Star Trek episódios da série clássica tradução de Cristina Nastasi



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Sobre o episódio
H tragédia do jovem Charlie enquadra-se perfeitamente bem em um dos temas preferidos de Star Trek, o do "poder absoluto que corrompe absolutamente", principalmente quando um ser humano adquire poderes divinos, como foi mostrado em Onde Nenhum Homem Jamais Esteve.

A situação fica mais delicada quando esses poderes são adquiridos por um adolescente, um jovem rapaz com problemas de auto-aceitação e tão despreparado para a vida humana quanto para sua condição superior.

Esse elemento dá a chance ao personagem de Kirk apresentar sua faceta paternal e exibir sua figura de autoridade, apesar de o capitão mostrar-se meio sem jeito ao verse às voltas com os problemas adolescentes de Charlie. Para um século teoricamente tão avançado, Kirk fica muito constrangido ao explicar as coisas do sexo, como também foi mostrado em outro episódio, Fruto Proibido.

Charlie Evans foi a primeira criação de D.C. Fontana, que era secretária de Gene Roddenberry, virou sua roteirista e acabou sendo a grande responsável por insuflar vida aos personagens que ex-patrão concebeu no papel.

O primeiro rascunho de roteiro de O Estranho Charlie apresentava, na realidade, o mesmo conceito do roteiro final, com algumas diferenças interessantes. No primeiro rascunho, Charlie forçava uma jovem ordenança a ficar de joelhos, desapontado pelo fato dela não assemelhar-se com a ordenança Rand. McCoy mostrou grande alegria pelo fato do capitão Kirk tentar ensinar ao jovem Charlie os fatos da vida. A tenente Uhura, neste roteiro, teve uma talentosa performance, imitando todos os membros da tripulação na sala de recreações.


O Equilíbrio do Terror

Título da adaptação: Balance of Terror

Título do episódio: Balance of Terror

Título em português:

Medida de Terror (primeira versão)

O Equilíbrio do Terror (segunda versão)
Data da primeira exibição: 15/12/66

Data estelar: 1709.1


História de Paul Schneider

Direção de Vicent McEveety


Atores convidados:

Comandante romulano: Mark Lenard

Tenente Andrew Stiles: Paul Comi

Robert Tomlinson: Stephen Mines

Ângela Martine: Barbara Baldwin

O Equilíbrio do Terror

Quando o ataque romulano começou, o capitão James Kirk estava na capela da nave, esperando para oficializar um casamento.

Ele poderia, obviamente, declinar dessa tarefa. Mas, em primeiro lugar, era o único homem a bordo com poderes para realizar tal cerimônia, e, além disso, os noivos faziam parte da tripulação da nave: o especialista em armas Robert Tomlinson e a também especialista em armas, segunda classe, Ângela Martine.

O pensamento de recusar realizar a cerimônia, no entanto, jamais passou pela cabeça do capitão. Viajar entre as estrelas, mesmo a velocidades próximas à da luz, era um processo desgastante. Ninguém podia ignorar a necessidade de relações humanas normais em tão prolongada aventura, a menos que se fosse um militar burocrata ou um tolo, e Kirk não se considerava nenhuma das duas coisas.

Além do mais, nada poderia ser mais simbólico do que um casamento a bordo da Enterprise. Por causa das vastas distâncias e dos lapsos de tempo envolvidos, as naves estelares eram, efetivamente, o único elo de ligação entre planetas civilizados. Mesmo o rádio interestelar, que era um meio muito mais rápido, estava sujeito a uma dúzia de diferentes interferências, sem falar que, em termos de relacionamento humano, era uma forma de contato muito frustrante. Na realidade, as naves estelares eram tão eficientes quanto abelhas trabalhadoras, pois carregavam suprimentos, medicamentos, conhecimento técnico, notícias de casa e, acima de tudo, a visão e o toque de outras pessoas.

Era justamente por todas essas razões que existia uma capela a bordo da Enterprise. Arquiteta na esperança de não ofender suscetibilidades religiosas (ou, como a propaganda oficial dizia, "para comportar a fé de todos os planetas", uma tarefa obviamente impossível), a capela foi simplificada ao máximo e desprovida de todo e qualquer símbolo. Sua existência, no entanto, evidenciava que a Enterprise em si era um verdadeiro mundo, assim como também reconhecia os impulsos religiosos vividos de forma atemporal por todos os seres humanos.

O noivo já estava lá quando Kirk chegou, assim como estava uma meia dúzia de tripulantes, falando em sotto você. Por perto, estava também o engenheiro-chefe Scott ajustando uma pequena câmera de vídeo, pois a cerimônia ia ser transmitia tanto pelo circuito interno, como para fora da nave, através dos satélites de observação na Zona Neutra de Rômulo-Remo. Scott podia muito bem ter designado um de seus homens para providenciar a instalação, mas fizera questão de, ele mesmo, contribuir para a solenidade da ocasião, como se fosse seu presente para a noiva. Kirk não pode deixar de sorrir por causa disso. Hoje a nave estava completamente tomada de elementos simbólicos.

—Tudo sob controle, Scotty?

— Não posso responder pelo noivo, senhor, mas de resto está tudo certo.

— Muito bom.

O sorriso desapareceu do rosto de Kirk enquanto se dirigia ao altar de estilo ecumênico; o fato de realizar a cerimônia tão perto da Zona Neutra o deixava de certa forma preocupado. Os romulanos já haviam sido inimigos formidáveis, mas há cinqüenta anos, desde que a Zona Neutra fora fechada para o sistema Rômulo-Remo, não se ouvia falar deles. No entanto, pensou Kirk, mesmo que eles estivessem tramando alguma coisa escusa do lado de lá, por que iriam escolher justamente esse momento para fazer algo, ainda mais com uma nave estelar de respeito estando tão perto?

