São Paulo 2000 Sumário Introdução



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Roberto Lobato Corrêa

Região

e

Organização



Espacial


7ª Edição

Editora Ática

São Paulo

2000
Sumário
1. Introdução

2. As correntes do pensamento geográfico

o determinismo ambiental

o possibilismo

o método regional

A nova geografia

A geografia crítica



3. Região: um conceito complexo

Região natural e determinismo ambiental

Possibilismo e região

Nova geografia, classes e região

Região e geografia crítica

Região, ação e controle

4. Organização espacial

Organização espacial: uma conceituação

Organização espacial: capital e Estado

Organização espacial: reflexo social

Organização espacial e reprodução

Estrutura, processo, função e forma

Espaço e movimentos sociais urbanos

5. Vocabulário crítico

6. Bibliografia comentada

Referencia bibliográfica de rodapé



1

Introdução
O propósito deste estudo é introduzir o estudante de geografia em dois conceitos fundamentais: o de região e o de organização espacial. Eles também são considerados por outras ciências sociais como a sociologia e a economia, mas não têm nestas a relevância adquirida na geografia. Ao longo da história da geografia, têm se situado no centro da discussão sobre o seu objeto, e erigidos na prática como os conceitos de maior importância. Outros conceitos podem ser considerados, a nosso ver, de menor importância, tais como posição geográfica e sítio.

Os conceitos de região e de organização espacial são básicos para se compreender o caráter distinto da geografia no âmbito das ciências sociais, indicando a via geográfica de conhecimento da sociedade, quer dizer, das relações entre natureza e história. A discussão destes termos, por outro lado, pressupõe que se tenha uma certa informação da evolução do pensamento geográfico desde, pelo menos, o final do século XIX, quando a geografia assume o caráter de disciplina acadêmica, dotada de um processo de mudança de paradigmas que se insere no bojo da história.

O presente estudo compõe-se de três partes. A primeira delas procura situar o leitor em termos de como se pensa a geografia nesse espaço de tempo. Esta parte tem o caráter de introdução às outras duas, procurando colocar em evidência os modelos geográficos básicos, dentro dos quais se discutem os conceitos de região e de organização espacial. Assim, não se trata da apresentação das correntes de pensamento geográfico de per si, pois elas têm como foco os dois conceitos-chave de que estamos tratando. Para este assunto de vital importância na formação do geógrafo e do professor de geografia, sugerimos que se leia o livro de Antonio Carlos Robert Moraes (1981). A "Bibliografia comentada" cobre, por outro lado, a história do pensamento geográfico com certa profundidade.

A segunda parte aborda os diversos conceitos de região, enquanto a terceira apresenta a questão da organização espacial. Constituem o centro deste estudo. Ao final, muitas questões terão sido levantadas e ficarão sem respostas. Em parte esta é a nossa intenção. E tem como finalidade o aprofundamento das discussões sobre os conceitos de região e organização espacial.




2

As correntes do pensamento geográfico
No nosso entender, as principais correntes de pensamento geográfico ou paradigmas da geografia são os seguintes: o determinismo ambiental, o possibilismo, o método regional, a nova geografia e a geografia crítica. Foram formalmente explicitadas a partir do final do século XIX, constituindo uma seqüência histórica de incorporações de práticas teóricas, empíricas e políticas que, não excluindo nenhuma delas, apresenta a cada momento um ou dois padrões dominantes. Assim, o determinismo ambiental e, menos ainda, o possibilismo não desapareceram totalmente, mas perderam o destaque, sobretudo o determinismo ambiental. Por outro lado, a geografia crítica é o último modelo a ser incorporado, passando a coexistir conflitivamente com os outros, principalmente a nova geografia.

Estas tendências estão fundamentadas, de um modo, na consideração da geografia como um saber calcado em uma das três abordagens: o estudo das relações homem/meio, o de áreas e os locacionais. Adicionalmente, tem sido adotada uma combinação de duas ou três das abordagens acima referidas. De outro, as correntes fundamentam-se em diferentes métodos de apreensão da realidade.

