Star Trek episódios da série clássica tradução de Cristina Nastasi



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James Blish

e J. R. Lawrence

Star Trek

EPISÓDIOS DA SÉRIE CLÁSSICA


Tradução de Cristina Nastasi

1995


Impresso no Brasil

Sistema Cameron da Divisão Gráfica da

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.

Rua Argentina 171 -20921-380 Rio de Janeiro, RJ — Tel.: 585-2000

Titulo original: Star Trek: The Classic Episodes

Copyright O Paramount Pictures Corporation,

Desilu Productions Inc. e Bantam Books

1967,1968,1969,1971,1972,1973,1974,1975,1977

Todos os direitos reservados.

Publicado mediante contrato firmado com Bantam Books, uma divisão

da Bantam Doubleday Dell Publishing Group Inc.

STAR TREK® é marca registrada da Paramount Pictures Corporation.
Editor:

Silvio Alexandre
Revisão e colaboração:

Georges Ribeiro, Sylvio Gonçalves, Isabel Grau e Cristina Segnin
Capa: Maria Amélia de Azevedo

Produção Gráfica: Leonardo Bussadori
ISBN 85-7272-067-7
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Blish, James Benjamin, 1921 -1975

Star Trek: episódios da série clássica / adaptado por James Blish com J. A. Lawrence; tradução Cristina Nastasi. São Paulo: Mercuryo, 1995(Unicórnio Azul; 2)


1. Ficção científica norte-americana 2. Ficção norte-americana I Lawrence, J.A I. Título. II. Série.
95-2628 CDD-813.5
índice para catalogo sistemático:

1. Ficção: Século 20: Literatura norte-americana

813.5


2. Século 20: Ficção: Literatura norte-americana

813.5


Todos os direitos desta edição reservados à
Editora Mercuryo Ltda.

Al. dos Guaramomis, 1267 – Moema CEP 04076-012 - São Paulo - SP




Prefácio

De quantas formas diferentes se pode atravessar uma rua? De quantas maneiras se consegue viajar para outro planeta? São perguntas fáceis e ao mesmo tempo difíceis de responder.

Fáceis, porque dada a objetividade dos fatos — atravessar a rua ou ir para outro planeta — o número de possibilidades de respostas que se tem para elas é pequeno.

Difíceis, sim, difíceis, porque a aparente facilidade em respondê-las suscita rapidamente outra questão. E o homem, parado no meio fio, olhando para o outro lado da rua, deveria se perguntar: "Mas será que não existem outras formas de atravessar essa rua?"

Só que uma rua, uma calçada, objetos dessacralizados pelo massacrante uso cotidiano, não se prestam a este tipo de reflexão. Não constituem nenhum desafio, não existem (aparentemente) descobertas a se fazer no outro lado da rua. , Mas no céu, sim. E parado sob uma noite estrelada, olhando para cima, o homem sonha.

O homem imagina.

O poder da imaginação, que alça o homem às estrelas, atrai no seu vácuo primeiro a especulação, depois a ciência e por fim o conhecimento. E o conhecimento traz o homem de volta das estrelas, para dentro dele mesmo, num perpétuo movimento de expansão e contração que a tudo anima e ao qual chamamos vida.

Portanto, é necessário que façamos mais viagens e tentemos ir audaciosamente aonde nenhum homem jamais esteve, pois dessa forma encontraremos a vida — fora — em outros planetas, e a vida — dentro — o movimento interno, o que nos permitirá até tornar o ato banal de atravessar uma rua numa ação transcendental.

E descobrir, finalmente, que existem infinitas maneiras de se atravessá-la.

O Editor



O Estranho Charlie

Título da adaptação: Charlie's Law

Título do episódio: Charlie X

Título em português:

O Estranho Charlie (nas duas versões)
Data da primeira exibição: 15/09/66

Data estelar: 1533.6


História de D. C. Fontana e Gene Roddenberry

Direção de Lawrence Dobkin


Atores convidados:

Charlie Evans: Robert Walker Jr.

Tasiano: Abraham Sofaer

Tom Nellis: Dallas Mitchell



O Estranho Charlie

Embora como capitão da nave estelar Enterprise James Kirk possuísse a autoridade final sobre quatrocentos oficiais e tripulantes, além de um pequeno e constantemente variável número de passageiros, e muito embora em seus mais de vinte anos no espaço tivesse sua parcela de pequenas contrariedades e dores-de-cabeça, tinha a firme opinião de que nunca ninguém havia lhe dado tantos problemas quanto um certo adolescente de dezessete anos. Charles Evans havia sido resgatado de um planeta chamado Thasus, depois de ficar isolado lá por quatorze anos, o único sobrevivente de um desastre com a nave de pesquisas de seus pais. Ele fora resgatado pela Antares, uma nave de transporte dez vezes menor do que a Enterprise e, em seguida, transferido para a nave de Kirk, usando roupas emprestadas e carregando todos seus pertences numa pequena mochila.

Os oficiais da Antares que o levaram a bordo da Enterprise elogiaram demais a inteligência de Charlie, sua ânsia por aprender, sua queda intuitiva para assuntos de engenharia — "Ele poderia controlar sozinho a Antares se precisasse"— e sua doçura de caráter; Kirk sentiu a maneira quase atrapalhada com que eles se esforçavam para exaltar as qualidades do rapaz e como estavam numa pressa sem precedentes para voltar à própria nave, sem nem mesmo se interessar em conseguir uma garrafa de conhaque.

A curiosidade de Charlie ficou evidente desde o primeiro momento, embora ele demonstrasse também uma certa hesitação — o que não era de surpreender, considerando-se seu longo e solitário exílio. Kirk designou a ordenança Rand para levá-lo a seu alojamento. Foi quando Charlie chocou a todos ao perguntar, com ar bem sincero, a Kirk:

— É uma garota?