Scott, que estava terminando de instalar a câmera, arrumou o cabelo quase que sem sentir, afinal era ele quem ia conduzir a noiva ao altar. O intercom começou a transmitir uma música suave — Kirk deduziu que fosse uma escolha mais tradicional, uma vez que não conseguia identificar a melodia — e Ângela entrou, acompanhada de sua dama de honra, a ordenança Janice Rand. Scott ofereceu a ela seu braço. Tomlinson e seu padrinho já estavam em posição. Kirk pigarreou para limpar a garganta.

Nesse momento, os alarmes da nave começaram a soar.

Ângela empalideceu. Como ela era nova a bordo, ainda não tinha ouvido o som dissonante do alerta vermelho, mas obviamente sabia do que se tratava. A voz da oficial de comunicações Uhura encheu o lugar:

— Capitão Kirk para a ponte! Capitão para a ponte!

Kirk já havia deixado o lugar, em passo acelerado.

Spock, o primeiro oficial, estava junto à estação da tenente Uhura quando Kirk e seu engenheiro-chefe chegaram à ponte. Spock, o fruto do casamento de uma mulher terráquea e um homem de Vulcano — não o imaginário décimo terceiro planeta do sistema solar, mas um planeta de 40 Eridani — , não tinha emoções humanas, e a tenente Uhura também demonstrava uma impassividade quase profissional; mesmo assim, havia um clima de tensão no ar. — O que é que há? — perguntou Kirk.

— É o comandante Hansen, do posto-satélite quatro-zero-dois-três — informou Spock. — Eles captaram sinais de intruso na Zona Neutra.

— Identificação?

— Nenhuma ainda, mas o padrão do motor é moderno. Aparentemente não é uma nave romulana.

— Desculpe-me, sr. Spock — disse uma voz vinda do painel de comunicação. — Estava ouvindo o senhor. Nós temos visual agora. A nave é moderna, sim, mas a aparência é romulana.

Kirk inclinou-se sobre o painel. —Aqui é o capitão Kirk. A nave está ameaçando vocês, Hansen?

— Afirmativo. E não responde às mensagens. Pode nos ajudar, capitão? Vocês são a única nave estelar no setor.

— Afirmativo.

— Estamos estimando a aproximação visual deles às... — a voz de Hansen sumiu por um momento. — Lamento, acabamos de perdê-los. Sumiu de nossa tela.

— É melhor transmitir as imagens de seu monitor. Tenente Uhura, transfira para nossa tela principal.

Por um momento, a tela central da ponte mostrou apenas o panorama de estrelas, mas, em seguida, exibiu uma certa nebulosidade ao fundo. Então, de repente, a estranha nave estava lá. Superficialmente, ela lembrava muito o estilo da Enterprise, um disco em forma de cúpula, que estava se aproximando pela beirada da tela, embora, obviamente, estivesse chegando próximo ao satélite e não da Enteprise. Seu tamanho, no entanto, era impossível de ser calculado sem uma estimativa de distância.

—Magnificência total, tenente Uhura.

A nave misteriosa parecia avançar cada vez mais. Scott fez uma gesto silencioso e Kirk concordou. Através da imagem ampliada, era possível ver sinais de identificação inquestionáveis: a silhueta sugerindo uma ave de rapina com as asas semi-abertas. Nave romulana, sem dúvida.

Do posto S-4023, a voz de Hansen soou urgente: — Pegamos, de novo! Capitão Kirk, você pode ver...

—Nós estamos vendo.

A tela, no entanto, exibiu um clarão branco e, então, ficou embaçada. Uhura virou o rosto devido à intensidade do brilho. Kirk piscou, também incomodado pela luz, e inclinou-se para frente, tenso.

A nave alienígena havia disparado uma espécie de torpedo de luz intensa e cegante. Movendo-se com curiosa precisão, embora com um padrão de expansão aparentemente errático, a massa de energia disparada ofuscou as câmeras de captação do posto S-4023, assim como parecia querer engolir a Enteprise.

— Ela abriu fogo! — gritou Hansen. — Nossa tela está falhando... nós estamos...

A tela da Enterprise foi inundada pela luminosidade destrutiva de um novo disparo. Os alarmes começaram a soar freneticamente e então cessaram.

— Postos de batalha — disse Kirk a Uhura. — Alerta geral, sr. Spock, em frente para interceptar.

Ninguém jamais vira um romulano vivo. Era quase certo também que "romulano" não era o nome que eles davam a si mesmos. Evidências fragmentadas e pinçadas em meio ao rastro de destruição deixado há setenta e cinco anos, depois que vieram do sistema Rômulo-Remo com suas intenções violentas, sugeriam que eles sequer eram nativos de seu planeta. A raça curiosamente usava o nome que os terrestres haviam adotado por mera convenção. Alguns poucos corpos recolhidos do espaço durante a guerra que travaram provaram que eles eram humanóides, mas com características mais vulcanas do que terráqueas. Os especialistas achavam que os romulanos haviam se estabelecido no planeta ao qual chegaram oriundos de uma migração em massa, depois de terem sido rejeitados pela facção menos militarista de seu povo, que provavelmente estabelecera os alicerces de uma sociedade pacífica. Rômulo-Remo, planetas gêmeos orbitando uma estrela anã branca, acabaram providenciando um lar para uma raça que enfrentava dificuldades por ela mesmo criada.

