Simpósio internacional de história das religiões III simpósio nacional de história das religiões mesa redonda 8 Religiosidade e cultura popular Coordenador: Antônio Lacerda Miotto (puc-sp) Expositor



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SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES

III SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES

MESA REDONDA 8 - Religiosidade e cultura popular
Coordenador: Antônio Lacerda Miotto (PUC-SP)
Expositor: Eduardo Basto de Albuquerque (UNESP-Assis)

Ensaio: Encantando o cotidiano através de "simpatias"
Debatedores: Edilece Souza Couto (UFBa)

Leila Marrach Basto de Albuquerque (UNESP- Rio Claro)
Recife

2001

ENCANTANDO O COTIDIANO ATRAVÉS DE "SIMPATIAS".
Eduardo Basto de Albuquerque *
Osvaldo Elias XIDIEH 1 identifica a multiplicidade de meios e práticas da cultura e da religião populares para superar, afastar, isolar, atrair ou contornar as forças maléficas ou benéficas que rodeariam todos os seres e coisas. Entre eles, há as preces ou orações e as simpatias, fórmulas para as mais diversas situações que compõem, na maioria das coleções coletadas no passado, 2 um só conjunto de textos considerados antigos. Quem as recita entende algumas dessas fórmulas como orações.

Murmuradas pelos fiéis, as preces populares ignoram os louvores gratuitos ou desinteressados; sempre pedem algo. Isso as afasta, em geral, da simples devoção. Como pedem de tudo e para tudo, se não recebem hoje a total condenação das autoridades eclesiásticas, 3 têm ao menos sua desconfiança em relação à grande maioria dos seus conteúdos apesar de, na maioria das vezes, acrescentar-se a obrigação de recitar um ou alguns pai-nossos ou ave-marias. Seu prestígio advém de se beneficiarem da consagração social. A transmissão fiel das palavras é considerada fundamental para sua eficácia. Suas variantes abrangem muitas situações, daí nem todas as orações terem o mesmo valor: algumas são tidas com maior poderio, as "fortes" ou "bravas", ao lado das "fracas". Elas criam e/ ou desfazem principalmente os males, guardando o papel de palavras sacrais e criadoras. Seus usuários mantêm fidelidade às fórmulas transmitidas por seus antepassados em busca da sua eficácia, que depende do tempo propício, dos momentos do dia, como o nascer do sol, a saída de casa , a tempestade, o crepúsculo, etc. Gestos acompanham tais fórmulas.

Le Goff sugere que os traços da memória coletiva contidos na documentação empregada pelo historiador podem ser tratados como "monumentos", entendidos estes como ligados ao "poder de perpetuação voluntária ou involuntária das sociedades históricas". Neste estudo comparativo das simpatias e das preces populares brasileiras seguiremos essa sugestão, buscando "elementos que é preciso depois isolar, reagrupar, tornar pertinentes, colocar em relação, constituir em conjunto", 4 de modo a atribuir-lhes historicidade.

A história das preces populares brasileiras 5 tem sua genealogia advinda das orações populares portuguesas, possivelmente as da medievalidade. Embora não haja textos delas desse período, há alguns vestígios na época moderna, quando são encontradas em processos inquisitoriais portugueses e brasileiros. No Brasil, remetem às formas de resistência ante as várias repressões seculares das religiões populares, como a feita pela Igreja, através da Inquisição, até o século XVIII.6 No século XIX, 7 os folcloristas e viajantes as desclassificavam por entende-las como frutos da ignorância. A terceira forma de repressão é pela tipificação jurídica penal como curandeirismo, prática ilegal da medicina e exploração da credulidade pública, no século XX, até os nossos dias. Ademais, não mais guardam o seu caráter oral e passaram, duplamente, já há um bom tempo para o escrito: foram colhidas por folcloristas e estudiosos de comunidades 8 e, desde finais do século passado, passaram a difundirem-se em forma de folhetos e pequenos livrinhos, vendidos discretamente nos meios populares. 9 Atualmente, encontra uma nova fase de sua história, marcada por serem impressas por pequenas e médias editoras, e serem distribuídas nacionalmente, entrando no circuito da indústria cultural.10 Essas transformações não foram suficientes para retirar as orações populares brasileiras do cerne da religiosidade e das visões de mundo presentes na sociedade brasileira, onde continuam situando-se, em nossos dias.