Leonard McCoy, o médico-chefe da nave, examinou Charlie dos pés à cabeça e o encontrou em excelentes condições físicas: sem sinais de desnutrição, exposição à radiação, ou traumas de qualquer tipo; algo admirável para um garoto que arranjou-se sozinho num mundo estranho desde os três anos de idade. Nessas condições, quatorze anos depois, obviamente Charles deveria estar em bom estado ou então morto. Era natural que ele se adaptasse ao meio ambiente nos primeiro anos.

Charlie não falava muito sobre esse mistério, embora gostasse de fazer um monte de perguntas: estava ansioso em fazer tudo certo e tinha uma necessidade ainda maior de se sentir aceito, mas algumas perguntas de McCoy aparentemente o deixavam contrariado.

Não, ninguém havia sobrevivido ao desastre. Ele aprendera a falar conversando com o banco de memória do computador da nave; sim, ele funcionava. Não, os thasianos não o ajudaram; não havia thasianos. No princípio, ele comeu os suprimentos de bordo; depois, ele achou outras coisas... coisas crescendo por lá.

Charlie então pediu para ver o livro de regras da nave. Na Antares, explicou, não tinha feito ou dito as coisas da maneira certa. Quando isso acontecia, as pessoas ficavam zangadas; ele ficava zangado também. E não gostava de cometer o mesmo erro duas vezes.

— Também me sinto assim — consolou McCoy. — Mas você não pode se precipitar nessas coisas. Apenas mantenha os olhos abertos e, quando tiver dúvidas, sorria e fique calado. Isso geralmente funciona.

Charlie devolveu o sorriso de McCoy e o médico o dispensou com uma palmada no traseiro, o que claramente surpreendeu o rapaz.

McCoy resolveu tratar do problema de Charlie e foi à ponte conversar com Kirk e seu segundo em comando, sr. Spock. A ordenança Rand estava lá, já que era seu horário de serviço, e imediatamente mostrou-se prestes a se afastar; Kirk pediu que ficasse, uma vez que ela, mais do que ninguém, estava lidando com o rapaz. Além disso, Kirk gostava da presença da ordenança, embora preferisse acreditar que isso era um segredo até mesmo para ela.

— A história da Terra é cheia de casos em que uma pequena criança consegue sobreviver num ambiente hostil — prosseguiu McCoy.

—Já li sobre algumas de suas lendas — disse Spock, que era nativo do planeta chamado Vulcano. — Aparentemente, todas elas possuem um lobo que cuida das crianças.

— Por que razão o menino mentiria se houvesse mesmo thasianos por lá?

— Existem evidências de que havia, pelo menos há uns mil anos — observou Spock. — As primeiras observações indicam alguns artefatos altamente sofisticados. E as condições não se alteraram em Thasus, pelo menos nos últimos três milhões de anos. Da mesma forma, devem existir alguns sobreviventes.

— Charlie diz que não — disse Kirk.

— Sua própria sobrevivência indica que existem. Eu chequei os registros do computador biblioteca em Thasus. Não havia muito, mas um dado dizia: "Sem plantas comestíveis". Ele simplesmente deve ter recebido algum tipo de ajuda.

— Eu acho que você está dando ao rapaz menos crédito do que ele merece — censurou McCoy.

— Por enquanto, vamos trabalhar com essa conjectura — interrompeu Kirk. — Sr. Spock, elabore um programa para nosso jovem Charlie. Dê a ele coisas para fazer... lugares onde estar. Se o mantiver-mos ocupado até chegarmos à Colônia Cinco, depois os educadores mais experientes de lá irão se encarregar dele. Enquanto isso, teremos um pouco de paz a bordo... Ordenança Rand, o que você acha da nossa criança-problema?

— Beeem... talvez eu esteja sendo maliciosa. Não queria mencionar isso, mas... ele me seguiu pelo corredor ontem e me ofereceu um vidro de perfume. O meu favorito, por sinal; não sei como ele sabia isso. Não existe essa marca em nenhuma das lojas da nave, tenho certeza.

— Hummm — analisou McCoy.

— Estava para perguntar onde tinha conseguido aquilo quando ele me deu um tapa no traseiro... Depois disso, me afastei dele.

Os oficiais não conseguiram controlar uma pequena explosão de risos, com a óbvia exceção de Spock, mas a surpresa foi logo reprimida.

— Mais alguma coisa? — quis saber Kirk.

— Nada de importante. O senhor sabia que ele sabe fazer truques com baralho?

— Onde ele teria aprendido isso? — questionou Spock.

— Isso eu não sei, mas ele é muito bom. Eu estava jogando paciência na sala de recreações quando ele chegou. A tenente Uhura estava cantando "Charlie é meu queridinho" e, a princípio, me pareceu que ele achou que ela estava debochando dele. Quando percebeu que não era essa a intenção, aproximou-se para me observar e ficou confuso porque eu não conseguia acertar o jogo. Então ele o fez por mim — sem nem mesmo tocar as cartas, eu juro. Quando demonstrei minha surpresa, pegou as cartas e fez uma série de truques com elas, bons truques. A melhor prestidigitação que eu já vi. Disse que um dos homens da Antares o ensinou. E ele estava se divertindo com a atenção que atraiu, mas eu não quis incentivá-lo muito. Não depois do incidente do tapa.

— Receio que ele tenha aprendido esse truque comigo — explicou McCoy.

— Não duvido disso — observou Kirk. — Acho melhor eu falar com ele.

— Você foi feito pra ser pai, Jim — completou McCoy, sorrindo.

— Contenha-se, Magro. Só não quero que ele fique fora do nosso controle, apenas isso.


Charlie colocou-se de pé tão logo Kirk entrou em sua cabine; suas mãos, ombros, joelhos, enfim, todo seu corpo parecia movimentar-se da maneira errada. Mal Kirk acabara de cumprimentá-lo, Charlie saiu-se com um "Eu não fiz nada!".

