Star Trek episódios da série clássica tradução de Cristina Nastasi



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Sobre o episódio
E neste episódio que a enfermeira Christine Chapel, vivida por Majel Barret, é introduzida ao universo do seriado, apesar de, em função da diferença da ordem de produção e de exibição, já ter aparecido na versão do episódio Tempo de Nudez que foi ao ar. Depois de perder o importante papel da oficial Número Um no piloto rejeitado A Jaula, Majel Barret, que na época vivia com Gene Roddenberry e o ajudava na escolha de roteiros, viu na personagem de uma médica que pede ajuda à Enterprise para localizar o noivo desaparecido há anos uma oportunidade de voltar à série. Dessa forma, Majel clareou os cabelos (que até então eram negros) e foi de surpresa ao escritório de Roddenberry. No primeiro instante, ele não reconheceu a própria mulher e isso o convenceu de que se Majel o havia enganado, enganaria também os executivos da emissora. Majel ganhou o papel e a médica virou enfermeira Chapel, que após a trágica experiência de reencontrar o noivo, voltou seus interesses amorosos para o inconquistável sr. Spock.

Talvez tenha sido essa paixão impossível que fez a audiência feminina da época não simpatizar muito com o personagem, afinal de contas Chapel ousava amar o lógico e cobiçado vulcano.

Esse episódio também serviu para introduzir outro elemento clássico da série: os andróides quase perfeitos e em conflito com as emoções. O título da história foi retirado de um antigo poema infantil, de autor desconhecido, e que estabelecia as diferenças entre meninos e meninas. Da mesma forma, "£ as meninas, de que são feitas?" tenta estabelecer as diferenças entre o que é ser humano e ser andróide.



O Punhal Imaginário

Título da adaptação: Dagger of the Mind

Título do episódio: Dagger of the Mind

Título em português: O Punhal Imaginário (nas duas versões)
Data da primeira exibição: 03/11/66

Data estelar: 2715.1


História de S. Bar-David (Shimon Wincelberg)

Direção de Vincent McEveety


Atores convidados:

Dr. Tristan Adams: James Gregory

Dr. Simon Van Gelder: Morgan Woodward

Dra. Helen Noel: Marianna Hill



O Punhal Imaginário

Simon van Gelder veio a bordo da Enterprise fugindo da Colônia Penal Tântalos através do teletransporte, escondido dentro de uma caixa endereçada ao Departamento de Estudos Penais de Estocolmo. Era um método desesperado, mas não muito inteligente, embora inevitável diante das circunstâncias em que se encontrava. Ele mal chegara a bordo quando Tristan Adams, o médico-chefe e diretor da Colônia, alertou o capitão Kirk sobre a fuga do interno ("um caso potencialmente violento"), e a busca teve início.

Num curto espaço de tempo, Van Gelder, um homem alto e em pleno vigor de seus quarenta anos, conseguiu tocaiar um tripulante, nocauteá-lo e trocar de roupa com ele, levando consigo um feiser. Assim disfarçado, também conseguiu chegar à ponte, onde fez seu pedido de asilo e manteve interrompidas por alguns minutos todas as operações, até ser paralisado por um dos famosos toques de vulcano aplicado pelo sr. Spock. Van Gelder foi confinado à enfermaria e isso foi tudo.

Ou teria sido. Os procedimentos operacionais de praxe exigiam que o prisioneiro fosse submetido a um exame médico de rotina e transportado de volta a Tântalos, para ser novamente colocado à disposição dos métodos terapêuticos do dr. Adams. Kirk há muito tempo admirava os conceitos de reabilitação desenvolvidos pelo doutor Adams e não se conformava com o fato de não estar com tempo disponível para fazer uma visita à Colônia. Mas agora, com esse acontecimento inesperado, encontrara a desculpa certa para criar uma oportunidade. Além disso, existia alguma coisa em relação a Van Gelder que o deixava intrigado, pois no breve encontro que tivera com ele, o foragido não passara a imagem de um criminoso comum, apesar de seu desespero característico. Kirk também não tinha informações a respeito da existência de casos psiquiátricos não-criminais sendo tratados em Tântalos. Por isso decidiu visitar o prisioneiro na enfermaria para descobrir alguma coisa.

O doutor McCoy estava mantendo-o sedado e atado à cama enquanto acompanhava seu estado físico no painel de funções biológicas. Adormecido, a expressão de Van Gelder era relaxada, marcada por uma quase vulnerabilidade infantil.

