoado casamento. — Gilda falava com amargura na voz, enquanto trazia o olhar perdido ao longe como se imaginasse alguma situação.

  • Não diga que foi uma união amaldiçoada. Eles viveram bem, e o acidente não se deu por culpa do casamento ou do Mauro — considerou Isabel bem sensata.

  • Assim seria com a Erika se eu não tivesse interferido.

  • Você falou com ela sobre o João Carlos?

  • É lógico que não, Isabel.

  • E como você interferiu?

  • Verifique se ele está trabalhando lá no clube.

  • O que você fez, Gilda?! — espantou-se a irmã.

  • Dinheiro compra tudo, meu bem. O rapaz não está mais trabalhando lá, e isso é o que me interessa. Eu conheço bem os diretores daquele clube e tenho certeza de que lá ele não põe os pés.

A irmã se viu contrariada. Isabel não podia concordar com a opinião de Gilda, que era dona de uma personalidade fria, cruel e vingativa.

—Gilda, por favor! — tornou indignada. — Não posso acreditar que você fez isso.

Gilda, oferecendo um sorriso cínico com o canto dos lábios, alçou a cabeça com imponência e orgulho quando Isabel comentou decepcionada:


  • Você me assusta, Gilda.

  • Olha aqui, queridinha — defendeu-se com ironia —, jamais vou aceitar um namoro desse nível. Além de ser pobre, olha só a cor da criatura.

  • Pelo amor de Deus, Gilda! — assombrou-se Isabel. — Não posso acreditar no que estou ouvindo. Se o rapaz fosse um mau caráter, um vagabundo... mas não. Ele tem uma profissão, tem uma faculdade, é trabalhador, simpático, educado, bonito...

  • Então pode levá-lo para a sua casa. Na minha ele não

entra.

  • Se a Erika souber...

  • Só vai saber se você ou a Marisa contar. — Falando com deboche, encerrou: — E quer saber, Isabel, toma conta da Verinha que eu tomo conta da minha filha.

Natália, diretora financeira da empresa e muito amiga da família, sorridente e elegante com seu traje de banho, trazendo na cabeça um bonito chapéu onde um lenço esvoaçava delicado, aproximou-se delas, inibindo qualquer réplica de Isabel.

—Ei! Vocês duas estão se escondendo de todos? — perguntou, brincando sorridente. — Há tempo eu as observo aqui nesse cantinho.

—Estamos só contemplando, meu bem. Só contemplando, respondeu Gilda, demonstrando alegria na voz e moldando

um sorriso cínico no rosto.

Magoada, Isabel pediu licença e se afastou, indo à procura do marido e da filha, pois estava descontente e decidiu chamá-los para irem embora sem que alguém percebesse.

Sem dar importância ao afastamento de Isabel, Natália perguntou:



  • Pensei que iria ver sua netinha aqui hoje, Gilda.

  • Ela não veio. Aliás, o Mauro não a deixa vir aqui sem estar acompanhada daquela desmilingüida da Helena. Bem que eu queria que a Bianca ficasse aqui todo final de semana, mas... Quem sabe essa menina me dê o gosto e as realizações que as minhas filhas não deram.

  • Seria bom acostumá-la aqui, se quiser tê-la perto quando crescer. Mesmo que tenha que engolir a Helena junto, só até a menina pegar o gostinho e se acostumar. Sim, porque o Adalberto me contou que a Bianca não gosta de ficar muito tempo longe da Helena, não é?

  • E verdade. Mas sabe que você me deu uma boa idéia? — disse sorrindo. — Mesmo que eu tenha que engolir a Helena. Com licença, Natália — pediu, saindo à procura do marido.

Gilda, ao falar com Adalberto, insistia em ter a neta ali.

  • Mas eu dei folga ao Lauro. Estamos sem motorista hoje. E eu não vou sair daqui para ir buscar ninguém. Não posso deixar os convidados.

  • Como você dispensa o motorista justo hoje? Estamos com a casa cheia, podemos precisar dele para alguma outra coisa.

  • Não se esqueça de que essa idéia de receber visita hoje foi sua, e na última hora — sussurrou o marido.

Adalberto a deixou sozinha, e, imediatamente, Gilda foi em direção ao filho, que estava a poucos metros.

—Edu, será que daria para você ir buscar a Bia? Diga para a Helena vir junto, para trazerem roupa de banho. Aliás, elas Podem dormir aqui e amanhã a Bia poderá brincar o dia inteiro nessa piscina que vai ser só dela.

—Puxa, mãe — reclamou o rapaz, insatisfeito —, eu não estava a fim de sair. Estou tão sossegado.

Enlaçando seu braço, ela o conduziu com carinho, retirando-o do local com jeito delicado, tentando convencê-lo:

—Preciso muito da minha neta perto de mim. Sabe, ela me traz tanto conforto, tanta paz de espírito... E como se a Lara estivesse perto de mim.

Eduardo sempre cedia às propostas de sua mãe e, mesmo contrariado, decidiu satisfazer seu pedido e se retirou para trocar de roupa e ir buscar a sobrinha.

Ao chegar na sala de sua casa, Eduardo cruzou com sua irmã, que descia rapidamente as escadas, exibindo na fisionomia uma certa revolta.


  • Onde está a dona Gilda?! — inquiriu Erika, quase gritando.

  • Calma. Onde é o incêndio? — perguntou o irmão com tranqüilidade.

  • Vai ser lá mesmo, naquela piscina, se a mãe estiver nela — respondeu com raiva.

O irmão a segurou pelo braço impedindo-a de sair e, com serenidade, quis saber:

  • Vem cá. Diga primeiro o que aconteceu.

  • O João Carlos foi despedido. Até aí tudo bem! Mas você sabia que foi a mãe quem armou isso? Aaaah! Eu vou acabar com aquela festa.

Eduardo novamente a segurou com delicadeza, pedindo:

  • Hei, hei! Calma, vem cá. Vamos conversar primeiro.

  • Não dá para conversar! Não tem o que conversar!

  • Erika, deixe de ser impulsiva! Não é assim que se resolvem problemas desse tipo. Se você for lá fora agora, arrumar uma briga, só vai enfurecer mais a mãe. E por isso que ela reage sempre agressiva com você. Estou cansado de ver brigas aqui em casa e elas nunca trouxeram solução alguma. Para que isso?

  • Você não entende, Edu!

  • Entendo, sim. Entendo que você é parecida com a mãe, por isso não a atura.

  • E você é o queridinho dela, o predileto! Por isso tem todas as regalias e ela não o pressiona. Não implica com você.

  • Pára de falar assim — disse firme, mas sem gritar. — Acontece que eu não encaro a dona Gilda, não me defronto com ela porque não gosto de briga. Agora, você não. Sempre quer se mostrar poderosa, tal como ela. Por que não age como eu? Faço de tudo para contornar uma situação, não ligo para o que ela fala e, no fim, ela sempre concorda comigo.

  • Não é bem isso não — falou Erika, agora mais calma, porém irritada, andando de um lado para outro. E num desabafo, quase chorando, argumentou: — A mãe o tem como seu protegido.

Eduardo se aproximou, procurou abraçá-la e falou de maneira compreensiva:

  • Nós vamos discutir os gostos dela ou os seus?

  • Como assim?

  • Não podemos negar que a mãe sempre quer me agradar. Nós brigaríamos se eu tentasse dizer o contrário. Mas isso não é importante. Quero saber se você gosta de mim.

  • Claro, seu idiota! — falou chorando e brincando agora.

  • Se me acha um idiota é porque ainda me ama — disse

rindo.

Erika fingiu lhe dar um empurrão de brincadeira, sorrindo enquanto chorava, e, num gesto rápido, abraçou-o bem forte escondendo o rosto em seu peito.



  • Calma. Tudo vai ficar melhor — disse, acariciando-lhe os cabelos curtinhos e bem alinhados.

  • O que a mãe fez com o João Carlos não pode passar em branco.

  • Você está de cabeça quente agora. Quando estamos assim, não tomamos boas decisões, posso garantir.

Erika se afastou do abraço, enxugou o rosto com as mãos e pediu:

  • Ajude-me, Edu. Não sei o que fazer.

  • Ê lógico que vou ajudá-la. Nunca a deixei na mão. Mas nem pense em ir lá fora e armar uma briga. A dona Gilda vai ficar uma fera pela vergonha que vai passar com os convidados e, na primeira chance, irá descontar de alguma forma. Procure ficar tranqüila. — Depois ele a convidou: — Olha, estou indo na casa do Mauro para trazer a Bia. Vem comigo?

Erika parou, pensou um pouco e iluminou o rosto com um largo sorriso ao pedir:

  • Então me dá uma carona? Quero ficar na casa do João Carlos, você me deixa lá?

  • Claro! Vamos.

  • Vou me arrumar — disse a moça, subindo as escadas correndo.


5

Difícil decisão

No caminho, com o irmão ao volante, Erika não parou de falar. Ainda indignada com o comportamento de sua mãe, ela apresentava queixas revoltantes e de modo frenético, enquanto Eduardo pouco falava, pois compreendia o desabafo da irmã e ouvia participativo.

Já bem perto da casa de João Carlos, Erika indicou um lugar para que o irmão estacionasse o carro e mostrou:


  • É ali.

  • Já conhece a família dele? — perguntou surpreso.

  • Conheço a mãe dele, dona Ermínia. E um doce de pessoa. O pai dele já morreu, e a irmã, bem, estamos sempre nos desencontrando. Só a conheço por fotos.

  • Então o negócio está mais adiantado do que eu imaginava! — admirou sorridente.

Erika sorriu com brandura e indagou com voz afável:

—Você não é racista, não é, Edu?



  • Nunca. Abomino esses pensamentos e não gosto nem de piadas desse tipo.

  • Que bom — comentou tranqüila. — Felizmente não herdamos a personalidade mesquinha e preconceituosa da dona Gilda. Graças a Deus!

—Nunca me importei com a cor da pele, com a nacionalidade, a naturalidade... Pouco me importa se alguém é japonês, baiano, branco, nordestino... E toda pessoa que se refere a alguém com apontamentos pejorativos de qualquer espécie, tentando denegrir ou humilhar o outro por sua raça ou naturalidade, é alguém em que não podemos confiar. Acredite.

  • Então você não confia na mãe?

  • Não — respondeu firme e de imediato.

  • Edu! Estou surpresa!

  • Não. Não confio na mãe. Penso que, se fosse comigo, ela também iria querer me humilhar, me denegrir, me subjugar e muito mais. Porém a dona Gilda é minha mãe, e eu não posso ficar digladiando com ela. Prefiro viver em paz.

  • O mais importante em uma pessoa é o caráter, a educação, a responsabilidade, não seus atributos físicos, sua classe social...

  • Concordo com você. A propósito, você está gostando mesmo desse rapaz, não é?

—Estou sim — sorriu. — Nós nos damos tão bem.

—É bom quando encontramos uma pessoa confiável, desinteressada. Nunca tive essa sorte — reclamou Eduardo, suspirando fundo.

—Pretendente é o que não falta para você.


