Sociedade Anônima Comércio e Indústria “Souza Noschese”: um estudo de caso Tatiana Pedro Colla Belanga1



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Produção, fontes de crescimento, financiamento e lucratividade de indústria paulista


Com a intenção de observar mais detalhadamente o desempenho da indústria brasileira nas décadas de 1920 e 1930, incluindo o período em que o país foi atingido pela crise de 1929 e da Grande Depressão, a análise dos balanços12 contábeis de firmas que permaneceram ativas, produzindo durante essas décadas, vem a ser uma fonte de dados importante, e pouco utilizada.

A importância de analisar demonstrações contábeis é pelo menos tão antiga quanto à própria origem de tais peças. O relacionamento entre os vários itens do balanço e das demais peças contábeis publicadas é de interesse para os investidores e financiadores. Para o primeiro grupo o interesse está ligado à capacidade de retorno, para o segundo, o risco em conceder empréstimos. Esta é a visão tradicional resumida do significado análise de balanços. No entanto, a análise de balanços tradicional não se aplicada à maioria, se não todas, as firmas industriais do Estado de São Paulo do início do século XX, onde há uma enorme disparidade entre o conteúdo e a forma de organização dos registros contábeis.

Deste modo, no presente trabalho, a análise de balanços será aplicada como uma arte de extrair relações úteis para os objetivos analíticos e econômicos que interessam. Embora existam alguns cálculos razoavelmente formalizados, não existe forma científica ou metodologicamente comprovada de relacionar índices de maneira a obter um diagnóstico preciso. A metodologia de análise foi criada com o intuito de averiguar, nessas duas décadas, a evolução da produção e do investimento das empresas, as fontes de financiamento e o índice de lucratividade dessas. Utilizando-se desses itens é possível verificar, através do instrumental empírico, se houve crescimento da indústria durante a década de 1920, e como este se diferenciou do crescimento pós-crise de 1929 e da Grande Depressão.

Sociedade Anônima Comércio e Indústria “Souza Noschese”


A empresa “Souza Noschese”, fundada em 1920 na cidade de São Paulo, operou na produção de artigos de ferro esmaltado para uso doméstico. A firma teve um bom desempenho e mesmo nos momentos de crise não chegou a apresentar prejuízos. Nos anos em que os lucros foram reduzidos, investimentos em andamento permaneceram paralisados, por prudência, segundo consta em relatórios, assim como não ocorreu a distribuição de dividendos.

No início da década de 1920, os impactos da Primeira Guerra ainda eram sentidos, como mostra o relatório da Diretoria a ser apresentado à assembléia geral ordinária em início de 1922, relativo ao ano de 1921:

“[...] Como vereis pelo balanço e pela demonstração de lucros e perdas, o ano findo, se bem que fizéssemos durante ele transações regulares, não produziu senão o necessário para equilibrar as grandes perdas que nós, assim como todos comerciantes, tivemos de suportar, pela baixa do cambio, pela remessa de restante de mercadorias pedidas ainda durante a guerra, cujos pedidos as fábricas não quiseram anular e os remeteram nesse ano, em que estavam mais desafogadas de encomendas, e pela desvalorização do stock, vindo assim com um cambio tão desfavorável.

A pressão da crise comercial interna, a falta de negócios correspondentes ao empate de capital, fez com que as mercadorias recebidas ficassem mais caras do que se encontravam na praça, devido às necessidades de algumas firmas de forçarem as vendas para atenderem os seus compromissos.

As liquidações de cambio que fizemos para cobrir as mercadorias recebidas, acarretaram centenas de contos de prejuízo, além de no balanço sermos forçados a reduzir o preço das mercadorias em stock, e isto em todas elas como em todas as secções da sociedade.

Achamos que devíamos fazer a maior redução possível no ano findo, para ver se no corrente ano, se não houve necessidade de maior baixa no valor dos stocks, termos uma compensação, visto como as liquidações de cambio estão terminadas, sendo diminuto o nosso debito em moeda estrangeira.

As fábricas, apesar das mesmas dificuldades, como têm uma grande parte do serviço nosso, deram o resultado de quase 200:000$000, mas a secção de atacado , que depende exclusivamente das importações, consumiu os lucros obtidos pelas fábricas.

Apesar de certas dificuldades pelo retraimento dos estabelecimentos bancários, não foi preciso pedir aos srs. Aos acionistas, para chamar os restantes 400:000$000, de entradas a realizar, que ainda nos restam, e temos ainda em carteira a importância de 233:750$000 em debêntures.