Sua permanência na mentalidade e no imaginário populares apresentam, ao historiador, algumas indagações. Uma delas é a afirmação dos estudiosos das religiões no tocante ao processo de secularização. Este, representaria a exclusão da religião do palco das visões de mundo vigentes, substituída pela modernização e pela ciência, devido à crescente urbanização e industrialização. A famosa obra Católicos, Protestantes e Espíritas, editada em 1973, afirmava que apesar do Brasil passar por um processo de secularização, nas áreas urbanas e industriais se assistia ao crescimento das conversões pentecostais e práticas da Umbanda, e somente nas áreas rurais mais distantes se manteria a visão sacral tradicional do mundo. 11 No entanto, se houve o crescimento, daquele período para os nossos dias, das instituições religiosas pentecostais e até católicas, o processo de secularização não se expandiu a ponto do abandono pela população do uso das preces populares brasileiras. Em nossa cultura, as preces populares não são instrumentos confinados a poucos setores sociais e estão à disposição de amplas coletividades. Elas continuaram a difundir uma visão de mundo "encantada", para usarmos um termo caro aos sociólogos e antropólogos da religião. A este respeito, o professor Lísias Nogueira Negrão diz: "Sustento que a sociedade brasileira não foi reencantada pelo simples fato de nunca ter sido desencantada. A própria religião dominante durante todo o período pré-republicano era e é altamente encantada, a ponto de o próprio Weber tê-la considerado um retrocesso no processo de secularização comparativamente ao judaísmo. O catolicismo repovoou o mundo com seres sagrados (anjos, santos), intermediários entre Deus e os homens, revelando-se através de eventos miraculosos. As demais religiões então presentes, de origem indígena ou africana, eram absolutamente encantadas, plenas de relatos míticos e de práticas mágicas. Em inícios do séc. XX, das novas religiões de tradição protestante introduzidas por via missionária, apenas o pentecostalismo - uma espécie de reencantamento do altamente desencantado protestantismo histórico - atinge no desenrolar do século contingentes populacionais consideráveis. A umbanda, também gestada em inícios do século, adapta as crenças afro-brasileiras ao novo ambiente social, moralizando-as de acordo com princípios cristãos e kardecistas, contudo sem comprometer o encantamento original. Sem querer negar a presença de "ilhas de desencantamento" dentro do mundo urbano brasileiro desde a emergência da República, composto por elites positivistas e modernizantes, a maior parte da população brasileira viveu a modernização da sociedade sem secularizar sua visão do mundo, compatibilizando de alguma forma sua vivência em um mundo urbano industrial acentuadamente tecnificado com suas vivências religiosas densamente sacrais". 12 A modernização atingiu de forma tangencial as preces populares, principalmente no que diz respeito à sua forma de difusão pelo impresso. No tocante ao universo simbólico contido em sua estrutura, tem se mantido estável, ao menos desde o século XVIII, como indicam os textos que estão nos relatos inquisitoriais. As mudanças referem-se às recomposições de simbolismo, no seio do universo da religiosidade popular. As necessidades que as preces populares cobrem mantiveram-se também constantes. Se tratavam de conflitos dos homens entre si e deles com a natureza, tais elementos fundamentais estão nas preces atualmente difundidas, recompondo-se e readaptando-se às necessidades atuais.

