Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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* * *

Após darem um passeio pela cidade, o irmão comentou:

—Nada mudou. Como é bom estar de volta. Você não imagina. — Diante do silêncio dela, ele propôs: — Vamos parar ali no shopping e tomar um suco.

Acomodados à mesa da praça de alimentação, Miguel começou a contar:



  • Conheci uma garota ma-ra-vi-lho-sa! — exclamou com ênfase no adjetivo. E com um olhar brilhante contou: — Ela estava em um grupo de turistas brasileiros. Sabe, quando estamos lá fora, é agradável ouvir o som do nosso idioma. Você se atrai e, sem perceber, fica parado e olhando.

  • De onde ela é? — interessou-se Helena.

  • De São Paulo mesmo.

  • Como se conheceram?

  • Eu estava parado e olhando esse grupo quando ela e uma amiga ficaram para trás querendo tirar uma foto juntas e, quando as vi procurando alguém que pudesse fazer esse favor, aproximei-me e ofereci meus préstimos — falou brincando. — E ela não resistiu.

  • Convencido! — disse sorrindo por causa do jeito como o irmão se expressou.

  • Começamos a conversar, trocamos telefone, e-mail, endereço...

  • Voltaram juntos?

  • Não. Ela estava com uma excursão que retornará só na próxima segunda-feira.

Helena sorriu com um jeito maroto e perguntou:

  • E você vai ao aeroporto recebê-la, né? Seu safado!

  • Pior que não! Segunda tenho que ir à companhia. Vou ter um dia cheio com reuniões. Bem que eu queria.

  • Pensei que fosse tirar mais uma semana de folga.

  • Quem dera! Mas à noite eu telefono para ela. Pode deixar.

  • E impressão minha ou você está meio apaixonado, Miguel?

O irmão deu uma risada gostosa, mas apresentou um brilho especial em seu olhar ao dizer:

  • Não sei. Mas você vai conhecê-la, vai me dar razão. Ela é gentil, educada, muito bonita...

  • O que ela faz?

  • Estuda. Está no terceiro ano de Farmácia. Não trabalha, o pai é quem paga seus estudos.

  • Filhinha de papai, é?

  • O cara é banqueiro! — exclamou sussurrando e mostrando-se admirado. — Ela disse que é um banco financeiro pequeno, com carteira de clientes Pessoa Jurídica, voltado principalmente para as cooperativas de agropecuária.

  • Huuummm!!! — admirou-se Helena com feição bem expressiva.

  • Gostaria que você a conhecesse. A Suzi é tão agradável, uma pessoa simples, gentil...

  • Estou vendo que a mãe vai ganhar uma nora.

  • Aos trinta anos, acho que já estou bem maduro e tenho que pensar um pouco mais no futuro.

  • Ora, você sempre foi responsável, Miguel. Não venha dizer o contrário.

  • Eu não disse o contrário, só sinto que estou passando por uma fase onde penso mais sério em algumas coisas, não quero mais perder tempo.

  • Está pensando em se casar?!

  • Estou pensando em um compromisso sério. Conhecer alguém com quem eu possa dividir minha vida, alguém que me compreenda, que goste de mim. A maioria das garotas, hoje em dia, é muito liberal, são meninas fáceis, irresponsáveis, vulgares. É difícil encontrarmos alguém responsável que se ame a ponto de não viver tão liberalmente. Sinceramente, Helena, até hoje nunca encontrei uma garota difícil. Logo no primeiro encontro... você entende?

  • Não pode dizer isso de suas irmãs.

  • Estou preocupado é com a Carla. A mãe faz bem em ser rígida. Ela sempre nos ensinou valores que, hoje em dia, são raros. Você pensa que é fácil encontrar uma menina que não durma fora de casa, que não use piercings ou tatuagem, que não Vai para um motel logo no primeiro encontro?

  • Mas temos que admitir que se as moças de hoje estão tão liberadas assim é porque vocês, homens, aceitam isso e vivem dando em cima. A propósito, você virou machista, é?

