Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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  • As pessoas que só enxergam defeitos, que são preconceituosas, que só vêem a maldade, são maledicentes, ou melhor, são fofoqueiras mesmo, só reparam o que há de mal, de errado, têm, como disse Jesus, os olhos maus, e certamente, como disse o Mestre, têm o corpo tenebroso. Vamos lembrar que temos uma alma, um espírito, e esse é o corpo que pode ser tenebroso ou não de acordo com nossas atitudes mentais e verbais.

  • Eu não me ofendo com isso. Esse tempo já foi — disse João Carlos.

  • Eu também não me ofendo. Porém, a bem da verdade, devo admitir que nem sempre foi assim. Eu me achava horrorosa, feia mesmo, sem jeito. Façam uma idéia: eu usava óculos de lentes grossas e tinha os dentes tortos, todos encavalados, além de ter o rosto forrado de espinhas e ser negra — nesse momento ela riu gostoso, mas logo continuou: — Eu só saía de casa para ir à escola, nada mais.

  • E difícil acreditar, você é muito bonita, Juliana — comentou Eduardo.

—Vai vendo — prosseguiu Juliana, animada —, eu era o motivo principal de todo o tipo de chacota na escola. Quanto chorei escondida...! Quase me sufoquei no travesseiro. Ninguém pode imaginar a dor moral pela ofensa. Eu não tinha nenhuma amiga, parecia que ninguém gostava de mim. Eu era um monstro! — exagerou sorridente. — Sabe, um dia eu disse: Vou mudar! Virei-me para Deus e falei: Pai do Céu, nada é impossível, eu quero ser bonita, quero ser diferente do que sou hoje. Nunca mais serei motivo de chacota ou brincadeira de qualquer espécie.

—E daí?! — interessou-se Erika.



  • Ah! Comecei pelo mais próximo: meus pensamentos! Mudei minha maneira de pensar e de ver o mundo. Se o mundo é ruim ou se as pessoas são más, não significa que eu tenha de me curvar a isso ou ser tão perversa quanto eles. Então pensei: E problema dos outros se eles não gostam de mim como eu sou. Eu me amo e vou ser melhor. Comecei a me observar e perguntar o que estava errado, o que eu não gostava em mim. Primeiro descobri que eu andava curvada, como quem esconde o rosto, e, de repente, alcei a cabeça, estiquei as costas e comecei a desfilar com livros sobre a cabeça para corrigir minha postura.

  • E verdade — interrompeu o irmão —, a Juliana ficava desfilando o tempo todo em casa. Eu tirava um barato, mas não adiantava, ela insistia.

—Então logo me esforcei e parei de roer as unhas...

—... enrolou até esparadrapo nos dedos para conseguir essa façanha — tornou o irmão, muito irônico.

Todos riram, e Juliana continuou:

—Aí foi a vez do dermatologista, pois eu queria porque queria acabar com minhas espinhas. Fora isso, comecei a vigiar meu andar, meu modo de sentar, de comer, de me apresentar, porque eu era excessivamente tímida, e também melhorei meu modo de vestir. Então decidi que queria mudar meus dentes, que eram um tanto fora de eixo.

—Isso foi o mais caro! — lembrou João Carlos.

—Mas consegui! Nós temos vários tios. Eles nos presenteavam sempre, nos mimavam muito, até porque a maioria era de solteirões. E como o aparelho era muito caro na época eu pedi a cada um deles que me desse o presente em dinheiro porque eu queria sorrir com glamour! — brincou rindo. — Enquanto acontecia tudo isso, meu cabelo crescia e, com isso, uma briga diária com pentes e cremes usados na artilharia para deixá-los melhor. — Eles riram, e ela prosseguiu. — Mas tudo se passou muito devagar para mim. Porém, no prazo de dois anos aproximadamente, eu era outra pessoa. Gostava mais de mim pelo meu jeito, por saber falar, sentar, andar, me apresentar, por ter cabelos mais brilhantes e com movimento, minhas roupas eram bem melhores não em termos de luxo, mas de harmonia, simplicidade e beleza. Por último, tirei o aparelho dos dentes. Aí sim pude exibir minha verdadeira felicidade, sorrindo! Veja, não precisei fazer mudanças radicais e tresloucadas para chamar a atenção para mim, agredindo os costumes sociais com imagens grotescas, fora do normal, obrigando as pessoas comuns a me aceitar ou a conviver comigo. Eu simplesmente melhorei o que já tinha de bom. Assim, passei a ter auto-estima, a me valorizar e a acreditar mais em mim. Descobri que era capaz de tudo. Tudo o que eu quisesse poderia conseguir por meios lícitos e com bom ânimo. O complexo acabou. Não mudei a cor da minha pele, mudei o meu interior, a minha alma e nunca mais me constrangi por nada desse mundo. E quando alguém quer me agredir com palavras usando a minha raça, a minha cor, sinceramente não sinto nada e fico com pena dessa criatura.

