Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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Eduardo esfregou o rosto com as mãos, passando-as depois pelos cabelos num gesto nervoso, daí pendeu negativamente com a cabeça ao argumentar:

—Nem sei o que dizer. É algo assombroso mesmo.

—Por causa dessa história da Bianca dizer que vê a Lara, minha mãe resolveu chamar um padre para ir benzer nossa casa.

—E aí? Resolveu?

—A Bianca contou que, depois que o padre foi embora, ela viu a mãe se acomodando como se dormisse. Depois não a viu mais. Só que, há uns dois dias, ela voltou a dizer que a Lara estava novamente lá em casa, sempre triste e chorando.

Diante do longo silêncio e ao vê-lo com o olhar perdido, ela perguntou:

—Eduardo, tudo bem?

—Helena, pelo amor de Deus, que essa conversa fique só entre nós, certo? Tenho algo para lhe contar.

—Claro. Pode confiar.

—Eu e a Erika conversávamos outro dia e ela me disse que viu a Lara conversando com nossa mãe pouco antes do acidente. Ela viu a Lara inquieta, nervosa, e ela dizia que não podia acreditar em algo que minha mãe havia falado e que se aquilo fosse verdade ela preferiria morrer.

—Mas do que elas falavam?

-A Erika não sabe dizer. Não deu importância no momento, mas sabe que era algo que se referia ao Mauro.



Imagino que sim. A dona Gilda nunca engoliu esse casamento e sempre fez de tudo para separá-los. — Segundos depois, Helena se corrigiu, muito envergonhada: — Desculp me, Eduardo. Por favor... Ela é sua mãe, eu me esqueci...

  • Não tem problema — argumentou sorrindo. — Sei muito bem como minha mãe é. Porém, Lena, assim como fez com você, a Lara me procurou alguns dias antes do acidente. Foi po telefone e eu estava muito ocupado. Ela veio com a mesm conversa sobre confiar no Mauro e o que eu achava dele.

  • Acho que nunca vamos descobrir o que houve, não é?

  • Se há algo a ser revelado, certamente dona Gilda sab do que se trata — afirmou ele. Depois completou: — Deus d céu, o que será que minha mãe aprontou? No sonho que tiv com a Lara, ela a acusava de ter mentido. Ela queria salvar a Bi da avó.

  • Isso foi um sonho, Eduardo. Não podemos levar tão sério. Vamos guardar esse assunto só entre nós. E uma suspeit muito grave.

  • Helena — ainda disse pensativo —, estou lembrando d uma coisa. No dia desse acidente, minha mãe ficou desesperada com a morte da minha irmã, mas também ficou muito aflit para ir pegar as coisas e a bolsa da Lara que haviam ficado n hospital. Lembro-me de que um funcionário nos entregou se relógio, sua correntinha, a aliança, a bolsa e um envelope. Coisas que estavam com ela.

  • Você olhou essas coisas?

  • Não. Minha mãe, de um jeito possesso, pegou tudo Não vi mais nada. Pensei que fosse uma reação desesperada pel perda da filha, mas...

  • Sei que sua mãe devolveu os documentos da Lara para o Mauro. Mas creio que foram só os documentos, nada mais; não tinha envelope nenhum. Porém, não vamos julgar.

  • Mas isso é muito estranho.

Nesse momento, Helena consultou o relógio e se assustou:

  • Nossa! Olha que horas são!

  • Eu a levo.

  • Mesmo assim já é bem tarde. Minha mãe vai ficar preocupada.

  • Ei, o que sua mãe achou do João Carlos e da Juliana? Ela achou ruim eu ter levado visitas lá sem avisar?

  • Não, imagine. Lá em casa não tem disso. Minha mãe os adorou! A Juliana até andou ligando lá pra minha mãe querendo umas receitas, e pro Miguel também, eles trocam livros, CDs.

  • Não sei, não. A Juliana e o Miguel... — brincou desconfiado.

  • Seria bom se fosse verdade, acho ela tão bacana. Mas parece que ele está enfeitiçado pela Suzi — falou com certo desdém.

  • E o que sua mãe fala de mim?

  • Ah, que você é arrogante, mal-educado, orgulhoso... — brincou, rindo com gosto.

  • Puxa! Que decepção! Eu me esforço tanto!

  • Estou brincando.

  • Eu sei. Mas o que você acha de sairmos novamente? Eu gostei tanto da Juliana com seu jeito animado. Do João Carlos, nem temos o que dizer...

  • É... podemos ver um dia desses. Só que eu acho que o Miguel vai levar a Suzi.

  • Acho que vai ser legal. Não vamos julgar a moça antes de conhecê-la melhor, Helena. Isso é preconceito.

  • E a sua mãe? Ela não está de acordo com o namoro da Erika, não é?

  • Eu acho isso um absurdo! Não quero me envolver para não criar um clima ainda pior lá em casa. Preciso dar apoio para a Erika, e se eu me voltar contra minha mãe as coisas vão ficar piores.

—Parece que nunca estamos livres de problemas — reclamou desanimada. — Há momentos que acho que não vou suportar tanta pressão.

—E o seu ex-namorado, não a procurou mais?

—Não o vejo desde aquele dia. Mas sinto um medo estranho. É como um pressentimento, como se algo fosse acontecer a qualquer momento.

Falou com seus irmãos?



  • Não. De jeito nenhum. O Miguel não seria compreensivo, não nesse caso. Ele é bem capaz de ir tirar satisfações... O Mauro, como eu falei, está muito estranho. Tanto que ele e a Carla acabaram se desentendendo. A minha irmã tem o sangue quente, mas o Mauro, nunca o vi brigar com alguém, e por umas três vezes ele quase bateu na Carla.

  • Nossa!

  • E verdade. Se não fosse pela minha mãe... Se bem que a Carla vive provocando muito. Ela responde, cria climas...

Ela o encarou, sorriu docemente e pediu:

—Agora vamos, Eduardo? Ele a deixou em casa conforme combinado e entrou por

alguns minutos para ver a sobrinha, mas logo se foi.

Apesar de ter conversado com Helena por um longo tempo, achou que havia faltado algo. Seus desejos não se concretizaram, pois ficaram muito longe um do outro, o assunto não permitia nenhum clima romântico ou de aproximação.

Mas ele não desanimaria. Lembrou-se dos conselhos de Paula. Seria amigo de Helena, alguém em quem ela pudesse confiar, assim poderia estar sempre a seu lado, até que ela o percebesse.

Eduardo estava feliz, de bem consigo mesmo.




11

A realidade da vida

Ainda sob o efeito de certa magia provocada pela paixão, Eduardo chegou em casa bem tarde. Sentindo-se ainda encantado, lembrava de detalhes que reparou em Helena, do seu rosto sereno, da sua voz suave, do riso cristalino que pouco se fez e do olhar doce, generoso, que só ela sabia expressar com tanta sinceridade.

Entrando na sala principal da luxuosa residência, foi bruscamente arrancado de suas agradáveis recordações quando ouviu os gritos de Erika e de sua mãe.

Subindo rapidamente as escadas, foi até o quarto de Erika, de onde vinha o barulho.

—Não vou!!! Se você pensa que pode mandar em mim, está muito enganada! — gritava a jovem, transtornada.

—Sou capaz de uma insanidade, Erika! Não me provoque!



  • Calma, gente! O que é isso? Poderiam ser mais civilizadas e conversar com menos barulho? — pediu o rapaz que acabava de chegar.

  • Está decidido! Sua irmã vai para a Suíça passar umas longas férias.

  • Não vou! Quero ver quem é que vai me pôr dentro de um avião! Quero ver!

  • Não vou tolerar você ficar com um negro, pé-rapado, que só quer usurpar aquilo que você tem! — dizia Gilda com imensa fúria. — Eu mato você antes de aceitar isso!

—Pois pode matar! Venha, vamos! Mate-me logo. Só que tenha a dignidade, a coragem de assumir o assassinato. Não tente cometer um crime perfeito como fez com a Lara.

Num acesso de raiva, Gilda aproximou-se rapidamente e desferiu um tapa no rosto da filha.

Eduardo segurou sua mãe e a afastou de Erika, que gritava:


  • Tá pensando que eu não sei? Mesmo se eu não soubesse, sua atitude acabou de denunciá-la. Você tem algo a ver com a morte da Lara!

  • Erika, pare com isso! — exigiu o irmão com veemência.

  • Suma daqui! Vá embora dessa casa — pedia a mãe com grande rancor. — Você não deveria ter nascido! E pensar que salvei sua vida quando ia despencando do oitavo andar quando tinha quatro anos, lá no apartamento da sua tia. Eu nunca deveria tê-la salvado.

Eduardo ficou perplexo, não acreditava no que ouvia sua própria mãe dizer.

  • Vamos parar com isso! — pediu o rapaz, ainda nervoso.

  • Viu só, Edu?! — disse a irmã com o rosto banhado de lágrimas. — E você ainda diz que era eu quem via tratamento diferenciado entre nós. Viu só como a dona Gilda me odeia?

Conduzindo a mãe até a porta do quarto, pediu:

  • Mãe, vai para o seu quarto, por favor.

  • Você me paga, Erika. Aaaah! Juro que me paga — ameaçou em um tom vingativo e com o olhar mirrado.

Após sua saída, Erika desabafou:

—Minha mãe, minha própria mãe...

—Calma, não fique assim... — pediu o irmão, aproximando-se para tocá-la com ternura. Mas num gesto rápido, agressivo, ela se esquivou e falou nervosa:

—Eu vou embora dessa casa. Vou sumir daqui e nem você vai saber para onde vou.



Aborrecido com a situação, pois sentia que a irmã tinha ciúme e de certa forma culpava-o pela preferência que a mãe demonstrava de modo alardeante, Eduardo suspirou fundo, passou a mão pelo rosto e, após fechar a porta para garantir a privacidade, perguntou quase nervoso, mas mantendo a voz num tom moderado.

  • Vai embora e viver do quê? Em que pode trabalhar? — Após uma pausa, alertou: — Erika! Acorde para a vida! Você tem vinte e um anos, não trabalha, não faz nada, não se interessa por uma ocupação produtiva...

  • Ah! Você também agora? — interrompeu irritada.

  • Cale a boca e me escute! — gritou Eduardo, agora realmente bravo. — Até quando pretende ser dependente? Até quando vai dar uma de dondoca? Preste atenção: deixe de ser Patricinha ou será uma eterna panaquinha! Você tem que produzir, tem que se sustentar, se preparar para a vida. Sabe por que você briga com a mãe? — perguntou mais tranqüilo. — Porque nenhuma de vocês faz nada, entendeu? Nada! Você acorda, vai para aquele clube ou fica aí na piscina; a mãe levanta, vai para a clínica de estética, vai encontrar as amigas, vai comprar roupas... Suas preocupações são só com coisas inúteis, supérfluas, desnecessárias a qualquer ser humano que quer vencer, triunfar, progredir. Ninguém que tenha algum propósito, algum objetivo na vida, age como vocês. Diga-me uma coisa: Você fala que gosta do João Carlos, que quer ficar com ele... Pelo que vejo, se ele propor casamento você casa na mesma hora!

  • E caso mesmo!

