Sinfonia da Alma



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Sinfonia da Alma


Muitos são os segredos da alma humana. Quando ela começa a dar sinais de que é hora de enfrentar o desconhecido e desvendar esses mistérios, o resultado pode ser um caminho repleto de realizações.

Denise é uma jovem reservada, e às vezes até melancólica, que sonha em dedicar-se à música. Por causa das constantes crises de sonambulismo, é considerada uma garota de comportamento difícil: se de dia segue a vida normalmente, durante o sono ela assume a personalidade da francesa Georgette, que vive um caso de amor com Anton.

Quando Denise decide estudar em Paris, esse conflito de personalidade ganha força e ela entende que, para viver um grande amor, é preciso deixar o passado para trás.

Desenvolvera consciência nos conduz à conquista da felicidade.

AOS QUE TÊM CORAGEM
De enfrentar o desconhecido universo da alma

Humana e descobrir que é um imenso campo de oportunidades e realização.



ANA CRISTINA VARGAS


Começou a estudar a doutrina espírita aos de­zessete anos, movida pela curiosidade de entender como funcionam os fenômenos mediúnicos. Em 2000, passou a psicografar livros inspirada e instruída pelo espírito José Antônio, em uma parceria que já dura mais de dez anos. Juntos, produziram romances de sucesso, como A morte é uma farsa, Em busca de uma nova vida, Em tempos de liberdade, Encontrando a paz e O bispo. Natural da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, também é fundadora da Sociedade de Estudos Espíritas Vida, localizada na mesma cidade.

Amiga espiritual de Ana Cristina Vargas, Layla foi apresentada para a autora pelo espírito José Antônio, parceiro da escritora há mais de uma década. Da sua história, além do que a própria Layla contou nos livros Em busca de uma nova vida, Em tempos de liberdade e Encontrando a paz, sabemos que ela também foi escritora e precursora dos direitos femininos e das ideias espiritualistas na Europa do século 19. Agora, na condição de espírito liberto da matéria, Layla nos fala sobre os muitos caminhos por ela percorridos até atingir um estágio de tranquilidade da alma, sempre buscando o progresso e levando mensagens de paz e alegria aos leitores.





— Mãe, agora não, tá? — pediu Denise, afastando a cadeira da mesa. — Já tá na minha hora, tchau!

Marlene olhou para o marido, e seu olhar mostrava incon-formação e inquietude. Denise não precisava encarar a mãe para saber o que se passava, o assunto já era batido. Por isso, apanhou a mochila sobre o sofá e saiu. O tilintar suave do emis­sário dos ventos, feito de bambu e preso à porta principal da residência, anunciou a saída da jovem.

— Não sei mais o que fazer, Pereira. Ela é teimosa, não me ouve — reclamou Marlene. — Puxou à sua mãe. Você pre­cisa falar com a Denise e tirar essa idéia estúpida da cabeça dela.

— Ih! — Renato sabia que quando a mulher o chamava pelo sobrenome, como era conhecido no trabalho, estava irrita­da.

— Acalme-se. A Denise sempre foi difícil, mas é uma meni­na ajuizada. Apesar da teimosia e das esquisitices dela, nunca nos deu problemas. Graças a Deus, jamais se envolveu com drogas, nem com más companhias, é estudiosa, trabalhadora. Tenha calma, Marlene. É um sonho de juventude. Vai dizer que você não tinha os seus? Isso passa! Ela vai cair na real e esque­cer essa história toda. Espere e verá!

Marlene jogou o guardanapo sobre a mesa. A paciência do marido a exasperava ainda mais. Reconhecia que, em parte, ele tinha razão. Afinal, era ela quem ouvia as confissões angus­tiadas da filha. Renato adorava a filha mais velha e, desde bebê, fizera dela a sua companheira. Com Camila, a caçula, tinha um bom relacionamento, mas ela era mais independente. Denise acompanhava o pai nas noites de pescaria aos fins de semana, cantava as músicas que ele gostava e o acompanhava nas festas com os amigos e, quando havia uma roda de samba, mesmo não sendo a preferência musical dela, acompanhava o pai e os amigos dele, cantando animada. Ele conhecia as angústias da filha, mas não encucava com elas. Deixava-a desabafar e simplesmente abraçava-a, brincava que a estava examinando, beijava-lhe os cabelos cacheados e respondia despreocupado:

— Você não tem febre, não tem dor, está corada e sadia. Então, esqueça! Está tudo bem. Vá pegar a bicicleta e vamos passear. O dia está lindo. Chame a sua mãe.

