Sendo o equinócio, volume III, NÚmero V



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Atenção: páginas “6” e “23”, quando menciona o vers. 57, cap. I, do Livro da Lei: inserir a letra hebraica “Tzaddi”:


O LIVRO DE THOTH - Um Curto Ensaio Sobre o Tarô dos Egípcios
sendo
O EQUINÓCIO, VOLUME III, NÚMERO V

pelo MESTRE THERION (ALEISTER CROWLEY)
Pintura das cartas : FRIEDA HARRIS

An Ixviii Sol in Oº O’ O” Aries

21 de março de 1944 e.v. 5:29 p.m.


Tradução:

Edson Bini

Co-tradução:

Marcelo A C Santos (Adaptação dos títulos das cartas e trechos extraídos de “O Livro da Lei” e “O Livro das Mentiras)



Í N D I C E
Páginas

PRIMEIRA PARTE: A TEORIA DO TARÔ..............................................................................................


I. O conteúdo do Tarô. A origem do Tarô. A teoria das correspondências do Tarô. Evidência de uma tradição de iniciados do Tarô; 1. Éliphas Lévi e o Tarô; 2. O Tarô nos manuscritos cifrados; 3. O Tarô e a Ordem Hermética da Golden Dawn; 4. A natureza da evidência. Resumo das questões até aqui discutidas.
II. O Tarô e a Santa Qabalah. O Arranjo de Nápoles. O Tarô e a fórmula do Tetragrammaton. O Tarô e os elementos. As vinte e duas chaves, atus, ou trunfos do Tarô.
III. O Tarô e o universo. Teorias dos antigos. A Árvore da Vida. O Arranjo de Nápoles. O Tarô e a Árvore da Vida. Os atus de Tahuti. Os números romanos dos trunfos. O Tarô e a magia. O Shemhamphorasch e o Tarô. O Tarô e a magia cerimonial. O Tarô e o animismo. As cartas do Tarô como seres vivos.

SEGUNDA PARTE: OS ATUS (CHAVES OU TRUNFOS)....................................................................


0. O Louco. A fórmula do Tetragrammaton - O “homem verde” do festival da primavera. O “bobo de primeiro de abril” - O Espírito Santo - O “Grande Louco” dos celtas (Dalua) - O “Rico Pescador”: Percival - O Crocodilo (Mako, filho de Set, ou Sebek) - Hoor-Pa-Kraat - Zeus Arrhenothelus - Dionísio Zagreus - Baco Diphues - Baphomet - Resumo.
I a XXI. I. O Prestidigitador - II. A Alta Sacerdotisa - III. A Imperatriz - IV. O Imperador - V. O Hierofante - VI. Os Amantes (ou Os Irmãos) - VII. A Carruagem - VIII. Ajustamento - IX. O Eremita - X. Fortuna - XI. Volúpia - XII. O Pendurado - XIII. Morte - XIV. Arte - XV. O Diabo - XVI. A Torre (ou Guerra) - XVII. A Estrela - XVIII. A Lua - XIX. O Sol - XX. O Aeon - XXI. O Universo.
Apêndice. O Louco; 1. Silêncio; 2. De Sapientia et Stultitia; De Oraculo Summo; 3. De Herba Sanctissima Arabica. De Quibusdam Mysteriis, Quae Vidi; De Quodam Modo Meditationis; Sequitur De Hac Re; Sequitur De Hac Re; Conclusio De Hoc Modo Sanctitatis; De Via Sola Solis. O Mago; 1. De Mercúrio; 2. O Senhor da Ilusão. Fortuna, R. O. T. A. - A Roda. Volúpia, Babalon. Arte; A Seta. O Universo; O Universo Virgem.

TERCEIRA PARTE: AS CARTAS DA CORTE..........................................................................................


