Showbizz introdução



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Encontro19.12.2017
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SHOWBIZZ


Introdução

 

 



 

 

Sentado numa confortável cadeira do luxuoso camarim e contemplando sua jovial imagem no grande espelho à frente, Leonel meditava com satisfação sobre sua vida e a situação em que ele e o amigo Espírito Santo alcançaram. Estava rodeado por cabeleireiros e maquiadores e fazia uma reflexão no quanto fora difícil chegar àquele ponto. Tudo fora muito árduo, mas valera a pena. O sacrifício e humilhações pelos quais passaram ficou para trás. O que mais ele queria na vida era ter o reconhecimento do seu talento como cantor, o que de fato, naquele momento, sentia que havia alcançado. Os dois tinham grande experiência na difícil jornada da estrada artística, porque havia mais de dez anos que trabalhavam com afinco, dedicando cem por cento de suas vidas unicamente para aquela profissão e em busca do sucesso. Sentia-se, naquele momento, aliviado e agradecido por Deus ter iluminado seu caminho e do amigo e finalmente o povo ter reconhecido o talento da dupla Leonel e Espírito Santo.



- Como tudo fica diferente quando se alcança o reconhecimento e o sucesso – pensou num suspiro. - As coisas ficam fáceis, mil pessoas ao seu redor. Como é gratificante e… bom.

Discretamente contemplava o luxo do camarim onde eles recebiam os mimos daquelas pessoas. Na sua frente um grande espelho de cristal, emoldurado por uma quantidade imensa de luzes, refletia a sua imagem com perfeita nitidez, bem diferente dos ambientes em que eram obrigados a se trocar quando das centenas e centenas de apresentações que fizeram em circos, pequenas casas de shows e bares pelo qual passaram ao longo da profissão. Nem mesmo no seu mais otimista vaguear pensaria um dia estar ali, sequer para assistir o show de um artista famoso, quanto mais para ele e o companheiro, serem os artistas. Os protagonistas do evento.

O Canecão, no Rio de Janeiro, era a casa de shows mais importante do Brasil e conseguir fazer uma apresentação nele era como a libertação de tempos ruins para qualquer artista. Naquele instante Leonel lembrou uma famosa frase de Ronaldo Boscoli se referindo ao Canecão: ”Nesta casa se escreve a história da Música Popular Brasileira”. Ninguém mais apropriado para fazer esse comentário. O homem que conheceu e dirigiu centenas de monstros sagrados da música brasileira e que ainda por cima era sobrinho-bisneto da famosa compositora Chiquinha Gonzaga. Era justamente nessa famosa casa de shows que a dupla Leonel Espírito e Santo se apresentariam naquela primeira noite, princípio de uma temporada de uma semana.

O panorama na música brasileira mudara muito e para melhor nos últimos anos e as duplas sertanejas originárias do interior dos Estados, ganharam espaço no meio artístico. Já fora o tempo, pensava Leonel, em que era um estilo de música pouco conhecido e duplas sertanejas não passavam de nomes folclóricos como Charanga e Cafezá, Alvarenga e Bentinho e assim por diante. Hoje, duplas como Xitãozinho e Xororó, Zezé de Camargo e Luciano, dentre tantas outras vende imensamente bem e atraem grandes públicos. Pegando carona no momento e com um bom trabalho, finalmente eles estavam fazendo muito sucesso. Naquele instante Leonel olhou para seu companheiro que estava sentado noutra cadeira, também cercado por maquiadores e pensou:

- Como o Espírito Santo se adaptou rápido a boa vida – riu baixinho.

Seus pensamentos foram interrompidos pela entrada de Marcelo no camarim. Ele falava rápido, alto e estava visivelmente atarantado.

- Vamos! Vamos! – disse alto. – Leonel! Espírito Santo! Vocês ainda não trocaram de roupa? Não podemos nos atrasar!

Era o empresário da dupla.

Leonel apenas o olhou e comentou tranqüilo, como sempre fazia:

- Estamos aguardando a Carmem com as roupas.

- E essa figurinista ainda não as trouxe? Onde ela está? Carmem! – vociferou.

- Para de gritar homem – disse Carmem, que estava nas suas costas. – Fique sossegado que está tudo arrumado.

- Que roupas usarão? Espero que não os façam entrar de jeans!

- Ficou maluco Marcelo. Os meninos estarão bem trajados com ternos Armani. Ou você pensa que são caipiras - riu.

- Não penso nada. Nem quero pensar. Quero o melhor para eles e para o sucesso do show.

Leonel observa a agitação e se lembrou dos velhos tempos em que fazia várias apresentações, em cidades diferentes do interior de São Paulo, por vezes, até com a mesma roupa com a qual passava o dia dirigindo o velho carro doado por seu pai e que ele e Espírito Santo usavam para se deslocar para os shows.

- Vou viu como está a casa Leonel? – perguntou Marcelo.

- Não. Não sai daqui. Quando cheguei vi grande movimento nas ruas. Está com boa lotação? – perguntou com certa apreensão o cantor.

- Se está!!! – exclamou com brilho nos olhos – Está lotada e você verá agora. Jabota! – Gritou. - Traga o monitor.

Logo entrou rápido no camarim um rapaz franzino de cabelos longos, usando uma touca preta e roupas desalinhadas. Trazia à mão um monitor de televisão de poucas polegadas.

- Veja como a casa está cheia! – disse Marcelo, mostrando o monitor que deveria esta ligada a alguma câmera interna.

- Meu Deus! – exclamou Leonel quando viu a tela. – Está lotada mesmo! Mostra para o Espírito Santo – mandou exultante.

Jabuti tratou de levar a tv até o outro cantor que a olhou e fez sinal de positivo para Leonel piscando um dos olhos.

- Nossa responsabilidade aumenta ao fazer um show para um público desses – disse Leonel com ar preocupado.

- Fique sossegado, amigo – disse Marcelo lhe afagando o ombro. – Vocês são as bolas da vez meus amiguinhos. O momento é da dupla Leonel e Espírito Santo. Sei que o talento de vocês está acima de tudo. Vocês estão tocando em todo Brasil e aqui é apenas o começo da grande caminhada de sucesso. A grande virada! A temporada de vocês aqui no Canecão, já está com todas as apresentações vendidas. 

- Que bom, graças a Deus. Lutamos muito para isso. Para chegar aqui, Marcelo – disse Leonel num forte suspiro.

- É isso aí amiguinhos! Confiança que as apresentações serão sucesso total! – deu um soco no ar. Depois foi até Espírito Santo e também lhe afagou o obro e perguntou: - está nervoso?

- Não muito – respondeu o cantor com seu ar tímido, - apenas com um frio no estômago.

- É normal… é normal – disse Marcelo.

- Também acho. Até quando fazia shows em circos ou em bares sempre sentia essa sensação, mas depois tudo passava.