Pagamos os juros das debêntures, vencidos em Junho, e resgatamos em Dezembro 50:000$000 de debêntures, de acordo com o nosso contrato de emissão, e vamos pagar em breve os juros vencidos em Dezembro.

Os nossos serviços correm, portanto, muito regularmente.”13


Esta firma se diferencia por trabalhar com agências comerciais, ou seja, pontos de distribuição de produtos de fabricação e importação no atacado e no varejo Estado de São Paulo. Esses pontos localizam-se em Santos, Curitiba e Rio de Janeiro. Esta característica acrescenta uma importante nota sobre o setor metalúrgico expandindo produtos para outras regiões do país quando mesmo em São Paulo era de pouca representatividade frente à gigante têxtil.

Em 1923, apresentado no relatório referente ao ano de 1922, decidiu-se extinguir as seções comerciais e dar prioridade à produção industrial:

“[...]Situação Econômica: Os balanços anteriores acusavam uma situação estável nos valores econômicos, devido às conseqüências da grande guerra, as quais fizeram sentir fortemente nos primeiros anos após a paz, e infelizmente se prolongam com a situação incerta da Europa.

Tendo resolvido liquidar as secções de atacado e varejo, para nos dedicarmos exclusivamente de nossas indústrias, paralisamos os negócios dessas secções, procurando dispor somente das mercadorias existentes. Não foi possível devido a isso, dar todo o desenvolvimento que pretendíamos das nossas indústrias para auferir maiores resultados e tornar ainda mais próspera a situação econômica: nessa transição se acumulam grandes despesas para as indústrias, sem se poder, contudo, produzir a quantidade necessária para mais elevados lucros.

Situação Industrial: Como acima fizemos uma referencia, tendo resolvido terminar com as secções de atacado e varejo, foi intenção incrementar fortemente a nossa produção industrial e para isso tivemos de procurar alargar e reformar as fábricas, comprando todos os terrenos e casa annexos, construímos e estamos construindo muitas outras em nossas oficinas, as quais nos auxiliarão grandemente no aumento da produção. Este fato aumentou os valores materiais de prédios e terrenos, de maquinismos, acessórios e modelos, porém pretendemos empregar muito mais nessa parte, pois é a garantia do espaço para o futuro e do aparelhamento para produzir o quíntuplo do que agora produzimos, por isso que a procura dos artigos de nossa fabricação aumenta diariamente.

Desenvolvemos a esmaltação, para o que tivemos um especialista norte-americano, que montou todo o aparelhamento moderno da secção de esmaltação, assim como ensinou a preparação dos próprios esmaltes de todas as variedades.

Desenvolvemos a produção de artigos de ferro batido estanhado, duplicando a nossa produção anterior, inclusive a montagem do tudo o que foi necessário para a produção de bacias, com as quais entramos no mercado, vendendo todas quantas podíamos produzir com as matérias primas que recebíamos.

Para tudo isso tivemos de apressar a reforma e modificação do prédio central e da fabrica, de modo que o trabalho se pudesse fazer normalmente.

É claro que nessas condições estamos imobilizando muito nas instalações gerais, para que possamos produzir muito mais, pois o nosso país precisa de muitas fábricas para atender as suas necessidades, importando somente as matérias primas e estas mesmas as que não possam produzir em nosso meio”.14

Como se pode verificar através dos relatos, existia nos anos iniciais da década de 1920, uma intenção e consciência de que o país necessitava desenvolver sua indústria, e a empresa “Souza Noschese” atuou na produção e promoveu investimentos. A intenção de substituir os importados era clara, assim como a demonstração de que a indústria estava crescendo e diversificando-se já nesta década.

“[..] Situação Industrial: Apesar da falta de operários e além deficiência dos que aparecem, nos misteres necessários às nossas fabricações sendo necessário primeiro ensiná-los antes que eles possam produzir com lucro para a nossa sociedade, pagando ainda bons salários em consideração à carestia da vida, conseguimos, por um esforço ingente, produzir mais 5.000 contos de réis de produtos.

Se o resultado final não foi mau, economicamente, foi devido à economia com que trabalhamos com relação à produção que fizemos, pois, comercialmente, os preços não corresponderam ao aumento do custo das matérias primas e dos salários dos operários.