— Pai, ela não pode pedalar, esqueceu? O médico disse que faz mal para o joelho dela.

— Ah, é. Tem razão. Então vamos nós dois. Ela fica com a sua irmã.

E assim passaram-se os anos da adolescência de Denise, hoje com vinte e dois anos.

Voltando ao momento presente, Marlene acusou o marido:

— Para você tudo é fácil. Mas eu me preocupo. Ela não tem condições de ficar sozinha. Denise é frágil e, por mais que você diga o contrário, não me convence. Tenho medo de que ela se deprima. Sei lá, às vezes penso que ela vive à beira de uma neurose. Eu me preocupo.

Renato estendeu a mão sobre a mesa e segurou a da es­posa, pressionando-a de leve, no intuito de confortá-la, e disse: - Marlene, esse é o problema: você se preocupa demais. Esquece que tem coisas que são da idade, elas passam. Denise é uma menina saudável, e, como lhe disse, tudo isso não passa de um sonho. As chances dela são mínimas. Por que se des­gastar por algo que tem, sei lá, noventa e nove por cento de possibilidade de não acontecer? Você fica aí se desgastando, criando atritos com a menina, enquanto podia estar calmamente aproveitando o tempo, curtindo o esforço dela. Ela irá se frustrar, é quase certo, mas se lembrará de que nós, os seus pais, a sua família, a apoiamos, torcemos por ela até o fim, e que continua­remos aqui quando a realidade chegar e o sonho for embora pela janela, meu bem.

— Não sei, Renato. Meu coração de mãe não sossega, e tenho medo de que as coisas não sejam tão simples como você vê. Já pensou no que você fará se ela realmente se for?

Renato soltou a mão da esposa e balançou-se na cadeira. Não gostava de pensar no assunto. Sabia que sofreria muito com o afastamento da filha. Reconhecia que era apegado e até possessivo em relação à sua menina. Por isso, sacudiu a cabeça com força, levantou-se e sorriu:
— Isso não vai acontecer. Está na hora. Você vai comigo?

Marlene suspirou e desistiu da conversa. Consultou o re­lógio de pulso e levantou-se apressada. Não teria tempo de recolher as louças, guardou os alimentos na geladeira e correu ao banheiro para terminar a higiene e aplicar uma maquiagem leve. Seu pensamento voltou-se às questões práticas da rotina.

Renato deixou a esposa em frente à empresa em que tra­balhava, deu-lhe um beijo rápido de despedida e disse:

— Estarei aqui no final do expediente. Hoje temos que ir ao supermercado, não é? E depois, buscaremos Camila, certo?

— Exatamente. Bom trabalho, amor.

— Pra você também. Até mais!

Ela desceu do carro, e Renato partiu. O local de trabalho dele ficava a algumas quadras. Mais um dia se iniciava.



Equilibrando-se no corredor do ônibus lotado, Denise irri­tou-se ao ouvir o toque do seu celular. "Maldita hora que colo­quei essa música!" O som estridente do rock do Black Sabbath tomava conta. Recebeu alguns olhares de censura, mas o ra­paz ao seu lado sorriu e comentou:

— Maneiro! Gostei. Vou colocar no meu.

Denise sorriu sem graça, procurando o aparelho na mo­chila. Aliviada, encontrou-o e viu no visor o nome da professora e amiga.

— Oi, Vanessa!

— Oi, Denise. Você pode falar comigo?

— Estou no ônibus, está lotado e um pouco difícil. É urgente?

— Um pouco. Será que pode me encontrar na sala do departamento?

— Claro, estarei um pouco atrasada para a primeira aula. Já estou chegando.

— Ok, aguardo você. Beijo, querida.

Denise desligou e guardou o aparelho. O rapaz ao seu lado continuava sorridente. "Cantada de ônibus, não! Sexta--feira é demais! Se pelo menos fosse bonitinho", pensou.