—Sério? — perguntou Eduardo.

—Hoje em dia, sim. Sinto piedade por essa pessoa, pois sei que no meu lugar, nas mesmas condições em que vivi, ela seria uma pessoa falida, fracassada, visto que essa criatura acredita poder me ofender, pensa que pode me diminuir ou me constranger quando usa para isso a minha cor, a minha raça. Penso que quando queremos agredir, irritar ou ofender o outro usamos o que pode nos irritar, nos ofender e nos agredir. Então vejo que essa pessoa é uma coitada, uma fracassada, extremamente infeliz, Porque consegui me amar, ressaltar minhas melhores qualidades, minha capacidade. Sou feliz com o que sou, estou realizada. Tenho competência. E ela...?



  • Por isso, Erika — argumentou o namorado —, deixa sua mãe falar, não alimente nenhuma briga. Neutralize qualquer discussão.

  • Foi isso o que disse a ela — lembrou Eduardo. — Quant ao cartão de crédito e ao celular, isso eu mesmo posso dar jeito. Falaremos com nosso pai, ele sempre nos apóia.

  • Deixe a Erika conviver um pouco mais com a gente aqui — disse dona Ermínia com simplicidade —, ela vai mudar. Vai ficar mais tranqüila. Você vai ver Eduardo — encerrou, acaricianc a moça.

  • Não se importe conosco — avisou Juliana. — Pessoas capacitadas, vitoriosas consigo mesmas e competentes não ligar para insultos, não levam ofensas para casa porque não se ofender nem sequer discutem por elas.

  • Racismo é crime! — alertou Erika.

  • Infelizmente — disse Juliana —, ainda precisamos de leis civis para garantir a integridade e manter criaturas indisciplinadas e criminosas dentro de certos limites, até que evoluam como espíritos e compreendam que somos todos iguais, que Deus nos criou todos iguais, simples e ignorantes, e que, de acordo com as diversas experiências reencarnatórias, aprendemos e evoluímos, uns mais rápido que outros, tendo em vista a humildade, a fé e a falta de arrogância, de orgulho.

  • Quando essas criaturas evoluírem, somente as leis de Deus serão necessárias e não mais as leis dos homens — acrescentou dona Ermínia. — "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus", disse-nos o Senhor Jesus, que falava dos humildes e não dos tolos, como pensam alguns. As pessoas orgulhosas, vaidosas e arrogantes ainda não podem aceitar que somos espíritos eternos, que somos todos iguais e só temos experiências de vidas diferentes de acordo com o que temos a reparar. Elas não crêem que hoje estão em uma posição superior, material e fisicamente falando, e que na próxima vida tudo pode ser invertido. E não acreditam no mundo invisível, onde não teremos absolutamente nada de material, nenhum título honorário, nenhuma riqueza. Só que não importa o que elas pensam, terão de passar para esse plano espiritual que tanto desdenharam, quer queiram ou não. A vida não acaba com a morte. — Virando-se para Erika, dona Ermínia argumentou: — Filha, lembre-se de que os pobres de espírito serão bem-aventurados; não reaja mais contra sua mãe ou vai estar se igualando a ela. Procure agir de maneira diferente, assim ela poderá aprender com você.

Eduardo, muito atento a todas as palavras da sábia senhora, sentiu-se invadido por um bem-estar grandioso graças àquelas explicações terem engrandecido seu interior. Extasiado, ele respirou fundo, satisfeito, e João Carlos propôs:

—Não vamos mais falar sobre isso, certo?