— Calma, Charlie. Eu só queria saber como você está indo.

— Bem, eu acho... Eu acho que queria perguntar ao senhor por que eu não deveria... eu não sei como explicar.

— Seja direto, Charlie. Isso sempre funciona.

— Bem, no corredor... Eu estava... quando Janice... quando ordenança Rand estava... — Ele adiantou e, de repente, deu um tapa nas nádegas do capitão. — Eu fiz isso e ela não gostou. Ela disse que o senhor me explicaria.

— Bem, — começou Kirk, tentando não sorrir. — É que existem coisas que você pode fazer com uma mulher e outras que você não pode. Ah, a questão é, não é direito bater numa mulher... De homem para homem, é uma coisa, de homem para mulher é... outra coisa. Entendeu?

— Não sei, senhor. Acho que sim.

— Então terá de aceitar minha palavra de que é o certo. Enquanto isso, tenho um esquema de atividades para você, Charlie. Coisas para fazer, para ajudá-lo a aprender tudo o que você não pôde enquanto estava abandonado em Thasus.

— É muito gentil o que tem feito por mim. — disse Charlie, que parecia satisfeito de verdade. — O senhor gosta de mim?

A pergunta pegou Kirk despreparado. — Aprender a gostar das pessoas leva tempo. Você deve observar o que elas fazem, deve tentar entendê-las. Isso não acontece de repente.

— Oh.

— Capitão Kirk, — a voz da tenente Uhura veio através do intercom.



— Com licença, Charlie... Kirk falando.

— Capitão Ramart, da Antares, está no canal D. Deseja falar diretamente com o senhor.

— Certo. Estou indo para a ponte.

— Posso ir também? — perguntou Charlie, enquanto Kirk desligava o intercom.

— Receio que não, Charlie. Isso é um assunto da nave.

— Eu não vou perturbar ninguém. Não vou atrapalhar.

A necessidade que o rapaz tinha por estar em companhia humana era comovente, não importava o quão desajeitado ele era em relação a isso. Eram muitos os anos de solidão a superar. — Tudo bem — disse Kirk. — Mas só com a minha permissão. Certo?

—Certo—respondeu Charlie, ansioso. Ele seguiu Kirk como um cachorrinho segue seu dono.

Na ponte, a tenente Uhura, com a expressão de seu rosto tão definida quanto a de uma estátua ritual de seus antepassados bantu, estava perguntando pelo microfone: — Pode ampliar o sinal, Antares Mal estamos recebendo sua transmissão.

— Estamos no máximo da nossa potência, Enterprise. — A voz de Ramart estava muito longe e dissonante. — Preciso falar com o capitão Kirk agora mesmo.

Kirk aproximou-se do painel de comunicações. — Kirk falando, capitão Ramart.

— Capitão, graças a Deus. Mal estamos em alcance. Eu devo preveni-lo...

Sua voz parou. Nada além de estática estelar estava sendo ouvida, nem mesmo ondas portadoras.

— Veja se consegue trazê-los de volta. — ordenou Kirk.

— Não há nada a fazer, capitão. — Uhura estava intrigada. — Não mais transmitindo.

— Mantenha o canal aberto.

Por trás de Kirk, Charlie murmurou calmamente: —Era uma nave velha. E não era muito bem construída.

Kirk o fitou por instantes e então dirigiu-se à estação de Spock.

— Senhor Spock, rastreie a área de transmissão com uma sonda.

— Já fiz isso — disse Spock, prontamente. — Mas está muito confuso. É algo incomum, mesmo para essa distância.

Kirk voltou-se para o rapaz. — O que aconteceu, Charlie? Você sabe?

Charlie encarou-o, num hesitante desafio. — Eu não sei.

— A área rastreada está se ampliando — informou Spock. —Estou captando elementos mais distinguíveis agora. Destroços, sem dúvida.

— E a Antares?

— Capitão, os destroços são o que sobrou da Antares — disse Spock, calmamente. — Não há outra interpretação. A nave explodiu.

Os olhos de Kirk continuavam firmes nos de Charlie. O rapaz fugiu ao olhar.

— Lamento que tenha explodido — disse, então. Ele parecia constrangido, mas nada além disso. — Eu não vou sentir falta deles. Eles não eram bons. Eles não gostavam de mim. Eu sei disso.

Seguiu-se um longo, terrível silêncio. Por fim, Kirk aliviou a pressão em seus punhos.

— Charlie, uma das primeiras coisas das quais você vai ter de se livrar é esse seu sangue-frio. Ou egocentrismo, o que quer que seja. Até manter isso sob controle, você não será nem mesmo um meio ser humano.

Para constrangimento e admiração do capitão, Charlie começou a chorar.



— Ele o quê? — perguntou Kirk, sentado em sua cadeira de comando, olhando para a ordenança Rand. Ela estava visivelmente desconfortável, mas não menos determinada.

— Ele me deu uma cantada — ela repetiu. — Não em palavras, é claro. Mas ele fez uma longa, inquestionável declaração. Ele me deseja.

— Ordenança, ele é um garoto de dezessete anos.

— Exatamente.

— Tudo isso por causa de um tapinha?

— Não, senhor. Por causa da intenção. Capitão, já vi aquele olhar antes; eu não tenho dezessete anos. E se algo tem de ser feito, deve ser feito logo ou eu terei de agir, até mesmo bater nele eu mesma, e não vai ser no traseiro. Não vai ser bom para ele. Eu sou sua primeira paixão e a primeira mulher que ele já viu e... — ela segurou o fôlego. — Capitão, existe uma série de coisas com as quais a gente tem de aprender a lidar na vida, passo a passo. Mas tudo de uma vez, é de matar. Ele não entende coisas mais comuns como... um "chega pra lá". Se eu tiver de forçá-lo a entender, vamos ter problemas. O senhor me entende?

