Star Trek episódios da série clássica tradução de Cristina Nastasi



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Sobre o episódio
O episódio O Equilíbrio do Terror foi concebido basicamente como um "filme de guerra" no espaço, com uma "embarcação de superfície" (a Enterprise) enfrentando o "submarino inimigo" (a nave romulana invisível). Com esse pano de fundo, temas tradicionais como preconceito, medo, responsabilidade de comando e nobreza de intenções ajustaram-se ao objetivo do seriado discutir o temor diante do que não se conhece (mesmo quando se trabalha ao lado dele, como é o caso da atitude hostil de Stiles em relação a Spock), do conceito relativo do que é certo ou errado, dependendo do ponto de vista (ou do lado em que se está numa batalha) e o porquê da necessidade da guerra.

Nesse episódio, os romulanos são introduzidos de uma maneira magnífica, através da sensível interpretação do ator Mark Lenard (que mais tarde viria a ser Sarek, o pai de Spock). Lenard deu vida a um comandante romulano tão digno quanto seu oponente e teórico herói da história, James Kirk. Essa imagem de inimigos dignos e com motivos justificáveis sempre foi uma tônica dos vilões de Star Trek pois não são elementos apenas "maus" e sim donos de uma "outra versão" dos fatos. Como descendentes diretos dos vulcanos, os romulanos, embora fiéis a sua origem guerreira, também têm sua cota de lógica. Por isso representam uma das raças mais interessantes do universo criado pelo seriado, pois sempre foi representada com muita dignidade, com elementos, inclusive, calcados na cultura romana (mais tarde, foi explicado que romulano era o nome "fantasia" dado pelos terráqueos ao povo que se autodesignava Rhiansu). Essa característica marcada pela dignidade foi deixada de lado nos romulanos da Nova Geração, onde acabaram enquadrados ao estereótipo do vilão que faz de tudo para destruir a Federação.

A adaptação de James Blish pouco tem a ver com o que foi exibido na tevê, pois dá ênfase apenas ao dilema enfrentado por Kirk, alijando da história a figura carismática de seu oponente. Tudo que nos é narrado é a presença ameaçadora de uma nave inimiga. É provavelmente uma das primeiras adaptações feitas pelo autor, pois seus desconhecimento inicial da série fica evidente numa passagem em que o sr. Spock é tratado de maneira preconceituosa e inconcebível por parte de seus companheiros.



E as meninas, de que são feitas?

Título da adaptação: What the little girl made of?

Título do episódio: What the little girl made of?

Título em português:

As Meninas (primeira versão)

E as meninas, de que são feitas? (segunda versão)
Data da primeira exibição; 20-10-66

Data estelar: 2712.4


História de Robert Bloch

Direção de James Goldstone


Atores convidados:

Dr. Roger Korby: Michael Strong

Andréa: Sherry Jackson

Ruk: Ted Cassidy

Dr. Brown: Harry Basch

E as meninas, de que são feitas?

H eficiência demonstrada pela tripulação da ponte da Enterprise naquele dia era um verdadeiro tributo a seu profissionalismo. E, em meio a isso, um drama humano estava para chegar a seu clímax, à medida que a nave se aproximava do planeta Exo III.

A heroína do drama em questão era a enfermeira-chefe Christine Chapel. Parada junto à cadeira do capitão, seus olhos estavam fixos na tela principal, onde o planeta coberto de gelo fazia sua rotação. Impressionado o esforço que ela estava fazendo para manter a calma, Kirk avisou: — Estamos entrando em órbita padrão, enfermeira.

O rosto de Christine refletia toda sua ansiedade. — Sei que ele está vivo lá embaixo, capitão.

— Cinco anos se passaram desde a última mensagem enviada — Kirk achava mais justo deixar esse fato bem claro para que uma mulher tão corajosa e devotada não se enchesse de vãs esperanças. Mas sua resposta foi cheia de certeza: — Eu sei, senhor. Mas Roger é um homem muito determinado. Descobriria um meio de sobreviver.

—Transmitindo sinais para a superfície, capitão — informou Uhura, em seu painel de comunicações.

—Transmita em todas freqüências, tenente — Kirk levantou-se e checou a tela do computador biblioteca.

Spock, concentrado, informou: — Os bancos de dados mostram apenas o que já sabemos. A gravidade do planeta é um ponto um da Terra. Atmosfera dentro dos limites de segurança.

— Mas a temperatura da superfície está por volta dos cem graus abaixo de zero — ressaltou Kirk.

Spock também estava interessado na mulher que, pacientemente, esperava pelo momento da verdade. O vulcano parecia ter intencionalmente reduzido o volume de sua voz. — O planeta parece já ter sido habitado, mas o sol nesse sistema já está se extinguindo há meio milhão de anos — Apertou um botão. — Quanto ao dr. Korby, o objeto de nossa busca, capitão...

Na tela do computador surgiu a imagem fotográfica de um homem de aparência distinta, em seus quarenta e tantos anos. Embaixo havia uma legenda, que Spock leu para todos ouvirem. — Dr. Roger Korby, freqüentemente chamado de “Pasteur da medicina arqueológica". Sua tradução dos registros médicos encontrados nas ruínas de Órion revolucionaram as técnicas imunológicas...

— Esses registros são leitura obrigatória na Academia, sr. Spock. Sempre quis conhecê-lo — Kirk fez uma pausa. Depois prosseguiu, em voz baixa: — Existe alguma chance de que esteja vivo?

Compenetrado, Spock negou com a cabeça e deletou a foto da tela. Uhura, como corroborando a opinião negativa do vulcano, avisou: — Sem resposta aos sinais, capitão. Em nenhuma freqüência.

—Tente mais uma vez, tenente — Kirk voltou-se para a mulher que estava à espera. — Na última mensagem, Roger falava na descoberta de cavernas subterrâneas... — observou Christine.

A informação da enfermeira traduzia sua esperança; de que Roger Korby estava em cavernas tão profundas que nenhum sinal poderia alcançar; de que estava à salvo, ainda vivo. Kirk, lembrando-se de como viver de esperança é algo torturante, disse, gentilmente: — Christine, desde o último sinal duas expedições falharam em tentar encontrá-lo.

— Transmiti em todas as freqüências duas vezes, capitão. Não conse... — Uhura não pode concluir seu segundo informe, pois um forte som de estática invadiu todos os transmissores da ponte e durou até que uma voz masculina, forte e ressonante se pronunciasse:

— Aqui é Roger Korby. Responda, Enteprise. Repetindo, aqui é o dr. Roger Korby...

Christine sentiu-se desfalecer. Procurando apoio na cadeira do capitão, sussurrou:

— Essa é... a voz dele...

— Está ouvindo, Enterprise? Aqui é o dr. Roger Korby, à espera...

Kirk correu ao transmissor. — Enterprise para o dr. Korby. Localizamos suas coordenadas. Prepare-se para receber uma equipe de resgate — Sorriu para Christine. —Talvez o interesse saber que nós temos a bordo...

Korby o interrompeu:

— Tenho um pedido incomum a fazer, capitão. Poderia descer sozinho, apenas o senhor? Fizemos descobertas de tal natureza que sou obrigado a pedir esse favor ao senhor.

Surpreso, Kirk preferiu manter silêncio. Spock aproximou-se, também incerto entre o respeito que sentia por um grande cientista e a estranheza em relação a um pedido sem precedentes. Erguendo sua sobrancelha, comentou: — No mínimo é curioso...

— O homem que está pedindo isso é Roger Korby — disse Kirk.

— Tem certeza de que reconhece a voz?— perguntou Spock à enfermeira.

Ela riu de pura alegria.

— Já esteve noivo para casar, sr. Spock? Sim, é Roger.

Kirk tomou sua decisão e apertou o botão. — Certo, doutor. No entanto, serão dois a descer.