  • Não! Não sou machista, mas admito que a natureza do homem sempre foi de dar em cima; porém, apesar de aceitar totalmente a liberação sexual feminina, acredito que todo homem, quando quer ficar com alguém, quando quer um porto seguro, vai procurar uma companheira mais recatada, mais moralista. As mulheres querem encontrar um homem sensato, fiel, honesto, mas se elas não são nada disso como podem exigir?

  • Então vocês homens querem uma menina que tenha saído do convento? — interrogou a irmã com certa contrariedade.

  • Não, não. Nada disso. Só que eu, particularmente, não creio que me sentiria bem com uma garota muito rodada, que tenha sido excessivamente liberal, que fique hoje com um, amanhã com outro, e só Deus sabe com quantos mais, porque geralmente são elas mesmas que costumam perder a conta.

  • Miguel! Credo!

  • Vai me dizer que é mentira? Sou um bom observador e percebo que a cada dia as mulheres, as mais novinhas principalmente, estão se desvalorizando, se desmoralizando cada vez mais, perdendo a graça. E só andarmos pelas ruas e vemos que muitas delas só faltam andar nuas. Eu acho legal, acho bonito, mas não gostaria que minha namorada, ou que minha mulher, andasse por aí exibindo o umbigo, mostrando o decote...

  • Vai virar muçulmano, é? Vai querer que sua namorada ande de burca?

  • Oh! Assim também não. Mas é tão gostoso você ver que sua mulher não está se vulgarizando. É gostosa aquela sensação de mistério, de que é só meu, entende? — Ao ver a irmã sorrir, completou: — Tudo o que conseguimos com facilidade não damos valor. Isso é natural e cultural do ser humano.

  • Só tive dois namorados até hoje, mas pelo que as meninas contam, se aparecer um rapaz e você quiser se preservar e der uma de difícil, o cara vai embora rapidinho.

—Isso significa que o sujeito não presta, não tem boas intenções nem valia muita coisa. Aí é que vocês devem dar uma de difícil mesmo, se dando valor e não aceitando o primeiro estrupício que aparece. Além do que a AIDS está por aí como um terrorista silencioso. E tem muita gente mal-intencionada que não tem nada a perder e pouco se importa com os outros.

—Deus me livre.

—E você não imagina como a coisa aí fora está feia. Hoje em dia precisamos tomar muito cuidado com essas coisas, o problema da AIDS é sério e pode atingir qualquer um, se não houver responsabilidade. — Após refletir um pouco, Miguel propôs: — Vamos mudar de assunto. Diga-me como você está se sentindo agora que está descomprometida?

A irmã, surpresa com a súbita pergunta, sentiu imedia­tamente seu rosto aquecer pelo constrangimento. Mas com um jeito doce e gentil encolheu os ombros e, com meio sorriso, admitiu:

—De certa forma me sinto bem por estar livre, mas preo­cupada.

—Com o quê?

—Desde o momento em que eu disse ao Vagner que tudo estava terminado entre nós, me surpreendi. Ele revelou um lado estranho, agressivo, parece que não o conheço.

—Como assim? — perguntou bem sério e preocupado.

—É difícil explicar — dissimulou, percebendo seu descontentamento. Logo continuou tentando amenizar: — O Vagner reagiu muito mal, não querendo aceitar nossa separação. Começou a falar alto comigo, a mãe teve até que interferir. Eu o vi algumas vezes depois que terminamos. Agora ele está muito mal vestido, barba por fazer, parece que anda bebendo, pelo que a irmã dele falou.

Se ele procurar você, me avisa. Vou falar com ele. Não se preocupe. Isso não vai acontecer. E que a vejo tão acabrunhada que pensei que tivesse se arrependido por ter terminado tudo. Não. De jeito nenhum. Os irmãos conversaram ainda por um longo tempo como

dois grandes amigos que sempre foram. Helena sentia-se melhor, mais confiante agora.
***
Longe dali, na casa de Gilda, ela e o marido recebiam Natália, diretora financeira da empresa de Adalberto e amiga da família, que levou consigo a filha Geisa. Conversavam animadamente em um quiosque no jardim, próximo à piscina.