Decidida, pediu licença e foi abrindo caminho com difi­culdade até a saída. Desceu em frente aos portões do campus universitário.

Apressou-se para chegar ao local do encontro. Vanessa a esperava e, ao vê-la, Denise assustou-se:

— Pelo amor de Deus, o que aconteceu?

— Problemas domésticos, querida.


Denise sentiu a desolação tomar conta de seu ser. Adorava a professora, eram amigas desde a primeira aula. Vanessa era uma mulher sensível, inteligente, culta, mas mantinha um relacionamento conturbado com o namorado, Dênis. Denise o encontrara poucas vezes. Ele era arredio, possessivo e truculento. Não conseguia entender o que a amiga via nele. Não tinham absolutamente nada em comum. E, apesar de batida, obrigava-se a recorrer à velha frase "o coração tem razões que a própria razão desconhece" para explicar por que Vanessa parecia não conseguir se libertar do traste.

Olhando o rosto machucado da amiga, a boca inchada, com alguns cortes, não precisava pedir explicações. Vanessa tinha os olhos marejados de lágrimas, as faces avermelhadas. A fragilidade emocional estava literalmente "na cara". Denise de­cidiu não abordar a questão espinhosa, não tinha coragem de mexer na ferida.

— Sei, entendo.

— Denise, preciso lhe pedir um grande favor. Prometi cantar em um casamento amanhã e... — fez um gesto com a mão envolvendo o rosto. — Eu não queria me expor. São amigos da minha família e...

— Entendi, Vanessa. Não quer que a incomodem. Tudo bem! Acho que você tem direito de escolher o que quer e ninguém tem nada a ver com isso. Odeio lições de moral!

Obrigada, querida. Só que ficou em cima da hora. Tentei localizar uma conhecida, antes de recorrer a você, mas ela está com a agenda cheia. Então, pensei em você. Amo a sua voz, ela é linda. Você tem muito talento, tem todas as condições de me substituir. Será apenas na cerimônia religiosa. São algumas músi­cas conhecidas, bem tradicionais. Você faria isso por mim, Denise?

Denise sentou-se, impactada.

— Vanessa! Mas eu não sei que músicas são, quem vai fazer o acompanhamento. Imagina se eu estrago a cerimônia de casamento! Eles vão me matar, e com razão!

— Não vão, não. Na verdade, estão apavorados. Eu já avisei que não poderia comparecer, mas garanti que haveria uma substituta e que tudo sairia perfeito como nos sonhos dela.

— E de quem é o casamento?

Vanessa declinou o nome de uma família conhecida e im­portante na cidade.

— Jesus! Eles vivem nas colunas sociais e revistas de fofocas. Você deve estar brincando comigo, Vanessa.

Desesperada, Vanessa pegou as mãos da jovem e pediu, com lágrimas descendo pela face:

— Por favor, Denise. Eu não posso ir. Mesmo que fizesse um milagre com a maquiagem. Dênis e eu brigamos feio on­tem. Eu não quero mais ficar com ele. Até fui à Delegacia da Mulher e registrei a ocorrência. Procurei uma psicóloga logo cedo e comecei um tratamento. Cheguei no fundo do poço. Mas está sendo difícil e juro que assistir a um casamento está além das minhas forças — Vanessa rompeu em choro dolorido. — Imagina que fiasco! E todas as câmeras das revistas de fo­foca para registrar essa bizarrice. Por favor, Denise! Aceite! O cachê é ótimo!

Penalizada, Denise abraçou-a. Nem ouviu os pedidos reiterados. Estava com dó e feliz ao mesmo tempo, enfim a amiga tomava uma atitude firme para resolver aquele relacionamento. Não recusaria apoiá-la.

— Está bem, eu irei. Mas não tenho roupa, acho que não posso ir de jeans, não é? Nem com os meus vestidos de balada. E precisamos ensaiar. Como será o acompanhamento?

— Órgão e cordas. Miguel e Catarina vão tocar.

— Santo Deus! No que eu me meti! Olha, tenho uma prova no segundo período. Depois que eu terminar, será que poderia marcar um ensaio com eles? Creio que eles também devem estar preocupados.

— Já marquei — declarou Vanessa, sorrindo entre lágri­mas, agradecida. — Às 11 horas, lá em casa. Espero você no estacionamento. E não se preocupe com a roupa, poderá usar a minha. Será preciso fazer poucos ajustes.