— Detectei choques de ondas delta no eletroencefalograma — disse McCoy, indicando o painel acima da cama. —Altamente anormal, mas sem sinal de esquizofrenia, tecidos danificados ou qualquer outra condição de que tenha conhecimento. Eu o coloquei sob uma dose tripla de sedativo para...

O médico foi interrompido pelo som vindo do leito, uma estranha mistura de gemido e rosnado. O paciente estava voltando à consciência, lutando contra as amarras que o prendiam.

— O informe diz que ele é bastante comunicativo — disse Kirk.

— Mas não muito informativo. Diz uma coisa, depois parece esquecer, então começar a falar outra coisa... o pouco que consigo entender parece soar como verdade. É uma pena que não tenhamos tempo para estudá-lo um pouco mais.

— Então é assim que o sistema funciona, não é? — disse o homem na cama, asperamente, ainda se debatendo. — Levem-me de volta! Lavem suas mãos! Deixe que os outros se preocupem! Desgraçados...

— Qual é o seu nome? — perguntou Kirk.

— Meu nome.... meu nome... — Kirk teve a súbita impressão de que o prisioneiro estava lutando não contra as amarras, mas contra algum tipo de dor. — Meu nome é... é Simon... Simon van Gelder.

Ele encostou-se nos travesseiros, e acrescentou, vencido: — Não acho que tenha ouvido falar de mim.

— É o mesmo nome que deu antes — informou McCoy.

— Dei? — admirou-se o prisioneiro. — Tinha esquecido. Eu era o diretor... da... da Colônia Tântalos. Não era prisioneiro... eu era... assistente. Graduado em... em... — sua face contorceu-se. — E então... me graduei em estudos... de... estudos em...

Quanto mais tentava lembrar, mais a dor parecia apoderar-se dele. — Não importa — disse Kirk, gentilmente. — Está tudo bem. Nós...

— Sei, sei — interrompeu Van Gelder, rangendo os dentes. — Eles apagaram... editaram... ajustaram... eles me destruíram... eu... não vou esquecer! Não vou voltar para lá! Prefiro morrer! Morrer! Morrer!

O prisioneiro tornou-se novamente violento, agitando-se e gritando, seu rosto era quase uma máscara de dramas incompreendidos. McCoy aproximou-se e aplicou mais uma dose com o hypospray. Van Gelder passou dos gritos ao silêncio absoluto.

— Alguma idéia a respeito? — perguntou Kirk.

— Não faço a mínima idéia. Ele não quer voltar para aquela... como você a descreve? Ah, "mais uma clínica, do que uma prisão”. Evidentemente, uma cela é uma cela, não importa que rótulo tenha.

— Algo de muito estranho está acontecendo lá embaixo. Mantenha-o sob vigilância, Magro. Vou fazer uma pequena investigação.



No momento em que Kirk chegou à ponte, Spock retirava um teipe de seu computador. — Consegui esses dados nos bancos de memória, capitão. Não existem dúvidas: nosso prisioneiro é o dr. van Gelder.

— Doutor...?

— Isso mesmo. Designado para Colônia Tântalos há seis meses como assistente do dr. Adams. Não chegou como condenado e sim foi designado. É um homem muito respeitado em sua área.

Kirk ficou pensativo por um momento e voltou-se para sua oficial de comunicações. — Tenente Uhura, contacte o dr. Adams em Tântalos... Doutor? Aqui é o capitão Kirk, da Enterprise. A respeito de seu fugitivo...

— O dr. Van Gelder está bem? — a voz de Adams parecia sinceramente interessada. — E seus homens, capitão? Algum ferido? No estado violento em que ele se encontra...

— Ninguém foi ferido, doutor. Mas achamos que o senhor pode nos esclarecer sobre a condição dele. Meu oficial médico está intrigado.

— Não fico surpreso. Ele esteve fazendo algumas experiências, capitão. Um tratamento experimental que, esperamos, possa reabilitar até os pacientes mais incorrigíveis. O dr. Van Gelder achou que não podia expor qualquer outro homem a algo que ele primeiro não tivesse testado pessoalmente.

Enquanto Adams falava, McCoy entrou na ponte e aproximou-se da estação de ciências para ficar junto a Kirk e Spock. O médico olhou para o capitão e fez o clássico gesto de "gargantas cortadas”.