Entre eles, destaca-se o positivismo, quer na sua versão clássica, quer na do positivismo lógico. O materialismo histórico e a dialética marxista, que dão base ao segmento mais importante da geografia crítica, são métodos de incorporação recente à geografia. Subjacente a todos os paradigmas há um denominador comum: a geografia tem suas raízes na busca e no entendimento da diferenciação de lugares, regiões, países e continentes, resultante das relações entre os homens e entre estes' e a natureza. Não houvesse diferenciação de áreas, para usar uma expressão consagrada, certamente a geografia não teria surgido. Estamos falando, pois, do cerne da geografia, ainda que o seu significado não tenha sido sempre o mesmo. Os conceitos de região e organização espacial estão vinculados a esta idéia básica em geografia.
o determinismo ambiental
A geografia emerge como uma disciplina acadêmica a partir de 1870. Até então, e desde a Antigüidade, a geografia compunha um saber totalizante, não desvinculado da filosofia, das ciências da natureza e da matemática. Com Varenius no século XVII, Kant no XVIII, e Humboldt e Ritter já na primeira metade do XIX, a geografia vai gradativamente configurando um conhecimento específico, sem contudo perder de vez a visão globalizante da realidade.

As últimas décadas do século XIX caracterizam-se por dois processos que são extremamente importantes para a história do homem e da geografia. De um lado, o capitalismo passa a apresentar uma progressiva concentração de capitais, gerando poderosas corporações monopolistas e uma nova expansão territorial. Inaugura-se a sua fase imperialista. O outro processo, que se vincula ao primeiro, é o da fragmentação do saber universal em várias disciplinas. Assim, criam-se departamentos de geografia nas universidades européias e, mais tarde, nas norte-americanas, conforme aponta, entre outros, Brian Hudson1.

Foi o determinismo ambiental o primeiro paradigma a caracterizar a geografia que emerge no final do século XIX, com a passagem do capitalismo concorrencial para uma fase monopolista e imperialista. Seus defensores afirmam que as condições naturais, especialmente as climáticas, e dentro delas a variação da temperatura ao longo das estações do ano, determinam o comportamento do homem, interferindo na sua capacidade de progredir. Cresceriam aqueles países ou povos que estivessem localizados em áreas climáticas mais propícias.

Fundamentando a tese do determinismo ambiental, estavam as teorias naturalistas de Lamarck sobre a hereditariedade dos caracteres adquiridos e as de Darwin sobre a sobrevivência e a adaptação dos indivíduos mais bem dotados em face do meio natural. Estas teorias foram adotadas pelas ciências sociais, que viam nelas a possibilidade de explicar a sociedade através de mecanismos que ocorrem na natureza. Foi Herbert Spencer, filósofo inglês do século XIX, o grande defensor das idéias naturalistas nas ciências sociais.

Na geografia, no entanto, as idéias deterministas tiveram no geógrafo alemão Frederic Ratzel seu grande organizador e divulgador, ainda que ele não tivesse sido o expoente máximo. A formação básica de Ratzel passou pela zoologia, geologia e anatomia comparada; foi aluno de Haeckel, o fundador da ecologia, que o introduziu no darwinismo. No entanto, seu determinismo ambiental foi amenizado pela influência humanista de Ritter, Criou, desta forma, a geografia humana, denominada por ele de antropogeografia e marcada pelas idéias oriundas das ciências naturais.

Nos Estados Unidos e, em menor escala, na Inglaterra, o determinismo imprimiu-se profundamente no nascimento da geografia. O primeiro dos países passava, no final do século passado e início deste, por uma fase de afirmação nacional, em que se justificava o progresso através das riquezas naturais. Ellen Semple, discípula de Ratzel, discorre sobre as influências das condições geográficas (configuração da costa, padrão dos rios, cadeias de montanhas, climas etc.) na história norte-americana.

A Inglaterra tornara-se, nesse momento, a grande metrópole imperialista. O determinismo ambiental justificava a expansão territorial através da criação de colônias de exploração no continente africano, e de povoamento em regiões temperadas, a serem ocupadas pelo excedente demográfico britânico e europeu.

Na realidade, o determinismo ambiental configura uma ideologia, a das classes sociais, países ou povos vencedores, que incorporam as pretensas virtudes e efetivam as admitidas potencialidades do meio natural onde vivem. Justificam, assim, o sucesso, o poder, o desenvolvimento, a expansão e o domínio. Não é de estranhar, pois, que na Grécia da Antigüidade se atribuíssem às características do clima mediterrâneo o progresso e o poderio de seu povo em face dos asiáticos que viviam em áreas caracterizadas pela invariabilidade anual das temperaturas. Muito mais tarde, no final do século XIX, seriam outras as características climáticas consideradas como favoráveis ao crescimento intra e extraterritorial. Transformava-se assim em natural, portanto fora do controle humano, uma situação que é econômica e social, histórica portanto, denominada imperialismo.