É representativo desse processo o artigo de Lucas Boiteaux, publicado em 1944, fruto da colheita de material da cultura e religião populares em Santa Catarina; como seu exórdio foi publicado originalmente em 1911, pressupõe uma colheita de material entre 1911- 1944. É um amplo repertório, composto de romances recitados (narrativas tradicionais), benzeduras, adivinhações, danças e folganças, sátiras políticas, narrativas de acontecimentos locais, narrativas tipos ABC, cantos e trovas populares, cantigas, silvas e trovas. Desse amplo espectro, interessa-nos as chamadas "benzeduras" que possibilitam mapear os meios considerados eficazes para certas necessidades e aspirações. A lista contém soluções contra frouxo, contra unheiro, para tirar arqueiros, para renzedura (sic), contra dor de dentes, contra cobreiro, contra queimadura, para tirar o sol, para abrandar o gênio, contra argueiros, contra espinhela caída, para curar ínguas, contra zipra (sic), para expelir as secundinas, contra espinha na garganta, para abrandar, para maus arrotos, contra erisipela, contra bicheira. Orações e rezas: contra cobras, para ser feliz, para bem dormir, devoção "Salve Rainha", para casar, contra trovoadas, contra temporais, contra pesadelo, para limpar o tempo, contra verrugas, para ter-se dinheiro, pedido de graças, para andar à noite, para crescer os cabelos, oração em cruz contra os inimigos, oração para defesa, oração para viagem , oração contra bichas, para sangue cortado, contra maus-olhados, para abrandar corações, bênção do ar, contra acidentes de viagem, contra os inimigos, contra trabalhos, oração do Justo-Juíz, Senhora, Oração de S. Francisco, Viva S. João, Bendito e louvado, Folia do Divino, Terno dos Reis, Para recuperar o perdido.

Nos últimos anos, apareceram, em bancas de jornais, publicações de pequenas editoras dedicadas às "simpatias", tendo nas capas títulos como "Magias para você conquistar de vez seu grande amor", "Proteção: faça seu patuá", "Simpatias: Amor, Saúde, Emprego, Família, Dinheiro", "Simpatias superespeciais", para ficarmos somente com três espécimes.13 Queremos lembrar que as simpatias também compareçam em revistas dedicadas a artistas de televisão.

Dentre as publicações, escolhemos como exemplificativa a revistinha "Simpatias de João Bidu 2001", lançada no início de 2001. Os textos das simpatias publicadas nesta e outras revistas possuem a vantagem de serem curtos e precisos, constituindo um sistema mais ou menos fechado em si mesmo, diferentemente das orações que remetem-se à lembrança dos instrumentos religiosos da tradição da cultura popular. O material é distribuído de várias maneiras. Suas receitas para enfrentar o cotidiano são apresentadas junto a cada um dos signos astrológicos, além de conselhos sobre a "forma correta de fazer uma simpatia". Para cada signo há simpatias; depois há simpatias para tudo, subdivididas nas categorias que os próprios editores elaboraram: amor e paixão, sexo, família, dinheiro, saúde, trabalho, proteção, findando com receitas para fazer o próprio patuá. Não seguindo a ordem da revista, teremos as seguintes simpatias: manter o dinamismo a dois, amarrar seu amor, sucesso no trabalho, alto-astral na união, dinheiro na mão, romance cheio de diálogo, afastar rival, atrair bons fluidos, sorte na relação amorosa, conquistar seu amor, atrair dinheiro, nunca faltar erotismo, felicidade na paixão, sorte com grana, tranqüilidade com quem ama, sorte nas amizades, aumento de salário, nunca faltar charme, alegria no romance, sorte em jogos, ser sempre sensual, felicidade garantida, sucesso nos negócios, menos inconstância nas paixões, desejos atendidos, ter emprego ideal, prudência na vida a dois, firmar romance, subir na vida, intensidade para amar, xô, solidão!, sorte nos negócios, segurança sentimental, realizar um velho sonho, patuá da sorte, atrair admiradores, pessoa amada retornar, ter sorte no amor, descobrir traição, tornar romance mais sério, esquecer homem casado, conquistar o gato para sempre, para ele se apaixonar, namoro fiel, homem garantir romance, acabar com o ciúme, afastar amigas do seu gato, afastar rival, reconquistar ex-namorado, aumentar o tesão, paixão quente, sexo mais ardente, sempre sensual, marido mais fogoso, para fugir da rotina do sexo, melhorar o astral no lar, união dos filhos, evitar roubos ou assaltos em casa, ter harmonia no lar, finanças em dia, sorte em apostas, ter lucros, passar em concurso, dinheiro fácil, cobrar dívida sem perder amizade, multiplicar os ganhos, pagar as dívidas, acabar com uma verruga, parar de roer unhas, ter mais disposição, pés sem calos, curar insônia, acabar com a dor de cabeça, conseguir serviço, encontrar o serviço ideal, progredir no trabalho, chefe reconhecer seu talento, sucesso no trabalho, subir de cargo, mau-olhado no emprego, atrair boas vibrações, chega de azar, liberte-se das más-línguas, alto astral e, enfim, afastar olho gordo. Diante desse rol, duas indagações fundamentais podem ser feitas: o que ensinam ao leitor? Continuam reafirmando os valores populares contidos nas orações?