- Passa! Vai passar tudo quando você sentir o calor desse público aí que aguarda vocês. É gente fina! Vocês estão atraindo a nata da sociedade para seus shows meus amiguinhos. O caminho está feito, agora é só usufruir com profissionalismo. Agora vamos! Não quero atraso. Como disse, temos que ser profissionais! Carmem vista os homens! Quero os dois arrasando nesta estréia.

- Vamos lá pessoa – disse Carmem. – Os ternos já estão prontos. Quero que o povo veja vocês como cantores elegantes, nada de caipiras. Vestirão ternos caros e de marca famosa. Vamos construir uma imagem vitoriosa e chique – determinou com firmeza.

Os dois trataram de se trocar e Carmem deus os toques e a decisão final quando se deu por satisfeita.

Cumprindo com rigor o horário estabelecido a dupla entrou no palco sob um show de luzes e uma música apoteótica executada pela banda composta por mais de trinta músicos e que havia participado de exaustivos ensaios com os cantores. Tudo estava minuciosamente planejado. Marcelo à frente de um batalhão de auxiliares não deixou para trás nenhum detalhe que pudesse atrapalhar o sucesso da estréia.

Os dois artistas foram recebidos por uma platéia de pé e empolgada que os aplaudiam calorosamente.

Leonel e Espírito Santo sentiram os corpos arrepiarem e uma sensação gostosa os envolver.

Sentados num camarote reservado com exclusividade, estavam Paul Richard e John Gere representantes da matriz americana do selo Goldmusic, a gravadora dos artistas. Os dois haviam chegado dos Estados Unidos com a missão de avaliar o sucesso da dupla de cantores. Num camarote ao lado, dois casais e seus filhos estavam extasiados com apresentação da dupla.

- Valeu você ter me convidado, Rangel – disse Rodrigo para o amigo.

- Eu sabia que você ia gostar. Acompanho essa dupla desde que eram desconhecidos, ainda no interior de São Paulo. São de perto de minha cidade. Já os vi cantar várias vezes em pequenos shows que faziam no começo da carreira.

- Eu também já ouvi algumas músicas deles, mas nada que tivesse chamado muita a minha atenção.

- Pois a partir de hoje tenho certeza que ficará fã deles. Eles cantam bem demais.

- Silêncio, Rangel. O show vai começar – repreendeu Suzany, sua esposa.

A temporada no Canecão foi sucesso absoluto para os cantores Espírito Santo e Leonel.

 

 


 

 

 



 

Parte I

 

 



 

A música “parabéns pra você” era cantada por todos da família e convidados. O garoto Leonel postado no meio da mesa decorada discretamente, mas de um natural bom gosto, não escondia seu contentamento. Era todo sorriso e o centro das atenções. Estava completando sua oitava primavera e já era um lindo varão. Garoto de belo sorriso e olhar esperto. Quando o pessoal presente parou de cantar emendou-se um “assopra as velas, assopra as velas!”. Leonel encheu de ar os jovens e potentes pulmões e soprou com força, apagando as oito pequenas velas de uma só vez.

- Meu Deus! – exclamou Pirilo, pai do garoto. – O menino tem força. Por isso que vive cantando pela casa.

O gesto de Leonel foi brindado com gritos e palmas para depois se transformar num verdadeiro espetáculo de abraços e beijos dos tios, tias, amigos da família e amiguinhos do menino. Em seguida ele passou a abrir dezenas de presentes, sempre mostrando alegria ao desvendar a surpresa e saber o que ganhara em cada embrulho; mas mesmo diante de tanta alegria via-se nos seus olhos inquietos que aguardava um presente diferenciado que ainda não havia recebido. Seu pai Pirilo sabia o que era, e, fazendo suspense cochichava baixinho com a mulher Orlanda, mãe do aniversariante:

- Ele esta aguardando o presente que me pediu – disse sorrindo.

- Não faz isso com o menino, homem! Dá logo o presente. Porque você esta escondendo.

- Vou dar, amor. Só quero fazê-lo mais feliz quando receber.

- Para com isso e dar logo o presente do menino, Pirilo! – repreendeu Orlanda.

- Sim. Tudo bem – concordou Pirilo levantando os braços num gesto de paz. Em seguida levantou-se da mesa e elevando a voz disse: - O meu filho recebeu muitos presentes e sei que esta muito feliz, mas o pai aqui comprou para ele um presente especial e que sei que é o que ele mais quer.

Todos bateram palmas e os olhos do garoto brilharam forte. Pirilo foi até seu quarto e retornou com o grande embrulho ricamente coberto por um lindo papel de presentes.

Leonel correu de encontro o pai que o abraçou, beijou-lhe e lhe passou o presente. Leonel o abriu e encheu os olhos de lágrimas ao ver a linda viola de doze cordas que ganhara. Abraçou-se ao instrumento e caiu em prantos. Não conteve a alegria e chorou copiosamente. Era o que mais desejava na vida e como não sabia tocar ainda, mesmo assim disse ao pai que cantaria uma música em agradecimento.

- Você não sabe tocar, mas pode cantar filho – disse Pirilo.

- Não sei tocar pai, mas sei cantar e aprendi uma música linda e quero cantar para vocês – respondeu.

Todos ficaram em silêncio olhando para Leonel que soltou a voz, ainda infantil, mas de timbre diferenciado. Era uma voz ainda imatura, mas agradável e forte. Cantou uma moda de viola que deixou todos os presentes surpresos pela qualidade. Quando terminou todos aplaudiram e o pai Pirilo o abraçou e disse com os olhos marejados:

- Meu filho você cantou a Virgem Aparecida de Vieira e Vierinha?

- Sim, pai – respondeu com simplicidade.

- Essa moda é difícil e você… - não pode mais falar embargado pela emoção.

 

 



Trabalhando sob o forte sol, consertando uma cerca do curral da pequena fazenda estava Crescêncio e o filho Adolfo de apenas dez anos.

- A festa esta boa, né pai – disse Adolfo.

- Sim filho. É o aniversário do Leonel, filho do patrão – respondeu sem parar o serviço.

- Deve ter bolo já que é aniversário – falou com ingenuidade o rapaz.

- Tem sim, mas essas coisas não são para nossos bicos filho – disse Crescêncio com humildade. - Seu Pirilo é muito bom, mas é o patrão.

- Eu só queria um pedaço de bolo – reclamou Adolfo.

- Para com isso menino. Já trouxe minha água então volta para casa.

- Sim, senhor – disse Adolfo, saindo cabisbaixo. – Queria tanto um pedaço de bolo com guaraná – resmungou.

- Cala a boca filho e vai pra casa – repreendeu Crescêncio. Tinha o coração apertado por não poder fazer a vontade do filho, mas nada podia fazer.

O garoto colocou um velho chapéu na cabeça para se proteger do sol, e partiu.

