Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



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* * *

A noite chegou quando Eduardo, entrando em sua casa, encontrou sua tia Isabel que lá estava como visita.



  • Ah! Ei-lo! — disse Gilda com ironia, gesticulando ao apontar na direção do filho. — Estávamos mesmo falando de você, Eduardo. Eu contava para a Isabel o que você me aprontou.

  • Oi, tia! — cumprimentou-a com um beijo e logo perguntou: — E o tio, não quis vir?

  • Não deu. Ele ficou lá, analisando os seus negócios. Como você sabe, o Pedro nunca tem tempo.

  • E aí, meu filho? — tornou Gilda. — Espero que tenha voltado mais ajuizado para casa hoje. Eu estava agora mesmo contando para sua tia sobre sua insanidade. Mas, é claro — comentou menos fervorosa —, a Isabel sempre o protege e se curva às suas vontades.

  • Não é questão de proteger, Gilda. O que é que tem de mais o Eduardo namorar a Helena? E uma moça de família, muito educada...

  • Meu Deus do céu!!! Será que só eu tenho discernimento nessa família?! Vocês não percebem que aquela gente está de olho no nosso nome, no nosso patrimônio?

  • Não diga isso, Gilda. A Helena é uma ótima pessoa, gosto muito de conversar com ela, que é recatada, modesta, sempre bem-comportada...

  • Pare, por favor, com essa lista de pieguices! E ridículo não querer enxergar o óbvio!...

  • Mãe! — interrompeu-a Eduardo muito firme. — Eu não sou a Lara nem a Erika. E melhor que não tente determinar o meu destino ou declarar o que é bom para mim. Pense nisso, pois talvez eu não seja tão pacífico quanto você imagina. Não quero mais ouvir nenhum tipo de recriminação, principalmente de sua parte, que diga respeito à Helena ou à família dela. Vou trazê-la aqui, pois ela vai continuar visitando essa casa normalmente e você vai recebê-la como uma pessoa civilizada e educada, já que esse tipo de representação você sabe fazer muito bem que eu sei. — Virando-se para Isabel, que ficou boquiaberta com aquela atitude, ele pediu: — Desculpe-me, tia. Essa conversa não deveria ser agora, no momento de sua visita. Eu ia até deixar para mais tarde, porém minha mãe insistiu. Agora me dê licença, estou exausto e preciso de um bom banho para relaxar.

Gilda sentiu seu sangue ferver. Indignada e perplexa, ela acompanhou Eduardo com o olhar enquanto ele subia as escadas.

  • Você viu só, Isabel?! Meu filho! Meu próprio filho! E tudo isso por causa de uma fulaninha rampeira! Veja o que essas zinhas são capazes de fazer! Aaaah! Mas isso não vai ficar assim não! Não mesmo!

  • Gilda, por que você nunca deixa que as pessoas sigam seus próprios destinos? Por que quer sempre alterar tudo?

  • Não é isso! — disse irritada. — Estou defendendo o meu filho! Estão pensando o quê? Que meu filho vai fazer caridade namorando uma pé-rapada como essa?

  • Deus do céu! Gilda, acorda! — pediu a irmã. — O Eduardo é um homem independente, auto-suficiente em todos os sentidos. Ele deve saber o que está fazendo. É um rapaz maduro e bem experiente. Não é do tipo que se deixa enganar por uma qualquer. Deixe-o ser feliz a seu modo. Deixe seu filho viver a vida dele, aprender com os próprios erros, se for preciso. Só porque você um dia abandonou a sua felicidade, o seu amor, não significa que os outros devam fazê-lo.

—Do que você está falando?

—Você sabe, Gilda. Pense, talvez você não fosse essa pessoa tão amarga que é hoje se não tivesse posto o dinheiro acima do amor, da felicidade.

—Isabel, por favor!

As irmãs continuaram conversando enquanto Eduardo, já em seu quarto, falava ao telefone com Helena.



  • Adorei as flores! Muito obrigada! — agradecia, parecendo encantada. — Nunca recebi flores, adorei! São lindas.

  • Rosas brancas, adoro também. Pensei em lhe fazer uma surpresa, queria que fosse algo agradável e que a fizesse sorrir, pois hoje achei que você precisava de um motivo para sorrir.