Mas tudo isso era mera especulação, sem o menor fundamento histórico. As espécies vulcanóides que faziam parte da Federação alegavam nada saber a respeito; e os próprios romulanos jamais permitiram que seus prisioneiros fossem pegos — o suicídio, aparentemente, fazia parte de sua tradição militar. A única coisa que se sabia era que os romulanos haviam zarpado de seu pequeno sistema planetário em primitivas e desajeitadas naves. Naves que deveriam ser insignificantes para a frota da Federação, mas que acabaram levando vinte e cinco anos para voltar a seu mundo adotado — vinte e cinco anos de uma guerra sem misericórdia para ambos os lados.

A Zona Neutra, com sua rede de satélites de observação, foi instaurada ao longo do sistema Rômulo-Remo depois disso, e desde então, passou a sofrer uma severa vigilância. Por cinqüenta anos, no entanto, nada mais aconteceu, nem mesmo um sinal foi captado, muito menos uma nave. Talvez os romulanos estivessem ainda sarando suas feridas e aperfeiçoando sua tecnologia e suas armas — ou talvez eles tivessem aprendido a lição e desistido — ou talvez estivessem apenas cansados, decadentes...

Suposições. Uma coisa também era certa: hoje, eles, ou uma de suas naves, haviam decidido aparecer de novo em cena.

A tripulação da Enterprise assumiu seus postos com tanta eficiência que seria difícil para uma pessoa de fora acreditar que a maioria dos tripulantes a bordo jamais ouvira sequer um disparo em batalha. Até o casal de noivos já estava em sua estação de armas, tensos, mas tão preparados para enfrentar esse momento de destruição quanto estavam determinados em participar de um ato criação poucas horas antes, na cerimônia que fora interrompida.

Mas não havia nada em que disparar no momento. Na ponte, Kirk já ocupava a cadeira do capitão, ladeado por Spock e Scott. Sulu estava em seu posto de piloto; o segundo oficial Stiles era o navegador. Tenente Uhura, como sempre, estava no painel de comunicações.

— Nenhuma resposta dos satélites quatro-zero-dois-três, dois-quatro ou dois-cinco — informou ela. — Nenhum traço indicando que eles ainda estão em órbita. Os demais postos estão

em posição. Sem sinais de nave invasora. Leituras dos sensores normais. Zona Neutra, zero.

— Diga a eles para ficar alertas e reportar qualquer anormalidade.

— Sim, senhor.

— Entrando na área do posto quatro-zero-dois-três - informou Sulu.

— Tenente Uhura?

— Nada, senhor. Não... estou captando um efeito de halo. Destroços, eu acho. Metais, ainda se espalhando. O ponto de radiação é, obviamente, o local onde estava o satélite. Estou efetuando uma checagem com o computador, mas...

— Não há do que ter dúvidas — disse Kirk, soturnamente. — Eles conseguiram um pouco mais de know-how do que tinham há cinqüenta anos... e isso não me surpreende muito.

— Que arma era aquela, afinal de contas? — perguntou Stiles, inconformado.

— Vamos examinar antes de fazer suposições. Sr. Spock, use o raio-trator para trazer um daqueles destroços. Eu quero análise completa — espectral, testes de resistência, difusão de raio-X, micro-químico, o de sempre. Sabemos com que material é construído o satélite. Quero saber como ele ficou agora... e quero algumas especulações dos laboratórios sobre como isso aconteceu. Entendido?

— É claro, senhor — respondeu o primeiro oficial. A resposta, se tivesse partido de qualquer outra pessoa, poderia ser encarada de forma irônica ou até mesmo desrespeitosa. Mas, para o vulcano, era simplesmente a constatação de um fato. Já estava no intercom, em contato com o laboratório.

— Capitão — chamou Uhura. Sua voz estava estranha.

— O que é?

— Estou pegando algo. Uma massa em movimento. Nada mais. Nada no visual, nem no radar. Sem radiação. Nada, a não ser uma variação De Broglie no computador. Pode ser algo muito pequeno e condensado, ou algo muito grande e difuso, como um cometa. Mas os traços não são iguais para nenhum dos dois.

— Navegador?

— Existe um cometa nas proximidades, parte do sistema Rômulo-Remo — informou Stiles, prontamente. — Posição nove-sete-três, distância um ponto três horas-luz, curso convergente...

— Já captei esse cometa há algum tempo — interrompeu Uhura. — Agora é outra coisa. Sua velocidade relativa para nós é de meia hora-luz, em direção a Zona Neutra. É algum tipo de campo eletromagnético... mas não um tipo que já tenha visto. Estou certa de que não é natural.

— Não, não é — concordou Spock, na mais completa calma, como se apenas estivesse comentando o tempo. — É uma tela de invisibilidade.

Stiles soltou um riso curto, mas Kirk sabia de longa experiência que seu primeiro oficial meio-vulcano jamais fazia afirmações desse tipo sem estar apoiado em dados concretos. Spock era estranho pelos padrões humanos, mas tinha uma mente extraordinária. — Explique.

— O curso leva à nave que atacou o último posto de observação, não o que estamos captando agora, mas o quatro-dois-cinco. Toda a órbita segue padrão Hohmann D em curso de interceptação com Rômulo. O computador já demonstra isso.

— Tenente Uhura?

— Checado — confirmou, relutante.

— Segundo: o comandante Hansen perdeu a nave inimiga de vista quando ela estava bem de frente para ele. E não reapareceu até um instante antes de realizar o ataque. Então desapareceu de novo e não mais a vimos. Terceiro: teoricamente, a coisa é possível, mesmo para uma nave do tamanho da Enterprise, se você desviar todo a força para isso; dessa forma, você fica visível se precisar de força para seus feisers, ou qualquer outra arma de energia.

— E quarto: besteira — comentou Stiles.

