Star Trek episódios da série clássica tradução de Cristina Nastasi



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Sobre o episódio
O episódio O Punhal Imaginário marcou a estréia do "elo mental" ou "fusão mental" de Vulcano, uma habilidade que enriqueceu ainda mais o personagem de Spock. Porém, no roteiro original, a técnica da fusão mental não existia e Van Gelder era submetido ao efeito de uma engenhoca hipnótica de McCoy.

Outro elemento muito importante desse episódio, mas geralmente despercebido é a figura da dra. Helen Noel, uma das poucas mulheres realmente independentes mostradas pelo seriado. Jovem e atraente, a eficiente médica teve um rápido e inconseqüente caso com o capitão Kirk e permaneceu na nave, auto-suficiente e nada subserviente ao trabalhar de igual para igual com seu superior, um comportamento pouco comum aos personagens femininos da série e muito avançado para os padrões sociais da época em que foi ao ar.

É curioso destacar que originalmente esse personagem não existia, pois seria a ordenança Rand que iria acompanhar Kirk até a colônia penal. Mas, na ocasião, a atriz Grace Lee Whitney já estava com muitos problemas por causa de sua dependência alcoólica, o que criou a necessidade de uma substituição.

Característica em vários episódios de Star Trek é o uso de nomes de personagens ou de lugares com algum significado ou que remetam a alguma coisa. No caso de O Punhal Imaginário temos a personagem Lethe (vivido pela atriz Suzanne Wasson) uma interna na Colônia Penal de Tantalus que esqueceu seu passado criminoso.

Na mitologia grega, Lethe é o Rio do Esquecimento que como os outros rios do Hades expressam simbolicamente os tormentos que aguardam os condenados: Aqueronte, o rio das dores; Cocito, o rio dos gemidos e das lamentações; Estige, o gélido rio dos horrores; Piriflegetonte, o rio das chamas inextinguíveis.

Já Tântalo é o rei da Lídia, filho de Zeus, que foi abençoado pelos deuses como o mais rico e próspero dos homens. Os deuses até o admitiam em seus banquetes e conselhos. Tântalo, porém, traiu a amizade e confiança dos deuses: na primeira traição, revelou aos homens segredos divinos; na segunda, roubou néctar e ambrosia para oferecê-los a seus amigos mortais. A terceira lhe valeu a condenação eterna: Tântalo desejando saber se os deuses eram mesmo oniscientes, sacrificou o próprio filho Pélops e ofereceu-o como iguaria àqueles. Os deuses se deram conta do fato e recusaram a ímpia comida, exceto Deméter, que, preocupada com o rapto de sua filha Perséfone, comeu um ombro. Os deuses, entretanto, recompuseram-no e fizeram-no voltar à vida. Tântalo foi lançado no Tártaro, condenado para sempre ao suplício da sede e da fome. Mergulhado até o pescoço em água fresca e límpida, quando ele se abaixa para beber, o líquido se lhe escoa por entre os dedos. Árvores repletas de frutos saborosos pendem sobre sua cabeça; ele faminto, estende as mãos crispadas, para apanhá-los, mas os ramos bruscamente se erguem. E acima dele pende o Monte Sípilo, sempre ameaçando cair.




Miri

Título da adaptação: Miri

Título do episódio: Miri

Título em português:

Miri (nas duas versões)
Data da primeira exibição: 27/10/66

Data estelar: 2713.5

História de Adrian Spies

Direção de Vince McEveety


Atores convidados:

Miri: Kim Darby

Tenente John Farrell: Jim Goddwin

Jahn: Michael J. Pollard



Miri

Era normal que um sinal de SOS chamasse a atenção, mas existia uma boa razão para que esse sinal em particular atraísse um interesse maior da tripulação da Enterprise. Para começar, não houve dificuldades em localizar sua procedência, uma vez que não se originava de uma nave em emergência e sim de um planeta captado em meio às estrelas, através da freqüência de geradores mais poderosos do que os das naves estelares.

Todo um planeta em emergência? Surpresas maio-

res, no entanto, ainda estavam por vir. O planeta em questão fazia parte do Sistema Solar de 70 Ofiúcos, um sol a menos de quinze anos-luz da Terra. Isso significava que o sinal de emergência poderia ter sido captado menos de uma década depois de lançado, a não ser que houvesse algum tipo de problema: da Terra, 70 Ofiúcos podia ser visto ao fundo da Via Láctea, cujas nuvens maciças de átomos de hidrogênio emitiam 21 centímetros de radiação, num volume cerca de quarenta vezes maior do que o normal. Ninguém poderia supor que os geradores do planeta, por mais poderosos que fossem, conseguiriam atravessar essa estática estelar com um sinal inteligível, mesmo um simples S.O.S. A tenente Uhura, oficial de comunicações da Enteprise, captou o sinal só porque a nave estelar estava passando na hora certa pelo grupo local de estrelas, num raio arbitrário de cem anos-luz em diâmetro, tendo a Terra em seu centro.

Tudo isso, no entanto, não era nada comparado aos fatos registrados no computador biblioteca. Porque o quarto planeta de 70 Ofiúcos, segundo o computador, constava como o primeiro planeta extra-solar a ser colonizado pelo homem - por um pequeno e bem equipado grupo de refugiados do desastre político conhecido como Paz Fria, há uns quinhentos anos. O planeta fora visitado apenas uma vez desde então. Os colonizadores, que não esqueceram dos erros de seu passado, atiraram contra os visitantes e sua mensagem foi prontamente entendida.

Além disso, a Galáxia estava cheia de lugares bem mais interessantes do que o fim de mundo que era o Sistema 70 Ofiúcos. Os refugiados foram deixados em paz para aproveitarem de seu tão estimado isolamento.

Mas agora eles estavam pedindo socorro.

À primeira vista era fácil ver por que os colonizadores, apesar de estarem em fuga, optaram por um mundo que, curiosamente, tinha tudo para lembrar os perigos de sua terra natal. O planeta em questão tinha uma semelhança impressionante com a Terra, com seus imensos mares cobrindo a maior parte da superfície e o céu em boa parte coberto por nuvens. Possuía um hemisfério grande e losângico, verde e montanhoso; o outro era formado por duas espécies de triângulos menores, ligados por um imenso arquipélago repleto de ilhas maiores do que Bornéu. A tela visual da nave, em magnificência total, mostrava inúmeras cidades e, mais surpreendente ainda, várias áreas de cultivo.

Mas nenhuma luz era vista no lado noturno do planeta, nem qualquer sinal de rádio ou emissão de energia evidenciava uma civilização em atividade. As tentativas de comunicação da Enterprise, tão logo a nave entrou em órbita, não obtiveram respostas. Apenas a repetição constante do S.O.S., que agora começava a parecer suspeita-mente mecânico.

— Seja lá qual for o problema, evidentemente chegamos muito tarde — concluiu o sr. Spock.

— É o que parece — concordou o capitão Kirk. — Mas vamos descer e verificar. Senhor Spock, dr. McCoy, ordenança Rand e dois seguranças, peguem seus equipamentos e me encontrem na sala de transporte.