  • Imagine! — exclamou rindo. — São todas astuciosas, interesseiras. Chegam a ser sórdidas ao tentarem o famoso golpe do baú. Que ridículo! Não se valorizam ou sequer têm amor-próprio.

  • Não podemos negar que você é um rapaz bonito, inteligente. É fácil se apaixonar por você. Seus olhos podem hipnotizar qualquer moça já na primeira troca de olhar.

  • E minha posição social hipnotiza qualquer conta corrente, qualquer carteira — completou, rindo gostosamente, quase gargalhando.

Erika o observou com ternura e com um brilho carinhoso no olhar. E o consolou:

—Você vai encontrar uma pessoa realmente sincera em quem vai poder confiar. Tenho certeza.

Depois, ela o beijou emocionada e se despediu:

—Tchau.


Após deixar a irmã, Eduardo foi buscar a sobrinha conforme o planejado.

Na casa de Helena, a mãe, dona Júlia, conversava com o marido, contando tudo o que havia acontecido.

—Então, Jairo, foi isso. A Helena está em pedaços.


  • Posso dizer que, para mim, isso foi uma surpresa e um alívio. Eu já esperava que minha filha, inteligente como é, percebesse que esse moço só estava se aproveitando. Ele não é um mau rapaz. É atencioso, educado, mas... muito folgado. Não queria nada com nada.

  • Foi isso o que eu disse a ela. A Helena é nova, tem chance de encontrar um moço responsável. Agora, mudando de assunto, estou preocupada é com a Carla.

  • O que foi dessa vez? — indagou sorrindo, pois ele sabia que esta filha era espirituosa e um tanto levada.

  • Ela enfiou na cabeça que vai ser modelo, manequim, sei lá mais o quê.

  • Carla é bem bonita para isso — reconheceu o pai, todo orgulhoso.

—Jairo! Não alimente esse sonho. Essa menina...

—Aliás — interrompeu, como se quisesse provocar a esposa, falando com um sorriso maroto —, se não fosse pela altura, a Helena também poderia seguir essa carreira. Afinal, minhas duas filhas são muito bonitas, elegantes...

—Jairo! — reclamou Júlia, contrariada.

—Estou brincando — avisou, rindo descontraidamente. — Mas não se preocupe, Júlia. Isso é coisa da idade. Toda menina tem um sonho. Isso passa. Ela vai desistir.

A campainha tocou, e dona Júlia se levantou para atender.

Com satisfação, entrou acompanhada de Eduardo, que parecia estar um tanto sem jeito.

Após cumprimentar o dono da casa, o rapaz se acomodou no sofá e explicou o motivo de sua visita.

—Espero que o Mauro entenda e deixe a Bianca ir. Também seria muito bom se a Helena fosse junto. A Bia é bem apegada a ela e se sentiria mais à vontade. Parece que ela não gosta de ficar sozinha lá em casa.

Dona Júlia e o marido se entreolharam, lembrando o estado sensível em que Helena se encontrava. Até pensaram que sair um pouco pudesse fazer bem à filha, mas não poderiam forçá-la a isso.


  • Bem, Eduardo, vou falar com o Mauro, ou você mesmo quer pedir? Ele está lá no quarto dos fundos, arrumando algumas coisas.

  • Não, por favor — pediu educadamente —, diga a senhora mesmo. Será melhor.

Após pedir licença, a dona da casa foi falar com o filho que, a princípio, resistia à idéia.

  • Mauro, não podemos enclausurar a Bianca aqui em casa, filho. Ela precisa brincar, se divertir. Aqui não tem outra criança nem muito espaço no quintal. A garagem está com os três carros. Ela está limitada só aos corredores laterais.

  • Lá também não tem criança, mãe.

  • Mas tem espaço e é um lugar diferente, bonito. A Helena contou que, da última vez, a dona Gilda mandou chamar a filha da vizinha que mora no condomínio. E uma menina da mesma idade da Bia. Disse que até a babá da garota foi junto. Elas brincaram bastante e se deram muito bem.

  • Aquela mulher não merece estar com a minha filha.

  • As coisas não são assim, Mauro. Não acredito que a dona Gilda vá fazer algo para prejudicar a neta. Ela quer bem essa menina, faz tudo para agradá-la. Isso não podemos negar.

Mauro ficou pensativo, e dona Júlia completou:

  • A Bianca é a única coisa que a Lara deixou para a família. Temos que admitir que a sua presença pode e vai diminuir a dor dos pais. Tenho certeza de que eles sofrem, meu filho.

  • Será que a Helena irá com ela? Se a Lena for, eu deixo.

  • Será muito bom para sua irmã. O Eduardo falou que eles estão recebendo alguns amigos. E um almoço em torno da piscina. Isso significa gente alegre. Além do mais, tem a Erika, que se dá muito bem com a Lena. Creio que será bom elas conversarem.

  • Mas no começo a senhora falou que ela quer que a Bia durma lá?

—E se quiserem dormir não há nada de mais. A Helena vai estar junto.

Mauro estava sisudo, com o sobrecenho enrugado. Por fim decidiu:

—Está bem, vai.

Em seu quarto, Helena se mantinha deitada em silêncio enquanto Sueli e Carla, bem alegres, ouviam música e experimentavam roupas com planos de saírem mais tarde.



  • Ah, não, mãe! — reclamou Helena quando soube do convite.

  • Vai, filha. Será bom para você — pedia com gene­rosidade.

  • Mãe, eu não quero ver ninguém. Só quero ficar quieta aqui. Pode ser? — comentou, desanimada e tristonha, com certa melancolia na voz.

A amiga e a irmã procuraram animá-la, mas Helena resistia.

Sabendo poder conquistá-la por seu coração bondoso, dona Júlia, muito esperta, fez uma expressão triste e, com voz mansa, falou:

—É uma pena. Coitadinha da Bia. Tá lá fora, naquele quintalzinho minúsculo, andando naquele triciclo pra lá e pra cá. Num fim de semana lindo desse, ela vai ter que se contentar com esse tipo de diversão e a televisão. Nada mais.

Helena ficou comovida com os argumentos, e Carla, com perspicácia, entendendo o que sua mãe pretendia, ainda completou:



  • Coitadinha mesmo. Se ela fosse apegada a mim, bem que eu iria, nem que tivesse que me sacrificar um pouco. Mas ela só gosta de sair com a Lena. Pobre menina — falou com piedade bem convincente. — Já não tem mãe, não tem com quem brincar, não tem...

  • Tá bom! Chega! Eu vou.

Sueli e Carla não resistiram e gritaram juntas enquanto pulavam pelo quarto.

—Psssiiu...! Meninas! — exclamou dona Júlia, sussurrando. O moço está aí na sala e vai escutar.

Helena se levantou. Foi séria e sem entusiasmo até o armário e começou a escolher uma roupa.

Dona Júlia, toda sorridente, anunciou:



  • Vou lá arrumar a Bia. Tenho que pegar um biquíni pra ela, toalha, pijama...

  • Espera aí, mãe! Eu não vou dormir lá. Pra que o pi­jama?

  • Filha — falou com jeitinho —, seria bom, porque aí, amanhã, a Bia aproveita o dia inteiro.

  • Ah, não, mãe. De jeito nenhum.

  • Helena, deixa de ser boba — incentivou a amiga.

  • Se for pra dormir, eu não vou.

  • Tudo bem, tá certo — disse dona Júlia. Quase saindo do quarto, completou: — Vou pegar só a roupinha para trocar depois da piscina e o biquíni.

Helena começou a escovar os cabelos, que ainda estavam úmidos, não dando atenção aos comentários que a colega e sua irmã faziam. Pegou suas coisas e se despediu ao sair.

Chegando na sala, cumprimentou Eduardo, que conversava com seu Jairo e Mauro, e perguntou:



  • Cadê a Bia?

  • Olha eu, tia! — respondeu com sua vozinha doce e branda, pedindo em seguida: —Vamos?

Eduardo se levantou e, olhando para Helena, que trazia uma pequena bolsa, tipo mochila, perguntou:

  • Você está levando um biquíni, não é?

  • Não. Não estou a fim de dar nenhum mergulho hoje. Obrigada. Vou mesmo só por causa da Bia.

  • Seria bom você levar — aconselhou com simplicidade, justificando em seguida: — Todos estão na piscina, e creio que você não vai ficar à vontade com esse jeans. Vai lá, pega um short, algo leve.

Helena fez um gesto enfadado enquanto dona Júlia insistia:

  • E mesmo, filha. Não vai ficar bem você assim.

  • Se bem que ela pode pegar alguma roupa da Erika. Tenho certeza de que minha irmã não vai se importar.

—Não. Eu vou pegar alguma coisa — decidiu descontente, indo para o quarto.

Ao vê-la saindo, Eduardo perguntou:



  • Você vai dormir lá, não é?

  • Ah, não. Você me traz de volta hoje mesmo.

  • Não vai aproveitar nada, veja que horas são...

  • É o suficiente — decidiu, saindo em seguida.

Dona Júlia encolheu os ombros e sorriu sem jeito, percebendo que os modos de Helena não eram gentis.

Observador, Eduardo perguntou curioso:



  • O que a Helena tem? Está tão... diferente.

  • Ela acabou com o namoro hoje — anunciou seu Jairo sem rodeios.

  • Ah, entendo — afirmou o rapaz.

  • Tio, você vai comigo na piscina? — perguntou Bianca, animada.

  • Vou, claro que vou — respondeu Eduardo, abaixando-se junto à pequena.

  • Eu não sei nadar, tio.

  • Eu ensino. Pode deixar.

  • Tome cuidado, hein, Bia! — recomendou o pai.

  • Pode deixar, Mauro. Eu mesmo cuido dela, e a piscina nem é tão funda, você sabe.

Dona Júlia sorriu e lembrou:

  • Eu nem me preocupo quando a Lena está com a Bia. Vocês já repararam o cuidado e o ciúme que ela tem dessa menina?

  • É mesmo — admitiu Eduardo. — Eu já reparei isso. Ela tem o maior ciúme da Bia, quase não larga da menina.

  • Sempre foi assim — lembrou seu Jairo.

  • Fico até satisfeito com isso — falou Mauro. Helena chegou, dizendo:

  • Pronto. Podemos ir.

A caminho da casa de Gilda, somente Bianca falava, enquanto Helena permaneceu por todo o trajeto praticamente muda.

Já na luxuosa residência, Eduardo conduziu-as até o andar de cima e falou:

—Troquem-se aqui, no quarto da Erika. Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Estarei ali — disse, apontando para outra porta. — Vou me trocar e já descemos.

—Obrigada, Eduardo.

Logo mais, próximo à piscina, onde todos se encontravam bem animados, Helena sentiu-se deslocada. Havia um grupo de pessoas com as quais não estava acostumada, e cada um que se apresentava a deixava mais constrangida.

Gilda, porém, pediu para que servissem a convidada e a neta, mas Bianca, que encontrou quem brincasse com ela na água, não quis saber de almoçar. Helena, talvez por um certo acanhamento, disse não estar com fome.