  • Ah; é? — disse Eduardo com certa ironia na expressão e no tom de voz. — E você pensa em mais o quê? Em se casar e ser sustentada por ele? Levar a mesma vida de princesa? O João Carlos é uma ótima pessoa, um cara respeitável, confiável, trabalhador... Mas será que vai concordar em ter uma mulher improdutiva? Nem cuidar de uma casa você sabe. Você não tem capricho nem com suas peças íntimas, pois outro dia precisei usar o seu chuveiro e vi lá, penduradas no registro e no vidro do box, suas calcinhas, seu sutiã... Erika! Se liga! Acha que a vida é tacil?! Que vai se casar com ele e viver só de beijos e abraços? Pensa que vai se casar e que ele vai poder pagar três ou quatro empregadas para cuidar de você e das suas coisas? — Diante do silêncio, Eduardo prosseguiu: — Acho que não dá para viver assim. Pelo que percebi, Erika, todos ali naquela casa dão duro na vida. A Juliana moveu céus e terras para progredir, triunfar e ser bem-sucedida. Estou falando em progresso, em sucesso, não em dinheiro do papai e da mamãe. O João Carlos também se esforçou muito na vida para ter o que tem e fazer o que faz. A dona Ermínia me contou a sua luta, principalmente depois da morte do marido. Agora me diz, e você? O que tem para contar, para apresentar como triunfo pessoal? Suas exigências? Vai contar só a parte que viveu brigando com a sua mãe, que se sentiu injustiçada e mal-amada? Vai ficar aí, brigando e chorando por direitos que não tem? Que é o de exigir, é claro. Porque até hoje eu só a vejo exigindo as coisas feito uma menina mimada.

Erika não dizia uma única palavra. O irmão, quase de modo impiedoso, continuou firme com o objetivo de fazê-la ver a vida como ela realmente é.

  • Se pensa em ir embora de casa, como esses adolescentes tolos que têm por aí, acho bom você pensar em como vai viver, do que vai sobreviver. Não acredite em tudo o que vê nos filmes, nos programas de televisão ou nas novelas, não. Nas novelas tudo é muito fácil, todos terão um final feliz, e o bandido, quando não morre, vai para a cadeia. A realidade não é bem essa, minha irmã. Não pense que se fugir de casa encontrará na casa de uma amiga o luxo e as prestações de serviço que você encontra aqui. Não pense que vai poder brigar com todo mundo lá, onde você estiver, e correr para o seu confortável quarto e fechar a porta sem querer ver ninguém. Num outro lugar que não seja a sua casa, quando você brigar será posta para fora. Não conheçco nenhuma pessoa de moral e bons princípios, bem-sucedida na vida e auto-suficiente, que tenha fugido de casa quando não sabia fazer nada e nem sequer trabalhava. Se alguém como você, sem qualificação nenhuma, sem emprego e sem apoio sair pelo mundo hoje, só vai encontrar amarguras e conhecer a triste realidade da prostituição, das drogas, das agressões, dos delitos e muito mais.

  • A Natália é diretora financeira da nossa empresa e veio do nada, como ela mesmo conta.

— Você conhece bem a vida da Natália? Pedi para que me apontasse uma pessoa de moral. A princípio o pai dela foi quem pagou a faculdade de direito para ela; depois disso, por razões que ignoro, ela foi morar sozinha se sustentando não sei como. Agora, como homem, analiso o comportamento dela e posso dizer que acredito, porque já vi e ouvi, que a Natália deva ter se envolvido com mais de uma dúzia de empresários para conseguir o que ela tem hoje. Concordo que é uma profissional competente, mas seu caráter deixa a desejar, tanto que tem uma filha que não sabe quem é o pai. Isso foi a própria Geisa quem me contou. Então, posso garantir que a Natália não é uma referência para esse caso, pois ela não tem duas qualidades essenciais: moral e bons princípios. Quem faz o que ela fez e continua fazendo, que eu sei, para ter um bom cargo, para ter sucesso, se prostitui, sim, de alguma forma. Torno a repetir, não acredite nos filmes nem no que mostra a TV, pois tudo aquilo é mentira. E uma coisa montada para atrair a atenção, dar dinheiro, e, para isso, mostram só o que o povo gosta: sol, praia, samba, futebol, mulher pelada, vida boa, vida fácil e final feliz. Mas a realidade não é essa. E por conta desses programas inúteis, que distorcem a realidade da vida, que tem tanta adolescente grávida por aí. São meninas e meninos despreparados que dizem: "Oh! O amor é lindo! Não há coisa melhor do que a liberdade sexual. Eu não sou quadrado!" E por causa dessa liberdade, dessa promiscuidade toda é que vão ter que encarar uma gravidez precoce, vão perder a verdadeira liberdade, natural e gostosa, que a vida lhes reservou para a adolescência, vão ter que parar tudo para cuidar, de forma imprudente, de um filho que não planejaram e não desejaram. Não vão ter qualidade de vida, vão até passar fome, necessidades de assistência médica, odontológica, e muito desespero pelo despreparo moral, emocional, psicológico e financeiro. Isso não acontece no programa de TV, não é mostrado nas novelas, onde só aparece o lado bonito, o sexo livre e sem AIDS. Esses adolescentes se iludem quando admiram esse ou aquele que aparece na televisão e dizem: "Olha, a fulana fez uma produção independente! Ela teve um bebê sozinha. Ai, que lindo!" Eles se esquecem de que essa pessoa é milionária e que não vai precisar ficar na fila dos hospitais públicos, muito menos passar noites em claro por causa do filho com febre. A novela mostra que a fulana está dormindo com um hoje, com outro amanhã, depois com mais outro, e assim vai até que as pesquisas mostrem con quem o público quer que aquela personagem fique no final. E-queria que essa mesma novela mostrasse que a tal fulana contrai o vírus da AIDS, aí você ia ver morrer mais da metade do personagens antes do fim da novela. Mas isso não acontece, sabe por quê? Porque não dá audiência. O povo não gosta de ve a verdade, de encarar a realidade da vida. O problema é que a pessoas acostumam a ver essa troca de parceiro e acabam achand que isso é o normal, depois saem por aí e adotam o mesm comportamento, ficam hoje com um, amanhã com outro... <A não adianta nada o Ministério da Saúde gastar milhões e propagandas contra o vírus do HIV e solicitar que não se tenham muitos parceiros; as pessoas, principalmente os adolescentes, já estarão inconscientemente acostumados com a promiscuidade, com a vida leviana, com a troca de parceiro, e achando que isso tudo é normal, e não vão dar atenção aos alertas contra o HIV Se imitarmos a tal fulana da novela e ficarmos hoje com um, amanhã com outro... garanto que se não encararmos a AID_ vamos nos deparar com uma gravidez não planejada, não desejad ou coisa pior ainda, porque preservativos furam. Na vida, Erika não há como você garantir um final feliz se você não for, n mínimo, uma pessoa de bom senso, ponderada, racional, be preparada para a vida e com uma boa profissão, muit perseverança, iniciativa e pés no chão. Se você não mudar, nã crescer, não melhorar intimamente, vai perder o namorado, seus direitos, não só aqui em casa mas na vida, e só lhe restará se eternamente dependente de mim, do pai ou da mãe.

—Nunca! — reagiu com firmeza.

—Tomara que você tenha razão, porque percebi que João Carlos é uma pessoa bem prudente, muito consciente e observador. Se ele for como eu acredito que seja, não vai demorar muito para sentir-se cansado de seus modos exigentes de dondoca.

Nesse instante, a irmã fixou seu olhar nele, interessada em sua conclusão.



  • Veja bem, Erika. O João Carlos é um cara experiente, que está observando como você é, como reage. Creio que ele não vai querer ter alguém ao lado só pela beleza, só porque sabe se vestir, se sentar, falar, se apresentar... Creio que chegamos em uma idade em que procuramos uma parceira, uma amiga leal, alguém em quem possamos confiar, uma pessoa que transforme uma cena ruim ou um dia tumultuado em algo tranqüilo, harmonioso. Vejo que isso ele não vai encontrar em você, ainda. E se eu vejo ele também vai ver. Sabe, a Juliana falou algo que me chamou muito a atenção. Ela disse que queria mudar e que começou pelo mais próximo: seus próprios pensamentos. Você, Erika, reclama da mãe, mas é tão exigente quanto ela. Grita quando não é atendida, se revolta quando as coisas não saem como quer, perde o controle quando se sente prejudicada. O que acha que ele vai pensar? Eu, no lugar dele, diria: "Puxa! Se ela não contorna com paciência uma dificuldade hoje, quando tem tudo, imagine o que vai fazer quando não estiver bem". Porque, ficando com ele, você vai ter que abrir mão de muitos luxos. Não vai ficar no clube o dia inteiro com suas amigas, a grana vai ser curta, talvez nem tenha seu próprio carro no começo. Os gritos que dá com sua mãe hoje, aqui nessa casa, certamente vai dar com seu marido, com seus filhos, quando a situação estiver difícil. E eu posso garantir que nem todo homem suporta gritos e exigências. Eu sou um deles. E mais, ele é um cara muito legal. Espero que você não estrague a vida de uma pessoa assim. Pense bem.

  • Por que só eu estou errada? Você não enxerga o que a mãe faz?

Eduardo ia se retirando, mas voltou e respondeu:

—Enxergo, sim. Só que ela parece não ter mais jeito, e eu acredito que você possa mudar e fazer algo melhor, por você mesma, para que não tenha, no futuro, um gênio como o dela. Estude, trabalhe, não seja tão dependente. Aí sim você vai poder Pensar em sair dessa casa e ainda terá todo o meu apoio. Poderá até pensar em se casar e viver uma vida a dois, com dificuldades, falta de dinheiro, sem empregada, mas com muito amor e compreensão. Pense nisso, pois acho que nem cozinhar ou lavar suas calcinhas você sabe. — Aproximando-se um pouco mais. ele sorriu ao segurar seu rosto com delicadeza e disse: — Eu amo você, minha irmã. Você é muito importante para mim. Não quero que se machuque com as ilusões e as idéias que hoje tem sobre a realidade. Se você acha que a sua mãe não a tolera, espere só até arrumar um emprego e encarar a vida. Lá fora, no mundo, nem sempre temos uma segunda chance; todos nos massacram sem piedade e até antes mesmos de falharmos. Mude. Comece pelo mais próximo. Comece a mudar seus próprios pensamentos negativos, críticos, cheios de revolta. Se fizer isso, o mundo vai lhe sorrir.

Eduardo se curvou, beijou seu rosto gelado, afagou-lhe o cabelo e saiu do quarto, deixando a irmã imersa em todas aquelas colocações.

Erika atirou-se na cama e chorou por longo tempo, até adormecer.


***
Na manhã seguinte, Eduardo lia o jornal enquanto fazia seu desjejum quando Gilda desceu as escadas exibindo largo sorriso ao vê-lo.

—Bom-dia, meu querido! — cumprimentou-o com extrema alegria, beijando-o no rosto com ternura. — Dormiu bem?!

—Bom-dia, mãe. Dormi sim, e você?


  • Ah! Nem me pergunte. Tive até que tomar um calmante. Minha enxaqueca só faltou me matar. Mas agora já estou melhor. Sabe, às vezes essas emoções me revigoram.

  • Está se referindo à briga que teve ontem com a Erika? — estranhou o filho.

  • Meu amor — exclamou sorrindo —, a vida é como um alimento sem sal se não experimentarmos as emoções! — E num tom mais alto de voz chamou: — Lourdes! — Ao vê-la, reclamou:

- Não vê que já estou à mesa? Sirva logo o meu café! Ou vai

ficar aí atrás da pilastra ouvindo a conversa?

Quando a empregada foi servi-la, Gilda decidiu:

—Não quero mais café. Traga-me um suco de laranja com água e veja se há uvas frescas. Eu não quero esse mamão.

Eduardo ainda estava amargurado com todo o ocorrido da noite anterior. Não podia esquecer de ter ouvido sua mãe lamentar por ter salvado a filha quando esta tinha apenas quatro anos de idade e ficou mais insatisfeito quando observou que Gilda parecia não ter sequer se incomodado com a briga que ocorrera.