— Nem tanto, sr. Stiles — observou Kirk. — Isso explicaria porque apenas uma nave romulana teria se aventurado através da Zona Neutra, bem debaixo do nariz da Enteprise. Os romulanos devem pensar que eles agora podem nos pegar e enviaram uma sonda para se certificar.

—Trata-se de uma série muito longa de conclusões, senhor — disse Stiles, polidamente.

— Estou ciente disso. Mas é o melhor que nós temos no momento. Sr. Sulu, marque curso e velocidade segundo os dados da tenente Uhura, e acompanhe movimento por movimento. Mas sob circunstância alguma penetre na Zona Neutra sem minha ordem direta. Uhura, cheque todas as freqüências atrás de uma onda portadora, um padrão de motor, qualquer tipo de transmissão além dessa onda De Broglie... em particular, veja se você pode detectar algum bate-papo entre naves ou com o planeta natal. Sr. Spock e sr. Scott, quero vê-los na sala de reuniões para revisar o que sabemos sobre os romulanos. É melhor chamar o dr. McCoy, também. Alguma pergunta?

Não havia perguntas.

O encontro na sala de reuniões ainda estava em andamento quando Spock foi chamado ao laboratório. Tão logo ele saiu, o ambiente tornou-se mais informal; nem Scott, nem McCoy gostavam muito do vulcano, e mesmo Kirk, embora admirasse o valor de seu primeiro oficial, não ficava inteiramente à vontade em sua presença.

— Você quer que vá embora também, Jim? — perguntou McCoy. — Talvez você queira um tempo sozinho para pensar.

— Eu penso melhor com você por aqui, Magro. Você também, Scotty. Estamos com um problema sério. Temos gente de metade dos planetas da Federação patrulhando a Zona Neutra. Se nós a atravessarmos com uma nave estelar e sem uma causa justa, talvez tenhamos de nos preocupar com mais coisas do que apenas romulanos. É assim que começa uma guerra civil.

— E a perda de três satélites não é uma causa justa? — perguntou Scott.

— Diria que sim, mas o que precisamente atingiu aqueles satélites? Uma nave romulana, é o que achamos. Mas podemos provar? Bem, não, afinal, a coisa é invisível. Mesmo o Stiles teve de rir, e está do nosso lado... Os romulanos estavam atrás de nós em tecnologia da última vez que os vimos... eles só foram tão longe naquela guerra porque, além da vantagem da surpresa, contavam com a estratégia da selvageria. Agora, de repente, eles têm uma nave tão boa quanto a nossa, mais um escudo de invisibilidade. É difícil de acreditar.

— Por outro lado, senhores... por outro lado, enquanto estamos aqui debatendo a questão, podem estar preparados para nos atacar. Estamos à beira de uma guerra: estaremos perdidos se dermos o primeiro passo, estaremos perdidos se não. A porta abriu e Spock entrou. — Senhor...

— Certo, sr. Spock. Manda ver.

Spock estava carregando uma pilha de papéis, que trazia junto a seu corpo preso por um braço, enquanto o outro estava livre, apesar de sua mão estar cerrada, como que guardando algo. A expressão do vulcano nada revelava, mas havia algo em sua postura que evidenciava tensão.

— Aqui estão as análises dos destroços. Não perderei tempo com detalhes, a menos que os senhores desejem. O cerne da questão é que a arma romulana que vimos ser usada em S-4023 parece ser um dispositivo de implosão molecular.

— O que isso significa? — perguntou McCoy, ríspido.

Spock ergueu a mão que estivera fechada e lentamente espalhou sobre a mesa um pó brilhante e metálico.

—A arma satura o metal. Instantaneamente. Os cristais de metal perdem a coesão e colapsam em poeira... como isso aqui. Depois disso, tudo contido no metal também explode, porque já não faz parte da matéria principal. Acredito que esteja claro, dr. McCoy. Pois se não estiver, eu posso explicar de novo.

— Diabos, Spock...

— Calado, Magro — interferiu Kirk, cansado. — Sr. Spock, sente—se. Agora, escutem. Nós não estamos em posição de lutarmos entre nós. Evidentemente estamos numa situação pior do que imaginávamos. Se os fatos que temos são verdadeiros, os romulanos têm mesmo um escudo de invisibilidade e uma arma pelo menos comparável às nossas.

— E muitas vezes superior — corrigiu Spock. — Pelo menos, em algumas situações.

— Essas duas engenhocas — disse McCoy — podem ser muito bem coisa da imaginação do sr. Spock. É uma interpretação dos fatos que está nos levando ao pânico.

— Não existe outra interpretação disponível no momento — observou Kirk — Alguém discorda? Certo. Então vamos ver o que podemos fazer. Scotty, com o que podemos contar, caso as invenções dos romulanos sejam verdadeiras? Não temos como ficar invisíveis e não podemos servir de alvo fácil para um atacante invisível. Aonde isso nos leva?

— Estamos bem armados, somos rápidos e manobráveis — disse o engenheiro. — Além disso, eles não ficam totalmente invisíveis; a tenente Uhura pode captar as ondas De Broglie deles enquanto se movem. Isso significa que podem estar operando à força total bem nesse momento, apenas mantendo distância e permanecendo invisível. Suponho que não saibam que nosso sensores podem detectá-los.

— O que significa que podemos escapar deles e saber, aproximadamente, o que eles estão fazendo. Mas não podemos superá-los ou vê-los.

— É o que parece até o momento — concluiu Scott. — É um bom equilíbrio de poder, eu diria. Mais do que muitos comandantes podem contar numa situação de batalha.

— Isso não é uma situação de batalha, nem mesmo é um pequeno conflito. É o limiar de uma guerra interestelar. Não podemos cometer erros.