Vanessa baixava o rosto, escondendo os machucados com os cabelos escuros, lisos, que caíam soltos até os om­bros. Denise sentiu uma profunda piedade. Admirava a amiga e mestra. Vê-la tão machucada e frágil tocava-lhe o coração. "Que bom que ela decidiu tomar uma atitude! Não importa o que aconteça amanhã, eu quero ajudá-la agora", pensou.

— Ok! — concordou Denise.

Ela consultou o celular e assustou-se, pois estava terminando o primeiro período. Aquele provavelmente fora o diálogo mais cheio de silêncio do ano.

— Encontro você daqui a pouco — disse Denise.

Vanessa ergueu o rosto, aliviada, procurou sorrir e de­monstrar confiança, mas a gratidão e o alívio eram dominantes. Abraçou Denise com cuidado, seu corpo tinha outros ferimen­tos que doíam. A jovem entendeu, esforçou-se por esconder o horror ao ver marcas arroxeadas no pescoço e nos braços da amiga. Intimamente lutava para conter a revolta e a vontade de xingar Dênis com todos os palavrões e desaforos que conhecia.

Mas a fragilidade de Vanessa não permitia e, com muito esforço, Denise demonstrou respeito a sua vontade, calando-se.

— Obrigada, Denise!

— Hum, acho melhor me agradecer amanhã. Vanessa sorriu compreendendo o receio da aluna.

— Confio no seu talento, sei que é capaz disso e muito mais.

— Tenho que ir, não posso perder a prova.

— Boa sorte!

Em frente à porta da sala de aula, Denise obrigou-se a ex­pulsar os pensamentos irados contra Dênis e concentrar-se na prova. Entrou na sala, a turma não era das maiores, cumprimen­tou os colegas com um "oi, gente!", e sentou-se na última fila.





— Denise, vamos dar uma caminhada? A manhã está linda — convidou Renato, batendo na porta do quarto da filha na manhã de sábado.

— Não posso, pai. Preciso repassar as músicas do casa­mento. Além disso, Vanessa marcou hora com o cabeleireiro dela e depois irei provar o vestido. Ainda bem que a costureira aceitou fazer os ajustes de última hora.

— Que casamento? — indagou Renato, espiando para dentro do quarto.

— Entra pai — chamou Denise, sentada de pijama sobre a cama, com as letras das músicas espalhadas ao redor. — Eu contei, mas você não prestou atenção. Vou cantar em um casa­mento hoje à tarde. Era trabalho da Vanessa, mas ela pegou um resfriado e ficou rouca. Daí me chamou para substituí-la.

— Hum, lembrei. Mas precisa estudar tanto? Casamentos têm sempre as mesmas músicas no repertório — e, afastando os lençóis, acomodou-se aos pés da cama.

Renato apanhou algumas letras e as examinou. Ficou sé­rio, colocou-as de volta e criticou:

— Nenhuma música em português. Repertório difícil. Onde será o casamento?

— Na catedral, às dezoito horas. Bem clássico. Vanessa me passou isso ontem. Achei que poderia ser pior, considerando-se que é um casamento tão chique e badalado.

— E a minha pequena vai cantar para a elite da cidade. O pessoal do samba não pode saber disso — brincou Renato.

Conformado, ele sorriu para a filha, levantou-se e, antes de fechar a porta, perguntou:

— Posso ir ao casamento com você? Prometo que coloco terno e fico ouvindo num cantinho bem escondido.

— Pai! Estou nervosa, mas adorarei saber que você esta­rá lá. Só que vou direto da casa da Vanessa. Faremos o último ensaio com os músicos. Até parece que foram muitos ensaios... E depois seguiremos para a igreja.

— Estarei lá. Será lindo!

— Tomara! Nunca cantei em uma igreja.

Renato sorriu, fez cara de pouco caso, jogou um beijo com a ponta dos dedos para Denise e saiu. Pouco depois, Denise ouviu o pai chamando a irmã e a porta se fechando.

— Vamos, Camila! Sua irmã não irá com a gente. Concentrou-se tanto nas músicas que se esqueceu de que

a mãe estava em casa, até que sentiu o característico cheiro do feijão cozinhando e o inconfundível chiado da panela de pressão.