—Bem, preciso ir — disse Eduardo. — Vamos, Erika? Eu ainda queria dar uma passada lá na casa da dona Júlia para ver a Bianca.

A irmã sorriu e, sustentando um semblante desconfiado e maroto, falou:

—Não sei bem se é a nossa sobrinha que o Edu quer visitar. Em todo caso...

Eduardo enrubesceu, mas não disse nada. E, virando-se para o namorado, Erika convidou:

—Vamos até lá? Assim você fica conhecendo a Bia.


  • A Erika não pára de falar nessa sobrinha — avisou Juliana com expressão generosa. — Ela deve ser uma gracinha!

  • Então venha conosco, Juliana! — convidou Eduardo com visível animação. Logo revelou discretamente seus planos:

Assim, mais à noite, poderemos sair todos juntos e esticar um pouco, o que acham?

  • ... mas ir assim... na casa de quem nem conheço? — considerou Juliana, indecisa.

  • A dona Júlia e o seu Jairo, pais do Mauro, nosso cunhado, são pessoas finíssimas! Eles vão adorar a visita!

Depois de um pouco mais de insistência, Juliana acabou aceitando o convite. Assim foram todos visitar a pequena Bianca.

A conversa animada e descontraída seguiu até que chegaram ao destino.

Recebidos com satisfação por Helena, que já havia chegado com Miguel, foram conduzidos até a sala de estar, onde se acomodaram bem à vontade.

Miguel, muito animado, cumprimentou todos, dando ligeira atenção a Eduardo, que ficou interessado sobre alguns detalhes de sua viagem.

Bianca se apresentou, deixando-os encantados com seu jeitinho mimoso e tímido, escondendo o rostinho miúdo e rosado atrás de seus adoráveis cachinhos dourados.

Dona Júlia fez um pouco de sala, mas logo decidiu preparar algo para as visitas.

Juliana, risonha, educada e naturalmente descontraída, conquistou logo a amizade de Helena, que se sentiu muito bem a seu lado.

Mauro, um pouco calado, somente ouvia atento, esboçando um sorriso vez ou outra de acordo com o assunto.

Após a longa conversa animada, Eduardo perguntou:


  • Por que não vamos todos sair para...

  • Dançar?! — propôs Juliana, interrompendo-o.

  • Agora mesmo!!! — concordou Miguel, animado. — Estou louco para voltar a falar minha língua, ver meu povo...

  • Helena, e você? — perguntou Juliana ao observar o desânimo da nova colega.

—Não sei...

—Vai nos fazer essa desfeita?! — brincou Juliana com um largo sorriso. — Anime-se, menina! Vamos lá! Não terá nada a perder.

—Está bem — sorriu concordando. — Eu vou.

Mauro, que não estava nem um pouco animado, recusou terminantemente. E Carla, que mal havia saído do quarto para cumprimentar as visitas, também não quis ir.

Passados alguns minutos, Helena e Miguel estavam prontos.

Antes de eles saírem, Bianca, com seu jeitinho doce, pediu a Eduardo:

—Tio, me leva pra nadar na piscina amanhã?

Trocando olhares com Helena por saber que dependia dela para levar a sobrinha, Eduardo falou:



  • Por mim, tudo bem. Posso vir buscá-la. Precisa ver se a tia Helena está a...

  • Amanhã a gente vê isso, está bem, Bianca? — decidiu Mauro para não ver a irmã embaraçada.

***
No ambiente agitado pelo embalo da música, todos se animavam na pista de dança, menos Eduardo, que preferiu fazer companhia para Helena, que não quis dançar. Ambos, do alto do mezanino, só observavam a movimentação.

—Tem certeza de que não quer dançar, Helena?


  • Prefiro ficar aqui. Obrigada — agradeceu com seu jeito meigo.

  • Como estão as coisas? — perguntou Eduardo prati­camente gritando por causa do som muito alto.

  • Tudo bem. — sorriu.

  • Mesmo? — tornou ele, insistente.

—E... — respondeu agora com um sorriso que colocava em dúvida sua resposta. — Nem sempre as coisas estão como a gente quer.

Observando-a bem de perto, Eduardo pôde perceber uma tristeza indefinida em seu olhar brilhante.