O preço da louça de ferro fundido, estanhado e esmaltado, a parte forte da nossa produção, conservou-se o mesmo que anteriormente, quando o ferro gusa passou de 200$000 para quase 400$000 e o koke de fundição de 100$000 para 250$000, por tonelada. Como os salários dos operários está pelo duplo do que pagávamos anteriormente, era claro que o preço da louça de ferro fundido deveria ter igualmente subido, visto como a mesma louça importada da Inglaterra fica atualmente por duas vezes e meia ou mesmo três vezes mais do preço pelo qual a vendemos.

Entretanto nos esforçamos por manter o mais possível os preços, porque não achamos justo que a indústria nacional em vez de facilitar a vida, a venha tornar mais cara equiparando os seus preços com os preços com os preços das importações, quando não pedem, ainda o aumento da taxa da tarifa para garantir a elevação do preço do produto da Indústria nacional.

Estamos remodelando os nossos modos de trabalho, procurando produzir muito mais a fim de ver se ficando inteiramente livres das contingências financeiras, poderemos melhor recompensar os Srs. acionistas com as distribuições de melhores dividendos”.15

Ao que indicam também os relatos, a indústria também participava da atividade extrativa, como fonte de matéria-prima na produção própria. Deste modo, a atuação da empresa em vários setores do processo produtivo, de forma abrangente, é característico da empresa com o tipo de verticalização ou integração vertical. Controla desde a produção de matérias-primas até a confecção final do produto. A indústria Souza Noschese atuava na extração do minério de ferro, levado para a fundição, resultando em ferro que era modelado em produtos semi-acabados ou produtos finais a serem por ela mesma comercializados.

Com relação ao balanço patrimonial do ano de 1924:

“[...] Situação Financeira: é com prazer que temos a notar a continuação da vantajosa situação financeira que, desde o ano 1822, vimos mantendo.

[...] A aquisição da jazida de ferro em Minas Gerais e a Cachoeira dos Antunes, que futuramente fornecerá à Usina, a energia elétrica, importou em réis 117:374$200.

[...] Situação econômica: já em 1924 acentuávamos, em nosso relatório, a necessidade do aumento do nosso capital social. Tendo-se feito sentir, ainda mais, este ano essa necessidade, a Diretoria submete à deliberação dos Srs. Acionistas um projeto de aumento, para 5.000.000$000 do atual capital de 2.000.000$000 réis.

[...] Situação industrial: Se, sob o ponto de vista da qualidade do artigo, a nossa indústria tem progredido constantemente, o nosso desenvolvimento industrial ainda não está, sob o ponto de vista de quantidade da produção, a par do incremento tomado pelos nossos negócios.

Ultimamente, porém, como conseqüência dos sucessos do sul do País, um dos maiores mercados para o nosso produto, as vendas sofreram uma ligeira diminuição, o que permitiu à Fábrica atender a grande quantidade de pedidos em atraso. Com a volta à normalidade é de se esperar, entretanto, que a quantidade de pedidos volte a ultrapassar o volume de produção atual, e prevendo isso, a Diretoria não tem poupado esforços no sentido de, aumentando ainda mais sua produção, aparelhar-se a nossa empresa para continuar, sem entraves, a progredir e engrandecer-se.”16

Em 1928 a empresa apresentava 374 operários e tinha uma capacidade instalada de força motriz de 629 H.P. Nos anos que se seguiram, com a eclosão da crise de 1929 e da Grande Depressão, tanto o número de funcionários como de força motriz instalada foram reduzidos, apresentando, porém, uma rápida recuperação nesses termos como mostra a tabela abaixo:

Capital, Operários e força motriz – Noschese



Fonte: Tabela elaborada pela autora/ (DEIC SAIC/SP Estatística Industrial do Estado de São Paulo)

Nota: No valor do capital estão incluídos debêntures e fundos de reserva.17
A força motriz instalada, em 1931 o valor cai drasticamente para 315 H.P, seguindo 1932 e 1933 na casa dos 380 e a partir de 1934 voltando ao nível superior a 500 H.P. Totalizando para o período 1928-37 um acréscimo de 8,1% em termos de força motriz instalada.

O número de operários cai de 374 em 1928 para 315 em 1930, em 1931 voltando a 370 e a partir de então seguindo uma trajetória de sucessivos aumentos, chegando ao ano de 1937 a empregar 526 operários, um crescimento de 40,6% entre 1928 e 1937.




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