Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



Baixar 3.21 Mb.
Página6/18
Encontro15.12.2017
Tamanho3.21 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18

Helena sorriu meio desanimada e nada comentou. Jogando-se sobre algumas almofadas em um canto do quarto, olhou para o teto enquanto sentia empoçar em seus olhos lágrimas quentes, prontas para cair.

Sueli, percebendo-a triste, procurou mudar de assunto falando sobre algo alegre, fingindo não se importar com o que via para não dar excesso de atenção àquela tristeza.


***
Os dias foram passando, e Helena agora parecia mais insatisfeita do que antes com os acontecimentos corriqueiros e até insignificantes que deixavam seu coração envolto de pesares desconhecidos.

O maior empecilho ao bem-estar da jovem eram os seus pensamentos negativos, que se embebiam de maus presságios e atraíam para junto de si vibrações densas, aflitivas, além da afinidade com espíritos levianos, inconseqüentes, sofredores ou ignorantes.

Ao lado de Helena, além do espírito Lara, havia também o espírito Nélio, que, assim como Lara, permanecia próximo a ela por causa de uma grande afinidade.

Nélio, diferente de Lara, apresentava-se com um caráter sério, com uma linguagem e idéias capazes de influenciar, tal eram suas vibrações, sua pose, um jeito que transmitia confiança aos menos avisados.

Em um passado distante, Nélio, um servidor fiel para com seus trabalhos, foi gratificado com o nobre título de duque por seus préstimos ao rei. No entanto, havia outros incontáveis interesses que o levaram rapidamente a contrair matrimônio com uma jovem, prima da rainha, a fim de que a referida moça não ficasse mal falada pelos costumes da época. Porém, Nélio era comprometido com uma jovem aldeã, a quem verdadeiramente amava e era correspondido. Movido pela ambição e certo de que a jovem aldeã aceitaria ser sua amante, Nélio surpreendeu-se quando a referida moça, sentindo-se apunhalada e traída, recusou terminantemente sua proposta, não aceitando nem sequer vê-lo mais.

Essa jovem era Helena, que, desde aquela época, já possuía elevada moral, não se permitindo inclinar à prática da leviandade do adultério, nem por aquele que verdadeiramente amava.

Contudo, Nélio não a perdoou por tê-lo rejeitado e a difamou, manchando sua honra o quanto pôde para atrapalhar seu destino e lançá-la a escárnios dos piores níveis, pois já que a jovem não lhe pertenceria também não seria de mais ninguém.

Com grande amargura, junto ao assomo de desilusões, Helena deprimiu-se pelo resto de seus dias, desencarnando só, com uma profunda melancolia por ver-se tão humilhada.

Nélio, também amargurado, seguiu o destino que traçou para si. Nunca encontrou felicidade, satisfação na riqueza ou tranqüilidade em sua consciência pelo que fizera. Agora, estagnado em sua evolução moral por não aceitar os desígnios de Deus, exibia-se com caráter fraco quando exigia para si um direito que estava muito longe de merecer.

Na presente experiência, Helena via-se atormentada, pois em estado de sono, pela emancipação da alma que se liberta do corpo físico com a oportunidade de tarefas e visitas, tinha a oportunidade de encontrar-se com o espírito Nélio, que a queria conquistar, que desejava seu perdão, pretendendo tê-la para si como planejou no passado.

Em um estado assonorentado, com extrema lentidão de raciocínio, Helena só o ouvia, sem saber como reagir.

São espíritos pseudo-sábios como esses que podem desequilibrar alguém, como Helena, por exemplo, despreparada pela falta de fé e conhecimento, que se deixa levar por pensamentos estranhos e se ilude, acreditando que as Leis de Deus não estão corretas.

—Querida Helena — finalizava Nélio ao tê-la próximo, após já tê-la influenciado bastante —, não aceites ninguém em tua vida. Existimos um para o outro, e tu és minha. A vida nos foi ingrata, cruel, mas haveremos de ficar juntos pela eternidade. Nenhum de nós dois sofrerá pela solidão, pelo abandono... Tu és minha.

O rádio-relógio que estava programado para despertar ao disparar fez Helena voltar rapidamente para o corpo e, meio atordoada, ela se levantou:

—Nossa! Já amanheceu? Parece que eu nem dormi — resmungou, trazendo na voz um certo peso.

