Sem Regras para Amar Eliana Machado Coelho Psicografado por Eliana Machado Coelho



Baixar 3.21 Mb.
Página9/18
Encontro15.12.2017
Tamanho3.21 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   18

  • Além de a senhora estar me ofendendo, tenho que dizer novamente que não me conhece e não sabe o que está falando.

  • Não vim aqui para discutir — decidiu irada. — Vamos direto ao assunto, novamente. Quanto você quer para deixar a Erika?

  • Não há dinheiro que valha o que me pede. Nós nos amamos, não estamos fazendo nada proibido, até porque sua filha é maior de idade e...

  • Tenho isso aqui — disse, exibindo um pacote com uma considerável quantia em dinheiro. — Verdinhas! Dólares! Sem impostos, sem passagem pela Receita... E seu se deixar minha filha hoje mesmo.

  • Suma daqui, dona Gilda. Por favor — gritou ao não suportar mais tanta ofensa.

  • Não aja estupidamente! Todo homem tem seu preço.

  • Nada paga minha dignidade, honestidade e caráter. Com licença — disse, virando-lhe as costas.

    Gilda ficou parada com o pacote de notas nas mãos. Seus olhos coléricos o seguiram enquanto um incrível nó ficou-lhe preso na garganta. Ninguém nunca lhe fizera aquilo. Desejava gritar, esbravejar por não ter se saído vitoriosa. Sem nem mesmo olhar para a amiga, que ficou em silêncio todo o tempo, Gilda procurou pela saída, que nem se lembrava mais onde era.

    Só no interior do veículo a amiga falou:



    • Ah, Gilda. Você vai me desculpar, mas tenho que dizer: Nossa! Que homem! Que vigor, que juventude! Alto, forte, bonito. Suado daquele jeito então... Eu nunca o tinha visto assim sem camisa. Lógico que não, ou lá no clube ele seria atacado. Que morenaço!

    • Cale essa boca estúpida, Marisa! — gritou Gilda com toda a força de seus pulmões.

    —Aaaai! Tá, desculpa. É que não agüentei. Nesse momento, Gilda decidiu:

    • De todo jeito vou empregar minhas verdinhas nesse sujeito. Vou acabar com a laia dele.

    • Como? — tornou Marisa.

    • Com a sua ajuda, queridinha. Com a sua ajuda. Vou precisar de outro favorzinho.

    Gilda e Marisa, durante o caminho de volta, passaram a tecer planos daquilo que poderiam fazer para separar Érika do namorado.

    O mais inferior dos sentimentos é o preconceito, o racismo, a não-aceitação de alguém por sua cor de pele, raça, naturalidade, falta de beleza e outros atributos que as pessoas julgam ser qualidades; pelo simples pensamento de recriminar alguém por sua aparência física, pela sua filosofia ou forma de pensamento, estamos não só exibindo a nossa pobreza íntima, mas também, acima de tudo, criticando Deus, o Pai da Vida, que, além de nos criar, nos deu incontáveis condições para nos apresentarmos com diferentes particularidades, distinguindo-nos uns dos outros.

    Temos essa ou aquela aparência que nos é necessária para um aprimoramento. Temos a pele clara e olhos claros não por favorecimento. Temos a pele negra e olhos escuros não por demérito ou punição de qualquer espécie. A pele clara e os olhos claros podem muito bem ser um teste para a fragilidade íntima, pois a beleza, muitas vezes, é inimiga da alma displicente. Pode exibir quanto há de orgulho em uma criatura que ainda tem muito que se harmonizar. Do mesmo modo, a pele escura e os olhos escuros podem sinalizar uma força íntima e significar que a criatura venceu suas necessidades de não mais expor-se tanto. A pele negra também pode oferecer a oportunidade para a pessoa trabalhar alguma espécie de preconceito que teve no passado, quando espezinhou pessoas por causa da raça. Uma atual encarnação como negro seria uma luta interior para vencer o complexo da sua própria cor e poder se harmonizar com sua consciência.

    Isso, indubitavelmente, são débitos e heranças de vidas passadas pela inclinação às más tendências, à palavra que ofendeu, ao pensamento que caluniou, às referências amargas que julgaram, destruíram, criticaram etc. Trazemos muitas bagagens espirituais do passado e não podemos nos julgar superiores por essa ou aquela aparência que acreditamos serem qualidades físicas.

    Se nos é ofertada a prova de lindos olhos e bela pele, isso não significa superioridade, podendo ser exatamente o contrário. Tomemos cuidados básicos para não cairmos na indigência espiritual do orgulho, da vaidade. Devemos tratar os outros, até em pensamento, como queremos ser tratados e conceituados. Não nos cabe julgar; isso é falta de controle aos impulsos preconceituosos e inferiores, ou seja, são más tendências. Ainda encarnados neste planeta, estamos longe de uma vida plena de integração, perfeição e felicidade. Infeliz daquele que, consciente, assumido ou mesmo disfarçadamente, tem opiniões preconceituosas sobre o outro. Essa certamente é uma pessoa sem integridade, sem elevação e ainda insatisfeita consigo mesma e por isso procura nos outros pequenos defeitos para não ver os seus próprios. Somos a causa e o efeito de nós mesmos, pois na qualidade de espíritos eternos certamente plantamos em nosso passado o que hoje estamos precisando rever, experimentar. Temos liberdade para escolher hoje o que no futuro queremos ser ou experimentar, equilibrando nosso corpo e nossa consciência.

    Devemos refletir muito sobre alguns fatores importantes que nos inclinam ao preconceito, incluindo aquele secreto, feito silenciosamente em nossos mais íntimos pensamentos. Ele indica quão inferiores somos e sinaliza o quanto ainda temos que aprender para evoluir.

    Deus nos ama independentemente de como nos apresentamos em aparência. E sempre somos amparados por Suas mãos misericordiosas pela pureza existente em nosso coração.

    Naquela tarde, muito amargurado, João Carlos chegou em casa com o semblante melancólico. Atirando-se no sofá, respirou fundo procurando cerrar os olhos para relaxar.

    Pelo barulho que fez ao chegar, Juliana foi ao seu encontro com animação.

    —Ah! Desculpe-me, por favor! Não pude ir hoje para ver como está ficando a academia. Chegou um cliente importante que não pude dispensar. Ele queria um projeto grande, e tive que dar toda a atenção. Mas sei que a equipe que mandei deu conta. Eles me falaram que o Cezar quer uma iluminação no jardim interno e que... — Juliana se deteve por causa da fisionomia desolada do irmão, que parecia nem ouvi-la. Logo perguntou: — O que foi, João Carlos? Cadê sua coragem?

    Imediatamente ele desabafou:

    —A dona Gilda me procurou hoje oferecendo dinheiro, em dólares, para eu me afastar da filha dela.

    Perplexa, Juliana ficou parada por alguns segundos tentando organizar suas idéias antes de manifestar qualquer expressão. Acomodando-se em outro sofá, decidiu então brincar para descontrair o irmão:

    —E você aceitou, claro! Tomara que tenha sido muita grana, porque a Erika é maior de idade e vocês poderão fazer muitas coisas juntos.

    João Carlos sorriu, mas logo anuviou seu semblante outra vez, quando admitiu:


    • Estou tão magoado. Decepcionado...

    • Com o quê?!

    • Com tudo isso, Juliana.

    • Ora, João Carlos, não se permita uma tristeza que tenha sido provocada por alguém tão pobre de espírito. Tenha piedade de uma pessoa como essa. Os lindos olhos azuis que a dona Gilda tem ficarão para os bichinhos comerem quando ela partir desse mundo. Vamos pensar que temos algo para harmonizar e nos despojarmos do orgulho, só que, para isso, não precisamos adquirir outros débitos, como nos magoar ou ofender alguém que tenha nos magoado. Por essa razão, não vamos cultivar nenhum ódio, nenhum rancor, muito menos o desejo de vê-la na penúria, experimentando o que faz aos outros. Não vamos gerar em nós essas vibrações tão inferiores.

    • Não, não estou pensando nada disso. Sei que pessoas como ela serão vítimas de si mesmas. Não serei eu a desejar vingança. Longe de mim. Só fiquei magoado com a situação, não queria passar por tudo isso.

    • E a Erika? Você contou para ela?

    • Não. Nem falei com ela hoje.

    • Então, se puder, não diga nada — aconselhou a irmã. — Ela não precisa ficar mais magoada ainda com a mãe.

    • Gostaria de que você conversasse mais com ela. Percebo que a Erika ouve e aceita bem o que vem de você.

    Juliana ofereceu um generoso e agradável sorriso ao admitir:

    • Gosto muito dela. Vejo que ela mudou muito de uns tempos para cá. Mudou para melhor, está menos criança, mais responsável, preocupada com a vida. Observo que não briga mais com a mãe; está conseguindo ignorar as implicâncias da dona Gilda.

    • A Erika tem um bom coração e aprende rápido. Tem uma alma generosa, só não aprendeu antes porque ninguém a ensinou.

    • Ela é inteligente. Mas... mudando de assunto, o Miguel me telefonou hoje para dizer que já leu aquele livro que emprestei e nos chamou para sair nesse fim de semana. O que acha?

    • Ah... acho que estarei tão cansado. Tenho só mais essa semana para montar tudo antes da inauguração, que já está marcada, lembra?

    Juliana olhou-o com certa melancolia ao dizer:

    • Vou ligar para ele avisando que não vai dar.

    • O que foi? Ficou esquisita de repente.

    • Eu?! Ora... — Em seguida, falou: — Ah! Lembrei. Outro dia, quando fui lá na casa deles, comecei a falar sobre Espiritismo e a dona Júlia ficou me olhando de modo estranho, mas não disse nada. Achei até que ficou muito curiosa. O Eduardo também ajudou quando contou o que a sua secretária falou sobre fazer o Evangelho no Lar. Quanto a isso ela pareceu gostar da idéia, pois entendeu que é simplesmente ler e comentar, no lar, os ensinamentos de Jesus.

    —Ela falou com você sobre a Suzi? — perguntou o irmão.

    A. dona Júlia não é de conversa, mas outro dia, sem querer,

    ela reclamou da moça para mim. Achei estranho ela vir falar disso justo comigo.


    • Percebi que ela não gosta muito da moça. A princípio pensei que fosse ciúme do filho, mas depois, quando conversei com a Suzi, notei que tem algo de errado com ela.

    • O quê? — perguntou ele, curioso.

    • As atitudes da Suzi, o jeito meio desconfiado, camuflado como um disfarce, e aqueles modos muito certinhos. Uma pose para cada coisa, um olhar sempre meigo, um sorriso treinado. Ela nunca se mostra à vontade, espontânea. Nunca perde a compostura.

    • Juliaaaana...!

    • E sim! Tem algo estranho com ela e parece que o Miguel está encantado e não enxerga.

    • Juliana, você está com ciúme do Miguel? — perguntou subitamente.

    A irmã pareceu ter perdido o fôlego, mas logo dissimulou:

    —Ora, João Carlos! O que é isso? O Miguel é só um grande amigo, nós nos damos bem, conversamos muito, nada mais. Gosto dele como de outro amigo qualquer.

    Levantando-se, Juliana reclamou enquanto saía da sala:

    —Só essa que me faltava. Veja só!


    ***
    Dois dias depois dos últimos acontecimentos, João Carlos chegou na academia que estava montando e se surpreendeu ao ver, em frente à porta principal, viaturas da polícia. Preocupado, estacionou o carro e desceu rapidamente para ver o que estava acontecendo.

    Cezar foi ao seu encontro adiantando as novidades. João Carlos, fomos roubados durante a madrugada! O quê?! — quase gritou.

    Simplesmente estacionaram um caminhão aqui,

    desativaram os alarmes e levaram todo o equipamento que já havia sido entregue.

    João Carlos, em choque, foi correndo em direção à porta de entrada, mas o amigo o segurou dizendo:


    • O pior é que espalharam lá no primeiro andar um pó branco que a polícia está recolhendo achando que é droga. Estão tirando fotos porque nas paredes e em alguns espelhos está escrito algo sobre dívida de drogas.

    • Você está brincando? Isso é loucura! — falou nervoso ao correr para dentro do estabelecimento.