O grupo de descida materializou-se numa praça central da maior cidade exibida pela tela, mas não havia ninguém por lá. Sem demonstrar surpresa, Kirk olhou ao redor.

A arquitetura era um pouco parecida com a da Terra, por volta do ano 2100, quando os colonizadores iniciaram sua viagem. Aparentemente o local estava desabitado por um período também longo. As evidências da erosão do tempo estavam por todos os cantos, nas calçadas desgastadas, na vegetação crescendo, nas janelas quebradas e nos montes de lixo e sujeira acumulados. Por toda a praça havia carcaças enferrujadas do que poderiam ter sido veículos.

— Sem sinais de guerra — observou Spock.

— Alguma epidemia? — sugeriu McCoy.

Perto de um chafariz seco e cheio de terra, Kirk achou outro objeto bem antigo: um triciclo infantil, também recoberto de ferrugem, mas ainda funcionando, como se estivesse ficado protegido dentro de casa no mesmo período em que os carros maiores foram expostos às intempéries externas. Havia uma sineta no guidão do brinquedo e, movido por um obscuro impulso, Kirk resolveu tocá-la.

O som varou o silêncio reinante e obteve uma resposta imediata, a de uma criatura quase inumana que surgiu, de repente, gritando com raiva e angústia.

— É minha! É minha!

Kirk e seus homens voltaram-se para olhar aquela terrível criatura humanóide, avançando contra eles, agitando os braços e gritando ameaçadoramente. Movendo-se com tanta rapidez que era impossível para Kirk reparar nos detalhes. A criatura, que aparentava uma idade bem avançada, dava a impressão de ser um amontoado de sujeira e farrapos. Foi quando o ser misterioso investiu contra McCoy, o atingiu e o colocou a nocaute.

Todos correram para ajudar, mas a criatura tinha uma força inacreditável. Por um momento, Kirk esteve frente a frente com ela q tudo o que pôde ver foi uma face envelhecida e uma boca que, sem dentes e com um odor desagradável, delineava um sentimento de selvageria e ódio, realçado pelas lágrimas que brilhavam em seus olhos. Instintivamente, Kirk o empurrou para longe.

O golpe não pareceu ser dos mais fortes, mas a criatura começou a soluçar caída ao chão. Ela era, na realidade, um homem velho, vestido apenas com um calção, uma camisa rasgada e alpargatas gastas. Sua pele estava coberta com imensas manchas multicoloridas. Havia algo de muito estranho em relação a isso, mas o quê? Seria ele tão velho quanto parecia ser?

Ainda choramingando, a criatura olhou para o triciclo e o pegou. — Conserta — pediu, entre soluços. — Alguém conserta.

— Certo — disse Kirk, olhando-o intensamente. — Vamos consertar.

A criatura riu. — Mentiroso! — A voz gradualmente foi aumentando até ser retomada pela raiva. — Vocês fazeu isso! Mentiroso! Mentiroso!

Suas mãos envelhecidas agarravam o triciclo como se fosse uma arma e, ao mesmo tempo, a criatura parecia querer evitar a visão das manchas na pele de seu braço nu. Seu grito morreu numa lamúria. —Conserta... por favor... conserta...

Os olhos da criatura ficaram esbugalhados, seu peito estufou e, em seguida, ela caiu e ficou imóvel. Estava morto.

McCoy ajoelhou-se a seu lado e o examinou com o tricorder.

— Impossível — murmurou o médico.

— Que esteja morto? — perguntou Kirk.

— Não, que pudesse ter estado vivo. A temperatura do corpo é mais de cento e cinqüenta graus. Devia estar queimando por dentro. Ninguém pode viver com essa temperatura.

Kirk virou-se subitamente. Ouvira outro som, vindo de um beco atrás deles.

— Será mais outro? — murmurou, tenso.—Alguém está nos espreitando... ali! Vamos tentar pegá-lo e ver se conseguimos alguma informação... Agora!

Eles correram em direção ao som. Mais adiante, puderam ouvir que alguém também corria.

O beco estava escuro e terminava no que parecia ser um pequeno prédio de dois andares. Não havia outro lugar onde se esconder. Os homens de Kirk entraram com prudência, com os feisers já preparados.

A busca os levou ao que parecia ter sido uma sala de estar, onde havia um piano empoeirado, com um caderno de exercícios musicais sobre ele. Numa das páginas estava rabiscado "praticar, praticar, praticar!”. Mas ali não havia onde se esconder, a não ser um grande armário. Prestando atenção, Kirk pensou ouvir uma respiração agitada e, em seguida, um rangido. O capitão gesticulou e Spock e um dos seguranças fizeram sua cobertura.

— Venha — disse Kirk, suavemente. — Não vamos machucá-lo. Saia de onde estiver.

Não houve resposta, mas a respiração estava mais forte. De forma inesperada, a porta do armário foi aberta. Em meio à confusão de montes de roupas, sapatos e até guarda-chuvas velhos estava uma jovem moça de cabelos escuros, com cerca de quatorze anos, talvez ainda mais jovem, mas visivelmente apavorada.

— Por favor — murmurou ela. — Não me machuquem. Por que vocês vieram?

— Não vamos machucá-la. Queremos ajudar — Kirk estendeu a mão para ajudá-la a levantar, mas isso só a fez recuar ainda mais para dentro do armário. Ele olhou para Janice Rand em busca de ajuda e a ordenança aproximou-se para ajoelhar-se junto à porta aberta.

— Está tudo bem. Ninguém vai machucá-la. Nós prometemos.

— Eu lembro das coisas que vocês fizeram — disse a menina, sem fazer um movimento sequer. — Gritando, queimando, machucando as pessoas.

— Não fomos nós — disse Janice. — Saia daí e conte pra gente o que aconteceu.

A garota olhou, em dúvida, mesmo assim permitiu que Janice a levasse até uma cadeira. Uma nuvem de poeira espalhou-se quando sentou e a menina ainda parecia tentada a levantar e sair correndo.

— Vocês querem brincar — disse ela. — Mas eu não posso brincar. Eu não sei as regras.

— Nós também não

— disse Kirk. — O que aconteceu com as pessoas? Houve uma guerra? Uma epidemia? Elas foram para algum lugar e a deixaram aqui?

— Vocês tinham de saber. Vocês fizeram tudo... vocês e os outros grupos.

— Grupos, que grupos?

A garota olhou para Kirk, admirada. — Vocês são grupos. Todos os ????.

— Adultos — sugeriu Janice. — É isso que ela quer dizer, capitão.

Spock, que estivera investigando silenciosamente o cômodo com seu tricorder, aproximou-se de Kirk, demonstrando estar intrigado.

— Ela não deve viver aqui, capitão. A poeira assentada mostra que ninguém usa o lugar pelo menos há trezentos anos, talvez mais. Sem radiatividade, sem contaminação química, apenas poeira de muito tempo.