— Acho que sim, ordenança — disse Kirk, embora ainda não pudesse encarar a situação seriamente.

— Apesar de eu nunca imaginar que teria de falar sobre os pássaros e as abelhas a alguém, pelo menos não na minha idade. Mas eu vou procurá-lo agora mesmo.

— Obrigada, senhor.

— Ela foi embora e Kirk mandou chamar Charlie. Ele parecia já estar preparado para o que ia acontecer.

— Entre, Charlie. E sente-se.

O rapaz dirigiu-se para a cadeira em frente à mesa de Kirk e sentou-se, como se prestes a cair numa armadilha. Como da vez anterior, Charles tomou a dianteira.

—Janice, — disse ele.

— Ordenança Rand. É sobre ela, não é?

Que inferno a rapidez desse rapaz! — Mais ou menos. Talvez seja mais sobre você.

— Não vou mais bater nela. Eu prometo.

— É mais do que isso. Você precisa aprender algumas coisas.

—Tudo o que faço ou digo é errado — Charlie estava desesperado. — Estou sempre atrapalhando. O dr. McCoy não me ensinou as regras. Não sei o que eu sou o que eu deveria ser, nem mesmo quem eu sou. E não sei por que me dói tanto por dentro, o tempo todo...

— Eu sei e isso passa. Não há nada com você que não tenha havido com cada homem desde que o primeiro modelo surgiu. Não existe maneira de controlar isso, evitar ou ocultar. Você apenas que passar por isso, Charlie.

— Mas é como se eu estivesse virado pelo avesso. Vivo pensando nisso o tempo todo... Janice — ordenança Rand — ela quer me empurrar para qualquer outra pessoa. Pra ordenança Lawton, por exemplo. Mas ela é apenas uma... uma., bom, ela nem mesmo cheira como uma mulher. Ninguém nessa nave é como Janice. Eu não quero ninguém mais.

— Isso é normal — disse Kirk, gentilmente. — Charlie, existe um milhão de coisas no universo que você pode ter. Existe também um milhão de coisas que não pode. Não é divertido aprender a aceitar essas coisas, mas você precisa fazer isso. A vida é assim.

— Não gosto disso — disse Charlie, como se explicasse tudo.

— Eu não o culpo. Mas você tem de agüentar e sobreviver. O que me lembra uma coisa: a próxima etapa em seu esquema de atividades é aprender autodefesa. Venha ao ginásio comigo e vamos tentar alguns golpes. Diz a lenda que, na velha Inglaterra vitoriana, os exercícios físicos ajudavam os homens a não pensar em mulheres. Eu não sei se funciona, mas vamos dar uma chance tentando.



Charlie estava totalmente desajeitado, mas não mais do que qualquer outro iniciante. O oficial Sam Ellis, um dos membros da equipe de McCoy, usando trajes de ginástica como Kirk e Charlie, estava sendo bem paciente com ele.

— Assim é melhor. Bata no tatame quando você cair. Isso absorve o choque. Agora, tente de novo.

Ellis deixou-se cair por sobre o tatame, bateu com jeito contra ele e rolou graciosamente até ficar novamente de pé. — Dessa maneira.

— Nunca vou aprender — disse Charlie.

— Claro que vai — incentivou Kirk. —Vá em frente, então.

Charlie tentou uma queda desajeitada, lembrando de usar a técnica de como cair somente no último instante, o que o fez desabar no chão do ginásio.

— Bom, já melhorou — disse Kirk. — Como tudo, é preciso prática. Mais uma vez.

Dessa vez, Charlie saiu-se melhor. Kirk disse: — Isso mesmo. Certo, Sam, mostre a ele uma queda de ombro.

Ellis executou a técnica e novamente ficou de pé, com eficiência e facilidade.

— Eu não quero fazer isso — disse Charlie.

— Faz parte do curso. Não é difícil. Olhe — o capitão simulou a queda. —Tente agora.

— Não. Você disse que ia me ensinar a lutar e não a rolar no chão.

— Você tem de aprender primeiro a cair sem se machucar antes de aprender a lutar. Sam, talvez seja melhor fazer uma demonstração. Que tal duas quedas?

— Certo — disse Ellis. Os dois oficiais posicionaram-se numa espécie de abraço e Ellis, que era muito maior que o capitão, deixou Kirk derrubá-lo. Depois, quando colocou-se novamente de pé,

Kirk foi arremessado com a maior facilidade. Kirk rolou e deu um pulo, satisfeito com o exercício.

— Viu o que eu disse? — perguntou Kirk.

— Acho que sim — respondeu Charlie. — Não parece difícil.

O rapaz adiantou-se e segurou os braços de Kirk, tentando sair do gancho usando a técnica que vira Ellis aplicar. Ele era forte, mas não tinha muita vantagem. Kirk agiu mais rápido e o derrubou. Não foi uma queda muito forte, mas uma vez mais Charlie esqueceu de preparar o choque no tatame. Ficou de pé enfurecido, olhando direto para Kirk.

— Não é assim, rapaz — disse Ellis, rindo. — Você precisa cair mais vezes, Charlie.

Charlie voltou-se em direção a ele e, num profundo e intenso tom de voz, disse: — Não ria de mim.

— Fica frio, Charlie — Ellis estava rindo abertamente agora. — Metade do segredo é não perder a calma.

Não ria de mim! — repetiu Charlie, mas Ellis não reprimiu a gargalhada.

Em um segundo, o ginásio encheu-se de um forte clarão e, em seguida, Ellis desapareceu.

Kirk olhava estupefato para o local onde Sam Ellis estivera parado um pouco antes. Por um momento, Charlie permaneceu estático, mas logo tomou a direção da saída.

— Espere — ordenou Kirk. Charlie parou, mas continuou de costas para o capitão.

— Ele não devia ter rido de mim. Não é educado rir de uma pessoa. Eu estava me esforçando.