O capitão consentiu com o olhar e Christine aproximou-se do transmissor.

— Olá, Roger.

Houve uma longa pausa. Então uma voz incrédula se fez ouvir. — Christine...

— Sim, Roger. Estou aqui.

— Querida, como... o que você... — a voz traduzia vivo entusiasmo — Sim, mas é claro, peça ao capitão Kirk para trazê-la com ele! Eu não fazia idéia, não tinha a menor esperança... Querida, você está bem? É bom demais para ser verdade...

— Sim, Roger... Está tudo bem. Agora está tudo bem.

A tensão e ansiedade que dominavam a ponte cederam espaço para uma satisfação compartilhada a dois. Kirk, também satisfeito, voltou a falar: — Estamos a caminho, doutor. Estaremos com o senhor em breve, nós dois. Kirk desliga.

O capitão tomou a direção do elevador, seguido pela radiante Christine Chapel.



Eles materializaram-se numa caverna rochosa, primitiva e completamente vazia. Além de sua entrada, estendia-se a imensidão de um mundo de gelo; um mundo tão pálido quanto a morte, sob um céu escuro e tenebroso. Seu horizonte era entrecortado por montanhas e, por entre elas, via-se o crepúsculo de um sol em extinção. Tudo o que Kirk podia ver é que estavam cercados por gelo, frio e desolação. Era um tipo de chegada muito deprimente.

— Ele disse que estaria esperando por nós — disse Christine.

Kirk também achou a ausência estranha e penetrou um pouco mais na caverna para investigar. Christine, tocando uma das paredes, recolheu os dedos enregelados. Kirk, juntando suas mãos em concha e próximas à boca, gritou para a escuridão:

— Doutor Korby! Korby!

Os ecos reverberavam indicando a longa extensão do interior da caverna. Kirk, de repente, foi tomado de grande preocupação. — É possível que estejamos na entrada errada da caverna.

A suposição era falha. As coordenadas haviam sido checadas com Korby na sala de transporte. E Spock estava certo, o pedido de Korby era estranho. Kirk pegou o comunicador em seu cinto. — Capitão para a Enterprise.

— Spock falando, senhor.

— Mande descer dois seguranças.

— Algum problema, capitão?

— Um certo atraso no encontro, sr. Spock. Provavelmente não é nada. Kirk desliga — Fez um gesto para Christine juntar-se a ele e deixar espaço para o teletransporte dos seguranças. — Para chegar até aqui deve levar mais tempo do que o doutor calculou — disse à enfermeira. — Os corredores desse lugar são mais longos do que parecem.

— Obrigada, capitão, por tentar me acalmar.

Kirk também sentiu-se mais aliviado quando os tripulantes Matthews e Rayburn materializaram-se. Spock providenciou que ambos estivessem bem armados. — Mantenham posição aqui, nessa caverna, Rayburn — voltou-se para Matthews e acrescentou: — A enfermeira Chapel e eu vamos investigar um pouco mais. Você vem conosco.

Tateando as paredes, os três encontraram uma passagem estreita que os levou para uma outra galeria. Os ecos davam indícios do que a escuridão reinante não permitia saber. A passagem dividia-se em várias direções.

A iluminação era ainda mais fraca. De repente, Kirk deteve-se. — Parem aqui — disse, impedindo os outros de prosseguir. Agachou-se, pegou uma pedra e a jogou para frente, para o que julgava existir a sua frente - um abismo. Eles puderam ouvir a pedra batendo contra as paredes do precipício. Fez-se um silêncio absoluto. Christine agarrou o braço de Kirk quando um facho de luz, subitamente, os iluminou, cegando-os. Kirk pegou seu feiser e com a outra mão tentou proteger os olhos. Foi quando uma figura parou a sua frente, em meio às sombras.

— Roger! — Christine teve ímpetos de correr, mas Kirk a conteve.

— Cuidado! O buraco...

A figura misteriosa aproximou-se do que parecia ser um interruptor. O facho de luz cedeu lugar a uma iluminação fraca, que revelou a face bem comum de um homem de meia-idade. Christine era um misto de surpresa e desapontamento. Não era Korby. Kirk preparou seu feiser, mas ela logo pareceu tranqüilizar-se.

— Ora, é o dr. Brown! É o assistente de Roger! — exclamou, correndo em direção do homem. — Brownie, onde está Roger? Por que ele... — ela não pode concluir a pergunta, interrompida pelo grito de Matthews.

O som de desespero morreu nas profundezas do precipício. Depois, apenas o barulho das pedras deslocadas por Matthews em seu passo em falso.

Estarrecido, Kirk forçou-se a sair do estado de choque e ajoelhou-se perigosamente na beirada do abismo. As pedras continuavam a cair escuridão abaixo. — Cuidado... por favor, cuidado — disse Brown, aproximando-se.

Kirk ergueu-se. — Existe algum caminho para baixo?

— Não há esperança, capitão. O abismo é sem fundo.

Doutor Brown alertara sobre o perigo do precipício, mas não mencionara o aparecimento momentâneo de uma enorme e inumana criatura escondida pelas sombras na beirada oposta do abismo. Assim como surgiu, envolto pela escuridão, a monstruosa sombra desapareceu. Se dr. Brown a viu, era impossível dizer; apenas comentou, solidário: — Seu homem deve ter escorregado...

— Existe alguma chance de haver uma saliência onde se agarrar?

— Nenhuma, capitão. Nós também perdemos um homem dessa forma. Ouça...

— Ele pegou uma pequena rocha e a jogou dentro do abismo. A pedra caiu, batendo nas paredes, e, então, veio o silêncio.

— Que tristeza — continuou Brown. — É uma pena. O dr. Korby estava ocupado. Eu vim tão rápido pude.

— Não o bastante — emendou Kirk.

Kirk observou Brown vestido com seu uniforme surrado e sua incrível postura neutra diante da morte, como se tivesse convivido com ela nos últimos cinco anos. Sua voz parecia pesarosa, mas sua atitude era fria, desprovida de qualquer sentimento. Kirk podia ver que Christine, embora chorando, também havia sentido algo de estranho na atitude de Brown.

A enfermeira enxugou sua lágrimas com a manga do uniforme. — Brownie, você não me reconhece? — perguntou, subitamente.

— Explique — pediu Brown.

— Você não me reconheceu.

— Christine, você está ótima — disse, então voltando-se para Kirk. — Meu nome é Brown. Eu sou o assistente do dr. Korby. Eu presumo que seja o capitão Kirk.

Havia algo muito errado. Christine já o identificara como o assistente de Korby e o homem já havia se dirigido a Kirk como "capitão" diversas vezes. Por que somente agora ele "presumia" que ele era o capitão Kirk? A incerteza de Christine também era preocupante. Seus olhos e atitudes diziam que Brown era um antigo conhecido, mas algo de diferente em sua atual personalidade parecia incomodá-la. O tempo e a experiência costumam modificar as pessoas, mas...

Kirk estava de novo junto à beira do precipício. — Ele está morto, eu garanto — insistiu Brown. — Venham. O dr. Brown está esperando — Ele foi até o painel na parede e apertou alguns botões. As luzes acenderam-se ao longo do corredor. Kirk virou-se para Christine. — Você o conhece bem, não é? Esse Brown é o Brown que você conhece, não é?

Ela hesitou. — Eu acho... que tanto tempo aqui sozinho...

Kirk pegou novamente seu feiser e, em seguida, acionou o comunicador.

— Capitão Kirk para Rayburn.

— Tudo calmo por aqui, capitão. Algum problema aí, senhor?

— Perdemos Matthews. Parece ter sido um acidente.Avise a Enterprise para ter a postos um grupo de segurança.

— Sim, senhor.

— E informe ao sr. Spock que me comunicarei a intervalos de uma hora. Se você ou eu perdemos contato... ou se ele não conseguir nos achar... o grupo de segurança deve descer imediatamente.