A jovem Geisa, alheia ao assunto, observava ostensivamente Eduardo, que nadava.

Minutos depois, quando o rapaz saiu da água e sentou-se na beira da piscina, Geisa alegrou-se intimamente e deixou a refrescante sombra, aproximando-se dele.


  • A água deve estar bem fria.

  • Enganou-se. Está ótima. Por que não experimenta? Franzindo o rosto e sorrindo ao mesmo tempo, ela fez que

não com um movimento de cabeça.

Sem lhe dar muita importância, o rapaz levantou-se e deitou-se em uma espreguiçadeira sob o sol.

Geisa, mesmo sem ser convidada, acomodou-se a seu lado em outra cadeira e perguntou:


  • E aí, Eduardo, como você está?

  • Ótimo. Muito bem.

  • Alguma novidade? Alguma pessoa nova em sua vida?

  • Não. Nenhuma novidade — respondeu sorrindo e desconfiado.

  • Então, já que está livre, por que não saímos hoje para agitar e descontrair? Podemos nos divertir muito.

Suspirando fundo, o rapaz pensou um pouco e disse:

—Não acho que seja uma boa idéia.

—Ora! Por quê? Conheço um lugar onde a balada é ótima. Você vai curtir muito.

Agora, um pouco insatisfeito, ele respondeu:



  • Hoje não é um bom dia, Geisa.

  • Não posso aceitar uma negativa. De jeito nenhum.

  • Geisa, não quero ser desagradável. Por favor.

  • Você está deprimido? Prefere ficar em casa?

  • Sim. Isso mesmo. Prefiro ficar em casa.

  • Então vou lhe fazer companhia. Você não vai ficar deprimido não.

Sentindo-se cercado pelo assédio da moça, Eduardo fez valer sua vontade e avisou:

—Geisa, não seja tão insistente. Você está sendo desagradável.

Naquele momento, Erika, andando rapidamente em direção ao quiosque com o semblante contrariado, parecia furiosa. Seu olhar soltava faíscas quando parou diante da mãe e exigiu irritada:

—Dona Gilda, quero uma explicação. Por que cancelou o meu cartão?!

Com modos arrogantes e um sorriso cínico, Gilda a encarou e falou com deboche:


  • Ora, meu bem! Primeiro me dê bom-dia!

  • Não estou brincando! O que você fez?!

  • Amorzinho — falou a mãe com ironia —, fique sabendo que cancelei o seu cartão porque você é minha dependente, eu sou a titular e posso pedir o cancelamento do cartão adicional a qualquer hora. Tanto posso como o fiz após quitar todas as suas dívidas, é claro.

  • Passei a maior vergonha quando fui abastecer o carro. Por sorte eu tinha dinheiro suficiente na carteira. Você ficou louca para fazer um negócio desse sem nem sequer me avisar?!

  • Olha aqui, menina, fala direito comigo! — exclamou veemente. — Eu não estou louca, não. Louca é você que não enxerga com quem anda.

  • Ah! Tá pensando que vai controlar a minha vida assim como controla a de todo mundo? Não, dona Gilda, a mim você não vai controlar não!

  • Não vou admitir que filha minha dê dinheiro a pé-rapado Que não tem onde cair morto.

Não fale do que você não sabe e não conhece!

  • E eu preciso conhecer?! É só olhar, está estampado na cara. Mas posso garantir que daqui de casa não vai sair mais nem um centavo para você enquanto tiver a pretensão de ficar com aquele lá.

  • Eu vou falar com meu pai. Você deve ser insana mesmo.

  • Insana é você, Erika! Onde já se viu uma menina de berço se dar ao trabalho de olhar para um negro e pobre ainda por cima.

Numa reação enfurecida, Erika pegou uma cadeira que não estava sendo ocupada e atirou longe, dando um grito de raiva. Depois, com uma ferocidade impressionante no olhar, gritou para a mãe:

— Você não vai me dominar, dona Gilda! Não vai mesmo! Quando a jovem já estava a uma certa distância, sua mãe a

avisou:

—Seu celular também está bloqueado, viu, queridinha? Lembre-se de que ele foi presente meu, só que agora decidi que você não vai mais usá-lo.