    Olhando ao redor, João Carlos certificou-se de que a bagunça era geral. O que não levaram, quebraram e espalharam por todas as salas, como plantas, espelhos e terra.

    No primeiro andar, onde espalharam certa quantidade de pó branco, havia os seguintes dizeres: "João Carlos não pagou, não vai usar, por isso espalhamos" e "Se não pagar o que comprou, voltaremos".



    • Não! Não pode ser! — gritou inconformado. — Ninguém viu quem fez isso? Nenhum vizinho?

    • O segurança da firma ao lado viu, mas pensou que estava chegando algum equipamento. Ele disse que foi por volta das quatro e meia ou cinco da manhã e que tudo foi muito rápido.

    • Vocês têm seguro? — perguntou um policial que se aproximou.

    • Ainda não. Iríamos fazer o seguro depois de tudo montado. E preciso que seja assim para avaliarem — explicou Cezar.

    • Vocês poderiam nos acompanhar até a delegacia, por gentileza? — pediu outro policial.

    Perplexos e incrédulos, os dois sócios sentiram-se enfraquecidos depois de tão rude golpe em seus sonhos, em seus esforços árduos, não lhes restando mais nada a não ser acompanhar os policiais para as devidas providências.


    15

    Desarmonia entre irmãos

    Bem mais tarde, longe da cena que fragilizou a todos, Gilda e sua amiga conversavam alegres e satisfeitas.



    • Marisa, minha querida, fico imaginando aquele lindo moreno com lágrimas nos olhos. E de comover — gargalhou, debochando. — Decididamente a vida está a meu favor. Viu? Encontramos rapidinho quem fizesse o serviço, e isso aconteceu mais depressa do que eu pensava. O que o dinheiro não faz, hein?

    • Também, você foi louca em ter oferecido tudo aquilo.

    • Mas, cá pra nós, o tal João Carlos foi um trouxa; bem que podia ter aceitado o que ofereci. Não teria nenhum prejuízo e ainda ficaria com uma boa graninha. Mas isso foi bom pra mim. Na verdade, gastei bem menos.

    • Jura?! — admirou-se Marisa.

    Após uma gargalhada impiedosa, Gilda continuou:

    • Agora quero ver a minha doce e bela Erika dizer que ele é bom, honesto, isso e aquilo. Com aquela droga lá na academia, ela vai parar para pensar.

    • Mas, Gilda, a droga só foi jogada na academia, não há provas concretas contra o moço.

    Não há no momento, mas é o suficiente, por enquanto, para que todo mundo fique de olho nele. — Levantando-se e caminhando vagarosamente pela sala, falou como se planejasse: ~ Posso providenciar uma acusação melhor, mais convincente.

    • Você é fogo, hein? Quando quer uma coisa...

    • Não brinque comigo, queridinha. Pode me odiar, mas seja minha amiga ou será infeliz pelo resto de seus dias. Agora vamos ter que dar um jeito naquela rampeira da Helena. Se esta suburbana pensa que vai levar meu filho de bandeja, está muito enganada.

    • Qual seu plano para ela?

    • Ainda estou vendo. Mas com ela tenho certeza de que vai ser mais fácil. — Após rir, falou: — Pelo menos vai ser mais barato. Porém, Marisa, temos que tomar cuidado com o Eduardo. Ele não pode desconfiar.

    • Então comece a ser boazinha com a moça. Trate-a bem. Se fizer assim, ninguém vai desconfiar.

    • E eu já não comecei?! Claro, meu bem, pensa que sou boba? O dia em que soube que usaram minha casa de praia foi o último que briguei com meu filho por causa dessa zinha. Senti que ele pode se voltar contra mim, e isso eu não vou deixar acontecer.

    • Para não ser odiada pelo Edu, você terá que ser bem sensata, gentil e tecer um plano perfeito.

    • Até já sei o que vou fazer. — anunciou agora com os olhos brilhantes. — Bem, acontece que já faz alguns dias não venho mais falando no nome da Helena nem no tal professor de Educação Física. Todos devem estar pensando que eu me acostumei com a idéia. Agora o ideal seria eu me aproximar um pouco mais da Helena, tratá-la bem e me tornar uma pessoa à prova de qualquer suspeita. Serei amável e gentil. — Depois de rir, completou: — Serei sua amiguinha, alguém em quem ela confie, de quem goste. Não serei verdadeira como sempre sou quando digo o que penso, tampouco exigente. Quer saber, Marisa? Vou chamá-la de querida e de meu bem. Sabe quando você se dirige a alguém dizendo com jeitinho amável "Oi, meu bem! Oh, querida, por favor..." ou então "Tchau, meu bem", a pessoa se curva com o ego repleto de satisfação por ser tratada assim. Essa é uma forma de mascararmos nossas verdadeiras intenções. Preciso ser cautelosa, pois notei que meu filho fica balançado por ela, e isso nunca vi ele sentir por mulher alguma. Primeiro, vamos ao plano do meu bem e do queridinha; ninguém pode suspeitar.

    —Isso funciona mesmo. Aprendi com você, Gilda.

    —Tenho certeza de que essa menininha vai cair feito um gatinho mimado aos meus pés. Aí sim será o momento de enxotá-la daqui, sem que meu filho perceba. E quer saber? Será ela quem vai sair correndo.

    —O Edu tem que ficar do seu lado, hein!

    —Claro. Se meus planos derem certo, vou sair correndo atrás dela pedindo para que volte para ele, você vai ver.

    —Ai, Gilda! Sinto até uma coisa...! Uma sensação excitante.

    —Precisamos experimentar diversos tipos de sensações e emoções enquanto estamos vivas, queridinha, pois assim a vida fica mais saborosa. Ainda vamos rir muito de tudo isso. Gosto do meu poder, do meu dinheiro que a tudo compra, faz e acontece. Gosto mais ainda da minha inteligência, da minha perspicácia, do meu espírito sagaz. Aguarde! Quem viver, verá!


    ***
    Na casa de dona Júlia, Juliana, Helena e Eduardo reuniam-se na sala, conversando um pouco.

    • ... de lá pra cá ele está arrasado. Quase não sai, pouco conversa. A Erika está lá em casa agora com ele, mas o João Carlos está desanimado até com ela — comentava Juliana.

    • E a polícia? Ninguém diz nada? Não tem nenhuma pista? — preocupou-se Helena.

    Dizem que estão fazendo investigações, mas até agora

    nada.


    Eduardo, que até então só ouvia, lembrou:

    O estranho em tudo isso é o fato de terem escrito aquilo a nos espelhos e nas paredes. Parece que foi gente que conhecia ° João Carlos e queria prejudicá-lo.

    Juliana abaixou a cabeça e não disse nada. Em seu íntimo a moça desconfiava de que aquilo tudo realmente poderia ter sido por vingança. E tinha fortes suspeitas que apontavam para Gilda, a mãe de Eduardo, pelo fato de seu irmão não ter aceitado o dinheiro para se afastar de Erika.

    E claro que Eduardo não desconfiava de sua mãe. Nem poderia.

    Nesse instante, Sueli, que até então estava no quarto com Carla e Suzi, chegou na sala e, sem que os demais percebessem, fez um gesto rápido para Helena, chamando-a para que conversassem.

    A amiga pediu licença e foi ver o que Sueli queria. Já dis­tante da sala, perguntou:



    • O que foi, Sueli?

    • Olha, se vocês não ficarem ligados, a Carla vai acabar se dando mal. Ela não larga a Suzi, e isso não me cheira nada bem.

    Dona Júlia se aproximou interrompendo a conversa sem perceber.

    • Helena, pega o refrigerante lá para mim, filha.

    • Depois eu falo — sussurrou Sueli.

    Sem entender, Helena não deu muita importância. Talvez Sueli estivesse com ciúme da amizade entre Suzi e Carla, pois agora ambas quase não paravam de conversar.

    Bem depois, todos se reuniam para um lanche preparado por dona Júlia e conversavam animados.

    —Ei, Suzi — avisou Eduardo querendo puxar conversa com a moça que quase não falava —, o Miguel falou onde seus pais moram e conheço aquela cidade.

    —O pai dela é banqueiro lá — disse Miguel sem pretensões. Parecendo tímida, Suzi argumentou em baixo tom de voz:

    —É um banco pequeno. Um banco particular que faz empréstimos ao setor agropecuário da região. Quem vê o Miguel falar assim... — desfechou sorrindo.

    Miguel abraçou-a com carinho, beijando-a rápido.

    Suzi era uma jovem muito bonita. Tinha longos cabelos lisos, pesados, loiros e de um brilho intenso. Seus olhos verdes eram bem atraentes, principalmente pelos cílios longos que os contornavam. Sua pele sedosa e alva fazia um bonito contraste com a boca bem-feita e o sorriso generoso.

    A cada dia Miguel parecia mais apaixonado, encantado pela namorada de personalidade tranqüila e recatada.

    Eduardo, após ouvir a moça, ficou pensativo e quase preocupado. Pensou em perguntar algo, mas Helena atraiu sua atenção quando o tocou no ombro ao pedir:

    —Diga para a Bia que a peça teatral não é infantil. Que ela não vai gostar.

    Aturdido pela rápida troca de assunto, ele quase gaguejou ao explicar:

    —É, é sim. A tia Lena tem razão.



    • Mas eu queria ir — falou com jeito mimado, fazendo biquinho.

    • Prometo que a levo num outro dia, quando estiver passando uma peça infantil. Dessa você não vai gostar e acho que nem pode entrar — explicou Helena novamente.

    • E não pode entrar mesmo — tornou Eduardo, que, se voltando para a namorada, pediu: — Vamos, senão chegaremos atrasados.

    • Bia! — chamou Sueli animada. — Fica comigo que eu trouxe um quebra-cabeça pra gente montar.

    • Oba! — alegrou-se a garotinha, que desceu às pressas do colo da tia e foi na direção de Sueli. — Você vai dormir aqui hoje de novo?

    —Acho que sim.

    • Então você não vai mesmo ao teatro, Sueli? — perguntou Helena.

    • Não. Obrigada. Se a dona Júlia deixar, vou ficar por aqui. Aliás, acho que vocês já me adotaram, pelo menos nos finais de semana.

    Então vamos? — pediu Eduardo apressado.
    ***
    Sueli já estava de bruços no tapete do quarto com Bianca, montando o brinquedo, quando Mauro entrou e ficou observando-as.

    Bianca, depois de algum tempo, começou a ficar sonolenta, e Sueli e Mauro começaram a conversar.

    —Meu irmão está fanático por estudo. Não dá pra ficar perto dele. É um tédio.


    • Todos os japoneses e descendentes gostam de estudar.

    • Então sou uma exceção — brincou ao rir com gosto.

    • Pensei que fosse com os outros ao teatro.

    • Não estou com tanto ânimo. Acho que tédio é contagioso. Cuidado.

    • Não me fale em tédio nem em falta de ânimo. Nos últimos tempos...

    • A Bia dormiu... fadinha... — disse Sueli quase sussurrando ao ver a menina debruçada sobre os braços. — Vou levá-la para a cama.

    Cuidadosa, Sueli tomou Bianca em seus braços e a co­locou jeitosamente sobre a cama, cobrindo-a após tirar suas sandálias.

    —Vamos lá pra fora? — sugeriu Mauro.

    Já na área que ficava na frente da casa eles se acomodaram nas cadeiras em meio a algumas plantas viçosas.

    —O que você ia dizendo, Mauro?

    —Ah! Sim... que nos últimos tempos está sendo difícil para mim por causa de um tipo de tédio, uma espécie de depressão...

    —É que tudo aconteceu bem rápido na sua vida.

    —Foi mesmo. Eu acordei e o que seria um dia de festa acabou sendo um dia de pesadelo. Pesadelo que dura até hoje.

    —Você já vendeu a casa?

    —Por incrível que pareça, ainda não. Baixei até o preço e... nada. Quanto à escola que foi da Lara, estamos em negociação. Uma das professoras está interessada e pretende fazer um financiamento.

    Próximo a Mauro, naquele momento, Lara, na espiritualidade, chorava dizendo:

    —Você quer me esquecer. Quer vender as coisas para não se lembrar mais de mim.