  • E o pai? — perguntou, ainda sob efeito da tristeza.

  • Já foi. Saiu cedo. Nem café tomou.

  • Precisava tanto falar com ele — lamentou.

  • O Adalberto anda muito estranho ultimamente.

  • Talvez seja porque surgiram algumas situações difíceis lá na empresa. Acho que ele terá que viajar para o México para resolver o problema com as peças. Estão querendo até rescindir o contrato.

  • Se ele for para Acapulco, posso até pensar em ir junto — considerou Gilda, imponente.

Eduardo sorriu e avisou:

  • Não, mãe. Se ele for, será para aquela região onde aconteceram os terremotos.

  • Deus me livre! De catástrofe já basta o que sua irmã provoca. Aliás, em vez de Erika ela deveria se chamar Terre­moto.

  • Você sabe que não pode forçá-la a viajar ou a qualquer coisa, mãe. Então porque a provoca?

  • Você não entende, Eduardo. Não posso e não vou aceitar ° que sua irmã vem fazendo.

  • Mas nada do que a Erika faz lhe agrada. Já reparou nisso?

—É porque tudo o que ela quer sempre está errado.

—Acho um absurdo você querer proibir esse namoro. Acho abominável qualquer tipo de preconceito.

—Não vai me dizer que você aceitaria ter um amigo assim?

Encarando-a com olhar sério, afirmou com voz pausada e

forte:

—Com o maior prazer. Não só um amigo como um cunhado, sobrinhos...



—Você deve estar brincando, meu filho.

  • Sou eu quem está assustado com o seu preconceito, mãe. Não vejo nada de errado no João Carlos.

  • Oh! Minha enxaqueca voltou — sussurrou Gilda, segurando a cabeça com as mãos enquanto apoiava os cotovelos na mesa.

Nesse momento a empregada trouxe uma bandeja com seu pedido e Gilda grosseiramente olhou para o lado, dispensando-a.

—Sai! Sai! Tira isso tudo daqui. Acabei de perder o apetite.

—Voltando-se para o filho, argumentou: — Só me faltava você dar cobertura para esse namoro insensato!

Levantando-se, o rapaz avisou seguro:

—Não tenho motivo algum para ser contra o namoro da minha irmã. Até porque conheço o rapaz e percebo que ele tem mais juízo do que ela e poderá ajudá-la muito. Agora, com licença —disse, aproximando-se e beijando-lhe o rosto. — Preciso ir.

Gilda sentiu-se aquecer. Seu rosto ficou ainda mais rubro quando viu Erika descer correndo as escadas e gritando:

—Edu, espera!

Ele se voltou, e a irmã pediu:

—Deixe-me ir com você, preciso de uma carona.

No caminho para a empresa, Eduardo e sua irmã seguiram conversando. Erika estava mais animada e com novas idéias.



  • Vou falar com o pai. Quero fazer um curso, talvez abrir um negócio.

  • As coisas não são assim, Erika. Por que não volta para a faculdade primeiro?

  • Eu me animo tanto quando vejo a Juliana falar sobre decoração. Acho que é isso o que quero fazer.

  • Seria bom você conhecer melhor a profissão. A Juliana conta o que há de bom, mas tenho certeza de que ela deseja esquecer os problemas, as exigências e as indecisões dos clientes, que deve ser algo muito chato, sem falar em prazos vencidos, entregas... Além do que, para trabalhar com decoração, não basta gostar, é preciso ter bom gosto, saber entender as pessoas e respeitar suas vontades, isso independentemente da sua opinião.

  • Eu preciso de um emprego. Preciso de dinheiro, pois nem pra gasolina eu tenho.

  • O que fez com aquele dinheiro todo que eu te arrumei?

  • Precisei pagar um negócio — respondeu meio sem jeito.

  • Que negócio?! — perguntou sério o irmão. — Você torrou tudo aquilo em quê?

  • E que eu havia encomendado uns cremes e uma colônia... sabe como é — respondeu com certo constrangimento.

  • Nossa, Erika! Você não dá valor ao que tem. Até quando vai ser assim. Antes era a mãe quem pagava as suas contas, mas e agora? Vai torrar tudo o que lhe dou? Você vai ter que maneirar.

  • Eu vou mudar, Edu. Você vai ver. Vou falar com o pai que a mãe está regulando a grana. Vou saldar minhas contas e depois vou arrumar o que fazer.

O irmão sorriu e não disse mais nada.
***
Pouco depois, Érika relatava ao pai tudo o que havia acontecido.

  • Eu sei, pai. Estou errada. Não sou produtiva... O Edu conversou muito comigo ontem. Sei que ele tem razão, mas eu quero mudar, quero fazer algo.

  • Diga uma coisa — indagou o pai com paciência, sentado em sua cadeira giratória e olhando-a andar pela sala —, você vai mesmo levar esse namoro em frente?

  • Claro. Eu gosto dele, pai. Você tem alguma objeção? Algum preconceito?

  • Preconceito...? Não. Mas estou surpreso. Se é essa sua vontade, o que posso fazer?

  • Aaaah! Paizinho! — admirou-se, agarrando em seu pescoço e beijando-o. — Eu sabia que você estaria do meu lado. Adoro você!!!

  • Calma lá! — avisou Adalberto. — Quero saber se esse João Carlos é um cara bacana, decente...

  • O Edu já o conhece — interrompeu eufórica. — Aliás, conhece toda a família dele.

  • Então o negócio está mais adiantado do que eu imaginava?

Recostando-se agora em seu ombro, a filha falou:

  • Só não conversamos antes por falta de tempo. Você anda ocupado e muito sumido. Está levantando suspeita até na dona Gilda.

  • Ela disse alguma coisa? — perguntou desconfiado.

  • Eu a vi reclamando. Falando sozinha ao desligar o telefone quando não o encontrou na empresa.

  • Deixa pra lá. Sua mãe implica com qualquer coisa.

  • Eu que o diga.

  • Mas vamos lá! — disse animado. — Quero detalhes do que você quer fazer. Adorei ver a minha menininha interessada em fazer alguma coisa — falou, mimando-a.

Erika, quase eufórica pelo ânimo, passou a narrar todos os seus planos enquanto Adalberto a ouvia com interesse.
***
Em sua sala, Eduardo assinava alguns papéis e pedia à secretária:

  • Pode despachar tudo isso e...

  • E...? — perguntou Paula sorridente diante do silêncio.

—E mais nada. Pelo amor de Deus, me poupe de tudo o que puder, pelo menos na parte da manhã.

  • E, estou vendo que está sobrecarregado.

  • Queria pôr a cabeça em ordem, refletir sobre o que devo fazer. Ontem dei alguns conselhos para a Erika sobre o que fazer de sua vida, mas eu bem que estou precisando fazer algo por mim. Preciso pensar, parar um pouco, ter um tempo para mim mesmo.

—E um tempinho para sonhar, tecer planos... isso é muito bom.

—Como você me entende, Paula! Sabe que eu não tive tempo nem para sonhar acordado, desde ontem, quando cheguei

em casa?

—Então está pior do que eu pensava. — Logo, com um jeito risonho, perguntou: — Posso ser curiosa?



  • Claro! De você não posso esconder mais nada.

  • E ontem?

—Conversei bastante com a Helena. Reparei que me trata como um conhecido, nada mais. É estranho, eu não percebi nenhum interesse dela... Nunca foi assim...

—... com as outras, nunca foi assim.



  • É verdade. Aliás, seus conselhos foram ótimos. Eu não a ataquei! — brincou o rapaz exagerando ao gesticular com as mãos imitando garras.

  • Dê um tempo. Se ela está sozinha, se não tem nenhum compromisso, em breve vai notá-lo e não será como um amigo.

  • Acredita mesmo?

  • Claro! Não perca as esperanças e não seja apressado.

—Estou louco para telefonar e saber como ela está. Acha que devo?

—Você consegue esperar?

Eduardo exibiu um semblante engraçado e sacudiu a cabeça dizendo:

—Não. Não estou conseguindo.

—Então arranje um bom motivo. Uma preocupação... Ah! Já sei, procure lembrar de alguma parte da conversa que tiveram ontem e diga que não conseguiu tirar isso da cabeça, que não entendeu direito o assunto... Você sabe — disse sorrindo.

Espirituoso, Eduardo se ajeitou na cadeira e, brincando, exigiu, apontando para a porta:



  • Paula, já para a sua mesa. Não fique aqui enrolando. E não deixe ninguém entrar até eu terminar um telefonema importante.

  • Sim, senhor! — respondeu sorrindo enquanto batia continência.

Sem vacilar, Eduardo telefonou, só que foi uma colega quem atendeu a ligação, pois Helena ainda não havia chegado no serviço.

Intrigado, Eduardo ligou para a secretária e avisou:



  • Paula, a Helena não chegou até agora no serviço. Será que aconteceu alguma coisa?

  • Espere um minuto. Já estou levando os documentos assinados.

Logo depois, Paula adentra na sala e avisa:

—A Natália estava na minha frente e eu não podia dizer

nada.


  • Agiu bem. Mas o que você acha? E estranho ela ainda não ter chegado no trabalho.

  • Pode ter ocorrido algum atraso na condução. Se ligar para a casa dela, a família pode ficar preocupada e, pior, vão estranhar o seu interesse. Aguarde mais um pouco.

Contrariado, Eduardo concordou.

Ele não conseguia se concentrar no trabalho e, chamado para uma reunião, não conseguia prestar atenção no que era dito, consultando o relógio constantemente e desejoso para voltar à sua sala.

Ao término da reunião, quase na hora do almoço, ele passou apressado próximo à mesa da secretária e, por haver outros companheiros por perto, avisou sério:


  • Paula, não me passe ninguém. Tenho que fazer algumas ligações importantes.

  • Eduardo! — chamou a moça. — Há um recado de uma ligação importante na pasta sobre a sua mesa. Estão aguardando o retorno.

Na troca de olhares com Paula, Eduardo entendeu que se tratava de Helena.

—Obrigado, Paula. Vou retornar.

Já em sua sala, acomodado em seu lugar, ele não demorou e abriu a pasta para se certificar do recado e telefonou imediatamente.

—Helena? É o Eduardo. Tudo bem?

—Que bom falar com você! — atendeu com certa aflição na voz.

—O que houve? Você parece nervosa.



  • Desculpe-me se estou atrapalhando. Sei que você é muito ocupado...

  • Não peça desculpas, Helena, por favor. Entre amigos não existe isso — pediu com meiguice. — Diga, o que aconteceu?

  • Foi o meu irmão, o Mauro. Nessa madrugada acordamos com ele gritando, tendo uma crise de nervos. Estamos todos assustados. Só vim trabalhar porque tenho um projeto para entregar e... sabe como é, estou há pouco tempo nessa função, não tenho prática e não posso falhar.

  • Entendo. Vocês o levaram ao médico?

  • Não. Ele não quis ir. Nossa! Nem sei contar como foi...

  • Vamos almoçar juntos, daí você me conta.

—Não posso. Quero dizer, preciso compensar o atraso de hoje cedo. Não vou almoçar hoje, já pedi um lanche.

—A Bianca está bem?

Helena gaguejou para responder, demonstrando certa insegurança ao dizer:


  • Está. De certa forma, está. Mas não foi à escola hoje. Sabe, ela voltou a dizer aquelas coisas sobre ver a...

  • Entendo. Façamos o seguinte: Passo aí para pegá-la no final do expediente. Conversamos e depois vou lá ver o Mauro, certo?

Não. Talvez ele não queira que você saiba. Eu nem deveria ter contado.