— Entendo — disse o capitão para Adams. — Por favor, espere um momento, dr. Adams. — Uhura cortou o contato e Kirk prestou atenção em seu médico. — Explique, Magro.

— O que o dr. Adams diz não me parece ser verdade, Jim. Não acredito que o que está de errado com van Gelder seja algo que ele tenha feito a si mesmo. Mas acho que é algo que fizeram com ele. Não posso garantir, é apenas uma impressão... mas uma impressão bem forte.

— Mas não é bastante para nós — disse Kirk, irritado. — Você não está lidando com um médico qualquer, Magro. Nos últimos vinte anos, Adams fez mais para revolucionar e humanizar as prisões e os tratamentos de prisioneiros do que todo o resto da humanidade em quarenta séculos. Eu estive em colônias penais desde que elas começaram a seguir seus métodos. Elas não são mais "celas de prisão", e sim hospitais arejados e decentes para doentes mentais. Eu não tenho a intenção de fazer acusações vazias contra um homem como esse.

— Quem falou em acusações? Apenas estou fazendo perguntas. Estou sugerindo uma investigação. Se alguma coisa estiver errada, Adams terá de dar respostas. Algum problema em tentar?

— Acredito que não — Kirk assentiu para Uhura, que abriu o canal novamente. — Doutor Adams? Isso é um pouco embaraçoso, mas um de meus oficiais acabou de recordar-me que, de acordo com a rígida interpretação dos regulamentos de nossa nave, eu devo iniciar uma investigação para que um relatório apropriado seja...

— Não precisa se desculpar, capitão Kirk. De fato, seria um favor pessoal se o senhor mesmo viesse nos fazer uma visita. Estou certo que o senhor compreende que não costumamos receber muitas visitas por aqui. Mas eu apreciaria muito receber o senhor e um grupo mínimo, é claro. Somos forçados a limitar ao máximo nosso contato com o exterior.

— Eu entendo. Já visitei colônias de reabilitação antes. Muito bem. A Enterprise desliga.... Satisfeito, McCoy?

— Temporariamente — disse McCoy, tranqüilo.

— Tudo bem, então. Vamos ficar com Van Gelder até eu completar minha investigação. Descubra alguém em seu departamento com experiência em psiquiatria e penalogia... uma mesma pessoa, de preferência.

— Helen Noel é perfeita. Ela é médica formada e já fez vários trabalhos sobre problemas de reabilitação.

— Excelente. Vamos descer em uma hora.



Embora houvesse dezenas de mulheres a bordo da Enterprise, encontrar Helen Noel foi uma surpresa para Kirk. Ela era jovem e de uma beleza quase incômoda e, mais do que isso, embora Kirk já a tivesse visto antes, não sabia que fazia parte da tripulação da nave. Ele a encontrara durante uma festa de Natal no laboratório médico. Na ocasião, Kirk teve a impressão de que se tratava apenas de uma passageira e uma passageira muito impressionada com oportunidade de conversar com um capitão estelar; na realidade, em meio ao clima de festividade natalina, ele chegou a tirar algumas vantagens sobre isso... Agora descobria quem ela era, e o que ela era, ou seja, a nova aquisição da equipe médica da nave. A expressão da moça no momento em que se reencontraram na sala de transporte era de seriedade e reserva, mas Kirk teve a nítida impressão de que a bela doutora estava se divertindo com seu desconforto.



Tântalos era um mundo sinistro, sem vida, devastado por um clima inclemente e uma atmosfera de nitrogênio parcialmente diluída por alguns gases nobres, enfim, um lugar terrível e adequado para evitar fugas. Nesse aspecto, era muito parecido com todas as demais instalações penais, por melhor que uma ou outra pudesse ser. Também, como usual, a construção da colônia era subterrânea e sua localização só era visível na superfície em função de uma pequena estrutura exterior contendo uma sala de transporte, um sistema de elevadores e outros módulos funcionais.

Doutor Tristan Adams os encontrou em seu escritório: era um homem em seus quarenta e tantos anos, com um rosto franco e caloroso, e com uma maneira quase agressiva de apertar a mão de seus convidados; também parecia um homem bem-humorado, do tipo que beberica nas horas certas e é de total integridade a toda hora. Não parecia ser tão velho para acumular tanta reputação. O escritório refletia o homem; era pessoal, desarrumado sem ser desorganizado, mobiliado visando o conforto e a satisfação de uma pessoa talvez mais interessada em esculturas primitivas do que em medicina social.