Olhando para a cama da irmã, verificou que Carla já havia levantando e, pelo jeito, bem antes dela, pois suas coisas e a cama já estavam arrumadas.

Após um banho, no desjejum, enfrentou com desânimo a agitação que seus irmãos e seus pais faziam na copa enquanto comentavam animados sobre diversos assuntos.

Helena tomou seu café em silêncio e cabisbaixa.



  • Se quer uma carona, tem que ser agora, Helena! — avisou Miguel, bem eufórico.

  • Quero sim. Deixe-me só escovar os dentes e pegar minha bolsa — avisou com simplicidade.

  • Helena, quer levar esses bolinhos, filha? — perguntou a mãe, prestativa.

  • Não.

  • Olha, tá aqui! Já arrumei.

  • Não, mãe! Eu não quero — respondeu irritada.

—Tia! Tia! — gritou Bianca ao vê-la saindo da copa. — Você me traz aquela revistinha?

Helena pareceu não ter ouvido e se foi.

Dona Júlia nada disse, mas reparou no modo quase hostil, nada comum à personalidade da filha. São em situações simples e corriqueiras que uma pessoa pode começar a exibir a influência espiritual que recebe. E não se vigiando tudo pode piorar a cada dia.

Já no carro, junto com Miguel que a deixaria no serviço, Helena ficou completamente calada enquanto o irmão não parava de falar.

— A Suzi é uma pessoa bem simples. Você verá o jeito dela quando conhecê-la melhor. Sei que se darão muito bem. Ela tem umas colegas da faculdade superbacanas... — Vendo o silêncio da irmã, ele disse: — Oh, Helena, o que você tem? Está estranha, calada.


  • Estou desanimada e sem vontade de falar.

  • Está preocupada com coisas do seu serviço?

  • Não — respondeu de forma mecânica e fria.

  • E o Vagner? Ele a procurou?

  • Não. Queria que ele tivesse morrido.

  • Credo, Helena! O que é isso?

—Ah... — resmungou. — Eu só queria sumir por alguns dias. Queria tirar umas férias, ir para bem longe e ficar sem ver ninguém.

Com um sorriso espirituoso, o irmão perguntou para quebrar aquela seriedade:

—Não queria nem me ver? Helena sorriu, e ele perguntou:

Quer que eu a pegue hoje? Acho que vou sair no horário. Na hora de ir embora eu telefono, está bem? Ótimo. Vou ficar esperando.

Escuta, Miguel, por que você não encontra a Suzi às sextas-feiras? Já que ela estuda na parte da manhã... Sempre o vejo livre nesses dias e procurando programas, vive ligando para a Juliana e o João Carlos... Não tenho nada contra, mas é estranho nao estar com sua namorada.

E que às quintas, sextas e alguns sábados a Suzi e algumas

amigas fazem um grupo de estudo. Isso a ajuda muito com as notas da faculdade. Acho isso legal e não me importo.


  • Nunca o vi tão interessado em uma garota como agora.

  • Tenho que admitir que estou mesmo. A Suzi é uma menina sincera, honesta, recatada... Ela é daquelas que se prende à família, que ouve os conselhos dos pais, sabe como é?

  • Quando vai conhecer os pais dela?

  • Sabe que ainda não falamos nisso. Quem sabe nas férias.

  • Fico feliz por você, Miguel.

O carro já estava parado em frente à empresa onde Helena trabalhava quando ele deu um sorriso e não disse mais nada.

—Tchau! Depois eu ligo — disse a jovem beijando-o no rosto antes de sair do carro.

No decorrer do dia, Eduardo via-se repleto de serviço. As reuniões, os relatórios para estudar e as propostas para analisar com minúcia clamavam toda a sua atenção.


  • O que digo, Eduardo? — perguntou a secretária.

  • Paula, eu sou um só — avisou com um sorriso forçado no rosto. — Você já falou com meu pai?

  • O doutor Adalberto avisou que não virá após o almoço. Foi ele quem mandou passar isso para você.

  • E a Natália? Ela pode resolver esse assunto muito bem. Até porque todos os números são decididos por ela.

  • A Natália avisou que tem consulta médica hoje à tarde. Ela não virá.