Kirk ouviu o comunicador de Rayburn ser desligado. O que não pode ouvir foi o que aconteceu em seguida - o grito abafado de Rayburn, enquanto a monstruosa criatura das sombras o dominava com um braço em volta de seu pescoço.

— Por aqui, por favor

— disse Brown. — A iluminação a partir daqui é automática.

Foi uma longa caminhada. Brown parecia sentir a necessidade de ser o intérprete do trabalho de Korby.

— O doutor descobriu que os habitantes desse planeta foram forçados a viver nos subterrâneos quando o sol começou a perder o calor. Quando você era estudante dele, Christine, sempre o ouviu dizer que a liberdade de escolha é que alimenta o espírito humano, não é? A cultura de Exo EI prova essa teoria. Quando seu povo foi obrigado a trocar a luz pela escuridão, sua cultura também ficou sem escolha, mecanicista. O doutor descobriu elementos nessa cultura que vão revolucionar o universo quando forem revelados ao mundo.

O discurso, pensou Kirk, era um pouco pretensioso. Christine resolveu ser apenas educada: — Isso é fascinante.

— Achei que você se interessaria. Chegamos, capitão.

O lugar era um estúdio amplo e luxuoso. Suas paredes, embora de fossem de pedra pura, eram tão delicadamente polidas que só aumentavam seu esplendor. Um estilo moderno havia sido adaptado com sensibilidade às características da construção de uma raça tão antiga. Em seus cinco anos de vida subterrânea, Korby e sua equipe não pouparam esforços em tornar o lugar confortável. E muito bem equipado. O estúdio estava tomado de instrumentos científicos, ferramentas arqueológicas e uma infinidade de artefatos valiosos e muito valorizados por seus descobridores. Portas de aparência estranha conduziam a outras áreas ainda fechadas. Uma delas levava a uma sala de jantar completa, com mesas e cadeiras.

Uma outra porta estava aberta. Uma garota saiu dela, delgada, frágil, clara como o leite e cabelos negros como a noite. Possuía uma serena inocência em sua expressão e podia ser definida pela palavra "encantadora". Seus lábios ensaiaram um sorriso e seus dentes eram ainda mais lindos.

— Eu sou Andréa. Você deve ser Christine. Sempre achei seu nome lindo.

Christine estava visivelmente contrariada. Por mais inocência que a garota aparentasse, ela era, acima de tudo, uma mulher. E por que estava servindo de anfitriã para Korby era uma pergunta que a enfermeira, obviamente, estava fazendo a si mesma.

Andréa era ótima em seu serviço. Ofereceu seu mais gracioso sorriso a Kirk. — E você deve ser o capitão Kirk, da nave estelar Enterprise. Não sei nem como agradecer pelo fato de você ter trazido a noiva de Roger para ele.

Christine sentiu um profundo incômodo ao ouvi-la chamar Korby pelo primeiro nome. — Não lembro do dr. Korby mencionar uma "Andréa" como membro de sua equipe.

O sorriso de Andréa não desvaneceu. — Você é exatamente como Roger descreveu. É por isso que ele sente tanta falta de você.

Esse conhecimento das emoções íntimas de Korby deixaram Christine ainda mais perturbada. Kirk, consciente disse, tentou contornar a situação. — Onde está o dr. Korby?

— Aqui, capitão — Um homem de expressão forte, como a exibida pela fotografia vista a bordo da nave, emergiu de uma outra porta. Kirk não pode deixar de comparar essa chegada à encenação da entrada triunfal de um grande ator. Que Korby era o astro dessa peça, não havia dúvidas. Kirk, acostumado a comandar, melhor do que ninguém sabia reconhecer o carisma e a autoconfiança de outro comandante. Korby, com a mão estendida, disse: — Estava há muito tempo querendo encontrá-lo.

Kirk havia perdido um tripulante numa morte brutal e não gostava de Brown. Nem tinha muita simpatia por Andréa. Ignorando a mão estendida, simplesmente retribuiu o cumprimento: — Eu também, senhor.

— Roger... — murmurou Christine.

—Christine... querida...

Ela foi até ele, que pegou suas mão e começou a beijá-las. Kirk, ainda incomodado, percebeu que havia uma alegria sincera envolvendo o casal. Era um reencontro que resgatava duas relações: os laços intelectuais que ligavam aluno e professor e os laços do amor físico entre um homem e uma mulher. Dois amores que sobreviveram a tantos anos de separação.

Por mais cerimonioso que fosse seu abraço — um abraço contido pela presença de outras pessoas —, era visível que esse duplo reencontro era um sentimento real e muito forte.

Christine ergueu a cabeça do ombro de Korby e o fitou de forma embevecida. — Eu sabia que o encontraria.

Ele a afastou um pouco, e olhou para Kirk. — Perdoe—me, capitão. É um longo tempo.

— Não há por que se desculpar, senhor.

— O capitão perdeu um homem nas cavernas, doutor — informou Brown.

Kirk não teve como duvidar do horror que se apoderou do rosto de Korby. Ele largou de Christine e voltou—se para Brown. —O que? Como isso aconteceu?

— O abismo perto da junção exterior. A beirada é escorregadia.

Visivelmente abalado, Korby ficou silencioso por um instante. — Capitão, o que posso dizer? Eu deveria ter ido até lá. Conheço bem as passagens. Eu lamento... lamento muito.

— Não foi culpa sua, doutor — Kirk pegou seu comunicador. — Capitão a Rayburn... Rayburn, responda — disse e, enquanto esperava um retorno do segurança, explicou a Korby: — Tenho de chamar minha nave como medida de segurança. Se o senhor tem algum requerimento, necessidade em específico, ficarei feliz em...

— Capitão — interrompeu Korby, subitamente agitado. — Eu preferia...

Foi a vez de Kirk interromper, falando alto no comunicador. — Kirk a Rayburn. Rayburn, você está me ouvindo?

O capitão ajustou seu comunicador e tentou novo contato. Então esperou um momento. —Outro tripulante não está respondendo, doutor. Preciso contactar minha nave...

— Sem comunicações, capitão!

A ordem veio de Brown, que exibia nas mãos um velho rifle-feiser. Apontado contra o coração de Kirk.

Christine estava horrorizada. — Roger, o que...

— Desculpe-me, querida, mas se eles enviarem mais pessoas...

Kirk, perplexo com o que estava acontecendo, só depois de um segundo percebeu que Andréa estava tirando o comunicador de sua mão.

— Roger! — gritou Christine. — Esse homem... essa mulher... Por que você permite que...

— Seu capitão não será ferido — tranqüilizou ele. — Christine, ouça-me. Você tem de admitir a possibilidade de que, aqui, nesse planeta, existem coisas desconhecidas, mas de vital importância...

— Doutor Korby! — gritou Kirk. — Um homem meu morreu! Agora perdi contato com outro!

Pegue a arma dele, Andréa.

A garota começou a circular Kirk para alcançar o feiser preso ao cinto. Ele recuou e Brown apontou o rifle contra sua testa. — Doutor, tenho uma nave para comandar, homens com que me preocupar...

— Isso é necessário, capitão. O senhor vai compreender.

Ágil, Kirk puxou seu feiser e, ato contínuo, correu a proteger-se atrás de uma mesa. —Abaixe esse rifle! — gritou ele para Brown.

Ao invés disso, Brown engatilhou. Kirk, sem pensar duas vezes, disparou sua arma e Brown foi ao chão.

Christine gritou: — Capitão, atrás do senhor!

O aviso foi feito tardiamente. A monstruosa figura das sombras já agarrara Kirk por um braço e, com uma força inumana, o erguia no ar, fazendo o corpo do capitão contorcer-se de dor. O feiser caíra ao chão. Como um fantoche, Kirk balançou preso numa das gigantescas mãos, enquanto a outra o esmurrava em cheio no queixo. Christine gritou novamente. O capitão foi ao chão, semi-inconsciente.