Crescêncio continuou com seu serviço até o entardecer e quando se preparava para ir para casa o patrão Pirilo apareceu.

- E aí Crescêncio, com está o serviço?

- Está indo patrão – disse. – Acho que amanhã termino.

- Não tem perigo dos animais fugirem hoje de noite? – perguntou.

- Também fiquei preocupado, por isso fechei provisoriamente a parte que falta consertar. Os bois não poderão passar.

- Bom. Muito bom. Assim fico sossegado. Você viu a festinha de aniversário do Leonel? – perguntou, mudando o rumo da conversa.

- Sim. Vi a movimentação.

- Porque não mandou o Adolfo ir lá?

- Patrão… o menino é… acanhado – inventou uma desculpa.

- Acanhado? – riu Pirilo. – Ele ou você homem?

- O senhor sabe, seu Pirilo. Somos pessoas humildes e não temos costume com festas, desculpe.

Pirilo voltou a rir.

- Pare com isso Crescêncio, nós nos conhecemos há muito tempo e você sabe que minha casa também é humilde. Como sabia que o Adolfo não apareceria na festa, a Orlanda mandou umas fatias de bolo para você levar para seus filhos. Para os dois meninos, para você e a Hermenegilda.

- Muito agradecido, seu Pirilo – disse Crescêncio, pegando a travessa da mão do patrão. – Amanhã devolvo a vasilha.

Ficou bastante satisfeito porque ficara com dó do filho ter voltado para casa com vontade de comer bolo e agora levaria para ele, para o irmão Aldo, para a mulher e comeria também um pedaço, pois também gostava.

Quando chegou em casa foi uma grande alegria.

- Seu Pirilo é um homem bom – disse Hemenegilda, esposa de Crescêncio.

- Muito bom. Tem um coração grande! – exclamou.

- Pai quem estava cantando lá no aniversário era o Leonel? – perguntou Adolfo.                                  

- Não sei, filho, mas acho que era – respondeu.

- O senhor gostou de ouvir ele cantar?

- Nem prestei atenção. Porquê?

- O senhor não acha que eu canto melhor?

- Claro, claro. Você canta muito bem. Mas não estou entendendo o porque da sua preocupação.

- Todo mundo vive falando que o Leonel canta bem e tal. Acho que só porque é filho de homem rico e … - vacilou um pouco – é metido a bonito.

A gargalhada do irmão Aldo, dois anos mais velho, foi alta ao ouvir a afirmação de Adolfo e em seguida falou:

- Para com isso Adolfo! Está achando o Leonel bonito! – continuou rindo, fazendo troça do irmão.

- Não foi bem isso… - quis se corrigir.

- Parem meninos! – interveio a mãe. – Ele não achou o Leonel bonito da forma que você está pensando Aldo. O Leonel é um menino muito bonito mesmo! – depois abraçou o filho Adolfo, lhe fez um afago e disse com carinho: - Mas você, meu amor, é muito bonito também e canta tão bem quanto ele.

- Canto melhor, mãe – corrigiu o filho.

- Qual o motivo dessa birra Adolfo? Você canta melhor sim – disse a mãe para não aborrecer mais o filho, - porém não fica bem, nem é educado você ficar dizendo: “só porque é filho de homem rico”. O seu Pirilo não é rico, é apenas um homem com algumas posses e é patrão do seu pai.

- Isso meu filho – emendou Crescêncio. – Ele é uma ótima pessoa e não podemos falar mal dele ou de seus filhos.

- Desculpa pai – disse Adolfo, - mas eu canto melhor que o Leonel – insistiu.

- E eu canto melhor que você – disse Aldo rindo.

Adolfo nada falou e continuou degustando seu pedaço de bolo.

- Além do que eu sei tocar viola e você não – continuou Aldo.

- Em lugar de ficar zombando do seu irmão, deveria era ensiná-lo a tocar também – disse Crescêncio.

- Ele está brincando pai. Todo dia fica me ensinando a tocar e eu canto melhor que ele – disse Adolfo.

- Tu cantas melhor que eu pirralho! Duvido!

Aldo levantou da mesa foi até o quarto e trouxe a viola que estava cuidadosamente embrulhado com um lençol. Com cuidado desempacotou-a e passou e dedilhar algumas notas.

- Vou cantar uma moda do Sérgio Reis – disse.

- Menino da Porteira? – quis saber Adolfo. – Vi você ensaiando, mas eu também sei a letra inteirinha.

- Então canta comigo.

- Sim.


Aldo passou a tocar e cantar junto com Adolfo que tinha uma ótima voz.

Os dois passaram a ensaiar muitas outras músicas sertanejas e nos anos seguintes, ainda adolescentes formaram a dupla Aldo e Adolfo que animava festinhas e viviam distribuindo fitas gravadas com as músicas que cantavam.

 

 

Depois de ganhar a primeira viola, Leonel passava os dias com ela nos braços tentando aprender a tocar, coisa que logo em poucos dias passou a tirar algumas notas e em alguns meses foi surpreendente o avanço que fizera. Quando começava a tocar e cantar sempre atraia a atenção das pessoas que o ouvia, pela qualidade da sua voz e a capacidade rítmica que possuía. Seu pai e sua mãe eram seus maiores incentivadores.



- Meu filho tem talento – dizia Pirilo, embasbacado quando o ouvia tocar. – Ele nasceu pra isso.

- Ele canta tão bem – derretia-se Orlanda.

Nos anos seguintes, e à medida que ficava maior, Leonel continuava devotado a tocar e cantar e a cada dia evoluía a olhos visto.

Pirilo adquiriu um pequeno equipamento de som para o filho e o levava para se apresentar em rodas de amigos, festas e aniversários. Gostava imensamente de ver o filho ser elogiado e Leonel não se fazia de rogado e adorava cantar seja onde fosse.

Certo dia seu pai chegou em casa e disse com satisfação:

- Meu filho eu te inscrevi no festival da Rádio Piricaia. Estão organizando um festival de música com distribuição de prêmios e tudo. Você vai ganhar o primeiro lugar – vaticinou.

 

 

 



O festival teve início com dezenas de duplas e cantores inscritos e à medida que as semanas passavam os considerados mais fracos eram eliminados pelos jurados.

A cidade interiorana acompanhava com atenção o andar do festival; muitos cantores e duplas organizavam torcida e grupos de fãs, geralmente amigos, vizinhos e conhecidos. Todo final de semana, num palco montado na praça do lugarejo a Rádio Piricaia animava a população com a apresentação dos cantores. Depois de quase dois meses de eliminações, chegou o grande final com apenas três representantes: Leonel, Aldo e Adolfo e uma representante feminina de nome Edicléia.

Na semana anterior o burburinho na cidade era grande diante da expectativa de quem seria o grande vencedor do festival.