—Vocês demoraram, Helena. Pensei que não viessem. E pena, pois vão aproveitar só a metade do dia hoje. Se bem que amanhã...


  • Não pretendo dormir aqui, dona Gilda.

  • Não! Por quê?

  • Prefiro ir embora. Sei que a senhora entende...

  • Voltará com a Bia amanhã, claro?

  • Ainda não sei. Eu... — tentou dizer, mas foi interrompida.

—Não vá fazer isso comigo, Helena. Estou doente pela minha neta. Por favor.

A moça ofereceu meio sorriso e considerou:

—Vou pensar.

—Venha, vou pegar uma bebida para você — chamou, pegando-a com delicadeza pelo braço para conduzi-la.

—Não. Obrigada, mas não bebo.

—Ora! — exclamou sorrindo, surpresa. — Só um pouquinho. Não há mal algum. Vejo que você não está comendo nada também. Um drinque vai abrir seu apetite.

—Não, não mesmo, dona Gilda. Obrigada.


  • Então aceita um refrigerante? — perguntou Eduardo, se aproximando.

  • Pode ser. Um refrigerante eu aceito — respondeu sorrindo de maneira cortês.

O moço saiu e voltou em seguida com um copo na mão, oferecendo-o à jovem, que agradeceu com um leve aceno de cabeça e um novo sorriso no rosto quase triste.

—Bem, menina, fique à vontade, viu? Vou ali ver a Bia — disse Gilda, sempre alegre.

Eduardo, por sua vez, tentando animar a convidada, perguntou:


  • Não quer entrar um pouco na água? Está ótima.

  • Não, obrigada. Prefiro ficar à sombra desse guarda-sol.

  • Você parece tão séria hoje. Está tudo bem?

  • Estou chateada com algumas coisas. Mas vai passar.

  • Não seria melhor falar sobre o assunto? Talvez isso a ajude. Sou todo ouvidos — disse solícito e sorridente, parecendo sincero.

Helena, intimamente envergonhada, pois nunca imaginou Eduardo como seu confidente, ofereceu um sorriso tímido, abaixou o olhar e revelou:

  • Hoje cedo terminei o namoro com o Vagner. Foi difícil... ele não queria aceitar e... — ela não disse mais nada, pois sua voz revelava um embargo que a constrangia.

  • Veja, Helena, você tem que olhar para cima. Pensar no que será melhor para o seu futuro.

—Eu sei, e foi por isso que tomei essa decisão. Sabe, creio que já dei todas as oportunidades para o Vagner. Já se passou tempo demais. Ele não quer entender isso.

Que oportunidades? — interessou-se Eduardo por estar a fim de fazê-la falar um pouco. E Helena, agora mais à vontade, nao percebeu que começou a desabafar com o rapaz, passando a contar tudo o que aconteceu.

Decorrido algum tempo, a uma distância considerável, Gilda e sua amiga Marisa conversavam animadas, até que a colega observou:


  • Gilda, até que a Helena é bem bonita, não é? Rosto jovial, simpática...

  • Mas olha que biquininho fulera, hein! Será que a moça compra suas roupas no camelô da Vinte e Cinco de Março? — comentou com desdém e ironia.

Marisa deu uma gargalhada, alçando a cabeça para trás.

  • Gilda, você é de matar! Deixa de reparar no biquíni da moça, que aliás não é tão ruim assim. Quem vê você falar pensa que está velho, rasgado... — comentou ainda rindo.

  • Estou falando é porque não tem marca. E, cá pra nós — continuou sussurrando —, será que ela não pode comprar uma coisinha melhor não, hein? — riu com maldade.

  • Se bem que, com o corpinho que ela tem, qualquer peça cai lindamente. Parece até uma dessas menininhas. E outra, creio que os homens não vão olhar para o biquíni, não. Veja só o seu filho. Acha que ele prestou atenção no que ela está usando?

  • O que tem meu filho?! — perguntou, agora mais séria.

  • O Edu não tira os olhos dela. Creio que nem está ouvindo o que a Helena está contando.

  • Ora, Marisa!

  • Veja só! Ou você está ficando cega, Gilda? Veja como o Eduardo está todo interessado. Chega a estar vidrado, parecendo até que está babando.

  • Já basta um daquela família ter se intrometido na minha. Isso... — interrompendo a frase, logo observou: — Olha lá, Marisa, veja como o meu santo é forte. A Geisa, filha da Natália, já encostou perto deles. Posso ficar descansada agora. A Geisa é fogo. Mudando de assunto, você reparou como a minha neta está miúda, magrinha igual a...? Nem parece que já tem cinco anos — prosseguiu Gilda, sempre procurando com o que implicar.

A aproximação de Geisa impediu que Helena continuasse com seu desabafo.

A filha de Natália, com olhar conquistador e pose provocante, colocou-se em frente de Eduardo, dando as costas para Helena, e perguntou:

—Esqueceu-se de mim? — indagou, trazendo na voz um tom dengoso e o olhar sedutor. Foi então que, com um sorriso forçado para não ser indelicado, Eduardo apontou sua convidada:

—Essa é Helena. Somos os padrinhos da Bianca. Você a

conhece?

Geisa se virou, afirmando:

—A Gilda já nos apresentou — disse, olhando para Helena de cima a baixo. — Vejo que está um pouco deslocada, não é?

Quando Helena ia se preparando para responder, procurando algo amável para dizer, Eduardo falou em sua defesa:



  • Fui eu quem monopolizou a Helena. Nossa conversa estava muito agradável. Não havia motivo para nos envolvermos com os demais.

  • Entendo — argumentou com ar de desdém. — Mas falavam do quê? Posso saber?

  • Conversávamos sobre faculdade, cursos complementares. Coisas que, creio, não vão interessar muito a você, Geisa — respondeu, sorrindo ironicamente.

Helena surpreendeu-se e ficou constrangida diante daquilo.

Eduardo, sustentando ainda o sorriso irônico, mostrava-se verdadeiramente insatisfeito com a presença de Geisa. Ele a conhecia bem e tinha seus motivos para não querer nenhuma intromissão em sua conversa.

Geisa o fitou firme, com olhar colérico, e se virou, deixando-os a sós.


  • Eduardo, eu... — balbuciou Helena, perdendo as pa­lavras.

  • Tudo bem, Helena. Desculpe-me pela grosseria, mas isso foi necessário. Você não sabe quem é essa aí.

Gilda, preocupada com a recepção e os convidados, não percebeu a ausência da filha Erika, que, naquele mesmo momento, estava na casa do namorado, João Carlos.

Na casa do rapaz...

Huuum!!! Está maravilhoso, dona Ermínia — dizia Erika a simpática senhora, mãe de João Carlos. — Nunca experimentei Um Pavê igual a esse. Adoro doce. E esse está uma delícia.


  • Pois quando você for embora, filha, lembra de levar um pouquinho — avisou a senhora.

  • Ah! Vou lembrar mesmo! — disse a moça com a gracio­sidade que lhe era peculiar.

Um barulho fez-se na sala, chamando a atenção de todos. Era Juliana que chegara atrasada para a refeição.

Juliana, a irmã de João Carlos, era uma moça alta, de pele negra aveludada, que tinha um corpo exuberantemente formoso. Trazia sempre um lindo sorriso alvo a iluminar seu belo rosto, aprazivelmente sereno.

Ela chegou à copa, espiou como quem brincasse e, com sua voz bonita, firme e macia, falou graciosamente:


  • Acho que, pra variar, cheguei meio atrasadinha, né?

  • Como sempre, né, filha? — disse sua mãe, sorrindo.

  • Juliana — anunciou João Carlos, levantando-se empolgado —, essa é a Erika.

A irmã aproximou-se e, muito amistosa e sorridente, cumprimentou a jovem com beijos, dizendo ao afastar-se um pouco e olhá-la com atenção:

  • Erika, você é muito mais bonita do que o João Carlos falou! — E, olhando para o irmão, completou, espremendo seus olhos expressivos: — Como você é mentiroso, hein!

  • Pare com isso antes que a Erika acredite — pediu, rindo com gosto.

  • Mas é para acreditar. Ela tem que saber, desde já, que eu sempre digo a verdade. Você disse que ela era meio bonitinha. Toma jeito, rapaz! Você nunca valoriza o que tem.

O irmão a empurrou, brincando, ao dizer:

  • Fica quieta, senta e come.

  • Não, filha — alertou sua mãe. — Vá se lavar, vai. Você acabou de chegar da rua agora.

  • Certo, certo, dona Ermínia. A senhora falou, está falado — brincou a filha.

Logo depois, enquanto fazia sua refeição, Juliana mantinha uma agradável conversa com Erika, que, aliás, se simpatizou rapidamente com ela.

  • Até que enfim nos conhecemos, não é? Mas não repare nas minhas brincadeiras, adoro provocar meu irmão — argumentava Juliana, descontraída.

  • Imagine, gosto de brincadeiras. Mas puxa! Foi difícil nos conhecermos!

  • Também, menina — lembrou a irmã de João Carlos —, nos últimos tempos não estou tendo folga nem nos domingos.

  • Ainda bem, né, filha?

  • Ainda bem mesmo.

  • Você é decoradora, não é? — perguntou Erika, inte­ressada.

  • Eu tento! — riu gostosamente. — Formei-me em arquitetura quando descobri que gostava bem mais de decoração. Aliás, não fui só eu. Uma colega de faculdade, amiga mesmo, também se sentiu inclinada para decoração depois de formada. Então nós duas montamos em sociedade um pequeno estúdio que, graças a Deus, vem crescendo a cada dia.

  • Eu sou curiosa — revelou Erika —, não repare. Com o que você trabalha exatamente?

  • A maior parte de nossa clientela é formada por lojistas de shoppings. Normalmente esses são trabalhos rápidos e práticos. Eles sempre aparecem nas temporadas.

—Como assim? — tornou Erika.

—No final do verão preparamos a loja para o clima outono-inverno, no fim do inverno preparamos para a primavera-verão, e assim por diante. É trabalho certo. Quanto ao tipo de decoração, tudo depende. Primeiro temos que ver quanto o cliente quer investir, depois estudamos o que ele deseja com o tipo de mercadoria que oferece, se é uma loja de roupa social, esportiva, feminina, masculina... tudo depende.

Uau! Que barato! — exclamou com moderação.

Ah! Mas não cuidamos só disso não. Temos também as decorações residenciais. Estas são bem mais trabalhosas, detalhadas. Precisamos estudar muito bem o que o cliente quer. Sabe, precisamos até analisar a personalidade das pessoas da casa para fazermos um bom projeto. Pois não vai adiantar nada ele nos agradar e ser inconveniente aos moradores, que certamente não darão boas referências nossas.



  • Nossa, eu não imaginava que fosse assim.

  • Mas isso é muito gostoso. Adoro meu trabalho. Já chamei o João Carlos para trabalhar comigo, mas...

  • Não! Esse tipo de coisa não me agrada. Não me vejo examinando cor de mármore combinando com louça, tecido combinando com vime... Definitivamente isso não é para mim — afirmou o irmão.