Christine, paralisada pelo terror, olhava para todos os lados, como se procurasse por uma resposta para tantas coisas incompreensíveis. Foi quando viu Brown caído junto a Kirk, com a face virada para o lado. Não havia sangue no peito atingido pelo feiser. Ao invés disso, era possível ver um complexo entrelaçamento metálico de fios e circuitos... apropriados para dar vida a um andróide.

Kirk encontrou forças para mover seus olhos. E viu o que Christine tinha visto.



Spock não escondia sua ansiedade junto à estação de Uhura, na hora em que estava recebendo o sinal de Kirk.

— Freqüências abertas, senhor — disse ela, também aliviada.

— Spock falando, capitão.

— Contato com o dr. Korby estabelecido — disse a familiar voz.

— Estávamos preocupados, capitão. Seu contato estava atrasado. Também não recebemos sinais do grupo de segurança.

— Sem problemas, sr. Spock. Eles estão comigo. Nossa volta à nave está marcada para daqui a 48 horas. Os registros e espécimes do dr. Korby precisam ser cuidadosamente empacotados.

— Cuidaremos disso, senhor.

— Korby conta com uma excelente equipe para isso. O trabalho é apenas muito delicado.

— Capitão... tudo bem aí embaixo?

Nada estava bem.

Spock estranhou a falta de retorno de Kirk. O capitão da Enteprise estava sentado na cama de uma cela de detenção, observando sua voz sair da boca do gigante inumano. Seu comunicador havia sumido dentro da monstruosa mão da criatura. Korby supervisionava sua performance, mas não parecia estar se divertindo com ela. Kirk notou que havia um interesse real no rosto do cientista. Mas, real ou irreal, os sentimentos de Korby, seu trabalho, o homem em si, nada interessava mais a Kirk. Uma fúria incontrolável o fazia ignorar tudo, mesmo assim ocultou raiva primitiva sob a máscara de autocontrole de um capitão de nave estelar.

Kirk estava tenso. A criatura notou e, desligando o comunicador, mostrou-se preparada para qualquer reação.

Por favor, calma — pediu Korby. — Se você se mexer ou gritar, capitão, Ruk pode feri-lo. Pelo menos, espere até conversarmos.

O comunicador foi acionado de novo e Spock, ainda ansioso, falou: — Entendido, capitão. O senhor parece cansado.

Kirk ouviu a criatura mais uma vez emular sua voz com perfeição. — É apenas a emoção do que encontramos aqui, sr. Spock. As descobertas do dr. Korby são maravilhas científicas. Tudo sob controle. A postos para contatos regulares. Kirk desliga.

Ruk fechou o comunicador.

— Isso não é pura exibição, capitão. Conhece minha reputação. Confie em mim.

— Sim, conheço sua reputação. Toda a galáxia sabe quem você é e o que costumava significar.

— Há tanto o que aprender antes de você fazer um julgamento — olhou para Ruk e ordenou: — Agora faça a Andréa.

Os lábios da criatura voltaram a mover-se, suavemente: — E você deve ser o capitão Kirk, da nave estelar Enterprise.

Era apavorante ouvir o som de uma voz tão delicada e feminina saindo da boca de um ser tão grotesco. A aversão de Kirk nitidamente divertia a criatura e Ruk começou a se exibir.

Dessa vez era Korby quem falava. — Desculpe-me, capitão. É um longo tempo.

Depois foi a vez de Christine, a quem Ruk imitou com todos os detalhes emocionais. — Eu sabia que o encontraria.

—Já chega! — irritou-se Korby. — Não deboche de Christine! Não deve fazer mal a ela!

— Nem desobedecer as ordens dela — sugeriu Kirk.

Korby aceitou o desafio e repetiu para Ruk: — Nem desobedecerá as ordens dela. Satisfeito, capitão?

Korby aproximou-se de Kirk e sentou-se a seu lado, na cama. Ruk reagiu ameaçador, mas o médico o fez ficar em seu lugar. — Tudo o que peço são vinte e quatro horas para eu convencê-lo, capitão.

— Tenho de ser prisioneiro para ser convencido?

— Qual seria o seu primeiro dever ao voltar à nave? Fazer um relatório! Já pensou quantas descobertas vitais podem ser perdidas por causa da ignorância e das superstições dos leigos?

— Então faço uma pergunta de leigo ao senhor, doutor. Onde está meu outro tripulante?

— Ruk é programado para proteger minhas experiências. A lógica de sua mente mecânica viu perigo em...

Onde está meu outro tripulante?

A voz de Korby estava calma. — Ruk matou os dois, capitão. Mas totalmente contra a minha vontade, acredite.

Kirk cerrou os punhos. Mas tentou relaxá-los, engolindo em seco. — Ele é um robô, não é? Como Brown?

Korby assentiu para Ruk, que falou com sua verdadeira voz, grossa e soturna. — Mais complexo que Brown, mais superior. Os antigos me construíram.

— Ruk ainda estava cuidando da maquinaria quando nós chegamos aqui. Há quantos séculos, nem Ruk mesmo sabe. Com a ajuda dele, com os registros que encontrei, nós construímos Brown.

— Você me convenceu, doutor. Estou convencido que você é um homem muito perigoso...

Num ímpeto, Kirk agarrou Korby e, num movimento ainda mais rápido, o empurrou contra Ruk, correndo em direção à porta. Mas Ruk, agindo com impressionante agilidade, o agarrou novamente pelo braço e o atirou através do quarto. Kirk chocou-se com violência contra a parede, mas conseguiu colocar-se de pé. O que foi inútil, pois novamente foi suspenso no ar como um brinquedo pelas mãos gigantescas de Ruk.

— Cuidado, Ruk! — gritou Korby. — Gentilmente!

A pressão do aperto no braço de Kirk aliviou-se, mas Ruk definitivamente não conhecia o significado da palavra gentileza. O andróide desfechou um golpe contra a nuca de Kirk, e o largou no chão, inconsciente.

— Onde está o capitão Kirk?

Christine parou de andar de um lado para o outro no estúdio de Korby ao ver Andréa entrar. Ante a pergunta, seu olhar inocente pareceu realmente intrigado.

— Não entendo como você pode estar preocupada com o capitão agora que está com Roger de novo.

Lá estava a intimidade com o nome dele de novo, pensou Christine, já dominada por uma sensação de desamparo. Já não entendia mais nada, nem o homem que amava, nem seus propósitos ou suas companhias.

Andréa era pura e sincera curiosidade. — Como você pode amar Roger sem confiar nele?

Christine não respondeu. A pergunta foi direto ao âmago de sua agonia. Ela começou novamente a dar passos pelo lugar, quando Andréa inquiriu: — Por que você fica perturbada quando eu falo o nome de Roger?

Korby acabara de entrar no estúdio. Ruk estava com ele, trazendo Kirk preso em suas mãos gigantes. A porta fechou-se a suas costas e Korby, movendo-se em direção a Andréa, foi falando: — Andréa, a partir de agora você deverá me chamar de doutor.

— Sim, doutor Korby.

Ele segurou a mão gelada de Christine, sorrindo. — Como você pode ver, querida, o capitão Kirk está bem. Ele não sem maltratado. O que acontece é que é necessário evitar que ele se comunique com a nave. Eu preciso de tempo para explicar, para demonstrar a ele e a você. Vamos começar por Andréa?

— Sim, comece por Andréa — disse ela, friamente.

A garota falou com toda a simplicidade: — Eu sou como o dr. Brown... um andróide. Você não sabia?

— Ela é admirável, não é? — empolgou-se Korby, olhando o capitão e mostrando o braço de Andréa. — Note a pigmentação natural, a variação na cor da pele. A carne tem calor, tem pulsação, sensação física...