Com ele estava uma jovem mulher, alta e elegante, embora um pouco magra demais, a quem apresentou como Lethe, Havia algo de estranho em relação a ela, algo que Kirk não sabia definir o que era; talvez fosse uma certa falta de humanidade em seus modos e em sua voz. Como se estivesse à espera dessa impressão, Adams explicou:

— Lethe veio para ser submetida a reabilitação e acabou ficando como terapeuta. E é uma terapeuta excelente.

— Amo meu trabalho — disse a mulher, mecanicamente.

Pedindo permissão a Adams com o olhar, Kirk dirigiu-se à ela: — E antes de vir para aqui?

— Eu era uma outra pessoa. Violenta, revoltada.

— Posso perguntar que crime cometeu?

— Não sei. Mas não importa. Aquela pessoa não existe mais.

— É parte do tratamento, capitão, enterrar o passado — explicou Adams. — Se o paciente puder conviver com suas memórias, então tudo bem. Mas se elas são dolorosas, por que mantê-las? Já nos é suficiente o fardo de cada dia. Vamos iniciar nossa visita?

— Receio que não tenhamos tempo para um tour completo. Devido às circunstâncias, estou dando prioridade em ver o aparelho ou o equipamento usado pelo dr. Van Gelder. Esse é o motivo de nossa investigação.

— Sim, claro. Ninguém gosta de falar dos fracassos, mas os pontos negativos também são importantes. Se vierem por aqui...

— Um minuto — pediu Kirk, pegando seu comunicador. — Eu gostaria de checar minha nave. Se me der um momento...

Adams concordou e Kirk afastou-se um pouco, ficando quase que de costas.

A sua pergunta, Spock respondeu prontamente:

— Van Gelder não está melhor, embora o dr. McCoy tenha conseguido juntar mais alguns pedaços de sua memória. Mas isso não mudou muito a situação. Ele insiste que Adams é o culpado de tudo, que a máquina é perigosa. Sem dar mais detalhes.

— Certo. Vou me comunicar com você a intervalos de quatro horas. No mais, tudo por aqui parece normal. Kirk desliga.

— Pronto, capitão? — perguntou Adams, gentil. — Ótimo. Por aqui, por favor.

O lugar onde Van Gelder tinha sofrido a misteriosa e supostamente nociva conversão experimental parecia, aos olhos leigos de Kirk, como qualquer outro local de tratamento. No momento em que entraram, havia um paciente preparado na mesa. De um pequeno e complexo aparelho instalado no teto da sala saía um fino e monocromático feixe de luz, atingindo diretamente a testa do paciente imobilizado. Perto da porta, um terapeuta uniformizado controlava um painel de comandos, sem a preocupação de estar por trás de uma proteção; evidentemente, a radiação, independente do tipo que fosse, não era perigosa, nem mesmo a essa curta distância. Realmente parecia bem inofensiva.

— Este é o aparelho — disse Adams, calmamente. — Um potencializador neural, ou neutralizador neural. Os dois termos parecem opostos, mas descrevem o mesmo efeito: um crescimento induzido da condutividade neural, que aumenta muito o número de sinapses cerebrais. Em certo ponto, como pudemos deduzir teoricamente, o aumento da condutividade resulta no desaparecimento da informação. Nós achamos que isso ajudaria o paciente a viver melhor com seus pensamentos traumáticos e seus desejos obsessivos. Mas os efeitos são apenas temporários; dessa forma, eu duvido que possa ser algo tão útil quanto julgávamos que seria.

— Hmm — murmurou Kirk. — Então, se não é particularmente útil...

— Por que continuamos usando? — antecipou-se Adams, cordial. — Esperança, capitão. Esperança de que nós consigamos ter sucesso com os casos mais violentos. Mas estritamente como um método paliativo.

— Como drogas tranqüilizantes — acrescentou Helen. — Elas não agem de forma permanente, mas injetá-las continuamente na corrente sangüínea de uma pessoa para mantê-la sob controle...

— É exatamente esse meu ponto de vista, doutora — sorriu Adams.

O médico tomou a direção da porta, mas Kirk permaneceu observando o paciente. Então, dirigiu-se ao terapeuta e perguntou: — Como funciona?