—E conseguiu. Fiquei tão emocionada que perguntei ao receber: "Tem certeza de que são para mim?" — Helena riu com simplicidade, depois continuou: — Ainda bem que o Miguel passou lá para me pegar. Assim elas não correram nenhum risco de se estragarem no metrô. Quando cheguei em casa, eu as coloquei na água fresca... estão aqui, agora, na minha frente...

—Gostaria de ser essas flores para estar aí agora... Enquanto a conversa romântica seguia animada, em outro

cômodo da casa Miguel e Mauro conversavam.


  • Fiquei louco mesmo. Não sei o que me deu — confessava Mauro, mostrando-se constrangido ao falar com o irmão.

  • Até agora não entendi o que aconteceu. Puxa, cara! Se eu não estivesse ali, acho que você faria uma besteira.

  • Não sei — dizia Mauro preocupado, andando de um lado para outro. — Não entendo o que senti. Parece que não era eu. Sabe, Miguel, nos últimos tempos, na verdade desde que a Lara morreu, ando nervoso, confuso. Até no serviço já fiz bobagem. Outro dia, lá na redação, o diretor cortou meu texto. Fiquei angustiado, revoltado mesmo. Fui até a sala dele e disse um monte de coisa.

  • E ele?

  • Não disse nada. Só ficou me olhando. Em questão de minutos eu me senti ridículo, insano... Deu uma vontade de chorar, de gritar. Ele pediu que me sentasse, mandou que me trouxesse água... Nunca experimentei tanto vexame.

  • Já pensou em procurar um analista?

Mauro o encarou por um instante, depois perguntou:

  • Não seria esquisito?

  • Por quê? Se estamos com uma unha encravada não é ridículo procurarmos um dermatologista ou um podólogo para resolver o problema.

  • Mas no meu caso o problema é eu não me controlar, não dominar meu temperamento.

  • Meu! Se você tem uma úlcera, se ela dói, tem que procurar um médico! Onde está o ridículo?

Nesse momento, após leves batidas na porta, Helena chamou ao entrar:

  • Miguel!

  • Entra!

Ao olhar para Mauro, falou:

- Desculpem-me, não sabia que estavam conversando.

Não queria atrapalhar.

—Não está atrapalhando, Lena — avisou Mauro com certo constrangimento. — Pode falar.

Voltando-se para Miguel, ela avisou:

—Vamos no sábado bem cedo. O Eduardo falou com o João Carlos e a Juliana. Está tudo certo.



  • Vamos nessa, Mauro? — perguntou Miguel.

  • Para onde?

  • Para o Guarujá. Vai ser legal. Vamos?

  • Não dá...

  • Deixa a Bia ir comigo, Mauro? — pediu a irmã com certo receio.

  • Lena, não é por nada... Eu até deixaria, mas já assumi um compromisso com a Bia. Sábado acontecerá aquele encontro com os pais, naquele passeio promovido pela escola. Lembra?

  • É mesmo! Eu esqueci! — lamentou a moça.

  • Fica para outro dia, está certo?

—Se eu tivesse lembrado, deixaria para a próxima semana, mas...

—Não tem problema, Helena. Vá! Divirta-se.

—Será bom para a Bianca sair com o Mauro, Helena — lembrou Miguel. — Há tempos eles não saem juntos. Normalmente ela só passeia com você.

—É verdade — concordou Helena com um meio sorriso. — Deixa para a próxima.



* * *
Na espiritualidade, Nélio e Lara acompanhavam tudo o acontecia.

Revoltado, Nélio se acercava de Helena, observando-a com enorme rancor.

—Tu me traíste. Ficaste triste e deprimida por não me ter no passado. Dizias, sempre lamuriosa, ser eterno o teu amor por mim. Mas não é verdade. Trocaste-me impiedosamente pela primeira criatura reles que te cruzou o destino. Por dinheiro, ou talvez porque te impressionaste pelo belo porte. Admirava-te mais. Nutria mais respeito por ti do que podes imaginar. Ingrata!

Lara, que observava a cena sem se importar, permanecia indiferente, mas sempre lastimosa.