As simpatias podem ser compreendidas em dois aspectos: num primeiro, como uma espécie de ritual para prevenir ou curar uma enfermidade ou mal-estar. Num segundo, a partir de seus resultados. Cascudo afirma que na simpatia acredita-se que "o efeito é semelhante à causa que o produziu" e "imitá-la é determinar sua repetição." 14 Ora, percebemos que tais noções podem se aplicadas ao conjunto de fórmulas tradicionais, por exemplo, na coleção de Boiteaux. Já nas fórmulas da revista, aplicam-se parcialmente.

O quadro seguinte permite acompanhar alguns textos das preces e das simpatias.



Finalidade

Boiteaux

Simpatias de João Bidu 2001

Amor

Para abrandar o gênio

Santo Antonio pequeninho, / amansador de touros brabos, / amansai este homem/com todos os mil diabos..."




Para a pessoa amada retornar

Vá até a janela do seu quarto, numa quarta-feira, às 8hs. da noite. Olhe para o céu e conte 15 estrelas. Escolha uma e diga: "Que sua grandeza seja forte o suficiente para trazer meu amor para junto de mim, já que não estou conseguindo viver sem ele". Reze o Salmo 23 e olhe fixamente para a estrela por 3 segundos. Se quiser, você pode repetir essa simpatia todas as semanas.



Saúde

Para curar ínguas.

Minha estrela, /a minha íngua diz, / que viva ela / e morra vós.../ Mas eu digo,/que viva vós/e morra ela...




Ter mais disposição

Quando a Lua estiver na fase minguante, mergulhe o seu copo na água, deixando apenas a cabeça de fora (rio, mar, lagoa).Fique por alguns minutos na água, ouvindo o barulho da natureza e mentalizando coisas positivas. Antes de deixar a água, reze 1 Pai Nosso e 1 Ave-Maria com muita fé oferecendo para o seu santo de devoção.



Felicidade

Para ser feliz

Meu senhor Jesus Cristo, / Deus e Homem verdadeiro, / dai-me saúde e dinheiro, /graças para vos servir, / que nada mais tenho a pedir...




Chega de azar

Quando estiver sentindo que a sua vida não anda, por causa do azar, pegue óleo de oliva e faça uma cruz na sua testa, sola dos pés e nos seus pulsos. Jogue um copo de água fria no seu corpo e outro em sua cabeça, enquanto diz o seu próprio nome em voz alta. Você deve ter muita fé e fazer a simpatia em nome de Deus.



Amor

Para casar

Meu São Roque,/meu São Roque !/ aqui estou a vossos pés,/ sem me rir e sem chorar,/ vos pedindo que me deis / um noivo para casar.../um noivo para casar !




Tornar romance mais sério.