— É simples e não-seletivo — respondeu o terapeuta. — Aqui liga e aqui desliga, e existe um potencializador para a intensidade. Nós o usávamos para tentar atingir a potência das ondas delta do paciente, e descobrimos que não era crítico. O cérebro aparentemente faz seu próprio monitoramento, com a ajuda de sugestões externas. Para isso, é claro, você precisa conhecer bem o paciente; não se pode esperar que a máquina processe o paciente como se ele fosse um teipe de computador.

—Não deveríamos ficar falando muito na presença de um paciente justamente por essa razão — disse Adams, pela primeira vez com um traço de aborrecimento em sua voz. — É melhor que as explicações esperem até estarmos de volta ao escritório.

— Gosto de satisfazer minha curiosidade na hora em que a sinto.

— O capitão — disse Helen a Adams — é um homem muito impulsivo.

Adams sorriu. — Ele me lembra a história do homem muito cético que queria aprender toda a sabedoria do mundo enquanto ficava em pé numa perna só.

— Eu simplesmente quero entender—disse Kirk, de modo seco. — Como aconteceu o acidente com o dr. Van Gelder.

— Claro. E foi tudo culpa dele, se o senhor deseja saber. Não gosto da idéia de criticar um colega, mas o fato é que Simon é um homem muito teimoso. Ele poderia ter ficado deitado ali por um ano com o feixe ajustado em sua intensidade, ou um pouco mais forte. Ou poderia ter alguém junto ao painel para cortar a força quando surgisse algum problema. Mas ele tentou sozinho, em força total. Naturalmente, sofreu as conseqüências. Até a água pode fazer mal a um homem, dependendo da quantidade.

— Foi um grande descuido da parte dele — observou Kirk, sem inflexão. — Muito bem, vamos ver o resto.

— Ótimo. Eu gostaria de mostrar alguns de nossos projetos bem-sucedidos.

— Prossiga.



No alojamento que a equipe de Adams designou para o pernoite, Kirk chamou a Enterprise, mas não obteve muitas novidades. McCoy ainda estava tentando superar os traumas na memória de Van Gelder, mas nada do que conseguira parecia proveitoso. Van Gelder estava exausto; apenas ficava repetindo "ele nos esvaziou... e depois nos encheu consigo mesmo... eu fugi antes que ele pudesse me encher... é tão solitário estar vazio..."

Não fazia sentido, e, ao mesmo tempo, levava Kirk a pensar. O capitão demorou um pouco, mas decidiu sair e ir bater na porta ao lado, no alojamento de Helen Noel.

— Ora! — disse ela, ao abrir. — O que é, capitão? Está pensando que é Natal de novo?

— É assunto sério. Deixe-me entrar antes que alguém nos veja. Isso é uma ordem.

Ela deu passagem, hesitante, e ele fechou a porta.

— Obrigado. Ouça, doutora: o que você acha dos internos que vimos esta tarde?

— Bem... eu fiquei impressionada, no geral. Eles parecem felizes, ou, pelo menos, bem ajustados, fazendo progressos...

— E um pouco vazios.

— Não são pessoas normais. Eu não esperava que fossem.

— Certo. Mas eu gostaria de olhar aquela sala de tratamento de novo. E vou precisar de você; você deve ter compreendido muito mais a teoria do que eu.

— Por que não pergunta ao dr. Adams? Ele é o único especialista na questão por aqui.

— Se estiver mentido, vai continuar mentindo e eu não saberei de nada. A única maneira de ter certeza é ver a máquina funcionando. Preciso de um operador e você é a única escolha.

— Bom, está certo. Eles encontraram a sala de tratamento sem dificuldades. Não havia ninguém lá. Kirk ajustou os controles que o terapeuta havia mostrado e então posicionou-se como se fosse um paciente. E ficou olhando fixamente para o aparelho no teto.

— Estou esperando que me diga se essa coisa está me fazendo algum mal. Adams diz que é seguro; é isso o que eu quero saber. Tente a potência mínima, só um segundo ou dois.

Nada aconteceu.

— E então? Acione assim que estiver pronta.

— Eu já testei uns dois segundos, capitão.

— Hmm. Não aconteceu nada.

— Aconteceu, sim. Seu rosto perdeu a expressão. Quando cortei a força, a expressão voltou.