— Não o suficiente. Mas não importa. O que aconteceu? O que você fez com meu oficial?

— Ele se foi — respondeu ele, mal-humorado.

— Isso não é resposta.

— Ele se foi. É tudo o que sei. Eu não queria fazer isso. Ele me provocou. Ele riu de mim.

Imagine se Janice tivesse dado um tapa nele? E... e a explosão da Antares... Kirk procurou o intercom mais próximo e apertou o botão. Charlie finalmente virou-se para observá-lo. — Aqui é o capitão Kirk, no ginásio. Mande dois homens da segurança imediatamente para cá.

— O que você vai fazer comigo?

— Vou mandá-lo para seu alojamento. E eu quero que fique lá.

—Não vou deixar que toquem em mim — disse o rapaz, falando baixo. — Vou fazê-los desaparecer também.

— Eles não vão machucá-lo.

Charlie não disse mais nada, mas ele possuía o olhar de um animal enjaulado ao encarar o capitão. A porta abriu-se e dois seguranças entraram, com feisers à mão. Eles olharam Kirk à espera de uma ordem.

— Vá com eles, Charlie. Falaremos sobre isso mais tarde, quando nós dois estivermos mais calmos. Você me deve uma longa explicação. —Kirk inclinou a cabeça indicando Charlie e os guardas foram até ele e o seguraram pelos braços. Ou melhor, tentaram. Kirk tinha certeza de que eles sequer chegaram a tocá-lo. Um deles simplesmente caiu para trás, mas o outro foi violentamente jogado contra a parede, como se tivesse sido atingido por um raio. Ainda assim, conseguiu retomar o equilíbrio e alcançou sua arma.

— Não! — gritou Kirk.

Mas a ordem veio muito tarde. No momento em que o segurança apontava seu feiser para o rapaz, já não havia mais feiser com que disparar. Ele havia desaparecido, assim como Sam Ellis. Charles encarou Kirk, com desafio no olhar.

— Charlie — disse o capitão — Você passou dos limites. Vá para seu alojamento.

— Não.


— Vá com os seguranças, ou eu o pegarei e levarei até lá eu mesmo. — ameaçou, já se encaminhando em sua direção.—Essa é sua única escolha, Charlie. Faça o que eu disse ou então me mande para onde quer que você tenha mandado o feiser e Sam Ellis.

— Oh, está bem — disse Charlie, por fim. Kirk soltou o fôlego. — Mas mande-os ficar com as mãos longe de mim.

— Eles não vão machucá-lo. Não se você fizer o que estou dizendo.

Kirk apressou-se em convocar um reunião de informes com os oficiais da ponte, mas Charlie foi mais rápido: ao mesmo tempo em que os oficiais se reuniam, já não se encontrava um feiser sequer em qualquer parte da nave. Charlie fizera com que todos eles "desaparecessem". Kirk explicou o que estava acontecendo, suscita e soturnamente.

— Em função disso

— observou McCoy — é evidente que Charlie não precisou de ajuda alguma de qualquer thasiano. Ele podia satisfazer todas as necessidades que tinha.

— Não necessariamente — contrapôs Spock.

— Tudo o que sabemos é que ele pode fazer coisas desaparecerem, e não fazê-las aparecer. Admito que apenas isso já deve ter sido de grande ajuda para ele.

— Quais são as chances — quis saber Kirk — de Charlie ser um thasiano? Ou, pelo menos, ser algo sem precedentes em termos alienígenas?

— A possibilidade existe, — conjeturou McCoy — mas eu descartaria isso. Lembre-se que eu o examinei. Ele é totalmente humano, até sua última gota de sangue. Claro, posso ter deixado passar alguma coisa, mas ele foi submetido ao painel de funções biológicas; caso contrário, a máquina teria disparado uns dezesseis tipos diferentes de alarme.

— Bem, ele é desumanamente poderoso, de qualquer forma — observou Spock. — Também é provável que seja o responsável pela destruição da Antares. A uma enorme distância, muito além do alcance dos feisers.

— Que maravilha — resmungou McCoy. — Nessas circunstâncias, como vamos mantê-lo confinado?

— Muito pior do que isso — emendou Kirk. — Também não podemos levá-lo à Colônia Cinco. Podem imaginar o que ele poderia fazer num ambiente normal?

McCoy não arriscou comentários. Kirk levantou e começou a andar de um lado para outro.

— Charlie é um adolescente, provavelmente humano, mas totalmente inexperiente em relação a outros seres humanos. Está zangado porque ele deseja muito as coisas e não as consegue tão rápido quanto gostaria. Ele está sofrendo as dores da adolescência. Ele quer ser um de nós, ser aceito, ser útil. Mas... eu lembro quando eu tinha dezessete anos e queria ter a habilidade de sumir com as coisas e as pessoas que me aborreciam, pura e simplesmente. É a fantasia de poder que a maioria dos meninos têm nessa idade. Charlie não apenas deseja. Ele pode fazê-lo.

— Em outras palavras, a fim de garantir nossa existência, cavalheiros, precisamos ter certeza de que não o aborrecemos. De outra maneira... bum!

— Aborrecimento é algo relativo, capitão — disse Spock. — E tudo vai depender de como Charlie estará se sentindo minuto a minuto. E, em função do passado dele, ou na falta de um, não temos como supor o que vai desagradá-lo, não importa o quão cuidadosos sejamos. Ele é a arma mais destrutiva da galáxia e está engatilhada.

— Não — protestou Kirk. — Ele não é uma arma. Ele tem uma arma. Essa é uma diferença que podemos usar. Basicamente, ele é uma criança, uma criança no corpo de um homem, tentando ser um adulto. O problema dele é não é uma questão de malícia. É de inocência.

— E aí está ele — disse McCoy, fingindo receptividade.