Passados alguns segundos, o espírito Nélio reparou:


  • Tu também reclamas o teu lugar ao lado dele?

  • Eu morri. Ele não me vê mais.

  • Não morreste, sabes disso.

  • Estou morrendo a cada dia, a cada hora sou esquecida. Não sou lembrada, respeitada. Não viu que meu marido já pensa em se divertir? Disse que vai deixar o passeio à praia para outro dia. Ingrato. Estou aqui numa penúria dolorosa, experimentando necessidades inúmeras, e ele... — Depois de chorar, completou: — Jamais pensei em sofrer tanto. Sempre tive o que quis. Passei por um período difícil na vida e por causa dele, mas logo me estabilizei. Fui uma moça fina, rica e com muito estudo, e me iludi por esse... Se eu o vir com outra um dia...

  • Vivi anos, séculos remoendo-me em remorsos eternos que por minha amada nutria. Agora a vejo inclinando-se de paixão pela sedução desse moço. Em pensar que tanto sofri por arrependimento. Mas creio que está iludida assim como eu no passado. Hei de tê-la comigo em breve. Ah! Hei sim.

  • Mas Helena já namorou antes. Por que não implicou com o outro e sim com meu irmão?

  • O outro? Ora, mulher! Aquele, era um imprestável. Não havia romance, desejo ou conquista. Aquele outro sujeito já nasceu agastado, ocioso por índole. Por mim, ele até poderia ficar ao lado dela por todo o tempo. Errei ao induzir Helena a terminar com ele, que não poderia me incomodar — riu zombando. — Ele era um impotente, um lasso. Mas esse não — tornou mais preocupado. — Ele pode conquistá-la. Mas estou aqui para proteger Helena até que nos encontremos novamente, e por toda a eternidade.

Lara só ouviu. Ela sentia-se cansada, desanimada demais para qualquer argumentação.

E foi com muita animação que no sábado ainda pela manhã, conforme planejaram, todos estavam aproveitando a maravilhosa praia.

Eduardo não saía de perto de Helena, que parecia até constrangida por seus carinhos constantes, por causa da presença de seu irmão.

Erika e João Carlos foram fazer uma caminhada à beira-mar, enquanto Juliana e Miguel conversavam sob um guarda-sol.



Miguel acabou comentando com a colega o que vinha acontecendo em sua família desde a morte de sua cunhada, e com muita atenção ela o ouvia.

  • Depois de tudo, no dia seguinte, meu irmão não sabia por que tinha feito tudo aquilo. Principalmente com a Lena, que não deu nenhum motivo. Ele ainda disse que parecia não ter sido ele.

  • Miguel, você acredita na influência dos espíritos em nossas vidas?

Ele ficou pensativo, demorou um pouco, mas respondeu:

  • Acredito que haja espíritos. Creio na vida após a morte, mas tenho algumas dúvidas sobre a influência deles em nós. Já li livros a respeito, romances principalmente. Só que alguns são um pouco extraordinários demais. Desculpe a minha sinceridade.

  • Não tem por que se desculpar. É bom ser honesto. Mas a verdade não está contida apenas nos romances. Acho que você deveria buscar conhecimento em outra fonte também. Os espíritos existem e podem nos influenciar mais do que você imagina. Não quero, com isso, dizer que a culpa do que fazemos de errado deve cair sobre eles.

Miguel riu descontraidamente e falou:

  • Já pensou se eu sair por aí assaltando bancos, espancando meus desafetos e, quando me prenderem, digo que foi um espírito que me dominou?

  • Não há como um espírito dominá-lo assim a seu bel-prazer. Lembre-se de que somos responsáveis por nós mesmos e pelo nosso corpo. Somos responsáveis por toda palavra, por todo gesto e por todos os atos. Se não tivermos agressividade, maldade, ódio em nossa índole, em nossa natureza humana, nenhum espírito pode nos instigar, nos estimular. O que um espírito pode fazer é primeiro manter-nos bem sensíveis, fragilizados, vulneráveis; e depois ele nos insufla, nos dá idéia do que quer que façamos. Se um espírito nos quer ver brigar, ele nos incita para que vejamos as coisas erradas à nossa volta, coisas de que não gostamos, que recriminamos. Essa idéia nos vem através de pensamentos como se fossem nossos. Mas se somos criaturas pacíficas, compreensivas, sem agressividade, sem ódio no coração, não vamos corresponder ao que o espírito quer. Isso significa ter caráter, boa índole, bom ânimo.