    Sentindo um nó na garganta, Mauro tinha os olhos brilhando pelas lágrimas que quase rolaram. Com voz embargada, falou:



    • Já pensei em tanta loucura. Se não fosse minha filha...

    • Você é jovem, Mauro. Tem muito pela frente.

    • É que sinto uma coisa. Uma dor no peito... Eu lhe disse outro dia sobre aquele desespero, aquela vontade de chorar, de gritar, de quebrar tudo... Isso me dá sempre.

    Lara, agora abraçada a ele, recostando sua cabeça em seu ombro, lamentava:

    • E eu na penúria, nesse sofrimento sem fim. Angustiada por ter acreditado em minha mãe. Ela é a culpada por tudo isso. Eu estaria ao seu lado se não fosse por minha mãe.

    • Sueli, como é triste perder alguém. Eu não imaginava quanto necessitaria de forças para continuar a viver. Há dias em que me desequilibro. Acabo descontando nas minhas irmãs a revolta que sinto. Nem com minha filha tenho a paciência que deveria. Você deve estar sabendo que já bati na Carla, que tentei agredir até a Lena...

    • Mauro, estive conversando muito com a Juliana a respeito da vida após a morte. Não entendo muito, aliás não entendo nada, mas será que a Lara não está ainda apegada a você em vez de seguir o caminho que deveria?

    Mauro ficou pensativo enquanto Lara, furiosamente, atirou-se sobre Sueli como se quisesse atacá-la. Investida sobre a moça, Lara segurou no seu pescoço como se quisesse enforcá-la.

    —Desgraçada! — gritava o espírito Lara. — Você quer me ver longe! Infeliz! Eu a odeio! Odeio!

    Sem imaginar o que acontecia na espiritualidade, Sueli sentiu algo estranho e empalideceu quando disse:

    Nossa! Acho que minha pressão caiu.

    Mauro, prestativo, levantou-se rápido e, ao seu lado, tocando-lhe o braço, perguntou:

    —Você está branca... Está bem?

    Desculpe-me — disse a moça sem graça. — Fiquei tonta de repente e meus ouvidos estão esquisitos. Mas não deve ser nada.


    • Quer que eu pegue um pouco d'água pra você?

    • Não, Mauro — disse gentilmente. — Não é nada. Vai passar.

    Voltando à sua cadeira, Mauro falou:

    • Será que minha mulher, após sua morte, não teve ajuda? É possível ela estar entre nós? Você acredita nisso?

    • Acredito sim. A própria Bianca disse tê-la visto chorando várias vezes perto de você.

    • Agora, com a cabeça mais fria, lembro que todas as vezes que perdi o controle e fiz o que fiz a Bia havia dito que viu a Lara junto de mim. Sabe, pensei que fosse coisa de criança, para chamar a atenção, entende?

    • Adoro as conversas que tenho com a Juliana — comentou Sueli. — Lamento tanto quando não a encontro aqui. Estou pensando em ir a um centro espírita, como ela diz, um centro espírita sério que fale sobre o Evangelho de Jesus nas palestras e ensine sobre a vida após a morte.

    • A Juliana fala sobre umas coisas interessantes. Gosto quando ela explica sobre aquelas coisas da gente ter que harmonizar o que fazemos de errado.

    • Chama-se Lei de Causa e Efeito — lembrou a moça.

    • Isso mesmo! Gosto de ouvir sobre isso. Somente essa tal lei pode explicar a vida que levamos, os sofrimentos que experimentamos.

    • Se eu for, você vai comigo a um centro espírita? — ela convidou.

    • Não!!! — gritou o espírito Lara, que novamente tentava algo contra a moça.

    Porém, naquele instante, algo aconteceu que impressionou Lara incrivelmente. Ela passou a ver uma luz mesclada com fumaça que parecia paralisá-la, sem conseguir identificar o que era.

    Tamanha surpresa a intimidou, fazendo com que recuasse. Lara acuou-se a um canto, e em seus pensamentos vinham frases vivas como "Afasta-te. Não vais poder mais nada contra eles. Teve a tua oportunidade de socorro e a recusou. Agora estás só. O máximo e o melhor que podes fazer por ti mesma é acompanha­los e aprender com o que eles vão ouvir." Amedrontada, ela aquietou-se sem chorar e testemunhou Mauro dizer animado:



    • Vou, vou com você, sim. Quem sabe consigo trabalhar esse meu lado hostil que vem despertando incontrolavelmente. Acho que essas palestras podem me ajudar a mudar os pensamentos, as atitudes. Conte comigo.

    • Ah! Que legal! Eu estava louca para arrumar companhia. Sim, porque a Lena agora, por causa do namoro com o Edu, nem lembra que tem uma amiga.

    • Vou lhe fazer companhia. Conte comigo, Sueli! — repetiu com alegria espontânea.

    • Vou pegar com a Juliana o endereço e o horário que podemos ir. Tomara que tenha aos finais de semana. Assim arrumo alguma coisa para fazer nesses dias.

    —Será bom para mim também.

    A conversa entre eles seguiu por bastante tempo, só que agora mais animada. Coisas corriqueiras foram lembradas, alegrando e dando mais vida a Mauro, que passou a dar gargalhadas ao ouvir os casos pitorescos que Sueli contava com seu jeito engraçado.

    Lara, ainda muito nervosa, assustou-se ao ver Nélio chegar e a intimar:

    —Levanta-te, mulher! Por que diabos estás aí acuada?

    —Aconteceu algo estranho — explicou timidamente. — Eu vi uma coisa que não sei explicar. Algo que me impressionou, me dominou como se tirasse minhas forças. Não pude mais continuar com o que fazia e comecei a pensar em certas coisas...

    Desconfiado, o espírito Nélio a olhou com preocupação e avisou:

    Um dos dois tem proteção. Sei do que tu falas. É bom nao te envolver com eles ou vão te imprimir idéias, vais começar a te sentir culpada, poderás até ver coisas de um passado distante. Isso não é bom.

    Mas como não ficar perto do meu marido? Primeiro ajuda-me. Preciso de ti. Depois veremos o que fazer com os teus.



    • Ele confessou que andou pensando em alguma loucura. Acho que pensou em se matar. — Com olhar perdido, a pobre Lara sorriu ao dizer: — Se assim fizesse, ficaria comigo eternamente. Poderei ter Mauro novamente ao meu lado.

    • Venha, mulher! — exigiu Nélio. — Não podemos demorar!

    Em fração de segundos, Nélio e Lara encontraram Helena, Eduardo, Miguel e Suzi, que acabavam de sair do teatro e estavam no estacionamento pegando seus carros.

    —O que vocês acham de irmos a um barzinho? — propôs Eduardo. — Um lugar tranqüilo onde dê para conversar, trocar idéia...

    Abraçado à namorada, Miguel avisou:

    —Temos outros planos. Vão vocês.

    Após se despedirem, Miguel e Suzi já estavam no interior do veículo, quando a moça admitiu:


    • Não gosto muito do Eduardo.

    • Ora, por quê, Suzi? — surpreendeu-se o namorado. — Ele é um cara tão bacana. Não tenho nada contra ele.

    • Também não tenho nada contra ele. Ou melhor, não tenho nada para apontar favoravelmente no momento. Mas, sabe, ele parece querer esconder um lado arrogante, orgulhoso.

    • Ah, meu bem, você terá outra opinião quando conhecê-lo melhor. Ele é uma ótima pessoa.

    • Você não se importa se não sairmos mais com eles, não é? — pediu com mimos.

    • Sério?

    • Desculpe-me, eu...

    • Tudo bem, se você se sente desconfortável, não tem problemas. Sairemos só nós dois — disse, beijando-a rapi­damente.

    • Vamos mudar de assunto? — propôs a bela jovem bem mais animada agora. — Você foi lá ver o apartamento de que me falou?

    • Fui, sim. Bem, eu queria fazer surpresa, mas... não consigo.

    • Ah! Conta! Estou ansiosa.

    • Já pedi o contrato para analisar. Vou procurar um amigo que é advogado e pedir que dê uma olhada antes que eu assine. Já fiz o pedido das certidões negativas...

    • Ah! Que legal! Eu o amo, Miguel!

    • Ficou feliz?!

    • Lógico! Como não poderia? — exclamou a moça, eufórica.

    • Amanhã passamos lá para você dar uma olhada. Acho que vai gostar.

    • Tenho certeza de que vou — afirmou com grande alegria.

    • Se der certo, podemos até começar a pensar em uma data para o casamento.

    Suzi calou-se boquiaberta e logo o abraçou e o beijou muito.

    Longe dali, Eduardo e Helena estavam em um barzinho. Conversavam enquanto trocavam gestos de carinho e olhar terno.

    Irritado, o espírito Nélio os rodeava sendo observado por Lara, que o acompanhava também.

    Ela não se importava em saber que Eduardo era odiado por Nélio, primeiro por achar que o irmão não lhe dera a devida atenção quando o procurou para falar sobre seu marido e as dúvidas que tinha, depois porque Nélio prometera ajudá-la com Mauro.

    — Desgraçado!!! Afasta-te dela! — gritava Nélio.

    O casal não podia ouvi-lo, muito menos percebê-lo, mas Nélio não desistia.

    Não és digno, desgraçado — vociferava o espírito envolto em desejos sombrios, deixando Eduardo sob a mira de seu olhar odioso.

    Eduardo começou a se incomodar com o lugar. Até o que pediram para comer parecia não estar a seu gosto. Esperava canapés melhores — reclamou. Pra mim estão bons — afirmou Helena.

    Tocando-lhe o rosto com carinho, Eduardo afagou-lhe os cabelos ao pedir:


    • Vamos sair daqui?

    • Mal acabamos de chegar! — estranhou a jovem, sorrindo. — Você está bem? — preocupou-se.

    • Estou, mas é que... gostaria de ir embora.

    • Está falando sério?

    • Se você não se importar.

    • Então vamos — concordou a jovem.

    Após pagar a conta, Eduardo passou-lhe o braço sobre o ombro para que saíssem dali. Chegando ao estacionamento, eles trocaram beijos e carinhos, até que ele propôs:

    —Vamos para um lugar tranqüilo?

    Nélio, que os acompanhava, estava inquieto, quase alucinado, tamanho era o seu ódio.

    Esbravejando, xingando, ele esmurrava Eduardo, mesmo sabendo que não poderia ser percebido.

    Helena, parecendo surpresa com o convite, hesitou e murmurou indecisa:

    —Não sei, Edu. Talvez não seja o momento. Envolvendo-a num abraço, depois de beijá-la, sussurrou

    amoroso:

    —Precisamos de um lugar tranqüilo, só nós dois... eu a amo tanto.

    —Eu sei, também o amo, mas é que...

    —Tomo cuidado, toda precaução, não haverá problemas. Não terá com que se preocupar.

    O espírito Nélio, enfurecido, vociferou para Lara:

    —És tu que poderás fazer algo. Abraça-te a ela.

    Lara obedeceu, e Nélio prosseguiu mais brando, fazendo-a recordar:

    —Lembra-te de quanto gostaria de estar com teu esposo? Tu o amas e queria muito o carinho, o abraço de que agora carece. Tu careces de amor, Lara. — Enquanto falava, Nélio sugeria imagens nos pensamentos de Lara, que começou a se lembrar do marido: — Veja quanto te sentes pequena, pois teus sonhos acalentados agora não passam de dolorosos pesadelos. Estás só, insegura e abandonada. Não tens amor nem paz; não descansas e só sofres. — Lara chorava, e Nélio prosseguiu, sempre sugerindo lembranças: — Vives com medo, nem podes mais tocar a filha querida, não podes dispensar teus cuidados à pequenina e pensas no quanto sofrerás caso teu marido, carente de amor, a substitua por outra.

    Lara, por não ter opinião firme nem fé, abraçada a Helena chorava compulsivamente.

    Helena, após alguns minutos recebendo aquelas vibrações, afastando o namorado de si, pediu firmemente como se repudiasse seus beijos e carinhos:

    —Pare, Eduardo! Por favor.

    Surpreso, praticamente assustado, perguntou com voz branda:

    —O que foi?

    Helena, agora chorando, secava as lágrimas que rolaram por sua face.