Kirk voltou a olhar a menina. — Senhorita... por falar nisso, como você se chama?

— Miri.


— Certo, Miri. Você disse que os grupos fizeram aquilo tudo. Queimaram, feriram as pessoas. Por quê?

— Eles fizeram isso quando começaram a ficar velhos. Tivemos de nos esconder — Olhou para Kirk em busca de aprovação. — Estou fazendo certo? Estou brincando direito?

— Está, sim. Disse que os adultos ficaram doentes. Eles morreram?

— Grupos sempre morrem — A resposta evidenciava que talvez não adiantasse muito continuar fazendo perguntas à menina.

— E as crianças?

— Os únicos? Não, claro que não. Estamos aqui, não estamos?

— Existem outros? — perguntou McCoy. — Quantos?

— Todos que existem.

— Senhor Spock, pegue os seguranças e veja se conseguem encontrar mais sobreviventes... — disse Kirk para seu primeiro oficial, depois voltando-se para Miri: — Então os grupos foram embora?

— Bom, até que aconteceu... você sabe... como quando acontece a um único. Então você fica como um deles. Você quer ferir as pessoas, como elas faziam.

— Miri — interrompeu McCoy. — Alguém nos atacou lá fora. Você viu? Aquilo era um grupo?

— Aquele era Floyd. Aconteceu pra ele. Ele virou um. Está acontecendo comigo, também. É por isso que não posso mais ficar com meus amigos. Quando a gente começa a mudar, os outros ficam com medo... Não gosto do seu brinquedo. Não é divertido.

— Do que eles têm medo? — insistiu Kirk.

— Você viu Floyd. Eles tentam machucar todo mundo. Primeiro você ganha marcas na pele. Depois você vira grupo e quer machucar as pessoas, matar as pessoas.

— Não somos assim. Viemos de muito longe, lá das estrelas. Sabemos muitas coisas. Talvez possamos ajudá-la, se você nos ajudar.

— Grupos não ajudam. Eles são únicos que fazem mal.

— Nós não fazemos mal, e queremos mudar isso. Talvez possamos, se você confiar em nós.

Janice segurou o rosto da menina. — Por favor? — perguntou, meigamente. Depois de um momento, Miri mostrou um tímido sorriso.

Antes que pudesse falar, contudo, houve um estrondo prolongado, como se alguém esvaziasse uma lata de lixo de cima de um telhado. O som foi seguido pelo zunido característico de um feiser sendo acionado.

Ao longe, uma voz de criança chorava: — Nã-Nã-Nã-Nã-Nã.

— Seguranças! — gritou Spock.

Agora eram muitas as vozes infantis, vindas de todos os lados: — Nã-Nã-Nã-Nã-Nã-Nã.

Fez-se, então, silêncio, exceto pelos ecos.

— Parece — disse Kirk para Miri — que seu amigos não querem ser encontrados.

— Talvez não seja o primeiro passo a ser dado, Jim — disse McCoy. — Seja lá o que aconteceu por aqui, deve haver registro em algum lugar. Se vamos fazer algo, temos de arregaçar as mangas. O melhor lugar onde começar provavelmente é um centro público de saúde. E aí, Miri? Existe um lugar onde os médicos costumavam trabalhar? Talvez um prédio do governo?

— Conheço um lugar — disse ela, desgostosa. — Eles e as agulhas deles. É um lugar ruim. Ninguém vai lá.

—Mas é aonde temos de ir — explicou Kirk. — É importante se quisermos ajudá-la e aos seus amigos. Por favor, nos leve até lá.

O capitão ofereceu a mão à menina e ela, muito hesitante, a segurou. Depois o olhou, começando a sentir um certo encantamento.

— Jim é um nome bonito. Eu gosto.

— Gosto de seu nome também. E gosto de você.

— Sei que gosta. Você não pode ser um grupo. Você é... diferente — Sorriu e levantou, graciosamente. Nesse movimento, ela baixou os olhos e pareceu dominada por um pavor interior. Kirk a sentiu apertando forte sua mão para, em seguida, cuidadosamente soltá-la.

— Oh! — sussurrou ela, chocada. —Já começou!

Kirk olhou para sua mão, mais ou menos consciente do que iria encontrar. Nela havia uma imensa mancha azul.

O laboratório era muito bem equipado e, como estivem fechado e não tinha janelas, havia muito menos poeira sobre as mesas e os instrumentos. Seu tamanho e falta de aberturas o tornavam um pouco desagradável, mas ninguém parecia disposto a reclamar disso; Kirk estava até grato por seu aspecto pouco atraente, o que evitou que o lugar fosse pilhado.

As manchas azuis haviam aparecido em todos agora, embora as do sr. Spock fossem menores e surgissem mais lentamente, o que era natural, já que sua biologia era diferente do resto dos tripulantes ou dos colonizadores do planeta. Era óbvio que sua origem não-terrestre concedia a ele uma espécie de imunidade ou, pelo menos, resistência.

O doutor McCoy procedera à biópsia das lesões: algumas amostras coletadas foram mantidas em estado puro, outras foram colocadas para formar culturas variadas. Na placa de petri havia surgido uma colônia azul brilhante e rugosa, que era composta por uma ativa e fecunda bactéria muito parecida com espiroquetas. McCoy, contudo, estava convencido de que esta não era a causa da doença, mas apenas um elemento secundário.

— Primeiro, elas não infectaram nenhuma das cobaias que a nave me enviou — disse McCoy. — O que significa que eu não posso aplicar o Postulado de Koch. Segundo, existe um número altamente anormal de mitoses na amostra de tecido e a aparência fica entre uma metaplasia escamosa e um neoplasma puro. Terceiro, a placa de cromossomos mostra tantos deslocamentos...

— Ok, me convenceu — interrompeu Kirk. — O que isso significa?

— Acho que a doença propriamente dita é causada por um vírus. As espiroquetas devem ajudar, é claro; existe uma doença terrestre chamada Angina de Vincent que é causada por dois microorganismos que trabalham em conjunto.

— Isso é transmissível?

— Muito, por contato físico. Você e a ordenança Rand contraíram de Miri; nós contraímos de vocês dois.

— Então é melhor providenciar para que isso não aconteça mais — Kirk pegou o comunicador. —

Kirk para Enterprise. Ninguém, repito, ninguém, sob quaisquer circunstâncias, deve descer a esse planeta até segunda ordem. O planeta está altamente infectado. Estabelecer procedimento completo de descontaminação quando qualquer um de nós voltar a bordo.

— O computador? — lembrou McCoy.

— Ah, sim. Envie-nos um bio-computador portátil, para trabalho minucioso. Quando voltarmos, ele também deve ser submetido ao processo de descontaminação.

— Capitão — chamou Spock. O vulcano estivera remexendo nas pastas de arquivos que ocupavam toda uma parede e agora voltava, com uma das pastas na mão. — Acho que encontrei alguma coisa.