  • Ei! Espere aí! — falou mais sério. — Não posso resolver isso sozinho! Não vou segurar essa, não.

  • Eu também acho muito comprometedor você participar sozinho de uma reunião com esses novos fornecedores sem o senhor Adalberto e a Natália. Posso, com jeitinho, procurar uma desculpa para desmarcá-la e agendá-la para outro dia. O que acha?

—Se você conseguir isso...! Pode pedir o que quiser como recompensa, Paula! — sorriu brincando ao se jogar para trás, na cadeira.

  • Um ou dois dias de descanso cairiam bem — retribuiu com jeito brincalhão, mas com certo desejo na sugestão.

  • Ah! Tudo, menos isso. Não sobrevivo aqui nessa empresa sem você, Paula. Aliás, essa empresa não vive sem a sua eficiência.

  • Tudo bem. Fica me devendo. Mas... voltando ao assunto dos fornecedores, penso que um adiamento nesse encontro vai ser bom, pois essa atitude não vai exibir nossos interesses em suas propostas.

Eduardo a olhou e sustentou um sorriso maroto ao dizer:

—Paula, você só não é promovida a diretora porque não encontraremos outra secretária, não igual a você.

A moça riu, virou-se e saiu.

A sós, Eduardo olhou para toda aquela documentação que aguardava ser estudada e se sentiu farto.

Jogando-se para trás, apreciando o balanço macio de sua confortável cadeira, cruzou as mãos na nuca e ficou pensando em como estaria Helena. Na certa trabalhando. Mas será que pensava nele. E por que haveria?

Tinha de encontrar um jeito de vê-la. Havia mais de vinte dias que não se viam. Desejava isso intensamente. Foi tão bom tê-la em seus braços, abraçá-la com carinho, sentir sua ternura, seu jeito meigo, seu perfume... Lembrou-se de seus cabelos macios em seu rosto... de sua pele sedosa... Algo parecia apertar seu peito, queria ter Helena consigo. Ela era sincera e sensível.

"Será que percebeu minhas intenções?", pensou. "Ela pode não gostar. Tenho que ser mais discreto. Helena não parece ser uma dessas minas' fáceis."

E novamente ele voltou a sonhar com a jovem, percebendo que sentia sua falta e desejava nova oportunidade para estar com ela. Sabia que a moça havia terminado recentemente um namoro, mas Percebeu que não restava nenhum sentimento forte que a Prendesse ao outro, porém seria conveniente esperar. Brigando com seus pensamentos, dividido entre a razão e o desejo, não queria esperar.

—Mas como vou encontrá-la? Qual motivo alegaria para ir procurá-la? — chegou a perguntar em voz alta. — Nem tenho o telefone do seu serviço. Droga! — Sorrindo pela idéia imediata, exclamou: — Já sei!

Pegando o telefone, ligou para a casa de Helena, torcendo para que Carla atendesse. Seria fácil inventar alguma coisa a ela para que fornecesse o telefone do serviço da irmã. Mas, ao ser atendido por dona Júlia, ele se desencorajou, disse que era engano, pediu desculpas e desligou.

Inconformado, solicitou à secretária que fosse novamente em sua sala e, ao vê-la entrar, pediu um tanto sem jeito:

—Paula, preciso de um favor.

—Estou às ordens — disse sorrindo, sempre animada. Após fazer uma anotação rápida num bloco de rascunho,

falou:


—Dê um jeito de localizar o telefone da Helena. Ela trabalha nessa empresa aqui — disse, entregando a anotação. — O nome completo está anotado também. Ha é analista de sistemas, eu acho.

  • Quer que eu ligue e transfira a você?

  • Não. Só consiga o número.

  • Pode deixar — disse a moça sorrindo.

  • Obrigado, Paula.

Passados alguns minutos, a secretária entregou-lhe o número do telefone anotado em um papel. Eduardo ficou olhando por longo tempo sem ter coragem para ligar. "O que posso dizer?", pensava.

Após algum tempo, Paula entrou novamente na sala e, esperta, reparou em seu chefe um jeito inseguro e inquieto. A secretária sorriu sem que ele percebesse e comentou, tirando-o da profunda reflexão:

—Ontem você me disse que havia sonhado com sua sobrinha, a Bianca. Falou também que foi um sonho confuso, que o deixou preocupado. Por acaso ligou para a tia da menina para saber se está tudo bem?