  • Mas bem que você poderia me ajudar nesse período de férias, né?

  • Acho que o período de férias acabou — disse, interrompendo-a. — Estou analisando a proposta de montar uma academia com um colega. Já está quase tudo certo.

  • Ótimo!

  • Só que eu ainda vou precisar contar com você — disse João Carlos esfregando o indicador e o polegar simbolizando dinheiro com o gesto que fazia.

  • Tudo depende de quanto vou lucrar — respondeu Juliana com um largo sorriso no rosto, enquanto piscava para Erika.

—Você faria isso comigo?! Sou o seu irmãozinho, lembra? A conversa alongou-se, e todos se divertiam descontraída

mente. Mas, minutos depois, Erika sentiu necessidade de revelar:

—Foi minha mãe quem prejudicou o emprego do João Carlos lá no clube. Ela conhece muita gente da diretoria e...

—Como você soube? — perguntou o namorado.



  • Através da Alda, aquela moça que trabalha na secretaria. Ela acabou ficando com raiva da minha mãe que não a tratou bem quando esteve lá e, por isso, só de raiva, hoje ela ligou e me contou tudo. Pediu para eu não dizer o nome dela, mas...

  • Entre nós não haverá problemas — afirmou Juliana com convicção. — Mas, sabe, foi bom isso ter acontecido. Eu estava achando o João Carlos muito acomodado lá naquele clube. Essas mudanças bruscas geralmente nos fazem acordar. Não vamos reclamar, pois creio que novos horizontes vão se abrir para ele agora. A academia é um deles.

  • Acho que isso é verdade — concordou o rapaz. — A propósito, Erika, não vá brigar com sua mãe por causa disso, certo?

  • Mas ela foi longe demais.

  • Filha — atalhou dona Ermínia —, sua mãe pode ter errado, mas foi pensando no seu bem. Mesmo que ela não tenha agido de modo correto, já está feito e não se pode mudar. Não brigue com sua mãe. Um dia, seja hoje ou daqui muitos anos, ela vai saber que errou e dará um jeitinho de consertar. Não vale a pena você ficar irritada e cometer outro erro por causa do erro dela. Deixe só sua mãe com coisas para consertar, entende?

Erika imediatamente sentiu-se mais tranqüila e compreensiva com os conceitos simples e profundos de dona Ermínia.

Seu coração agora não estava mais com tanta raiva como antes. Ela encontrara conforto, compreensão e amizade sincera em conversas simples que muitas vezes lhe faltavam em casa, com os seus.


6

O PESADELO DE BlANCA

Começava a escurecer, e todos os convidados de Gilda e Adalberto já haviam ido embora. Helena pretendia fazer o mesmo, entretanto Gilda havia conquistado a neta dizendo que o dia seguinte seria melhor do que aquele, porque toda aquela casa estaria à disposição somente dela.

Conversando com a sobrinha na grande sala de estar, a tia tentava convencê-la:

—Bianca, amanhã voltamos.

Emburrada, fazendo manha ao falar, a menina dizia:


  • Ah, tia Lena, só hoje, vai. Vamos ficar aqui, só hoje.

  • Amanhã cedinho o tio Eduardo vai nos buscar e...

  • Mas hoje de noite eu posso ficar brincando aqui. Lá em casa não tem sala de brincar e aqui tem.

  • Ora, Helena! — exclamou Gilda com certa elegância mesclada de imponência. — A Bianca está dizendo a verdade. Deixa a menina brincar. Se forem embora, ela vai chegar lá na sua casa, vai jantar e dormir. Isso é o de sempre. Que coisa mais sem graça. Aqui, ao menos hoje, poderá se distrair, jogar, brincar, ver coisas diferentes. Sem contar que amanhã essa casa inteirinha será toda dela.

—Não posso deixá-la, o Mauro me recomenda sempre...

—"O Mauro, o Mauro..." — falou irritada. — Se ao menos ele conseguisse dar à filha metade do que ela tem aqui, talvez pudesse recomendar algo, mas... — Em seguida, insistiu: —

Não estou pedindo para que ela fique sozinha. Fique você também.

Eduardo, que acompanhava a conversa sentado em um confortável sofá, lembrou:

- Bem que eu disse para trazer roupas.


  • Mas as roupas da Erika hão de servir. Que não seja esse o problema — resolvia Gilda.

  • Ah. tia Lena! — falava a garotinha com jeito mimoso e olhar suplicante. — Vamos ficar, vai.

Helena suspirou fundo. Não sabia o que fazer. Não queria passar a noite ali, mas, pela sobrinha que tanto amava, decidiu:

—Está bem. Vou telefonar lá para casa e...

Antes que ela terminasse, Bianca saiu correndo e gritando de alegria, enquanto Gilda chamava a empregada, recomendando:

—Sônia, prepare o quarto de hóspedes para Helena e minha neta. — Virando-se em direção à moça, orientou sorridente: — Suba com ela, Helena. Veja se ficará tudo a seu gosto, querida.

Helena pediu licença e subiu junto com Sônia.

Gilda, estampando um sorriso de triunfo, acomodou-se elegantemente em frente ao filho, concluindo com certa arrogância embutida na voz:

—Sempre consigo o que eu quero. Viu só? Helena acabou ficando.

Eduardo apenas a olhou e deu-lhe um suave sorriso forçado.

Na verdade, ele pouco se importava com as palavras de sua mãe. Seus pensamentos estavam presos em análises e comparações. Algo acontecia com ele, pois começou a notar mais Helena, uma moça simples, educada e que sabia se comportar. Aquela havia sido a primeira vez que conversava por mais tempo com a moça, e não pôde deixar de perceber seu jeito recatado, cauteloso e meigo. Helena era inteligente, gentil, além de ser bem bonita.

Eduardo estava acostumado a ser assediado por garotas com um certo comportamento dengoso, gestos e sorrisos treinados Que queriam sempre agradar a qualquer custo.

Helena era diferente. Simples, objetiva, tranqüila e natural. Espontânea, não fazia nenhum gesto ou olhar para agradá-lo.


  • Não acha, meu filho? — perguntou Gilda repentinamente.

  • O quê? — perguntou após alguns segundos.

  • Estou falando com você há um tempão! Onde você estava, Edu?

  • Com a cabeça nos negócios, mãe. Fala, o que é?

  • Eu estava falando dessa aí — disse gesticulando para a escada, referindo-se a Helena. — Que moça sem sal e sem açúcar. Você não acha? Além de desconfiada. Será que ela pensa que vou engolir a minha neta? Você viu? Ela não tira os olhos da menina.

O filho não disse nada. Nesse momento a porta se abriu suavemente e Érika entrou sorridente.

  • Por onde a senhorita andou, mocinha? — perguntou Gilda, implicante.

  • Estou cansada. Estou feliz e não quero que estrague a minha alegria — respondeu com um largo sorriso.

  • Isso é jeito de falar comigo?!

Érika fez-se de surda e subiu rapidamente sem dar a chance para um duelo de palavras.

Notando certa movimentação no quarto de hóspedes, foi imediatamente ver o que era.



  • Que surpresa boa! Adorei a idéia — disse satisfeita ao saber que Helena ficaria ali.

  • Só a Bianca mesmo para me fazer passar uma noite fora de casa.

  • Ótimo! Poderemos conversar bastante. Onde ela está?

  • Na brinquedoteca que sua mãe montou.

  • É bom que se divirta. Agora vem aqui no meu quarto, vamos encontrar uma roupa da hora, bem leve, e vamos conversar. Tenho tantas novidades...!

***
Já era madrugada e todos dormiam quando os gritos de Bianca acordaram Helena, que, assustada, se sentou rapidamente na cama da sobrinha tentando acordá-la.

Gilda, que também acordou com o choro da neta, correu até o quarto onde elas estavam:

- O que foi?! O que está acontecendo?

Helena embalava a sobrinha no colo enquanto secava suas lágrimas, explicando à garota:

—Foi só um sonho, meu bem. Não fique assim.

Erika, Eduardo e Adalberto também foram ver o que havia

acontecido.

Virando-se para todos, Helena explicou:

—A Bianca teve um sonho ruim. Foi isso.

Gilda sentou-se na cama e, como se exigisse, foi tirando a menina do colo de Helena.

—Não, não... — reclamou a garotinha, recusando-se a ir com a avó. — A mamãe falou pra eu não ficar com você.

A surpresa foi geral, e Helena tentou justificar:


  • Ela ainda está confusa com o sonho. Não se preocupe, dona Gilda.

  • Eu não sonhei, eu vi a mamãe — respondeu Bianca, chorando.

  • Oh, minha queridinha — agradava a avó com um carinho em seu rosto. — Você só sonhou, viu?

  • Eu vi a mamãe! Ela falou que foi você.

  • Eu o quê, meu bem? — tornou Gilda.

—Ela morreu porque você mentiu. A culpa foi sua. Não vou mais ficar perto de você.

Todos se entreolharam sem entender, e Gilda, com uma reação enérgica, levantou-se abruptamente bem nervosa:

Ora, Bia! O que é isso? Não diga mentiras. Isso é feio. Eu não estou mentindo — respondeu irritada. Calma, Bia. Você só sonhou. Não fale assim ou então a vovó ficará triste — pediu Helena mais cautelosa.

O que a senhora andou aprontando, hein, dona Gilda? Perguntou Erika com certo deboche, aproximando-se da sobrinha para acariciá-la.

- Não me venha você com suas ironias, Erika! — exigiu a í quase gritando.

Ao perceber a discussão que poderia se iniciar, Adalberto saiu sorrateiramente sem dizer nada.

Eduardo, com uma expressão interrogativa no semblante, deu alguns passos em direção a sua mãe, olhou-a bem nos olhos e falou firme:

—Não vá começar uma discussão agora, por favor.



  • A Bianca está inventando isso e a Erika vem com sua agressividade barata! — indignou-se Gilda, nervosa.

  • Eu também acabei de sonhar com a Lara, mãe — afirmou o rapaz. — Ela caminhava no corredor aí fora e me dizia que precisava falar com a filha. A Lara estava vestida com farrapos e parecia muito maltratada.

  • Não me venha com isso você também, Eduardo — disse Gilda com os olhos arregalados, afastando-se enquanto esfregava as mãos nervosas.

  • Gente, isso foi só um sonho — argumentou Helena. — Não vamos dar importância a uma coisa dessas.

  • Vejo que a única pessoa de bom senso aqui é você, Helena — objetou Gilda, tentando disfarçar sua irritação. Abaixando-se ligeiramente, beijou Bianca: — Boa-noite, meu bem. Vamos todos dormir. E o melhor a fazer — e se retirou.

Erika, que estava de joelhos diante de Helena e Bianca, olhou para o irmão e perguntou:

—Que sonho estranho, hein? Será que foi sonho mesmo?

Com uma expressão realmente impressionada, Eduardo se aproximou, olhou para Bianca e afirmou:


  • Foi tão nítido, tão real...

  • A mamãe tava triste, num tava, tio?