    Aproximando-se novamente da namorada, ele acariciou seu rosto com cuidado, dizendo:

    —Desculpe-me, eu...

    —Não é culpa sua — respondeu com voz ainda embargada e chorosa.

    Carinhoso, Eduardo perguntou:

    —O que foi? Por que reagiu assim, hã?

    Helena escondia o rosto por entre os cabelos quando ele a puxou para si e abraçou-a meigamente ao pedir:



    • Não chore. Desculpe-me por tê-la pressionado. Eu não deveria.

    • Vamos embora — pediu com a voz abafada pelo abraço, escondendo o rosto em seu peito.

    • Claro. Vamos sim. — Curvando-se para olhá-la, ele ainda perguntou: — Você está bem?

    —Estou. Desculpe-me por isso.

    —Lena, por favor, me perdoa. Eu... — tentou pedir desculpas enquanto a abraçava de novo contra si.



    • Você não tem por que pedir desculpas. Sou eu que talvez esteja acostumada a impor limites. Mas é que eu não queria que fosse assim. Sempre tive planos... sonhos... Sei lá, acho que toda moça os tem.

    • Então me desculpa. Fui muito precipitado — reconheceu, arrependido.

    • Tudo bem. Mas, se você não se importa, gostaria de ir embora.

    • Claro. Vamos sim — disse agora forçando um sorriso e beijando-lhe rapidamente o rosto antes de se acomodar melhor para irem embora.

    No caminho para casa, eles conversavam descontraídos sem mais nenhum comentário sobre o ocorrido.

    Nélio, irritado, os acompanhava com Lara, que, chorosa, sentia ainda um grande sofrimento por suas lembranças.

    Ao chegarem, Eduardo e Helena decidiram não entrar, preferindo ficar na área sem serem vistos, pois a iluminação da rua era bem fraca onde as plantas sombreavam.

    Após algum tempo, Miguel os surpreendeu ao se aproximar.



    • Ai! Que susto, Miguel — reclamou a irmã. — Não faça mais isso!

    • Puxa, fiz o maior barulho. Coloquei o carro na garagem, fechei o portão, fui tentar entrar pelos fundos, mas a porta estava trancada com ferrolho. Então tive que voltar.

    • Você chegou cedo, hein — reparou a irmã.

    • E que vou levantar cedo. Prometi à Suzi levá-la para ver o apartamento. Queremos ir bem cedo para sobrar tempo à tarde.

    • Está pensando em casamento, Miguel? — perguntou Eduardo.

    • Estou mesmo. E se prepare para ser o padrinho!

    • Opa! Gostei da idéia. Nunca subi em um altar.

    • Ainda bem, né, Edu? — falou Helena.

    • Então... Até amanhã! — decidiu Miguel.

    • Até! — respondeu Eduardo.

    Vendo-se novamente a sós com Helena, Eduardo também resolveu:

    - Bem, já está tarde. Preciso ir.

    - Amanhã você almoça aqui com a gente?

    - Eu estava pensando em levá-la para almoçar lá em casa.

    Eu viria pegá-la bem cedo com a Bianca. Ela gosta de brincar lá, mesmo que não esteja bom para pegar uma piscina. Apesar de que, amanhã, acho que o dia estará bom.

    —Ah, Edu... e a sua mãe? — preocupou-se Helena.

    —Sabe, eu a percebo mais calma ultimamente. Acho que se acostumou com a idéia. Não disse mais nada e só fica perguntando da Bianca e reclamando pelo fato do Mauro não deixar o motorista vir buscá-la. Acho que a solidão está dando um jeito na dona Gilda. — A seguir, propôs: — Então fica assim, venho pegá-las, está bem?

    Não querendo decepcioná-lo mais uma vez, Helena sorriu e aceitou.



    • Tudo bem. A Bia vai adorar.

    • Ótimo!

    Eles ainda ficaram por mais alguns minutos se despedindo, mas logo, porém, Helena entrou. Um barulho na cozinha a atraiu e, ao encontrar Miguel, ela perguntou brincando:

    • Então você é o assaltante da geladeira?

    • Não me denuncie e dividirei o produto do furto com

    você.

    —Não, obrigada. Só quero água.



    • Falando em furto, até agora estou chocado com o que aconteceu na academia do João Carlos — admirou-se Miguel.

    • O pior é que ele havia agendado a seguradora para ir lá três dias após o furto.

    E pensar que, por causa de três dias, ele ficou sem seguro e sem nada...

    A Juliana disse que ele está arrasado.

    Amanhã à tarde vou dar uma passadinha lá para falar com ele. Isto é, se a Suzi quiser.

    Você não acha que a Suzi se isola um pouco? — comentou a irmã com simplicidade.

    Miguel repentinamente se sentiu estremecer. Ele, por algum motivo, não gostou do que ouviu.

    Havia tempo que na espiritualidade Nélio se acercava de Miguel, passando-lhe opiniões em forma de pensamentos para que recriminasse a irmã pelo namoro com Eduardo. Nélio sabia que Helena era bem apegada ao irmão e que talvez se deixasse influenciar por suas opiniões.

    Helena continuava falando sem querer ofender Suzi ou Miguel.

    —... e ela sempre se tranca lá no quarto com a Carla e, quando a gente chega, fica quieta, não se envolve na conversa, não participa de nada...

    —Ei! Qual é, Helena?

    Surpresa, a irmã silenciou, acreditando ter falado demais.

    —Bem, desculpe-me. Não tive a intenção de...


    • Não teve a intenção, mas não parou de falar. Puxa, nunca reclamei do Eduardo, nunca procurei seus defeitos ou coisa assim. Já basta a mãe ficar falando o tempo todo.

    • Tá bem, Miguel. Já pedi desculpa — falou Helena enquanto saía da cozinha, quando ouviu:

    —Acho bom você tomar cuidado.

    —Cuidado com o quê? — perguntou, voltando-se para o irmão.

    —Não venha se fazer de ingênua.

    —Do que você está falando? — insistiu a irmã, sentindo-se aquecer.

    Agora, quase amargo, Miguel parecia ter deixado de ser o amigo de sempre e falou com certa frieza:

    —Estou falando do senhor Eduardo. Estou achando esse seu namoro um tanto...



    • Um tanto o quê? — irritou-se Helena.

    • Um tanto acelerado.

    • Ora, Miguel, por que me diz isso? Sou responsável. Não sou nenhuma menininha boba e ingênua, não senhor. Por que com os outros namorados que eu tive você nunca disse isso? Por que só agora vai pegar no meu pé?

    • Pelo que estou vendo entre vocês — disse em baixo e grave tom de voz, encarando-a.

    • Vê o quê? O que você viu? — tornou exasperada.

    • Não sou bobo, Helena. Nunca lhe disse nada antes porque percebia que o Vagner era uma pessoa inerte, sem ânimo. Bem diferente do Eduardo, que está excessivamente apaixonado. Se é que me entende.

    • Por que está falando assim comigo, Miguel? Sempre foi meu amigo, sempre fomos parceiros em tudo.

    • Estou só alertando. O Eduardo é muito bacana, muito legal, mas não sei com que tipo de relacionamento ele está acostumado. É um cara que tem dinheiro e talvez ache que possa pagar tudo. Fique esperta.

    • Você está me ofendendo.

    • Quem está ofendendo quem? — perguntou dona Júlia, entrando repentinamente.

    Quase chorando, Helena olhou para a mãe e, sem dizer nada, saiu apressada após pedir:

    • A bênção, mãe.

    • A bênção, mãe — repetiu Miguel.

    • Deus abençoe vocês.

    Helena se foi. E esperando por uma resposta dona Júlia ficou olhando para o filho, que logo dissimulou:

    —Eu estava falando para a Lena não chegar tão tarde, é

    isso.

    —Miguel, foi isso mesmo?



    —Claro, mãe. Foi só isso, e ela pensou que eu a estava chamando de ingênua e se ofendeu. Bem, vou deitar, já é tarde. Bênção, mãe.

    —Deus o abençoe, filho.

    Dona Júlia, não satisfeita, sentia que algo estava acontecendo. Miguel e Helena, desde pequenos, sempre foram muito unidos, cúmplices em tudo. Deveria ser algo bem sério para eles se desentenderem. Decidiu que ficaria atenta.

    16

    Momentos de angústia

    O dia seguinte estava convidativo para algumas horas na piscina. O sol radiante iluminava o céu azul com esplendorosa alegria, contagiando a todos que o apreciava.

    Bianca brincava animada na água, enquanto Helena, a certa distância e acomodada em uma cadeira sob a sombra de um guarda-sol, vigiava seus passos silenciosamente.


    • Ora, meu bem, não se preocupe com a menina — recomendou Gilda, aproximando-se da moça. — Divirta-se também. A Bianca é esperta. Além disso, está com bóias nos braços.

    • Eu sei, dona Gilda — respondeu com simplicidade e um sorriso gentil —, só estou olhando.

    • Onde está o meu filho? Já fugiu?

    • A Erika o chamou. Acho que estão conversando lá dentro.

    • Esses dois... Ah! Conte-me, e sua família, como vai? Faz tempo que não os vejo. Estão todos bem?

    • Sim. Todos estão bem. Somente a minha avó que teve um problema de vesícula. Mas já foi operada e passa bem.

    • Preciso, qualquer hora, ir lá fazer uma visitinha — dizia sempre sustentando um sorriso falso e uma fala hipócrita, fazendo de tudo para maquiar sua verdadeira opinião. — Principalmente agora preciso me aproximar de vocês. Afinal de contas, nossas famílias vão se unir ainda mais, não é, meu bem? — perguntou sorrindo.

    Helena ofereceu um simples sorriso sem nada argumentar. Percebia que algo estava errado, que Gilda escondia naquelas palavras gentis alguma coisa que ela não sabia o que era. Tomada por um súbito desconforto, Helena não podia imaginar que, na espiritualidade, Nélio, ao seu lado, observava, transmitindo-lhe suas idéias como se fossem seus próprios pensamentos.

    —Imagina-te convivendo com alguém assim como esta criatura? De certo não mereces te entregar a este antro fraudulento que vive na impostura, na perversidade das ilusões. Neste lugar, jamais seria amada como mereces.

    Em pensamento, Helena se perguntava:

    "Meu Deus, olha só a família em que estou me metendo?"

    Enquanto isso, Gilda não parava de falar:

    — E não deixe o Eduardo se enterrar no serviço quando estiver com você, viu? Porque senão... aaaah, minha filha, ele vai levar seus relatórios para analisar até quando forem ao cinema. O Edu é obcecado por trabalho.

    Helena somente olhava para a elegante senhora, sustentando um sorriso constante, mecânico e se questionando em pen­samento:

    "Será que o Edu é isso mesmo? Não vou suportar".



    • Ooooi! — exclamou Eduardo, que acabava de chegar. — Do que estão falando?

    • Do meu filho querido, claro! — expressou-se Gilda exageradamente. Logo, porém, avisou: — Vou deixar os dois pombinhos à vontade. Mas vejam lá, hein! A Bianca está ali pertinho — riu ao sair na direção da casa.

    Virando-se para Helena, Eduardo comentou:

    Viu como ela aceitou bem? Era questão de acostumar com a idéia do nosso namoro.

    E... Parece que sim — concordou a namorada sorrindo e escondendo sua verdadeira opinião. L°go, Helena se interessou:

    Diga-me, o que a Erika falou sobre o caso do João

    Carlos?

    Nenhuma novidade. Ele ainda está arrasado. Pensei em ajudá-lo, mas é um valor considerável. Além disso, ele tem um sócio. É preciso analisar muito bem a situação.



    —Entendo.

    —O pior é que ele já havia pegado dinheiro emprestado com a irmã. Não sei o que posso fazer. Preciso pensar.

    Helena decidiu não opinar. Era uma situação delicada e, apesar de gostar muito de Juliana e de seu irmão, não sabia o que fazer ou como poderia ajudar.

    O resto da tarde foi demasiadamente calmo. Gilda, repleta de gentilezas e atenções, calculava cada palavra, cada gesto, mascarando seus verdadeiros sentimentos, sua autêntica intenção.