Eduardo a encarou surpreso. Paula parecia adivinhar seus mais íntimos desejos. Ainda admirado, ele sorriu e argumentou:

_ Eu poderia ligar para a dona Júlia, que é a avó, e saber

como está a minha sobrinha. Não precisaria incomodar a Helena no trabalho, não acha?

—Se me permite lembrá-lo — replicou a moça sorridente e com certa astúcia —, pode dizer que não queria falar com a dona Júlia porque ela poderia ficar preocupada. Você mesmo me contou, outro dia, que a própria Helena não quis dizer nada em casa sobre o pesadelo que a Bianca teve quando foi dormir na sua casa. — Paula, com um jeito sério, mas maroto, ainda sugeriu: — Quem sabe até possa ir lá hoje para ver sua sobrinha, é claro. E pode até pegar a tia no serviço, afinal... é caminho, eu acho. E, mesmo se não for, você poderá ter uma reunião lá perto do centro e se essa reunião terminar mais cedo...

O rapaz, rindo prazerosamente, jogou-se para trás e falou:

—Paula, você não existe!

—Com licença, Eduardo. Tenho alguns documentos para despachar. Se a dona Gilda me pega falando isso...

—Venha cá, Paula! Não fuja, não! Ela retornou risonha, e ele perguntou:

—Você acha mesmo que a minha mãe vai ser contra qualquer tipo de envolvimento que eu possa ter com a Helena?

—Quem sou eu para achar qualquer coisa...


  • Deixe de ser secretária, Paula. Acho que você é a única pessoa que tem coração aqui dentro dessa companhia. O resto só tem um computador no lugar do coração e uma calculadora no cérebro.

  • Sei que posso ser demitida por isso, mas... Vamos lá! Acho que sua mãe não vai admitir nenhuma aproximação sua com ninguém que ela não tenha escolhido.

Por que diz isso? — perguntou intrigado. A dona Gilda tem por você um amor excessivo. Algo como posse, dominador.

—Ela me sufoca, sabia? Eu sei. Eu vejo.

Estou um pouco preocupado, sabe? Desde que minha irmã morreu, forçado pelas circunstâncias, a princípio, venho me aproximando da Helena. Venho então percebendo que ela é diferente... Tem algo nela que me atrai, que me envolve. O estranho é que ela parece que nem me nota. — Ele riu e comentou:

—Justo eu...!



  • Cobiçado! Concorrido! Assediado! Conheço bem o seu currículo, moço — disse brincando. — Não se esqueça de que sou eu quem atende os seus telefonemas e tem que dar algumas desculpas.

  • Pois é... — disse desconcertado. — Agora sou eu quem se sente rejeitado.

  • Será que a Helena não o vê como um parente... o cunhado do seu irmão?

—Parente...? Será?

  • Vejo que seu interesse por ela talvez seja pelo fato de querer conquistá-la. A conquista é um prazer, principalmente para os homens. E gostoso o mistério de querer decifrar os pensamentos, as opiniões que ela tem a respeito de tudo. Penso que em toda sua vida todas as outras garotas tenham sido muito fáceis, não foi?

  • Foi sim. A maioria é volúvel, perdoe-me dizer, mas chegavam a ser até levianas, não se dão o valor. Com isso acaba a magia, o romantismo. E eu sou um cara romântico.

  • Infelizmente tenho que concordar que isso é verdade. Hoje as moças estão muito liberais.

  • E se a Helena não quiser nada comigo?

  • Sabe qual é o melhor jeito para se aproximar de alguém?

— Ele ficou atento, e Paula completou: — Aproxime-se sem ser chato, sem ser insistente, sem ficar com aquela mão boba ou aquele olhar de peixe morto e fala mole.

Eduardo gargalhou com o jeito de Paula, que gesticulava ao falar, perdendo toda sua postura de secretária e apresentando-se mais natural.

—Seja firme, amigo, ouça mais e fale menos — tornou mais séria. — Assim ela vai sentir prazer com a sua amizade. Do contrário, sentirá repulsa. E quer saber? Isso vale para homens e mulheres. Ninguém gosta de gente pegajosa. Todos gostamos de ter um amigo que não seja chato._ --- Acha que é uma boa idéia eu telefonar?