Observações gerais. Características gerais dos quatro dignitários. Descrição sumária das dezesseis cartas da corte. Cavaleiro de Bastões; rainha de Bastões; príncipe de Bastões; princesa de Bastões; cavaleiro de Copas; rainha de Copas; príncipe de Copas; princesa de Copas; cavaleiro de Espadas; rainha de Espadas; príncipe de Espadas; princesa de Espadas; cavaleiro de Discos; rainha de Discos; príncipe de Discos; princesa de Discos.

QUARTA PARTE: AS CARTAS MENORES............................................................................................


Os quatro ases; os quatro dois; os quatro três; os quatro quatros; os quatro cincos; os quatro seis; os quatro setes; os quatro oitos; os quatro noves; os quatro dez. A raiz dos poderes do fogo - ás de Bastões; Domínio, dois de Bastões; Virtude, três de Bastões; Conclusão, quatro de Bastões; Disputa, cinco de Bastões; Vitória, seis de Bastões; Valor, sete de Bastões; Rapidez, oito de Bastões; Força, nove de Bastões; Opressão, dez de Bastões. A raiz dos poderes da água - ás de Copas; Amor, dois de Copas; Abundância, três de Copas; Luxúria, quatro de Copas; Desapontamento, cinco de Copas; Prazer, seis de Copas; Deboche, sete de Copas; Indolência, oito de Copas; Felicidade, nove de Copas; Saciedade, dez de Copas. Ás de Espadas; Paz, dois de Espadas; Dor, três de Espadas; Trégua, quatro de Espadas; Derrota, cinco de Espadas; Ciência, seis de Espadas; Futilidade, sete de Espadas; Interferência, oito de Espadas; Crueldade, nove de Espadas. Ruína, dez de Espadas. Ás de Discos; Mudança, dois de Discos; Trabalho, três de Discos; Poder, quatro de Discos; Preocupação, cinco de Discos; Sucesso, seis de Discos; Fracasso, sete de Discos; Prudência, oito de Discos; Ganho, nove de Discos; Riqueza, dez de Discos.

INVOCAÇÃO - OS ATUS - MNEMÔNICA..............................................................................................

APÊNDICE A.....................................................................................................................................................
O comportamento do Tarô: seu uso na arte da adivinhação. A significadora; primeira operação; segunda operação - desenvolvimento da questão; terceira operação - mais um desenvolvimento da questão; quarta operação - penúltimos aspectos da questão; quinta operação - resultado final. Características gerais dos trunfos quando são usados.

APÊNDICE B......................................................................................................................................................


Correspondências. Diagrama 1: A escala-chave; diagrama 2 : A atribuição geral do Tarô; diagrama 3 : O cosmos chinês; diagrama 4 : O caduceu; diagrama 5 : Os números dos planetas; diagrama 6 : Os elementos e seus símbolos; diagrama 7 : As armas dos elementos; diagrama 8 : A esfinge; diagrama 9 : As dignidade essenciais dos planetas. Tabelas: trunfos, as quatro escalas de cor, atribuições das cartas da corte, atribuições das cartas menores, as dignidade essenciais dos planetas, a tripla trindade dos planetas, as triplicidades do zodíaco, as tríades vitais.


LISTA DAS ILUSTRAÇÕES
ILUSTRAÇÕES DO TEXTO

Página
O hexagrama unicursal, dias da semana, o lupa duplo no zodíaco...............................................................................
O caduceu......................................................................................................................................................................
As dignidade essenciais dos planetas...........................................................................................................................