Pegue 1 dente de alho., 3 pedrinhas de sal grosso e 1 pedacinho da planta palma de santa Rita. Embrulhe tudo num papel de cor branca, sem pauta, e guarde dentro do seu guarda roupa durante 15 dias, falando assim: "Senhor Deus, meu amigo de todas as horas,, estou precisando de sua ajuda. Meu romance precisa se tornar sério e só confio em suas forças para me ajudar". Passados os 15 dias, pegue o pacote, leve até um terreno baldio, e enterres lá e reze 1 Pai-Nosso e 1 Ave-Maria com muita fé e devoção.



Dinheiro

Para ter-se dinheiro

Deus te salve, Lua nova /clara e resplandecente ! / quando vieres outra vez / traz-me desta semente...



Finanças em dia

Para que a sua carteira nunca esteja vazia, tire a roupa que você dormiu, deixe ao sol no varal. No final do dia, sacuda todas as peças 7 vezes. Antes de dormir, pegue o seu chinelo, bata 7 vezes e coloque a roupa. Reze com muita fé 1 Pai-Nosso e 1 Ave-Maria antes de pegar no sono.



Saúde

Oração para bichas

Meu Senhor Santo Onofre, capelão de Nossa Senhora do Rosário, convertedor dos vermes intestinais; vós que converteis os vermes no ventre de F .... com consentimento de vossa devota Virgem Maria, assim convertereis pelas vossas palavras no ventre de todos estes nos seus perigos de acessos, que caiam todos esses vermes pela terra fria. Em nome de Deus e da Virgem Maria. Amem.




Curar insônia

Antes de dormir, procure relaxar e deixe os problemas de lado. Em seguida, coloque 3 folhas de alface frescas debaixo de um travesseiro que tenha fronha branca. É importante que as folhas estejam bem fresquinhas. Faça essa simpatia durante 1 semana, sempre trocando as folhas, que devem ser jogadas no lixo no dia seguinte. Com certeza, o seu sono vai melhorar.



Amor

Para abrandar

Minha Santa Catarina, /vós sois a flor divina... /Em sexta-feira d paixão /foste a casa de Adão, /encontraste três mil homens/bravos como um leão.../Todos eles abrandaste / co'a palavra da razão.../assim vos peço que abrandeis / de F... o coração..."




Xô, solidão!

Para acabar de vez com a solidão no amor, faça esta visualização: feche os olhos e imagine que está viajando. Você olha para um riacho e vê um coração roxo flutuando, apanha-o e aperta-o contra o seu próprio coração. Sinta-o transformar toda a negatividade que há em você em amor espiritual. Esse coração roxo trará novas possibilidades para aumentar a sua intuição e criatividade. Depois, imagine você e seu amor num clima de grande felicidade. Em seguida, peça para que o seu anjo da guarda traga uma grande paixão para a sua vida.



Relações sociais

Contra maus-olhados

Leva o que trouxeste ! ... Deus me benza com sua santíssima Cruz ! ... Deus me defenda dos maus olhados e de todo o mal que me quiserem fazer... Tu és o ferro e ou sou o aço ; tu és o demônio e eu sou o embaraço ... Padre, Filho, Espírito Santo.



Afastar olho gordo

Coloque 7 fios do seu cabelo dentro de um envelope junto com um galhinho de arruda e 1 punhado de majericão. Deixe-o embaixo do colchão de sua cama por 7 dias. Depois, jogue no lixo. Repita essa simpatia com muita fé, durante um mês, somente às sextas-feiras.


Este quadro indica outros referenciais nos textos das tradicionais simpatias, de modo que podemos chamar estas outras de verdadeiras "neo-simpatias". Portanto, elas mudaram. Agora, as simpatias funcionam num sistema repetitivo de projeções centrado unicamente no leitor. Essa repetição lhe dá uma configuração serial. A identificação do leitor com o texto é facilitada, tanto mais que há o elogio dele próprio, sujeito que é transformado em herói. As simpatias assemelham-se a um espelho que projeta um modelo normativo e ideal, para o seu leitor, que se reconhece nele. Favorecem a auto-análise, neutralizando a angústia solitária do leitor e conduzindo-o, quase sempre, à ação e dando parâmetros a seus esforços.