Kirk girou sua cadeira

para ver Charlie saindo do elevador, com um sorriso efusivo nos lábios.

— Oi — cumprimentou a arma mais destrutiva da galáxia.

— Eu pensei que o tinha confinado a seu alojamento, Charlie.

— É — disse ele, com o sorriso desaparecendo. — Mas fiquei cansado de esperar lá dentro.

— Está bem. Aqui está você. Talvez possa nos responder umas perguntas. Você foi o responsável pelo que aconteceu com a Antares.

— Por quê?

— Porque eu quero saber. Responda, Charlie.

As respirações estavam em suspenso enquanto Charlie pensava a respeito. Finalmente, ele disse: — Sim. Havia um problema com a placa de absorção do gerador Nerst... Teria explodido mais cedo ou mais tarde.

— Você poderia tê-los avisado.

— Para quê? — perguntou Charlie, ponderada-mente. — Eles não eram bons comigo. Eles não gostavam de mim. Você viu quando me trouxeram a bordo. Eles queriam se livrar de mim. Agora não podem fazer isso.

— E quanto a nós?

— Ah, eu preciso de vocês. Tenho de chegar à Colônia Cinco. Mas se não forem bons comigo, eu vou pensar no que fazer. — O rapaz virou-se abruptamente e foi embora, sem qualquer razão aparente.

McCoy enxugou o suor de sua testa. — Ufa, que bela chance você teve.

— Não podemos ficar pisando em ovos desse jeito

— disse Kirk. — Se cada ato, cada pergunta o irrita, nós devemos então fingir que essa não é a intenção. Se não, estaremos com as mãos e os pés amarrados.

— Capitão — Spock interrompeu, lentamente.

— Acha que um campo de força poderia detê-lo? Ele é esperto demais para aceitar ficar numa cela de prisão, mas poderíamos instalar um campo de força na porta de seu alojamento. Todo o circuito corre através do corredor principal do convés cinco e poderíamos usar isso. É uma pequena chance, mas...

— Quanto tempo levaria para ficar pronto?

— Cerca de setenta e duas horas.

— Vão ser setenta e duas longas horas, sr. Spock. Execute — Spock assentiu e deixou a sala.

— Tenente Uhura, contate a Colônia Cinco para mim. Eu quero falar diretamente com o governador. Tenente Sulu, estabeleça um curso para longe da Colônia Cinco, o bastante para nos dar tempo. Magro...

O som de uma forte interferência e o grito de dor vindo de Uhura interromperam Kirk. Ela levou as mãos ao peito, tremendo convulsivamente. McCoy correu até a oficial, tentando controlá-la.

— Está... tudo bem — disse ela. — Eu acho. Foi só um curto-circuito. Mas não havia razão para isso acontecer...

— Provavelmente houve uma boa razão para isso — observou Kirk, soturnamente. — Não toque nisso até segunda ordem. Como está indo, Magro?

— Queimaduras superficiais. Mas quem sabe o que vai ser na próxima vez?

— Posso responder a isso — interrompeu Sulu. — Eu não consigo estabelecer novas coordenadas. O equipamento está operando, mas recusa proceder a uma mudança de curso. Estamos na direção da Colônia Cinco.

— Eu tenho pressa — disse Charles, saindo novamente do elevador, mas dessa vez prestando atenção na expressão de fúria do capitão.

— Já estou cansado disso. O que fez com o transmissor?

—Vocês não precisam dessa comunicações sub-espaciais — explicou Charlie, quase que na defensiva. — Se houver algum problema, cuidarei de tudo. Estou aprendendo rápido.

— Eu não quero sua ajuda. Charlie, no momento não existe nada que eu possa fazer para impedir sua interferência. Mas eu te digo uma coisa: você, realmente, está certo, eu não gosto de você. Não gosto mesmo de você. Agora, pare com isso.

— Não importa — disse Charlie, friamente. — Eu não me importo se você não gosta de mim agora. Você vai gostar em breve. Eu vou forçá-lo.

E, enquanto ele ia embora, McCoy começou a resmungar em voz baixa.

— Deixe disso, Magro. Isso não vai ajudar. Tenente Uhura, apenas as comunicações externas estão interrompidas ou o intercom também está cortado?

— O intercom está funcionando, capitão.

— Certo, contate a ordenança Rand... Janice, eu tenho um serviço sujo para você... talvez o mais sujo que já te mandaram fazer. Eu quero que você atraia Charlie para a cabine dele... Isso. Nós estaremos monitorando, mas entenda que, se você provocá-lo demais, não haverá muito o que possamos fazer para protegê-la. Você pode recusar, se quiser; provavelmente, não vai funcionar.

— Se não funcionar, — afirmou Rand — não será porque eu não tentei.



Enquanto observavam os movimentos pelo monitor, Spock estava concentrado nos comandos que ativariam o campo de força. Janice estava sozinha no alojamento de Charlie e a espera parecia uma eternidade. Finalmente, a porta abriu-se para que Charlie entrasse e ficasse no foco do circuito interno, sua expressão um misto de expectativa e desconfiança.

— Que bom que você veio até aqui. Mas eu não confio mais em ninguém. As pessoas são complicadas e cheias de ódio.

— Não, não são, Você apenas não se esforça pára entender como elas se sentem. Você deve dar tempo a elas.

— Então... você gosta de mim?

— Sim, eu gosto de você. A ponto de tentar ajudá-lo. De outra modo, eu não teria pedido para vir aqui.

— Isso é muito bom. Eu posso ser bom, também. Olhe. Tenho algo para você.

De trás de suas costas, que já estavam visíveis para o circuito interno, ele tirou um botão de rosa que estava escondido. Também não existiam rosas a bordo da nave; a julgar por esta e por seu perfume, ele poderia fazer coisas aparecer da mesma maneira com que fazia desaparecer. As perspectivas não eram nada boas.