  • Quer falar? — perguntou gentilmente.

  • Aqui não é um bom lugar. O barulho, a agitação...

—Vamos sair, está bem? Iremos a um lugar mais tranqüilo, onde possamos conversar.

—Não, não acho que... — titubeou a moça.



  • Espere aí! — pediu resoluto, levantando-se. — Vou avisar o Miguel e a Erika que vamos dar uma volta.

  • Não, Eduardo — pediu meio em dúvida, segurando o °raço do rapaz.

  • Será melhor. Eu também estou querendo sair daqui. Não estou para barulho hoje.

Após avisar sua irmã e Miguel, Eduardo retornou à mesa e conduziu Helena para que saíssem.

Minutos mais tarde, ambos estavam em um lugar tranqüilo, em um ambiente mais aconchegante, onde a música ao vivo, muito suave, proporcionava serenidade aos ânimos.



  • Você aceita alguma bebida?

  • Não, obrigada.

—Certo. Você não bebe nada de álcool — lembrou, enquanto olhava o cardápio. — Mas vamos ver... Um suco? O que acha?

—Está bem, então.

Helena sentia-se inquieta, não estava sendo agradável ficar ali. Havia se arrependido por ter aceitado o convite.

O assento onde estavam acomodados era como uma poltrona que rodeava quase toda a mesa redonda, de modo que Eduardo sentou-se bem próximo a ela, colocando o braço sobre o encosto, quase tocando-lhe as costas.

A luz bruxuleante do ambiente, junto ao som tranqüilo oferecia um convite ao romantismo, e talvez fosse isso que não a agradasse.

Entretanto Eduardo, percebendo sua sensibilidade, procurou se manter um pouco mais distante, a fim de não atrapalhar a descontração da moça.

Com assuntos agradáveis, aos poucos ele a fez se sentir melhor. Até que, sem perceberem, estavam falando sobre Vagner e o namoro que recentemente Helena havia terminado.

Ela acabou confiando a Eduardo tudo o que lhe ocorrera, e ele, sem perceber, parecia indignado ao ouvir aquilo tudo.

—Acho que você já deveria ter contado isso para seu irmão.

—Não! O Vagner tem uma arma.



  • E só por isso você vai se deixar intimidar? Vai se submeter a um cretino como esse? E se não parar por aí?

  • Estou confusa, Eduardo. Estou com medo — confessou Helena fugindo o olhar para esconder as lágrimas que brotaram. — Acontecem tantas tragédias por aí por causa de situações como essa. Tenho muito medo.

Ele não sabia o que dizer.

Ao reparar que Helena, sensibilizada, tentava secar discretamente as lágrimas, ele aproximou-se e, num abraço, puxou-a para si, como uma forma de consolá-la, de fazê-la sentir-se mais segura.

Subitamente Eduardo sentiu-se invadido por uma emoção diferente. Era algo forte, que fazia seu coração acelerar, e, ao mesmo tempo, dava uma sensação de felicidade.

Percebendo o choro discreto que se fez, ele a apertou contra o peito, acariciando-lhe com cuidadoso carinho seu rosto delicado, e, num gesto amoroso, beijou-lhe os cabelos enquanto sentia seu perfume suave. Apesar de comovido com a história, sentia-se satisfeito por recostar seu rosto sobre os fios sedosos, roçando suavemente seus lábios para senti-los melhor.

Era bom poder estar ali com Helena. Ela era diferente, sem ambições, educada e discreta. Carente, precisava de seu apoio, de sua ajuda; ele sentia isso e gostava de saber que podia protegê-la.

Procurando se recompor, Helena, num gesto delicado, afastou-se do abraço enquanto Eduardo se inclinava para ver seu olhar. E tirando-lhe com carinho alguns fios teimosos de cabelos que se desalinharam na frente do jovem rosto o rapaz dizia afável:

—Não se magoe assim. Para tudo há solução.


  • Tanta coisa está acontecendo — dizia com voz rouca. — Nos últimos tempos venho perdendo a motivação... Não sei o que está acontecendo comigo.

  • Você é jovem, inteligente, bonita... Não há motivo para se sentir assim, Helena.