Assim, os textos das simpatias funcionam como suporte moral do próprio sujeito, atribuindo-lhe um papel a desempenhar. Elas não representam só o reino da fatalidade mágica e ao sujeito é resguardada sua responsabilidade, pois realizados seus conselhos e imperativos precisos, poderá alcançar a felicidade. Com isto, o sujeito dispõe de um guia indicativo para conseguir o que deseja.

As simpatias inserem o indivíduo num quadro de referências, impondo ou/e fornecendo-lhe modelos de conduta previamente normalizados, difundindo um sistema de valores que corresponde a uma certa maneira de disciplinar desejos. A exigência fundamental dessa moral reguladora de desejos é a procura da felicidade individual, apresentada repetidamente como necessária. Exigência que talvez trabalhe com o possível aumento de venda das revistas e com a reafirmação da sociedade industrial capitalista, como indicam os títulos de suas capas que apelam para isso. Esta busca é pormenorizada nos meios para atingi-la. Já entre os elementos principais constitutivos do seu sistema de valores temos: 1) O amor, não só ligado à idéia de segurança (estabilidade do casal) e de harmonia. Há lugar para vários desejos, para o amor paixão e o amor conjugal, normalizado e controlado. Nas preces tradicionais, a paixão não era desconhecida, mas não era recomendada. 2) As relações sociais e de amizade têm enorme importância. Nas simpatias, diminui-se o caráter de violência, que era comumente expresso nas orações. Devem ser procuradas a sociabilidade e a vida de relação, atingidas pela conciliação e a diplomacia. Trata-se de ampliar o círculo de relações, sem agressividade, evitando discussões e conflitos. 3) A saúde constitui um valor em si. Sempre há conselhos para preservar o corpo, para algumas curas e para o cuidado de si, sempre ameaçado. O arco das males parece haver diminuído, em comparação com as preces tradicionais e suas receitas não entram mais em disputa com a medicina oficial. 4) A preocupação com o dinheiro está presente, mas não conselhos explicitamente de como gastar e sim como riqueza para poupar. 5) Há também outros elementos nesse sistema de valores, como as exigências de sucesso (as simpatias para "encontrar o serviço ideal", para "progredir no trabalho") e até de prestígio (como para o "chefe reconhecer seu talento", "para subir de cargo"), que denotam o parecer e a aparência, e os resultados de todo empreendimento do sujeito.

Apesar das diferenças entre simpatia e prece, lembremos que se inserem num universo em transformação. Nas preces populares, instrumentos da tradição, podemos identificar a criação de um mundo imaginário, onde os relacionamentos entre os homens e destes com a natureza, subordinam-se aos desejos e angústias do seu fiel / leitor. No mundo expresso pelas orações predomina a insatisfação perante as subordinações humanas ante a natureza e os conflitos entre os homens que sujeitam o recitador/leitor. Se as representações sobre a natureza e as orações de cura falam da violência é porque tanto a natureza quanto as relações entre os homens, para os fiéis, são violentas. Tal insistência na violência as transformam em modelos de conduta e de comportamento moral. Mas, se tanto insistem na violência é porque têm para ela uma solução de ordem moral, baseada em valores da ética tradicional, misturando valores do catolicismo e anseios populares. É a ética da inserção do indivíduo na comunidade. A propósito, Elda Rizzo de Oliveira aponta que a bênção é um veículo para estabelecer duplamente, relações de solidariedade e de aliança com os santos e também com os homens, e entre ambos simultaneamente. Ademais, é um instrumento pelo qual se produzem serviços e símbolos de solidariedade para sujeitos da classe social da qual fazem parte, o benzedor/benzedeira e o fiel. 15 Isso ocorre, quando há um problema que é sabido antecipadamente que a benzedeira pode resolver. 16 As simpatias atuais ou "neo-simpatias" contribuem para o desenvolvimento do conformismo, da integração social, do individualismo e o êxito de desejos dos seus usuários. Há ênfase que o indivíduo isolado é o senhor do seu destino através da magia (que age por si) seguindo conselhos de auto-confiança. É a moral do esforço de si mesmo, com a finalidade de obter a satisfação através do próprio esforço. As simpatias difundem saberes que transformam em cúmplices o leitor e os redatores das revistas de cultura de massa, que re-elaboram o repertório da concepção de mundo produzida pela tradição, para fins de comunicação e de interação.