— Que adequado — observou Christine.

Korby captou a ironia no tom de voz da ex-noiva e largou Andréa. — Querida, tudo o que preciso para meus propósitos é total obediência...

Christine afastou-se, ainda mais irritada com a explicação. — Christine, entenda que um andróide é como um computador. Só tenho de programá-la. Como uma cientista treinada, deveria entender...

— Que, depois de um assistente mecânico, construir uma gueixa mecânica não seria difícil?

Korby correu até Christine e a abraçou. — Você acha que eu posso amar uma máquina?

— Você pode?

— O amor não pode existir onde tudo é perfeição! Christine, ouça-me! O amor precisa da imperfeição... momentos de adoração, momentos de ódio. Andréa é incapaz de sentir raiva ou medo, assim como de sentir amor. Ela não significa nada para mim. Ela simplesmente obedece ordens! Observe-a...

Ele falou a Andréa: — Beije o capitão Kirk.

Ela beijou Kirk.

— Agora bata nele...

— ordenou Korby.

Ela deu um tapa em Kirk.

— Você vê, Christine? Tudo o que ela faz é o que depende das ordens que recebe. Ela é um computador... uma coisa, não é uma mulher. Você não tem nada a dizer, capitão?

— Sim, doutor. Eu tenho algo a dizer. Se suas máquinas só obedecem suas ordens, por que dr. Brown me atacou? Por que essa coisa — disse, apontando Ruk — matou dois de meus homens?

A expressão de Korby tornou-se fria. Pegando Christine pelo braço, ele a conduziu até a porta.— Venha, querida, você me deve isso.

Christine lançou um olhar desesperado para Kirk antes de deixar a sala com Korby.

O laboratório de Korby ficava no final de um longo corredor. O lugar era imaculadamente branco. Prateleiras tomadas de equipamentos dividiam as paredes com inúmeros painéis de controles. Mas o principal componente era uma grande plataforma circular e giratória, cortada ao meio por uma espécie de divisória e flanqueada por dois dínamos. Ruk estava lá, ocupado com os preparativos, assentando, com todo cuidado permitido por suas mãos desproporcionais, uma boa quantidade de massa marrom esverdeada, um molde com a altura e a largura exatas de um corpo humano. O casal aproximou-se e Christine pode notar que, além do sofisticado equipamento suspenso do teto, a outra metade da plataforma também estava ocupada, embora ainda não-visível. Ruk abaixou o equipamento correspondente à seção com o molde e o ajustou sobre a massa em que estivera trabalhando. Foi quando a plataforma lentamente começou a girar.

Do lado oposto, até então oculto, Kirk estava deitado, com os olhos cerrados e o corpo despido e imobilizado. O segundo equipamento suspenso desceu e foi acoplado à sua respectiva seção, cobrindo parcialmente o capitão, do peito às coxas.

Korby acompanhava tudo com visível orgulho. — É assim que nós fazemos um andróide.

A um sinal seu, Ruk foi para o painel de controles e apertou um botão. No equipamento suspenso foram acionados fachos de uma luz azul cada vez mais intensa e cegante, que atingiam em cheio a plataforma girando com o corpo de Kirk e o molde disforme. Os dois poderosos dínamos tornavam-se rubros à medida que forneciam força ao painel de controle. Quando Korby fez um ajuste para aumentar a velocidade giratória da mesa, Christine foi tomada por uma vertigem. Ela precisou encostar-se contra a parede, lutando contra o mal-estar. Quando voltou a olhar para a plataforma, as luzes azuis estavam ainda mais intensas, pulsando ao ritmo das batidas de um coração humano. A plataforma girava numa velocidade vertiginosa, fazendo a visão das formas presas nas duas seções alternarem-se rapidamente. Tão rápido que era impossível distinguir uma da outra ou não imaginá-las como sendo apenas uma única coisa.

Sem perceber, Christine estava esfregando as mãos de nervoso. Korby deixou o painel e aproximou-se dela para acalmá-la. — Não tenha medo por ele. Eu prometo a você, ele não está sofrendo.

— Colocar um homem numa mesa como se fosse uma cobaia numa lâmina ... — as palavras pareciam fugir a seu controle — ... eu não... Oh, Roger, o que aconteceu com você? Lembro de quando eu assistia suas aulas... — ela começou a chorar — você não era capaz de fazer mal a um animal, a um inseto... A vida era sagrada para você... e era isso o que eu amava em você...

Ele a pegou em seus braços. — Eu não mudei, Christine. Isso é apenas uma demonstração inofensiva para convencer mentes militares. Por favor, tente entender. Se eu fosse com o dr. Brown e os outros para sua nave, teríamos sido apenas objetos de mera curiosidade, alvo de rumores inúteis e comentários destrutivos.

— Você não conhece o capitão Kirk! — gritou ela.

Ele confortou seu ombro. — Agora é a hora de observar com atenção... — Ele a deixou para fazer mais alguns ajustes nos instrumentos. Aparentemente, a plataforma tinha alcançado sua máxima aceleração. Agora a velocidade diminuía. Sentindo um misto de admiração e horror, Christine observou a massa que servia de molde, que agora tinha um formato humano. A mesa parou de girar diante de seus olhos. E, em seus dois espaços, haviam dois Kirks idênticos.

Triunfante, Korby voltou-se para ela. — Qual dos dois é seu capitão, Christine? Você pode dizer?

Ela sacudiu a cabeça. — Eu não sei... não sei... não agora.

— Este é seu capitão. Como vê, não está ferido.

Os olhos de Kirk abriram-se e logo percebeu que não podia mover-se. Lutou contra o que o prendia até notar a presença de Korby. Todos os músculos de seu corpo retesaram-se, ele ia reagir, mas preferiu calar e ficar ouvindo. Korby estava explicando à noiva: — Os órgãos sintéticos do andróide agora estão no lugar. Nós apenas os sincronizamos ao sistema nervoso autônomo de Kirk, duplicando seus ritmos biológicos. Agora vamos duplicar seus padrões mentais...

Uma idéia passou pela cabeça de Kirk. Ele observou Korby aproximar-se de um outro painel de controle e viu Andréa entrar no laboratório. Ruk estava ocupado com o dínamo junto ao capitão. Ele sabia o que Korby ia dizer antes mesmo dele falar com a criatura. — Ruk, estamos prontos para a fusão sináptica final. Andréa, monitore os circuitos do córtex. Esse andróide que estamos construindo deve ser tão perfeito que será capaz de substituir o capitão. Ele terá as mesmas memórias, as mesmas habilidades, as mesmas atitudes...

As implicações das palavras de Korby eram tão apavorantes que fizeram Kirk começar a pensar rápido, o mais rápido que já pensara em toda sua vida. Ao ouvir Korby gritar um "Ativar os circuitos!", o capitão contorceu seu rosto com fúria e começou a resmungar para si mesmo: — Meta-se com seus assuntos, sr. Spock! Estou cheio de sua interferência mestiça! Está me ouvindo? Meta-se com seus assuntos, sr. Spock! Estou cheio de sua interferência...

Em meio às palavras, Kirk sentiu um espasmo de agonia, que convulsionou seu corpo. Os fachos de luz pareciam querer romper seu crânio. O barulho do dínamo era de estourar seus tímpanos. Apreensiva, Christine correu até ele.

— Eu estou bem — disse o capitão—Parece que acabou.

— E agora, minha querida,—interrompeu Korby — venha conhecer meu novo andróide.

Korby fez com que a plataforma girasse lentamente para que a outra seção, onde estava a réplica perfeita de Kirk, ficasse visível. As pálpebras do andróide hesitaram, mas seus olhos abriram-se e fixaram-se em Christine. O característico sorriso de Kirk iluminou o rosto do clone. — Enfermeira Chapel, que bom vê-la.