  • Então é simples nos livrarmos da influência de um espírito?

  • Imagine! Se fosse tão fácil o mundo viveria em paz. O problema é que somos rebeldes, veementes, agressivos, críticos, arrogantes, orgulhosos e sempre nos achamos com razão em tudo. E com qualquer gama desses vícios que citei deixamos de controlar nossos desejos, nossos impulsos e acabamos ficando sob o domínio de um espírito que nos queira controlar.

  • Um espírito pode fazer o meu carro quebrar, por exemplo?

  • Ele pode ter algum poder sobre a matéria, mas isso seria desgastante. E muito mais fácil esse espírito influenciar você em pensamento para fazê-lo se esquecer da troca dos amortecedores, de uma revisão nos freios, não procurar um mecânico para saber sobre um barulho estranho, coisas que podem provocar acidentes. Uma coisa muito fácil de ser feita por um espírito é deixá-lo distraído ou com muita raiva enquanto dirige, para que você não perceba uma sinalização, um sinal vermelho, podendo provocar um acidente e até machucar outras pessoas. Mas se você é um cara prudente, vigilante, esse tipo de coisa não vai acontecer contigo por mais que um espírito tente, pois você domina seus desejos, suas vontades, ou seja, leva o carro no mecânico, dirige devagar e com atenção...

Helena e Eduardo chegaram em busca de sombra, interrompendo a conversa de Juliana e Miguel. O assunto então mudou, e eles passaram um dia ótimo.

Entretanto, na manhã seguinte, não puderam contar com os lindos raios de sol, porém o dia nublado serviu para que conversassem muito e usufruíssem do grande conhecimento que Juliana possuía sobre o mundo dos espíritos. Ela, por sua vez, não se incomodava de ser questionada a respeito.

À noite, já em sua casa, Helena atirou-se na cama e comentou com a irmã:

—Carla, você foi boba por não ter ido. Estava tão gostoso.

—Eu não estava a fim. Ah! A Sueli esteve aqui e dormiu na sua cama. Ela estava chateada, parece que brigou com o irmão. Não sei direito, só ouvi parte da conversa dela com o Mauro. Eles conversaram tanto!

Helena parecia distante com seus pensamentos e mal ouviu o que a irmã dizia. Carla, então, reclamou e chamou:



  • Ei! Estou falando com você!

  • O quê?!

  • Ah! A tia ligou e avisou que a vó vai ter que operar a vesícula. Aí já viu, né? A mãe já ficou preocupada.

—Com razão, né! Olha a idade da vó!

—Mas isso hoje em dia é comum. A mãe se estressa à toa. Ah! Lembrei! — quase gritou Carla. — A Suzi ligou e... papo vai, papo vem, ela me deu o telefone e o endereço de uma agência de publicidade. Mas ela não quer que o Miguel saiba.



  • Por quê?

  • Acho que ela já foi lá.

—Veja lá, hein, Carla! Acho bom você dar um tempo nessas coisas, não está ganhando nada com isso.

— Vocês não entendem! É o que quero e vou conseguir. Helena fez uma expressão de descontentamento ao pender a cabeça, reprovando a idéia da irmã.


14

AS MALDADES DE GlLDA

A semana iniciava tranqüila. Na terça-feira, bem cedo, Erika procurou por seu irmão, que se arrumava para ir trabalhar.

Sobre a cama, ela saltitava de um lado para outro e falava sem parar enquanto o seguia com os olhos:

—... então ela falou: "Pode vir que o emprego é seu". Não é o máximo?! Vou ser vendedora em uma butique! — dizia entu­siasmada.



  • Estou gostando de ver! — animou-a Eduardo.

  • Só tem um problema.

  • Qual?

  • Ela quer a minha profissional.

  • E... qual o problema?

—Fiquei olhando redondo para ela... não sei o que é profissional.

Eduardo não suportou e, dando um grito, jogou-se na cama como se desmaiasse.