LÂMINAS DO TARÔ E ILUSTRAÇÕES DE PÁGINA INTEIRA


O Hierofante............................................................................................................................................. frontispício
Volúpia.....................................................................................................................................................
Ás de Espadas............................................................................................................................................
Os Amantes...............................................................................................................................................
Trunfos: O Louco, O Mago, A Alta Sacerdotisa, A Imperatriz.....................................................................
Trunfos: O Imperador, O Hierofante, Os Amantes, A Carruagem.................................................................
Trunfos: Ajustamento, O Eremita, Fortuna, Volúpia.......................................................................................
Trunfos: O Pendurado, Morte, Arte, O Diabo.........................................................................................
Trunfos: A Torre, A Estrela, A Lua, O Sol.............................................................................................
Trunfos: O Aeon, O Universo.................................................................................................................
Cartas da corte: Bastões (cavaleiro, rainha, príncipe, princesa)..................................................................
Cartas da corte: Copas (cavaleiro, rainha, príncipe, princesa)................................................................
Cartas da corte: Espadas (cavaleiro, rainha, príncipe, princesa)............................................................
Cartas da corte: Discos (cavaleiro, rainha, príncipe, princesa)...............................................................
Cartas menores: Bastões (ás de Bastões, Domínio, Virtude, Conclusão)......................................................
Cartas menores: Bastões (Disputa, Vitória, Valor, Rapidez)....................................................................
Cartas menores: Bastões (Força, Opressão); Copas (ás de Copas, Amor)...................................................
Cartas menores: Copas (Abundância, Luxúria, Desapontamento, Prazer)................................
Cartas menores: Copas (Deboche, Indolência, Felicidade, Saciedade)..................................................
Cartas menores: Espadas (ás de Espadas, Paz, Dor, Trégua)..........................................................
Cartas menores: Espadas (Derrota, Ciência, Futilidade, Interferência)...............................................
Cartas menores: Espadas (Crueldade, Ruína); Discos (ás de Discos, Mudança).....................................
Cartas menores: Discos (Trabalho, Poder, Preocupação, Sucesso).......................................................
Cartas menores: Discos (Fracasso, Prudência, Ganho, Riqueza)..........................................................
O Sol........................................................................................................................................................
O Universo...............................................................................................................................................
A Escala-chave........................................................................................................................................
Atribuição geral......................................................................................................................................
O Cosmos chinês....................................................................................................................................
A Rosacruz.............................................................................................................................................
Os números dos planetas, os elementos e seus símbolos, as armas dos elementos, a esfinge...............


RODA E - WHOA !
A Grande Roda de Samsara.

A Roda da Lei (Dhamma).

A Roda do Tarô.

A Roda dos Céus.

A Roda da Vida.

Todas estas Rodas são uma; porém, de todas elas, apenas a Roda do TARÔ

é de teu proveito consciente.

Medita longa e larga e profundamente, Oh homem, sobre esta Roda, revolvendo-a

em tua mente!

Seja esta tua tarefa: ver como cada carta brota necessariamente de outra

carta, na devida ordem, d’O Louco ao Dez de Discos.

Então, quando tu conheceres a Roda do Destino por completo, tu talvez

percebas AQUELA Vontade que a moveu primeiramente. [Não há

primeiro ou último.]

E eis! tu passaste pelo Abismo.


O Livro das Mentiras 


PRIMEIRA PARTE - A TEORIA DO TARÔ


I

O CONTEÚDO DO TARÔ


O Tarô é um baralho de setenta e oito cartas. Há quatro naipes, tal como nos baralhos atuais, que dele são derivadas. Porém, as cartas da corte são em número de quatro, ao invés de três. Adicionalmente, existem vinte e duas cartas chamadas de trunfos, das quais cada qual é uma figura simbólica com um título próprio.
À primeira vista, pode-se supor que a sua disposição seja arbitrária, mas não é. Ela é ligada, como se revelará mais tarde, à estrutura do universo e do Sistema Solar em particular, tal como simbolizado pela Santa Qabalah, o que será explicado no momento oportuno.
A ORIGEM DO TARÔ
A origem desse baralho é muito obscura. Algumas autoridades procuram fazê-la recuar aos antigos Mistérios Egípcios, outras tentam fazê-la avançar a uma época tão recente quanto o século XV, ou mesmo o XVI. Porém, o Tarô certamente existia desde o século XIV, sob o que pode ser denominado sua forma clássica, visto que baralhos dessa data ainda existem, e sua forma não alterou em nenhum aspecto considerável desde aquela época.
Na Idade Média, essas cartas eram bastante empregadas na adivinhação e cartomancia, especialmente pelos ciganos, de modo que era costume referir-se ao Tarô dos Boêmios ou Egípcios. Quando foi descoberto que os ciganos, a despeito da etimologia da palavra, eram de origem asiática, algumas pessoas tentaram encontrar a fonte do Tarô na arte e literatura indianas.
Não há necessidade, aqui, de adentrarmos qualquer discussão acerca desses pontos controvertidos. *