Ele ficou calado sem saber o que dizer. Então Helena consolou a sobrinha com seu jeito amoroso:

— Mas foi só um sonho. A sua mamãe está bem. Ela está no céu com os anjinhos. Agora é melhor você dormir ou não vai aproveitar nada quando o dia clarear.

Erika e Eduardo se retiraram.

Ajeitando a menina e, após alguns minutos, certificando-se de que ela dormia, Helena saiu da suíte, pois percebeu que os dois irmãos conversavam no quarto ao lado do seu.

—Posso entrar? — perguntou baixinho.


  • Entra aí! — pediu Erika quase sussurrando para não atrair a atenção de sua mãe. — O Eduardo está impressionado até agora. Ele não quis falar perto da Bia, mas...

  • Eu vi a Lara nitidamente — disse o rapaz, interrompendo a irmã. — Ela estava com as roupas rasgadas, pareciam sujas. Estava muito abatida, olhos fundos, meio roxos... — exibindo um rosto contrariado, continuou: — Foi um sonho tão real. Eu estava saindo do meu quarto quando a vi e perguntei o que fazia aqui. Lara parou e, sem me olhar, falou que precisava falar com a Bianca. Ela disse: "Edu, preciso falar com a Bia. Não quero que ela fique aqui. Foi por culpa dela que eu morri. Não quero minha filha nessa casa". Daí eu perguntei: "Por culpa de quem?" E Lara respondeu ainda sem me olhar: "Da mãe".

Todos ficaram em silêncio absoluto.

Os olhos de Helena estavam arregalados, tamanha a surpresa.



  • Seria só um sonho? — tornou Eduardo. — Não entendo, mas foi muito estranho a Bia ter acordado e dito exatamente o que a Lara havia falado para mim minutos antes.

  • Se não fosse madrugada, eu iria embora agora mesmo. Estou tão impressionada que até me arrepio — confessou Helena.

  • O que será que isso quer dizer? — intrigou-se Erika. — Um aviso?

  • Aviso de quê, Erika? Você acha que a mãe pode fazer algum mal à Bianca? Acha que ela fez algo contra a Lara, sua própria filha? — perguntou o irmão em tom cauteloso e prudente.

Vamos tomar cuidado com o que estamos falando.

Helena sentiu vontade de contar sobre o presente de Bianca que encontrara no quarto da menina, pois isso era uma prova de que Lara não havia ido buscá-lo, conforme alegou antes de sair de casa no dia de seu acidente, mas achou melhor se calar. Decidiu então só contar que, quando esteve na casa de seu irmão alguns dias depois do enterro, viu a sobrinha conversando "sozinha" e ao interrogá-la, Bianca disse que falava com a mãe.



  • Achei aquilo muito estranho, mas penso que é coisa de criança. Nem contei para o Mauro.

  • Nem deve — falou Eduardo, levantando-se. — Seja como for, isso me impressiona muito. Mas é melhor irmos dormir. Amanhã conversamos.

***
Na manhã seguinte, Bianca parecia ter se esquecido do sonho e brincava normalmente.

Helena, no entanto, sentia-se incomodada com o ocorrido, principalmente depois do relato tão impressionado do rapaz.

No final da tarde, Eduardo foi levá-las para casa.

Bianca, no banco de trás do veículo, brincava com algo que havia ganhado da avó enquanto Eduardo e Helena conversavam.


  • Ainda bem que amanhã é feriado — comentou o rapaz.

  • Eu também adoro os feriados. Não há quem não goste. Com intenção de se aproximar mais da moça, ele perguntou

com jeito cauteloso:

  • Você vai sair amanhã?

  • Não. Quero ficar em casa. Estou cansada, preocupada...

  • Preocupada com o namoro que terminou?

Helena viu-se surpresa com a pergunta e titubeou para responder:

  • E... estou meio... magoada, talvez.

  • Gostava muito dele?

  • Acho que me acostumei com ele. Penso que seja isso.

  • Então não tem pelo que se arrepender ou se magoar.

—Não me arrependo por ter terminado tudo. Deveria ter feito isso há mais tempo. Só não gosto de magoar as pessoas, sinto-me magoada também.

—Ele ficou muito chateado, não foi?

—Pelo jeito, ficou. Quando terminei tudo, vi no Vagner um lado que eu ainda não conhecia. Ele se mostrou agressivo, revoltado. — Após alguns segundos, pediu com jeitinho: — Eu gostaria de não falar mais nesse assunto, você se importa?

— Não. Por favor, me desculpe.

Ela sorriu, e o rapaz não se conteve, perguntando:

—Quer sair amanhã? Dar uma volta, quem sabe. Surpresa com o convite, ela respondeu convicta, mas

sorrindo gentilmente:

—Não, Eduardo, obrigada. Prefiro ficar em casa. Obrigada.



  • Então vamos lá em casa novamente, o dia estará ótimo para uma piscina. O que acha?

  • Dois dias foram o bastante. Agradeço.

Ao chegarem, Eduardo resolveu entrar, acompanhando Helena e pegando a sobrinha no colo.

  • Oi, filha! — cumprimentou dona Júlia — Pensei que viessem mais cedo.

  • O dia estava muito bom para uma piscina, dona Júlia — respondeu o rapaz. — Por isso não viemos mais cedo.

Mauro chegou na sala e pegou a filha dos braços de Eduardo. Abraçando-a e beijando-a com carinho, apertou-a contra o peito expressando um vivo sentimento.

Helena reparou algo diferente, mas nada comentou.

—O Mauro teve um sonho com a Bia essa noite — contou dona Júlia com simplicidade. — Acordou todo desesperado. Queria telefonar, ir buscar a menina. Aí falamos que ela estava se divertindo e ele iria estragar seu passeio. Se houvesse algo errado, a Lena ligaria.

Quando Eduardo tomou fôlego para contar sobre seu sonho e o da sobrinha, Helena, bem próxima ao rapaz, segurou em seu braço com delicadeza e discrição, sorriu e desconversou:

—Ela se divertiu tanto, não é mesmo, Eduardo?

Ele, a princípio, ficou confuso; logo, porém, entendeu e confirmou:



  • Foi sim.

  • Vou preparar algo para vocês — disse dona Júlia.

  • Não se preocupe com isso, dona Júlia. Já estou indo — decidiu o moço, aproximando-se para se despedir. — Agradeço, mas preciso ir.

Após se despedirem, Helena o acompanhou até o portão.

Já na calçada, segura de que ninguém iria ouvi-los, ela revelou:



  • Desculpe-me por aquilo, Eduardo. E que ando notando meu irmão muito impressionado ultimamente.

  • E se eu contasse sobre o sonho ele não iria mais deixar a Bia ir lá em casa, certo?

  • Exatamente. Talvez tudo não passe de um sonho. Não vamos dar tanta importância.

  • Você tem razão. — Agora, olhando-a como se a contemplasse, Eduardo prendeu seus lindos olhos azuis no rosto sereno da moça e falou de modo tranqüilo: — Estou sentindo você muito tensa, preocupada. Quer sair e espairecer um pouco?

  • Já espaireci demais nesses últimos dois dias — respondeu, sorrindo com jeitinho.

  • Lá em casa você estava preocupada com a Bia, com um e outro que ficavam reparando, comentando...

  • Nisso você tem razão. Não estou acostumada com tanta gente.

Ele riu gostosamente e concordou:

—Principalmente com gente daquele tipo, não é? Helena, um tanto sem graça, somente sorriu. Ele, muito

educadamente, voltou a insistir:


  • Vamos, vai lá e pegue sua bolsa. Daremos só uma volta. Podemos...

  • Agradeço, Eduardo — interrompeu-o. — Mas vai ter que ficar para outro dia.

Ele encolheu os ombros e se despediu:

—Então... até amanhã.



  • Espere, não combinamos que a Bia iria a sua casa amanhã. Eu não quero ir novamente a sua casa. Perdoe-me a sinceridade, mas...

  • Hei! Não estou combinando nada para a Bia. Muito menos para irmos à minha casa. Pensei em vir buscá-la para sairmos.

—Por favor. Deixa para outro dia.

Ele sorriu meio contrariado, aproximou-se da moça e, beijando-lhe o rosto, disse:

—Então tchau.

Helena, parada no portão, ficou pensativa e preocupada enquanto observava o carro sumir no fim da rua.

Seus pensamentos estavam confusos por perceber alguma coisa diferente no comportamento de Eduardo.

"Posso estar enganada", pensava. "Talvez ele esteja só querendo sair comigo como amigo. Querendo me ver mais ani­mada..."

Em todo caso, decidiu redobrar a vigilância. Não queria se envolver tão rapidamente com outra pessoa. Havia terminado muito recentemente um compromisso que a deixou bastante aborrecida, desiludida mesmo. Não queria se desgastar mais.

Pensava distraída em tudo isso quando sentiu que alguém segurava seu braço com força e brutalidade. Um terror percorreu-lhe todo o corpo, e ela ia gritar quando reconheceu a figura de Vagner que, com rosto sisudo e parecendo insano, inquiriu:



  • Então me culpa por incapacidade só para não admitir sua traição?

  • Do que está falando? O que é isso? Larga o meu braço! — pediu movendo-se, querendo se livrar da mão que a prendia firmemente.

Vagner, porém, encostando-se nela, ameaçou:

  • Não sou do tipo que aceita perder. Acho que você não me conhece, Helena.

  • Larga meu braço! — exigiu em tom baixo, porém enérgico. — Você está me machucando. Não temos mais nada. Quem é você para tentar me coagir?

Helena o encarou e pôde observar que em seu olhar havia um brilho frio, cruel e aterrador, o que repentinamente a fez gelar e recear qualquer atitude mais brusca.

Ele a empurrou e, com sorriso sarcástico, disse:



  • Não imaginava que você fosse tão vulgar.

  • Suma daqui! Nunca mais quero vê-lo. Não temos mais nada.

—Você está pensando que estou mendigando sua atenção? Seu amor? Estou é com raiva! — falava com os dentes cerrados.

— Estou com ódio por ter sido enganado, traído. Você não presta.

Helena, aproveitando um momento de distração, virou-se o mais rápido que conseguiu e entrou correndo.

Já dentro de casa ela se sentia mais segura, no entanto ainda estava pálida e trêmula. Decidiu não dizer nada a ninguém, pois não queria alardeá-los com seus problemas ou algo que logo passaria.

Indo para o quarto, atirou-se sobre a cama sentindo o coração oprimido, envolto por um sentimento triste e assustador. Não resistindo ao medo que a dominava, desatou a chorar por muito tempo, até adormecer.

7

A volta de Miguel

O tempo seguia normalmente seu curso. No serviço, Helena não se sentia muito bem. Uma profunda angústia a dominava, refletindo-se em suas ações.

Um telefonema inesperado deixou-a ainda mais perturbada.


  • Oi, Helena. Aqui é a Mara, irmã do Vagner, tudo bem?

  • Tudo, Mara. E você?

A princípio a conversa foi cordial e somente atualizava as novidades, mas Helena pressentia que a qualquer momento seria abordada pela moça, que se fazia gentil demais até então.