  • Sabe, quando paro e penso, vejo que não há motivo para me sentir triste, deprimida. Mas não sei o que acontece, é algo mais forte do que a minha razão, do que a minha vontade.

—Mas o que está errado? O que gostaria de mudar? Nesse instante, lágrimas copiosas fugiram ao controle de

Helena e rolaram por sua bela face tristonha.

Eduardo as aparou com um toque suave, e ela explicou:

— Ás vezes me sinto saturada. Tenho que servir alguém nisso, agradar o outro naquilo, sempre tenho que estar à disposição.

Nunca tenho tempo para mim. Minha mãe é muito boa, m também muito rigorosa.

—Gostaria que minha mãe fosse mais rigorosa e meno orgulhosa — desabafou quase sem pensar. — Mas, se tivess tempo para você, o que gostaria de fazer?

Ela o encarou nos olhos ao dizer:

—Aí é que está o problema, eu não sei. Parece que nad me completa. Sinto um vazio, uma saudade não sei do quê... -o choro embargou sua voz, e ela revelou: — E como se eu não tivesse nenhuma razão para viver — dizendo isso, apertou rosto com as mãos e desatou a chorar.

Eduardo, paciente, interessado e amoroso, abraçou-a co carinho por longo tempo e afagou-lhe os cabelos com ternura, tentando acalmá-la.

Após alguns minutos, mais recomposta, ela se afasto dizendo:



  • Desculpe-me, Eduardo. Não sei o que me deu para estar fazendo isso. Não tenho esse direito.

  • Não diga isso. Eu me considero um amigo. Gosto de você e quero vê-la feliz e, se possível, ajudá-la. — Depois, perguntou: — Sente-se melhor? Mais leve?

Sorrindo constrangida, respondeu:

  • Sim, acho que estou melhor. — Então lembrou: — Estou preocupada com a hora. O que combinou com meu irmão?

  • Que ligaríamos um para o outro quando decidíssemos ir embora. Sua mãe não gostaria de vê-la chegar em casa sem ele, nem a minha iria ficar satisfeita em ver a Erika, a essa hora, sem estar comigo.

  • Então, liga para o Miguel — pediu com jeitinho. — Vamos embora?

  • Se você quer assim... — decidiu sorrindo e com um gesto singular.

Assim foi feito. Eduardo atendeu ao pedido de Helena e ligou para Miguel, combinando para se encontrarem.

10

Fantasias perigosas

Helena e Miguel chegaram em casa de madrugada e, ao se despedirem dos amigos, entraram sem fazer barulho para não acordar ninguém.

Após um banho Helena se deitou, e uma forte sensação de tristeza a envolveu, fazendo-a chorar sem motivo.

Passadas algumas horas de sono, Helena acordou assustada com o som alto da voz de Carla e Mauro que iniciaram uma briga.

Levantando-se rápido, foi ver o que estava acontecendo e, ao chegar na copa, verificou que sua mãe, bem firme, já dominava a situação, exigindo respeito.

—Sem mais nenhum pio! Não quero saber disso aqui dentro de casa! Entenderam?! — vociferava dona Júlia, sisuda e enérgica.

—Mas mãe, foi ele quem...

—Não quero saber, Carla! Vocês dois estão errados. Eu tenho filhos e não animais que vivem brigando. Espero que se entendam e conversem até chegar a uma solução, e não façam mais isso.

Mauro não dizia uma única palavra. Carla, por sua vez, mostrava-se inquieta e com modos nervosos.

Sentem-se aí e tomem café como gente. Mãe — chamou Helena —, não tem nada queimando? Num gesto de susto, dona Júlia levou a mão na cabeça ao se lembrar e correr dizendo:



  • Os pães de queijo! A sós com os irmãos, Helena perguntou:

  • Tudo bem? Não houve resposta.

Seu Jairo, que trazia o jornal e não sabia do ocorrido, chegou animado, comentando sobre uma notícia sem reparar na fisionomia dos filhos.

Mais tarde, já em seu quarto, Helena ouvia as queixas intermináveis de sua irmã.



  • ... só porque me ligaram e deixaram recado para eu ir levar as fotos.

  • Você precisa ver que tipo de agência é essa, Carla. Se não estão querendo mostrar uma coisa e na verdade tem outros interesses por trás.