— A única certeza que temos são os dados a nossa disposição, senhor — disse Spock.

— Você tem tanta certeza disso, afinal de... — ia dizendo McCoy, quando o intercom tocou.

— Capitão Kirk — chamou a voz melodiosa de Uhura.

— Prossiga, tenente — Kirk estava sentindo suas mãos suadas.

— Consegui captar a nave romulana. Ainda não está visível, mas estou pegando vozes.

Até McCoy correu com eles para a ponte, onde, através do painel central de comunicações, era possível ouvir um estranha e abafada conversação, interrompida a todo momento por estática. Em seu todo, era completamente ininteligível. As vozes soavam dissonantes e muito pouco humanas; mas isso poderia ser apenas a sensação de estranheza causada pelo som de uma linguagem desconhecida.

A oficial de comunicações estava concentrada em seus instrumentos. Suas finas mãos estavam pousadas delicadamente sobre os controles, acompanhando o ir e vir das vozes, tentando manter a transmissão estável. Junto a ela, um gravador registrava a confusa conversação para que pudesse ser, mais tarde, analisada.

— Isso parece estar vindo do sistema de comunicações internas deles. É um sinal fraco, com alta impedância e modulação pulsada. Vale a pena checar que tipo de campo veicula esse sinal, que tipo de espectro de filtragem mostra... oh, droga... não, localizei de novo. Scotty, é você que está respirando bem no meu pescoço?

— Claro que sim, minha querida. Precisa de alguma ajuda?

— Coloque o computador para trabalhar nesse padrão de onda para mim. Meus pulsos já estão doendo. Se pudermos detectá-la, talvez consigamos uma imagem.

Os dedos de Scott já manipulavam os botões do computador. Um pouco depois, o volume da conversação estabilizou-se, e Uhura recostou-se em sua cadeira, sacudindo seus dedos doloridos no ar. Mesmo assim, ela não parecia estar mais relaxada.

— Tenente — disse Kirk. —Você acha que pode mesmo conseguir captar alguma imagem com essa transmissão.

— Não sei por que não — disse ela, inclinando para frente de novo. — Com um pouco de sorte, um sinal dessa intensidade é como marcar o caminho com pedrinhas. Eles podem ficar invisíveis, mas deixam um monte de rastros. Bom, pelo menos vamos tentar...

Mas nada estava acontecendo. Stiles aproximou-se silenciosamente e assumiu o computador de Scott, sempre observando Spock com cuidado. Spock aparentemente não notara sua atitude.

— Tudo isso é muito engraçado — disse McCoy, quase que para si mesmo. — Esse pessoal estava atrasado um século em relação a nós, bem quando o despachamos de novo para a casa deles. Mas agora a nave deles é tão boa quanto a nossa. Até parece com a nossa. E aquela arma...

Fique quieto um minuto, por favor, dr. McCoy — pediu Uhura. — Estou começando a pegar algo.

— Sulu — disse Kirk.

— Alguma mudança no curso deles?

— Nenhuma, senhor. Ainda direto para casa.

— Que maravilha! — vibrou Uhura. — Aqui está!

A tela principal iluminou-se. Evidentemente, pensou Kirk, a imagem estava sendo captada de algum tipo de monitor instalado a bordo da sala de controle da nave romulana. Isso era estranho; embora a Enterprise tivesse monitores espalhados por toda a nave, não existia um na ponte, afinal, quem iria querer vigiar o capitão?

Três romulanos estavam visíveis na tela e pareciam concentrados em seus equipamentos, com as luzes emitidas ocultando suas faces. Eles também pareciam mais ou menos humanos; homens magros, faces morenas, vestidos em uniforme militar, cheio de emblemas. O severo tom avermelhado das anteparas pareciam acentuar a impassividade do ambiente. Todos usavam um pesado capacete.

Mais ao fundo, estava um homem que parecia ser o oficial comandante, também ocupado com instrumentos. Comparado com a ponte da Enterprise, essa sala de controle parecia bem apertada. Grandes conduítes podiam ser vistos acima de suas cabeças, e estavam até mesmo ao alcance das mãos.

Tudo isso, contudo, foi notado num instante e imediatamente ignorado. A atenção de Kirk estava toda voltada para o comandante. Seu uniforme era branco e estranhamente menos condecorado que o de seus oficiais. E, ainda mais importante, não usava capacete. Além do mais, do ângulo em que estava, o que se podia ver pelo formato de suas orelhas é que elas eram afiadas até mesmo para os padrões do sr. Spock.

Sem tirar os olhos da tela, Kirk podia sentir todos na ponte olharem para o meio-vulcano. Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelo vibrar dos motores e as palavras romulanas ao fundo. Foi quando Stiles falou algo, aparentemente para si mesmo.

— Já vi tudo. Eles conseguiram o design de nossas naves através de espiões. Eles podem se passar por nós... ou por alguns de nós.

Kirk fingiu não ter prestado atenção na observação. Talvez fosse apenas um comentário de desabafo do navegador, mas, no momento, Kirk não estava com tempo para pensar nisso.

— Tenente Uhura, quero os computadores de lingüística e criptografia trabalhando em cima dessa linguagem. Se pudermos decodificá-la...

Stiles voltou a resmungar, ainda de forma não muito compreensível, mas tão alto quanto antes. Dessa vez, não era possível ignorar.

—Não ouvi direito, sr. Stiles — disse Kirk.

— Estava falando comigo mesmo, senhor.

— Faça-o em voz alta. Eu também quero ouvir.

— Não foi intencional...

— Repita — ordenou Kirk, enfatizando cada sílaba da palavra. Todos estavam observando Kirk e Stiles, menos Spock, embora a cena exibida pela tela já não despertasse tanto interesse nem mesmo para o vulcano.