— Não senti nada. Tente de novo.

— Como se sente agora?

— Não sei dizer... nada de definido. Estou apenas esperando. Pensei que você fosse tentar de novo.

— E tentei. É como se sua mente ficasse tão completamente vazia que não fosse capaz de sentir a passagem do tempo.

— Bem, é um aparelho muito eficiente para o dr. Adams estar pensando em abandonar. O técnico mencionou que sugestões externas podem ser usadas. Tente uma... algo inofensivo, por favor. E rápido, porque quando acabarmos aqui estou pensando em assaltar uma cozinha.

— Funciona mesmo — admirou-se Helen. — Apliquei dois segundos de feixe e disse "está com fome". E o senhor ficou com fome.

— Não ouvi nada. Vamos tentar de novo. Não quero que existam dúvidas.

— É bom mesmo — disse Adams, ao fundo. Kirk sentou-se num pulo e viu-se diante de uma pistola feiser. O terapeuta assistente também estava lá, apontando uma outra arma para Helen.

— Prisões e hospitais mentais — Adams sorria com tolerância—possuem monitores que registram cada conversa, cada movimento... se não, o lugar não funciona direito. Estou aqui disposto a satisfazer suas curiosidades, capitão. Daremos uma demonstração apropriada.

O médico posicionou-se atrás do painel e ajustou o botão do potencializador. Kirk não chegou a vê-lo fazer isso. A sala a seu redor simplesmente desapareceu numa onda de intolerável dor.



Como antes, Kirk não sentiu o tempo passar; quando voltou a si, estava entregando seu feiser a Adams. E também sabia agora qual era a dor exata que estava sentido: era amor por Helen e a sensação de solidão, do vazio de não tê-la. Ela não estava mais lá e tudo o que tinha era a lembrança de carregá-la nos braços para a cabine naquela noite de Natal. Ela hesitava e ele insistia, fazendo falsas promessas. Mas suas memórias eram vagas, unidimensionais, com vozes monótonas; a saudade e a solidão, no entanto, eram bem reais. Para fazer a dor passar, seria capaz de mentir, trapacear, desistir de sua nave, de sua reputação... Ele gritou.

—Ela não está aqui — dizia Adams hipnoticamente, entregando o feiser a seu auxiliar. — Mas a trarei de volta e então tudo vai melhorar. Primeiro, no entanto, é hora de chamar sua nave. É importante que eles saibam que tudo está bem. Então, talvez, possamos ver a doutora Noel.

Sentindo uma nova pontada de dor, Kirk pegou seu comunicador e o sintonizou. — Capitão... para a Enterprise — encontrava dificuldade em falar, a mensagem parecia não ter importância.

Enterprise falando, capitão—respondeu Spock.

— Tudo está bem, sr. Spock. Ainda estou com o dr. Adams.

— O senhor parece cansado, capitão. Algum problema?

—Nenhum, sr. Spock. Minha próxima comunicação será em seis horas. Kirk desliga.

Ia guardar o comunicador, mas Adams estendeu sua mão.

— Entregue o aparelho também, capitão.

Kirk hesitou. Adams foi até o painel de controle. A dor voltou, redobrada, triplicada, quadruplicada; e, dessa vez, foi aliviada pela inconsciência total.

Kirk acordou com o murmúrio de uma voz feminina e a sensação de um pano molhado umedecendo sua testa. Seus olhos abriram-se e encontrou-se deitado num quarto, em Tântalos. Uma sombra obscureceu sua visão e novamente sentiu a umidade em sua pele. A voz de Helen dizia:

— Capitão... capitão. Eles o trouxeram da sala de tratamento. Você está em seu quarto, agora. Acorde, por favor, por favor!

— Helen... — disse ele, automaticamente tentando abraçá-la, mas estava muito fraco para isso. Helen o empurrou sem esforço.

— Tente lembrar-se. Ele colocou tudo isso na sua mente. Adams me tirou dos controles... você lembra da dor? E da voz dele, dizendo que você me ama?

Kirk ergueu-se um pouco, escorando-se num cotovelo. Ainda sentia a dor e o desejo. Tentou lutar contra as duas coisas.

— Sim... acho que sim — e sentiu uma nova onda de dor — A máquina não é perfeita. Eu lembro... de alguma coisa.

— Ótimo. Vou molhar esse pano de novo.