* Alguns eruditos supõem que a R.O.T.A. (Rota, roda) consultada no Collegium ad Spiritum Sanctum (ver o manifesto Fama Fraternitatis dos irmãos da Rosy Cross) era o Tarô.


A TEORIA DAS CORRESPONDÊNCIAS DO TARÔ
Para o nosso propósito, tradição e autoridade carecem de importância. A Teoria da Relatividade de Einstein não se apóia no fato de ter sido confirmada quando foi submetida à prova. A única teoria de fundamental interesse a respeito do Tarô é que ele é um admirável retrato simbólico do universo, baseado nos dados da Santa Qabalah.
Será conveniente, no desenrolar deste ensaio, descrever a Santa Qabalah, até certo ponto completamente, e discutir sobre os seus detalhes relevantes. A parte dela que aqui nos importa chama-se Gematria, uma ciência na qual o valor numérico de uma palavra hebraica - sendo cada letra também um número - liga tal palavra a outras de valor idêntico, ou um múltiplo seu. Por exemplo, AChD, unidade (1 + 8 + 4 = 13), e AHBH, amor (1 + 5 + 2 + 5 = 13). Isto indicaria que a natureza da unidade é o amor. Daí, IHVH, Jehovah (10 + 5 + 6 + 5 = 26 = 2 x 13). Portanto Jehovah é unidade manifestada na dualidade, e assim por diante. Uma importante interpretação do Tarô é que ele é um Notariqon da Torah hebraica, a Lei, e também de ThROA, o portal. Ora, pelas atribuições yetziráticas (ver tabela no final), pode-se ler nessa palavra “O Universo”, o sol recém nascido, zero. Esta é a verdadeira doutrina mágica de Thelema: o zero é igual a dois. Do mesmo modo, pela Gematria, o valor numérico de ThROA é 671 = 61 x 11. Ora, 61 é AIN, nada ou zero, e 11 é o número da expansão mágica; desta maneira, também, conseqüentemente, ThROA anuncia aquele mesmo dogma, a única explicação filosófica satisfatória do cosmos, sua origem, modo e objeto.
Um completo mistério circunda a questão da origem deste sistema; qualquer teoria que satisfaça os fatos exige hipóteses que são inteiramente absurdas. Para explicá-lo cabalmente é preciso apresentar como postulado, no pretérito obscuro, uma fantástica assembléia de doutos rabinos que solenemente calcularam todos os tipos de combinações de letras e números e criaram a língua hebraica com base nessa série de manipulações. Tal teoria é francamente contrária não apenas ao senso comum como também aos fatos históricos e a tudo que conhecemos acerca da formação da língua. E, não obstante, há uma evidência igualmente forte de que existe algo, não um pouco de algo, mas muito de algo, um algo que exclui todas as teorias de coincidência plausíveis, na correspondência entre palavras e números.
Constitui fato inegável que qualquer número não é meramente um a mais que o número anterior e um a menos que o número subseqüente, mas sim uma idéia individual independente, uma coisa em si, uma substância espiritual, moral e intelectual, não apenas equiparável a qualquer ser humano, mas muito superior. Suas relações meramente matemáticas são realmente as leis de seu ser, mas não constituem o número, tanto quanto as leis químicas e físicas da reação na anatomia humana não proporcionam um retrato completo de um homem.
EVIDÊNCIA DE UMA TRADIÇÃO DE INICIADOS DO TARÔ
1. Éliphas Lévi e o Tarô
Embora as origens do Tarô sejam perfeitamente obscuras, há uma porção bastante interessante da história absolutamente moderna, bem enquadrada na memória do homem vivo, que é extremamente significativa e em relação à qual se constatará, à medida em que a tese é desenvolvida, que sustenta o Tarô de uma forma notabilíssima.
Em meados do século XIX, surgiu um grande cabalista e estudioso, que ainda incomoda as pessoas obtusas devido ao seu hábito de divertir-se às suas custas, fazendo-as de tolas postumamente. Seu nome era Alphonse Louis Constant e era um abade da Igreja romana. Para obter seu nom-de-guerre, traduziu seu nome de batismo para o hebraico: Éliphas Lévi Zahed, sendo conhecido mais comumente por Éliphas Lévi.
Lévi era um filósofo e um artista, além de ser um supremo estilista em literatura e um gracejador prático da variedade denominada Pince sans rire; e, sendo artista e profundo simbolista, era imensamente atraído pelo Tarô. Quando se achava na Inglaterra, propôs a Kenneth Mackenzie, famoso estudioso do oculto e maçom de alto grau, a reconstituição e edição de um baralho concebido cientificamente.