Você agiu certo. Fez bem em ter ligado. Você está bem? Estou confusa. Mas estou bem. Procure ficar tranqüila.

—Vou tentar.


  • Pense em outras coisas, está bem?

  • Certo. Mais tarde conversamos. Agora tenho muito a fazer por aqui.

  • Tudo bem. Não quero atrapalhá-la. Mas, por favor, m liga, certo?

  • Ligo sim. Obrigada e me desculpa.

—Fico aguardando. Tchau. O rapaz ficou preocupado. Aquela surpresa o desarmou e

ele não sabia o que dizer.

Pegando o telefone, chamou pela secretária, que foi imediatamente à sua sala. Logo que ela entrou, ele perguntou:


  • Paula, você já almoçou?

  • Não.

  • Pretendia almoçar hoje? — perguntou risonho e sem

graça.

  • Estou pensando em começar um regime. Estou com alguns quilinhos a mais — retribuiu brincando.

  • Estou angustiado e preciso dividir isso com alguém. Você pode me ouvir?

  • Claro, Eduardo!

  • Então sente-se.

Apresentando certa insegurança, ele contou-lhe tudo o que aconteceu desde a morte de sua irmã, incluindo fatos que já havia contado antes. Falou sobre as visões de sua sobrinha, sobre o desespero do cunhado, além da desconfiança sobre sua mãe saber algo a respeito da morte de Lara. Acabou contando até sobre a briga de Erika e Gilda na noite anterior.

—E isso, Paula — desfechou, encarando-a firme.

A moça permanecia tranqüila, sem nenhuma alteração na fisionomia serena.

Após alguns segundos, ela falou mansamente:

—Sabe, Eduardo, perdi um ótimo emprego que tive antes de vir para essa empresa, tudo por causa de uma opinião que dei, porque tiveram preconceito com a minha crença. Hoje, novamente, com um bom emprego, com um salário que não posso reclamar, me vejo em uma situação semelhante. — Ela sorriu e completou: — Acho que esse é meu carma*, tenho que passar por isso.

O rapaz retribuiu o sorriso e, mesmo sem entender, aguardou que ela se manifestasse.



  • Você acha que terminamos com a morte, Eduardo?

  • Não sei.

  • Você crê em Deus?

  • Sim. Eu creio.

—Ótimo! Já temos um bom começo. Deus é o Criador de tudo e de todos, e Ele não faz um nascer rico ou pobre, branco, negro, amarelo, debilitado físico ou mental por puro capricho Seu. Temos um objetivo na existência que é o de evoluirmos e, para isso, nascemos com determinada posição social, característica física, ou outros problemas, de acordo com o que fizemos em outras vidas. E enquanto não saldarmos os nossos débitos, harmonizando nossa consciência, vamos experimentar situações difíceis; para isso reencarnamos, ou melhor, nascemos de novo, quantas vezes forem necessárias. Entendeu?

Eduardo pareceu iluminar-se e, mais animado, respondeu:

—Entendi sim. Vai, continua.

—Só que não nascemos com manual de instrução que nos ensina como usar o nosso raciocínio, como acertar na escolha. Existem várias religiões e filosofias milenares, e eu diria que pelo menos, para nós aqui do Ocidente, o manual de instrução mais conhecido e de fácil entendimento é aquele deixado por Jesus, o Seu Evangelho.



Na tradição indiana a palavra carma significa, entre outras considerações, o efeito de uma ação, ou a soma total dos efeitos de ações, em vidas passadas, da qual a criatura experimentará os resultados do que provocou a qualquer custo. Carma é uma palavra milenar que não foi empregada na Doutrina Espírita: entretanto, quando o Espiritismo explica sobre a Lei de Causa e Efeito, ou seja, que sofremos o efeito do que causamos, o sentido filosófico é um tanto similar ~~ mesmo assim, não exatamente. Por conta dessa verossimilhança, inúmeros Espíritas e Espiritualistas fazem uso do termo carma para simplificar o significado terem de experimentar a qualquer custo uma situação ou o que causaram (Nota da Autora Espiritual).

  • Como assim?

  • No Evangelho Jesus ensina a ser bom, prudente, caridoso, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É tão fácil que não fazemos direito, aí acabamos criando superstições, amuletos, cremos em trabalhos espirituais que possam nos prejudicar ou nos ajudar, e com isso não amando a Deus sobre todas as coisas como Jesus ensinou, acabamos nem amando ao próximo como a nós mesmos, porque sempre estamos julgando, fazendo piadinhas preconceituosas, querendo ridicularizar de alguma forma seja quem for. Daí o que acontece é que o nosso corpo carnal, que por qualquer motivo morre, se acaba. Só que temos um espírito, e esse é imortal. Então, quando estivermos sem o corpo de carne, por termos sido pessoas críticas, que faziam piadinhas, ridicularizavam os outros com orgulho, arrogância, egoísmo, apegos materiais, físicos etc, ficaremos em um estado de perturbação muito grande. Não compreenderemos nenhuma ajuda, não iremos nos socorrer por falta de fé, e fé não significa somente acreditar em Deus, mas aceitar Deus e ter condição moral. E nesse estado de perturbação o espírito não aceita a nova experiência, procura viver como antes e, geralmente, próximo da família.

  • Com isso você quer dizer que minha irmã que morreu, a Lara, pode estar perto de nós, e que a Bianca pode vê-la?

  • A criança, principalmente nessa idade em que a Bianca está, é bem sensível. Acredito que ela tenha visto a mãe, sim. Até porque a Helena contou sobre a suposição de suicídio que mais ninguém sabia.

  • Mas, se for assim, de certa forma ela está desequilibrando todos nós. Eu mesmo me incomodei com os sonhos que tive, a Bianca teve pesadelos e ainda vê a mãe sempre chorando, o Mauro anda deprimido, amargurado, teve crises nervosas.

  • Acho que até a própria Helena também está sofrendo influências da cunhada, pois, pelo que você contou, elas eram bem ligadas.

  • Mas a Lara não era uma pessoa má. Ela nos queria bem, amava a filha. Como isso se explica?

  • Veja, Eduardo, a Lara não era e não é uma criatura má.

Ela só está perturbada, não sabe que sua presença, junto aos encarnados, está desequilibrando aqueles a quem ama. Ela não compreende isso e também não sabe como sair dessa situação. Ela clama por socorro e quer ajuda, por isso os rodeia. Ela não entende sobre a vida espiritual, por isso não aceita e ainda deseja viver como antes, perto do marido, da filha, mas isso é impossível.

  • Talvez ela ainda possua um certo grau de egoísmo ou de possessividade por ainda querer estar junto aos seus, um apego excessivo...

  • Pronto! Você entendeu. Esse apego excessivo a deixa próximo dos encarnados, e por essa razão ela não tem como repor as energias de que necessita para seu novo estado. Por isso sente necessidades como se estivesse encarnada, e sua mente faz com que apresente essas carências numa aparência que entendemos ser precária, feia, maltrapilha.

  • Se nascemos e morremos tantas vezes, por que não lembramos, após a morte, que temos de nos desapegar dessa vida? Por que não sabemos o que fazer?

  • Porque somos teimosos. E quando possuímos orgulho, avareza, egoísmo, preconceitos e outras mazelas ficamos como cegos e não recordamos sobre o que é bom, o que verdadeiramente vale a pena. Trocando em miúdos, isso significa que não somos humildes nem temos fé para aceitar os desígnios de Deus sem nos queixarmos. E a queixa, a exigência, nos atrai para junto do que queremos e acabamos por ficar presos aqui na crosta da Terra, ou melhor, no plano espiritual junto aos encarnados e sem as provisões necessárias para o nosso novo estado, sem os esclarecimentos, os ensinamentos que vão nos ajudar a evoluir.

Há alguma coisa que podemos fazer para ajudá-la?

Sem dúvida! — avisou animada. — Você viu que sua sobrinha disse que a Lara pareceu ter dormido após um padre ir lá e orar?

Sim, isso mesmo. Mas não dá para ficar chamando um Padre todos os dias.

—Por que você acha que tem que ser um padre para ir lá

orar?


  • Não sei... — sorriu por não saber explicar.

  • Não estou diminuindo a qualificação de ninguém. Só quero explicar que um padre é uma pessoa igual a mim e a você. Ele é um homem com dúvidas, fraquezas, fé, entre muitas outras qualidades e necessidades. E igual a qualquer outra pessoa, e se um padre pode ter fé, autoridade e amor para fazer uma prece por que é que nós não poderíamos ter? Jesus disse que se tivéssemos a fé do tamanho de um grão de mostarda conseguiríamos tudo. Em vários momentos o Mestre nos alerta de que poderíamos fazer o que Ele fazia e muito mais, bastaria ter fé, amor. Ah! Quando eu digo ter autoridade, lembre-se de que autoridade não é grito, não é veemência, não é imposição da sua vontade. Autoridade é consciência firme na certeza de ter razão e saber exibir argumentos com paciência e expressão de amor. Não vá pensar em fazer uma sessão de exorcismo, gritar e berrar, dizendo: "Sai daqui, capeta!".

Eduardo riu, e ela continuou:

  • Lembre-se de que esse espírito não sabe o que fazer, não sabe ou não entende o que é correto, e por isso está ali. Lembre-se de que é a sua irmã que precisa de carinho, paz e compreensão.

  • Espere aí, você está dizendo para eu ir lá e rezar como fez o padre?

  • Não exatamente. Um padre, pelo que sei, sai benzendo toda a casa. O que você e a família devem fazer é uma linda prece, uma oração, o que chamamos de Evangelho no Lar.

  • E como é isso?

  • Todos se reúnem na sala, na cozinha ou em qualquer outro lugar e com imenso respeito alguém faz uma prece que pode ser o Pai-Nosso, o que é chamado de prece inicial, depois outro lê um trecho curto do Evangelho de Jesus, mas não tão curto, o suficiente para se entender a história. Depois vocês comentam sobre o ensinamento, ou seja, o que Jesus quis ensinar com aquilo. Em seguida façam uma curta vibração, que é desejar paz ao mundo e à família, desejando luz às consciências necessitadas, só isso. Não fiquem vibrando por isso e por aquilo, pois quando se alonga uma vibração sempre vai existir alguém que fica vibrando para que essa vibração termine logo. E terminem com uma prece agradecendo por aquele momento e pedindo que Jesus abençoe a todos. Também não façam preces muito longas. Tem sempre que haver verdadeiro desejo em tudo o que se está dizendo e não frases longas, palavras difíceis. O que importa é a sinceridade, não a beleza. Deus sabe o que há em nossos corações. Além disso, seria importante vocês irem a um centro espírita, onde haja palestras evangélicas, escolas doutrinárias e assistência espiritual com passes magnéticos. Isso os farão adquirir conhecimento.

—Não me agrada a idéia de ver espíritos, falar com espíritos.

—E quem disse que você vai ver algum espírito, falar com algum espírito ou com um médium incorporado? Nada disso. Você vai assistir a palestras onde são apresentados ensinamentos de Jesus, a fim de que, aos poucos, você adote o hábito de viver em harmonia como o Mestre ensinou, pois os ensinamentos de Jesus não foram, como pensam alguns, só para serem empregados e pregados dentro das casas espíritas, ou somente para determinados casos. Não. Os ensinamentos do Cristo são para serem vividos, incorporados em todas as nossas práticas e pensamentos até quando estamos sós, principalmente. Devemos lembrar que os espíritos sempre acompanham aqueles com os quais têm afinidades, e quando você está em algum evento ou palestra os espíritos também vão ouvir e aprender junto com você. Com o tempo, provavelmente os espíritos ignorantes que possam segui-lo deixarão o estado de perturbação e encontrarão socorro, ajuda e recomposição. Quanto aos passes, é bom que saiba que o passe é a recepção de energias, e isso o próprio Jesus fazia quando estendia as mãos para abençoar e curar.