No dia, a decisão ficou dividida entre o cantor Leonel e a dupla Aldo e Adolfo.  

Quando os jurados decidiram, ganhou apertado por quatro a três, o jovem Leonel, ficando Aldo e Adolfo em segundo lugar. A cantora Edicléia não obteve nenhum voto.

Depois da derrota no festival Aldo ficou decepcionado e decidiu parar de cantar profissionalmente, mas Adolfo continuou alimentando o sonho de ser cantor profissional e prosseguiu na luta se aperfeiçoando cada vez mais e como seu pai trabalhava para o pai de Leonel os dois cantores acabaram por se aproximar e passaram a ensaiar. Logo estava formada uma dupla afinadíssima que arrancava elogios por onde passava, batizada de Adolfo e Leonel. Leonel fazia a primeira e Adolfo a segunda voz. O futuro parecia promissor, mas ainda viria muito sacrifício pela frente.

A dupla ensaiou um ótimo repertório e caiu na estrada apoiado por Pirilo que comprou um velho carro e equipamentos melhores e eles começaram a fazer pequenos shows na sua cidade e cidades próximas na região. Com o passar do tempo ficavam mais conhecidos e eram requisitados com freqüência, passando a ganhar algum dinheiro a custa dos seus talentos.

- Amanhã sairemos pela madrugada, Adolfo – disse Leonel. – Vamos fazer uma apresentação em Bebedouro e são muitos quilômetros de asfalto.

- Tudo, bem. Estou cansado da viagem que fizemos ontem, mas essa é a vida que eu gosto.

- Também estou cansado, mas fazer o que né? Temos que chegar cedo em Bebedouro porque temos que montar a aparelhagem e deixar tudo certo para o show de noite.

- Temos que arranjar alguém pra ajudar a gente, Leonel. Você não concorda?

- Sim. Eu concordo, mas você sabe que a grana é curta e mais uma pessoa teria despesas de alimentação, hotel e, claro, um salário.

- Entendo. Temos que se conformar, pelo menor por enquanto, em fazer o sacrifício de nós mesmos fazermos tudo – se redimiu Adolfo.

Os dois dormiram cedo e quatro horas da manhã partiram, chegando na cidade de Bebedouro por volta de meio dia.

- Chegamos – disse Leonel. – Vamos procurar localizar o clube em que cantaremos hoje de noite. Eu tenho o endereço.

- Eu estou é com fome – reclamou Adolfo.

- Está? Eu também. O que você acha de primeiro comermos alguma coisa, depois procuraremos o endereço do clube?

- Acho melhor. Vamos procurar um restaurante – disse Adolfo.

Os dois almoçaram e somente depois localizaram o clube no qual cantariam naquela noite e depois do contato com o proprietário passaram a montar e passar o som do equipamento, que era de qualidade, mas simples e que carregavam no carro.

Quando estavam testando apareceram várias meninas da redondeza, curiosas.

- As gatinhas estão chegando – disse Leonel faceiro.

- Estou vendo – disse Adolfo testando o microfone, falando diversos alôs – Elas estão de olho em você.

- E em você também – riu.

- Oi – disse uma delas, mais afoita, se aproximando.

- Oi – respondeu Leonel para a linda adolescente.

- A dupla Adolfo e Leonel vai cantar hoje? – perguntou rindo. Antes que Leonel respondesse, mas três outras adolescentes se aproximaram e uma delas mesmo disse:

- Claro Amanda. Os dois vão cantar sim e eu não vou faltar. Eu os adoro.

Leonel e Adolfo se olharam com cumplicidade e com leves sorrisos nos lábios.

A garota de nome Amanda empurrou com carinho a amiga e disse:

- Eu sei garota. Sei que vão cantar, mas eu perguntei foi para o rapaz que esta montando a aparelhagem, sua metida! – riu.

A outra logo rebateu.

- Ta bom. Pode perguntar.

Leonel, rindo também, respondeu que a dupla cantaria naquela noite.

- Obrigada – disse Amanda. – Eu virei vê-los. Sabe que você também é muito bonito! Poderia até cantar também em vez de ficar só montando o equipamento, né?

Leonel ficou meio desconsertado, mas entendeu e respondeu.

- Eu gosto de trabalhar na montagem do som para deixar tudo pronto para quando os patrões forem cantar a noite – olhou para Adolfo e riu.

- Entendo – disse Amanda. – E eles já chegaram na cidade?

- Acho que sim. Viemos na frente. Acho que devem estar descansando no hotel. Quando terminarmos aqui, vamos ligar para eles.

- Obrigado moço – disse Amanda. – Hoje de noite eu estarei aqui.

- Nós também estaremos – disse Leonel.

- Tchau – disse a menina se afastando com as colegas.

- Novamente mentindo não é seu Leonel – repreendeu Adolfo.

- Fazer o que. Você acha que eu ia dizer que nós éramos a dupla de cantores, depois de nos verem trabalhando montando a aparelhagem? – disse rindo.

- Entendo. Até pegaria mal, mas não é primeira vez que acontece isso.

- Meu amigo isso é a sina de dupla de cantores pobres – riu. – Mas um dia teremos dezenas de auxiliares montando uma gigantesca aparelhagem, pois daremos shows em estádios e grandes casas.

- Você pode até estar brincando Leonel, mas eu tenho certeza que esse dia chegará. Não ficaremos apenas nisso aqui.

- Estou falando sério, amigo. Vamos gravar um disco e fazer sucesso nesse Brasil todo.

Os dois não estavam conformados de levar aquela vida de sacrifício, eles próprios dirigindo o carro, montando os equipamentos e a noite cantando. Queriam mais. Eles queriam gravar o primeiro disco.

- Meu pai disse que ajudará em tudo que for preciso, principalmente no que se refere a financiar a gravação, mas a gente não sabe como fazer. Não sabemos como começar.

- Eu também sou leigo nesse assunto – disse Adolfo. – Vamos ter que procurar uma pessoa que entenda e ajude a gente.

- Vivo pensando nisso. Temos que fazer alguma coisa e logo. Temos de gravar um disco. Tenho certeza que faremos sucesso imediatamente.

- Eu não tenho a menor dúvida quanto isso, amigo. Só precisamos mesmo e conseguir uma gravadora.

- Concordo – disse Leonel.

 

 



Roxinol era um cantor bastante conhecido fazendo dupla com Bentivi. Os dois já haviam vendido milhares de discos e tinha um público cativo, fãs de suas modas de viola e suas vozes afinadas. Eram também reconhecidos também pela humildade e por ajudarem cantores iniciantes com talento.

- Bentivi você já ouviu falar da dupla Adolfo e Leonel? – perguntou Roxinol para o companheiro.

- Já. O povo tem falado que são bons e bem afinados. São ainda dois garotos – respondeu.

- Isso mesmo. Soube que estão na cidade e que irão cantar no Bar Canário.