Nas suas obras, ele apresenta novas representações dos trunfos chamados A Carruagem e O Diabo. Parece ter entendido que o Tarô era realmente uma forma pictórica da Árvore da Vida qabalística, que é a base de toda a Qabalah, a tal ponto que compôs suas obras apoiando-se sobre essa base. Quis escrever um tratado completo de magia. Dividiu seu assunto em duas partes: teoria e prática, as quais denominou respectivamente Dogma e Ritual. Cada parte possui vinte e dois capítulos, um para cada qual dos vinte e dois trunfos; cada capítulo trata do assunto representado pela figura exibida pelo trunfo. A importância da precisão da correspondência será mostrada no devido tempo.
Neste ponto, aportamos para uma ligeira complicação. Os capítulos apresentam correspondência, mas o fazem erroneamente, o que só pode ser explicado pelo fato de Lévi sentir-se preso pelo seu juramento original de segredo à Ordem dos Iniciados que lhe concedera os segredos do Tarô.
2. O Tarô nos manuscritos cifrados
Na época da Revolução Francesa, a partir dos meados do século XVIII, ocorreu um movimento similar na Inglaterra, cujo interesse se centrava nas religiões antigas, suas tradições de iniciação e taumaturgia. Sociedades de estudiosos, algumas secretas ou semi-secretas, foram fundadas ou restabelecidas. Entre os membros de um desses grupos (a Loja maçônica Quatuor Coronati), havia três homens: o Dr. Wynn Westcott, um médico legista de Londres, o Dr. Woodford e o Dr. Woodman. Há uma certa controvérsia quanto a qual desses homens se dirigiu a Farrington Road, ou se foi a Farrington Road que se dirigiram. Qualquer que seja o caso, não há dúvida de que, lá, um deles comprou um livro antigo, de um obscuro livreiro ou o encontrou numa biblioteca. Isso aconteceu em torno de 1884 ou 1885, e é indiscutível que nesse livro se encontravam alguns documentos avulsos, cifrados. Esses manuscritos cifrados continham o material para a fundação de uma sociedade secreta, a qual pretendia conferir a iniciação por meio de rituais.
Entre aqueles manuscritos, havia uma correspondência dos trunfos do Tarô às letras do alfabeto hebraico. Quando isto é examinado, fica absolutamente claro que a atribuição errada de Lévi relativamente às letras foi deliberada, pois ele conhecia a correspondência correta e considerava seu dever ocultá-la (tendo-lhe sido grandemente problemático camuflar seus capítulos!).
Supõe-se que os manuscritos cifrados datavam dos primeiros anos do século XIX. Há uma nota numa das páginas que parece ser na letra de Éliphas Lévi. Parece extremamente provável que ele tenha tido acesso a esse manuscrito quando visitou Bulwer-Lytton na Inglaterra. De uma forma ou de outra, como já foi observado, Lévi mostra constantemente que conhecia as correspondências corretas (com a exceção, é claro, de Tzaddi; - por que? - veremos na seqüência) e tentou usá-las sem desvelar indevidamente quaisquer dos segredos que havia jurado guardar.
Tão logo se esteja de posse das correspondências ou atribuições verdadeiras, o Tarô salta para a vida. Sua justeza causa perplexidade intelectual. Todas as dificuldades produzidas pelas atribuições tradicionais, tal como entendidas pelos estudiosos comuns, desaparecem num átimo. Por esta razão, tende-se a dar crédito à pretensão dos promulgadores do manuscrito cifrado, de que eram guardiões de uma tradição da verdade.
3. O Tarô e a Ordem Hermética da Golden Dawn
Deve-se agora discorrer a respeito da história da Ordem Hermética da Golden Dawn, a sociedade reconstituída pelo Dr. Westcott e seus colegas, a fim de exibir provas adicionais da autenticidade da pretensão dos promulgadores do manuscrito cifrado.
Em meio a esses documentos, além da atribuição do Tarô, havia certos esboços de rituais, que pretendiam conter os segredos da iniciação; o nome (com um endereço na Alemanha) de uma certa Fraülein Sprengel era mencionado como se fosse o da autoridade emissora. O Dr. Westcott escreveu-lhe e, mediante a permissão dela, a Ordem da Golden Dawn foi fundada em 1886.
(A G. D. é apenas um nome da Ordem Externa ou Preliminar da R..R.. et A..C.* , que é, por sua vez, uma manifestação externa da AA**, que é a verdadeira Ordem dos Mestres*** (ver Magick).