Eduardo ficou parado por alguns segundos, olhando-a com atenção, depois se manifestou:

Paula, é estranho, mas eu entendi. Não sei bem por Que, mas acreditei e aceitei tudo o que você falou, e isso se deu com muita naturalidade. Geralmente reluto a aceitar uma idéia nova. Mas, me diga, se isso está acontecendo principalmente na casa da Helena, como é que eu vou chegar lá e... vamos dizer, pedir tudo isso? Nem tenho argumentos para tanto. A dona Júlia é católica praticante e uma ótima pessoa. Ela me poria para correr em dois minutos se eu falasse de espírito, de sessão ou sei lá do quê.



  • Vocês não vão fazer sessão nenhuma na casa de ninguém. O Evangelho no Lar é uma prece e um pedido de luz e bênçãos, é um momento de aprender o que Jesus ensinou, nada mais. A reunião da família para ler os ensinamentos de Jesus e fazer uma prece não depende de você ser católico, espírita, protestante, umbandista ou seja lá o que for. Devemos lembrar que Jesus não impôs ou ensinou, muito menos denominou religião alguma. Aquele que segue Seus ensinamentos é um Cristão, independentemente da religião que siga. E a leitura de seu Evangelho pode ser feita por qualquer um. Com a ajuda da Helena, creio que dona Júlia vai entender. Não precisam dizer nada, peguem uma Bíblia, leiam e acabou. Ela não vai se opor.

  • Mas e o fato de ir a um centro espírita?

  • Vá você e a Helena. Aos poucos, com o tempo, eles vão perceber que não há nada de errado nisso.

Jogando-se para trás na cadeira, ele riu e perguntou:

  • Deus! O que faço?

  • Ore! — sugeriu sorrindo. — Você costuma rezar?

  • Não.

  • Bem que eu disse que é tão simples, é tão fácil e quase ninguém faz. Orar é simplesmente conversar com Deus. E agradecer as oportunidades e até as dificuldades, pois são elas que nos fazem crescer. Orar é pedir entendimento e força para saber tomar as melhores decisões e ter bom ânimo.

  • É tão fácil que ninguém faz! — repetiu Eduardo com um suave sorriso.

  • Vai, Eduardo! Tenta! Estarei torcendo por você. Agora... quero saber sobre meu emprego.

  • Como assim?

  • Quando vou receber minhas contas? Sim, porque por

Muito menos já fui demitida. Sei na pele as conseqüências do preconceito religioso que me atacou silenciosa e traiçoeiramente.

Suspirando fundo, ele avisou com um sorriso cínico:

—Pois bem, suas contas... Ora, Paula! Suma daqui pelo resto da tarde. Não quero vê-la de jeito nenhum. Eu mesmo vou sair mais cedo, vou pegar a Helena — disse, estampando agora um largo sorriso de contentamento.

—Sério? Posso ir?



  • Mas esteja aqui amanhã bem cedo. Temos uma reunião às nove.

  • Você não sabe como está me ajudando. Minha filha não está muito bem hoje. Ligaram da escolinha pouco antes do almoço e eu pedi que contornassem a situação até eu conseguir alguém para pegá-la. Mas até agora não encontrei ninguém.

—Por que você não falou antes? O que ela tem?

—Disseram que estava enjoadinha, que não queria comer, que reclamava que tinha um espinho na garganta. Mas estava sem febre. Pobrezinha. Eu sei que isso é coisa de criança, mas...

—E seu marido? Já voltou da viagem?


  • Ainda não. Deve chegar no final da semana. Essas viagens de trabalho me deixam tão preocupada. Não consigo me acostumar. Bem, deixe-me ir. Obrigada pela folga.

  • Eu que agradeço. Obrigado por tudo. Estimo as melhoras da nenê.

Paula saiu enquanto ele ficou pensativo, refletindo sobre tudo o que ouvira. Reparou que a secretária sempre fora sensata, prudente, repleta de ânimo. Sempre confiou muito nela e admirava seu comportamento. Gostava muito de Paula como se já a conhecesse há muito tempo. Gostava dela como uma irmã.
12

Assumindo os sentimentos

A chuva forte que caía deixava um tom cinzento muito pesado, até mesmo sombrio, no céu da cidade cor de chumbo que pouco verde podia oferecer aos seus habitantes tão carentes de natureza e paz.

Depois de se encontrar com Helena, Eduardo, antes de seguir o caminho para a casa da moça, convidou-a novamente:


  • O trânsito deve estar igual ou pior ao de ontem. Os semáforos não estão funcionando em alguns pontos e tudo está um caos. Conheço um lugar tranqüilo aqui perto. E um bom restaurante, acho que podemos conversar um pouco e é mais seguro, o que você acha?

  • Prefiro jantar em casa. Minha mãe gosta de todos reunidos à mesa.

  • Então não precisamos jantar, podemos tomar um suco, beliscar alguma coisa... Já sei! Iremos ao mesmo lugar onde fomos naquela noite. Acho que você gostou de lá, é calmo, música ao vivo...

Um aviso no noticiário do rádio informou, que até o metrô da cidade estava parado, que as enchentes não deixavam nem os ônibus passarem nas principais vias de acesso aos bairros.

Pensativa, após ouvir o noticiário, Helena lamentou:

—Viu onde você veio parar? Atravessou a cidade para isso.

—Acho bom irmos jantar — insistiu novamente. — Se não, iremos ficar presos no trânsito e, pior, com fome! — brincou.

— Vamos fazer o seguinte: você liga para sua mãe, avisa que está comigo, dá o número do celular. Ela vai ficar tranqüila por saber onde pode encontrá-la. Mesmo que não estivesse comigo, você não chegaria em casa cedo. Acho que hoje todos terão problemas.

Helena concordou, e ao chegarem no local referido por Eduardo eles já estavam acomodados à mesa quando Helena comentou:



  • Ontem em casa, depois que você saiu, foi um inferno!

  • Por quê?

  • Eu não sabia, mas antes de chegarmos o Mauro e a Carla já haviam se desentendido.

  • Achei o Mauro meio estranho quando chegamos, mas como você falou que ele estava deprimido não me importei.

  • E que a Carla acabou fazendo umas fotos, coisa simples, para uma marca de óculos. Dessas que ficam expostas em óticas. Então o meu irmão ficou louco da vida. Minha mãe contou que ele já estava irritado, disse que parecia que o Mauro estava procurando em quem descarregar a sua fúria, pois já havia brigado com a Bia, implicado com o cachorro do vizinho que estava latindo muito... Daí quando a Carla chegou eufórica, falando das fotos, não precisou muito. Minha mãe disse que, quando chegamos, eles deram uma maneirada, mas depois que você se foi...!

  • Ontem também, quando cheguei em casa... — interrompeu Eduardo, detalhando tudo o que havia acontecido e até mesmo sua perplexidade quando ouviu sua mãe lamentar por ter salvado a filha de um acidente fatal e se arrepender por ter tido mais filhos.

—Eduardo! Que horror!

—E... — respondeu descontente. — Pra você ver. Nunca pensei. Ás vezes acho que minha mãe está doente.

O que contei sobre o Mauro não foi só isso — prosseguiu ela. Na madrugada, depois que fomos dormir, meu irmão acordou gritando. Ele não falava coisa com coisa, mas por duas vezes chamou pela Lara.


  • E daí?

  • Quando chegamos ao quarto, o Miguel tentava acordá-lo, só que o Mauro, mesmo com os olhos abertos, parecia estar sonhando, tendo um pesadelo. Eu nem quis ver. Meus pais correram e ficaram lá com ele. Quando voltei para o meu quarto, a Carla tentava consolar a Bianca, que começou a chorar e disse assim: "Tia, é a minha mãe. Ela tá triste e faz meu pai chorar."

  • Ela falou isso?

  • Com todas as letras. Sentei-me ao seu lado e fiquei com ela até que dormisse. Confesso que estou assustada, com muito medo. Tem momentos, Eduardo, que sinto uma coisa... uma angústia sem fim.

  • Sabe, hoje na hora do almoço, conversei com a minha secretária executiva, pessoa de muita confiança e...

Eduardo começou a relatar toda sua conversa com Paula, falando também sobre o que a moça aconselhou.

Mas enquanto eles conversavam, no plano espiritual, Nélio, que acompanhava Helena, aproximou-se bem da jovem e a envolveu, procurando transmitir-lhe seus pensamentos, seus desejos íntimos, mas com certa generosidade, pois não se despojara de sua fascinação.

—De que adianta seguir estas opiniões? Tudo já está escrito. Poupe energias e forças para viver comigo pela eternidade. Ouça o que eu digo, pois sou o teu guia, aquele que te protege sempre. — insuflava Nélio entre outras coisas.

Todos temos um espírito que se liga a nós, em particular, para nos proteger. Normalmente conhecido como guardião, anjo da guarda, espírito protetor ou mentor, que certamente pertence a uma ordem mais elevada do que a do protegido.

Esse espírito protetor se liga ao pupilo encarnado desde o seu nascimento até a morte do corpo e sempre procura inspirá-lo com bons conselhos, sustentando-o com coragem diante das dificuldades, das aflições e das provas da vida.

Por mais que estejamos em dificuldades na vida, por mais que uma prova ou expiação seja tempestuosa, o anjo da guarda nunca abandona o seu protegido enquanto este tiver fé, humildade, bom ânimo.

Entretanto, se o protegido se inclinar à influência de espíritos inferiores, submetendo-se a pensamentos e atos de pouco valor, desprezando a fé que pode cultivar, recusando a expressão de humildade, negando-se ao bom ânimo no bem para prosperar, seu espírito protetor se afasta, mas não o abandona completamente, e, vez por outra, procura se fazer ouvir.

É por essa razão que o espírito protetor de Helena, aproximando-se naquele instante, a inspirou:

—Devemos sempre ter fé. Devemos buscar a paz para alimentar nossas consciências, assim como buscamos valores representativos para fartar nossa mesa e nossas necessidades materiais. Se despendemos esforços para o trabalho que nos traz o pão, devemos despender também o mesmo esforço para o encontro de conhecimentos que nos alimenta e liberta a alma. Jesus já nos disse para conhecermos a verdade e que ela nos libertaria.

Ninguém podia perceber o anjo guardião que procurava guiar Helena, nem mesmo o espírito Nélio, tendo em vista sua inferioridade na escala evolutiva.

A princípio, enquanto ouvia Eduardo, Helena sentiu que aquele assunto lhe causava um certo incômodo, mas logo se interessou quando o colega disse algo sobre a sensibilidade que algumas crianças podem ter.

Ela adorava a sobrinha e, para ajudá-la, estaria disposta a tudo. Na verdade, essa gota de ânimo surgiu quando seu mentor sugeriu esforços à procura de conhecimento.



  • Tudo isso é tão novo para mim quanto para você, Eduardo. Se bem que, para o que a Bianca diz, deve haver alguma explicação racional.

  • E engraçado, aceitei tão bem esses conceitos, achando-os tão lógicos. Nunca encontrei um ensinamento melhor.

Somos católicos. Ou melhor, minha mãe é quem vai à igreja. Nós, só de vez em quando. Não sei se a dona Júlia será simpática a essa idéia.

  • Nisso eu concordo com você.

  • Afasta-te dele, Helena! — quase exigia o espírito Nélio. — Não vês que poderás embrenhar-te num pântano de sofrimento e de brigas com os teus, graças a estes conceitos vãos, tolos?