    Eduardo sentia-se satisfeito. Não esperava que sua mãe cedesse tão rapidamente assim. Pensou até que haveria mais alguns atritos entre eles por conta de seu namoro com Helena. Mas não, tudo acontecia com relativa tranqüilidade para todos.
    ***
    Passadas algumas semanas, num dia qualquer que se seguiu, dona Júlia, após um telefonema de sua irmã, procurou pelo marido e bem aflita avisou:

    —Jairo, minha irmã ligou e disse que minha mãe teve que ser levada às pressas para o hospital agora cedo. Disse que ela gritava queixando-se de dores abdominais. Talvez seja por causa da cirurgia da vesícula. Estão fazendo vários exames nela.

    Aproximando-se do marido, expressando nervosismo no olhar, dona Júlia o tocou nas mãos como se implorasse:


    • Eu queria ir até lá. Quero ver minha mãe. Estou tão preocupada.

    • Não acha melhor esperar? Sua irmã vai ligar e talvez tenha mais notícias.

    —Você se importa se eu for? Pego o ônibus aí na rodoviária

    e...


    —Eu a levo — interrompeu prestativo. — Vou com você. Dê-me só um tempo para ajeitar umas coisas. — Beijando a esposa, ele a abraçou com carinho e disse: — Vai dar tudo certo. Não se preocupe.

    Após as devidas providências, seu Jairo e dona Júlia se arrumaram para a viagem inesperada. Avisando o filho Mauro, pois Helena e Miguel já haviam saído para trabalhar, dona Júlia decidiu:



    • Não telefone para eles. E melhor que cheguem em casa primeiro, depois você conta. Não quero que fiquem preocupados. Talvez até a noite já tenhamos alguma notícia. Quanto à Bianca, já falei para a Carla e ela vai cuidar direitinho do lanche e de colocá-la na perua para a escola.

    • Acho que nem vou trabalhar hoje.

    • Deve ir sim, filho. Tudo está sob controle. Seu pai já avisou os moços da oficina e não há mais nada para fazer. Amanhã ou depois a gente já deve estar de volta.

    Mauro ficou pensativo e decidiu:

    —Tudo bem. Temos que confiar na Carla ao menos uma

    vez.


    • Não diga isso, Mauro — repreendeu dona Júlia. Nesse instante, seu Jairo chegou.

    • Já abasteci o carro e calibrei os pneus. Vamos?

    • Fica com Deus, filho.

    —Vão com Deus também — disse ao abraçá-los e beijá-los com carinho.

    A noite, ao chegar em casa, Helena se surpreendeu com a notícia.

    A mãe deveria ter me ligado no meu serviço.

    Ela achou melhor você saber aqui em casa, Lena. Disse que não havia necessidade de deixá-la preocupada lá no trabalho — falou Carla.

    —Ela já ligou?

    Não. Liguei para a casa da tia, mas ninguém atendeu. Miguel, que chegou naquele instante, ficou sabendo da novidade e também, muito chateado, reclamou:

    Caramba, nem pra telefonarem pra nos avisar! A espera foi angustiosa, pois todos eram apegados à avó.

    Helena arrumou o jantar para a sobrinha enquanto seu pensamento estava longe, mas foi surpreendida por Bianca, que disse:

    —Minha mãe falou que a bisavó Amélia não vai morrer não. Ela vai ficar boa. Agora tão operando ela.

    Assustada, a tia insistiu:

    —Sua mãe disse isso?

    —Disse sim. E falou que a vó e o vô não ligaram ainda porque choveu muito lá e eles tão sem telefone.

    Em baixo tom de voz, Helena pediu com cautela para a sobrinha:

    —Não diga isso perto do seu pai, está bem?

    Quando Helena ergueu o olhar, viu Miguel, que estava parado à porta a uma certa distância, suficiente para ouvir tudo. Agindo como se nada tivesse acontecido, Miguel sentou-se à mesa, descascou uma fruta e perguntou para Bianca com naturalidade:

    —A sua mãe sempre está sozinha, Bia?

    —Não vejo ninguém com ela, mas, sabe, tio, às vezes ela fala com alguém que eu não vejo.


    • Ah, é?

    • É.

    —Miguel! — repreendeu Helena. Olhando para a irmã, ele lembrou:

    —A Juliana já me falou sobre essa sensibilidade. E preciso muita fé, muita oração para auxiliar aqueles que se foram, mas que ainda estão presos entre nós.

    —Isso me assusta — falou a irmã.

    Por causa da presença de Bianca, ambos acreditaram que a conversa não deveria prosseguir e logo mudaram de assunto.



    • E o apartamento? — perguntou Helena com curiosidade.

    • Estive lá com a Suzi.

    • Tio — interrompeu Bianca —, não gosto da Suzi.

    • Ora, Bia! Por quê? Ela gosta tanto de você.

    —Sabe, ela tá sempre... tá sempre escura. Miguel gargalhou gostoso e falou:

    - Ela é loira, de olhos claros. Como é que você a vê?

    -Eu não sei. Mas é tão feio olhar pra ela — confirmou a garotinha.

    - E pessoas negras, como a tia Juliana e o João Carlos, como você as vê? — perguntou interessado, achando que fosse uma impressão da criança.

    —A tia Juliana brilha. Ela é tão bonita, tão limpinha. O João Carlos também. Não tô falando da cor deles, tio. Olha a minha vó Gilda! É loira e também é tão feia, cheia de gosma.

    Meio sem jeito, Miguel olhou para Helena, que parecia segurar o riso, e desconfiado perguntou:



    • O que foi, Lena? Do que está rindo?

    • Nem a Bia deixou de encontrar alguma coisa para perseguir a pobre Suzi. Essa Suzi escura foi de lascar! — Rindo, completou: — E imaginar que a dona Gilda, tão elegante, é cheia de gosma!

    • Tem sim, tia — falou a menina. — E ainda tem cheirinho.

    • Cheirinho?! — perguntaram Miguel e Helena ao mesmo tempo.

    • Elas têm, sim. Não adianta passar perfume, eu sinto um cheiro nelas, sim.

    Helena caiu na gargalhada, enquanto Miguel, meio enfezado, ia deixando a cozinha quando o telefone tocou.

    Todos correram para a sala quase se trombando. Mauro, mais rápido, atendeu:

    —É ligação a cobrar — avisou enquanto esperava. Oi! A bênção, pai! E aí? Como a vó está?

    Atento a tudo o que seu Jairo dizia, Mauro, com um semblante mais tranqüilo, perguntou:

    —Então ela está bem?

    Após um pouco mais de conversa, ele se despediu.

    A vó teve que ser operada. As dores que sentia eram apendicite. Não teve nada a ver com a cirurgia da vesícula que fez. Agora ela está bem.

    E por que não telefonaram antes? — perguntou Helena.



    • Caiu o maior temporal lá e eles ficaram sem telefone. Como viram que nem a energia elétrica nem o sinal telefônico voltavam, pegaram o carro e saíram para telefonar em um orelhão no outro bairro. Parece que um poste foi atingido por uma árvore.

    • Viu! — disse Bianca em pé próxima à porta.

    Miguel procurou Helena com o olhar, e esta, sem dizer uma palavra, levantou-se e foi em direção à sobrinha, propondo:

    —Vamos escovar esses dentinhos e ir para a cama. Já passou da hora da senhorita ir dormir.

    Miguel ficou perplexo. Já vira a sobrinha falar coisas sobre ter visto a mãe que morrera, mas nunca presenciou tamanha previsão. Ele não só ficou surpreso, mas ficou também preocupado. Lembrou-se do que Bianca falara sobre sua namorada ser escura. O que ela queria dizer com aquilo? Incomodado com o ocorrido, ele esperou que os irmãos fossem para o quarto e, sem hesitar, telefonou para Juliana.


    • Acordei você?

    • Oi, Miguel! Que surpresa! Você não me acordou, não. Estava aqui quebrando a cabeça com um projeto que não quer nem entrar no papel; quero ver só na hora de sair.

    Ele riu e, após perguntar sobre dona Ermínia e João Carlos, começou meio sem jeito:

    • Sabe, Juliana, estou ligando porque não tenho a quem recorrer. Estou com um nó no peito, parece que levei um soco.

    • O que está acontecendo, Miguel? — preocupou-se a amiga.

    • Você sabe que gosto da Suzi. Tanto que estamos pensando em casamento.

    • E isso que o incomoda?

    • Não. Não exatamente. Acontece que meus pais precisaram viajar às pressas e...

    Miguel contou todo o ocorrido enquanto Juliana pacientemente o ouviu com muita atenção.

    —Então foi isso. Agora estou intrigado. O que a Bia quis dizer quando se referiu à Suzi, falando que ela sempre está escura e que tem cheirinho?

    Cautelosa, ela tentou:

    - Bem, Miguel, pelo que pude notar a Bianca consegue

    ver algumas coisas; me refiro a coisas que nem todos podemos ver Sabemos que ela vê a mãe, mas não com quem Lara conversa. Tudo depende de vibração, de sintonia e de afinidade. Não é porque alguém é médium, vidente, que só por isso consegue ver todo e qualquer espírito ou falar e ouvir todos os espíritos. É preciso muita afinidade. O médium é como um rádio: quando a antena é boa, ele sintoniza várias estações; quando não, só sintoniza algumas. No caso da Bianca, ela é criança, e talvez isso desapareça, talvez não. Em todo caso, para que um médium tenha afinidade com espíritos elevados ele precisa ter elevado nível moral, necessita de evangelização, de muito estudo e conhecimento. Pois para um médium se afinar com espíritos inferiores, brincalhões, sofredores e de pouca moral basta ele, o médium, não ter um comportamento digno, ou seja, falar palavrões, beber, fumar, freqüentar lugares de baixo nível, e assim por diante. Garanto que os médiuns que levam essa vida não vêem, de jeito algum, espíritos nobres, instruídos e elevados.


    • Entendi, mas me diga o que a Bianca pode ter visto na Suzi? Será que minha sobrinha percebeu um espírito sofredor próximo a ela?

    • Creio que não, Miguel. Desculpe-me falar assim, e sei que até corro o risco de perder a sua amizade, mas penso que a Bia viu o que envolve a Suzi em termos de aura, energia que circunda o corpo.

    Não consigo entender. A Suzi é tão bacana. Precisa ver que tipo de pensamentos a Suzi tem, o que ela pratica ou já praticou...

    Ela é uma moça gentil, educada, recatada. Você a conhece.

    -Não muito. Não posso falar nem bem nem mal da Suzi.

    Mal conversamos.

    Não vai você também me dizer que ela se esconde e que nao se mistura com os outros?

    Juliana ficou calada, não queria dizer o que realmente pensava e ao mesmo tempo não queria mentir. Acreditou que o silêncio seria sua melhor resposta.

    —Juliana? Ainda está aí? — perguntou Miguel diante do silêncio.


    • Sim, Miguel. Estou pensando.

    • O que você acha da Suzi?

    • Acho melhor não conversamos sobre isso por telefone.

    • Agora fiquei preocupado.

    —Olha, Miguel, pode ser algo bobo, sem importância. De repente a Suzi não estava em um bom dia com seus pensamentos e a Bia não a viu bem. Deve ser isso.

    Esperto, Miguel perguntou:

    —Juliana, você está querendo me enrolar, não é?


    • Não. Só não acho que deva ficar sofrendo por algo que talvez nem exista.

    • E como posso saber se existe ou não? — insistiu o amigo.

    • Tirando suas dúvidas com ela. Conversem, conheça-a mais. Vejo que você não está bem seguro quanto à Suzi.

    • Não há muito que saber sobre ela. A Suzi é tão pacata, tranqüila.

    • Mas você tem dúvidas, ou não estaria perguntando a opinião dos outros nem se impressionando com o que sua sobrinha disse ter visto. Você conhece os pais dela? Já os visitou? Por que não começa por aí?

    —Vou pensar.

    —Seria bom... — Juliana mordeu os lábios, arrependida do que iria falar.



    • Seria bom o quê?

    • Nada. Não é nada.

    • Juliana, pensei que fosse minha amiga. O que você ia

    falar?

    Arriscando perder a amizade, Juliana completou:

    —Acho que está pensando muito rápido em casamento e ela aceitando mais rápido ainda. Você é experiente e deveria conhecê-la melhor, conhecer melhor a família dela, o passado, para depois pensar em casamento.