* Rosae Rubeae et Aureae Crucis (NT).

** Astrum Argenteum (NT).

*** Uma impudente fraude sem substância e de crescimento meteórico intitulando a si mesma Order of Hidden Masters apareceu recentemente... e desapareceu.

O gênio que tornou isso possível foi um homem chamado Samuel Liddell Mathers. Depois de certo tempo, Fraülein Sprengel morreu. Uma carta a ela dirigida, solicitando conhecimento mais avançado, ensejou uma resposta de um de seus colegas. Esta carta informava ao Dr. Westcott sobre a morte dela e acrescia que o autor da missiva e seus colegas jamais haviam aprovado a ação de Fr. Sprengel, no sentido de autorizar qualquer forma de trabalho de grupo, mas que, devido à grande reverência e estima que tinham por ela, preferiram deixar de adotar uma oposição aberta. Prosseguia dizendo que “essa correspondência tinha que cessar agora”, mas que, se eles desejassem mais conhecimento avançado, poderiam perfeitamente obtê-lo utilizando de maneira apropriada o próprio conhecimento que já detinham. Em outras palavras, deviam empregar seus poderes mágicos para fazer contato com os Chefes Secretos da Ordem (o que é, a propósito, um procedimento bastante normal e tradicional).
Pouco depois, Mathers, que fizera manobras que o levaram à chefia da Ordem, anunciava que havia realizado esse vínculo e que os Chefes Secretos o tinham autorizado a continuar o trabalho da Ordem, sob sua exclusiva orientação. Entretanto, nada há, neste caso, que evidencie que seu testemunho correspondesse à verdade, pois nenhum conhecimento novo particularmente importante chegou à Ordem, a ponto de realmente parecer comprovado existir não mais do que aquilo que Mathers poderia ter adquirido por meios normais, de fontes bastante acessíveis, como o Museu Britânico. Estas circunstâncias, somadas a muita intriga trivial, conduziram a uma séria insatisfação entre os membros da Ordem. Nesse caso, a idéia defendida por Fr. Sprengel, de que o trabalho de grupo numa Ordem deste tipo é possível, revelou-se equivocada. Em 1900, a Ordem, sob a forma então existente, estava destruída.
O motivo desses dados é simplesmente mostrar que, naquela época, a preocupação principal de todos os membros sérios da Ordem era entrar em contato com os próprios Chefes Secretos. Em 1904, o sucesso foi obtido por um dos mais jovens membros da Ordem, Frater Perdurabo. Os detalhes completos deste acontecimento são dados em The Equinox of the Gods (O Equinócio dos Deuses). *