— Denise! — chamou Marlene da porta da cozinha. — Denise, venha cá! Preciso de ajuda.

— Que foi, mãe? — perguntou Denise, surgindo no corre­dor, ainda de pijama.

— Preciso que me alcance os enlatados. O armário é alto e não quero ficar subindo e descendo.

— Não é bom, mesmo. Seus joelhos não iriam gostar. As duas trabalharam alguns minutos em silêncio e, ao ter­minar a tarefa, a jovem indagou:

— Eram só essas latas ou tem mais?

— Era só, obrigada pela ajuda.

— Então vou continuar estudando — informou Denise, retornando ao quarto.

— Tem prova na próxima semana, filha?

— Não, estou estudando para a apresentação de hoje à tarde. O casamento de que falei ontem, mas pelo visto nem você nem papai prestaram atenção.

Marlene sentiu-se culpada com a decepção no rosto da filha. Sabia da apresentação e estava incomodada, não apre­ciava a amizade de Denise com Vanessa. Admitia um quê de ciúme pela influência da outra mulher sobre a jovem. E, acima de tudo, não gostava do incentivo que ela dava aos sonhos e devaneios de Denise.

— Ah, é verdade. Você falou. É hoje, não é? Em cima da hora, sua amiga lhe deu uma bela bola nas costas.

— Não foi nada disso, mãe. Ela não poderá cumprir o compromisso e me pediu para substituí-la. Ninguém escolhe quando vai adoecer. E será bom, o cachê é dos melhores. Vai engordar o meu poupançudo (1).
(1) Cofres plásticos, coloridos, em formato de pequenos monstros, dis­tribuídos em campanha publicitária.

— Isso é bom, filha. Dinheiro não se põe fora. É difícil ga­nhar, por isso é preciso saber guardar. E como está a faculdade?

— Qual delas, mãe? A minha ou a sua? — indagou Denise, sem esconder o desprazer com o assunto.

— Denise! Não quero discutir. Já falamos muito sobre isso. Você é inteligente, esforçada, e eu a admiro por conseguir fazer dois cursos ao mesmo tempo. Mas sabe que viver de mú­sica é delírio. Insisti para você se matricular no outro curso, e pago com gosto, porque eu sei, filha, que no futuro irá me agra­decer. E você gosta de jornalismo. O campo de trabalho está se ampliando, as pessoas correm atrás da informação. Você poderá fazer uma especialização, em economia, por exemplo.

— Mãe, você é economista. Você trabalha nessa área financeira. Eu odeio isso. E, quer saber, vou voltar a estudar. Não quero brigar hoje. Não vou me desconcentrar. Cantar a Ave-Maria, de Gounod, com raiva não dá certo.

Marlene viu a filha afastar-se e sentiu-se impotente e frus­trada. O relacionamento com Denise piorava. A criança meiga e alegre tornava-se uma mulher teimosa e sonhadora. E, como mãe, tudo que desejava era o bem da filha, não queria vê-la sofrer desilusões nem perder tempo na vida correndo atrás de uma carreira ilusória. Nos últimos anos, elas discutiam muito "a suposta vocação artística de Denise", como Marlene se re­feria à paixão da filha pelas artes e pela música em especial.

Largou o pano de prato usado para tirar o pó da prateleira dos enlatados sobre a mesa e sentou-se.

— Maldição! — praguejou. — É teimosa como a dona Clara. Não sei de onde saiu essa veia artística. Só pode ser influência da tal Vanessa. Ela devia era ter filhos primeiro, para depois querer "ajudar" os dos outros. Música não enche barri­ga, não paga as contas. Vai conseguir o quê? Cantar em algum bar. Isso não é futuro. Não foi para isso que me esforcei para dar-lhe uma boa formação.

O timer do fogão avisou o final do tempo de cozimento do feijão, e Marlene dedicou-se ao preparo da refeição procurando esquecer a conversa com Denise e seu desconforto emocional.

"É a adolescência, vai passar." Pensava Marlene tentando conformar-se e manter a paciência.

No final da tarde, Renato dava o nó na gravata em frente ao espelho no quarto. Marlene, deitada, assistia a um filme.