Observando o estado da irmã, Eduardo levantou-se e foi apressadamente atrás dela.

No interior da residência, Erika, enfurecida e revoltada, em sinal de protesto, começou a passar a mão com violência por cima dos móveis, derrubando peças decorativas e caras, fazendo muito estrago e bagunça enquanto gritava e chorava.

Eduardo aproximou-se e segurou-a com força pelos braços, perguntando com firmeza:


  • O que é isso? Você enlouqueceu?!

  • Solte-me, Eduardo!

Agitando-a, como se quisesse despertá-la para a realidade, ele não a largou e disse:

—Se você pretende ser alguém como dona Gilda, esse é o caminho. Vai, continua quebrando tudo! — disse, largando-a num leve empurrão. Depois continuou rigoroso: — Quer que tudo aconteça conforme sua vontade? Vai, grita! Berra! Exija! Quebre a casa inteira. Faça exatamente como ela faria.

—Você não entende!


  • Preste atenção, Erika! Deixe de ser uma menininha mimada e encare a realidade.

  • Você diz isso porque não está no meu lugar.

  • Por que está quebrando tudo? Fale?

Com olhar colérico, a irmã o encarou enquanto vociferava e chorava ao mesmo tempo:

  • Vou quebrar tudo para ela sentir no bolso alguma dor. Ela valoriza mais os seus caros objetos de arte do que a mim, que sou sua própria filha.

  • Acorda, Erika! A mãe vai substituir tudo isso. Ela pode simplesmente trocar toda a decoração dessa casa num passe de mágica. O que está fazendo é um favor a ela. Sabe quem vai ser prejudicada nessa história? A pobre da empregada que não vai poder deixar nenhum caquinho no chão. Vai! Continua quebrando. Não é você quem vai limpar mesmo.

Erika parecia estar fora de si. Andando de um lado para outro, enxugava o rosto com as mãos, ainda revoltada.

  • Calma, Erika — tornou o irmão com brandura. — As coisas não são assim. Podemos resolver de outro jeito.

  • Por que ela não faz isso com você?

  • Porque até hoje eu não dei motivo.

A irmã o encarou com certa fúria e talvez ciúme ao dizer um tanto agressiva:

—Também você, Eduardo, com toda essa sua superioridade...! — Depois desabafou: — Odeio a minha mãe! Não pode haver criatura mais monstruosa, sem ética, sem princípios humanos... Sempre com seus projetos escusos, pronta a revidar, a dar o bote.

Também inconformado com a situação e sem saber como agir, Eduardo se acomodou num sofá enquanto Erika desabafava e caminhava ofegante pela sala.


  • Sabe, eu até acho que a Lara morreu por culpa da mãe.

  • Do que você está falando?

—A dona Gilda nunca engoliu o casamento dela com o Mauro. Ela não se deu por vencida e só bastou a Lara começar a freqüentar novamente esta casa que a mãe, com um jeito todo especial, claro, começou a fazer a cabeça da nossa irmã. — Agora, procurando manter a calma, sentando-se em frente ao irmão, revelou: — Eu cheguei a pegar a mãe falando com a Lara algumas vezes e... — deteve-se pensativa.

  • Falando o quê? — questionou o irmão com expressão preocupada.

  • Falando mal do Mauro, mas com sutileza, escondendo aquela sua perversidade camuflada entre o riso e o ar de seriedade, você sabe. — Como se quisesse relembrar, Erika espremia os olhos, vagando negligentemente o olhar pelo ambiente enquanto dizia: — As vezes penso que só eu enxergo a sua maldade, o seu desejo dominador, arrogante e orgulhoso escondido atrás daquela máscara sorridente.

  • O que você ouviu a mãe falando para a Lara?

  • Não posso afirmar direito, Edu. Mas ela inventava coisas.

  • Como o quê? — insistia desconfiado.