Ela afastou-se e Kirk forçou-se a ficar de pé, em princípio um pouco zonzo, mas já procurando a porta. Trancada, era óbvio. Preso ali, com Helen, a idéia de Adams talvez fosse concretizar aquela paixão induzida, torná-la real... e fazê-lo esquecera Enterprise. Mas isso, nem pensar! Olhando ao redor, Kirk percebeu a grade do conduto de ar.

Helen tinha voltado e ele fez um gesto para que se aproximasse, pedindo também para que não falasse nada. Ela o acompanhou, curiosa. Kirk testou a grade, que resistiu à pressão. Jogando toda a força de seu corpo contra a proteção, ela acabou cedendo. Na segunda tentativa, Kirk conseguiu arrancá-la.

Agachou-se e olhou através da abertura, que mostrava um túnel além do qual não havia apenas um duto; era um espaço apertado, tomado de fiação elétrica. Kirk imaginou que isso poderia ser superado, tomando-se o cuidado de evitar o contato. Ele tentou entrar, mas seus ombros eram muito largos.

Kirk levantou-se e, inesperadamente, pegou a médica nos braços. Ela tentou recuar, mas ele procurou abraçá-la com sofreguidão, esperando que a médica entendesse sua intenção. Seus olhos, no entanto, revelavam a paixão que lhe fora implantada na mente. Depois de um momento de hesitação, ela também o abraçou.

— Adams deve estar nos observando e ouvindo — sussurrou Kirk. — Só espero que a câmera esteja focada na cama. Esse túnel deve fazer a conexão com todo o complexo penal. Provavelmente, leva à sala de manutenção de força. Se você puder desligar os sensores, Spock poderá nos mandar alguma ajuda sem que eles percebam. Quer tentar?

— Claro.


— Cuidado com a fiação. É um lugar bem apertado.

— É melhor que a sala de tratamento de Adams.

— Boa garota.

Kirk a olhou fixamente. A dor era muito forte, ela estava tão próxima, sua boca tão convidativa. Mesmo assim, conseguiu controlar-se. Ajoelhando-se, Helen contorceu-se por dentro do duto de ar e desapareceu. Kirk recolocou a grade imediatamente. Foi difícil ajeitá-la no lugar de novo, recuperar a forma original e Kirk torceu para que ninguém notasse que não estava fixa. Tentava recolocar o rebite na proteção quando ouviu o barulho da tranca da porta sendo acionada. Ele afastou-se do lugar a tempo do terapeuta entrar, levando em suas mãos uma velha pistola feiser. O homem olhou ao redor, mas sem curiosidade.

— Onde está a mulher?

— Um outro zumbi como você a levou daqui. Se a ferirem, eu os mato. É hora de outro "tratamento"?

Kirk deu um passo a frente. O homem ergueu a arma.

— Para trás! Vá em frente e siga pelo corredor. Eu não vou hesitar em atirar.

— Ia ser difícil explicar isso ao seu chefe. Tudo bem, estou indo.

Adams estava esperando; ele indicou a mesa de tratamento.

— Qual é o problema? — perguntou Kirk. — Estou cooperando, não estou?

— Se estivesse, não teria perguntado. Contudo, eu não pretendo dar explicações a você, capitão. Deite-se. Isso. Pronto.

O feixe neural do potencializador foi direcionado na cabeça de Kirk. Ele lutou, sentindo o vazio apoderar-se de sua mente. Dessa vez, pelo menos, sabia o que estava acontecendo, embora não pudesse fazer nada. Sua força de vontade estava se esvaindo, como se alguém tivesse aberto uma torneira em sua cabeça.

— Acredita em mim completamente — disse Adams. —Você acredita em mim. Confia em mim. O fato de pensar ao contrário causa muita dor. Você acredita.

— Eu acredito — repetiu Kirk, pois todo o resto era pura agonia. — Eu acredito em você. Eu confio em você. Eu confio em você! Pare! Pare!

Adams desativou os controles. A dor diminuiu, mas não foi embora.

— Vou lhe dar um crédito, capitão — disse Adams, pensativo. — Eu coloquei Van Gelder de joelhos, chorando, e ele tinha uma grande força de vontade. É bom ter uma dupla como vocês; posso aprender muito dessa forma.

— Mas... com... que propósito? Sua reputação... seu trabalho...