— Que tal? Ficou bem? — perguntou Renato, apontando para a gravata.

Marlene olhou com ar de pouco caso e respondeu desinteressada:

— Está passável. Mas ninguém o conhece mesmo. Você irá de penetra.

— Eu vou assistir à apresentação da minha filha — retrucou Renato com orgulho. — E, de mais a mais, igreja é um local pú­blico e casamento tem que ser realizado com as portas abertas.

Aproximou-se da esposa, beijou-a e informou:

— Trarei pizza para o jantar.

— Ótimo! — respondeu Marlene, sorrindo sem graça.

O desconforto emocional da manhã, após a conversa com Denise, permanecia, e até agravara-se, pois parte dela dese­java acompanhar o marido e assistir à apresentação da filha.

Mas outra parte lhe dizia para não vacilar. Pelo bem do futuro da menina, não podia apoiar aqueles devaneios. Precisava marcar posição e manter-se firme, mesmo que o preço fosse sofrimento. Pensava que era seu dever materno.

Renato era despreocupado por natureza. Para ele, apa­rentemente não havia nem passado nem futuro, valia apenas o hoje. Após vinte e três anos de casamento, não conseguia saber se ele estava certo ou errado. Mas não abriria mão de insistir com Denise, afinal era dela o dever de conduzir a filha. A adolescência estava sendo um período de dificuldades além do esperado, especialmente esse chegar à idade adulta.

Preparara-se para dar-lhe orientação sexual, apoio afetivo, segurança. Afligira-se com o crescente problema das drogas. Pedira a Deus que ela se envolvesse com jovens de boa índole, tivesse namoros saudáveis e inofensivos, típicos da juventude. Mas jamais pensara que o surgimento de uma "vocação" ines­perada seria a sua dor de cabeça.

Renato ignorou o desgosto da esposa. Afinal, sabia o quanto Marlene era dramática e autoritária com as filhas. Via os sinais da mágoa nos olhos dela, mas não adiantava conversar. Ela estava irredutível. Renato decidira não fazer um cavalo de batalha por causa dos sonhos de Denise. Afinal, aos quarenta e cinco anos, ele ainda não sabia claramente que motivos levaram-no a abraçar a mesma carreira do pai, sucedendo-o nos negócios imobiliários. Parecera natural, afinal herdara a imobiliária e trabalhava nela desde jovem. Simplesmente, não pensara. Trabalhar era necessário para ter dinheiro e ponto final. Quando se sentia agastado demais com a rotina, marcava um samba, uma pescaria, e na semana seguinte agüentava tudo de novo.

Não compreendia intelectualmente a posição da filha, mas de alguma maneira a entendera quando, após a primeira grande discussão em família, Denise, com os olhos marejados, mas com a voz firme, declarara:

— Quero fazer algo que me dê prazer. Eu amo cantar, amo arte, adoro estudar isso. É o que farei, com ou sem a apro­vação de vocês.

— Não é bem assim, mocinha! — falara Marlene, altera­da. — Somos nós que pagamos seus cursos, esqueceu? E eu não gasto dinheiro inutilmente.

Ele calara-se. Denise, furiosa, deixara a sala e, em seguida, ouvira-se a batida forte da porta. Marlene bufara, reclamara, cha­mara de irresponsáveis os professores que incentivavam Denise, reconhecendo seu talento natural.

Isso acontecera havia três anos. Contemporizara a situação convencendo Denise a cursar jornalismo, prometendo pagar as despesas com o curso de arte. E a menina dera conta de ambos os cursos até o início daquele semestre, e até participara de uma seleção concorrendo a uma bolsa de estudos na França. Infelizmente, estudos da arte.

Renato se esqueceu dos conflitos domésticos ao estacionar próximo à catedral. Havia muita gente elegante conversando em frente à igreja. Para não chamar a atenção, dirigiu-se à porta lateral, posicionando-se em um local de onde tinha boa visibilidade dos músicos. Surpreendeu-se, esperava um coral, mas havia apenas dois clarinetes e o trio de músicos. Conhecia pouco, mas pelas conversas com a filha, sabia que ela faria uma apresentação solo. A igreja estava lotada. "Pobrezinha, deve estar nervosa" pensou, enquanto procurava avistá-la.



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