— Rosa é sua cor favorita, não é? — ia dizendo Charlie. — Os livros dizem que todas as garotas gostam de cor-de-rosa. Azul é para meninos.

— É... uma linda lembrança, Charlie. Mas esse não é o momento para galanteios. Eu preciso muito falar com você.

— Mas você pediu para vir ao meu quarto. Os livros dizem que isso significa algo importante.

Ele aproximou-se decidido, tentando tocar a face de Janice. Ela instintivamente desviou em direção da porta, que agora estava conectada ao controle remoto de Spock; mas ela não podia ver por onde estava andando e encontrou uma cadeira em seu caminho.

— Não. Eu disse apenas que queria falar com você e é só isso que significa.

— Mas eu só quero ser bom com você.

Ela conseguiu livrar-se da cadeira e continuou se afastando.

— Isso é uma norma na "Lei de Charlie" — ironizou ela.

— O que você quer dizer? O quê?

— A "Lei de Charlie" diz que é melhor todo mundo ser bom com Charlie.

— Isso não é verdade! — reagiu ele, asperamente.

— Não é? Onde está Sam Ellis, então?

— Não sei onde ele está. Ele apenas se foi. Janice, eu só quem ser bom. Eles não me deixam ser. Nenhum de vocês deixa. Eu posso dar tudo que você quer. É só me dizer.

— Certo. Então acho melhor que você deixe sair. É isso o que eu quero.

—Mas você disse... — o rapaz engoliu em seco e tentou novamente —Janice, eu... amo você.

— Não, não ama. Você não sabe nem o que essa palavra significa.

— Então me ensine — pediu, tentando alcançá-la.

Ela estava de costas para a porta agora, e Spock apertou o botão. Os olhos de Charlie arregalaram-se quando a porta abriu rapidamente e Janice fugiu por ela. Ele correu atrás, mas o outro controle foi acionado.

O campo de força brilhou e Charlie foi jogado de volta para dentro do quarto. O rapaz deteve-se por um momento, como um animal encurralado, as narinas dilatadas, a respiração pesada. Então disse:

— Está certo. Está certo, então.

Charlie adiantou-se lentamente. Kirk o acompanhava pelo monitor. Da segunda vez, o rapaz passou pelo campo de força como se não existisse. E avançou novamente contra Janice.

— Por que você fez isso? Você nem mesmo me deixou tentar. Nenhum de vocês. Tudo bem. A partir de agora eu não vou mais tentar. Eu não vou preservar nenhum de vocês, a não ser os que eu precisar. Eu não preciso de vocês.

Então houve novamente o som de uma implosão e Janice desapareceu. Para Kirk, o universo ficou dolorosamente nebuloso.

—Charlie, — a voz do capitão soou rouca através do intercom, para o qual o rapaz olhou, atordoado.

— Você também, capitão — disse, por fim. — O que você fez também não foi bom. Eu vou mantê-lo vivo por enquanto. A Enterprise não é como a Antares. Controlar a Antares foi fácil. Mas se você tentar me ferir de novo, eu farei outros do seu povo desaparecer... Estou indo para a ponte, agora.

— Eu não posso impedi-lo.

— Sei que você não pode. Ser um homem não é tão difícil assim. Não sou um homem e posso fazer tudo o que quero. Talvez eu seja o homem e você não.

Kirk desligou o circuito e olhou significativamente para Spock. Depois de um instante, o primeiro oficial disse:

— Se entendi bem, essa é sua última palavra.

— É o mais próximo de onde posso chegar, tenha certeza. O campo reagiu bem da segunda vez?

— Não. Charlie passou por ele tão facilmente quanto um raio de luz. Ainda mais fácil... eu poderia parar um raio de luz, se conhecesse sua freqüência. Aparentemente, existem poucas coisas que ele não pode fazer.

— Com exceção de controlar a nave... e levá-la à Colônia cinco sozinho.

— Pouco consolo.

A conversa foi interrompida com a entrada de Charlie. Altivamente, sem uma palavra, foi até o painel de navegação e acenou para Sulu deixar o lugar. Depois de um breve olhar de consulta a Kirk, o navegador levantou obedientemente e deu espaço para Charlie sentar-se e começar a mexer nos comandos. A nave sofreu uma guinada leve e ele espalmou as mãos sobre o painel.

— Mostre-me o que fazer — ordenou autoritário para Sulu.

— Isso leva anos de treinamento.

— Não discuta comigo. Apenas me mostre.

— Vá em frente. Mostre a ele — autorizou Kirk. — Talvez ele nos exploda a todos. É melhor do que deixá-lo solto na Colônia Cinco...

— Capitão Kirk — interrompeu Uhura. — Estou captando sinais externos; um canal subespacial. Nave a nave, eu acho. Mas está apenas nos instrumentos, eu não posso ouvir.

— Não existe nada aí

— cortou Charlie.

— Capitão?

— Eu sou o capitão!

— A voz de Charlie fez Kirk ter súbita certeza de que ele estava amedrontado. E que, de modo ainda mais inexplicável, a Enterprise devia atender àquele chamado inesperado.

— Charlie, você está criando essa mensagem... ou está bloqueando uma que está chegando?

— Esse é o meu jogo, senhor Kirk. Você tem de descobrir. Como você disse... é assim que o jogo é jogado. — Ele deixou a estação de navegação e dirigiu-se a Sulu. — Você pode assumir agora. Eu estabeleci curso para a Colônia Cinco de novo.

O rapaz não tinha condições de fazer nada em tão pouco tempo de posse dos controles. Provavelmente, o curso originalmente estabelecido permanecia inalterado. Mas, de qualquer modo, a situação já era ruim; a Colônia Cinco estava agora a doze horas de distância.

As mãos de Charlie ainda tremiam.

—Tudo bem, Charlie, esse é seu jogo... mas o jogo acabou. Eu não acho que você consiga continuar com ele. Eu acho que você já está no seu limite e já não consegue fazer muito mais. Mas vai ter de fazer. E comigo.