Portanto, cultura e religião populares mantêm entre si uma relação inseparável, ambas expressam através do imaginário as aspirações, as frustrações e os saberes coletivos colocados ao alcance dos indivíduos. A religião popular compõe uma verdadeira teodicéia, ou seja, respostas religiosas para as imperfeições do mundo. Talvez, aqui, esteja uma explicação mais ampla da permanência de tais recursos populares contra as adversidades no imaginário brasileiro. Os processos de dominação mudaram historicamente porque mudaram as estruturas sociais, políticas e econômicas, tanto quanto a cultura. No entanto, estes instrumentos permaneceram e se podem representar uma faceta da resistência, também exprimem saberes e desejos. No caso das preces, expressam e respondem às indagações fundamentais da própria religião enquanto fenômeno humano universal. Veículo de comunicação de saberes e desejos, buscam manipular o mundo e as relações entre os homens e são, também, representação do sagrado e de suas forças. Através de seu simbolismo e de seus valores, as preces populares brasileiras se inserem na universalidade da busca religiosa, não deixando de expressar também ansiedades do cotidiano. Para isso, valem-se de "núcleos temáticos", mantidos pela religiosidade popular e transmitidos tradicionalmente. Lísias N. Negrão, buscando identificar os elementos comuns nas várias experiências religiosas vigentes no Brasil e que comporiam uma espécie de "mínimo denominador comum", apresenta-os como o encontro com o divino, fé na figura de Deus, uma concepção cristã da divindade, o papel central no culto dos santos católicos, a crença nos espíritos dos mortos e em sua capacidade de comunicação com os homens, e sua interferência na vida dos vivos. 17 As preces populares mostram a permanência desses elementos, reafirmando o centro deste universo religioso, indicado por Negrão. Muitas vezes, na estrutura interna das preces são descritas situações em que há emprego de analogias entre a época em que Jesus e/ ou os santos viveram no mundo e a do seu fiel/leitor 18, além do uso de palavras aumentativas e diminutivas, introduzindo o fiel/ leitor num universo de familaridades com seres sobrenaturais (Deus, Jesus, Maria e os santos). Nas orações que objetivam a cura, narra-se a origem dos remédios das doenças, tal como nos mitos de origem, o que não acontece com as "neo-simpatias" quando visam curar . As preces, assim, são elementos fundamentais da estrutura da religião e da cultura populares, mantendo em seu interior cruzamento de múltiplas experiências históricas. Isto é, elas remetem para as atitudes e representações coletivas inseridas numa história de tempo mais longo, reinterpretadas e re­-lidas ante as mudanças da sociedade brasileira.



Desse modo, através de fórmulas conhecidas ora por preces ora por simpatias, a cultura e a religião populares encantam o cotidiano, colocando em ordem uma série de gestos, ações e instrumentos conhecidos para superar, atrair ou isolar as adversidades do mundo. A comparação do conteúdo de simpatias colhidas da tradição oral em 1944 e as produzidas pela indústria cultural em dezembro/2000 mostraram a permanência da maioria das aspirações e a mudança da forma que as exprimem.

* Eduardo Basto de Albuquerque é doutor em História pela USP, professor e livre-docente da UNESP, Câmpus de Assis, SP.