* A mensagem dos Chefes Secretos é dada n’ O Livro da Lei, que foi editado privadamente para iniciados e publicado em O Equinócio, vol. I, números 7 e 10; também em O Equinócio dos Deuses. Em Português, O Livro da Lei encontra-se no volume “Os Livros Sagrados de Thelema” (Equinócio III.9), co-publicado pelas editoras Anúbis e Madras.


Não seria útil, nesta oportunidade, discutir-se sobre a prova que estabelece a verdade dessa pretensão. Mas cumpre observar que se trata de evidência interna. Ela existe no próprio manuscrito. Não faria diferença se a afirmação de quaisquer das pessoas envolvidas viesse a se mostrar falsa.



4. A natureza da evidência
Esta digressão histórica foi necessária para a compreensão das condições desta investigação. Convém considerar agora a numeração peculiar dos trunfos. Parece natural a um matemático iniciar a série de números naturais com o zero, mas isto incomoda bastante a mente não treinada matematicamente.
Nos ensaios e livros tradicionais sobre o Tarô, supõe-se que a carta com o número 0 fica entre as cartas XX e XXI. O segredo da interpretação dos iniciados, o qual torna luminoso o significado integral dos trunfos, consiste simplesmente em colocar essa carta marcada com o “0” em seu lugar natural, onde qualquer matemático a colocaria, ou seja, à frente do número “Um”.
Mas ainda há uma peculiaridade, um transtorno na seqüência natural, a saber: as cartas VIII e XI têm que ser intercambiadas, a fim de preservar a atribuição correta. A carta XI se chama Força e nela aparece um leão, sendo bastante óbvia sua referência ao signo zodiacal do Leão, enquanto que a carta VIII se chama Justiça, representando a figura simbólica convencional, entronada e munida de espada e balança, evidentemente se referindo ao signo zodiacal de Libra, a Balança.
Frater Perdurabo realizara um estudo muito profundo do Tarô desde sua iniciação à Ordem, em 18 de novembro de 1898; três meses depois, atingira o grau de Practicus e, como tal, teve o direito de conhecer a atribuição secreta. Manteve-se estudando tal atribuição e os manuscritos explicativos correlatos. Averiguou todos esses atributos dos números em relação às formas da natureza e nada descobriu que fosse incongruente. Mas, em 8 de abril de 1904 e.v., enquanto escrevia O Livro da Lei a partir do ditado do mensageiro dos Chefes Secretos, parece ter formulado mentalmente uma questão, sugerida pelas palavras do capítulo I, versículo 57: “a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus” (a “ Casa de Deus” é um nome do trunfo do Tarô de número XVI). A questão era neste sentido: - “Captei estas atribuições corretamente?” E surgiu uma resposta intercalada: “Todas estas velhas letras do meu Livro são corretas; mas x não é a Estrela. Isto também é secreto: meu profeta o revelará ao sábio”.
Isso era demasiado irritante. Se Tzaddi não era “a Estrela”, o que era? E o que era Tzaddi ? Durante anos, ele tentou permutar essa carta, A Estrela, de número XVII, com alguma outra. Não teve êxito. A solução somente lhe veio muitos anos depois. Tzaddi é O Imperador e, portanto, as posições das cartas XVII e IV têm que ser trocadas. Esta atribuição é bastante satisfatória.
Sim, mas é algo bem mais do que satisfatório; é, para o pensamento lúcido, a evidência mais convincente possível de que O Livro da Lei é uma mensagem genuína dos Chefes Secretos, já que A Estrela se refere a Aquário no zodíaco e O Imperador, a Áries. Ora, Áries e Aquário estão a cada lado de Peixes, tal como Leão e Libra estão a cada lado de Virgem, ou seja, a correção contida n’O Livro da Lei produz uma simetria perfeita na atribuição zodiacal, como se fosse um laço formado numa extremidade da elipse, correspondendo exatamente ao laço existente na outra extremidade.
Estas matérias soam um tanto técnicas e, de fato, o são. Mas, quanto mais se estuda o Tarô, mais se percebe a admirável simetria e perfeição do simbolismo. Todavia, mesmo para o leigo, deve ser evidente que o equilíbrio e o Ajustamento são essenciais para qualquer perfeição, e a elucidação desses dois embaraços nos últimos cento e cinqüenta anos representa, indubitavelmente, um fenômeno bastante notável.
RESUMO DAS QUESTÕES ATÉ AQUI DISCUTIDAS
1. A origem do Tarô é totalmente irrelevante, mesmo se for certa. Como um sistema, ele tem que se sustentar ou cair em função de seus próprios méritos.
2. O Tarô é, sem qualquer dúvida, uma tentativa deliberada de representar, sob forma pictórica, as doutrinas da Qabalah.
3. A evidência para isso é muito semelhante à evidência apresentada por uma pessoa que está fazendo palavras cruzadas. Ela sabe, pelas pistas da horizontal, que sua palavra é “ESMAG - espaço vazio - R”; portanto, é certo, sem possibilidade de erro, que o espaço vazio seja um “A”.
4. Estas atribuições são, num certo sentido, um mapa simbólico convencional, o qual poderia ser inventado por alguma pessoa ou algumas pessoas de grande imaginação artística e engenhosidade, combinadas a uma erudição e clareza filosófica de envergadura quase impensável.
5. Tais pessoas, porém, por mais eminentes que suponhamos que tenham sido, não seriam absolutamente capazes de produzir um sistema tão complexo sem a assistência de superiores, cujos processos mentais pertenciam, ou pertencem, a uma dimensão mais elevada.