Andréa estava servindo uma refeição a Christine quando o novo andróide de Korby chegou, usando o uniforme de Kirk.

— Posso sentar? — perguntou, já sentando ao lado da enfermeira. — O doutor disse que estou mais ou menos liberado agora. E que achava que nós dois gostaríamos de conversar um pouco.

— Capitão, o que nós vamos.... — sussurrou ela.

O andróide a interrompeu, também sussurrando: — Temos de achar um jeito de contactar a nave.

— Eu não sei o que aconteceu com Roger. —Ela fita em desespero o que julgava serem os olhos de Kirk.

— Se eu der uma ordem direta para você traí-lo, você obedeceria, Christine?

— Por favor, capitão. Não peça para eu fazer uma escolha. É melhor o senhor me jogar no precipício em que Matthews morreu.

Andréa serviu um prato de sopa a Christine, que recusou, alegando não estar com fome.

O acompanhante também afastou o prato. — Também não estou com fome — e voltou-se para Christine. — Como sabe, andróides não comem.

Christine jamais imaginou que pudesse sentir tamanho choque. Não era apenas o jogo de gato e rato do andróide que a apavorava. Era o fato de quase ter se aberto com uma máquina mascarada de Kirk. Deixou a mesa no instante em que Korby chegada. O Kirk real estava com ele, pálido, enfraquecido e usando o mesmo tipo de uniforme de serviço que o dr. Brown vestia.

Ele sentiu o cheiro da comida. — Estou com fome — disse, olhando para Korby.— Essa é a diferença entre mim e seus andróides, doutor.

A réplica levantou-se. — A diferença é sua fraqueza, capitão, não minha.

— Comer é um prazer humano — replicou Kirk. — Um que, infelizmente, o senhor nunca vai conhecer.

— Talvez. Mas nunca morrerei de fome.

Kirk olhou novamente para Korby. — É uma duplicata exata?

— Em detalhes. Kirk voltou-se para sua réplica. — Fale-me sobre Sam, sr. andróide.

A resposta veio prontamente. — George Samuel Kirk é seu irmão. Só você o chama de Sam.

— Ele foi me ver antes de eu começar essa missão.

— Sim. Com a esposa e os três filhos.

— Ele disse que ia ser transferido para a estação de pesquisas na Colônia Terráquea Dois.

— Não, ele disse que queria ser transferido para a Colônia Terráquea Dois.

Korby interveio.— É melhor tentar vencer uma máquina de calcular, capitão.

— É óbvio que não consigo. Mas nós temos algumas diferenças bem interessantes.

Korby mostrou-se aborrecido. — Diferenças sem a menor importância.

Abruptamente, ele despachou o andróide, sentou-se e indicou as cadeiras para Kirk e Christine.

— Traga comida — pediu à Andréa. — Um monte de comida. O capitão está com fome.

Kirk começou a comer, enquanto ouvia o doutor. — Você não deduz o resto, não é? Nem você, Christine. O que vocês viram é apenas uma máquina — apenas metade do que eu poderia fazer se continuasse o processo de duplicação. Eu poderia coloca—Io, capitão, toda sua consciência dentro daquele andróide — Ele sorriu, debilmente. — Sua alma, se você preferir assim. Todo você. Brown era um exemplo. Meu assistente estava morrendo. Eu dei a ele vida na forma de um andróide.

Sua voz ganhou em intensidade. — Sim, humanos convertidos em andróides podem ser programados, mas para melhor! Você consegue conceber como a vida seria sem ciúme, intriga, ódio?

— A moeda tem dois lados, doutor. Você também deixaria de lado a ternura, o amor, o respeito.

Korby socou a mesa. — Sem mortes! Sem doenças, sem deformidades! Até o medo pode ser programado e substituído por paz perpétua! Abra sua mente, capitão! Estou falando de um paraíso, um novo paraíso... e tudo o que eu preciso é de sua ajuda!

— Eu pensei que você só precisasse de minha "mente aberta".

— Tenho de conseguir transporte para um planeta que tenha matéria-prima apropriada para o processo. Deve haver uma possibilidade entre suas próximas paradas. Não quero que o senhor saia de sua rota. Não quero levantar suspeitas, simplesmente quero começar a produzir andróides mais cuidadosamente, mais seletivamente...

Enquanto fingia dar atenção, a mão de Kirk encontrara solta um pedaço de tira de couro que servia para manter fixas as junções da cadeira onde estava sentado. Cuidadosamente, começou a desenrolá-lo. — Entendo seu ponto de vista — disfarçou. — Qualquer publicidade sobre essa projeto poderia fomentar preconceitos causados por temor e desinformação.

Korby concordou: — Meus andróides podem ser infiltrados em sociedade humanas antes de ter sua existência revelada. Caso contrário, haveria uma onda de superstição e histeria que poderia destruir o que é certo e bom. Você está do meu lado, capitão?

Christine olhava Korby sem conseguir acreditar. Teriam sido os anos de solidão que o enlouqueceram? Propor esse tipo de cooperação a um capitão de nave estelar! Mas Kirk falou, suavemente. — Você criou seu próprio Kirk, doutor. Você não precisa de mim.

— Eu o criei para impressioná-lo, capitão, não para substituí-lo.

— É melhor usar ele. Estou impressionado, doutor, mas não da maneira que quer — Kirk estava com a correia quase totalmente desenrolada, agora.

— Ruk! — chamou Korby. — Ruk, leve o capitão para o alojamento!

O gigante de feições macilentas aproximou-se de Kirk, cuja mão estava ainda ocupada tentando desfazer o nó da correia sob a cadeira. Quando Ruk inclinou-se para pegá-lo pelos ombros, o capitão deu início à ação. Num único movimento, Kirk esquivou-se das mãos do andróide, voltou-se para Korby e o imobilizou, enrolando a tira de couro em seu pescoço. Depois, jogando-o de lado, tomou a direção da saída. Ruk pensou em segui-lo, mas foi contido pelo grito abafado de um Korby agonizante, caído sobre a mesa, tentando livrar-se da corda que o sufocava. O andróide hesitou, mas foi ajudá-lo.

Christine também já o estava socorrendo, mas Korby, furioso, a empurrou. — Vá atrás... — ele começou a tossir, sem fôlego — Vá atrás dele, Ruk. Pegue-o! Ele não tem mais serventia para mim. Você entende?

Ruk entendia. Assim como Christine, que pôde ouvir o imenso peito de Ruk arfando enquanto corria porta afora, e foi atrás dele. — Ruk! Ruk! Pare! — gritou, vendo-o atravessar o corredor iluminado em direção ao alojamento de Kirk. A figura gigantesca desapareceu ao virar um corredor. Christine continuou seguindo a criatura através de um trecho sem iluminação, ainda gritando: — Pare, Ruk! O doutor mandou que você obedecesse minhas ordens!

A velocidade dos passos aumentavam e ela procurava acompanhá-los. — Ruk! Onde você está? Eu ordeno que você não faça mal a ele! Está me ouvindo? Não faça mal a ele! Ruk, onde está você?

Ruk desapareceu na escuridão. Agora estava correndo numa superfície irregular, cheia de pedras. Christine começou a tatear pela parede também de pedra, com a escuridão envolvendo o som das passadas.

Mas Kirk podia ouvi-los vindo atrás dele. Ele já havia chegado ao final da passagem e estava escalando umas pedras, quando parou, entre duas grandes rochas, esperando ouvir algo.

— Capitão Kirk?

Era a voz de Ruk, ecoando entre as pedras. Kirk passou por cima da rocha e resolveu arriscar prosseguir em frente, tateando as paredes em meio a total escuridão.

— Capitão Kirk...