    —Oh, Juliana, a Suzi não tem nada para esconder. Eu me sinto tranqüilo com ela.

    —Desculpe-me, Miguel. Foi você quem perguntou. Agora, parecendo insatisfeito, ele se despediu:

    —Tudo bem. Não se preocupe comigo. Vou deixá-la descansar. Também preciso levantar cedo amanhã. Agora, sem minha mãe por aqui, o café não estará na mesa logo cedo.

    Juliana riu forçosamente e respondeu:


    • Até amanhã.

    • Até amanhã, Juliana. Obrigado.

    Pensativo, Miguel tentava decifrar aquele enigma. Suzi era perfeita, mas sua mãe, sua irmã e até a sobrinha implicavam com ela de alguma forma. Ele sentia-se apaixonado. Nunca havia gostado assim de alguém. Estava a ponto de dar um passo importante em sua vida e precisava estar certo do que ia fazer.

    Desalentado, decidiu ir dormir. Já era tarde e precisaria acordar bem cedo.


    ***
    Na manhã seguinte, o clima estava tempestuoso entre Mauro e Carla, que, bem cedo, brigavam na cozinha.

    —Você já deveria ter feito! — exigia o irmão nervoso.



    • Você é o pai, por que não levantou mais cedo e veio fazer o lanche dela? — defendia-se Carla, irritada.

    • Por que você disse à mãe que faria algo que não tem competência? Sua incapacitada!

    • Gente! O que é isso? — admirou-se Helena, que chegou na cozinha enrolada em uma toalha de banho e outra torcida na cabeça. — A perua está aí fora buzinando! Vocês não estão ouvindo?

    • É que a incompetente da Carla não aprontou a Bia não fez o lanche da menina, não fez nada!

    —E agora? — perguntou Helena. — Ela não pode ir assim!

    —disse apontando para a sobrinha que, ainda de pijama, começou a chorar.

    —Vou ter que mandar a perua embora — decidiu Mauro irritado. — A mulher não pode se atrasar mais por causa dessa aí

    —completou, apontando para Carla. 4

    —Por que você não levantou cedo?! A filha é sua! — tornou ela.

    Bianca, chorando sentida, foi pega no colo por Helena, que a acariciava dizendo:

    —Não chore, meu bem. Não fique assim, não.

    Depois de alguns minutos Mauro retornou irritado e falou a

    Carla:


    • Agora ela vai ficar em casa! E ai de você se não cuidar da Bia direito!

    • Eu?!!! — gritou Carla. — Só porque você quer! Tenho umas fotos para fazer daqui a pouco. O problema é seu.

    • Eu não vou faltar no serviço por causa da sua irresponsabilidade!

    • Eu não tenho filha, queridinho! — retrucou Carla com deboche.

    • Ei! Ei! O que está acontecendo aqui? — perguntou Miguel, que chegava bem no meio da confusão. — Já estamos atrasados e vocês ficam brigando?

    Insatisfeita e com a sobrinha debruçada em seu ombro, Helena foi para o quarto enquanto os irmãos se entendiam. A sós com a sobrinha, pediu:

    —Bia, ajuda a tia, vai. Vem cá — pediu indo até o banheiro.

    —Vamos tomar um banho rapidinho. Rapidinho mesmo, se não a titia perde a hora, tá bom? E enquanto você se seca eu me troco correndo.

    —Com quem eu vou ficar, tia? Não quero ficar com a tia

    Carla.

    —Vou pegar um carro e deixo você na escola. Depois eu ligo para a tia da perua avisando para que traga você de volta. Vai dar tudo certo, você vai ver.



    —E meu lanche?

    - Seu lanche...? Ah! Vamos passar na padaria, pegar aquele

    pãozinho que você gosta e um refrigerante, está bem? — dizia enquanto se arrumava.


    • Aquele de queijo?

    • Isso mesmo! Aquele lá.

    • Oba!

    Após alguns minutos, Helena chegou na cozinha onde a confusão ainda continuava e disse:

    — Miguel ou Mauro, preciso de um carro. Todos pararam de falar, e ela prosseguiu:



    • Ainda dá tempo de deixar a Bia na escola. Eu a deixo lá e depois ligo para a tia da perua avisando para trazê-la.

    • Mas ela nem tomou café! Nem fez o lanche! — lembrou Mauro.

    • Já está tomando o leite — indicou Helena para a sobrinha — e vai comer o pão no caminho. Vou passar na padaria e comprar o lanche. Pronto! Está resolvido.

    Mauro observou melhor a filha e só então verificou que Bianca já estava arrumada e de uniforme.

    Helena, vendo que ninguém reagia, insistiu:

    —Gente! Preciso da chave de um carro!

    —Toma! — decidiu Mauro. — Pegue o meu. Vou até o metrô com uma carona do Miguel.

    Helena rapidamente saiu com a sobrinha seguindo seus planos.

    Aquele dia começara agitado logo nas primeiras horas da manhã. Quanta falta dona Júlia fazia a todos, principalmente à pequena Bianca, que era muito dependente.

    Apesar de todo esforço, Helena chegou atrasada no serviço, enfrentando o olhar irritadiço de sua encarregada, que a esperava mais cedo. Sem demora, entregou-se ao serviço a fim de recuperar o tempo perdido. Na hora do almoço, diante do convite dos colegas, recusou fazer a refeição para poder adiantar o que fazia.

    Não vai almoçar, Helena? — perguntou a encarregada.

    Não. Vou resolver isso aqui antes.

    Algum problema em casa?

    - Meus pais viajaram, minha vó teve que ser operada e hoje cedo não tinha quem arrumasse minha sobrinha, que perdeu o transporte escolar. Então tive que deixá-la na escola. Estou um pouco sobrecarregada, mas vou dar um jeito.


    • Tomara que não tenha que ir buscá-la.

    • Ah, não! Já liguei para a tia da perua avisando. Pode ficar tranqüila.

    • E que precisamos implantar esse sistema ainda hoje.

    —Vai dar tempo. Fique tranqüila. Ele está quase rodando. Quando se viu a sós na seção, Helena sentiu-se mais aliviada.

    Agora seu serviço começaria a render. Porém, pouco tempo depois, o telefone da sua mesa tocou e, mesmo contrariada, precisou atender:

    —Mauro? O que foi?

    —A tia da perua me ligou dizendo que não tem ninguém lá em casa pra ficar com a Bia. Onde está a Carla?! — gritou nervoso.

    —Mauro... eu não sei. Estou no serviço, lembra?

    —Eu mato a Carla! Quem vai ficar com a Bia agora?! Onde a mulher vai deixar minha filha?! — irritou-se, vociferando.

    —Calma, Mauro. Vamos pensar.


    • Pensar em quê? Além de estar sem carro, não posso deixar o serviço agora. Estou com uma matéria importante pra ontem.

    • Aqui também está complicado. Estou sem o café da manhã e vou ficar sem o almoço.

    • Se eu pegar a Carla, a farei em pedaços! Aquela irresponsável!

    • E se pedirmos para a vizinha, a dona Antônia? Ela pode...

    • Não tem ninguém na casa da dona Antônia nem na dona Isaura. A tia já chamou lá.

    Helena começou a ficar aflita; teria que ser ela a deixar o serviço e ir receber a sobrinha. Sem alternativa, resolveu:

    —Olha, eu vou até lá e pego a Bia. Só que preciso voltar para o trabalho. Tenho um sistema para entregar hoje e não posso atrasá-lo de forma alguma.

    —E o que vai fazer com ela?

    —Vou trazer a Bia pra cá. Ela me obedece e vai ficar quietinha. Vai dar certo. Vai ter que dar certo.

    —Não estou gostando disso.

    —Com um pouco de sorte e se o trânsito estiver bom eu vou e volto em uma hora, mais ou menos.

    —Vai atrapalhar seu serviço. E o almoço dela?

    —Eu dou um jeito. Comemos um lanche. Não há outra coisa a fazer, Mauro. Tchau, ligo depois.

    Helena mal desligou o computador, pegou sua bolsa e se foi.

    A caminho de casa, ficou satisfeita com o trânsito tranqüilo.

    Enquanto isso, a senhora que fazia o transporte escolar aguardava preocupada em frente à casa de dona Júlia com Bianca no interior do veículo. Novamente ela telefonou para Mauro, que avisou que Helena estava a caminho, era questão de minutos.

    Porém, um bom tempo depois, a mulher ligou de novo para Mauro:

    —Seu Mauro — disse por telefone —, sua irmã não chegou até agora. O problema é que tenho outras crianças para pegar na escola e não posso me atrasar. Vou levar a Bianca comigo. Se sua irmã ligar dizendo que não me encontrou, diga que volto aqui para entregar a Bia primeiro.

    Tudo bem, dona Rosa — aceitou contrariado, pois sabia que Helena não poderia esperar muito tempo. — Faça isso, por favor. A Helena deve estar presa no trânsito.

    As horas foram passando, e mais uma vez dona Rosa telefonou:

    Seu Mauro, sua irmã não está aqui. O que eu faço? Desculpe-me, dona Rosa, mas não sei. A Helena não me ligou, estou preocupado.

    - Então vou fazer a entrega das outras crianças e depois eyarei a Bianca para minha casa. Já é tarde e ela está com fome, nao posso ficar aqui esperando que alguém chegue.


    • Obrigado, dona Rosa. Eu vou à sua casa buscá-la quando sair do trabalho. Desculpe-me, mas... não posso mesmo ir até aí agora.

    • Eu entendo, seu Mauro. E caso de serviço, de doença... eu entendo. Não se preocupe.

    Assim que se despediram, Mauro telefonou para Miguel e reclamou:

    • Puxa! Esse seu celular vive desligado!

    • Não me culpe. O problema é com a operadora.

    • Liguei para você no serviço e ninguém atendeu — disse Mauro ainda irritado.

    —Eu estava almoçando. O que você queria? Mauro contou sobre o ocorrido, e o irmão opinou:

    • Deve ser o trânsito. Tem dia que São Paulo está intransitável até sem carro.

    • Estou preocupado, Miguel. Já liguei pro celular da Lena e nada.

    • Deve estar fora de área ou ela o desligou para dirigir. Você sabe como a Lena é toda certinha.

    • Estou sentindo uma coisa... — avisou Mauro, temeroso.

    • Eeeeh! Não começa. Não gosto disso.

    — Nem eu. Mas deixe-me desligar, de repente ela tenta falar comigo e está ocupado.

    — Mantenha-me informado, não esquece.

    Minutos após desligar, Mauro quase não conseguia conter-se. Um aperto no peito misturado com certa angústia o dominava. Suas mãos trêmulas começaram a suar frio.

    —Meu Deus! O que é isso? — falou sozinho. Atordoado, não lhe restava o que fazer, a não ser tentar se

    acalmar. Foi nesse instante que o telefone o surpreendeu.


    • E ela! — murmurou antes de atender.

    • Mauro?

    • Quem é?

    • É a Maria, a encarregada da Helena.

    —Oi, Maria. Eu esperava uma ligação da minha irmã. Estou nervoso, ela não ligou e...

    - Mauro, não há como dizer de outro modo, mas...



    • O que aconteceu?!

    • Um caminhão desgovernado bateu contra o carro de sua irmã e... — a voz de Maria embargou e ela quase não conseguia continuar. Mesmo assim, completou: — Ligaram do hospital aqui para o serviço, ela está internada.

    Mauro emudeceu. Não sabia o que dizer. Aquilo não podia estar acontecendo de novo.

    • Mauro?

    • Estou aqui...

    • Disseram que ligaram para sua casa e não tinha ninguém, então telefonaram aqui para o serviço e a Sueli me deu o seu telefone.

    • Como ela está? — perguntou quase mecanicamente, ainda aturdido pelo choque.

    • Eles não dão informações por telefone. Mas disseram que ela está sendo atendida. Que alguém da familia precisa ir até lá.

    • Onde é o hospital?

    • Perto da sua casa. Anota o endereço.

    Mauro revivia o acidente de Lara. Estava amargurado e não sabia o que fazer.