- Sim.

- Sim o que?



- Você irá lá?

- Estou pensando em ir ver os meninos. Quero ver se são bons mesmos – disse Roxinol.

- Eu te conheço, companheiro. Será que vai mesmo ver os meninos, ou tomar uma gelada e ver as garotas? – perguntou matreiro, rindo.

- Não faça juízo errado de mim, Bentivi. Vou mesmo é ver os garotos. Você sabe que gosto de uma boa música. Espero que sejam bons.

- Entendo… - disse Bentivi, rindo.

- Tudo bem, eu vou ouvir a música dos garotos e ver as garotas também. Não tem nada de errado, né?

- Eu já sabia. Sei que você é um velho assanhado, por isso nunca casou.

- Nem vou casar. Não quero ninguém pegando no meu pé. Quero ficar sempre assim, livre, leve e solto – riu. – Nessa nossa profissão não tem coisa melhor do que ser solteiro. Mulheres, você sabe, que tem muitas, por isso estou muito bem assim.

- Pois eu prefiro ficar com minha velhinha. Ela está sempre me esperando toda vez que volto de shows.

- Entendo, mas você vai me acompanhar até o Bar Canário? – perguntou Roxinol.

- Estou cansado. Amanhã temos compromisso, lembre.

- Eu já sabia. Deve estar com medo da patroa.

Bentivi apenas olhou para o amigo e riu, balançando a cabeça. Sabia que ele era assim mulherengo e queria sempre levá-lo, mas ele não tinha o fogo do companheiro e sempre preferia ficar descansando no hotel.

- Vou é dormir, amigo – disse Bentivi.

- Então boa noite – disse Roxinol, saindo e pegando um táxi e rumando para o bar onde cantaria a dupla Adolfo e Leonel.

 

 



 

Adolfo e Leonel se trocavam após o show no Bar Canário, que teve casa cheia, se preparando para retornarem para sua cidade.

- Boa noite – disse um homem depois de bater e abrir a porta.

- Boa noite – respondeu Leonel com educação e a hospitalidade típica do interior onde não existia qualquer desconfiança com um estranho.

- Meu nome é Valdomiro – se apresentou. – Posso entrar?

Leonel o olhou e seus olhos brilharam porque logo reconheceu o Roxinol da dupla Bentivi e Roxinol.

- Você é o Roxinol? – perguntou afirmando. – Te conheço e até temos várias músicas de vocês no nosso repertório – disse visivelmente emocionado.

- Sim, sim, meu garoto – disse o homem. – Sou eu mesmo. Tomei a liberdade de vir cumprimentá-los porque os vi cantando e gostei imensamente.

- Muito obrigado – disse Leonel apertando a mãos de Roxinol, que também cumprimentou Adolfo.

- Você tem uma ótima segunda voz – disse para ele.

- Muito obrigado – respondeu Adolfo. – O senhor nem imagina o quanto seu elogia me orgulha.

- Muito bem – continuou Roxinol, - vocês sabem que sou veterano na estrada musical e que eu e Bentivi temos muitos discos gravados e sei reconhecer quando uma dupla tem talento e vocês dois tem muito. Vim cumprimentá-los e dar força para que continuem porque tenho certeza que logo alcançarão o sucesso.

- Obrigado – disse Leonel com os olhos marejados, porque era a primeira vez que uma pessoa, com importância na música, os elogiava.

- E o disco quando sai?

Os dois cantores se olharam como se um buscasse força no outro para responder.

Leonel, disse:

- Já temos as músicas prontas, mas ainda não conseguimos chegar à uma gravadora. Não sabemos como fazer e, o senhor sabe bem que é difícil.

- Sim. Isso eu sei, mas se vocês quiserem uma força posso tentar uns contatos que possuo. Você tem um trabalho gravado para que eu possa levar?

- Temos – respondeu apressado Leonel.

- Já devo adiantar que para entrar nesse mundo não é fácil. A burocracia das gravadoras é infernal e eles não investem em iniciantes, digamos assim, com facilidade.

- Sabemos.

- Como vi que a dupla tem talento tentarei convencer meu amigo da Goldmusic, a pelo menos ouvir o trabalho de vocês.

- Goldmusic!!! – exclamou Leonel. - Ficamos muito agradecidos seu Roxinol – disse.

- Passem-me seus telefones, que breve farei contato.

Quando Roxinol saiu os dois se abraçaram dando risadas de alegria. Sentiam que o segundo passo estava dado.

- Não te disse Adolfo que iremos ser reconhecidos no Brasil! – disse Leonel, vibrando.

Adolfo com seu ar tímido sorriu confiante e disse:

- Se Deus quiser e Deus quer.

- Vamos retornar o mais rápido possível para casa para darmos a notícia – disse Leonel.

- Sim.


Depois dos acertos pela apresentação os dois embarcaram no velho carro e tomaram a estrada na mesma noite. Viajaram a madrugada inteira, estavam cansados, mas contentes.

A notícias criou grande expectativa nos familiares dos dois.

 

 

Adolfo chegou na casa da namorada Maria das Graças por volta de oito horas da noite, como sempre fazia quando estava na cidade.



- Boa noite amor – disse beijando-lhe o rosto. – Boa noite dona Belarmina, seu João – cumprimentou também os pais da namorada.

- Como foi sua viagem e a apresentação?– perguntou Maria das Graças.

- Muito bom. Estamos, a cada dia que passa, mais conhecidos – disse satisfeito. – O show teve grande lotação e o proprietário da casa quer que voltemos lá no final do mês. Amanhã iremos cantar num circo aqui mesmo na cidade. Mas a notícia melhor eu ainda não te dei amor – disse sorrindo Adolfo.

- É meu preto? – como a chamava carinhosamente. - E qual é essa notícia boa?

- Você conhece a famosa dupla de cantores Roxinol e Bentivi?

- Sim. Eles cantam desde quando eu era criança – disse Maria das Graças.

- Virgem Maria, meu amor! – exclamou Adolfo. – Acho que são bem mais antigos.

- Sim. Mas que notícia boa você tem?

- O Roxinol, o mais velho da dupla, nos procurou e nos fez o maior elogio. Disse que temos muito talento e que com certeza venceremos na carreira. Apesar de que nunca tive dúvida quanto a isso. O melhor é que vai nos ajudar a gravar o primeiro disco e eu tenho certeza que iremos estourar! – disse com os olhos brilhando.

- Que bom, meu preto! – exclamou Maria das Graças, abraçando o namorado e beijando-lhe o rosto.

Ela era morena, tinha os cabelos cacheados, sorriso branco e lindo. Possuía um brilho inteligente nos olhos e um corpo escultural no auge dos seus dezoito anos de idade.

- Quando isso acontecer vamos logo nos casar Maria – disse Adolfo.