—Ah! Edu! Não brinca! — disse empurrando-o.

Após rir e debochar da irmã, subitamente a porta do quarto se abriu e Gilda, altiva e sempre bem vestida como se estivesse desfilando, entrou sem cumprimentar os filhos e perguntou grossei­ramente:

—Posso saber quem autorizou vocês dois a irem com aquele bando lá para a minha casa de praia?

Quando Erika respirou fundo preparando-se para responder.

Eduardo fez-lhe um sinal e, levantando-se tranqüilo, respondeu:


  • A idéia foi minha. — E virando-se para sua mãe, bem calmo, completou: — Bom-dia, mãe! Que bom vê-la disposta e animada logo cedo.

  • Não estou para brincadeiras, Eduardo. Quero uma resposta.

  • Primeiro, deixe-me corrigi-la, dona Gilda. Sua casa de praia, não. A nossa. Porque não sei se você se lembra, mas somos seus filhos, e posso dizer que também ajudei a comprar aquela casa, pois, se não me falha a memória, sua aquisição se deu há uns quatro anos. Tempo em que eu já trabalhava e contri­buía muito para os negócios da família.

  • Ora! Deixe de ironia. Não me desafie, Eduardo — exigiu a mãe, andando alguns passos.

  • Não a estou desafiando. Pare e pense, mãe. Pense em tudo o que você está criando contra você mesma.

  • Não vou admitir que pé-rapado algum usufrua do que é

meu.

  • Isso é muito elegante da sua parte — novamente ironizou Eduardo. Porém, mais sério, falou: — Tenho muito com o que me preocupar hoje. Não quero e não vou me irritar. Agora, se me der licença...

  • Quem vai nessa sou eu! — avisou Erika que não se deixou envolver na conversa, na qual, certamente, discutiria com sua mãe. A jovem estava utilizando um pouco de sabedoria graças aos conselhos recebidos de João Carlos e de sua família.

Gilda, agora dominada por uma incrível sensação de raiva, sentiu a garganta ressequida pelo ódio que crescia em seu ser. Um suor frio banhou-lhe as mãos quase trêmulas enquanto seu rosto tornava-se rubro. Haveria de dar um jeito naquela situação. Justamente Eduardo, seu filho querido, não seria arrebatado de seus domínios. Encontraria uma maneira de reverter aquilo tudo. Jamais aceitaria uma afronta como aquela sem reagir ou revidar. Já possuía razões de sobra para odiar a família que tirou sua filha Lara de seu poder; não iria permitir que o mesmo acontecesse com Eduardo. Como se não bastasse, ainda havia Erika, que maculava seu nome e posição social com o namorado que assumira.

Com esses pensamentos sombrios que lhe causticavam as idéias, Gilda retirou-se do quarto, foi para a sala e acomodou-se num sofá, pegando o telefone e ligando para Marisa, a única pessoa que parecia entendê-la.


***
Semanas se passaram, mas a mãe de Erika não conseguia deixar de pensar em uma maneira de afastá-la de João Carlos. Havia dias calado sobre o assunto, tentando tramar algo que pudesse destruir o namoro da filha, mas ainda não sabia o que fazer.

Um dia, encontrando-se com a amiga Marisa, Gilda dirigiu-se a ela e foi logo perguntando:



  • Conseguiu o endereço?

  • Claro! Aqui está — confirmou Marisa com um sorriso.

  • Ótimo!

  • O que você vai fazer, Gilda?

  • Você será testemunha, queridinha. Venha comigo e verá.

  • Mas Gilda...

—Ora essa, Marisa! Você acha que não sou sensata? Pode ficar tranqüila que não vai acontecer nada de mais. — Virando-se para o motorista, pois ambas estavam no interior do carro de Gilda, dando-lhe o papel com a anotação, pediu de maneira arrogante:

  • Leve-nos a esse endereço.

  • Sim, senhora — obedeceu prestativo.

Em pouco tempo estavam as duas amigas em frente a um edifício de três andares, cuja aparência arrojada e moderna indicava um bom gosto jovial.

Descendo vagarosamente do confortável veículo, Gilda olhou à sua volta, tirou os óculos escuros da bolsa e os colocou depois falou:

—Venha comigo, Marisa. Não quero correr riscos aqui.