O som dos passos cessou. Mas ele podia ouvir a respiração pesada do andróide bem por perto. Kirk olhou para os lados à procura de algum tipo de arma e a encontrou na forma de uma estalagmite, a qual tentou arrancar. A pedra não se mexia. Desesperado, agarrou uma outra pedra e, com ela, conseguiu quebrar a ponta da formação rochosa. Depois, procurando às cegas entre os pedaços espalhados no chão, conseguiu encontrar a ponta em formado de porrete.

Então ouviu um sussurro. —Capitão Kirk? Onde está você?

Era a voz de Christine. Kirk pensou em responder, mas lembrou-se a tempo do truque de Ruk em imitar vozes.

A voz de Christine continuava ao longe. — Capitão Kirk, socorro! Estou perdida! Não me deixe aqui sozinha!

Seria mesmo Christine? Ou seria Ruk? Não havia como saber. Kirk apertou ainda mais forte a pedra que tinha nas mãos. Podia ser Christine, perdida nesse labirinto subterrâneo. Devia responder, pensou, pois o suspense era algo tão difícil de enfrentar quanto o que viesse a acontecer. Além disso, já tomara todas as precauções que podia.

— Por aqui, Christine — gritou.

Ignorando o breu, o monstruoso andróide acompanhou a voz com passos seguros, movendo-se facilmente. Kirk lutava para equilibrar-se nas rochas em falso debaixo de seus pés.

Ele estava a postos para qualquer ataque quando seu peso fez a beirada da rocha em que estava em pé começar a fragmentar-se.

A solidez pela qual estava lutando já não existia mais. Escorregou pela beirada de um precipício tão íngreme e profundo quanto o abismo em que Matthews morrera. As pontas de seus dedos agarravam-se à beirada do precipício, literalmente tentando agarrar-se à vida. Kirk lutava também contra as pedras que continuavam a se desprender acima de sua cabeça. Uma a atingiu em cheio, mesmo assim ainda pode ver Ruk inclinando-se para observá-lo. Kirk percebeu que seus dedos começavam a enfraquecer. As rochas da borda em que estava agarrado também começavam a ceder. Nesse momento, Ruk segurou um de seus pulsos. Os dois trocaram um longo olhar. Então, lentamente, Ruk o ergueu.

Quando viu Kirk deixar o elevador em direção a seu alojamento, Spock correu até ele. — Capitão! Acabei de saber que o senhor teleportou-se de volta.

Kirk já estava em sua cabine, mexendo numa pasta que continha suas ordens de comando. — Doutor Korby tem uma carga considerável para ser trazida a bordo, sr. Spock. Vou analisar nossas próximas escalas com ele.

Spock não escondeu sua surpresa do capitão. — O senhor vai descer com suas ordens de comando, senhor?

— Meta-se com seus assuntos, sr. Spock! Estou cheio de sua interferência mestiça! Está me ouvindo? Meta-se com seus assuntos, sr. Spock! Estou cheio de sua interferência...

Chocado, Spock deu a impressão de não saber o que fazer. Kirk já estava deixando o quarto quando o oficial de ciências tentou mais uma vez. — Está se sentindo bem, capitão?

Não havia mais aspereza na voz de Kirk, que falou suavemente, em seu tom normalmente cortês. — Tudo bem, obrigado, sr. Spock. Estarei de volta em breve com o dr. Korby e sua equipe — Foi a vez dele olhar para Spock, curioso. — Parece preocupado, sr. Spock. Está tudo certo por aqui?

O vulcano mostrava-se tão confuso quanto ele jamais se permitira aparentar. Preferiu, no entanto, demonstrar reserva. — Sem problemas, senhor.

Kirk assentiu, ofereceu um amigável sorriso e foi embora. Mas a sensação de estranheza persistia em Spock. Ele acionou o intercom.

— Segurança, aqui é Spock. Status da equipe de descida?

— A postos e aguardando, senhor.

— Esperem até o capitão descer. Então encontrem-me na sala de transporte.

Spock sabia que estava para criar um problema com Kirk. Por outro lado, era óbvio que já havia algum problema entre eles.

Korby estava satisfeito com a atuação de seu novo andróide. Olhando as ordens de comando, o ouviu dizer: — Eu já as estudei. Vai concordar que o planeta Midos V é uma excelente escolha.

— Uma pequena colônia. Matéria-prima abundante. Excelente trabalho, capitão Kirk.

— Obrigado, doutor. Eu me senti como se estivesse em casa, a bordo da Enteprise.

No outro cômodo, Kirk estava deitado, pensando. Sua vida havia sido poupada e não sabia por quê. A Enterprise nas mãos daquela coisa vestindo seu uniforme... Um planeta, talvez a galáxia inteira condenada a ser povoada por seres inumanos... A vida humanóide exterminada pelas máquinas de Korby.

A porta abriu-se. Andréa entrou com um prato de comida e o colocou sobre a mesa.

Kirk sentou-se na cama. — Beije-me, Andréa.

Ela o beijou. O circuito cortical que anteriormente havia obedecido ao comando de beijá-lo ativou o outro que conectava o beijo a um tapa. Ela ergueu a mão prestes a esbofeteá-lo, mas Kirk agarrou seu braço. — Não — disse ele, levantando-se. Em seguida, segurando-a em seu braços, Kirk deu-lhe um dos beijos mais apaixonados de sua vida. O andróide apreciou, mas seu processador protestou. Em algum ponto de seus circuitos, a pressão tornava-se grande.

Entrando em pane, reagindo caoticamente, ela o empurrou, gritando: — Não você... não programada para você...

Andréa correu para a porta, hesitando. Kirk, alarmado, a seguiu, mas encontrou Ruk de guarda na saída.

— Manter sua vida é ilógico — disse o gigante, olhando-o fixamente.

— Por quê?

Ruk não respondeu. Sua mente parecia processar e lutar contra uma enxurrada de pensamentos que o confundiam de forma mais cruel do que a reação aterrorizada de Andréa diante do beijo de Kirk. — Você não é mais necessário aqui — disse, por fim.

— Você quer me matar, Ruk? Ou, como o dr. Korby diz, me desativar?

— Você não pode ser programado. Você é inferior.

— Eu quero viver.

— Você é de fora. Você trouxe a desordem para cá.

— Eu não sou programado. Mas farei de tudo, não importa o quão ilógico seja, para continuar vivo. Isso perturba você, Ruk?

— Nosso mundo era pacífico. Nada ameaçava a existência.

— A existência também é importante para você?

— Eu sou programado para existir. Portanto, eu existo.

A face normalmente impassível estava marcada por uma intensa cogitação. Kirk chegou a sentir pena. — Korby fala de você como se fosse apenas uma máquina para ser ativada ou desativada. Isso é uma boa coisa boa, Ruk?

— Você é o mal. Até você chegar, tudo era paz por aqui. Isso era bom.

— Eu vim em paz. A única diferença entre nós dois é que eu tenho emoção. Eu sou o imprevisível. E, como em cada humano, nosso mal cresce imprevisivelmente. Como você poderia viver com milhares de humanos imprevisíveis em torno de você, todos eles malignos como eu?

Ruk continuava olhando—o fixamente. — Sim, foi há... muito tempo. Eu tinha esquecido. Os antigos daqui, o que me fizeram, eles eram humanos... e malignos. Está ainda em meus bancos de memória... Tornou-se necessário destruí-los.

Ele moveu seu pesado corpo em fortes passadas. Em meio ao corredor, o gigante encontrou Korby, vestido todo de branco e com ar autoconfiante. — Você... você o trouxe até nós — acusou o andróide.

Aturdido, Korby olhou para Kirk e depois para Ruk. — O quê?

Ruk continuou avançando contra ele. — Você trouxe os inferiores para cá! — Sua voz era cada vez mais alta. — Nós tínhamos nos purificado deles! Você os trouxe de volta e trouxe também a maldade deles!

— Ruk, ordeno que pare! Volte! Fique longe de mim! Você é programado para...