- É o que eu mais quero meu preto, pois você é o amor da minha vida.

- E você também é o amor da minha. Vamos ter vários filhos e darei uma boa vida para eles quando estiver fazendo sucesso no Brasil inteiro. Sei que isso vai acontecer e vou ajudar todos nossos familiares.

- Meu amor, como você tem o coração bom. Não tenho nenhuma dúvida que fará isso.

 

 



Em menos de um mês de angustiante espera, finalmente o esperado contato de Roxinol aconteceu. Numa ensolarada tarde, tocou o telefone da casa de Leonel e seu pai Pirilo atendeu:

- Alô?


- Alô. É da casa do Leonel? Sou o Roxinol e fiquei de ligar para ele.

- Sim – disse rápido Pirilo. – Irei chamá-lo.

Quando se virou, Leonel já estava atrás dele.

- É o Roxinol – disse num sussurro, balançando as mãos num acesso de alegria. – Atende!

Leonel pegou rápido o telefone e disse:

- Alô! Sou eu, Leonel!


 

 

 



 

Parte II

 

 



O escritório no décimo andar do prédio, não era tão grande, mas a decoração era rica e a disposição dos móveis aconchegante. No arranjo da mobília, tendo como fundo uma janela de vidro escurecido, coberta por uma grande e translúcida cortina persiana, ficava a imensa mesa principal, em forma de meia lua; sua lateral seguia harmonioso até a parede, onde terminava conjugada a uma estante que tomava todo lado. Era uma mesa ricamente trabalhada em madeira de lei e seu tampo vitrificado mostrava claramente que era nobre. A estante seguia o mesmo padrão de madeira. Na sua lateral erguia-se um armário de duas portas, espécie de arquivo. Até a altura de oitenta centímetros a estante se mostrava como uma cômoda de seis gavetas, e embutidas na parede, acima, ficavam três prateleiras de mármores. Posicionada no centro da sala, na frente da mesa principal, afastado uns três metros, estava disposta outra mesa, essa retangular; era de reunião e comportava seis lugares. Nas paredes do aprazível escritório algumas pinturas, de muito bom gosto, davam um clima agradável ao ambiente. Nada denunciava que era o escritório de Paulo Uraldo, diretor geral da gravadora Goldmusic. Ele, elegantemente trajando um terno preto, gravata de marca e uma camisa branca, estava sentado na confortável poltrona. Na mesa de reunião achavam-se sentados uma mulher e dois homens. Eles aguardavam, enquanto Paulo falava ao telefone.

- Roxinol, meu garoto, por onde você anda? – perguntou ao interlocutor do telefone.

- Fazendo shows por todo o Brasil, Paulo – respondeu Roxinol do outro lado da linha. – No momento me encontro aqui em São Paulo.

- Que bom – disse Paulo. – Vai passar por aqui? Você e Bentivi me devem um disco, lembre-se?

- Sabemos. Fique sossegado, que já tenho as músicas todas quase prontas. Pretendemos colocar pelo menos quatro inéditas.

- Estamos no meio do ano e temos que começar esse trabalho o quanto antes. Preciso que entrem em estúdio – disse rindo. – Temos de lançar o cd até o final do ano para aproveitar as festas. Vocês sabem que estão vendendo bem.

- Sabemos – disse Roxinol. – Nos próximos dois meses tenho certeza que começaremos as gravações.

- Não podemos fugir ao cronograma.

- Fique tranqüilo, homem – disse Roxinol. - Mas eu liguei porque quero um espaço na sua agenda para passar aí no escritório para falar com você.

- Pode vir qualquer hora Roxinol – disse Paulo. – Pode adiantar o assunto?

- Sim. Quero mostrar o trabalho de uma dupla que descobri. Pessoal de talento – disse com entusiasmo.

- Sim, sim. Passe aqui – disse sem interesse, Paulo.

- Passarei.

Paulo desligou o telefone e depois olhando para as pessoas na sua frente falou:

- O Roxinol está novamente com suas descobertas. Alega que descobriu um talento, uma dupla, me parece. Deve ser igual às centenas de “talentos” que aparecem todos os dias na minha mesa – fez um gesto de “entre aspas” com os dedos. - Nada que vingue.

A mulher se manifestou.

- Conseguir um talento não é assim tão simples.

- Talentos até que existem, e muitos, agora fazê-los chegar no povo é outra conversa – disse Paulo.

- Isso mesmo. Precisa de um investimento enorme. Uma grande variante de coisas.

- Cláudia, você como diretora artística conhece muito bem o quanto esse mundo musical é cheio de percalços – disse Paulo. - Mas o Roxinol é componente de uma dupla que vende bem para nosso selo por isso vou ver o que quer me mostrar. Tenho imensa consideração por ele.

- Concordo – disse Daniel, um dos homens que estava na sala. – Afinal a gente vive vendo “artistas” todos os dias.

- E você, Richard, fica apenas calado? – brincou Paulo.

Os dois eram os auxiliares direto de Cláudia.

- Não Paulo, eu estou ouvindo vocês e pensando quanto esse mundo da música é volúvel. Temos que ser criteriosos no limite para podermos investir em um nome com talento e carisma. Fico pensando quantos verdadeiros talentos nós não perdemos e vejo a quantidade de vezes em que quebramos a cara confiando que um outro vai “estourar” e nada!

- Por isso só quero pessoas competentes ao meu redor – disse Paulo. – Considero vocês, do Departamento Artístico, os meus olhos na hora de decidir por esse ou aquele artista. Afinal se errarmos, nós iremos pagar caro pelo erro. Isso aqui é comércio amigos e no comércio o investimento tem que ter retorno, senão estaremos falidos.

- Sabemos muito bem disso, Paulo – disse Cláudia. – Um exemplo claro é o próprio Roxinol e Bentivi. Quanta dúvida e pesquisa antes de resolvermos investir neles, mas acertamos. Já cantavam há muito tempo, mas nada de um grupo profissional por trás, até chegar aqui.

- Graças a Deus – disse Paulo. – Recebi alguns elogios da matriz por conta deles, por isso tenho bastante consideração pelo Roxinol. É o tipo de artista que não podemos deixar de apoiar, não vende milhões, mas tem um público cativo.

- Cem mil cópias, no mínimo, é venda garantida – disse Cláudia, - mas já chegaram a vender quinhentas mil com o estouro da música “O sorriso do meu amor”; ninguém botava fé na canção, mas, no entanto, o povo adorou. São perenes esses meninos.

- Quero todos trabalhando para o próximo lançamento deles – determinou Paulo.

- A carreira dos dois está em boas mãos. O Guilherme é um competente Diretor de Desenvolvimento do Artista e colocou os dois num patamar invejável.

- Sim – disse Paulo sério, - quero saber como andam as vendas do Carlinhos Borges. Ele se mostrava ser tão promissor, grande músico, mas as vendas que me apresentaram não são boas.