— Eu poderia ter feito você desaparecer antes. Não me obrigue a fazer isso agora.

— Não se preocupe. Você já tem minha nave. Eu a quero de volta. E eu quero de volta minha tripulação intacta, também. Nem que eu tenha de quebrar seu pescoço para conseguir isso.

— Não me provoque — sussurrou Charlie. — Não me provoque!

De repente, uma intensa onda de dor jogou Kirk ao chão. O capitão não pode deixar de gritar.

— Sinto multo,— disse Charlie, suando, angustiado. — Eu sinto muito...

O transmissor subespacial emitiu um ruído alto e, de repente, começou a expedir um código inteligível. Uhura correu para sua estação.

— Pare com isso! — gritou Charlie. — Eu já disse, Pare com isso!

A dor parou; Kirk estava livre. Depois de um segundo de hesitação para certificar-se de que tudo estava normal, o capitão colocou-se de pé. Spock e McCoy correram até ele.

— O painel está liberado — anunciou Sulu, ao fundo. — A navegação está respondendo.

Charlie afastou-se de Kirk, choramingando. Ele, que queria ser o capitão de alguma coisa, agora não o era nem de sua própria alma. Kirk o fitou num misto de expectativa e admiração.

Num flash, Janice Rand apareceu na ponte, procurando apoio com as mãos para ficar em pé. Seu rosto estava pálido e perturbado, mas não havia ferimentos visíveis.

Outro flash.

— Foi uma tremenda queda, Jim—disse Sam Ellis, também irrompendo na ponte. — Da próxima vez, é melhor... hei! O que é isso?!

— Mensagem sendo recebida—alertou Uhura. — Nave identificando-se como de Thasus.

Com o grito de um animal em pânico, Charlie caiu e começou a socar o chão com os punhos.

— Não os ouça! Não os ouça! Não, não, por favor! Eu não posso mais viver com eles!

Kirk o observou impassível. O garoto que os tinha subjugado e manipulado estava desabando aos poucos, diante de seus olhos, desabando aos poucos.

— Você são meus amigos. Vocês disseram que eram meus amigos. Lembram-se... quando vim a bordo? — Ele buscou piedade junto a Kirk. — Levem-me para casa, a Colônia Cinco. É o tudo o que quero... é o que eu quero de verdade!

— Capitão — chamou Spock, sua voz sempre desapaixonada. — Algo está acontecendo. Parece uma materialização. Observe.

Kirk voltou seus olhos em direção a Spock e, depois, para o lugar onde algo começava a materializar-se na ponte. Nem mesmo Spock conseguia uma boa definição. Era a figura de um homem com uns dois terços de estatura normal, ligeiramente acima do peso médio, lutando para obter solidez. Sua imagem oscilava em cores alternadas, com uma aura de luminosidade a seu redor. Por um momento, mostrou-se como uma gigantesca face humana; em seguida, não parecia nem remotamente humano, para depois surgir como a visão distorcida de uma enorme construção. Não parecia capaz de manter nenhum dos estados por muito tempo.

E então falou. A voz era profunda e ressonante. Originava-se não da aparição, mas do transmissor subespacial; como a aparição, no entanto, não conseguia manter um padrão e alternava ruídos e sons, como se estivesse fora de controle.

— Nós lamentamos por esse problema. Nós compreendemos tardiamente que o menino já não estava mais conosco. Procuramos por ele um longo tempo até encontrá-lo, mas viagens espaciais já não são utilizadas entre nós; estamos consternados que essa fuga tenha custado a vida daqueles a bordo da primeira nave. Nós não os ajudamos porque estava fora do nosso alcance; mas estamos devolvendo seu povo e as armas intactos. Agora tudo será como antes. Não há nada a temer; nós o temos sob controle.

— Não! — Charlie estava chorando convulsiva-mente. Erguendo-se do chão, ele foi agarrar o braço de Kirk. — Não farei de novo. Por favor, eu serei bom. Nunca, nunca farei de novo. Eu lamento pela Antares, eu lamento muito. Por favor, deixe-me ficar com vocês, por favor!

— Oh, oh — retrucou McCoy. — E por falar na chegada da Cavalaria...

— Não é tão fácil assim — disse Kirk, olhando diretamente para a estranha formação — um thasiano? — diante dele.

— Charlie destruiu a outra nave e deve ser punido por isso. Mas graças a vocês, os outros danos foram reparados. Além disso, ele é um ser humano. Pertence ao nosso povo.

— Está maluco, Jim — censurou McCoy.

— Cale-se, Magro. Charlie é humano. Um processo de reabilitação vai transformá-lo em um de nós, reuni-lo a nosso povo. Devemos isso a ele, se ele puder ser ensinado a não usar seu poder.

— Demos a ele esse poder — explicou a aparição — para que pudesse sobreviver. Não pode ser retomado ou ignorado. Ele o usará; não pode ajudar a si mesmo. Ele destruiria vocês e sua raça e vocês seriam forçados a destruí-lo para salvar a si mesmos. Nós oferecemos uma vida a ele.

— Ah, muito obrigado! — insistiu Kirk. — Vocês estão é oferecendo uma prisão a ele... isso nem mesmo é uma meia vida.

— Sabemos disso. Mas há muito o dano foi causado e agora nós só podemos fazer algo pelo que restou. Já que somos os culpados, devemos tomar conta dele. Venha, Charles Evans.

— Não deixem! — gritou Charlie. — Não deixem que me levem! Capitão! Janice! Vocês não entendem, eu nem mesmo posso tocá-los...

O rapaz e o thasiano desapareceram da ponte, no mais profundo silêncio. O único som remanescente era a variada freqüência de ruídos característicos da Enterprise.

E o som de Janice Rand soluçando, como uma mulher chora o filho perdido.



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