— Certo — disse Stiles. —Estava apenas pensando que o sr. Spock provavelmente poderia fazer a tradução muito mais rápido do que os computadores. Afinal de contas, é gente dele. É só olhar para ver isso. Nós todos podemos ver isso.

— Isso é uma acusação?

Stiles respirou profundamente. — Não, senhor. É apenas uma observação. Não pretendia torná-la pública e, se não for de utilidade, eu a retirarei. Mas acho que é o tipo de observação que todos aqui estavam fazendo em silêncio.

— Suas desculpas não me satisfazem. Contudo, desde que a questão foi levantada, vamos analisá-la. Sr. Spock, o senhor entende a linguagem que essas pessoas estão falando? Apesar de não aprovar as acusações do sr. Stiles, existe realmente uma semelhança étnica entre os romulanos e o senhor. Isso tem significado?

—Não duvido que tenha — disse Spock, prontamente. — A maioria dos povos nessa parte do espaço parecem ter a mesma origem. Essa observação não é nova. Contudo, Vulcano teve muito mais contato com a Terra do que com os romulanos, historicamente falando; e eu não entendo a linguagem. Existe uma semelhança de elementos que sugerem raízes em comum com a minha língua natal, tanto quanto o inglês tem a ver com o grego. Isso não ajudaria a entender o grego em sua base, embora ajudaria a descobrir algo sobre o idioma, com o devido tempo. Eu gostaria de tentar, mas não acredito que conseguiria num tempo útil para nos ajudar a sair do atual problema.

No breve silêncio que se seguiu, Kirk percebeu que o burburinho da ponte havia cessado. Um segundo depois, a imagem da ponte romulana havia desaparecido também.

— Eles bloquearam o sinal — informou Uhura. — Não temos idéia se eles sabiam que nós o estávamos interceptando.

— Continue monitorando e deixe-me saber no momento em que você captá-lo de novo. Faça uma cópia do teipe para o sr. Spock. Dr. McCoy, sr. Scott, por favor, venham comigo a meu alojamento. Todos os demais, permaneçam em alerta até tudo isso acabar, de uma forma ou de outra.

Kirk levantou-se e, quando parecia estar tomando a direção do elevador, parou e virou-se para Stiles.

— Quanto ao senhor, sr. Stiles: sua sugestão foi realmente útil. No momento, contudo, eu a considero extremamente preconceituosa, um sentimento que é melhor ser guardado para si mesmo. Se o senhor tiver uma outra opinião, deixe-me saber antes de divulgá-la na ponte. Eu me fiz entender?

Completamente branco, Stiles confirmou em voz baixa.

Em seu alojamento, Kirk colocou os pés sobre a mesa olhou para seu médico e seu engenheiro com ar tenso. — Com se já não tivéssemos problemas suficientes. Spock tem uma mania engraçada: ele coloca todo mundo de cabelo em pé e age como se nada estivesse acontecendo... e essa... coincidência... se deu numa hora muito inadequada.

— Se for coincidência, é claro — observou McCoy.

—Acho que é, Magro. Eu confio em Spock; é um bom oficial. Seu modo de ser é diferente para os nossos padrões, mas também não aprovo o comportamento de Stiles. Mas vamos deixar isso um pouco de lado. Quero saber o que fazer. Os romulanos estão se afastando. Eles entrarão na Zona Neutra em poucas horas. Continuamos em seu encalço?

— Como sabe muito bem, você tem uma guerra em suas mãos. Talvez uma guerra civil.

— Exatamente. Por outro lado, já perdemos três postos de satélites. Isso significa sessenta vidas, além de todo o equipamento... Vocês sabiam que estudei com Hansen? Bem, não importa. Scotty, o que você acha?

— Não quero ignorar sessenta vidas perdidas, mas temos quase quatrocentas a bordo da Enterprise, e também não podemos ignorar isso. Não temos defesa contra aquela arma romulana... e os feisers não podem atingir um alvo que não podemos ver. Talvez seja melhor apenas deixá-los voltar pela Zona Neutra, preencher um registro de queixa com a Federação e esperar por uma frota para tomar conta de tudo. Isso nos daria mais tempo para analisar a tecnologia deles.

— E o idioma e as imagens registradas — acrescentou McCoy. — São coisas valiosas, únicas... e tudo ficaria perdido se entrassem num conflito e perdêssemos.

— Muito prudente e muito lógico — admitiu Kirk. — Mas não concordo com uma palavra disso tudo, embora elas devam ficar muito bem no diário. Algo mais?

— Do que mais você precisa? — perguntou McCoy. — Ou isso faz sentido ou não faz. Espero não ter de tomar a decisão do serviço sujo por você, Jim.

— Você sabe que é mais do que isso. Eu disse que estudei com Hansen; e tinha dois jovens oficiais a bordo prestes a se casar quando os alarmes dispararam. A glória não me interessa, nem os registros oficiais. Eu quero evitar essa guerra. É a única coisa que me interessa no momento. A pergunta é: como?

Olhou pensativo para o chão. — Essa aparição dos romulanos é claramente um teste de força. Eles têm duas armas. Eles saem da Zona Neutra e desafiam uma nave estelar com elas... com uma demonstração de destruição que garanta que nós não ignoremos o desafio. É também um teste para nossa determinação. Eles querem saber se nós amolecemos desde que os derrotamos no passado. Vamos permitir que nossa gente e nossas propriedades sejam destruídas apenas porque as probabilidades parecem estar contra nós? Quanto tempo de paz os romulanos vão nos dar se optarmos pela segurança agora... especialmente se nós os deixar voltar pela Zona Neutra, que foi violada por eles? Não vejo muito futuro nisso, para nós, para a Terra, para a Federação... ou mesmo para os romulanos. Essa é a hora de aprender a lição.

