Sociedade Anônima Comércio e Indústria “Souza Noschese”: um estudo de caso Tatiana Pedro Colla Belanga1



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Produção

A produção, representada pelo faturamento bruto verificado nas vendas da Sociedade “Souza Noschese”, evidencia o comportamento positivo da empresa ao longo das duas décadas. Os negócios prosperaram bastante entre 1922 e 1925, sofrendo com uma crise em 1926:

“[..]Foi grande como haveis de notar o declínio que tiveram os nossos lucros, no exercício findo.

Tão recente são as causas que determinaram a considerável redução de negócios, e tão presentes estão elas, por certo, ainda, no espírito de todos, que julgamos ocioso rememorá-las aqui.

Com efeito, a crise sem procedentes que veio, tão fundamente alterar a situação dos mais firmes e prósperos estabelecimentos, não poderia deixar de fazer sentir também as suas conseqüências, na nossa indústria.

Os estados do sul que sempre constituíram um dos mais seguros mercados para os nossos produtos, foram durante o ano todo, teatro dos graves acontecimentos que vieram paralisar totalmente a sua vida comercial.

Essa paralisação não foi, entretanto, senão pequeno acidente, ante a formidável crise geral que se estendeu por todo o país, que atingiu a todos os ramos da indústria e do comércio.

Felizmente, no último mês, a situação teve sensível melhoria, que fez crês num breve regresso a normalidade, o que aliás, é de esperar, visto terem cessado as causas que mais diretamente concorreram para crise”18.

Produção – Souza Noschese

Fonte: Tabela elaborada pela autora/ (Diário Oficial do Estado de São Paulo)

Nos meses que precederam os impactos da crise de 1929 e da Grande Depressão, já em 1928, os relatórios apresentavam a insatisfação com atual realidade da indústria, ainda impactantes da crise de 1925.

“[...] foram ainda muito reduzidos os lucros que alcançamos nesse ano. Várias circunstâncias concorreram para tal. Entre elas, sobretudo, a de perdurar ainda a crise que desde 1925 vem atravessando o comércio e as indústrias. Temos trabalhado incansavelmente para adaptar nossas indústrias a este novo estado de coisas, cuja duração não se pode prever. Não foi possível ainda iniciar os trabalhos de nossa Usina, em Brumadinho, tendo mesmo, como medida de prudência, sido suspensos todos os trabalhos de instalação que vínhamos executando. Esperamos que os novos artigos que estamos agora fabricando, todos eles de grande aceitação, possamos, nos anos vindouros auferir melhores lucros na nossa indústria.”19

Os valores da produção, no entanto, mantiveram-se elevados, mas como pode-se observar, a produção a partir de 1931 apresenta uma trajetória crescente de grandes proporções. Em 1931 o cenário apresenta-se diferenciado, o valor da produção com relação ao de 1928 é 42% superior em termos nominais e 74% maior em termos reais. Permitindo a distribuição de dividendos, permanecendo, no entanto, suspensos os trabalhos iniciados na Usina “Souza Noschese”.

“É com grande prazer que vimos chamar vossa atenção para o desenvolvimento que tiveram nossos negócios ao ano transato, desenvolvimento esse que foi causa de sensível melhoria de nossa situação econômica.” 20

Como pode-se notar, através da análise da produção para a indústria Souza Noschese, havia o esforço e a intenção de expansão dos negócios, da produção industrial para atender o mercado nacional. Havia também o esforço de investimento, verificado nos relatos, que resultaram no crescimento industrial da década de 1920, ainda mediante as crises de grandes proporções, que finalmente, na década de 1930, pôde crescer e expandir-se aos moldes de um processo de industrialização.

Produção – Souza Noschese



Fonte: Gráfico elaborado pela autora/ (Diário Oficial do Estado de São Paulo)


A tendência do surto de prosperidade continua em 1932, em termos do valor da produção, em crescente ascendência e a cada ano relatado com satisfação,

“[...] podereis avaliar a extraordinária melhoria de nossa situação, melhoria mais considerável ainda se considerada a anormalidade da situação dentro da qual vem envolvendo os nossos negócios.” 21

“[...] a procura de nossos produtos em todos os mercados consumidores do país, vem aumentando progressivamente, levando-nos, este fato a procurar desenvolver cada vez mais, nosso aparelhamento industrial.” 22

Investimento e fontes de crescimento

Com relação aos investimentos, o ativo imobilizado da empresa era composto por imóveis, máquinas e acessórios e móveis e utensílios, assim como os estoques de matéria-prima, produtos em fabricação e acabados. As agências comerciais apresentavam valores correspondentes a um estoque de produtos acabados e móveis e utensílios, ou seja, o processo produtivo concentrava-se somente em São Paulo, e as diferentes localidades funcionavam como meios de extração e distribuição.

Os investimentos iniciados em 1923 com a aquisição de uma jazida de ferro e uma Cachoeira em Minas Gerais e em 1924 uma usina no município de Piratini, próximo de Pelotas – Estado do Rio Grande do Sul permaneceram praticamente dez anos paralisados.