  • Imagine?! De jeito nenhum! — negava a irmã. — O pessoal é muito bacana. Tem muita menina lá que fez carreira — contava quase eufórica, tamanha era sua esperança.

  • Mas por que você decidiu tentar ser modelo? Confesso que não entendo.

  • Adoraria ver minhas fotos nas revistas, nos cartazes de rua, nos comerciais... — falava a jovem como se naquele momento já pudesse vislumbrar o que dizia. E ainda olhando para lugar algum, com um sorriso estampado, revelou: — Serei famosa! Você vai ver. Vou aparecer na TV, participar de programas do horário nobre. Espere só!

  • Carla, sei que seus sonhos são lindos, mas penso que você está vendo só o resultado final. Sabe, quando uma garota alcança o sucesso e se torna uma estrela, creio que centenas ou até milhares de outras moças com os mesmos sonhos e ideais ficaram pelo caminho. Muitas com amargos enganos e decepções.

  • Vai fazer como o Mauro, é?! Vai ficar agourando?! — respondeu malcriada. — Em vez de me criticar, ele deveria me dar a maior força, pois trabalha em uma revista, tem contato com fotógrafos e muitas outras pessoas dessa área.

—Estamos é a alertando. E se o Mauro não lhe dá nenhuma força é porque conhece muito bem esse meio. Acho que ele está certo.

Carla fez um ar insatisfeito ao contrair os lábios, enxergando­-os para baixo, não aceitando os alertas da irmã.

A chegada da amiga Sueli deu outro rumo à conversa. Bem depois, ao ficarem a sós Helena e Sueli, esta reclamou:


  • Puxa! Nem pra me chamar. Faz tempo que eu não dou uma dançadinha — reclamou dengosa.

  • Na verdade eu nem queria ir. Só acabei aceitando por causa da insistência da Juliana. Você tem que conhecê-la, que pessoa magnífica, nossa! Mesmo assim, não valeu a pena, pois quando chegamos lá ela e o Miguel foram para a pista de dança e acabei ficando num canto.

  • Você não acha que de uns tempos pra cá você está ficando um pouco chata, Helena?

—Nossa, Sueli!

  • É verdade! Repare só, não quer mais sair, sempre está triste, preocupada com alguma coisa... — após uma pausa, a amiga lembrou: — Vai ver que só quer ficar dormindo pra ver se sonha novamente com aquele cara.

  • Às vezes fico pensando se esse rapaz dos meus sonhos não seria a minha alma gêmea, a cara-metade com quem eu deveria ficar. Você acha que isso é possível, Sueli?

  • Sei lá. Mas não creio que Deus erraria, não é? Se ele é uma alma do outro mundo, que motivo teria para acompanhá-la? Só se está a fim de atrapalhá-la. Cuidado com essas fantasias, hein!

  • Ontem, enquanto íamos para a danceteria, a Juliana e a Erika falaram rapidamente sobre a vida após a morte, sobre carma ou coisa assim; parece que a dona Gilda não aprova o namoro da filha com o João Carlos porque ele é negro, por isso falavam que somos iguais, todos filhos de Deus, e que temos várias vidas, Que podemos ter experimentado várias aparências no passado, entre outras coisas. Fiquei interessada sobre esse negócio de reencarnação, mas não deu para saber muito. Elas logo mudaram de assunto. Será que esse espírito com o qual eu sonho era para estar vivendo hoje e algo deu errado?

- Sei lá. Mas acho que você não deveria ficar pensando nisso. Como eu disse, cuidado com essas fantasias. Pode acabar deixando de viver o momento por causa de uma ilusão — respondeu a amiga sabiamente.

  • Mas não consigo esquecer, Sueli. Parece que pensar nisso é a única coisa que me alegra. Estou tão cheia, desanimada, sem objetivo na vida. Parece que vivo porque alguém quer.

  • Credo, Helena! Não fale assim. Isso atrai coisa ruim. Você é nova, bonita. Ah, como eu queria ser como você. Adoraria ter o seu corpo, o seu rosto, seus cabelos e mais nada — declarou Sueli, seguindo com uma alegre gargalhada. — Sabe, Lena, você tem de rezar um pouco, não é normal ficar assim. Deus não erra não.



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