— O senhor pode estar certo — disse Scott. — Nunca pensei que diria isso, mas estou aliviado que a decisão não dependa de mim.

— Magro?


— Vamos ver. Tenho uma outra sugestão. Talvez melhorasse o moral da tripulação se você casasse aqueles dois meninos da sala de armas.

— Você acha que essa é a melhor hora para isso?

— Não sei se vai haver uma hora melhor. Mas se está preocupado com sua tripulação... e eu sei o quanto você se preocupa... é a hora certa para demonstrar isso. Um ato de amor à véspera de uma batalha. Espero não deixá-lo sem jeito.

— Deixou, doutor, — disse Kirk, sorrindo — mas você está certo. Vou fazer isso. Mas terá de ser algo rápido.

— Nada dura para sempre — disse McCoy, enigmaticamente.

Na ponte, nada parecia ter acontecido. Não demorou muito para Kirk perceber que a discussão na sala de reuniões só havia durado uns dez minutos. A nave romulana, detectável agora apenas pelas ondas De Broglie, aparentemente continuava em direção à Zona Neutra, mas não a grande velocidade.

— É possível que os sensores deles não tenham nos captado através da tela

— disse Spock.

— Ou então estão nos levando para algum tipo de armadilha — observou Kirk.

— De qualquer modo, não podemos entrar de cara numa batalha com eles. Precisamos ganhar tempo... precisamos de algo que distraia a atenção deles. Encontre uma distração, sr. Spock.

— De preferência, não letal — acrescentou Stiles, o que foi ouvido por Sulu, a seu lado.

— Você está tão errado quanto a Spock — observou o piloto. — Está preenchendo sua cota de erros pelo resto de sua vida.

— Um de nós já fez isso — disse Stiles, inflexível.

— Parem com isso — ordenou Kirk, ao ouvir a conversa em voz baixa. — Firme no curso, sr. Sulu. O próximo compromisso em nossa agenda é um casamento.



— De acordo com as leis espaciais, hoje estamos aqui reunidos no propósito de unir essa mulher, Ângela Martine, e esse homem, Robert Tomlinson, pelos sagrados laços do matrimônio...

Dessa vez não houve interrupções. Kirk fechou seu livro e olhou para os noivos.

—... e, pelos poderes a mim investidos como capitão da USS Enterprise, eu os declaro casados.

O capitão assentiu para Tomlinson, que só então lembrou-se de beijar a noiva. Em meio ao costumeiro burburinho, apesar das poucas pessoas presentes, a ordenança Rand deu um beijo no rosto de Ângela; McCoy apertou a mão de Tomlinson, e deu um tapinha em seu ombro, já preparado para beijar a noiva, mas Kirk o impediu.

— Privilégio do capitão, Magro.

Mas Kirk sequer teve chance de fazê-lo; a voz de Spock o chamou através do intercom.

— Capitão, acho que encontrei a distração que o senhor queria.

— Tem dias — disse Kirk, suspirando — que nada nessa nave parece ter fim. Estou a caminho, sr. Spock.

A distração de Spock era o cometa que havia sido detectado horas antes, e que agora estava mais próximo do sol de Rômulo-Remo, já exibindo sua cauda. Spock o tinha encontrado relacionado no efemérides e, depois de checar seus elementos no computador, descobriu que cruzaria entre a Enteprise e os romulanos em 440 segundos, não diretamente entre eles, mas próximo o bastante para seus objetivos.

— Vamos usá-lo — decidiu Kirk. — Sr. Sulu, estaremos em aceleração total no momento da interposição. Scotty, avise à sala de armas que queremos uma salva bem no alvo; vamos fazer aproximação apenas por sensor, e, com aquele pedaço de gelo bem no caminho, teremos alguma dispersão.

— Além disso, a esse alcance, podemos acertar pelo menos um disparo — disse Scott.

— Um minuto para a aproximação — avisou Spock.

— Suponham que o disparo não os atinjam — disse Stiles.

— É uma possibilidade. Mas não podemos fazer nada a respeito — concluiu Kirk.

— Trinta segundos... vinte... quinze... dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um, zero.

As luzes ficaram fracas à medida que a nave seguia em frente e, ao mesmo tempo, a bobina de feisers exigiam drenagem total. O cometa crescia na tela.

— Muito bem, sr. Tomlinson... Fogo!

Os motores da Enterprise vibraram com potência. Um instante depois, as luzes voltaram a sua intensidade normal e os ruídos pararam. Os feisers também silenciaram.

— Sobrecarga — informou Spock, friamente. — A bobina principal está queimada — continuou, já checando os circuitos do painel avariado. Depois de um segundo de hesitação, Stiles foi ajudá-lo.

— Capitão — chamou

Sulu. — A nave deles... está aparecendo. Acho que acertamos o tiro... sim, acertamos!

— Ainda não é o bastante — disse Kirk, lentamente, desconfiando do significado real da ação romulana. — Força de ré, a toda! Ação evasiva!

Mas o inimigo foi mais rápido. Na tela, o radiante torpedo, igual ao que havia destruído o posto de satélite 4023, estava cada vez mais próximo da Enterprise e, dessa vez, ninguém tinha dúvidas de que a nave era o alvo.

— Nada bom — disse Sulu — Dois minutos para o impacto.

— Ordenança Rand, ejete nossos registros em noventa segundos.

— Esperem — cortou Sulu. — O disparo está mudando de formato...

Era certo: o torpedo resplandecente parecia oscilar, enfraquecer. Partes dele começavam fragmentar em línguas de energia azul e seu brilho diminuía. Se ele tivesse um limite de alcance...