    Após ligar para Miguel, encontrou-se com ele, e ambos foram para o hospital. A demora por notícias era angustiante. Os irmãos mal conversavam, apenas trocavam olhares preocupados. Quando receberam informações de que a irmã estava sendo atendida e de que precisariam aguardar, Miguel resolveu:

    Vamos ligar para o Eduardo.

    Preciso pegar a Bianca, a dona Rosa está com ela.

    Pega as chaves e vai com meu carro. Vou telefonar para ° Eduardo e aguardá-lo aqui.

    Qualquer coisa você me liga, Miguel?

    Pode deixar.

    Com o coração apertado e aflito, Mauro foi até a casa de dona Rosa pegar a filha.



    17

    Regras da vida

    De volta ao hospital, com os pensamentos ainda atormentados, Miguel reconheceu, a certa distância, Eduardo, que parecia procurá-lo no meio de tantas pessoas.

    Uma expressão aflita figurava no rosto do namorado de Helena, que não conseguia disfarçar seu desespero.

    —Miguel, como ela está? Onde ela está?

    —Disseram que estava sendo atendida. Pediram para aguardar. Não tenho mais nenhuma notícia.

    Olhando ao seu redor, Eduardo não ficou satisfeito com o que via.

    Tratava-se de um pronto-socorro que, aparentemente, não parecia ser muito bom, e Helena não deveria estar sendo bem atendida.

    —Miguel, vou entrar lá para vê-la.



    • Pediram para esperar, mas... Sabe, a espera está sendo longa demais. Não sei o que fazer.

    • Eu sei — falou Eduardo, decidido. — Não posso deixá-la ser socorrida aqui. Veja esse vaivém, parece que ninguém se importa com nada. Funcionários brincando, batendo papo, enquanto um monte de gente espera por atendimento. Fico preocupado com a higiene. Você viu?

    —É. Vamos entrar.

    Aproveitando a distração do segurança que brincava com uma atendente, Miguel e Eduardo entraram no setor de emergência sem serem questionados.

    Por nunca terem estado em um lugar como aquele, ficaram assustados ao ver tantas pessoas feridas, doentes e machucadas aguardando aflitas para serem atendidas.

    Através de um pequeno vidro em uma porta, Miguel olhou e chamou:

    —Eduardo, olha!

    Eles reconheceram Helena sobre uma maca. Inerte, machucada, ela ainda estava usando alguns dos protetores que o resgate empregou para o seu socorro.

    —Calma! — pediu Miguel quase sussurrando ao segurar Eduardo fora da sala. — Não seja impulsivo ou vamos perder a razão aqui.

    —Vou tirá-la daqui! Ela não está sendo atendida.

    —Temos que conseguir uma ambulância, talvez uma UTI móvel e um médico. Senão...

    —Vamos lá fora, vou telefonar — resolveu Eduardo, nervoso. Sem perder muito tempo, Eduardo entrou em contato com

    o médico conhecido da família e conseguiu que uma UTI móvel fosse até o pronto-socorro para fazer a remoção de Helena para um hospital de sua confiança. A transferência foi realizada sem muita burocracia, mediante a responsabilidade do médico que acompanharia a remoção.

    Horas depois, ainda nervosos, eles aguardavam, só que em outro hospital.

    Mauro fora avisado sobre o procedimento e agora já se encontrava ao lado do irmão e de Eduardo aguardando por notícias.

    Eduardo caminhava de um lado para o outro parecendo imerso em profundas preocupações.

    E a Bianca? — perguntou Miguel, falando baixinho. Contei para a dona Rosa e ela foi muito prestativa e se ofereceu para cuidar da Bia até amanhã, se for preciso.

    Vá à noite, mesmo que seja tarde, avisei que passo lá para Pegá-la.

    —E a Carla?

    Nem sombra. Olha, Miguel, se a Carla aparecer na minha frente agora, sou capaz de lhe dar a surra que merece. Tudo isso aconteceu por culpa dela.

    —Não posso tirar sua razão — desabafou Miguel. — Nunca vi alguém tão desmiolada, irresponsável.

    O eco de alguns passos atraiu a atenção de todos, que prontamente foram na direção do médico que se aproximava.

    —Como ela está, doutor? — perguntou Eduardo imediatamente.


    • A Helena não sofreu fraturas graças ao cinto de segurança e ao airbag. O que é muito bom. Num acidente desses, a preocupação maior é com a coluna e a cabeça. Mas existem vários hematomas, arranhões... e ela não responde a estímulos externos e também não há atividade motora.

    • Traduzindo...? — perguntou Miguel desconfiado.

    • Helena está em coma — disse o médico brandamente para não assustá-los, mas não adiantou.

    • Meu Deus! — inquietou-se Mauro em desespero, afastando-se alguns passos.

    • Calma — pediu o médico. — Vamos lembrar que ela acabou de sofrer um acidente. Podemos até dizer que esse estado costuma ser comum. Mas temos que realizar alguns exames mais rigorosos e verificar se houve alguma lesão cerebral. Porém, posso adiantar que suas funções vitais estão estáveis e ela não necessita de aparelhos. Agora a estão levando para uma tomografia axial e teremos que aguardar.

    Eduardo, sem dizer nenhuma palavra, parecia mais pálido a cada minuto. Virando-se para o médico, recomendou com voz fraca:

    • Por favor, doutor, não poupe esforços.

    • Você está bem, Eduardo? — perguntou o médico.

    • Sim. Estou.

    • Quanto tempo o senhor acha que... — tentou perguntar Miguel que, confuso, não sabia nem o que dizer.

    • Vamos fazer o exame e ela voltará para o CTI. Não tenho previsão. Acho bom irem para casa. Descansem. Não adian­tará ficarem aqui. Só iriam se desgastar ainda mais. Telefonaremos caso haja qualquer novidade. Ou, então, amanhã vocês poderão ter maiores informações. Se chegarem cedo, poderão me encontrar aqui e pessoalmente lhes darei notícias.

    - Podemos vê-la? — perguntou Eduardo.

    —Vamos deixar para amanhã, Eduardo? Hoje ela inspira cuidados — pediu gentilmente o médico. — Vão para casa, descansem. É o melhor a fazer.

    —Obrigado, doutor — agradeceu Miguel. Sentando-se em um sofá, Mauro cobriu o rosto com as

    mãos e apoiou os cotovelos nos joelhos.

    Eduardo sentou-se a seu lado e avisou:

    —Vou ficar aqui.

    Mais sensato, Miguel lembrou:

    —Não vai adiantar nada ficarmos aqui. Será nos próximos dias que ela precisará mais da nossa presença.

    Erguendo o rosto, Mauro estava chorando ao dizer:

    —Tudo por minha causa.

    —Pare de falar assim, Mauro. Não vai adiantar ficar se torturando — advertiu o irmão, que logo chamou: — Vamos embora, podemos telefonar mais tarde para ter notícias. Além do quê, precisamos pegar a Bianca. — Virando-se para Eduardo, recomendou: — Você também, Eduardo, é melhor que descanse.

    Nesse instante, Erika entrou na sala de espera à procura do irmão. Após se inteirar dos acontecimentos, recomendou:

    —Vamos, Eduardo, estará descansado amanhã para vê-la. Com muito carinho Erika convenceu o irmão a ir para casa.

    Miguel e Mauro fizeram o mesmo.

    Depois de pegarem Bianca com dona Rosa, eles chegaram em casa ainda atordoados, incrédulos com o que havia acontecido. Mauro, nitidamente abatido, parecia exaurido quando se acomodou no sofá. Miguel, de mãos dadas com a sobrinha, levou-a até o quarto das tias, com quem a pequena dormia, e perguntou: Onde fica guardado o seu pijaminha? Aqui, ó — indicou a menina. Ele abriu o armário, pegou a roupa e avisou:


    • Bia, o tio precisa da sua ajuda. Olha, como já expliquei, a tia Lena está doente e vai ter que dormir no hospital. A tia Carla não chegou e por isso quero que você tome um banho e coloque esse pijama... Espera aí, você sabe tomar banho sozinha?

    • Sei sim, tio. A vó Júlia não deixa, mas eu sei sim.

    • Tá vendo como você é inteligente! Acredito em você e, por isso, enquanto toma o seu banho, o tio vai lá na cozinha preparar alguma coisa gostosa para o jantar, tá legal? — perguntou, forçando-se para parecer animado.

    • Pode deixar, tio.

    • Então vai logo.

    Ao sair do quarto, Miguel ouviu os gritos de Mauro, que parecia insano. Acelerando os passos, chegou rápido à sala surpreendendo o irmão segurando Carla pelos braços e agitando-a com força ao esbravejar:

    —Imbecil! Cretina! Irresponsável! Por sua culpa ela está lá em coma. O que você tem na cabeça, Carla?

    —Solte-a, Mauro — pediu Miguel, colocando-se entre eles. Vendo-se livre do irmão, Carla demonstrou-se nervosa e

    começou a gritar também:



    • Irresponsável é você! Eu avisei que ia sair. A Bianca não é minha filha e você nem deveria morar aqui.

    • Carla, vamos parar com isso — exigiu Miguel com firmeza.

    Agora, mais brando, Mauro continuou a reclamar:

    • Nunca vi criatura igual a você, Carla. Egoísta! A culpa por tudo isso estar acontecendo é sua.

    • Minha, não! — defendeu-se a irmã. — Quem atrai desgraça aqui é você! Cadê a sua mulher?

    —Carla! — gritou Miguel com seriedade.

    —É isso mesmo! Acho que a Lara se matou porque não agüentava mais esse cara. Tá pensando que eu não sei? Ouvi muito bem a Juliana e a Helena conversando e dizendo que o presente da Bianca estava lá na sua casa no dia do acidente, e que a Lara não precisava ter saído para ir buscar nada. A Lara mentiu, mentiu por algum motivo. Ela estava estranha, muito estranha alguns dias antes de se matar e fazia muitas perguntas sobre você, idiota.

    —Que história é essa? — exigiu Mauro.

    - Ah! Meu filho! — falou irônica. — Você deve saber melhor do que eu.

    —Cale a boca, Carla! Você não sabe o que está falando — pediu Miguel, nervoso.

    —De uma coisa eu tenho certeza — tornou Carla irritada - ;se a Lena morrer, está provado que a desgraça mora ao seu lado. Como se não bastasse fazer a mulher morrer, agora faz com que a irmã também...

    Num impulso, Mauro investiu contra a irmã agredindo-a antes que Miguel pudesse separá-los. E enquanto Miguel tentava apartá-los Carla xingava repetidas vezes aos gritos:

    —Seu infeliz! Vai se arrepender disso. Desgraçado, você nunca mais vai me ver. Quero que você morra.

    Dizendo isso, Carla saiu correndo pela porta principal sem que Miguel pudesse alcançá-la.

    Totalmente esgotado, ele retornou e ficou observando Mauro, que, sentando no sofá, estava chorando ao perguntar:

    —O que eu fiz?

    —Foi precipitado, só isso — reconheceu Miguel num desabafo.

    Um clima nebuloso, carregado por uma aura triste e pesada, pairava naquela casa. Miguel parecia o mais consciente de todos e se preocupava com o que iria dizer aos pais.

    Nesse instante o telefone tocou e os irmãos se entreolharam. Miguel levantou para atender. Era dona Júlia.

    —Oi, mãe. Bênção. Tudo bem?

    —Deus o abençoe. Aqui está tudo bem, Miguel. Graças a Deus sua vó está ótima. Foi mais um susto. Olha, filho, eu e o seu pai estamos pensando em ficar aqui mais uns dias. Talvez uns dez ou quinze dias. Não passeamos há anos. Será que vocês vao agüentar aí sozinhos por esse tempo? — perguntou a mãe com um certo jeitinho no tom de voz.

    Miguel suspirou fundo, silenciou por alguns instantes e falou:

    —Mãe, seria bom que a senhora e o pai voltassem o quanto antes.

    Mauro, ainda sentado no sofá, fitava-o com olhos arregalados, como se prendesse o fôlego aguardando o resultado da conversa.

    —O que foi, Miguel? Aconteceu alguma coisa, não é? — preocupou-se a mãe.

    Miguel sentia o coração apertado. Sua voz não queria sair, e também não conseguia pensar em uma frase mais suave para avisar seus pais. Então, com a voz trêmula, contou:

    —Mãe, estamos precisando da senhora e do pai aqui. É que... bem, a Lena está internada. Aconteceu um acidente.