—Estou tentando lembrar o dia em que cheguei e vi a Lara nervosa lá no quarto da mãe. A porta estava entreaberta e ela andava de um lado para o outro, inquieta. Isso foi na semana em que a Lara morreu. A mãe falava algo e eu ouvi somente algumas palavras que não consigo lembrar direito. Ela dizia mais ou menos que o Mauro sempre lhe pareceu suspeito ou algo assim. A Lara esfregava as mãos de modo nervoso, muito preocupada, e dizia alguma coisa sobre não poder acreditar. Acho que ainda disse: "Se isso for verdade, prefiro morrer".

—Você tem certeza, Erika?



  • Absoluta. Só não consegui ouvir com clareza o que a mãe falou. Por que ficou preocupado?

  • Houve um dia em que eu estava muito ocupado lá na empresa e a Lara me telefonou. Não lhe dei muita atenção, mas percebi que sua voz estava diferente, talvez tivesse chorado, não sei. Começou com um papo bobo. Perguntou o que eu achava do Mauro e depois falou sobre pessoas que se apresentam de um jeito mas têm outra personalidade.

  • Será que ela recebeu alguma informação da mãe que a deixou em dúvida sobre o caráter do Mauro?

—Mesmo que tenha sido isso, não vejo que ligação pode ter com seu acidente.

—Não vejo ligação, mas sinto que há alguma. O irmão a olhou longamente sem dizer nada.

Erika, com seu rosto miúdo e traços finos, trazia uma palidez evidente, apesar de sua beleza, parecendo desorientada.

Eduardo sentiu-se comovido com o sofrimento da irmã; queria ajudá-la, mas ainda não sabia como.

Erika apoiou a cabeça nas mãos e os cotovelos no joelho, refletindo.

Decidido, Eduardo a convidou:

—Vamos sair e dar uma volta? Não agüento mais a Geisa se atirando em cima de mim. Nem sei por que essa gente freqüenta nossa casa.

—Aonde você vai?

—Não sei. Vou tomar um banho bem rápido. Arrume-se e vem comigo, vai.

A irmã, aceitando o convite, ofereceu um sorriso doce, levantou-se e foi se arrumar.



9

Lições de auto-estima

Érika e o irmão fizeram um passeio de carro pela cidade enquanto conversavam. A jovem aproveitou a companhia do irmão para desabafar um pouco mais sua revolta. Eduardo só ouvia.

Após almoçarem em um requintado restaurante, ela convidou:

—Vamos lá na casa do João Carlos? Eu queria que você conhecesse a família dele.

Aceito o convite, ambos foram animados para o local.

Dona Ermínia, mãe do rapaz, recebeu-os com alegria, convidando-os prazerosamente para que entrassem.

A residência não tinha nenhum luxo, mas era bem ampla, organizada e com um estilo moderno na decoração de muito bom gosto.

Eduardo reparou na simplicidade harmoniosa do ambiente, onde se sentiu bem à vontade.



  • Muito bonita a sua casa, dona Ermínia. E acolhedora também — elogiou o rapaz de forma elegante e gentil.

  • Oh, filho, sei que deve conhecer coisa bem melhor. Mas obrigada pela gentileza — agradeceu a senhora meio encabulada.

  • Ambiente requintado, chique, não significa que seja aconchegante. A Erika me disse que a sua filha é decoradora, por isso imaginei que a casa fosse repleta de esculturas modernas, daquelas com ferros torcidos — disse sorrindo ao explicar gesticulando — , quadros enigmáticos... Porém me surpreendi. Que bom gosto!

—Obrigada! — respondeu Juliana sorridente, entrando na sala.

Após as devidas apresentações, dona Ermínia perguntou:



  • E o seu irmão, Juliana?

  • Ele já vem. Estávamos entrando na garagem e um amigo o chamou. Não quis entrar, deve ser uma conversa rápida.

  • Juliana — disse Eduardo —, depois de apreciar o bom gosto desta sala, você me fez pensar em rever a decoração lá da empresa e, talvez, do meu quarto também.

  • Puxa! — exclamou com grande alegria estampada no olhar. — Recebo isso como um grande elogio.

  • Vejo que pensou muito na iluminação — tornou o rapaz. — É disso que precisamos, é isso que agrada.