Estabeleceu-se uma relação causal entre o comportamento humano e a natureza, na qual esta aparece como elemento de determinação. As expressões fator geográfico e condições geográficas, entendidas como clima, relevo, vegetação etc., são heranças do discurso ideológico determinista. Outra delas, particularmente relevante para nós, é a região natural. Voltaremos a ela em breve.

Ratzel, por sua vez engajado no projeto de expansão alemã, legou-nos o conceito de espaço vital, quer dizer, o território que representaria o equilíbrio entre a população ali residente e os recursos disponíveis para as suas necessidades, definindo e relacionando, deste modo, as possibilidades de progresso e as demandas territoriais. O espaço vital está implicitamente contido na organização espacial, delimitando, no campo do capitalismo, parte da superfície da terra organizada pelo capital e pelo Estado capitalista, extensão que se tornou necessária à reprodução do mesmo. Em linguagem organicista, espaço vital equivale à expressão espaço do capital.


o possibilismo
Em reação ao determinismo ambiental surge, na França no final do século XIX, na Alemanha no começo do XX e nos Estados Unidos na década de 20, um outro paradigma da geografia, o possibilismo. À semelhança do determinismo ambiental, a visão possibilista focaliza as relações entre o homem e o meio natural, mas não o faz considerando a natureza determinante do comportamento humano.

A reação ao determinismo ambiental, mais forte na França, tem como motivação externa a situação de confronto entre ela e a Alemanha. O possibilismo, francês em sua origem, opõe-se ao determinismo ambiental germânico. Esta oposição fundamenta-se nas diferenças entre os dois países.

Ao contrário da Alemanha, unificada em 1871, a França já era França há muito tempo. Lá a revolução burguesa tinha se dado de modo mais completo, extirpando os resquícios feudais, ainda existentes na Alemanha. Esta chega tardiamente à corrida colonial, enquanto a França dispunha, então, de um vasto império; os interesses expansionistas alemães voltaram-se, em grande parte, para a própria Europa. Acrescente-se ao quadro a luta de classes, que assumia formas mais acirradas na França, a exemplo da Comuna de Paris.

Neste contexto, a geografia francesa teria de cumprir simultaneamente vários papéis:

a) Desmascarar o expansionismo germânico – criticando o conceito de espaço vital – sem, no entanto, inviabilizar intelectualmente o colonialismo francês;

b) Abolir qualquer forma de determinação, da natureza ou não, adotando a idéia de que a ação humana é marcada pela contingência;

c) Enfatizar a fixidez das obras do homem, criadas através de um longo processo de transformação da natureza; assim os elementos mais estáveis, solidamente implantados na paisagem, são ressaltados, não se privilegiando os mais recentes, resultantes de transformações que podem colocar em risco a estabilidade e o equilíbrio, alcançados anteriormente. Daí a ênfase no estudo dos sítios predominantemente rurais.

No plano interno à geografia, havia a reação a ela ter sido definida por uma relação de causa e efeito – a natureza determinando a ação humana - e não por um objeto empiricamente identificável. Pensou-se, então, na paisagem como uma criação humana, elaborada ao longo do tempo, sendo a paisagem natural transformada em cultural ou geográfica.

Na realidade, para Vidal de Ia Blache, o mestre do possibilismo, as relações entre o homem e a natureza eram bastante complexas. A natureza foi considerada como fornecedora de possibilidades para que o homem a modificasse: o homem é o principal agente geográfico. Vidal de Ia Blache redefine o conceito de gênero de vida herdado do determinismo, conforme aponta Paul Claval (1974): trata-se não mais de uma conseqüência inevitável da natureza, mas de
um acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis
tal como Moraes (1981) a ele se refere. Os gêneros de vida pensados anteriormente exprimiam uma situação de equilíbrio entre população e os recursos naturais. Uma paisagem geográfica enquadraria, na verdade, a área de ocorrência de' uma forma de vida.

A paisagem geográfica tem, ainda, uma extensão territorial e limites razoavelmente identificáveis. Nestes termos, a região é a expressão espacial da ocorrência de uma mesma paisagem geográfica. O objeto da geografia possibilista é, portanto, a região, e a geografia confunde-se, então, com a geografia regional.

Enquanto formas criadas pelo homem sobre a superfície da Terra, a paisagem poderia ser considerada sinônimo de organização espacial? Primeiramente, lembre-se de que este conceito não foi cogitado pela geografia

vidaliana.

Em segundo lugar, no nosso entender, o conceito de paisagem - campos agrícolas dispostos pelas encostas suaves de um vale, florestas nas íngremes, caminhos entre os campos e ao longo do rio onde se localizam os núcleos de povoamento etc. - aproxima-se do de organização espacial que adotamos neste estudo. No entanto, o conceito de paisagem apresenta uma limitação dada pela ênfase em um aspecto exterior, derivado de sua apreensão via método empírico-indutivo.

Por outro lado, o conceito de paisagem, que acaba se confundindo com o de região, está associado à visão de uni cidade, isto é, de um fenômeno que ocorre uma única vez, sem se repetir.

O conceito de organização espacial é, para nós, mais abrangente e rico que o de paisagem.
o método regional
A método regional consiste no terceiro paradigma da geografia, opondo-se ao determinismo ambiental e ao possibilismo. Nele, a diferenciação de áreas não é vista a partir das relações entre o homem e a natureza, mas sim da integração de fenômenos heterogêneos em uma dada porção da superfície da Terra. O método regional focaliza assim o estudo de áreas, erigindo não uma relação causal ou a paisagem regional, mas a sua diferenciação de per si como objeto da geografia.

O método regional tem merecido atenção de geógrafos desde pelo menos o século XVIII, com Varenius. O filósofo Kant e o geógrafo Carl Ritter, respectivamente no final do século XVIII e na primeira metade do XIX, ampliaram as bases dos estudos de área. No final do século passado, Richthofen estabelece o conceito de corologia (integração de fenômenos heterogêneos sobre uma dada área), desenvolvido mais tarde por Alfred Hettner.

Contudo, a geografia do final do século passado e início deste vivenciava a disputa entre as correntes determinista e possibilista, não se valorizando o método regional. Apenas a partir dos anos 40, e nos Estados Unidos sobretudo, a tradição de estudos de área assume expressão. No centro da valorização do método regional está o geógrafo norte-americano Hartshorne2. Com ele, o novo paradigma ganha outra dimensão.

No plano externo, o método regional evidencia a necessidade de produzir uma geografia regional, ou seja, um conhecimento sintético sobre diferentes áreas da superfície da Terra. Preocupação antiga, derivada da expansão mercantilista dos séculos XVI e XVII, aparecia, então, como resultado da demanda das grandes corporações e dos aparelhos de Estado.

No plano interno, registra a procura de uma identidade para a geografia, que se obteria não a partir de um objeto próprio, mas através de um método exclusivo. Resumindo, diferenciação de áreas passa a se considerar o resultado do método geográfico e, simultaneamente, o objeto da geografia.

Para Hartshorne, o cerne da geografia é a regional que, como vimos, busca a integração entre fenômenos heterogêneos em seções do espaço terrestre. Estes fenômenos apresentam um significado geográfico, isto é, contribuem para a diferenciação de áreas. Da integração destes - estudados sistematicamente pelas outras ciências -, surge a geografia como uma ciência de síntese.

Em sua proposição, Hartshorne não adota a região Como o objeto da geografia. Para ele, importante é o método de identificar as diferenciações de área, que resultam de uma integração única de fenômenos heterogêneos. Diz ele em seu clássico estudo de 1939:
o objeto da geografia regional é unicamente o caráter variável da superfície da Terra - uma unidade que só pode ser dividida arbitrariamente em partes, as quais, em qualquer nível da divisão, são como as partes temporais da história, únicas em suas características3.
A região, para Hartshorne, não passa de uma área mostrando a sua unicidade, resultado de uma integração de natureza única de fenômenos heterogêneos. O conceito de organização espacial também não é cogitado pelo método regional. Para tanto, pressupõe-se pensar a priori na existência de uma lógica em ação, resultante da efetivação de regras ou leis de natureza social. Ora, a proposição hartshorniana não admite a existência de outras leis além da unicidade do caráter integrativo dos fenômenos sobre a superfície da Terra.

Deste modo, as contribuições do paradigma do método regional para os conceitos de região e de organização espacial são, em si mesmas, muito limitadas. Iriam suscitar, no entanto, enorme crítica, na qual aquilo que nos interessa é considerado de modo privilegiado.


A nova geografia
Após a 2ª Guerra Mundial, verifica-se uma nova fase de expansão capitalista. Ela se dá no contexto da recuperação econômica da Europa e da "guerra fria", envolvendo maior concentração de capital e progresso técnico, resultando na ampliação das grandes corporações já existentes. Esta expansão defronta-se, ainda, com o desmantelamento dos impérios coloniais, sobretudo a partir dos anos 60.

Não se trata mais de uma expansão marcada pela conquista territorial, como ocorreu no final do século passado; ela se dá de outra maneira e traz enormes conseqüências, afetando tanto a organização social como as formas espaciais criadas pelo homem.

Uma nova divisão social e territorial do trabalho é posta em ação, envolvendo introdução e difusão de novas culturas, industrialização, urbanização e outras relações espaciais. As regiões elaboradas anteriormente à guerra são desfeitas, ao mesmo tempo que a ação humana, sob a égide do grande capital, destrói e constrói novas formas espaciais, reproduzindo outras: rodovias, ferrovias, represas, novos espaços urbanos, extensos campos agrícolas despovoados e percorridos por modernos tratores, shopping centers etc. Trata-se de uma mudança tanto no conteúdo como nos limites regionais, ou seja, no arranjo espacial criado pelo homem.

Estas transformações inviabilizariam os paradigmas tradicionais da geografia - o determinismo ambiental, o possibilismo e o método regional -, suscitando um novo, calcado em uma abordagem locacional: o espaço alterado resulta de um agregado de decisões locacionais.

A geografia que surge em meados da década de 50, conhecida como nova geografia, tem um papel ideológico a ser cumprido. É preciso justificar a expansão capitalista, escamotear as transformações que afetaram os gêneros de vida e paisagens solidamente estabelecidas, assim como dar esperanças aos "deserdados da terra", acenando com a perspectiva de desenvolvimento a curto e médio prazo: o subdesenvolvimento é encarado como uma etapa necessária, superada em pouco tempo. A teoria dos pólos de desenvolvimento é um dos melhores exemplos desta ideologia.

A nova geografia nasce simultaneamente na Suécia, na Inglaterra e nos Estados Unidos, neste último país como uma ferrenha crítica à geografia hartshorniana. Adota uma postura pragmática que se associa à difusão do sistema de planejamento do Estado capitalista, e o positivismo lógico como método de apreensão do real, assumindo assim uma pretensa neutralidade científica.

Ao contrário do paradigma possibilista e da geografia hartshorniana, a nova procura leis ou regularidades empíricas sob a forma de padrões espaciais. O emprego de técnicas estatísticas, dotadas de maior ou menor grau de sofisticação - média, desvio-padrão, coeficiente de correlação, análise fatorial, cadeia de Markov etc. -, a utilização da geometria, exemplificada com a teoria dos grafos, o uso de modelos normativos, a adoção de certas analogias com as ciências da natureza e o emprego de princípios da economia burguesa caracterizam o arsenal de regras e princípios adotados por ela. É conhecida também como geografia teorética ou geografia quantitativa.

A nova geografia considera a região um caso particular de classificação, tal como se procede nas ciências naturais. E toda discussão sobre região no seu âmbito corresponde a uma crítica aos conceitos derivados do determinismo ambiental e do possibilismo. O conceito de organização espacial tem todas as condições para aparecer na nova geografia. Pois o rápido processo de mudança locacional que se verifica no pós-guerra, afetando o arranjo sobre a superfície da Terra das formas criadas pelo homem, e envolvendo vultosos recursos, suscita a questão da eficiência máxima de cada localização rearranjada. Eficiência máxima, naturalmente, na ótica do capital.

Desenvolve-se o conceito de organização espacial entendido como padrão espacial resultante de decisões locacionais, privilegiando as formas e os movimentos sobre a superfície da Terra (interação espacial)4.

Surge também na França, onde, a nosso ver, estava latente no pensamento vidaliano. Mas não dentro da nova geografia, tal como era definida nos países anglo--saxões e na Suécia, e sim numa geografia econômica e aplicada, em cujo centro situa-se Pierre George e a política de aménagement du territoire 5.


A geografia crítica
O debate interno à geografia prossegue durante as décadas de 70 e 80. A nova geografia e os paradigmas tradicionais são submetidos a severa crítica por parte de uma geografia nascida de novas circunstâncias que passam a caracterizar o capitalismo. Trata-se da geografia crítica, cujo vetor mais significativo é aquele calcado no materialismo histórico e na dialética marxista.

As origens de uma geografia crítica, que não só contestasse o pensamento dominante, mas tivesse também a intenção de participar de um processo de transformação da sociedade, situam-se no final do século XIX. Trata-se da geografia proposta pelos anarquistas Élisée Reclus e Piotr Kropotkin. Ela não fez escola, submergida pela geografia "oficial", vinculada aos interesses dominantes.

A partir da segunda metade da década de 60, verifica-se nos países de capitalismo avançado o agravamento de tensões sociais, originado por crise de desemprego, habitação, envolvendo ainda questões raciais. Simultaneamente, em vários países do Terceiro Mundo, surgem movimentos nacionalistas e de libertação. O que se pensava até então em termos de geografia não satisfaz, isto é, não mascara mais a dramática realidade. Os modelos normativos e as teorias de desenvolvimento foram reduzidos ao que efetivamente são: discursos ideológicos, no melhor dos casos empregados por pesquisadores ingênuos e bem intencionados.

Uma geografia crítica começa a se esboçar, congregando geógrafos de mentes abertas, que tinham se dedicado à nova geografia, como William Bunge e David Harvey, ou que tinham uma posição política de esquerda na geografia herdeira das tradições vidalianas, a exemplo de Yves Lacoste. Esta visão crítica é aceita sob reservas pelo Estado capitalista, na medida cm que este não pode desempenhar seu papel de controle, apoiado em informações provenientes de seu serviço de propaganda. Vários são os periódicos que focalizam criticamente a geografia: Antipode, Newsletter (Union of Socialist Geographers), Hérodote, Espace Temps e Espace et Luttes. Adicionalmente, em numerosos outros periódicos, há contribuições de geógrafos críticos.

No caso do Brasil, a geografia crítica nasce no final da década de 70, cujo marco foi o 3° Encontro Nacional de Geógrafos, realizado em 'julho de 1978 em Fortaleza, sob os auspícios da Associação dos Geógrafos Brasileiros.

Além das acirradas críticas aos paradigmas que a precederam, as contribuições da geografia crítica, ainda em curso, são numerosas. Dizem respeito à reinterpretação, com base na teoria marxista, de aspectos que tinham sido abordados pela nova geografia. Assim, reexamina-se questão da Jornada de trabalho, da terra urbana, da habitação, dos transportes regionais e da localização industrial. A geografia crítica descobre o Estado e os demais agentes da organização espacial: os proprietários fundiários, os industriais, os incorporadores imobiliários etc.

A questão das relações entre o homem e a natureza, central no temário do determinismo ambiental e do possibilismo, é também repensada à luz do marxismo. O tema da região, questão clássica na história do pensamento geográfico, é retomado pela geografia crítica. Neste sentido, uma tentativa de conceituação de região será feita mais adiante procurando entendê-la por uma visão dialética.

Entre os avanços realizados pela geografia crítica estão aqueles associados à questão da organização espacial, herdada basicamente da nova geografia. Trata-se, no caso, de ir além da descrição de padrões espaciais, procurando-se ver as relações dialéticas entre formas espaciais e os processos históricos que modelam os grupos sociais.

Na discussão do conceito de organização espacial, a contribuição dos geógrafos brasileiros tem sido muito importante. Assim, por exemplo, considera-se a teoria marxista do valor como base para se empreender uma análise espacial, conforme o fazem Antonio CarIos Robert Maraes e WanderIey Messias da Costa (1984). Outra contribuição é a de Milton Santos com o conceito de formação sócio-espacial, onde a organização espacial constitui parte integrante de uma dada sociedade. Milton Santos (1978) levanta ainda a polêmica questão da organização espacial como instância da sociedade.

A discussão que empreenderemos sobre este conceito estará fundamentalmente baseada na geografia crítica.




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