    Dona Júlia ficou nervosa e começou a perguntar várias coisas ao mesmo tempo sem esperar por uma resposta. Seu Jairo, que estava ao lado da esposa, percebeu seu modo aflito e pegou o telefone para falar com o filho, que avisou:


    • Pai, houve um acidente. A Helena estava sozinha e com o carro do Mauro. Um caminhão, parado em uma descida, perdeu o freio e a atingiu no cruzamento. A culpa não foi dela. Segundo as testemunhas, o semáforo estava aberto para que a Lena passasse. Foi o caminhão que perdeu o freio e até atropelou mais uma pessoa.

    • E sua irmã?

    • Está internada. Precisou ficar em observação. Não houve fraturas, mas...

    • Mas o quê? — exigiu o pai.

    • Ela ficou inconsciente e o médico resolveu deixá-la internada. O senhor sabe como é.

    • Estamos indo para São Paulo agora. Amanhã cedo estaremos aí.

    Ao desligar, Miguel ficou olhando para o irmão, que disse:

    —Pedi a Helena que fosse pegar minha filha e a mandei para esse acidente. Bati na Carla e a mandei embora... O que vou dizer pro pai e pra mãe?

    Miguel ficou em silêncio e, ao olhar para a porta, viu Bianca, que esperava sorridente a fim de ser vista já de banho tomado e penteada.

    - Oi, meu anjo! Você já está aí? O tio nem fez o jantar —

    disse indo em direção à menina. — Vamos lá que vou precisar novamente da sua ajuda.
    ***
    Aquela noite trouxe longas e amargas horas para aqueles que aguardavam alguma notícia sobre a recuperação de Helena. Esta, no hospital, em estado de coma, um estado em muitos aspectos semelhante ao sono só que doentio, via-se agora em desdobramento pela emancipação da alma. O corpo adormecido da jovem ficava inerte sobre o leito, enquanto sua alma ligava-se a ele pelos liames que agora se afrouxavam. Nesse estado ela possuía nova consciência, mesmo parcial, de estar em outro plano. Um pouco atordoada, ela podia perceber a presença de espíritos com imagens confusas, mas entre a visão turva reconhecia Lara. Mesmo enfraquecida, Helena se dirigiu admirada à cunhada:


    • Lara? E você?

    • Sim, Lena. Não acabei com a morte.

    • Mas o que está acontecendo...? Estou cansada... confusa... — dizia como se estivesse sonolenta.

    • Você sofreu um acidente — explicou Lara. — Seu corpo está inconsciente.

    Nélio se aproximou com expressão satisfeita e, acomodando-­se ao lado de Helena, a envolveu com um abraço.

    —Até que enfim, minha querida. A terei comigo em breve pela eternidade.

    Helena sentia como se o conhecesse, mas não sabia de onde. Sua memória parecia trair-lhe naquele instante. Passou, então, a ter recordações parciais, lembranças remotas de Nélio.

    Reconheceu-se, em sua tela mental, como uma jovem muito triste, profundamente amargurada pelo abandono, e percebia Nélio como seu algoz, a criatura cruel que a levou a duras penas.

    —Você me fez sofrer, me subjugou... — murmurou a jovem encarnada.


    • Não sabes o quanto sofri pela cobrança amarga para a qual minha consciência condenou-me.

    • Você me traiu.

    • Bem sei que errei. Mas a partir de agora haverei de oferecer-te toda felicidade que neguei um dia. Serei teu escravo, se assim o quiseres. És minha. — Envolvendo-a em suas vibrações, Nélio a abraçou e admitiu: — Amo-te. Eternamente te amarei. Não penses nos outros agora. Penses na nova vida que terás comigo, como um dia, num passado distante, querias ter.

    Lara sentiu algo estranho, uma espécie de repulsa ao que ouvia.

    As circunstâncias pareciam forçadas demais, e a atitude de Nélio a incomodava agora.



    • Lena — chamou a cunhada, atraindo-lhe a atenção —, pense em seus verdadeiros sentimentos. Lembre-se do Eduardo, da sua família. Somente isso vai fazê-la retornar, acordar em seu corpo.

    • O que queres, mulher?! Afasta-te daqui! — ordenou Nélio irritado.

    Um sono intenso pareceu dominar Helena, que se entregava cerrando os olhos e largando-se sem reagir.

    Colérico pelas palavras de Lara, Nélio vociferou:

    —Não te dou o direito de atrapalhar-me. Quero-a longe de

    mim.


    —Você não compreende que a está forçando? Helena não sabe quem você é realmente. Está confusa. Sofreu um choque, um trauma, e recebe as vibrações do corpo doente. Não pode fazer isso com ela. Helena não pertence a você e, pelo que entendi, o que você sente é um grande remorso pela crueldade que praticou no passado. Se continuar a envolvê-la, ela acabará se desligando totalmente do corpo e conseqüentemente morrerá.

    —Cala-te!

    —Não! Acredita que só você tem razão? Ou que só você é o dono da verdade? — reagiu Lara, ignorando até então a força interior que possuía. — Gosta de mandar, de ordenar e de ser obedecido. Vive num mundo ilusório que pensa dominar, mas se dominasse tudo, realmente, não seria tão inferior como é.

    Havia pouco tempo que Lara, mesmo em outro plano, acompanhava o esposo às palestras evangélicas em um centro espírita, e as reuniões a que assistiu lhe deram alguma noção sobre elevados ensinamentos, os quais a fez refletir e pensar diferente. E foi por essa razão que somente agora ela começava a reagir às imposições de Nélio, enxergando-o como um espírito inferior e pseudo-sábio, que em tudo acreditava ter razão. Além disso, na espiritualidade, naquele mesmo instante, espíritos superiores e mais sábios faziam-se presentes e amparavam Lara, que, mesmo sem percebê-los, era capaz de sentir-se revigorada de alguma forma para reagir e colocar-se contra as atitudes de Nélio, mesmo com o pouco conhecimento que possuía. Agora inconformada, Lara sentiu grande vontade de afastar-se de Nélio, que, furioso, parecia ter intenção de agredi-la.

    "Isso está errado! Não pode acontecer", pensava Lara. "As pessoas não podem ser donas das outras, não podem impor a sua vontade. Isso é falta de respeito, no mínimo. Helena é livre e deve seguir sua vida. Falaram naquela palestra que Jesus disse que somos o sal da terra, e se o sal for insípido, sem gosto algum, para nada prestará senão para ser jogado fora. Tenho que fazer alguma coisa. Não posso ficar aqui sem atuação alguma. Jesus falou que somos a luz do mundo e que não se pode esconder a candeia debaixo do alqueire..."

    Caminhando de forma negligente, Lara surpreendeu-se ao se deparar com outro espírito, que parecia resplandecer à sua frente, e sorrindo ele perguntou ao estender suavemente a mão:

    -Quer vir comigo?


    • Quem é você? — perguntou ela.

    Um amigo. Talvez não se recorde de mim no momento, mas as lembranças na espiritualidade são como relâmpagos, fortes e rápidos.

    Estou preocupada com minha cunhada, a Helena. Ali tem alguém que a está prejudicando.

    Helena não está só, espiritualmente. Está sim! Somente Nélio está com ela.

    -Você não pode ver no momento, mas há perto dela o seu espírito protetor.



    • Mas ele não está fazendo nada, não a está protegendo.

    • Existem situações permitidas para o desenvolvimento pessoal de cada um. Os bons espíritos jamais praticam o mal, jamais desejam o mal.

    • Então como permitem que alguém como Nélio fique ao lado dela e faça aquilo?

    • Os bons pensamentos que os anjos da guarda sugerem aos seus protegidos nem sempre são ouvidos. Então esse guardião se afasta quando vê que a vontade do protegido é igual à do espírito inferior que o assedia em razão de suas tendências. Os espíritos protetores se afastam, mas não o abandonam. E permitido que Nélio aja assim para que Helena adquira força através dessa experiência desagradável pela qual está passando, pois somente assim ela terá autoconfiança, fé e esperança através da prece e muito mais. Se o seu mentor interferir, ela jamais irá progredir como espírito.

    • Mas, veja, ele vai matá-la, ou melhor, matar o seu corpo. Está convencendo-a a desistir da vida. Envolvendo-a para que fique na espiritualidade.

    • Ele não tem esse poder. O que tiver que acontecer com Helena, nesse estado, acontecerá. Somente Deus tem o poder de nos dar a vida e somente Ele nos concede o tempo entre uma existência e outra, ninguém mais. Por isso, no caso do suicídio, a pena é terrível, os sofrimentos são indizíveis, longos, porém não eternos, até que seja corrigido e harmonizado o que se fez de errado. E também nos casos de homicídio as dores de quem o praticou são inenarráveis, os tormentos, funestos, porém também não são eternos.

    • Mas ouvi em uma palestra que Jesus disse que devemos agir, resplandecer nossa luz no mundo para que sejam vistas as nossas boas obras, e para isso devemos agir para o bem.

    • Você está corretíssima — afirmou alegre. — E bom que esteja interessada em ajudar, em fazer o bem. Por que não me acompanha?

    • Preciso ficar perto da minha cunhada, da minha família.Preciso ajudá-los.

    - Minha querida, vejo que tem um coração muito generoso,

    que gosta de ajudar, mas já reparou que, de certa forma, age igual

    ao Nélio?

    —Não! Não faço isso.

    - Nélio acredita que pode fazer as regras da vida, que pode ordenar, dominar toda e qualquer Lei da Natureza, que são as Leis de Deus. Ele crê que é o dono da verdade, como você mesma disse.


    • Mas não quero dominar nem ordenar. Não estou vivendo de maneira ilusória como ele — defendeu-se Lara.

    • Veja seu estado. Apresenta-se com aparência sofrida, triste. Seu estado perispiritual é carente. Faltam-lhe energias vigorosas que não encontrará aqui junto aos encarnados, faltam-lhe conhecimento e aceitação. Quer ficar perto dos seus e é por isso que se apresenta assim. De certa forma quer forçar a Natureza, as Leis de Deus.

    Lara ficou pensativa, e o amigo continuou:

    • Aqui, junto aos encarnados, além de passar por necessidades e sofrimentos, ainda interfere e faz sofrer aqueles entes queridos que deixou. Se fosse para continuar perto deles, estaria encarnada.

    • Morri antes da hora. Minha mãe me traiu, mentiu para mim, o que me levou a um acidente fatal. Se ela não tivesse mentido, eu não estaria naquele lugar, naquela hora.

    • Ninguém revoga as Leis de Deus. Elas são imutáveis, eternas e justas. Se você desencarnou, minha querida, é porque chegou o seu momento. Ninguém tem o poder de invalidar o destino. São regras, leis poderosas e irrevogáveis.

    Nunca ouvi falar de tais normas. Onde estão essas regras

    da vida?


    Nas Leis de Deus — respondeu com doce sorriso.

    E onde estão registradas essas Leis?

    Na consciência*. — Após uma pequena pausa, continuou:— Tudo o que lhe acontece não é por castigo, é sua consciência que lhe cobra. Você atrai para si mesma tudo o que pensa, critica e deseja para os outros. Devemos ser eternos vigilantes de nossas ações, palavras e pensamentos.

    Observando a surpresa de Lara, novamente perguntou:

    —Quer me acompanhar? Você deseja melhorar, aprender e ajudar. Conheço um bom lugar para tudo isso. Se ouviu as palavras de Jesus e concordou que devemos agir, que somos a luz do mundo, então deve concordar que, antes de qualquer coisa, devemos nos munir de instrução, melhorar, ganhar conhecimento, força interior e muito mais.

    —Nunca mais vou ver minha família?

    —Ora, imagine — respondeu com um suave sorriso. — Claro que sim, e poderá até mesmo ajudá-los.

    Nesse instante Lara se sentiu renovada. Algo de muito bom acontecia. Aceitando a mão que se estendeu, ela sorriu ao experimentar imenso alívio em seu ser. Eles se foram. Era o princípio de um aprendizado e a conquista de novos ideais.




    Compartilhe com seus amigos:
  • 1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   18


    ©ensaio.org 2017
    enviar mensagem

        Página principal