O clarão desapareceu da tela. A nave sofreu um forte solavanco. Várias tripulantes caíram, inclusive Spock, que conseguiu esquivar-se de fazê-lo sobre o painel aberto e completamente avariado.

— Scott, relatório de danos!

— Um compartimento de carga rompeu. Pequenas avarias generalizadas. Bateria feiser principal ainda inoperante, até a bobina ser substituída.

— Acredito que os inimigos se saíram pior, senhor — disse Uhura. — Estou captando sinais de destroços a nossa frente. Conduítes... peças fundidas... e também sinais que podem ser o de um corpo.

Houve uma manifestação de satisfação na ponte, o que foi contido com um gesto ríspido de Kirk. — Manter desaceleração. Evidentemente eles precisam manter o escudo de invisibilidade baixado para poder ativar as armas... e o escudo ainda está desativado.

— Não, eles estão erguendo de novo, capitão — informou Sulu. — As últimas leituras Doppler mostram que eles também desaceleraram... Agora se foram de novo.

— Alguma comunicação, Uhura?

— Nada, senhor. Nem mesmo as ondas De Broglies. Acho que o cometa agora está trabalhando contra nós.

E agora, o que isso significa? Lutar contra um inimigo desconhecido já era ruim o bastante, mas quando o inimigo pode ficar invisível quando bem entende... E se aquela nave inimiga voltasse para casa com tantos dados sobre a inferioridade da Federação, não iria demorar muito para se ouvir falar novamente dos romulanos, passando aos milhares pela Zona Neutra, prontos para matar. Aquela nave tinha de ser detida.

— A tática deles faz sentido, à primeira vista — disse Kirk, pensativamente. — Eles nos provocaram com um ataque contra três alvos relativamente indefesos, retiraram-se através da Zona para esgotar nossa força, então fizeram um ataque frontal e voltaram a sumir. Está claro que os romulanos jogam uma espécie de xadrez. Se eu fosse eles, o próximo movimento seria atravessar a Zona de novo. Se fizessem isso, eles estariam em meio ao nosso rastro de ionização, bem atrás de nós... com reforços esperando à nossa frente.

— E os destroços, senhor? — perguntou Uhura.

— Eles os ejetaram para nos confundir... um velho truque, bem ao estilo da guerra com antigos submarinos. Da próxima vez, eles são capazes de ejetar uma ogiva nuclear para tentar nos enganar. Tenente Sulu, quero uma virada de 180 graus para colocar a bateria feiser principal alinhada diretamente à ré. Sr. Spock, não podemos esperar pela substituição da bobina principal, por isso vá à sala de feiser e direcione os disparos manualmente. Sr. Stiles, vá com ele e dê uma ajuda. Dispare ao meu comando, assim que a manobra for concluída. Entendido?

Todos concordaram, mas Stiles mostrou-se um pouco relutante. Kirk observou os dois oficiais por um breve instante. Apesar de sua confiança em Spock, as suspeitas levantadas por Stiles o tinham influenciado um pouco, mas apenas um pouco. Essa, no entanto, não era a hora para pensar nisso. Exibido pela tela, o espaço deixado para trás e marcado pelo rastro de ionização da nave parecia tão vazio quanto o que o espaço à frente, tomado pelos gases da agora diminuta cauda do cometa.

Então, pela terceira vez, a nave romulana começou a materializar-se, justamente onde Kirk suspeitou que isso aconteceria — e não havia nada que pudesse fazer ainda. A ponte estava mergulhada em silêncio mortal. Com os punhos cerrados, Kirk observava a infinita lentidão com que a nave inimiga começava a tomar forma...

— Agora, Spock Fogo!

Mas nada aconteceu. A suspeita que pairava no ar em relação a sabotagem interna agora parecia ser confirmada. Com um gesto brusco, Kirk acionou o monitor na sala de armas.

Por um momento, não conseguiu distinguir as imagens exibidas. A tela parecia tomada de um denso vapor esverdeado. Apesar de tudo muito nebuloso, Kirk pode ver duas figuras estendidas no chão, próximas ao painel de controle. Então Stiles entrou no campo de visão, com a mão tapando o nariz e a boca. Tentava alcançar o console, mas seus pulmões estavam sendo tomados pelo gás verde. De repente, apertou sua garganta e caiu ao chão.

— Scotty! O que está aconte...

— Fluído refrigerante — disse Scott — O lacre deve ter rompido... olhe, lá está Spock...

Era Spock que estava em foco agora, arrastando-se sobre as mãos e os joelhos para alcançar os painéis. Kirk só então se deu conta de que os corpos caídos no chão eram de Tomlinson e um de seus colegas, ambos mortos desde que o lacre havia rompido, provavelmente quando a nave romulana atingira a Enterprise. Na tela principal, outro disparo de energia romulano dirigia-se de novo de encontro a eles, com uma inexorável fúria. Tudo parecia mover-se com uma lentidão sobrenatural.

Então Spock, com muito esforço, alcançou os controles, colocando-se ajoelhado para manipular os instrumentos. Apertou o botão de disparar duas vezes, já no fim de sua resistência, e, em seguida, caiu de vez.

As luzes bruxulearam. A nave romulana explodiu.



A bordo da Enteprise, foram três os mortos: Tomlinson, seu assistente direto e Stiles. Ângela tinha escapado, pois não estava na sala de armas quando o gás se propagara. Ela estava viva — esposa por meio dia, viúva para o resto de seus dias. Impassível, Kirk concluiu o registro de seu diário.

A Segunda Guerra Romulana havia acabado. E não importavam os mortos; oficialmente, a guerra jamais começara.



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