Korby estava recuando. Ao mesmo tempo que Ruk preparava-se para agarrá-lo, Korby pegou no bolso de sua túnica branca o feiser de Kirk. Sem hesitar, disparou. Ruk desapareceu. Onde estivera parado, restava apenas uma mancha chamuscada e uma névoa de fumaça com cheiro de metal queimado.

— Não devia destruí-lo — disse Kirk, em meio ao silêncio estabelecido.

Korby apontou o feiser para ele. — Mova-se. Siga em frente...

No estúdio de Korby, Christine estava tensa, à espera do resultado da conversa entre seu ex-noivo e o capitão Kirk. No meio do caminho, Kirk dirigiu-se a seu captor. — Você já foi um homem que tinha respeito por todas as coisas viventes. Como explica essa mudança em você, doutor? Se eu contasse na Terra que eu sou seu prisioneiro, se eu contasse lá sobre o que você se tornou...

Kirk tentou pegar o feiser, mas Korby estava no controle e o usou para empurrá-lo para dentro do estúdio. Nesse movimento, sua mão acabou presa entre a porta, que deslizava para fechar, e o batente. Kirk ia aproveitar a vantagem, mas deteve-se. A mão presa de Korby estava sendo esmagada. Mesmo assim, sua outra mão ainda segurava o feiser e o apontava vacilante contra Kirk, numa admirável atitude de resistência. Quando finalmente liberou sua mão, Kirk ficou ainda mais admirado.

Lentamente, encheu-se de horror. Christine também estava com o olhar atento à mão ferida de Korby. Ao invés de revelar sangue e carne dilacerada, a ferida expunha um fino emaranhado de engrenagens e fios. Algumas conexões estavam em curto-circuito, liberando fumaça e odor de metal queimado.

Korby viu a expressão de Christine. — Ainda sou eu, Christine... o seu Roger... na forma de um andróide... Você não pode imaginar por que... como eu estava. Eu estava congelado, morrendo, minhas pernas quebradas. Eu só tinha meu cérebro entre a vida e a morte... — Ele exibiu sua mão.

— Isso pode ser reparado. Eu ainda sou o mesmo homem que você conheceu e amou... um homem melhor. Nunca haverá morte para mim... nunca.

Ela elevou suas mãos ao rosto para tentar evitar a visão dos circuitos expostos. Korby, voltando-se para Kirk, gritou. — Imagine, capitão! Um mundo sem corrupção, sem sofrimento, sem morte....

— Então por que me manter vivo, doutor? Sou apenas carne e sangue. Eu devo morrer. Já tem seu próprio Kirk imortal. Por que não mata o Kirk imperfeito de uma vez?

— Já sabe a resposta. Eu ainda sou o homem que você descreveu, o homem com respeito por todas as coisas com vida. Eu ainda sou esse homem.

— Você não é esse homem, doutor. Olhe para Christine... decepcionada, aterrorizada. Onde está sua reação humana ao sofrimento dela?

À medida que a pergunta era processada por seu cérebro informático, Korby parecia abalado. Seus circuitos supostamente não forneceram uma resposta adequada, por isso eliminou a questão. Recobrando sua compostura, ele foi até um microfone instalado na parede.

— Andréa, venha ao estúdio.

A porta abriu-se e Kirk passou seu braço sobre o ombro de Christine.

— Sim, doutor? — perguntou Andréa.

— Alguém está vindo — disse Korby.

— Encontrarei Ruk.

— Ruk foi desativado. Pegue a arma do dr. Brown. Rápido! Use-a! Proteger!

A andróide pegou a velha arma de Brown sobre uma mesa e correu para fora do estúdio. No corredor, encontrou o clone de Kirk ainda vestido com uniforme completo. O encontro perturbou Andréa e também a deixou interessada. Ela aproximou-se dele e ergueu seu rosto.

— Vou beijá-lo — avisou ela.

— Não! — respondeu, rispidamente.

Um olhar irado invadiu o rosto da andróide.

— Proteger — disse ela, puxando o gatilho do rifle feiser. Ela olhou com curiosidade para os restos chamuscados e envoltos em fumaça deixados no chão.

— Proteger — repetiu, voltando para o estúdio.

Korby estava gritando, ensandecido. — Eu sou o mesmo! Uma transferência direta... todo eu! Totalmente racional... humano, mas sem falhas!

Sorrindo, inocentemente, Andréa disse: — Eu desativei o capitão Kirk.

— Ela matou seu andróide perfeito. Assim como você matou Ruk. Esse é o seu mundo perfeito? Seus seres em falhas? Matar, matar, matar! Não estão seu seres sem falhas fazendo exatamente o que você mais odeia nos seres humanos? Matar com a mesma falta de sentimento com que você apaga uma lâmpada?

Dessa vez, o cérebro de computador não podia ignorar a pergunta. Kirk estendeu a mão. — Dê-me esse feiser, doutor. Se algo do humano Korby resta em você, você sabe que sua única esperança é me dar essa arma.

— Não! Você não quer entender! Eu construí seres perfeitos... eu os testei... — O rosto de Korby demonstrava a mesma confusão registrada por seus processadores em conflito. Sua própria lógica lutava com eles. — Eu... eu provei que eles são perfeitos... eu... eu tenho...

Com um olhar de total perplexidade, ele entregou o feiser a Kirk. Pálida como a morte, Christine deixou-se cair numa cadeira.

— Dê sua arma, Andréa — disse Kirk.

—Não — e ela o ameaçou com o rifle — Não... proteger... — Ela dirigiu—se a Korby. — Eu sou programada para amá-lo, protegê-lo. Para beijá-lo... — Ela procurou o rosto do médico.

Christine quase gemeu. Atordoada, observou Korby empurrar a andróide. — Não me toque! Você não pode amar, sua máquina!

Mas Andréa ainda insistia. O feiser que segurava estava entre ela e Korby, que lutava para livrar-se dos braços dela.—Programada para amá-lo... beijá-lo... — continuava Andréa.

O rifle disparou, num flash de luz. Os dois já não estavam mais lá, apenas havia fumaça e dois pequenos montes de cinzas no chão.

Cambaleando, tremendo, Christine procurou o apoio de Kirk, que a abraçou, sem ter como consolá-la por tanta desilusão.

No momento em que a fumaça dissolvia-se, a porta abriu para dar entrada a Spock e dois seguranças armados.

— Capitão... — Spock hesitou. — Está bem, senhor? Enfermeira Chapel?

— Tudo bem, senhor Spock.

— Onde está o doutor Korby? — quis saber o vulcano.

Kirk segurou firmemente as mãos de Christine. — Ele nunca esteve aqui, senhor Spock.

Sentado na cadeira de comando, Kirk ouvia a enfermeira. —Obrigada por me deixar decidir, capitão. Tenho convicção de que estou fazendo a coisa certa.

— Eu também. Talvez deva descansar um pouco agora que sua decisão foi tomada.

Nenhum dos dois sorriu. — Eu o verei mais tarde, senhor.

Ao vê-la deixar a ponte, Spock aproximou-se. — Ela é muito corajosa.

— É por isso que nós precisamos dela a bordo da Enterprise, sr. Spock — Ele olhou para a tela principal. — Piloto, firme no curso. A enfermeira Chapel decidiu ficar conosco — completou. Mas Spock permanecia junto à cadeira de comando. — Alguma coisa o está perturbando, sr. Spock?

— Capitão, eu... devo protestar contra seu uso do termo "mestiço" em referência a mim.

— Eu não o usei, sr. Spock. Apenas fiz com que...

— Mesmo usado por um andróide, seria melhor o senhor pensasse numa expressão mais adequada.

Kirk simulou seriedade ao fitá-lo. — Lembrarei disso, sr. Spock, quando eu estiver de novo numa situação parecida.

— Obrigado, senhor.



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