  • Riscos?!

  • E. Risco de me infectar, de me envenenar — disse com ódio nas palavras, parecendo saturada. — Venha, vamos acabar logo com isso.

Ao entrarem no edifício de largas portas de vidro, as pessoas não se importaram com a presença das senhoras elegantes, cheias de delicadeza e cuidados, até porque eram funcionários ou montadores.

Com um gesto, Gilda pediu a atenção de um rapaz que trazia algumas fichas na mão e perguntou:



  • Por favor, esta é a academia do João Carlos?

  • Sim, senhora. Ele está no segundo andar — avisou indicando ao apontar e explicou: — Pode ir por ali. Tem o elevador e as escadas. Como preferirem.

  • Obrigada — agradeceu Gilda que, ao vê-lo longe, des­denhou: — Veja se sou mulher de subir escadas. Que coisa de gentalha.

Marisa somente riu, satisfazendo a amiga com sua aprovação à crítica.

Já no andar de cima, Gilda pôde observar, a certa distância, que João Carlos conversava com outros dois rapazes, explicando algo.

O soar de seus passos naquele piso ecoaram, chamando a atenção dos três.

Ao se aproximar, Gilda cumprimentou:



  • Bom-dia!

  • Olá! Bom-dia, dona Gilda. Que surpresa — retribuiu João Carlos com educada simpatia. — Perdoe por não lhe dar a mão. É que estamos montando a academia e não estou bem limpo.

  • Eu entendo — respondeu secamente, ostentando grande orgulho no olhar.

  • Ah! Esse é meu sócio, Cezar.

—Prazer — cumprimentou o moço educada e gentilmente. Gilda o contemplou de alto a baixo e só depois lhe estendeu

a mão, dizendo:

—Que olhos lindos, hein! Iguais aos meus. Aliás, você parece alguém da minha família, belo, louro, alto e forte. Você é sócio dele, é? — perguntou como se debochasse.

Muito constrangido, o rapaz olhou para João Carlos e, voltando-se para Gilda, respondeu ainda com educação:

—O João Carlos é como meu irmão. Eu não faria sociedade com outra pessoa. Agora, se me der licença... Foi um prazer conhecê-la, senhora — disse, retirando-se após um rápido aceno com a cabeça, e voltando-se para o outro rapaz que o acompanhava pediu: — Vamos ali comigo, vou mostrar onde é o lugar das esteiras.

Completamente sem jeito, João Carlos ficou a sós com Gilda e sua amiga. Mudo, ele aguardava por algum tipo de agressão, ofensa, algo que pudesse querer desonrá-lo, pois daquela mulher era só o que poderia esperar. Procurando manter a calma, ele a seguia com seus expressivos olhos negros que ocultavam qualquer sentimento.

Logo ela atacou:


  • Você deve saber o que me traz aqui.

  • Não. Ainda não tenho certeza. Se bem que imagino.

—Serei direta. Quero brevidade nesse assunto. — Diante do silêncio, ela continuou: — Quanto você quer para deixar minha filha em paz?

Sentindo um torpor abalá-lo, João Carlos custou a dominar seus sentimentos e reações. Não acreditava no que acabava de ouvir.

Mesmo assim, com atitude respeitosa, avisou:

Não é do meu conhecimento que a sua filha não tenha paz ao meu lado. E, quanto a sua oferta, vou ignorá-la. Faço de conta que não ouvi nada. Agora...

Interrompendo-o bruscamente, Gilda inquiriu: Você não se enxerga não?!

O que a senhora quer dizer com isso? — perguntou, procurando exibir tranqüilidade e ganhar tempo para pensar.

Ora, rapaz! Não se faça de besta. A Erika é uma menina tina, teve berço, tem família, educação...


  • E quer dizer que eu não tenho nada disso? A senhora está extremamente enganada, dona Gilda.

  • Você sabe do que estou falando, rapaz. Não se faça de desentendido. Você a está iludindo, está de olho na nossa posição social, no nosso patrimônio. Além do quê... — calou-se, ostentando todo seu orgulho ao examiná-lo de cima a baixo.



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