((ilustr. Hexagrama unicursal - Declarou-se sempre ser impossível traçar um hexagrama unicursal, mas isto foi agora realizado. As linhas, entretanto, são estritamente euclidianas... não possuem largura.))


((ilustr. Os Dias da Semana - Leia em torno do hexágono a Ordem (mágica) dos Sete Planetas Sagrados. Leia ao longo do hexagrama a ordem dos dias da semana (acredita-se que esta hábil descoberta se deva ao falecido G. H. Frater D.D.C. F.))
((Ilustr. Diagrama do lupe duplo no zodíaco))

Poder-se-ia, à guisa de analogia, tomar o jogo de xadrez. Este jogo evoluiu a partir de uma origem bem simples. Tratava-se de uma batalha mímica para guerreiros cansados, mas as sutilezas do jogo moderno - que atualmente foram, graças a Richard Réti, bem além do cálculo, para adentrar o domínio da criação estética - estavam latentes no esquema original. Os criadores do jogo estavam “construindo melhor do que o sabiam”. É possível, é claro, argumentar que essas sutilezas surgiram no decorrer do desenvolvimento do jogo, e efetivamente está bem claro, historicamente, que os primeiros jogadores, cujos jogos estão registrados, não detinham a concepção consciente de nada além de uma variedade de estratagemas bastante imperfeitos e elementares. É inteiramente possível argumentar que o jogo de xadrez é meramente um dos muitos jogos que se desenvolveram, enquanto diversos outros jogos se extinguiram devido a algum acidente. Pode-se, também, argumentar que o xadrez moderno esteve latente no jogo original por mero acaso.


A teoria da inspiração é realmente muito mais simples e dá conta dos fatos sem violar a lei da parcimônia.


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