—Sabe, Helena, estou telefonando não só para saber como estão todos, mas também para saber direito o que aconteceu entre você e meu irmão. Ultimamente o Vagner não anda muito bem.

—Ele contou que nós terminamos?


  • Na verdade, ele contou que você fez inúmeras exigências, que mudou muito com ele e por isso ele desconfiava que houvesse outro. Disse que confirmou essa suspeita quando a viu no portão de sua casa com um rapaz.

  • Não foi nada disso, Mara. Quando o Vagner me viu no Portão, eu simplesmente estava acompanhando o cunhado de meu irmão que ia embora. — Helena contou em detalhes o motivo que a levou a terminar o namoro, causado principalmente pelo fato de Vagner não se preocupar em se estabilizar num emprego ou ter uma profissão. E de como se sentiu mal com o comportamento que ele apresentou quando a segurou com tanta agressividade.

—Há tempos venho falando, Mara. O Vagner não tem nenhuma iniciativa nem perspectiva para melhorar. Não estuda, não se aprimora... Além de tudo, acabei descobrindo um lado agressivo que antes não conhecia. O que posso esperar dele?

Mara silenciou, e Helena ainda disse:



  • Sempre gostei do seu irmão, mas isso não e o suficiente. Ele não apresenta progresso, não podemos só ficar acalentando sonhos. O que vamos fazer? Namorar a vida inteira? Ou casar e eu sustentar a casa? Todas essas dúvidas, todas essas inseguranças começaram a me abalar, a me deixar preocupada, indecisa, você entende?

  • Você tem razão, Lena. Podemos dizer que demorou muito.

  • O Vagner não pode falar que eu não dei chance a ele. Muito menos que o traí.

  • Isso é verdade. Mas, Lena, o que mais me preocupa é como ele está agindo ultimamente.

  • Como assim?

  • Ele não come, não dorme. Reclama o tempo todo. Minha mãe falou que ele anda bebendo e, se antes não parava no serviço, agora nem procura. Estamos preocupadas com ele.

Helena emudeceu, não sabia o que dizer.

  • Lena, e se você tentasse conversar com ele?

  • Desculpe-me, Mara, mas não dá. Da última vez que conversamos, ele foi muito agressivo, muito bruto mesmo. Esse lado de sua personalidade eu não conhecia e também não quero mais ver. Além disso, ele vem me ameaçando, dizendo que está com ódio por achar que eu o traí. Sinto muito, mas quero distância do seu irmão.

  • Desculpe-me se a incomodo, mas também não sei mais o que fazer. Eu e minha mãe achamos que ele não está se envolvendo com boas companhias. Estamos com medo. Achamos que isso aconteceu por vocês terem terminado.

—Veja, Mara, milhões de pessoas terminam namoros, noivados e casamentos todos os dias e nem por isso se tornam agressivas, rudes ou marginais. Perdoe-me a franqueza, mas não sei o que posso fazer e tenho medo de tentar qualquer aproximação para ajudá-lo.

— Tudo bem. Foi bom a gente conversar; muitas coisas se esclareceram para mim. Obrigada.

Helena ficou inquieta, sentia que algo não estava bem, mas não disse mais nada; queria que a conversa terminasse logo.

Naquela noite, ao chegar em casa, Helena presenciou seu irmão repreendendo a filha.



  • Não minta mais, entendeu, Bianca?

  • Eu não menti... — dizia chorando. Imediatamente, Helena atirou sua bolsa sobre o sofá e correu

em defesa da sobrinha.

—O que está acontecendo aqui? — perguntou, abaixando-se ao lado da pequenina que chorava. Acalentando-a com carinho e virando-se para o irmão, perguntou novamente como se o repreendesse: — Por que isso, Mauro?

Ele mostrava-se nitidamente nervoso, andando pela sala, esfregando o rosto e passando as mãos pelos cabelos, enquanto Helena o seguia com os olhos como se cobrasse sua resposta.


  • Ela é minha filha. Preciso repreendê-la quando necessário.

  • Ensinar não significa torturar — retrucou a irmã.

  • A Bianca mentiu.

  • Não menti — insistiu a pequenina, ainda chorosa.

  • O que aconteceu? — tornou Helena.

—A Bianca começou a dizer que viu a Lara. Disse que ela chorava.

—Eu vi sim, tia.

—Tudo bem. Fique tranqüila — pediu a tia enquanto acariciava-lhe com ternura. Voltando-se para o irmão, Helena falou: — Precisamos conversar, Mauro. Tem um tempo agora?

—Não. Estou indo para o aeroporto pegar o Miguel.



  • Ele chega hoje?! — indagou surpresa e alegre.

  • Claro. Esqueceu?

  • Completamente. Tive um dia... — Logo, porém, ela lembrou: — Cadê a mãe? Ela não vai ao aeroporto com você?

  • Disse que iria, mas até agora não chegou. Precisou ir até a casa não sei de quem para conversar com a mãe de uma amiga da Carla.

—Ah! Deve ser na casa da Cristina. Mas por que ela foi lá? Mauro agora sorriu meio irônico, encarou-a com uma

fisionomia estranha e, movendo a cabeça afirmativamente, avisou:

—Você vai saber assim que vir a Carla.

Helena experimentou um misto de curiosidade e preocupação, mas decidiu ser paciente. Iria aguardar.

—Acho que vou indo. A mãe está demorando. Fica com a Bia, tá?

Abraçando a sobrinha, Helena a beijou, deu-lhe algumas mordidinhas para fazê-la rir e brincou:

—Não! Não vou ficar com ela, não.

Mauro, agora bem mais tranqüilo, sorriu satisfeito. Pegando as chaves do carro, ele se despediu e foi buscar o irmão. Sozinha com a sobrinha, Helena perguntou:



  • Você já tomou banho?

  • Ainda não, tia.

—Então vamos lá! Comprei um xampu novo; vamos usá-lo e ver como seus cabelos vão ficar cheirosos e macios.

Mais tarde, em seu quarto, Helena decidiu investigar um pouco mais sobre o que Bianca vinha afirmando ter visto nos últimos tempos. Enquanto desembaraçava os cabelos da sobrinha, falou com jeitinho para não assustá-la ou induzi-la a dar excesso de atenção ao fato, calculando bem as palavras.

—O seu pai ficou bravo com você, Bia. Mas não fique triste com ele, certo?

—Mas eu não menti, tia.

—Sabe, querida, não é muito comum enxergarmos as pessoas que já se foram. E por isso que o seu pai está preocupado. Você disse a ele que viu a sua mãe hoje?


  • Eu vejo mamãe quase sempre.

  • Como assim? — insistiu Helena, tentando disfarçar sua curiosidade.

  • Não sei explicar, eu vejo a mamãe quase sempre.

  • Onde você a vê?

  • Aqui pela casa. Mas ela fica mais perto de você e do papai. Olha, quando você chegou, ela tava do seu lado chorando, segurando seu braço e dizendo: "Faça alguma coisa!" — relatou a menina como se tentasse imitar o jeito de falar de sua mãe.

  • E, antes que eu chegasse, o que você disse ao seu pai?

  • Ele tava sentado lá no quarto. Ela tava chorando no ombro dele e pedia ajuda. Meu pai tava quase chorando e parecia que ele ouvia tudo o que ela falava.

  • Bia — disse a tia se acomodando na frente da menina e fazendo-a olhar em seus olhos —, você está dizendo a verdade mesmo?

  • Claro, tia! Eu juro que tô.

Preocupada por não ter o que dizer, talvez pela falta de conhecimento sobre a vida no plano espiritual, Helena ficou estagnada.

  • Tia — chamou Bianca tirando-a da reflexão —, minha mãe sempre diz pra você que ela não se matou não. Pra você não pensar isso dela.

  • O que é isso, Bia! — exclamou Helena, perplexa. — Ninguém nunca falou isso. Sua mãe sofreu um acidente. — Passado o espanto, perguntou um pouco mais calma: — Foi ela quem disse isso para você?

  • Pra mim, não. Ela falou pra você ontem e outros dias também.

  • Você a vê com freqüência?

  • Mais ou menos — respondeu meneando a mãozinha Para gesticular. — Às vezes ela some por dias.

  • Ela está aqui agora? — Perguntou a tia um tanto temerosa.

Não. Agora não. Quando ela aparece, mesmo se eu echar os olhos continuo vendo minha mãe aqui dentro da minha

cabeça e até vejo ela andando pra lá e pra cá, falando e chorando. Eu não gosto disso, tia.

Helena sentiu-se quase aterrorizada. Acreditava em Bianca. De alguma maneira, sabia que a menina dizia a verdade. Principalmente por ter falado das suas suspeitas de suicídio, algo que não havia comentado com ninguém.

Sem saber o que dizer para explicar tudo aquilo, reco­mendou:

—Bia, vamos rezar bastante para Deus ajudar sua mamãe, está certo? Pediremos ao Papai do Céu que a proteja e a leve para morar com os Seus anjos.

A garotinha balançou a cabeça positivamente e não disse mais nada.

Altas vozes puderam ser ouvidas na sala, desviando a atenção de Helena.


  • Quem será que chegou? — perguntou a moça, curiosa.

  • Posso ligar a televisão aqui do quarto, tia?

  • Pode sim — consentiu enquanto levantava e ia para a sala.

Ao olhar sua irmã, Helena se surpreendeu:

—O que é isso, Carla?! Seus cabelos...!

—Veja, Helena! — reclamava dona Júlia enfurecida. — E sua irmã ainda diz que eu não tenho pelo que reclamar, diz que é moda! Olha só isso!!!

Carla havia tingido seus cabelos. Trocara o loiro-escuro por um vermelho-púrpuro, com algumas mechas verdes e rosas, repicando-os com um corte desalinhado.

—Carla, como pôde?! — exclamou a irmã completamente perplexa.

—O cabelo é meu, tá bom! — respondeu malcriada. Dona Júlia, tomada por uma reação inesperada, quase

furiosa, pegou a filha pelos braços, segurou-a com firmeza e disse, olhando bem em seus olhos:

—O cabelo pode ser seu, mas você é minha filha. E dependente, vive sob o meu teto, além de eu e de seu pai sermos responsáveis por você. Por isso, mocinha — completou, largando-­a com um leve empurrão —, qualquer decisão que você for tomar, antes tem que nos avisar e pedir permissão! Entendeu?! — Após alguns passos hesitantes pela sala, a mulher ainda falou: — Eu tive uma filha saudável e perfeita, não uma criatura insana e volúvel que se deixa manipular pelo modismo ou pelas idéias dos outros.

—Mas mãe...

—Cale a boca! — gritou. — Eu não terminei. Qualquer que seja a sua opinião nesse momento, será um insulto à minha inteligência, às minhas convicções morais! Não diga mais nada.

Carla sentou-se bruscamente no sofá e cruzou os braços com o rosto sisudo, descontente.


  • O que é isso, criatura de Deus?!!! — prosseguiu a mãe, protestando ao apontar para os cabelos da filha. — A menina me sai de manhã e chega em casa com a outra doida desse jeito aí! E ainda não quer que eu reclame! O que você tem na cabeça, Carla?! — gritou nervosa.