- Não sei onde erramos – disse Cláudia. – Esse menino estourou em programas de calouros, na TV. Era o xodó da garotada, no entanto está sofrível sua aceitação.

- Como eu disse – falou Richard, - o mercado é volúvel. Vemos artistas de setores desacreditados em venda, arrebentarem e venderem milhões. Um exemplo é a MPB. Nomes consagrados como Caetano, Chico perdem de feio para um desconhecido da Ilha de Marajó com uma lambada, carimbó ou coisa assim. O mercado é um mistério dinâmico.

- Se esse garoto não chegar a três mil cópias em venda, terei que desistir dele.

Os três ficaram calados, afinal sabiam que no mundo da música as coisas eram assim mesmo, se o público não aceitar o artista está fadado ao ostrocismo. 

 

 



 

Roxinol desceu do carro na frente do prédio da gravadora Goldmusic e subiu, indo direto para a sala do Diretor. A secretária anunciou sua presença e Paulo mandou que o deixasse entrar e o recebeu com um abraço.

- Senta e vamos conversar meu amigo.

- Obrigado – agradeceu Roxinol.

- Estou acompanhando sua carreira e sei que está com a agenda lotada.

- Graças a Deus estamos com muitos shows agendados.

- Que bom, mas nada de atrasar a gravação do próximo trabalho.

- Não esquecerei o compromisso.

- Você me falou ao telefone sobre uns cantores. Quem são eles? São bons mesmo?

- É um pessoal do interior e vi que são bons. Os dois são talentosos.

- É uma dupla?

- Sim. Cantam o tal do sertanejo jovem. Esses rótulos que dão as músicas. Pra mim tudo é música e têm as boas e as ruins.

- Entendo – disse Paulo. – Cadê o trabalho deles?

Roxinol retirou um cd de uma pequena pasta que levava e o passou para Paulo.

- Aí está.

Paulo o apanhou e olhou a capa amadora com uma foto de Leonel e Adolfo. Examinou com olhar clínico e demorado os diversos títulos das músicas, depois falou:

- Como gravaram?

- É amador. Foi gravado em casa, em shows, você sabe como.

- Hum… mas não gostei desse nome… Adolfo. Parece meio estranho. Adolfo… você não acha?

- Não me liguei muito nisso, mas vocês que entende de propaganda de mídia, esses negócios é quem sabem – disse Roxinol. – O meu nome e do Bentivi, achei estranho no começo, mas não é que deu certo - riu.

- Parece bobagem, mas um nome bem escolhido pode ser a razão do sucesso ou do fracasso. Esse Adolfo parece com coisa de alemão, você não acha? Adolf do tal do Hitler. É um nome marcado. Não é legal. Quem é o Adolfo o branco ou o moreno? – perguntou olhando para a foto dos dois na capa do trabalho.

- O moreno – disse Roxinol.

- Leonel é o branco?

- Sim.


- O nome do branco está bom, mas o tal Adolfo não vai dar.

- Você é quem sabe.

- Estou apenas fazendo um comentário, não estou assumindo nenhum compromisso. Você sabe que para lançar um novo cantor tem um custo alto e precisa de pesquisas e muita cautela. O mercado está saturado de cantores como esses Roxinol.

- Não, Paulo. Não fale assim porque você nem ouviu os garotos.

- Sei que são bons, Roxinol, senão não os teria trazido a mim. Mas ser bom não é o suficiente. O lançamento de um novo cantor envolve uma gigantesca cifra, responsabilidade e muito trabalho.

- Pode confiar nesse dois que o retorno será garantido.

- Gostaria muito, mas tenho que submeter o nome deles aos diretores e estudar direitinho as possibilidades. Achei o tal do Adolfo muito escurinho. Não conheço nenhuma dupla que faça sucesso com um branco e um negro. Cada um com seu estilo. Da mesma forma que nunca vi uma banda de loiros fazer sucesso com pagode. Você entende?

- Isso parece preconceito, Paulo – disse Roxinol.

- Não – disse rápido Paulo. – Isso é comércio. Não podemos investir numa mercadoria que dará prejuízo – riu.

- Quanto ao nome eu concordo, mas esse negócio de raça, eu acho que é exagero. O que importa é que tenham os gogós de ouro.

- Só o gogó não resolve, mas vou ouvir o trabalho dos garotos e também consultar o pessoal, depois te ligo.

- Obrigado. Você não vai se arrepender.

 

 

- Oi Leonel – disse Roxinol pelo telefone, - como te prometi, já fiz o primeiro contato com o pessoal da gravadora. Não se afobe que esse tipo de coisa é lento, mas o que importa é ter fé em Deus.



- Sim, mas vamos gravar o disco? – perguntou ansioso Leonel.

- Vão sim. Como disse já falei com o Diretor e ele me dará uma resposta em poucos dias. Até já deu alguns conselhos para impulsionar a carreira de vocês.

- Que legal! Que conselhos?

- O Adolfo tem que trocar de nome. Ele disse que esse nome é parecido com o nome de italiano ou alemão, nem lembro. Que é um nome, digamos, pouco aceitável no meio artístico. Não se assuste porque esse pessoal de gravadora é assim mesmo cheio dessas coisas de horóscopo, numerologia.

- Entendo. Que nome ele sugeriu.

- Nenhum.

- Então… com qual nome poderemos batizar a dupla… - perguntou com dúvida.

- O seu ele gostou. Só encrespou com o do Adolfo.

- Entendo.

- Quando meu primeiro empresário me sugeriu o nome Roxinol eu gostei, porque era um pássaro cantador, mas o Bentivi criou o maior caso, depois aceitou e deu certo.

- O que o senhor sugere. Os pais do Adolfo são religiosos e não sei se irão concordar.

- Coloca um nome de santo nele, até pra ajudar já que ele tem muita fé – brincou Roxinol.

- Vou falar com ele. Ficarei aguardando sua ligação sobre a decisão da gravadora.

Roxinol desligou o telefone e Leonel ficou matutando sobre o tal nome de santo que ele sugeriu para Adolfo.

 

 

Maria das Graças tinha a cabeça de Adolfo no seu colo e afagava seus cabelos.



- Porque tem que mudar seu nome Adolfo? – perguntou.

- Não sei. Dizem que tem que ser um nome mais chamativo e popular!  Minha mãe não gostou, disse que me batizou com esse nome e que eu não deveria mudar.

- Se não mudar eles não gravam seu disco?

- Não sei ainda com certeza, mas parece que é um empecilho o meu nome. Mamãe alega que é pecado mudar de nome. Você acha?

- Não. Quanto a isso eu não acredito que seja pecado – disse Maria. – Mas acho seu nome tão bonito.

Adolfo riu levemente, depois disse.

- Também não acredito que seja pecado usar outro nome. Será apenas um nome artístico. Expliquei para ela, mas mesmo assim ficou chateada. Meu pai não ligou. Disse que o que importa é gravar o disco.

- Mas vai mudar o nome nos documentos também?

- Não Maria. É apenas um nome artístico, como disse. O Leonel sugeriu colocar o nome de um santo.

- Legal, quem sabe assim sua mãe até aceite – disse entusiasmada Maria das Graças. – Meu preto com o nome de… qual?

- Pensei muito, mas não achei nenhum legal.

- Posso dar uma idéia?

- Sim.

- Você tem o coração mais bondoso do mundo e quem tem um coração assim tem um espírito santo. Poderia ser Espírito Santo.



- Espírito Santo é santo? – perguntou Adolfo.

- Não meu preto. Eu acho até que é maior que santo – disse com ingenuidade.

Adolfo ficou pensativo.

 

 



 

Leonel riu quando o amigo propôs o nome, mas em seguida ficou sério e pensativo.

- Espírito Santo… sabe que é bem original. Não conheço nenhuma dupla com nome de santo. Ficaria Espírito Santo e Leonel ou Leonel e Espírito Santo?

- Não sei – disse Adolfo, - mas foi o único nome que minha mãe aceitou. Ela disse que é pecado mudar o nome de batismo.

Leonel ficou olhando para o amigo imaginando que a proposição sobre nome de santo havia sido até em tom de pilhéria por parte do Roxinol, mas como se diz, o mundo artístico é inusitado e misterioso, quem sabe poderia dar certo. Trazer sorte para os dois.

- Eu na verdade até simpatizo o novo nome, não sei se o Roxinol e o pessoal da gravadora vão aceitar              .

- Converse com o Roxinol e vamos ver no que dar.

- Quando ele ligar farei a sugestão.

- Ótimo.

 

 



Paulo estava sentado por trás da sua bela mesa em forma de meia lua e falava ao telefone. Na sua frente, na mesa de reunião estavam Cláudia, Diretora Artística; Guilherme, Diretor de Desenvolvimento Artístico; Salimar, Diretor de Arte e Bruno, Diretor de Promoção. Quando Paulo desligou o telefone se dirigiu para eles:

- Pessoal acho que todos aqui já sabem o motivo dessa reunião. Trata-se da decisão de contratarmos ou não a dupla apresentada para a empresa pelo Roxinol. Todos já ouviram e analisaram o trabalho dos rapazes e eu mesmo afirmo que devo tirar o chapéu pra eles. São bons! Mas ser bom é só o primeiro degrau da longa escada que terão que subir. Nós aqui, aproveitando o provérbio, somos o segundo degrau. O que vocês tem a dizer? Você Cláudia, nossa linda Diretora Artística. Qual sua opinião?

- Obrigada pelo elogio – respondeu com cortesia mostrando um lindo sorriso no rosto. – Mas… pela responsabilidade que meu setor tem eu poderia dizer que tudo estaria perfeito para contratarmos o Leonel e Espírito Santo. Que os meninos são bons, o repertório também promete bastante. Mandei que fosse feita uma pesquisa, e até eu própria mantive contato com várias rádios na região do interior onde eles vivem e onde mais se apresentam e até fiquei surpresa pela empatia que têm e pela aceitação da dupla pelo povo, mas isso tudo não é decisivo para tomarmos uma decisão. Afinal teremos que produzir o disco, contratar músicos, escolher repertório. Por tudo isso minha opinião é que devamos proceder sem correr grande risco. Levantar custo e passar esse custo para um patrocinador angariado por eles cantores. Assim não perderemos os dois e ao mesmo tempo não nos arriscaremos com um possível fracasso. Coisa que não é novidade na empresa. Já procedemos dessa forma por muitas vezes e o resultado é satisfatório.

- Ótimos – disse Paulo. – E sua opinião Guilherme?

- Bem eu concordo com a Cláudia. Minha responsabilidade é planejamento da carreira do contratado. Por isso preciso que esteja contratado, mas concordo que a empresa não deva correr grandes riscos e penso que se deva, no levantamento de custos, acrescentarmos certo valor para custear a divulgação da dupla. Apesar de minhas restrições, leve e sem preconceito ao fato do contraste dos dois cantores: um branco e um de cor, coisa para mim inédita em duplas, pode até existir, mas não conheço. Agora que cantam bem, eu reconheço e não tenho a menor dúvida.

- Ótimo – disse Paulo. – Eu até acho que esse negócio de raça não deva atrapalhar em nada, os irmãos Pena Branca e Xavantinho não eram de cor? Acho que sim. Quanto ao Leonel e Espírito Santo eu concordo também com a Cláudia. Preciso ter certeza do sucesso da dupla antes de investir. A matriz me come o fígado se eu der uma bola fora.

- Eu como Diretor de Arte, vejo que os dois têm uma imagem ótima para ser explorada – disse Salimar. - O Leonel é um jovem bonito e não tenho a menos dúvida que será aceito de cara pelo povo. Será fácil trabalhar a imagem jovial de uma pessoa como ele que irradia saúde e vitalidade. Quanto ao seu companheiro o tal Espírito Santo, apesar de ser de cor, é jovem e não é feio, mas terá que se conformar em ficar na sombra do amigo. As duplas são assim mesmo, um sempre brilha mais que o outro.

- Isso nós sabemos, mas o que preocupa é um componente da dupla ser apagado demais. Isso não pode. Não podemos investir em apenas um – disse Paulo.

- Para resolver essa situação eu terei que suar a camisa – disse Bruno. – Como a promoção do artista é minha obrigação terei que fazer as músicas da dupla tocar de qualquer jeito, bem como tirá-los do anonimato e apresentá-los bem para o povo.Quanto a investir em apenas um, não dará certo. Os dois já têm afinidade e dificilmente o Leonel aceitaria.

- Não. Não se cogita isso. Eles cantam juntos e assim ficará – disse Paulo. – Sei, Bruno, que na sua área de promoção você é competente, mas também beberei a canja da cautela. Não vamos perder os artistas porque eles podem estourar, como muitos bem piores que cantam por ai e vendem milhões; ao mesmo tempo não vamos investir, no momento, dinheiro nos dois. Vamos por nosso selo a disposição deles. Firmaremos um contrato e faremos um trabalho profissional. O Salimar trabalhará a imagem dos dois e o Bruno fará o possível para que toquem e vendam bastante. Farei um memorando para o Gilberto, do Departamento de Negócios, para que apresente uma planilha com os custos do investimento na dupla. Passaremos o valor para que eles, Leonel e Espírito Santo corram atrás de um patrocinador. Parece que o pai do Leonel é possuidor de um médio recurso e até poderá bancar esses custos.

Os diretores concordaram e Paulo encerrou a reunião.

 

 



A alegria na casa de Leonel era imensa



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