“[...] já estão sendo atacados, como toda a regularidade, os serviços para a instalação da Usina “Souza Noschese”, estando também iniciadas as construções de várias casas para os operários”.23

“Usina “Souza Noschese”: continuam ativamente os trabalhos de instalação dessa Usina. Esperamos que, dentro de alguns anos, estaremos aptos para iniciar os trabalhos de extração. Usina “São Cristovão”: uma extensa jazida de estanho que aos técnicos que lá estiveram para os estudos preliminares, afigura-se de notável vulto pela riqueza e qualidade do minério”. 24

Investimento – Souza Noschese



Fonte: Gráfico elaborado pela autora/ (Diário Oficial do Estado de São Paulo)


A produção pode ser aumentada e os custos reduzidos através de instalação de novo aparelhamento industrial:

“Se a crise nos acarretou, como a todo comércio e indústria graves prejuízos, trouxe-nos também benefícios, que só futuramente poderão ser devidamente avaliados. Entre esses figura, em primeiro plano, o de ter concorrido, como incentivo poderoso que foi, para melhoria do nosso aparelhamento industrial, graças a qual a nossa produção pode ser aumentada consideravelmente, e os custos de fabricação dos nossos artigos foram grandemente reduzidos”.25

“Deveis notar porém, que nos encaminhamos definitivamente no ramo que as indústrias modernas procuram tomar: - o da grande produção e do aproveitamento máximo da matéria-prima, visando a obtenção de um custo mínimo que permita ao industrial vender seus produtos por preço reduzido, incrementando assim as vendas e evitando o aparecimento de novos concorrentes.

Assim, embora tivessem surgido oportunidades para se melhorarem os preços de alguns de nossos produtos – delas não quisemos aproveitar, convictos de que, qualquer majoração de preços poderia ser contraproducente, não só pels embargos que poderia acarretar a difusão dos artigos, como também pelo estímulo que poderia dar ao aparecimento de novos concorrentes. ”26

A necessidade de expansão física da indústria é também aparente:

“[...] Com o grande desenvolvimento das nossas indústrias, tornara-se demasiado acanhado o espaço ocupado pela nossa Fábrica, o que nos obrigou a adquirir diversos prédios vizinhos, importando essas aquisições em um total de rs. 80.522$000”.27

Na tabela seguinte é possível avaliar as variações de cada conjunto, ativo imobilizado e estoques, tendo como base de comparação o comportamento total. A queda dos estoques até 1931 trata-se à utilização de produtos em estoque nas vendas. A queda final do ativo imobilizado refere-se, no entanto a paralisação dos investimentos aliado a depreciação que corroia o valor dos ativos já existentes. Nota-se através dos valores separados de cada composto do ativo imobilizado, uma queda mais substancial em termos de imóveis seguido por máquinas e acessórios.

As reduções de estoques de artefatos acabados e matéria-prima funcionaram como modo eficaz de minorar os efeitos da crise (metade da década de 1920), estes sujeitos a bruscas alterações de valor num período de instabilidade.

Já os posteriores acréscimos de estoques estão relacionados a aumentos da demanda dos produtos da empresa:

“Notareis sensível aumento em nossos estoques, aumento a que fomos levados também por essa necessidade de corresponder a grande procura que vem tendo nossos produtos.” 28

Ativo Imobilizado e Estoques – Souza Noschese

Fonte: Tabela elaborada pela autora/ (Diário Oficial do Estado de São Paulo)


“Como vereis pelo próprio balanço, comparando-o com o do ano de 1928, continuam paralisadas as obras da Usina de Brumadinho e os estudos da Jazida S. Cristóvão. Aguardamos melhor oportunidade para prosseguir na execução daquelas obras e para terminar os estudos iniciados, que estavam sendo promissores. A filial de Santos, instalada em princípios do ano, apesar da situação anormal que atravessa aquela praça tem dado resultados que fazem esperar que corresponderá perfeitamente a nossa expectativa.” 29

A queda do valor do ativo imobilizado ao longo do tempo demonstra a influência negativa das paralisações em novos investimentos, assim como a depreciação de 10% ao ano sobre seu valor.

Em 1931, apesar do desenvolvimento dos negócios,

“[...] continuam suspensos os trabalhos que iniciáramos na Usina “Souza Noschese”. Não é, por certo, ainda oportuno desviarem capitais de nossa indústria, para invertê-los em empreendimentos que não são prontamente remuneráveis.” 30

No entanto, a partir de 1933, o acúmulo de reservas, fruto da recuperação iniciada a partir de 1931 dos negócios da empresa permitem que os investimentos sejam retomados, não somente como forma de expansão, mas como nota-se através do relatório a seguir, a necessidade de reforma de antigas instalações.

“As necessidades de nossa indústria, de par com o estado pouco satisfatório em que se encontrava a parte antiga do prédio de nossa fábrica, impunham-nos a urgência da construção de novas instalações e a reforma das antigas.” 31

O incremento no capital social da empresa só veio a se concretizar em 1937, deliberada pela Assembléia extraordinária em Dezembro de 1924. Em meio as circunstâncias econômicas críticas, julgou-se inoportuno a elevação do capital, situação que perdurou até 1937.

“[...] fazendo-se sentir cada vez mais, a insuficiência do capital de 2.000:000$000 diante do vulto de negócios da sociedade, principalmente tendo em vista a necessidade do desenvolvimento da exploração da jazida de ferro, de Brumadinho, foi efetivado o aumento para 4.000:000$000 daquele capital, tendo sido aumento subscrito integralmente por antigos acionistas da Sociedade.” 32

No entanto, através da análise dos indicadores da firma “Souza Noschese”, pode-se notar o movimento que indica um crescimento e investimento industrial durante toda a década de 1920, tendo a década de 1930 desfrutado, posteriormente aos impactos negativos da crise, de uma situação em que a produção industrial pode deslanchar.
Produção e Investimento

Fonte: Gráfico elaborado pela autora/ (Diário Oficial do Estado de São Paulo)


O que se pode concluir, através dessa evidência empírica, é que a indústria já vinha se desenvolvendo e crescendo durante a década de 1920, e o choque da Grande Depressão só veio a acelerar o processo, permitindo que a indústria tomasse o seu lugar prioritário como determinante da renda na economia.


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