  • Mãe, calma — pediu Helena, tentando apaziguar a situação.

  • Que calma o quê!!! Se ela está pensando que isso vai ficar assim, não vai mesmo. Se eu deixar hoje, deixar amanhã, vou perder o meu direito e a minha dignidade como mãe. Filha minha, se quiser mudar de vida, de aparência, de... seja lá o que for, ou vai fazer isso bem longe de mim, ou vai ter que passar por cima do meu cadáver. — Virando-se para Helena, ainda avisou enérgica: — E isso serve para você também, dona Helena.

  • Ah?!... Eu nem fiz nada...

  • E não me responda!

Dona Júlia estava furiosa e até atordoada tentando buscar uma solução imediata para o problema. Após dissertar longamente, lembrou-se:

  • Helena! Pegue dinheiro ali na minha carteira e vá lá na farmácia comprar uma tinta de cabelo, e de uma cor decente! Eu mesma vou dar um jeito nisso.

  • A senhora não vai tingir o meu cabelo — reagiu Carla irritada e começando a chorar.

  • Isso é o que nós vamos ver! Ou tinjo ou raspo sua cabeça. Você é quem escolhe.

  • Mãe, amanhã com mais tempo ela vai a um salão e...

  • Faça o que eu mandei Helena!

Não adiantava tentar argumentar, dona Júlia estava quase fora de si.

Algum tempo depois, a mulher trancou-se no banheiro com a filha e o material necessário para mudar a cor dos cabelos.

Seu Jairo, que havia acabado de chegar, soube da novidade por Helena, que detalhou tudo.

O homem, que a princípio estava bem sério, começou a rir sem parar:



  • E você nem para tirar uma só foto para eu ver, né?

  • Pai!!! — riu Helena.

Do lado de fora do banheiro, eles ouviam somente a voz de dona Júlia que, indignada, não parava de falar.

  • Isso é uma falta de respeito! Não foi esse o exemplo que demos a você. Tudo aqui em casa é dialogado, conversado muito. Não foi essa a educação que lhe dei...

  • Pai, vai lá, faça alguma coisa — pediu Helena, impaciente.

  • Eu?! Ficou louca? Se eu tentar falar com sua mãe, se eu passar perto dela agora, sairei de lá tingido também. Quando a dona Júlia fica brava... não tem jeito.

  • Se bem que a Carla abusou dessa vez.

A chegada de Miguel trouxe grande alegria a todos. Após abraçar o pai e levantar a irmã no colo, perguntou com um sorriso radiante:

  • E a mãe, a Carla, a vó, a Bia...?

  • A vó decidiu ir lá para a casa da tia — avisou Mauro.

—A Bia está lá no quarto — disse Helena. Seu Jairo, tentando segurar o riso, contou tudo o que estava

acontecendo.

Mauro ainda comentou:


  • Eu sabia que a mãe não iria deixar isso passar em branco.

  • Mas sua mãe agiu certo — disse o pai, agora mais sério.

— Isso pode até ser engraçado, mas não pode acontecer. — Voltando-se para Miguel, perguntou: — Conte as novidades. Como foi a viagem?

— O vôo atrasou. Eu fiquei...


***
Mesmo com a alegria contagiante de Miguel, o irmão com quem mais se dava bem, Helena sentia seu coração apertado.

Enquanto isso, na espiritualidade, Lara, que acompanhava tudo, se conservava tristonha e deprimida.

Aconteceu que, após o seu desencarne, Lara foi levada a um local apropriado ao seu refazimento. Quando despertou em uma colônia espiritual, recebeu orientações de espíritos amigos com entendimento suficiente para esclarecer-lhe sobre sua nova situação.

Lara ficou confusa, inconformada pelo desencarne súbito, não aceitando a nova vida e desejando rever os entes queridos que ainda se encontravam no plano físico.

Recebeu incontáveis orientações e conselhos sobre quanto seria prejudicial estar junto dos seus sem ter antes uma preparação maior na espiritualidade, mas não adiantou.

Lara não queria acreditar que havia desencarnado, imaginando que tudo aquilo fosse apenas um sonho tenebroso do qual desejava despertar.

Pensando intensamente no marido que amava, lamentava não tê-lo perto para esclarecer suas dúvidas e ampará-la.

Nutria por Mauro um apego excessivo. Bastante dependente de seu contato, apoio e atenção, Lara não admitia estar longe dele. E foi com um intenso desejo de tê-lo ao lado que, repentinamente, se viu abraçada ao marido, beijando-lhe a face molhada de lágrimas, algumas semanas após seu desencarne.

Qual não foi sua surpresa quando percebeu que o marido não a notava, mesmo quando o tocava na face abatida e em desespero, chamando-lhe a atenção. Mauro não reagia a sua Presença de maneira alguma. Era como se ela não estivesse ali.

Lara, agora bem longe do lugar reconfortante e seguro onde havia sido socorrida, estava extremamente perturbada, sem esclarecimento e equilíbrio de suas emoções e sentimentos.

Sem compreender sua nova situação, a jovem mulher estava longe de acreditar que pudesse perturbar a própria família, aqueles que ela tanto amava.

Mauro, além da dor que tentava suportar pela brusca separação, ainda tinha que enfrentar a vibração perturbada da esposa pela sua proximidade, sempre lamentosa e extremamente triste pelo que havia acontecido.

O marido, a cada dia, sentia-se mais triste e deprimido. Algo em seus sentimentos o desesperava. Ele não se acostumava sem Lara, que o envolvia com uma onda de vibrações inferiores, uma energia amarga.

Por ter sido alertado e até repreendido por sua irmã Helena e por sua mãe, Mauro decidiu omitir suas queixas e sentimentos, acreditando que com o tempo tudo isso passaria.

Mas não passou.

Mauro encontrava-se cada vez mais desanimado, e a saudade aumentava imensamente.

Ele passou a não ter nenhuma alegria pela vida. Somente Bianca ainda conseguia roubar-lhe algum sorriso e atenção. Se bem que ele acreditava que Helena era bem mais útil à pequenina do que ele.

Sem fortalecimento espiritual, Lara criava energias inferiores, atraindo para seu campo vibratório a atenção de outros desencar­nados brincalhões e zombeteiros, dispostos a perturbá-la ainda mais.

Aproximando-se, eles a observavam por algum tempo, tomavam conhecimento de sua história e, sem nenhuma piedade, a acusavam cruelmente:

—Suicida! Louca! Suicida!



  • Eu não me matei! — alegava chorando. — Eu não tirei minha vida...

  • Por que diz que o ama tanto? — tornavam os zombe­teiros. — Você não foi fiel, não contou ao seu marido o que pensava dele. Quem esconde, trai! Traidora! Você o traiu.

— Nunca traí meu marido — respondia lamuriosa e exausta. — Eu só queria saber se era verdade...

Passavam por Lara inúmeros desencarnados que, praze­rosamente, a queriam deprimir, espezinhá-la, oprimi-la mesmo por pura maldade por causa da falta de evolução moral e espiritual que possuíam.

Com o tempo, Lara passou a notar que a pequena Bianca, em determinadas condições, podia percebê-la. Foi aí que, sem saber que a estava prejudicando e fazendo-a sofrer, despendia intensa energia para tentar se comunicar, exibindo-se como se estivesse viva para dizer que ainda estava com eles.

A sensibilidade de Bianca conseguia acompanhar, algumas vezes, as impressões e o estado de Lara, os quais, por não serem muito bons, deprimiam muito a garotinha que não podia entender o que estava acontecendo.

Lara estava completamente desguarnecida de energias salutares para recompor-se espiritualmente por causa da sua permanência junto aos encarnados, já que lá não era o seu lugar.

Seu estado consciencial admitia dolorosos sofrimentos, como se ainda estivesse encarnada, levando-a a experimentar todas as necessidades físicas como se ainda possuísse um corpo de carne.

Por não ter querido receber as orientações necessárias no lugar apropriado, não sabia como poderia se refazer espiritualmente e, por isso, apresentava-se com uma aparência deplorável, sofrida. Sua roupagem perispiritual tinha aspecto esfarrapado, turvo, algo realmente feio.

Agora com uma feição pálida, cadavérica e desfigurada, pois havia perdido completamente a beleza e a exuberância que um dia possuiu quando encarnada, exibia-se magra e com um andar moribundo que demonstrava sua fraqueza, suas necessidades.

Junto aos familiares, ora ela se aproximava de um, ora de outro, e aos poucos os impregnava com suas vibrações e fluidos pesarosos graças aos pensamentos tristes, depressivos e confusos que cultivava e emanava pela falta de fé.

Os encarnados não percebiam sua presença, mas, com os dias, experimentavam uma sensação angustiosa, indefinida.

Diante de fatos corriqueiros, melindravam-se entristecidos, perdendo o ânimo com facilidade e caindo na melancolia de sentimentos que não sabiam explicar.

Principalmente Mauro, por sentir imensamente sua falta, acabava por atraí-la constantemente para junto de si com seus pensamentos.

Lara o envolvia com um abraço, agarrando-se a ele desejosa de poder ser percebida, pedindo-lhe ajuda, chegando a se lamentar de forma até agonizante.

Em alguns momentos em que despendia muita energia, Lara sentia-se extremamente enfraquecida, principalmente quando desejava ser percebida pelos encarnados. Exaurida de forças, era arrebatada por um cansaço semelhante ao desfalecimento. Porém, logo se sentia um pouco mais fortalecida quando, sem saber, sugava energias salutares dos encarnados que envolvia, deixando-os desanimados, fracos e até mesmo fazendo-os se sentir enfermos. Isso é conhecido como vampirismo.

Não era fácil para o pobre espírito Lara, tão desvalida de fé, compreender e admitir sua nova condição, aceitar os desígnios de Deus, aguardando a seu tempo que a Sabedoria Divina manifestasse Seus propósitos de amor que nos reservou.
***
Depois de um longo relato, o filho de dona Júlia, que acabava de chegar da Europa onde fora a serviço, ficou visivelmente feliz por poder abraçar sua mãe, que também estava ansiosa para revê-lo.


  • Você está mais magro, Miguel! — observou dona Júlia ao se afastar do abraço.

  • E porque fiquei longe da sua comida e de seus cuidados, dona Júlia.

Carla, como um protesto ao que sua mãe fizera há pouco, não foi até a sala cumprimentar o irmão.

Helena, atenta ao que acontecia, percebeu a atitude de sua irmã e, discretamente, foi a sua procura.

Entrando no quarto, observou Carla, que, deitada em sua cama, ainda chorava.

A irmã se aproximou, sentou-se ao seu lado e a tocou com carinho quando disse:

—Não fique assim, Carla.

A jovem, com um jeito rebelde, virou-se para a irmã e falou com uma voz rouca pelo choro e um olhar colérico:



  • E devo ficar como?! Diz isso porque não é com você! Olha só como ficou agora! Gostou?! — perguntou agressiva, referindo-se à nova cor de seus cabelos que ficaram bem escuros.