—Se você conseguir convencê-la de que ligou por causa do sonho, por estar preocupado, sim, é uma boa idéia. Converse um pouco, pergunte onde fica a empresa em que ela trabalha e diga animado que terá uma reunião hoje à tarde. Converse mais um pouco e pergunte se pode passar lá, pois está pensando em ir ver a Bianca. Se ela não quiser, não insista. Mas deixe o seu telefone, entendeu?

O rapaz, que sorria o tempo todo, sentia-se como um adolescente inexperiente e encantado.

—Agora, com licença, acho que vai querer ficar sozinho — despediu-se Paula, sorrindo.

Repleto de coragem e ansiedade, Eduardo pegou o telefone e, sem pensar, ligou.


  • Oi, Helena! Aqui é o Eduardo. Tudo bem?

  • Oi, Eduardo! Que surpresa!

  • Espero que boa.

  • Sim, claro. Como você está?

  • Bem. Sabe, eu ia ligar para a sua mãe, mas como outro dia você não quis contar a eles sobre o pesadelo que a Bia teve lá em casa achei, melhor falar primeiro com você.

  • O que aconteceu?

  • Andei sonhando algumas coisas bem estranhas e a Bia estava no meio. Fiquei preocupado e queria saber se ela está bem.

  • Está sim. Se bem que... — interrompeu Helena.

  • Quê...? — interessou-se diante da pausa.

... a Bia anda dizendo aquelas coisas, sabe?

—Que coisas?

Agora não é um bom momento, entende?
- Estou vendo que você não está bem à vontade para

falar, não é, Helena? Deve ter alguém aí ao lado.

E isso mesmo, você acertou. Mas a Bia é criança e você e como as crianças são criativas. Só que, às vezes, acho que isso está indo longe demais. O Mauro acabou ficando nervoso uiro dia e quase bateu nela. Achei tão estranho. Meu irmão não isso. Ele nunca foi agressivo, principalmente com a filha.


  • Sabe, Helena, nos últimos tempos venho sentindo um aperto quando penso na Lara, na Bia. Nunca fui de ter sonhos marcantes, significativos ou que me impressionassem tanto, e ultimamente sinto algo estranho.

  • Eu entendo. Também venho me sentindo estranha. Às vezes...

  • "Às vezes...?" — perguntou como se pedisse que continuasse.

  • Sinto-me amargurada, como se eu precisasse encontrar soluções para as coisas e não conseguisse. Tudo está fora do meu alcance, fora de controle.

  • Sei. Gostaria de falar sobre a Bianca e queria detalhes do que você tem para contar. Acho que você não está sendo direta pela falta de privacidade, não é?

  • Isso mesmo — confirmou a moça.

  • Eu também tenho alguns pensamentos que me confundem e afligem. Sei lá, talvez se a gente pudesse con­versar. ..

  • Não sei como poderia ajudá-lo. Do jeito que ando ultimamente, acho que só levaria problemas.

Num impulso, ele perguntou:

  • Onde fica a empresa em que trabalha? — Após ouvir a resposta, avisou: — Hoje à tarde vou aí perto. Posso passar para pegá-la? Quero ver a Bia e penso que no caminho podemos conversar um pouco.

  • Combinei ir embora com meu irmão, mas... — Depois de pensar, falou: — Tudo bem. Eu ligo pro Miguel e digo que vou com você.

  • Está certo, passo aí por volta das dezoito horas. Ligo e combinamos um local para eu pegá-la. Anote o telefone daqui e do meu celular.

Após se despedirem, Eduardo não cabia em si de tanta felicidade e expectativa. Nem trabalhar direito ele conseguia.

As horas pareciam se arrastar, tamanha a lentidão.

Ao sair de sua sala, procurou por Paula e, sem dizer nada, segurou seu rosto, deu-lhe um beijo e se foi.

Sem nenhuma pergunta, ela entendeu o que estava acontecendo.