1 XIDIEH, Osvaldo Elias. Semana Santa Cabocla. São Paulo : Instituto de Estudos Brasileiros,1972.

2 CABRAL, Oswaldo. A medicina teológica e as benzeduras. In Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, 1957, CLX. CABRAL, Alfredo do. Achegas ao estudo do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: MEC-DAC-FUNARTE- Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1978. KRUG, Edmundo. "Deus e os santos na superstição brasileira". In Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo: vols.23-24, 1925. ANDRADE, Mário de. O Baile das Quatro Artes. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1963. ARAÚJO, Alceu Maynard Medicina rústica. São Paulo: Ed. Nacional, 1979. BOITEAUX, Lucas A. Poranduba catarinense In Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, volume 184, julho - outubro 1944.

3 CNBB. Com Deus me deito, com Deus me levanto: orações da religiosidade popular. São Paulo: Paulinas, 1979.

4 LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1990, pp. 536 e 546.

5 ALBUQUERQUE, Eduardo Basto de. Viver é perigoso. Tese de Livre Docência. UNESP- Assis, 1997.

6 Indico algumas edições atualmente acessíveis como: SANTO OFÍCIO DA INQUISIÇÃO DE LISBOA. Confissões da Bahia. Organização: Ronaldo Vainfas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Livro da Visitação do Santo Ofício da Inquisição ao Estado do Grão Pará. Petrópolis : Vozes, 1978. Editado por J. Roberto do Amaral Lapa.

7 CABRAL, Alfredo do. Achegas ao estudo do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: MEC-DAC-FUNARTE- Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1978. CÉSAR, Getúlio. Crendices, suas origens e classificação. Rio de Janeiro: Edição patrocinada pelo Ministério da Educação e Cultura, Departamento de Assuntos Culturais, 1975. EWBANK, Thomas. A vida no Brasil; ou, Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia: São Paulo: Ed. da USP, 1976.

8 Entre outros: CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito. São Paulo: Duas Cidades, 1975. CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro. Depoimento e pesquisa sobre a magia branca no Brasil. Rio de Janeiro: Agir Editora, 1951.

9 RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, org. Raúl Antelo, refere-se à venda de impressos em 1905, no Rio de Janeiro.

10 Coleção Ediouro de Simpatias N.º 2. Rio de Janeiro: Ediouro, s. d. Cruz de Caravaca. São Paulo: Emprêsa Editora "O Pensamento", 1951. 19.ª ed. FONSECA, Déborah. Santos o orações. Preces do dia - a - dia. São Paulo: Nova Sampa, 1994. MAGGI, Nadia. Orações e preces. São Paulo: Confronto, 1995. MAGGI, Nadia. Orações e rezas. São Paulo: Sampa, 1994.

11 CAMARGO, Cândido P. F. de. e outros. Católicos, Protestantes e Espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973, p. 9-10.

12 NEGRÃO, Lísias Nogueira. Refazendo Antigas e Urdindo Novas Tramas: Trajetórias do Sagrado. In Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 18 (2): 67, 1997.

13 Simpatias de João Bidu 2001. São Paulo: Editora Alto Astral, 200, Ano 4. Fé & Proteção - Edição Especial Boa Sorte. São Paulo: Editora Alto Astral, Ano 5, n. 13, s.d. Revista Simpatias. Rio de Janeiro: Editora Parr, Ano. 1, n. 1., s.d.

14 CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio: Edições de Ouro, 1969, vol. 2, p. 626

15 OLIVEIRA, Elda Rizzo. O que é benzeção. São Paulo: Brasiliense, 1985, Primeiros Passos n. 142, p. 9.

16 QUINTANA, Alberto Manuel. A ciência da benzedura: mau-olhado, simpatias e uma pitada de psicananálise. Bauru: EDUSC, 1999. QUEIROZ, Marcos de Souza. Feitiço, mau-olhado e susto: seus tratamentos e prevenções , aldeia de Icapara. IN RELIGIÃO E SOCIEDADE, n. 51980, p. 131-160.

17 NEGRÃO, Lísias Nogueira, ob. cit., p. 70-72.

18 FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1981, p. 33-41.


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