  • Oh, Carla, a mãe estava nervosa. Também, né...! Aquilo que você fez não ficou nada bonito.

  • Não vou mais sair desse quarto até meu cabelo crescer, até sair toda essa cor! — dizia revoltada.

  • Agora está meio escuro, ainda. Quando começar a lavá-los todos os dias, vai melhorar. — E com jeitinho comentou: — Se bem que agora, Carla, está melhor do que antes. Aquele vermelho, verde e sei lá mais o que estavam horrorosos.

  • Está na moda, tá! Eu recebi um convite para fazer umas fotos e precisava daquela cor.

  • Quando uma agência publicitária, ou sei lá o que ficar exigindo que você se transforme, se altere por causa de qualquer coisinha, você deve pensar que isso é uma agressão, uma falta de respeito a sua verdadeira imagem. Acho que, na verdade, eles não querem você, mas sim uma doida qualquer disposta a tudo para aparecer. Dê-se um pouco mais de valor, ou daqui a pouco vão mandar você se tatuar, arrancar os dentes, colocar piercings, arrancar um braço fora... — exagerou Helena. — Sei que você está magoada, mas não posso tirar a razão da mãe. Eu mesma me choquei quando a vi daquele jeito. E olha que já vi muito disso pela rua, mas nunca Paginei que minha própria irmã pudesse...

Algumas poucas batidas na porta as fizeram perceber a Presença de Miguel.

—Ei! Como é? Não vai me cumprimentar, não?

Carla sentou-se na cama, e ele acomodou-se a seu lado, abraçando-a com carinho.

Afastando-a um pouco, Miguel procurou olhá-la bem nos olhos quando perguntou:

—O que você andou aprontando, hein?

Carla contou sua versão da história enquanto o irmão a ouvia atentamente.



  • Sabe, não é difícil vermos esses cabelos exageradamente diferentes pelas ruas da Europa, porém eu particularmente acho muito feio. Você é tão bonita, Carla. Não precisa disso para apa­recer.

  • Mas era uma oportunidade para fazer algumas fotos. A mãe não podia fazer isso.

  • A mãe estava nervosa e com razão. Se ela não nos orientar, não reagir quando for preciso, verá seus filhos se desvirtuando pela vida. Pense comigo, Carla: nossos pais nos amam e por isso nos repreendem; se não for assim estarão falhando como pais. A responsabilidade e as experiências que eles têm não os deixam ser negligentes. Somente pais irresponsáveis deixam os filhos se tingirem hoje, se tatuarem amanhã, se furarem com piercings depois, só porque é moda. Será que isso pode levar progresso a uma pessoa? Que serventia tem? Sabe onde isso geralmente acaba? Nas drogas, na promiscuidade, na prostituição, no alcoolismo, com certeza. Porque a pessoa que quer muito andar na moda acaba perdendo a noção do bom senso, do ridículo e do respeito a si mesma, pois só quer ser diferente, agressiva, estar na moda. Você não pode investir no ridículo para se promover. Se ceder a todos os pedidos que lhe fizerem, estará se desvalorizando, destruindo sua auto-estima. Você não é uma qualquer para reagir covardemente e aceitar uma proposta tão vulgar, tão agressiva. Acho que pensou só nas fotos que faria, mas e depois? — Vendo-a triste ainda, sugeriu: — Faça o seguinte: amanhã você procura um bom salão, corta seus cabelos de forma bem decente e pergunta como pode fazer para deixá-los com uma cor mais natural. Vai ver como ficará bom e sem agredir você ou outra pessoa.

  • E mesmo! — incentivou Helena. — Você sempre achou os cabelos da Erika, que são bem curtinhos, uma graça! Pode cortar como os dela.

Carla, ainda tristonha, pareceu mais tranqüila, aceitando a

idéia.


—Viu, você pode mudar e ficar mais bonita sem tanta... tanta... — Miguel procurava palavras para completar sua idéia, mas não as encontrava.

Helena, sem conseguir segurar o riso, rematou rapidamente:

—Sem tanta tinta vermelha, verde, rosa... Carla acabou rindo e empurrando a irmã.

Dona Júlia, chegando no quarto a fim de chamá-los para jantar, presenciou a brincadeira e sentiu seu coração mais aliviado, pois não queria magoar a filha como o fizera.



8

AS EXIGENCIAS DE GlLDA


No final de semana, Miguel já estava quase totalmente inteirado sobre as novidades.

Ficara um tempo considerável na Europa, mas ficava sabendo de tudo por telefone e pelos e-mails que Helena enviava, apesar de esses meios de comunicação não causarem o mesmo impacto que se tem quando se presencia um fato de perto, observando as expressões, os olhares e os contatos diretos capazes de transmitir muito mais sentimento, energia e emoção aos acontecimentos.

Helena, feliz com a chegada do irmão, levantou-se cedo, ajudou sua mãe no preparo do desjejum e decidiu:

—Vou buscar o pão, mãe.

Ao retornar, caminhava tranqüila deixando seus pensamentos vagarem livres, com planos para o que iria fazer. Pensava em comprar um computador novo e, com a ajuda de seu irmão, deixar a máquina com programas e sistemas bem atualizados.

Repentinamente foi surpreendida por um vulto que se aproximava.

Olhando rapidamente para trás, a moça assustou-se com Vagner, que a alcançou, e, segurando-a firme, falou com voz vacilante, trôpega, como se houvesse bebido.

—Você... Vem cá...

—O que é isso, Vagner? Solta meu braço! — exigiu a jovem.

—O que está pensando? Você não vai fugir de mim.

—Você está bêbado. Larga meu braço! — quase gritou Helena quando o viu tirar do cinto uma pequena arma de fogo, apontando para ela com a mão trêmula.

—Tá vendo? Oh! Fica quietinha, viu?

Helena sentiu-se gelar. Pensou em gritar, mas seria um risco ainda maior. Era bem cedo e não havia ninguém ali por perto que pudesse ajudá-la.

Vagner a empurrou de encontro ao muro e começou a dizer coisas desconexas, passando a beijá-la forçadamente.

Apavorada, repudiava-o, mas não conseguia livrar-se do abraço, não tinha forças. Helena possuía um porte físico frágil e delicado. Porém, numa ação rápida, sem pensar muito, passou por baixo dos braços de Vagner conseguindo fugir.

Correndo como nunca, alcançou o portão de sua casa, entrando apressadamente. Pálida e trêmula, sentia seu coração acelerado como se quisesse saltar de seu peito. Um suor frio cobriu-lhe o rosto, e, ainda ofegante, abriu a porta da sala e entrou.

Parou por alguns instantes e, sem ser percebida, correu para seu quarto. Assustada, estampando no rosto uma feição de pavor, sentou-se em sua cama e procurou se acalmar.

Nesse instante Carla acordou e, percebendo que algo estava errado, perguntou:


  • O que foi, Lena?

  • Nada... — respondeu com voz trêmula.

—Como nada? Parece que você viu um fantasma! Helena nem prestou atenção ao que a irmã falava, estava

amedrontada demais. Seus pensamentos corriam céleres recordando tudo o que ocorrera em rápidos minutos que pareceram eternos. Ela nunca havia se intimidado tanto. Começou a sentir nojo de si mesma quando se lembrou dos beijos e, numa atitude impensada, começou a passar as costas da mão na boca como se pudesse impá-la e retirar aquela sensação repugnante que sentia.

Copiosas lágrimas deslizaram em seu rosto quando Carla, acomodando-se a seu lado, num gesto afável, abraçou-a e, Puxando-a para si, falou mansamente:

—Ei! O que aconteceu, hein?

Helena abraçou a irmã com força e, escondendo o rosto em seu peito, chorou compulsivamente enquanto Carla afagava-a com carinho, procurando acalmá-la.

Minutos se passaram até que, contendo o choro, Helena contou, com voz embargada e em meio a soluços, tudo o que havia acontecido.

— Você não pode esconder isso de ninguém, Lena!

—Não conte! Não conte nada, entendeu? O Vagner tem uma arma; tenho medo de que aconteça uma desgraça, você entende?

—Fala com o Mauro ou com o Miguel.


  • Não!!! Por favor, Carla — primeiro gritou, depois pediu com mais calma. — Estou me sentindo mal com isso. Você não imagina.

  • Ah! Que vontade de matá-lo! — indignava-se Carla, agora andando de um lado para outro do quarto. — Como você foi namorar um cara desse tanto tempo?

  • Nem eu sei. Mas o Vagner nunca foi assim. Ele mudou muito. Não o reconheço mais.

  • Vai ver que ele é um psicopata que sempre se conteve e agora, por ter levado um fora, resolveu revelar sua índole doentia, sua obsessão.

  • Parecia que tinha bebido. Estava sujo, mal arrumado, de um jeito que nunca vi.

—Não ponha a culpa na bebida. Ele é um safado, vagabundo, ordinário...

Carla estava revoltada e começou a desferir várias nomenclaturas, até de baixo valor moral, para classificar o rapaz pelo ato indigno.

—Se eu não tivesse prometido, juro que eu ia agora mesmo contar pro Miguel. O Vagner precisa de uma lição.

—Não. Não faça isso, você me prometeu.



  • Mas o que você vai fazer? Como vai explicar essa cara de choro? Cadê o pão?

  • Sei lá do pão! — pensando um pouco, Helena lembrou: — O que vou dizer pra mãe?

Astuciosa, Carla refletiu rápido e decidiu:

  • Já estou me trocando. Vou lá, pego o pão enquanto você entra no banheiro e toma um banho para ganhar tempo e tirar essa cara de choro. Com sorte eu trago o pão antes que alguém venha nos procurar.

  • E se a mãe vier aqui?

  • Diga que teve uma dor de barriga e pediu pra eu ir buscar o pão. Mas não saia do banheiro com essa cara, entendeu?

Com a ajuda de Carla, Helena conseguiu omitir o desa­gradável episódio. Entretanto não conseguia agir normalmente, pois aquela cena se repetia em sua cabeça, tirando de seu semblante qualquer expressão de tranqüilidade.

O espírito Lara, que acompanhava tudo, abraçou Helena, lamentando não poder estar ali de outra forma para ajudar. Porém, com isso ela impregnava a jovem com energias inferiores e vibrações ainda mais pesarosas.

Mais tarde, quando ficou a sós com a irmã, Miguel ainda queria saber sobre as novidades:


  • E aí, Lena? Como estão as coisas?

  • Bem — respondeu com simplicidade.

Mas o irmão pôde ver uma tristeza indefinível escondida em seu olhar e, acercando-se mais da irmã, insistiu:

—Por que está com essa carinha, hein?

Sentindo seu coração oprimido e intensa vontade de chorar, Helena ofereceu meio sorriso, tentando disfarçar, e ele tornou:

— È por causa do Vagner?

Olhando para o alto a fim de não deixar as lágrimas rolarem, ela pediu:

—Não quero falar nisso, Miguel. Por favor.

Tudo bem. Então vamos sair e dar uma volta. Quero conversar um pouco, e aqui...

Levantando-se, Miguel estendeu-lhe a mão e a puxou para Que saíssem.




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