No horário combinado, Eduardo estava parado na frente do prédio onde Helena trabalhava e decidiu telefonar avisando que a esperava. Um sorriso espontâneo e alegre iluminava o rosto do rapaz bem alinhado, que educadamente recebeu-a com um ligeiro beijo no rosto. Satisfeito, Eduardo a conduziu para que se acomodasse no carro. Contornando o veículo, tomou a direção e sentiu imensa satisfação quando observou que o trânsito estava praticamente parado, pois isso o deixaria mais tempo na companhia da moça.


  • Puxa! Olha só que lentidão — comentou a jovem. — Com certeza é por causa da chuva que deu agora à tarde.

  • É sim. Foi um temporal muito forte. São Paulo é sempre assim, não há o que fazer nos dias de chuva.

Depois de mais de uma hora, eles haviam andado cerca de uns cinco quilômetros somente.

Eduardo subitamente convidou:

- Helena, vamos passar ali no shopping, tomar alguma coisa e conversar um pouco? Mais tarde certamente o trânsito estará bem melhor. Não nos estressaremos tanto. — Ela ficou em dúvida, então ele avisou: — Não quero apressá-la, mas é bom decidir antes que eu perca aquele acesso ali — disse, apontando.


  • Tudo bem. Vamos. Será melhor do que ficarmos aqui nessa lentidão.

O casal rumou para o shopping e se acomodou em uma mesa na praça de alimentação, onde Eduardo providenciou dois sucos para que tomassem enquanto conversavam.

  • Desculpe-me, não dava para falar no momento em que me ligou. Uma colega estava perto e eu não queria que ouvisse nossa conversa — justificou-se Helena.

  • Ah, sim. Eu logo entendi. Mas fiquei preocupado. O que a Bianca anda dizendo?

Ela continua dizendo que vê a mãe — contou sem rodeios. — Disse que vê a Lara chorando às vezes perto de mim ou do Mauro. Falou que ela anda pela casa com certa freqüência.

Eduardo pareceu estar em choque, mas mesmo percebendo sua surpresa Helena não se intimidou e continuou relatando:



  • Não acredito que a Bia esteja mentindo, principalmente por um detalhe muito importante.

  • Qual?

  • A história é longa, mas aconteceu assim: O Mauro disse que a Lara havia ido buscar o presente da Bia lá na escola. Só que eu fui a primeira pessoa a entrar na casa deles depois do acidente e acabei encontrando, no maleiro do quarto, o presente com cartão e tudo. Um cartão meio triste, diga-se de passagem. Parecia que ela estava se despedindo da filha.

Eduardo pareceu assombrado, e Helena continuou:

  • Percebi que o Mauro ignorava completamente o fato e entendi que por algum motivo a Lara não disse a verdade, que talvez ela precisasse sair por alguma outra razão que, com certeza, não era buscar o presente. Decidi que não contaria nada ao meu irmão, pois a cada dia o Mauro parece mais deprimido, desolado. Porém, na noite antes do acidente, a Lara me telefonou e começou a me perguntar coisas estranhas, e parecendo preocupada, mas não disse exatamente o que queria.

  • O que minha irmã perguntou?

  • O que eu achava do Mauro, se eu acreditava que ele era capaz de enganá-la, de fazer alguma coisa bárbara, absurda. Não me lembro exatamente as palavras que usou, mas ela estava bem estranha. Quando questionei do que se tratava, ela disfarçou e mudou de assunto.

Ele permanecia calado, pensativo e preocupado.

—Depois de tudo isso — disse Helena —, tenho que admitir que pensei: Será que a Lara, por causa de algum desespero, se matou?

O rapaz olhou-a chocado, enquanto processava em sua mente uma série de informações que somou ao que ouvia naquele instante.

—Perdoe-me, Eduardo, mas cheguei a pensar que a Lara houvesse se suicidado por conta de tudo o que ouvi dela e do presente que encontrei com aquele cartão que parecia ser de despedida. Mas o meu maior susto foi quando a Bianca me falou: "Tia, minha mãe sempre diz pra você que ela não se matou não. Pra você não pensar isso dela". — Diante do espanto de Eduardo, a moça confessou: — Fiquei assombrada. Eu só contei essa história para minha mãe e para a Sueli, aquela minha amiga. Ela é de muita confiança, jamais contaria isso a alguém, muito menos a uma criança. Quanto a minha mãe, dela nem preciso duvidar.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal