Sociedade Anônima Comércio e Indústria “Souza Noschese”: um estudo de caso Tatiana Pedro Colla Belanga1



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Sociedade Anônima Comércio e Indústria “Souza Noschese”: um estudo de caso

Tatiana Pedro Colla Belanga1



Resumo: Com a intenção de observar mais detalhadamente o desempenho da indústria brasileira durante as décadas de 1920 e 1930, englobando o período em que o país foi atingido pela crise de 1929 e da Grande Depressão, analisaremos os balanços contábeis da empresa produtora de artigos em ferro esmaltado, Sociedade Anônima Comércio e Indústria “Souza Noschese”, fundada na cidade de São Paulo. A indústria Souza Noschese participava, também, da atividade extrativa, utilizada como fonte de matéria-prima na produção própria, assim como possuía pontos de comercialização de produtos acabados em diferentes estados do Brasil. A atuação da empresa em mais de um processo produtivo e de forma abrangente é característico da empresa com o tipo de verticalização ou integração vertical, o que torna um estudo de caso interessante para complementar a bibliografia já existente sobre a industrialização. Através da análise dos balanços contábeis da firma, em termos de Lucratividade, Investimento, Produção e Financiamento, será possível identificar algumas características que mostram a velocidade da diversificação e crescimento do setor metalúrgico no parque industrial paulista da época.
Abstract: In an attempt to observe more closely the performance of the Brazilian industry during the 1920s and 1930s, covering the period when the country was hit by the crisis of 1929 and the Great Depression, we analyze the earnings reports of the production company's articles of iron enameled Sociedade Anonima Trade and Industry United Souza Noschese, founded in São Paulo. Industry Souza Noschese participated also in extractive activities, used as a source of raw material in the production itself, and had points of marketing the finished products in different states of Brazil. The company's operations in more than one production process and comprehensive manner is characteristic of the company with the kind of vertical integration, which makes an interesting case study to complement the existing literature on industrialization. By analyzing the financial statements of the firm in terms of profitability, investment, production and financing, it will be possible to identify some features that show the speed of diversification and growth in the metallurgical sector in the industrial park Sao Paulo at the time.
Resumen: En un intento de observar más de cerca el funcionamiento de la industria brasileña durante los años 1920 y 1930, que abarca el período en que el país se vio afectado por la crisis de 1929 y la Gran Depresión, se analizan los informes de ganancias de los estatutos de la sociedad de producción de hierro esmaltado Sociedade Anónima de Comercio e Industria Souza Noschese, fundada en São Paulo. Industria Souza Noschese participó también en las actividades de extracción, utilizada como fuente de materia prima en la producción misma, y que los puntos de comercialización de los productos acabados en los diferentes estados de Brasil. Las operaciones de la compañía en más de un proceso de producción y de manera integral es una característica de la empresa con el tipo de integración vertical, que hace un interesante caso de estudio para complementar la literatura existente sobre la industrialización. Al analizar los estados financieros de la empresa en términos de rentabilidad, inversión, producción y financiación, se pueden identificar algunas características que muestran la velocidad de la diversificación y el crecimiento en el sector metalúrgico en el parque industrial de Sao Paulo en el momento.

Introdução


Com exceção do estudo de Warren Dean2, o qual caracteriza a atividade industrial brasileira no período anterior à década de 1930 como um processo de industrialização mais abrangente, as demais correntes caracterizam-na como um período de crescimento industrial. Além disso, há que se imputar aqui uma outra influência em tal análise: a teoria econômica marxista. Esta interface é sentida, particularmente, na vertente do capitalismo tardio, especialmente os estudos de Sérgio Silva e Cardoso de Mello. Ou seja, para estes, só se define um processo de industrialização (pesado) quando este passa a se integrar verticalmente, tendo como liderança o ramo de bens de capital, cujo papel é garantir a autodeterminação do capital.

Assim, há certo consenso na literatura abordada no que toca à periodização desta atividade industrial, isto é, 1930 é um marco divisório para a transição de uma etapa de crescimento industrial para o processo de industrialização propriamente dita. A nosso ver, é inegável a data de 1930 como marco divisório na transformação no padrão de acumulação de capital no país. Contudo, há se discutir melhor tal caracterização.

Em primeiro lugar, há que distinguir tal processo em duas grandes fases, definindo assim uma macro-periodização: o crescimento industrial no período anterior à década de 1930 e o que tem naquela década seu ponto de inflexão. No crescimento industrial do primeiro período, caracteriza-se como crescimento industrial induzido pelo setor exportador, porém não necessariamente linearmente. A nosso ver, tal período enseja, não somente análise da dinâmica industrial, mas sim, uma inter-relação desta dinâmica e o processo de urbanização em curso desde a segunda metade dos oitocentos, particularmente, nas regiões cafeeiras, as quais demandaram um novo tipo de relação social de produção, isto é, regime de trabalho livre e assalariado, em seus principais núcleos urbanos.

O processo de urbanização que o país sofre a partir da década de 1860, está relacionado à interface do setor exportador com a melhoria e modernização da logística – transporte e comércio –; do aumento da produtividade do cafeeiro, com a introdução de maquinário e novos equipamentos; e, introdução, especialmente, no chamado “Oeste Paulista”, do trabalhador livre como principal força de trabalho do setor agroexportador. Tal introdução criou as condições para a produção mercantil de alimentos, que, por conseguinte, dinamizou as relações mercantis, contribuindo para a criação de uma rede de centros urbanos voltados para o abastecimento regional.

A demanda do setor exportador por maximização dos lucros – o aumento de produtividade – e minimização dos custos – melhoria da rede de transporte e comunicação com o objetivo de aumentar a carga transportada mediante a diminuição das perdas e o barateamento do preço do transporte – criou condições favoráveis para a produção industrial. Soma-se a isto a transferência de capital do setor exportador para os centros urbanos, cujo crescimento deriva do aumento e melhoria da demanda por bens e serviços – imóveis, comércio, bancos, saneamento, saúde, educação, transporte etc. – os quais também vão constituir um importante fator para a produção industrial.

Deste modo, é possível reinterpretar a atividade industrial brasileira no período anterior à década de 1930 de dois modos: de um lado, dialogando com a teoria econômica que versa sobre a dicotomia crescimento X desenvolvimento econômico, colocando-se no campo “desenvolvimentista”, isto é, a indústria que se desenvolveu ao longo daquele período foi fator importante para a transformação do próprio setor exportador, bem como parte fundamental no processo de urbanização em curso3.

De outro lado, dialogando com a teoria econômica marxista, caracteriza-se como um crescimento industrial, ainda não capitalista, portando, ainda não industrialização strictu sensu.

No caso brasileiro do período em questão, os teóricos marxistas e, também os teóricos do capitalismo tardio alegam que, não obstante a transição das relações de produção escravista para a capitalista, não pode caracterizar-se como um processo de industrialização, pois as condições sociais e econômicas ainda não estão definidas, ou seja: no regime de trabalho, a abolição não havia transformado as relações de produção no campo em termos capitalistas, isto é, prevalecia relações précapitalistas livres4 – meeiro, posseiro, colono –; no que toca à estrutura industrial, argumentam que predominava o ramo de bens de consumo assalariado e que portanto, constituía-se uma indústria incompleta5; em termos jurídicos, não obstante a constituição republicana engendrar um Estado do tipo burguês, este estava ainda em fase de implantação6; por fim, não havia, segundo eles, um mercado nacional integrado que pudesse subordinar os demais setores da economia aos desígnios do capital industrial7.

Em verdade, na afirmativa destas teorias, naquele período havia ainda muitas barreiras que dificultavam a integração do mercado em bases capitalistas e, ademais, era a demanda externa que subordinava os demais setores da estrutura produtiva. Todos estes fatores impediam uma transformação da sociedade brasileira rumo a consolidação do modo de produção capitalista, sendo este maturado e consolidado, de acordo com àquelas vertentes, após a década de 1930. Segundo a ótica do capitalismo tardio, o período que marca a crise da abolição e constituição da República até 1930, em termos econômicos, limita-se ao nascimento do capital industrial, o qual esteve atrelado ao setor exportador.

Não obstante as características apontadas por aquelas correntes estarem corretas, isto é, as relações de produção pré-capitalista no campo, embora nas cidades a predominância do assalariamento; estrutura industrial puxada pelo ramo de bens assalariados; Estado burguês ainda em formação e; o mercado nacional não integrado sob formas capitalistas; não os permitiu um maior detalhamento da estrutura industrial ao longo do período, principalmente anterior a 1930. Um bom exemplo, é a própria diversificação na estrutura industrial que se verifica, como bem apontou Suzigan em seu estudo8. Mais do que isso, há que se afirmar que o capitalismo como modo de produção dominante está se maturando nas regiões cafeeiras – principalmente em São Paulo. Para ficar apenas na análise da estrutura industrial que é objeto de estudo desta tese, é possível analisar suas transformações da seguinte forma: em primeiro lugar, é notório que a grande indústria fabril têxtil, se dissemina pelo território brasileiro a partir da década de 1860. Contudo, e principalmente, nas regiões cafeeiras, ocorreu uma articulação entre agricultura e indústria que ultrapassa os limites da simples produção de artigos de consumo leves9.

Suzigan divide em dois subperíodos o desenvolvimento industrial brasileiro anterior à década de 193010. No primeiro, até a Primeira Guerra Mundial – 1914/1918 – a implantação do setor industrial ligava-se diretamente à demanda agroexportadora, a qual induzia investimentos tanto no setor de consumo, como no de produção vinculado ao aumento de produtividade e logística do produto principal.

Neste período os linkages de produção se resumia a indústrias de insumos, tais como maquinaria, peças e implementos para o setor exportador; processamento ulterior de produtos de exportação, tais como beneficiamento de café, açúcar, etc.; e, a partir dessa articulação – agricultura de exportação e indústria – a indução para o desenvolvimento e modernização do setor de transporte – ferrovia e navegação – bem como à diversificação e crescimento das atividades urbanas. Além disso, no correr das décadas de 1900 e 1910, o investimento na indústria de transformação passa a também ser induzido pelas necessidades de insumos da própria indústria de transformação. Neste sentido, começam a se desenvolver indústrias “novas” para a fabricação desses insumos, tais como sacos de algodão para ensacar farinha de trigo e açúcar; garrafas de vidro para suprir as necessidades de embalagens de cerveja e demais bebidas; latas para acondicionar fósforos, cigarros e alimentos; maquinaria simples como tornos, equipamento têxtil e peças, pequenos motores, etc..

No segundo período, a partir do final da Primeira Guerra e principalmente, no correr da década de 1920, não obstante a indústria de transformação depender ainda em grande parte da indução do setor exportador, o padrão de desenvolvimento industrial tornou-se mais complexo. Com efeito, isso pode ser explicado pelo fato de que durante a guerra a escassez de matérias-primas e insumos básicos, incluindo maquinaria e equipamento, tornou claro que a produção industrial interna teria de ser diversificada para abranger esses produtos.

Desta forma, pode-se afirmar que, a guerra estimulou uma maior diversificação da estrutura industrial, mesmo que essa ainda tivesse atrelada à expansão do setor exportador. Dito isto, os investimentos industriais se expandiram em direção ao ramo de bens intermediários – notadamente – cimento, aço, papel e celulose, borracha e derivados, química; além de setores vinculados ao ramo de bens de capital, tais como maquinaria e equipamentos. Soma-se a estes, produtos de seda e raiom. Ademais, investimentos adicionais foram também realizados para ulterior processamento de “novos” produtos de exportação, como por exemplo, óleo de caroço de algodão, carne resfriada e produtos derivados da carne; bem como a expansão da capacidade de produção de algumas das indústrias “tradicionais”, ou seja, têxteis de algodão e de lã, açúcar, calçados, moagem de trigo e cervejarias. Em resumo, a diversificação industrial a partir da Primeira Guerra Mundial e ao longo dos anos de 1920, iniciara ali uma mudança estrutural na economia brasileira11.

Assim, através de tal diagnóstico, pensamos ser lícito caracterizar a atividade industrial no período descrito como a preparação do processo de industrialização restringida, consolidando-se a partir da década de 1930. As bases da dinâmica da atividade industrial se diversificam, criando e recebendo os efeitos multiplicadores tanto do setor exportador quanto da urbanização em curso. É escudada na divisão social do trabalho e estimuladora da predominância do trabalho assalariado, pelo menos nos núcleos urbanos.

Todavia, tal processo encontra-se limitado. As razões para este limite são justamente os fatores apontados tanto pela óptica do capitalismo tardio como para a teoria marxista, exclusive no que diz respeito à estrutura industrial. Ou seja, reflexo do setor externo; relações de produção no campo pré-capitalista; mercado nacional não integrado; formação incipiente do Estado burguês.

No que toca à industrialização a partir da década de 1930, corrobora-se com as vertentes analisadas as quais caracterizam o período como um processo de industrialização (ainda que restringida) conduzido pelo Estado, tendo no capital estrangeiro e no capital privado nacional as bases de sustentação daquele desenvolvimento. Trocando em miúdos, tal processo se enquadra num típico caso de uma industrialização retardatária. Ao Estado cabia, de um lado assegurar o aparato jurídico que regulamentava a organização de um mercado capitalista em base nacional e a força de trabalho conforme as exigências do Estado capitalista; de outro intervém na economia, operando os ramos industriais – notadamente de bens intermediários – os quais o capital privado nacional não tinha capacidade de investir. No que toca ao capital estrangeiro, principalmente a partir da segunda metade da década de 1950, seus investimentos predominaram nas indústrias do ramo de bens de capital. Acerca do capital privado nacional, sua atuação predominou nos ramos industriais de bens de consumo assalariados. Todavia, não se pode analisar rigidamente a distribuição dos agentes nos investimentos industriais. Por exemplo, havia grupos estrangeiros atuando no mercado de consumo leves e principalmente, após a década de 1950, há a formação de conglomerados privados nacionais atuando nos ramos de bens de capital e intermediários.

Portanto o processo de industrialização pós-1930 se dividiu em duas fases, de acordo com a teoria do capitalismo tardio. A primeira, o que eles chamaram de industrialização restringida, período que engloba as décadas de 1930, 1940 e primeira metade da de 1950. A outra, denominam de fase da industrialização pesada, que vai de 1956 a 1980. A partir da década de 1980, tal modelo de industrialização entra em colapso, devido principalmente à crise dos juros da dívida externa e as transformações tecnológicas nos países desenvolvidos que se maturaram na década de 1970 e que impôs uma reestruturação no mercado mundial e que culminou em termos de economia política na imposição de uma agenda liberal ortodoxa em que os países do capitalismo central ditavam as regras de uma nova divisão internacional do trabalho, obrigando as economias periféricas a abrirem seus respectivos mercados.

Essa periodização pode ser reformulada, pensando o período 1930/1956 entendido como industrialização restringida somar-se-ia ao período pré-1930, pois é a partir da Primeira Guerra que já começa a se transformar qualitativamente a estrutura industrial. A década de 1930 vem a consolidar, portanto, o processo, o qual se caracteriza por industrialização restringida. O reconhecimento de que, principalmente os 1920, presenciaram um crescimento industrial vigoroso, não necessariamente tem de se opor ao caráter “revolucionário” das mudanças de 1929/30.A partir de 1956, este sim, é que altera profundamente a estrutura industrial brasileira.

O que se pretende afirmar é que no tocante a trajetória da atividade industrial no Brasil houve ruptura, mas também houve crescimento e diversificação suficiente na década de 1920 para induzir uma conclusão precipitada do aspecto de continuidade dos dois períodos (pré e pós-30). Os ramos e setores industriais implantados anteriormente fizeram-se maturar no período subseqüente. 1930 seria, então, o marco da consolidação do capitalismo no Brasil, cujo movimento de transformação da atividade industrial que já vinha acontecendo se consubstanciou a partir da consolidação do regime burguês.

Sumariamente, a polêmica trata, principalmente, de trabalhos que colocam em questão a interpretação clássica, seja dando maior importância para a década de 1920, seja por redefinição do significado dos anos 1930.



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