Subitamente Helena, apresentando certa inquietude ao torcer as mãos, ao erguer o tronco e olhar para os lados, perguntou:

  • Será que o trânsito melhorou?

  • Não creio. Ainda está chovendo.

  • Não estou ouvindo — duvidou.

  • Reparei que as pessoas que chegaram passavam as mãos pelos braços tentando tirar alguns respingos.

Ela silenciou, algo a incomodava.

Mas o som agradável do piano que ressoava suavemente de certa maneira a relaxava.

Num gesto impulsivo, Eduardo segurou a mão da jovem sobre a mesa e, tocando-lhe com carinho, sugeriu gentilmente:


  • Vamos pedir o cardápio? Acho bom jantarmos, pois creio que não chegaremos cedo.

  • Vai ficar tarde — reclamou preocupada.

  • Toma — disse, oferecendo o aparelho —, pega o celular e liga para sua mãe. Diga que está comigo e que vamos jantar. Isso a deixará tranqüila.

Helena titubeou, mas as circunstâncias a obrigavam a aceitar a proposta.

Feita a ligação, após entregar o telefone, avisou:



  • Minha mãe disse que lá está caindo o mundo. Até agora o Miguel não chegou e ela não consegue nem ligar para ele. Só cai na caixa postal.

  • Com certeza está fora de área e ele deve estar preso no trânsito.

O pedido da refeição foi feito e esta foi servida.

Agora, com assuntos corriqueiros e menos pertinentes às preocupações de momentos antes, eles conversavam mais animados.

Eduardo, bem mais à vontade, parecia estar encantado e não procurava esconder seu olhar de admiração quando fitava a moça, que talvez não tenha percebido e, por causa da conversa agradável, exibia-se mais solta.

O espírito Nélio, irremediavelmente furioso com o que observava, não suportou ficar presente. A alegria de Helena na companhia de Eduardo o incomodava de modo inenarrável, e ele se retirou fazendo com que a vibração em torno do casal ficasse muito mais saudável e harmoniosa com sua ausência.

Aproveitando-se da confortável poltrona que circundava a mesa, sem nenhuma separação entre eles, Eduardo colocou-se mais perto e argumentou:


  • Já contamos todas as peripécias dos nossos irmãos. Seria bom falarmos de nós. Diga-me algo sobre você.

  • Sobre mim?! — estranhou, mas com certa alegria recatada.

—Lógico! Primeiro as damas — disse brincando e gentil.

  • Ei! Como você veio parar aqui do meu lado? — perguntou, ao reparar que Eduardo já estava bem próximo.

  • Deslizando! — admitiu rindo com gosto. — Precisava ouvi-la melhor. Você fala tão baixinho. Mas me conta, vai! Quero saber de você. Quais as suas perspectivas para o futuro?

Olhando-o nos olhos, um pouco mais séria, Helena suspirou profundamente ao afirmar:

—Não sei direito. Eu havia feito tantos planos para quando terminasse a faculdade, fiz cursos... mas hoje não sei o que posso fazer, estou sem idéia. Ah! Não me deixe embaraçada. Fale de você primeiro.



  • Tenho planos, sim. Espero realizá-los.

  • Quais? Pode contar?

—Deixe-me ver quais eu posso contar... — falou rindo. — Pretendo me realizar mais, profissionalmente falando.

—Mais, profissionalmente?

Primeiro gostaria de partir para outro ramo no mundo dos negócios, mas estou tão indeciso e perdido quanto você. Não tenho idéia do que fazer, nem sei por onde começar. Por outro lado, gostaria de ter alguém ao meu lado, alguém...


  • Acho que você nunca encontrará problemas para ter alguém ao seu lado.

  • Ah! Tenho, sim. Mais do que você imagina. Tenho dificuldade em encontrar uma pessoa sincera, verdadeira, que saiba ouvir e opinar. Que não se altere, que não seja exacerbada... e que seja bem sensível. — O silêncio reinou por alguns segundos, mas ele o quebrou, dizendo: — Acho que sou muito exigente, não é? — Ela sorriu, e o rapaz continuou: — Mas vou fazer de tudo para retribuir a essa sinceridade, a essa atenção, ao carinho... As vezes penso que encontrei essa pessoa tão sensível que pode me completar.

Bem próximo a Helena, ele segurou seu queixo, erguendo-o. Seus olhos se encontraram enquanto um forte sentimento de ternura os envolvia.

Tomando-a num abraço delicado, Eduardo a beijou com carinho e todo seu amor.

Não houve palavras.

Repleto de emoção, após o longo beijo, ele a envolveu, apertando-a contra o peito. Passaram-se poucos minutos quando ele propôs:



  • Vamos sair daqui?

  • Acho que estou fora de mim — murmurou confusa.

  • E porque você está em mim, agora — disse com meiguice no olhar ao se aproximar e beijá-la rapidamente nos lábios. — Vamos? — insistiu.

Helena sentia-se atordoada. Um torpor interminável a dominou.

Eduardo a abraçou sentindo-se realizado e com carinho a conduziu para que saíssem do restaurante.

Já acomodada no interior do veículo, Helena ainda se sentia bem com o que ocorrera, mas um pouco confusa.

Eduardo, por sua vez, sentia seu coração bater forte, apaixonado, e não conseguindo se conter tomou-a novamente em seus braços, puxando-a para si e aninhando-a no colo. E mais uma vez o rapaz a beijou longamente.

Sentindo-se conquistada, Helena abandonou-se aos carinhos daquele momento que pareceu eterno, encantado.

Logo, porém, detendo-o ao espalmar suavemente a mão em seu peito, ela perguntou baixinho, fugindo ao olhar:



  • O que está acontecendo?

  • Acho que estamos assumindo nossos sentimentos.

Ao vê-la tentar se ajeitar para acomodar-se melhor no banco, ele pediu carinhoso:

  • Fica aqui. — E afagando seu rosto delicado ainda afirmou: — Gosto muito de você, Helena. Nunca senti isso antes por alguém. Fica comigo?

  • Devo confessar que estou surpresa, confusa — revelou ao acomodar-se em seu lugar.

Generoso, ele afagou seus cabelos e o rosto, mostrando-se compreensivo às suas reações.

  • Quero ir embora — pediu delicadamente e com certo constrangimento.

  • Claro, Helena — concordou sorrindo. Mas antes avisou, ao tocar seu queixo, fazendo-a olhar: — Não quero que pense que estou brincando com você ou com seus sentimentos. Acho que nunca fui tão sincero com alguém.

Ela abaixou o olhar e silenciou.

Já em frente ao portão da casa onde ela morava, eles desceram, quando, percebendo seu constrangimento, ele a chamou antes que entrasse:

— Helena, vem cá.

Parada e quase ofegante, ao senti-lo próximo, praticamente a abraçando, ela disse:

— Eduardo, acho que...

Segurando-a com delicadeza e fazendo-a olhar, ele a interrompeu, perguntando:

—"Acho que..." o quê, Helena? Acha que não podemos? Que não devemos nos conhecer? Que não temos o direito de tentar? Não vejo motivo para ficar assim desse jeito como se tivesse feito algo errado. Acho que você é uma menina bacana, responsável, educada... Quero conhecê-la melhor, só isso. Não vou ficar aqui tecendo uma lista de adjetivos, mas acho que deveria ver que não sou nenhum cafajeste. Você me conhece há algum tempo. A não ser que tenha aversão a minha pessoa, que me ache repulsivo e...


  • Não. Não é isso. Mas... — interrompeu, perdendo logo as palavras.

  • "Mas" o quê? Você é livre, desimpedida. Pelo menos é o que eu sei. Eu também não tenho compromisso. O que há de errado?

  • Preciso de um tempo, Eduardo. Estou confusa. Eu não queria me envolver com alguém agora.

  • Não podemos mandar no destino. Acho que temos uma amizade muito forte, confio muito em você. Pensei que poderíamos nos conhecer melhor, e para isso temos que nos aproximar mais, não acha?

Ela ficou em silêncio. Parecia estar mais calma, mais flexível. Aproximando-se, ele pediu com ternura na voz:

—Vem cá, me dê um abraço. — Ao tê-la recostada em seu peito, afagando-lhe carinhosamente os cabelos, ele disse: — Calma. Você está sentindo-se assim confusa, insegura, por causa das muitas coisas que vêm acontecendo. Dê a si mesma uma oportunidade. — Procurando olhar em seus olhos, ele sorriu e acariciou-lhe a face.

Helena, mais tranqüila, pareceu ceder aos seus carinhos e, envolvendo-o num abraço apertado, demonstrou confiança.

Sentindo-se seguro de si, Eduardo tocou seu rosto com os lábios até encontrar sua boca e beijá-la com todo amor.

Minutos se fizeram quando eles perceberam a aproximação de um vulto.

Surpresa, Helena se sobressaltou quase gritando quando

disse:


  • Ai! Que susto, Miguel!

  • Mãos ao alto!!! — brincou o irmão, mas logo estendeu a mão para Eduardo, que ria da brincadeira.

  • E aí? Cadê o carro?

  • Deixei na casa da Suzi. Cara! Está tudo alagado. Não dava para arriscar, então resolvi voltar de metrô, que está funcionando precariamente, mas está.

Helena, parecendo constrangida, não encarava o irmão, que, muito tranqüilamente, a beijou no rosto e sugeriu:

  • Não é melhor vocês entrarem? Fiquem ali na área, não é legal ficarem aqui no portão. Do jeito que as coisas andam hoje em dia...

  • Não... — respondeu Helena rapidamente, olhando com firmeza para Eduardo como desejando que ele recusasse o convite. — É tarde, não é, Eduardo?

  • Pensando bem, Miguel, é tarde mesmo. Deixa para amanhã — respondeu educado, compreendendo a aflição da moça que parecia não querer que mais ninguém soubesse sobre eles. Mas logo se lembrou e perguntou: — Ah! O que você acha de fazermos um programa nesse final de semana? Sábado, talvez.

  • Ótimo! Vou falar com a Suzi. Pega o telefone do meu serviço com a Helena e me liga para combinarmos.

  • Eu tenho o número do seu celular.

  • Então eu aguardo — disse Miguel estendendo-lhe a mão para se despedir. — Valeu! Deixe-me entrar, estou morrendo de fome.

Após ver seu irmão distante, Helena se virou para Eduardo, mas antes que falasse ele disse sorrindo:

—Já sei! Você vai me mandar embora. Estou indo. — Com ternura ele a beijou mais uma vez, depois avisou: — Amanhã eu ligo. Tchau.

—Tchau — retribuiu com simplicidade e um lindo sorriso. Eduardo se foi enquanto Helena, ainda inebriada pelo efeito

das fortes emoções, experimentava um misto de alegria, surpresa e temor, esse último desconhecido.

Logo que entrou, foi à procura de sua mãe que, na cozinha, servia uma refeição para Miguel.

—Nossa, filha! Você chegou tarde, hein!

Para não vê-la em uma situação difícil, o irmão a socorreu: Também pudera, metade da cidade está submersa! Que exagero, Miguel! — exclamou a mãe. E só ligar a televisão e assistir. Cheguei em casa ainda

hoje porque o metrô, mesmo lento, ainda estava funcionando, senão...

Observando a filha que se servia com água, dona Júlia perguntou:


  • O Eduardo está lá na sala? Chame-o para cá!

  • Não, mãe. Ele já se foi. Está tarde.

  • Você contou para ele sobre o Mauro? — interessou-se a

mãe.

—Contei.


  • Será que deveria, filha? Que idéia ele vai fazer da nossa família?

  • O que é isso, mãe? — retrucou Miguel. — Só porque eles são ricos, vai me dizer que ninguém briga lá? Que não discutem?