— Você ainda faz perguntas, capitão? Admirável. Não importa. Estou cansado de fazer essas coisas com os outros, é tudo. Eu quero uma velhice confortável. E eu sou um homem muito seletivo. Você vai me ajudar a conquistar isso.

— Claro... mas não é necessário... apenas confie em mim...

— Confiar em você? Naturalmente. Ou confiar na humanidade para me recompensar por tudo que já fiz? Tudo o que eu ganhei foi Tântalos, capitão. Isso não é suficiente. Eu sei como a mente das pessoas funciona. Ninguém sabe melhor do que eu.

O som da porta abrindo chamou a atenção de Kirk, que viu a terapeuta Lethe entrar e dizer:

—A doutora Noel desapareceu. Ninguém está com ela. Ela apenas sumiu.

Adams voltou ao painel e apertou o botão. O feixe de luz foi acionado, em força total. O crânio de Kirk parecia estar sendo drenado.

— Onde ela está?

— Eu... não sei...

A dor aumentava. — Onde ela está? Responda!

Não havia como responder. Simplesmente não sabia e a dor bloqueava qualquer outra resposta que não fosse a especificamente demandada. Compreendendo isso, dr. Adams diminuiu a intensidade de onda.

— Onde você a mandou? Com que instruções? Responda!

A dor aumentou de novo, ao limite do êxtase e, nesse mesmo instante, todas as luzes apagaram-se, com exceção de uma luz de emergência, no teto. Kirk sequer parou para pensar no que havia acontecido; levado pela agonia, agiu por reflexo e treinamento. Um momento depois, já dominara o terapeuta, jogado ao chão, e mantinha Lethe e Adams na mira do velho feiser.

— Não tenho tempo para você agora — disse Kirk e, ajustando o feiser na posição "tonteio", apertou o gatilho. Em seguida, já estava no corredor, uma massa viva de desejos, solidão e terror. Precisava encontrar Helen; não havia mais nada em sua mente a não ser a dor de ter traído a pessoa em quem devia confiar.

Atravessou o complexo penal, procurando desesperadamente a sala de força, tentando se livrar dos pacientes pelos quais passava e que lhe lançavam olhares mistos de temor e languidez. A procura era como um pesadelo sem fim. De repente, ele encontrara Helen e a estava beijando.

Mas nada parecia adiantar. Kirk a apertou mais forte nos braços. Ela retribuiu, mas sem entusiasmo. Em seguida, ouviram um ruído muito familiar: o som da materialização de um teletransporte.

— Capitão Kirk, o que... —Spock interrompeu-se ao ver o casal.

Helen livrou-se de Kirk. — A culpa não é dele. Rápido, Jim, onde está Adams?

— Lá em cima... — respondeu, com dificuldade. — Na sala de tratamento. Helen... Helen...

— Depois, Jim. Temos de correr até lá.


Eles encontraram Adams estirado na mesa de tratamento. O equipamento estava acionado. Lethe também estava lá, impassível, junto aos controles, de onde foi afastada pelos seguranças da Enterprise.

McCoy chegou e correu para Adams. Mas pouco podia fazer.

— Está morto, Jim.

— Não entendo — disse Helen. — A máquina não estava ajustada para matar. Isso não devia acontecer.

— Ele estava só — disse Lethe, friamente. — E isso é suficiente. Eu não falei com ele.

Kirk sentia seu crânio estourando. — Acho que entendo.

— Já não posso dizer o mesmo — falou McCoy. — Uma pessoa sempre morre por alguma causa palpável.

— Ele morreu de solidão — continuou Lethe. — Já é suficiente. Eu sei muito bem.

— O que fazemos agora, capitão? — quis saber Spock.

— Eu não sei... tragam... tragam Van Gelder de volta, vamos tentar salvá-lo. Espero que sim. Então ele poderá assumir de novo seu lugar. E então... será a minha vez de... Helen, eu não queria isso, era o que eu menos queria no mundo, mas...

— Também não queria — disse ela, suavemente. — Por isso temos de superar tudo. Foi bonito enquanto durou, Jim... vazio, mas bonito.

— É difícil acreditar — observou McCoy, um tempo depois. — Um homem que morreu de solidão.

— Não — disse Kirk, que estava melhor agora, bem melhor. Para ele, Helen voltara a ser apenas mais outra médica a bordo de sua nave. Mesmo assim...

— Não — repetiu ele. — Não é difícil de acreditar.




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