  • O modernismo foge do ambiente pesado, carregado, o que deixa tudo muito triste, até as pessoas. Se está pensando mesmo nisso, acho que vai adorar ir lá no estúdio. Posso mostrar no computador alguns projetos que já realizamos e outros inéditos também. Acho que é bem o que você quer.

A conversa entre eles seguiu, e Erika foi atrás do namorado enquanto dona Ermínia preparava um café.

Após um tempo considerável, Erika e João Carlos retornaram à sala onde Eduardo e Juliana conversavam animados. Foi então que o irmão percebeu e perguntou:

—O que foi Erika? Você está chorando?

João Carlos ofereceu um meio sorriso enquanto acomodava a namorada em um sofá e, após sentar-se a seu lado, explicou:

—Ela estava me contando sobre a reação negativa da dona Gilda por causa do nosso namoro.

Eduardo, agora um tanto sem jeito, fez um gesto singular ao admitir:



  • Minha mãe é uma pessoa difícil. Creio que teremos que conviver com isso. Não sei o que fazer.

  • Só se for você, Edu. Eu não sou obrigada a me sujeitar aos caprichos deprimentes da dona Gilda.

  • Talvez seja uma questão de tempo, Erika — considerou Juliana com um jeito afável em sua bela voz.

Olhando para Juliana, Erika confessou com certo ressentimento:

—Desde que me conheço por gente, a dona Gilda só dita normas e exige ser obedecida. Ela é intolerante, amarga, preconceituosa... — falou, expressando um brilho no olhar que traduzia toda sua mágoa. — Eu me sinto envergonhada por tê-la como mãe. Se a gente pudesse escolher...

Juliana sorriu com gosto ao dizer:


  • Quem disse que não escolhemos nossos pais e nossos parceiros? A natureza não comete erros, não! E quando estamos lá no plano espiritual observando os nossos erros do passado imploramos por uma oportunidade abençoada de renascermos, entre essa ou aquela pessoa, a fim de nos harmonizarmos, de corrigirmos nossas falhas.

  • Você acredita nisso, Juliana? — perguntou Eduardo, parecendo interessado.

  • Como não acreditar? Se Deus é bom e justo, há de nos oferecer inúmeras oportunidades para corrigirmos nossos erros do passado, que certamente ficam latejando em nossa cons­ciência.

  • Ora, Juliana, me desculpe, mas não posso crer que pedi para ser filha da dona Gilda. Você não imagina como é! — protestou Erika.

  • Pois deve ter pedido, sim, Erika. E se está junto dela hoje é porque você está preparada, evoluída espiritualmente para isso e tem condições de se harmonizar com ela sim. "Deus não coloca fardos pesados em ombros leves".

—E o que posso fazer? Engolir tudo o que ela determina?

  • Eu não diria engolir. Diria que você tem que se manter neutra, tranqüila, sem reações calorosas — aconselhou João Carlos.

  • Mas você não entende, João Carlos. Ela me agride com ironias, preconceitos.

  • Por quê? Ela está implicando com o seu namoro por causa da nossa cor? — perguntou Juliana muito direta e despojada de constrangimento.

—Isso também — respondeu Erika, fugindo o olhar.

O riso cristalino de Juliana, algo gostoso de ser ouvido, encheu o ambiente com sua alegria.

Eduardo, que se sentiu constrangido a princípio, conta­minou-se com a alegria, rindo junto.


  • Ah, Erika! Não se importe com isso — aconselhou Juliana. — A consciência tranqüila nos deixa acima dessas ofensas, não é, João Carlos?

  • É que você não faz idéia do que ela fala — disse Erika um tanto triste.

  • Preste atenção, Erika — pediu Juliana, agora mais séria —: para as pessoas preconceituosas com a raça, a cor da pele, a naturalidade, as deficiências físicas, a ausência de beleza ou qualquer outra coisa, tenho a dizer: "A luz do teu corpo são os teus olhos. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso". Essas são palavras de Jesus, sabia?

  • Eu não! — avisou Eduardo. — Gostei, explique melhor.



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