—Você já jantou mesmo, Helena? — tornou a mãe.

  • Já sim, mãe — afirmou, retirando-se. Virando-se para o filho, dona Júlia se interessou:

  • E a Suzi?

  • Está bem. Passei na casa dela quando saí do serviço.

  • Liguei para você. Fiquei preocupada.

—Meu celular estava ligado. Deve ter havido alguma queda de sinal por causa da tempestade.

  • E você nem para ligar pra casa, filho?

  • Ah, mãe, acabei esquecendo.

—O que estou achando estranho é você não ter jantado por lá — observou a mãe bem sincera.

  • E que... Sei lá, não me importei com isso.

  • Quem deveria se importar com isso era a sua namorada.

  • Mãe, não vai começar a encontrar defeito na Suzi.

  • Não é defeito. Só estou reparando que essa moça não se preocupa com algumas coisas.

  • Mãe, a senhora vai conhecer melhor a Suzi. Ela é muito simples, educada, gentil.

  • Só isso não basta, Miguel. Você precisa de alguém que goste de você, que se preocupe em cuidar de vocês dois e não só de roupas caras, corpo bonito, sorriso agradável, restaurante de luxo e...

  • Eh!!! Já vai começar?

  • Tem algo errado com essa moça. Ainda não sei o que é, mas tem.

Miguel respirou fundo, mostrando-se um pouco contrariado. Ao terminar a refeição, perguntou:

  • E o Mauro, melhorou?

  • Ele ligou para a revista avisando que não ia trabalhar. Ficou deitado o dia todo e com dor de cabeça. Tomou remédio, chá... Mas não melhorou muito, não — explicou enquanto tirava a pouca louça para lavar.

  • Ele deveria ter ido ao médico.

  • Seu pai insistiu, mas ele não quis mesmo.

  • E a Bia? — perguntou o filho enquanto secava o prato, ajudando a mãe.

  • Não foi à escolinha, mas brincou como se nada tivesse acontecido de madrugada. Estou preocupada com ela.

  • Criança é assim mesmo. — Depois decidiu: — Deixe-me ir lá no quarto da Lena perguntar um negócio pra ela antes que durma. Valeu, mãe! A bênção... — disse, beijando-lhe o rosto antes de se retirar.

—Deus o abençoe — respondeu de todo coração. Minutos depois, ao passar na frente do quarto das irmãs,

Miguel bateu suavemente na porta entreaberta e espiou:

—Entra! — pediu Helena que estava sentada na cama secando os cabelos com uma toalha.

—Onde está a Carla? — interessou-se o irmão.



  • Na Internet. Ah! Sabe Miguel, eu queria comprar mais um micro. Ligar os dois numa rede, o que você acha?

  • Bem, a idéia é ótima, mas não sei se vou poder participar, financeiramente falando — disse sorrindo.

—Por quê?

—O prazo de uma aplicação que fiz está vencendo. Vai dar uma grana considerável e estou pensando em tirar o meu fundo de garantia e comprar um apartamento.

—Você está pensando em se casar?

O irmão sorriu ao responder com certa hesitação:

—É... talvez — disse, sentando-se ao lado dela. — Mas, pelo visto, não sou só eu quem está partindo para novos ideais. Vejo que você e o Eduardo estão se entendendo.

Helena sentiu-se aquecer e não conseguiu dizer nada. Agora, com o rosto rubro e os olhos brilhantes, sentiu-se embaraçada com aquela colocação.



  • E engraçado — prosseguiu Miguel —, sempre olhei vocês dois e achei que tinham algo em comum, como uma afinidade, uma sintonia. Mas também reparei que vocês não se enxergavam. Nas oportunidades que tinham, antigamente, passavam um pelo outro como dois estranhos desinteressados, mas depois vi algo nele que... parecia despertar.

  • Não sei como tudo aconteceu. Acho que nos reparamos só hoje.

Depois de uma risada gostosa, onde se atirou para trás, Miguel considerou:

—Ah, Helena! Não creio que você seja tão ingênua assim. Naquele dia mesmo, quando saímos todos juntos, só um cego não via que ele estava completamente caído por você. — Imitando o jeito de Eduardo, Miguel lembrou, fazendo graça: — Ele chegou lá na pista de dança meio desconcertado, me tirou para um canto e disse, todo sem jeito: "Olha, vamos dar uma volta, tudo bem? E que a Lena não está muito legal aqui". Aí eu lembrei de dar o número do meu celular para nos encontrarmos antes de chegar em casa, ou a mãe ia comer sua alma se a visse chegar sozinha. Naquele momento pensei: "Agora vai"! — desfechou rindo.

A irmã riu, mas o empurrou de leve, e ele ainda completou:


  • E você vem me dizer que só hoje se repararam?

  • Pára, Miguel! — Logo em seguida admitiu: — Estou um pouco confusa. Não queria alguém na minha vida, não agora.

  • Acho que muitas vezes não temos como controlar os sentimentos e algumas situações, mas temos o dever de nos mantermos vigilantes. Namorar, ficar, mas sempre esperta, entendeu?

  • Hei! Não aconteceu nada! Nós só nos beijamos. O que você está pensando?

—Miguel!

O irmão gostava de vê-la embaraçada e continuava a provocá-la.

Enquanto conversavam, na espiritualidade Nélio estava verdadeiramente revoltado. Furioso pelo que presenciou, argumentava muito, como se Helena pudesse ouvi-lo. Mas a moça ainda estava sob o efeito das emoções recentes e nem de longe se ligava às suas vibrações e sugestões, não se deixando dominar por tristeza alguma.

Agora ele não desistiria. Iria deixar, de alguma maneira, a situação novamente sob seu controle.

E foi num momento de descontração, enquanto conversavam animados, que se assustaram pela rapidez com que a porta do quarto foi empurrada, provocando um forte barulho.

Mauro entrou e com os olhou cheios de repulsa quase gritou:

—Agora vai dar uma de mulher à toa também? Já não basta uma sem-vergonha aqui em casa?

Mauro estava irreconhecível. Com os olhos injetados, brilhantes, e o rosto sisudo. Ele parecia ser outra pessoa.

Ao mesmo tempo, na espiritualidade, Nélio instigava, enfurecido:

—Corrija-a agora ou vai enfrentar a vergonha da desonra. Ela inclina-se à vileza, talvez pelo dinheiro, pela aparência do rapaz. Vai virar uma mundana!

Miguel, muito surpreso, levantou-se e pôs-se quase em frente ao irmão, quando perguntou seriamente:


  • O que isso significa, Mauro? O que está acontecendo com você?

  • Ouvi o que você e essa ordinária estavam falando! — Passando pelo irmão, Mauro se aproximou de Helena encarando-a irado. De seu olhar colérico pareciam escapar raios que feriam silenciosamente a irmã.

Assustada, pálida, Helena ficou imóvel enquanto ele vociferava com voz agastada:

—Se pensa que vai nos envergonhar como aquela outra vadia, está muito enganada.

A presença de dona Júlia, de seu Jairo e de Carla, que chegaram no quarto atraídos pelos gritos, não intimidou Mauro, que segurou a irmã pelo braço, levantando-a e a agitando enquanto dizia:

—Se eu pegar você com aquele cara, sou capaz de... Miguel, num gesto rápido, interferiu entre eles, puxando

Mauro, que passou a agredi-lo após empurrar Helena, que caiu.

—Parem com isso! — gritou seu Jairo, correndo para separar os dois irmãos que já trocavam socos e tapas.

Dona Júlia também interferiu até que repentinamente o pai levou Mauro à força para fora do quarto.

A pequena Bianca, que estava dormindo, acordou assustada e chorando, chamando pela tia.

Carla a pegou no colo e levou-a até Helena, que parecia estar em choque.

Mauro, como um alucinado, conduzido pelo pai, ainda gritava nomes horríveis, mesmo a certa distância.

Pálida e chorando, Helena agora abraçou a pequena criança, embalando-a com carinho quase mecânico.

Miguel sentou-se a seu lado. Aturdido, esfregou o rosto com as mãos, deslizando-as pelos cabelos, e olhando para Helena perguntou:

—Você está bem?

—O que aconteceu, Miguel? — indagou dona Júlia, ainda sob o efeito do susto.

—Não sei, mãe. Até agora não entendi.

Carla, de joelhos sobre a cama, abraçou-se à irmã e reclamou:

—O Mauro está doente. Vocês estão vendo agora? Ele começou a implicar comigo, agora com a Lena... Alguma coisa tem que ser feita antes que ele cometa um crime.

—Fica quieta, Carla. Não diga besteiras — alertou a mãe.

—É! A mim a senhora pede para ficar quieta. Por que não manda o Mauro calar a boca?

Sem se importar com o que a filha falava, dona Júlia se aproximou do filho e tocou-lhe o ombro ao perguntar novamente:

—O que aconteceu? Como isso começou?

Miguel olhou para Helena, que parecia transtornada, e decidiu então dar uma curta explicação:



  • Nós estávamos aqui conversando. De repente surgiu o nome do Eduardo em nosso assunto. E... — olhando para Helena, ele se calou.

  • Eu e o Eduardo estamos nos conhecendo, mãe — revelou a moça com modos tímidos e a voz embargada pelo choro. — Nem sei se a gente tá namorando.

  • Então — tornou Miguel —, acho que o Mauro ouviu e entrou no quarto de modo irascível, insano, quase levando a porta no peito, e começou a falar um monte de coisas para a Lena. O resto a senhora ouviu.

  • O Mauro precisa ser internado! — dizia Carla, revoltada. — Isso é doença. Ninguém normal faz o que ele vem fazendo.

Ponderado, Miguel pediu:

—Carla, por favor. Tenha calma.



  • Que por favor o quê! Agora você vai ver, Miguel, tudo o que eu passo. Antes não se incomodava porque não era com a sua protegida. Agora ele vai cair matando em cima da Lena! Aí eu quero ver você tomar as dores dela! — falava de modo irritante.

  • Por que está dizendo que sou a protegida dele? — perguntou Helena quase chorando.

  • Vai dizer que nunca percebeu que é a queridinha da família? — disse, levantando-se da cama e andando pelo quarto.

Você sempre foi a menina prodígio! A mais amada!

—Carla, chega! — exigiu a mãe.

—Tá vendo só?! — exclamou a jovem, protestando. Como se não bastasse a situação confusa, Carla, por falta

de bom senso, irritava ainda mais a todos.

Dona Júlia pediu que todos fossem se deitar e foi ver como Mauro estava.

A noite foi longa, principalmente para Helena, que não conseguiu conciliar o sono. A sensação de bom ânimo com um misto de alegre expectativa que antes a envolvia agora se transformava em tristeza e decepção.

Nélio havia saído vitorioso. Conseguira seu objetivo, que era trazer melancolia para Helena, que, por falta de vigilância e de ações mais enérgicas em relação aos seus próprios sentimentos, se deixaria envolver em vibrações tristes e depressivas outra vez, possibilitando uma influência maior daquele espírito ignorante, egoísta e inferior.



13

A influência de nélio

Aos primeiros clarões da aurora, o sol exibia-se reluzente no imenso céu azul. Não dava para acreditar que havia chovido tanto no dia anterior.

Eduardo, muito tranqüilo, fazia o desjejum e não conseguia tirar o sorriso do rosto. Sua face se iluminava e até seus olhos pareciam sorrir.

—Um pouco mais de café, senhor Eduardo?

—Não precisa me chamar de senhor, Sônia. Por favor. E... não, obrigado. Chega de café! — respondeu brincando e gentil.

—O senhor me desculpe, mas é uma exigência da dona

Gilda.


  • O que é que você está falando aí de mim?! Hã?! — intimou Gilda austera, encarando a empregada com rudeza no olhar frio.

  • Não quero que ninguém me chame de senhor Eduardo, mãe. E estou, mais uma vez, pedindo para a Sônia que não me trate assim.

Aproximando-se e beijando o filho que ainda estava sentado a mesa, Gilda acomodou-se a seu lado enquanto esclarecia o seu ponto de vista.

—Não gosto de liberdade com os serviçais. Faço questão de que trate a todos com respeito.

—Anteceder um nome com qualquer título não indica

respeito. — E quase exigente tornou a dizer: — Não quero ninguém me chamando de senhor. — Olhando para a empregada, ele sorriu, piscou brincando e perguntou: — Ouviu, dona Sónia?



  • Vai, vai, Sônia! Traga logo o meu suco.

  • Sim, senhora — concordou, saindo rápido. Virando-se para o filho e moderando o tom de voz, ela

indagou, escondendo certa astúcia.

  • Chegou tarde ontem.

  • Foi por causa da chuva.

  • Mas você não ficou na empresa. Seu pai falou que o viu sair bem antes dele.

  • Fui jantar fora.

  • Pode-se saber onde e com quem?

Eduardo ergueu o olhar que antes se prendia em alguma notícia que lia no jornal, encarou a mãe e disse sorrindo:

  • E melhor você me dizer o que já sabe. Assim, poupará o nosso tempo — propôs irônico. — Aí digo se é verdade ou não.

  • A Natália me telefonou ontem à noite. Já era bem tarde e você não havia chegado. Ela esteve em um restaurante e disse que o viu lá.

  • Sim, é verdade. Eu disse que jantei fora.

Quando percebeu que o filho se levantava, ela completou sem perder tempo:

—Não pude acreditar que você levou a Helena num lugar daqueles!

Agora, bem mais sério, Eduardo a encarou firme ao perguntar:


  • Por quê? Não me acha capacitado ou competente para sair com uma moça bonita como Helena? Ela é educada, gentil, além de ser uma pessoa extraordinariamente agradável — falou sorrindo, como se quisesse propositadamente irritar a mãe.

  • Não posso acreditar, Eduardo! — quase vociferou Gilda. — Não dormi essa noite só pensando nisso!

  • Tome um calmante, mãe. Assim vai evitar uma grande enxaqueca. Agora, com licença, preciso ir. Tenho uma reunião agora cedo.

Bem mais tarde, na sala que ocupava na grande empresa, Eduardo atendia um telefonema de sua irmã.

  • Mas, Erika — justificava —, não posso fazer nada. A mãe fica nervosa por qualquer coisa.

  • Você não entendeu, Edu. Ela não estava nervosa, estava insana! Quebrou tudo o que pôde no quarto dela — contou a irmã, demonstrando-se assustada com o ocorrido. — Para você ter uma idéia, nem ousei fazer as minhas ironias!

  • Sabe por que ela sempre quebra tudo quando fica nervosa? Porque tem dinheiro para comprar coisas novas. Quem sabe ela não quer mudar a decoração?

—Não brinca, Edu. E sério.

—Olha, Erika, não posso fazer nada. Tenho muitas coisas para resolver e não vou ficar dando atenção aos chiliques da mãe.



  • Você é quem sabe.

  • Olha, Erika, agora preciso desligar. Um beijo!

  • Outro.

Ao desligar, Eduardo ficou olhando para Paula que, a seu pedido, estava parada em sua frente, esperando-o terminar a ligação.

—Problemas, Paula! Problemas! — exclamou ao encarar a secretária, mas logo perguntou: — A Natália está na sala dela?

—Creio que sim. Eu a vi indo para lá logo após a reunião.


  • Essa reunião me deixou preocupado. Não contávamos com os defeitos em série naquelas peças. Teremos um prejuízo incalculável.

  • Sem contar que isso pode dar margem à quebra de contrato.

—Além de comprometer o nome da empresa.

—Tenho anotado que, tempos atrás, em uma outra reunião, ° RH salientou a importância do treinamento do pessoal — lembrou a secretária.

—Mas treinamento específico depende da demanda da fábrica. O senhor Adalberto acha que a paralisação de uma pessoa para treinamento gera perda de investimento. Que idiotice! — lamentou, quase revoltado. — Olha só a perda agora!

—O investimento usado nesse treinamento, Eduardo, é bem menor do que o prejuízo causado por um acidente ou até um defeito em série, como foi o caso.

Ele suspirou fundo ao admitir:


  • Todos parecem enxergar isso, mas se recusam a pôr em prática. Não entendo. — Logo em seguida, disse bruscamente: — Ah! mudando de assunto... ontem jantei com a Helena num lugarzinho delicioso. — Após um sorriso maroto, contou: — Eu até a levei para casa e...

  • Nem precisa dizer — disse Paula animada. — Seus olhos estão contando tudo! E o acusam de: Culpado! — brincou sorrindo.

  • Ah, mas isso não é tudo! Quero saber da dona Natália quem a autorizou a ligar para a dona Gilda e avisar, antes de mim, sobre o que ela viu ou deixou de ver a meu respeito?

  • Eu não ia dizer não, mas... já que estamos conversando... até eu estou sabendo.

  • Como é?! — perguntou surpreso.

  • Desculpe-me, Eduardo, mas acho que você precisa saber. A Natália contou para algumas pessoas que o viu ontem num restaurante de luxo e... sabe como é, ela falou de um jeito irônico, desprezível. Disse que o viu com uma pobretona. Foi esse o termo usado.

  • Desgraçada! — exclamou ao socar a mesa. Levantándo­-se rapidamente, decidiu: — Vou falar com ela, e vai ser agora!

  • Calma, Eduardo. "A raiva é péssima conselheira." Não se deixe levar por esse impulso de revolta.

  • Mas não posso deixar isso ficar assim.

E afrouxando a gravata Eduardo saiu de sua sala indo à procura da diretora financeira.

Ao encontrá-la, sem rodeios, perguntou:



  • O que você tem a ver com a minha vida, Natália?

  • Nossa! Que susto! Poderia ao menos bater na porta antes de entrar?

—Estou aguardando uma resposta — falou austero.



  • Sobre eu ter falado que o vi ontem? Ora, Eduardo, isso não é motivo para ficar zangado. Eu só brinquei! — disse rindo.

  • Primeiro, eu não lhe devo satisfação da minha vida. Segundo, não lhe dou o direito de falar sobre mim, sobre quem estiver comigo ou sobre qualquer assunto que se refira à minha vida! — exigiu de modo autoritário. — Aqui dentro dessa empresa procure só, e unicamente, falar sobre o seu trabalho, que, diga-se de passagem, está deixando a desejar. Mas entendo que isso acontece por você estar se preocupando com a vida alheia.

  • Nossa! — exclamou novamente irônica enquanto ria. — Nunca o vi tão irritado. Será que aquela menininha tem tanto poder assim sobre você? Olha só o que uma vadiazinha aproveitadora é capaz de conseguir!

Eduardo sentiu-se esquentar. Um súbito nervoso pareceu correr por todo o seu corpo, e ele, aproximando-se dela, falou veemente:

—Se você não fosse mulher, eu a faria engolir essas palavras. Mas não sou homem de bater em mulher. Porém nada me impede de dizer que vadias são você e sua filha. — Antes de sair da sala, voltou-se e disse: — Se continuar com esse assunto, se cuida, senão não sei o que posso fazer. Sei muito sobre você.

Natália sentiu-se gelar. De alguma forma, viu-se ameaçada. Eduardo, após dizer isso, saiu a passos rápidos e firmes. Em outro corredor, ele ainda encontrou seu pai, que aguardava o elevador.

—Edu! — chamou Adalberto. — O que está acontecendo lá em casa? A Érika me ligou e disse que sua mãe está nervosa e fez o maior quebra-quebra. Ela brigou com você?! Isso aconteceu mesmo?!

—Ela não brigou comigo. Talvez por isso ela esteja demonstrando sua insanidade. A culpa por esse tipo de reação é sua — disse irritado, pegando seu caminho e deixando o pai com uma grande interrogação na expressão.

Ao entrar em sua sala, pediu à secretária, ao passar por ela:



  • Paula, não me passe nenhuma ligação. Não quero ver mais ninguém hoje. Diga que saí para almoçar.

  • Como quiser.

Procurando acalmar-se, Eduardo acomodou-se em sua confortável cadeira, respirou fundo e tentou relaxar. Após alguns segundos, pegou o telefone e ligou:

  • Miguel? E o Eduardo, tudo bem?

  • Oh! Eduardo. Tudo jóia. E você?

  • Vou indo. Estou ligando para combinar algo para esse fim de semana. Sabe, estive pensando, poderíamos ir à praia. Temos uma casa em Guarujá, o que você acha? O tempo melhorou, e acho que vai continuar firme.

  • Por mim, tudo bem. Só preciso falar com a Suzi. Ela me disse, dias atrás, que precisava estudar. Chegou o período de provas na faculdade.

  • Mas... se ela não puder, você vai, não é? — perguntou preocupado, pois sabia que se Miguel não estivesse junto provavelmente Helena não iria.

Miguel, muito esperto, entendeu rapidamente, riu e falou:

—Tudo bem, né...! Eu vou. E você fica me devendo essa. Eduardo riu e avisou:



  • Vou combinar com a Erika, o João Carlos e a Juliana. Será um fim de semana bem animado.

  • Já estou ansioso. Será uma pena se a Suzi não puder ir. Mas ela é compreensiva, não vai implicar se eu for.

  • Ótimo! Vou ligar para a Lena e avisá-la.

  • Valeu, Edu! Obrigado pelo convite.

  • Um abraço!

Em seguida, ao conversar com Helena por telefone, Eduardo percebeu sua falta de ânimo e perguntou com jeitinho:

—O que foi? Você parece triste, aconteceu alguma coisa?



  • Nada sério. São problemas com o Mauro. Depois eu conto.

  • E então? O que você acha de irmos à praia? Falei com o Miguel e ele, como sempre, está bem animado.

—Para ser sincera, não estou com tanta vontade assim.

  • Podemos levar a Bianca. Ela vai adorar — propôs ele.

  • Sim, claro.

  • Que bom! Isso significa que vamos, não é? — falou entusiasmado.

  • Está bem. Vamos — concordou ela.

  • Ótimo! Vou combinar com os outros.

  • Certo. Depois você me avisa.

  • Claro. — Então, ele tornou mais romântico: — Estou morrendo de saudade. Quero tanto vê-la. Sabia que não dormi essa noite só pensando em você?

  • Eu também não, mas...

  • Estou tão feliz, Lena — interrompeu amoroso. — Você não pode imaginar.

Ela ia comentar sobre o ocorrido, porém se inibiu diante da declaração. Percebeu que não seria um bom momento para contar o que ocorrera com Mauro.

  • Eu queria muito poder vê-la hoje, mas tenho um assunto importante para resolver em casa. Não vai ficar chateada comigo, vai?

  • Claro que não.

  • E que não posso adiar. Você entende?

  • E com sua mãe? Ela ficou sabendo? — perguntou, parecendo adivinhar do que se tratava.

  • Minha mãe implica com tudo. Com a novidade sobre nós não seria diferente. Mas não se preocupe, eu não me submeto aos seus caprichos.

  • Você me liga?

  • E claro! — afirmou carinhoso. — Como poderia dormir sem ouvir a sua voz?

  • Vou ficar esperando.

  • Um beijo. Adoro você!

  • Eu também. Tchau.

Novamente aquela sensação envolvente de paixão e esperança pareceu abraçar a ambos, trazendo a seus semblantes um brilho todo especial.


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