Todos aproximaram-se, menos McCoy, que permaneceu trabalhando no microscópio. Spock entregou a pasta a Kirk e começou a pegar outras. — Existe uma gaveta cheia delas. Aparentemente, centenas de pessoas estiveram trabalhando no caso. Nenhum bio-computador portátil será capaz de processar tantos dados, não em menos de um ano.

— Então vamos passar os dados para os computadores da nave através do comunicador — disse o capitão, observando a pasta em suas mãos. Nela estava escrito:


Relatório de Progressos

Projeto de Prolongamento da Vida

Seção de Genética
— Então foi isso — admirou-se Janice.

— Não sabemos ainda — corrigiu o capitão. — Mas se foi isso mesmo, então deve ter sido a maior bomba da Galáxia. Certo, vamos trabalhar. Miri, você pode ajudar também: espalhe essas pastas em cima da mesa e separe por categorias, uma para genética, outra para virologia, outra pra imunologia e assim por diante. Não importa o que significam as palavras, apenas vá agrupando.



O quadro pouco a pouco foi se formando, com angustiante lentidão. O princípio geral era bem claro: uma tentativa de conter o processo de envelhecimento através da reparação seletiva de células em mutação. Envelhecer seria, em princípio, o acúmulo de células cujas funções normais foram parcialmente danificadas por mutações, mutações essas causadas pela entrada de radicais livres no núcleo celular, daí a desorganização do código genético. Os cientistas dos colonizadores sabiam muito bem que não havia como obstruir os radicais livres, que são criados em qualquer parte do ambiente, por radiação, por raios solares, por combustão e até mesmo digestão. Ao invés disso, os homens de ciência resolveram criar um elemento auto-replicante, uma espécie de substância virótica, que permaneceria em forma latente na corrente sangüínea até que uma célula sofresse algum tipo de dano; o vírus, então, penetraria na célula e substituiria o elemento danificado. A injeção com essa substância seria aplicada no momento do nascimento, antes do mecanismo imunológico do bebê entrar totalmente em ação. Dessa forma, seria "englobada", isto é, aceita como substância normal ao corpo e não como um elemento invasor a ser combatido pelo organismo. Essa substância permaneceria passiva até ser ativada pelos hormônios da puberdade, de modo a não interferir com os processos normais de crescimento.

— É o projeto mais audacioso de que já ouvi falar em toda minha vida — declarou McCoy. — Se essa coisa funcionasse, poderia ser um excelente mecanismo preventivo de câncer. O câncer é, essencialmente, uma explosão local do processo de envelhecimento, de uma forma bem virulenta.

— Mas não funcionou — acrescentou Spock. — A substância era muito parecida com um vírus, por isso os cientistas perderam o controle sobre ela. Oh, sim, ela prolongava a vida, é certo, mas apenas nas crianças. Quando a puberdade finalmente chegava, ela as matava.

— Quanto? — perguntou Rand.

— Você quer dizer, o quanto a vida é prolongada? Não temos idéia porque a experiência não durou tanto. Tudo que sabemos é o ritmo do processo: a substância era injetada em crianças com cerca de um mês de vida, tempo fisiológico, para cada cem anos. Para as crianças, obviamente, funciona desse jeito.

Janice olhou para Miri. — Um mês em cem anos! E a experiência foi feita há trezentos anos! Infância eterna... é como um sonho.

— Um sonho muito ruim, ordenança — disse Kirk. — Nós aprendemos através de exemplos e responsabilidades. Miri e seus amigos foram privados de ambas as coisas. É um beco sem saída.

— Com uma morte particularmente feia pela frente — concordou McCoy. — É impressionante como tantas crianças sobreviveram. Miri, como vocês ficaram depois que os grupos morreram?

— A gente tinha brincadeiras. A gente se divertia. Não tinha ninguém pra dizer "não" pra gente. E quando a gente tinha fome, a gente comia qualquer coisa. Tinha um monte de coisas em latas e um monte de mamis.

— "Mamis"?

— Você sabe — Miri começou a gesticular, passando a idéia do que pareceu ser um abridor de latas. Janice estava estarrecida com a situação e afastou-se para tentar controlar-se. — Jim... — continuou Miri — agora que você descobriu o que estava procurando... vocês vão embora?

— Não, não. Temos muitas coisas ainda para aprender. Os grupos parecem ter feito a experiência numa seqüência bem definida, uma espécie de cronograma. Já encontrou alguma coisa do tipo, sr. Spock?

— Não, senhor. Provavelmente está guardado em outro lugar. Se fosse projeto meu, eu o manteria num local seguro, uma vez que essa é a chave de tudo.

— Receio ter de concordar. A menos que descubramos isso, Miri, não seremos capazes de identificar o vírus, sintetizá-lo e elaborar uma vacina.

— Isso é bom — disse Miri. — Quer dizer, que vocês não vão embora. A gente pode se divertir... até a coisa acontecer.

— Talvez possamos impedir que aconteça. Senhor Spock, suponho que não tenha conseguido chegar perto das outras crianças.

— Sem a menor chance, capitão. Elas conhecem a área muito bem. Como ratos.

— Então vamos tentar uma outra aproximação.

Miri, você nos ajuda a encontrar algum deles?

— Não vamos encontrar nenhum — respondeu, com firmeza. — Eles estão com medo. Não gostam de vocês. Eles estão com medo de mim, também, agora que... — parou, triste.

— Vamos tentar fazê-los compreender.

— Os únicos? Não vai conseguir. Essa é a melhor coisa de ser um único. Ninguém espera que você entenda nada.

— Você entende. Subitamente, os olhos de Miri encheram-se de lágrimas. — Não sou mais um único — e, dizendo isso, correu para fora da sala.

Janice a olhou partir, angustiada.

— Capitão, aquela menininha...

— ... é trezentos anos mais velha que você, ordenança — interrompeu Kirk. — Não precipite nenhuma conclusão. Deve existir algum tipo de diferença no caso dela... tenhamos nós percebido ou não.

Logo depois, Miri estava de volta, à procura de algo para fazer, como se a explosão emocional nunca tivesse acontecido. Para ocupá-la, Spock pediu que fizesse pontas nos lápis, que abundavam no laboratório. Ela entregou-se à tarefa com dedicação, embora não tirasse os olhos de Kirk. O capitão tentou fingir não ter notado isso.

— Capitão? Aqui é Farrell — chamou o oficial a bordo da nave. — Estamos prontos para receber os dados.

— Certo, fique a postos. Senhor Spock, de que o senhor precisa?

Miri mostrou um monte de lápis apontados. — São suficientes?

— Ah? Ah, poderíamos precisar de um pouco mais, se você não se importar.

— Ah, não, Jim. Por que eu me importaria?

— Nosso amigo — disse Spock, indicando uma pilha de papéis em cima da mesa — deixou todas essas notas nas últimas semanas, depois que o desastre começou. Dei uma olhada nos registros mais recentes; ele diz que estava fora de si, muito doente, para ter certeza de que não estava delirando, e concordo com essa precaução. Mas essas últimas anotações podem nos ajudar a descobrir quanto tempo nos resta. A propósito, está claro que o estágio final da doença é bem típico. Tendência homicida.

— E nada identifica a origem do vírus ou sua química? — perguntou McCoy.

— Nada. Ele acreditava que alguém mais estava tratando disso em um outro relatório. Talvez alguém estivesse fazendo isso e nós ainda não encontramos as anotações... ou talvez tenha sido tudo alucinação do cientista em questão. De qualquer modo, os primeiros sintomas da doença são febre intensa... dor nas articulações... perturbação na visão. Então, eventualmente, a tendência homicida se manifesta. Por sinal, dr. McCoy, o senhor estava certo sobre as espiroquetas. Elas contribuem para o processo. São elas que causam a tendência, não o vírus. E doença agirá mais rápido em nós porque não a carregamos em sua forma latente como Miri.

— E quanto a ela? — perguntou Kirk, em voz baixa.

— Dependemos da análise do computador. Teoricamente, acho que deve sobreviver umas cinco ou seis semanas além de nós, isso se não a matarmos antes...

— É suficiente agora? — perguntou Miri, aproximando-se com mais lápis.

— Não, não é! — gritou Kirk, descontrolado, irritado.

Miri o olhou assustada e seu lábio inferior tremeu, choroso. — Está certo, Jim — falou baixinho — não queria deixar você zangado.

— Sinto muito, Miri. Não estava falando com você. Não estou zangado — Ele voltou-se para Spock. — Certo, então não sabemos ainda contra o que estamos lutando. Forneça seus dados a Farrell e pelo menos vamos tentar descobrir sobre o fator tempo. Droga! Se conseguíssemos identificar esse vírus, os laboratórios da nave fariam uma vacina para nós em vinte e quatro horas. Mas não estamos nem no início.

— Talvez estejamos — murmurou McCoy. — Talvez seja um programa maciço para os computadores processarem, mas talvez funcione. Jim, você sabe como as mentes burocráticas funcionam. Se esse laboratório for parecido com outros projetos de governo que eu já vi, então eles deviam ter como regulamento quintuplicar todos os tipos de informação. Em algum lugar por aqui deve haver um arquivo com cópias de outros laboratórios. Eles devem nos mostrar o resultado do consumo de certos reagentes, em tempos diferentes. Posso tentar trabalhar com os itens de rotina, mas precisaremos analisar cada significado. Existe pelo menos uma chance de que essas análises possam nos ajudar a reconstruir o cronograma perdido.

— É uma boa idéia — concordou Spock. — A questão é...

O vulcano foi interrompido pelo som do comunicador de Kirk.

— Kirk falando.

— Farrell para o grupo de terra. Os dados do sr. Spock indicam que vocês têm apenas sete dias...

Por um longo momento, o único som ouvido era o do apontador de lápis funcionando. Spock falou, com sua calma habitual. — Essa era a pergunta que eu ia fazer. Por mais que admire o plano do dr. McCoy, certamente vai precisar de mais tempo do que temos.

— Não necessariamente — disse McCoy. — Se é verdade que as espiroquetas causam a tendência homicida, podemos usar antibióticos para contê-las e, assim, tentar manter nossas mentes lúcidas o maior tempo possível...

Algo caiu no chão, produzindo barulho de estilhaços. Kirk voltou-se e viu Janice Rand atrapalhada, limpando algumas lâminas de McCoy entre os restos de uma proveta de ácido crômico. A substância corrosiva e amarelada estava espalhada pelo chão, além de estar salpicada nas pernas da ordenança. Pegando um chumaço de algodão, Kirk ajoelhou-se junto a ela para ajudá-la.

— Não, não! — soluçou Rand. — Não me ajude! Não pode me ajudar!

Quase tropeçando em McCoy e Spock, Janice saiu correndo do laboratório, chorando. Kirk correu atrás dela.

— Fique aqui. Continue trabalhando. Não percam um minuto — determinou, antes de sair.

Janice deteve-se no corredor e voltou-se para ele, chorando convulsivamente. Kirk continuou enxugando as pernas da ordenança, tentando ignorar as terríveis manchas azuladas que tomavam conta delas. Janice continuava chorando. Um tempo depois, falou em voz baixa:

— Na nave, você nunca notou minhas pernas.

Kirk forçou um sorriso. — A responsabilidade do comando, ordenança: ver apenas o que os regulamentos consideram pertinentes... Pronto, está melhor, mas agora é preciso um pouco de água e sabão.

Ela parecia extenuada, mas não mais histérica.

— Capitão, não queria ter feito aquilo.

— Eu sei. Esqueça.

— Foi tão estúpido, um desperdício... Senhor, sabe o que penso disso tudo? Não devia, mas continuo pensando. Tenho apenas vinte e quatro anos... e estou com medo.

— Sou um pouco mais velho, ordenança. E estou com medo também.

— Está?


— Claro. Eu não quero me tornar uma daquelas coisas, assim como você. Estou mais que assustado. Vocês são responsabilidade minha. Eu os trouxe aqui. Estou com medo por todos nós.

— Mas o senhor não demonstra isso. O senhor nunca mostra isso. O senhor sempre parece mais corajoso do que todos nós juntos.

— Bobagem — sorriu. — Só um idiota não sente medo quando existe algo do que sentir medo. O homem que não sente medo não é um corajoso, é apenas um idiota. A coragem faz com que você vá em frente e encare o perigo, ao invés de ficar paralisado pelo medo. Mas, principalmente, faz com que você não entre em pânico por causa das outras pessoas.

— É uma bela lição

— disse Janice, assumindo uma postura ereta. Mas, ao mesmo tempo, sentia ainda vontade de chorar. — Sinto muito — murmurou, tensa.

— Quando voltarmos à nave, seria melhor que o senhor procurasse uma ordenança que não fosse chorona.

— Pode considerar seu pedido de transferência negado.

Ele a abraçou gentilmente e Janice tentou sorrir, enquanto deixava-se conduzir de volta ao laboratório.

Miri estava em meio ao caminho, parada, observando a cena, com seus olhos cheios de uma impenetrável mistura de emoções - surpresa, contrariedade, ódio, talvez. Kirk ia falar algo, mas a menina deu de costas e foi embora. Ele pôde ouvir seus passos se afastando e, depois, o silêncio.

— Problemas, problemas... — murmurou o capitão, resignado. — É melhor voltarmos.

— Aonde vai Miri? — interessou-se McCoy, no momento em que entraram no laboratório. — Ela parecia estar com presa quando saiu daqui.

— Eu não sei. Talvez tenha ido procurar por outros únicos. Talvez tenha se cansado de nós. Não temos tempo para pensar nisso. O que fazemos agora?

— O próximo passo é prevenção de acidentes. Eu deveria ter pensado nisso antes, mas o acidente com Janice me alertou para o fato. Existe um monte de reagentes corrosivos por aqui e, se tivermos sorte, em breve estaremos mexendo com material infeccioso também. Quero todos vocês usando uniformes de laboratório, de forma que possamos trocá-lo sempre que algo espirrar em nós. Aqui tem um armário cheio deles. Vamos tirar nossas roupas e deixá-las lá fora.

— Muito bem, vamos fazer isso. E quanto ao equipamento, feisers e etc?

— Vamos ficar apenas com um feiser aqui, para uma emergência, se você não se importar de jogar tudo fora antes de voltarmos. Todas as outras coisas, vamos jogar fora.

— Certo. E depois?

— As análises medicas estão no mesmo ponto. Até agora, são exclusivamente estatísticas e, embora a idéia tenha sido minha, vou passá-las para as mãos do sr. Spock. Estatísticas deixam minha cabeça embaralhada.

Kirk sorriu. — Muito bem. Senhor Spock, assuma.

— Sim, senhor. Primeiramente, temos de encontrar aquelas pastas com as prováveis cópias de outros trabalhos. O que significa outra procura nos arquivos.

O problema, em síntese, era simplesmente inventar uma doença. Os registros foram revirados com relativa rapidez e grande minúcia. A suposição de McCoy estava correta: era óbvio que a mente burocrática não sofrerá uma modificação significativa apenas pelo fato de terem feito uma viagem de alguns anos-luz do planeta onde foram desenvolvidas. Tudo no laboratório vinha acompanhado por, pelo menos, umas três cópias de requerimento.

McCoy achou melhor estabelecer uma categoria de importância dos dados, numa escala de dez (de "zero = a sem o menor sentido" a "10 = importância fundamental"), e o bio-computador passou a processar cada item classificado a partir de "cinco", de maneira a alimentar com dados o computador central da Enterprise, com a menor perda de tempo possível. O processamento da codificação era rápido, mas atribuir a importância específica de cada item a ser codificado era uma questão de julgamento humano e, a despeito de suas negativas, McCoy era o único homem presente com condições de fazer isso com alguma segurança. Spock poderia identificar, dado um certo número de amostras, o que parecia ter importância estatística, mas apenas McCoy poderia discernir se as associações eram médicas, financeiras ou apenas burocráticas.

Esse trabalho levou dois dias, contados no relógio. Na manhã do terceiro dia, Spock disse:

— Esses cartões contém tudo o que o bio-computador pode fazer por nós — Voltou-se para Miri, que havia voltado no dia anterior, sem dar explicações, sem demonstrar modificações em seu comportamento, e com a mesma vontade de ajudar. — Miri, se você empilhar todos eles e introduzi-los nesse aparelho, vamos enviar os dados para a Enterprise e, dessa forma, daremos condições a Farrell de trabalhar. Devo confessor que não consigo ver o menor padrão neles.

— Eu vejo — disse McCoy. — É claro que o agente ativo não deve ser apenas um vírus, uma vez que poderia ser eliminado do corpo entre a aplicação da injeção e a puberdade, caso não se reproduzisse. E os vírus de verdade não se reproduzem sem invadir a célula, o que, nesse caso, não acontecer por uns dez ou doze anos, dependendo do sexo do hospedeiro. Isso parece mais uma rickettsiose, com alguns mecanismos enzímicos intactos, de maneira que possa alimentar-se e reproduzir-se a partir de material que absorve dos fluidos corporais, do lado de fora da célula. Quando os hormônios da puberdade se manifestam, o elemento fragmenta parte de sua organização e torna-se um vírus de verdade. Portanto, o mecanismo de fragmentação pode ser um esteróide solúvel. E apenas os esteróides sexuais estão envolvidos. Todas essas condições obedecem a uma seqüência implacável.

— Já dá para dar um nome a isso? — perguntou Kirk, tenso.

— Nem pensar. Eu nem mesmo sei se estou no caminho certo; toda essa elucubração é intuitiva. Mas faz sentido. Acho que alguma coisa muito parecida vai sair de todos aqueles códigos processados pelo computador da nave. Alguém quer fazer uma aposta?

— Já estamos com nossas vidas empatadas nisso, gostemos ou não. Deveríamos obter a resposta em uma hora. Senhor Spock, chame Farrell.

Spock assentiu e foi até a uma outra sala, agora selada e isolada do resto do laboratório. Instantes depois, estava de volta. Embora sua expressão fosse incapaz de demonstrar emoções, algo nela fez Kirk correr até o vulcano.

— Qual o problema?

Os comunicadores sumiram, capitão. Tudo foi levado, menos os uniformes.

Janice engoliu em seco. Kirk voltou-se para Miri, com uma expressão séria. A menina recuou um pouco, mas, ao mesmo tempo, o olhou com desafio.

— O que você sabe sobre isso, Miri?

— Acho que os únicos pegaram. Eles gostam de roubar coisas. É brincadeira.

— Para onde eles os levaram?

Miri deu de ombros.

— Não sei. É brincadeira, também. Quando você pega alguma coisas, você vai pra qualquer lugar.

Kirk não conseguiu controlar-se e a agarrou pelos ombros.

— Isso não é brincadeira, Miri. É um desastre. Precisamos daqueles comunicadores... senão, não vamos descobrir o que é essa doença.

Ela, de forma inesperada, riu. —Então vocês não vão embora.

— Não, vamos morrer. Agora pare com isso. Diga onde eles estão.

A menina simulou a perfeita reação de um adulto com a dignidade ofendida. E, levando-se em consideração que ela jamais vira um adulto antes de sua chegada, há menos de uma semana, tratava-se de uma imitação impressionante.

— Por favor, capitão, está me machucando —.disse, arrogante. — O que você tem? Como eu posso saber?

A representação prosseguiu com uma risadinha, que irritou Kirk. — O que é isso, uma chantagem? — questionou, deixando a raiva de lado. O importante agora era localizar os comunicadores. — É sua vida que também está em jogo, Miri.

— Ah, não — disse ela, com suavidade. — O sr. Spock disse que vou viver cinco ou seis semanas além de vocês. Talvez alguns de vocês morram uns antes dos outros. Aí, eu ainda vou estar aqui — e precipitou-se voluntariosa em direção à porta. Em outras circunstâncias, sua atitude até teria sido engraçada, até mesmo charmosa. No último instante, voltou-se e começou a gesticular. — Não sei o que faz você pensar que eu sei alguma coisa. Mas, se vocês forem bons comigo, talvez eu possa fazer algumas perguntas a meus amigos. Por enquanto, capitão, adeus.

Miri saiu correndo e, junto com seus passos, era possível ouvir sua respiração pesada.

— Bem — disse McCoy. — Até parece que eles puderam ver televisão durante a infância.

A ironia serviu para quebrar um pouco da tensão.

— O que podemos fazer sem a nave? Spock? — quis saber Kirk.

— Muito pouco, capitão. O bio-computador é totalmente inadequado para esse tipo de trabalho. Leva horas, enquanto o computador da nave leva segundos, sem falar que não possui capacidade analítica.

— O cérebro humano já funcionava muito antes dos computadores. Magro, como anda sua intuição?

— Dando duro, é claro. Mas o tempo é uma das comodidades que o computador nos proporciona, e tempo é a única coisa que não temos. Quando penso naquela grande nave lá em cima, com tudo de que precisamos a bordo...

— Reclamar só faz perder mais tempo — interrompeu Kirk, com rispidez. McCoy o observou, surpreso. — Sinto muito, Magro. Acho que está começando a me afetar, também.

— Mas eu estava reclamando mesmo. Peço desculpas. Bom, vamos botar o cérebro humano para trabalhar. Funcionou com Pasteur... só que ele era um pouquinho mais esperto do que eu. Senhor Spock, vamos pegar aqueles cartões e começar a empilhá-los de novo. Vamos tentar uma análise do ADN primeiro. Se ela der algum tipo de padrão inteligível, capaz de apresentar uma espécie plausível, vamos avaliá-lo de novo e ver se podemos criar um clone a partir dele.

— Não estou entendendo — confessou Spock.

— Vou dar os códigos, não tenho tempo para explicar. Pegue todos os cartões classificados com LTS/426 primeiro. Então vamos isolar o fatores comuns não-codificados. Provavelmente, não vamos achar nenhum, mas é o melhor início em que posso pensar.

— Certo.


Kirk sentiu-se ainda mais por fora do que o sr. Spock, afinal não tinham habilitação médica, nem preparação estatística para entender os procedimentos. Por isso conformou-se em ficar por perto e fazer o que estava a seu alcance.

O passar das horas consumiram um outro dia. Apesar dos estimulantes aplicados por McCoy, todos pareciam mover-se cada vez mais lentamente. Era como o pesadelo de uma noite sem fim.

No meio do dia, Miri voltou a aparecer, para ficar observando tudo com uma expressão de divertida indiferença. Todos a ignoraram. Sua expressão alegre gradualmente foi desaparecendo até adquirir um ar aborrecido. Ela começou a bater com o pé no chão.

— Pare com isso — ordenou Kirk, sem olhar para ela — ou eu vou quebrar seu pescoço.

As batidas pararam. — Mais um cartão, sr. Spock. Agora vamos pegar todos os T que tenham função de D-2. Se houver mais de três, estamos perto.

O bio-computador emitia ruídos e pequenas luzes à medida que os vinte e dois cartões selecionados foram introduzidos por Spock. Ao final, o aparelho apenas liberou um único cartão. McCoy estirou-se contra o desconfortável encosto cadeira, com um gemido de satisfação.

— O que é? — perguntou Kirk.

— É isso mesmo, Jim. Talvez seja esse o vírus em questão. Mas é apenas uma possibilidade.

— Se fosse apenas um teste para um novo produto ou qualquer coisa do gênero, — acrescentou Spock — não pensaríamos duas vezes, mas da forma com que se apresenta...

— Da forma com que se apresenta, — continuou McCoy — agora temos de sintetizar o vírus e elaborar uma vacina a partir dele. Não, não, isso não vai funcionar. O que está acontecendo comigo? Não é uma vacina. Um antitóxico. Algo muito difícil. Jim, acorde os seguranças... agora eles vão ter o que fazer. Vamos precisar de um monte de recipientes lavados nas próximas quarenta e oito horas. Kirk esfregava sua testa. —Magro, estou estourado e tenho certeza de que você também está. Oficialmente, temos ainda quarenta e oito horas pela frente, mas será que vamos estar em condições nas próximas vinte e quatro horas?

— Ou vai ou racha — disse o médico, calmamente. — Mãos à obra. É hora da aula de culinária.

— É uma pena — ironizou Spock — que não seja tão fácil criar um vírus quanto se cria uma metáfora.

Nesse momento, Kirk teve certeza que estava à beira da histeria. Ou, pelo menos, tinha a forte impressão de que Spock acabara de fazer uma piada! Agora só faltava acreditar que havia mesmo um pequeno cérebro dentro do computador portátil.— Alguém me dê um pote para lavar — pediu, com urgência. — Antes que eu caia de sono.

Ao final das vinte e quatro horas, Janice Rand já estava delirando e foi preciso contê-la com uma forte dose de tranqüilizante. Um dos seguranças também sucumbiu uma hora depois. Ambos eram quase massas sólidas de manchas azuis; era evidente que a loucura crescia à medida que as manchas tomavam conta do corpo da vítima.

Miri desaparecia a intervalos, mas coincidiu de estar de volta no momento em que a ordenança e o segurança caíram na inconsciência. Ela tentava parecer segura de si, superior, ou entretida; Kirk não sabia o que dizer. O fato era que agora não precisava mais fingir que a ignorava, pois estava tão exausto que as pequenas tarefas atribuídas a ele por seu primeiro oficial e seu médico não lhe permitiam desviar sua atenção para qualquer outro assunto.

Numa determinada hora, McCoy disse: — Tudo sob o código SPF agora. No próximo estágio, vamos conseguir uma amostra. Jim, quando eu tirar a tampa da placa de petri, coloque dois centímetros cúbicos de formalina. Não erre.

— Não vou errar.

Kirk não sabia como, mas não errou. Em seguida, depois de um longo lapso, estava olhando para uma ampola cheia com um líquido claro, o qual McCoy estava colhendo com seu hypospray. Sua visão já estava confusa: apenas a ampola, o hypospray, as mãos de McCoy. Não discernia mais nada.

— Isso pode ser um antitóxico — disse McCoy, distante. — Ou talvez não. Ou também pode ser veneno puro. Apenas o computador poderia nos dar certeza.

— Janice primeiro. Depois o segurança. Eles estão em piores condições — disse Kirk, sentindo, ele próprio, a aspereza, de sua voz.

— Tenho de desobedecê-lo, capitão. Eu sou a única cobaia viável nesse grupo.

McCoy preparou o hypospray, mas Kirk conseguiu agarrar a tempo o único pulso do médico que estava visível, sem manchas. O gesto doeu; suas articulações doíam terrivelmente, assim como sua cabeça.

— Espere um pouco. Um minuto a mais não vai fazer diferença.

Kirk olhou em volta, girando cuidadosamente sua cabeça dolorida, até que seu olhos encontraram Miri, que parecia não entender nada. Kirk aproximou-se dela, caminhando com extremo cuidado num chão que parecia faltar a seus pés.

— Miri. Ouça-me. Tem de me ouvir.

A menina virou o rosto. Kirk segurou seu queixo com mais força do que queria e a forçou a olhá-lo. Ele sabia que sua aparência não era nada boa, barba por fazer, rosto coberto de suor e poeira, olheiras e olhos avermelhados, a boca esforçando-se para acertar nas palavras.

— Só temos... algumas horas. Nós e todos vocês... você e seus amigos. E... podemos estar errados. Depois disso, sem grupos... sem únicos... ninguém... para sempre. Devolva uma daquelas... máquinas, os comunicadores. Você quer o sangue de todo um planeta em suas mãos? Pense, Miri... pense pelo menos em sua vida!

Miri virou o rosto e passou a olhar para Janice. Kirk a forçou que o olhasse de novo — Agora, Miri. Agora. Agora.

Ela deu um longo, e pensativo suspiro. — Vou... tentar conseguir um — disse, por fim. Livrou-se das mãos do capitão e desapareceu porta afora.

— Não podemos esperar mais — disse McCoy. — Mesmo que tivéssemos os dados do computador, não poderíamos fazer nada. Temos de prosseguir.

— Aposto um ano de seu salário — disse Spock -— que o antitóxico é fatal.

Com uma ponta de angústia, Kirk pode ver McCoy sorrindo, tenso. — Apostado. Mas a doença também é. E se eu perder a aposta, sr. Spock, como vai pegar seu prêmio?

O médico olhou para o hypospray.

— Não! — gritou Kirk, mas era muito tarde, mesmo que, por um milagre, McCoy resolvesse, no último instante, obedecer ao capitão. Esse era Leonard McCoy, seu médico-chefe, e essa era a forma dedicada com que exercia sua profissão. O hypospray perfurou o braço manchado de azul do cirurgião.

Calmamente, McCoy colocou o hypospray de volta na mesa e sentou-se. — Feito. E eu não sinto nada

— Seus olhos giraram nas órbitas e ele teve de agarrar-se com firmeza à mesa.

— Vejam, cavalheiros... está tudo perfeito...

Em seguida, desmaiou.

— Vamos carregá-lo — disse Kirk, sendo ajudado por Spock a levar o médico até a maça mais próxima. O rosto de McCoy, com exceção das manchas, parecia feito de cera; mas ele estava em paz pela primeira vez em muitos dias. Kirk sentou-se ao lado do médico e tentou sentir seu pulso. A pulsação estava errática, mas estava lá.

— Eu... não entendo como um antitóxico pode ter agido tão rápido — disse Spock, num murmúrio soturno.

— Ele poderia ter esperado. Eu estava pronto para testar. Que homem teimoso!

— O conhecimento tem seus privilégios.

A frase não fez o menor sentido para Kirk. Spock tinha o hábito de fazer citações enigmáticas, e provavelmente todas eram vulcanas. Kirk começou a sentir uma estranha sensação nos ouvidos e sua visão ficava cada vez mais confusa.

— Também estou em meu limite — admitiu Spock, estranhamente. — Mais do que eu pensava. As alucinações começaram.

Esgotado, Kirk olhou ao redor e entendeu a mensagem do vulcano. Se Spock estava tendo alucinações, ele também estava. E aparentemente partilhavam da mesma alucinação.

Uma procissão de crianças estava invadindo o lugar, liderada por Miri. Elas eram de todos os tipos e tamanhos, dos menores aos mais velhos. Todas pareciam ter vivido numa loja de departamentos. Os meninos mais velhos usavam partes de smokings, alguns vestiam uniformes militares, outros estavam fantasiados. As meninas estavam um pouco melhor arrumadas, uma vez que usavam vestidos de noite, casacos de peles e até jóias. À frente de todos estava um menino alto e usando uma peruca ruiva, picotada irregularmente, e uma jaqueta com a etiqueta de preço pendurada. Atrás dele, estava um menininho gordo, carregando um bonequinho nos braços.

Era como uma visão delirante de uma Cruzada das Crianças. E, ainda pior, elas seguravam equipamentos, o equipamento do grupo de descida. Lá estavam os comunicadores e os tricorders tão valiosos e o menino ruivo levava um feiser preso à cintura. Kirk não pode deixar de pensar se ele não havia tentado ferir a alguém com a arma.

O ruivo notou o olhar do capitão e pareceu adivinhar seus pensamentos.

— Eu usei em Louise — disse, seriamente. — Foi preciso. Ela virou grupo enquanto a gente brincava de escola. Ela era... um pouco mais velha que eu.

Pegou a arma e a entregou, para surpresa de Kirk. As outras crianças foram até a mesa e começaram a depositar solenemente o resto do equipamento. Miri aproximou-se de Kirk.

— Sinto muito. Eu estava errada. Tive dificuldade em fazer Jahn entender que não era mais brincadeira — Deu uma olhada no corpo inerte de McCoy. — É muito tarde?

— Talvez — murmurou Kirk, já sem força nem para falar.

— Senhor Spock, acha que ainda pode passar os dados para Farrell?

— Tentarei, senhor.

Farrell mostrou-se admirado e aliviado com o novo contato e pediu explicações. Spock passou as informações pertinentes e não havia mais nada a fazer, a não ser esperar enquanto o material era processado. Kirk permaneceu observando McCoy e Miri juntou-se a ele. Kirk compreendia que, apesar de todo o problema que havia causado, a decisão da menina em trazer de volta os comunicadores tinha sido um grande passo em direção a seu crescimento. Seria uma pena perdê-la agora, na primavera de sua vida, um momento que demorara três séculos para chegar. Ele a abraçou e Miri o olhou, agradecida.

Seria mais uma falha da visão ou as manchas no rosto de McCoy haviam desaparecido um pouco? Não, algumas delas estavam definitivamente menores e haviam perdido a coloração. — Senhor Spock, venha aqui ver uma coisa.

Spock observou e concordou. — Regredindo. Agora, se não houve nenhum efeito colateral... — o sinal de seu comunicador o interrompeu. — Spock falando.

— Farrell para o grupo de descida. A identificação está correta, repito, correta. Parabéns. Vocês estão me dizendo que fizeram a análise daquela quantidade absurda de informações com apenas um bio-computador?

Kirk e Spock trocaram um sorriso cansado. — Não, quem fez tudo isso foi a mente do dr. McCoy. Spock desliga.

— O bio-computador funcionou — disse Kirk, dando batidinhas na máquina. — Bom bichinho.

Nesse momento, McCoy agitou-se no leito, tentando sentar-se, com o olhar turvo e aturdido.

— Com sua licença, doutor, — brincou Kirk — mas se já descansou o bastante, é hora de trabalhar. Acho que a aplicação da vacina é seu departamento.

— Funcionou? — perguntou McCoy.

— Funcionou e o computador da nave confirmou a fórmula. Você é o herói do dia, seu médico turrão.



Eles foram embora do Sistema uma semana depois, deixando todo o antitóxico que os laboratórios da nave podiam produzir. Junto a Farrell, os elementos do grupo de descida observaram, na tela principal da ponte, o planeta de Miri sumir aos poucos.

— Ainda não me sinto à vontade — disse Janice Rand. —Não importa o quão velhas elas são cronologicamente, ainda são apenas crianças. E deixá-las no planeta apenas com uma equipe médica para ajudá-las...

— Elas não sobreviveram todos esses anos para nada, ordenança. Pense nas dificuldades que Miri enfrentou. Elas vão aprender rapidamente, com um mínimo de orientação. Além disso, já fiz a tenente Uhura entrar em contato com a Terra... Se esse planeta tivesse rádio subespacial, eles teriam evitado um monte de sofrimento. Mas não havia comunicação subespacial na época de seus colonizadores. Não se preocupe, a Central Espacial vai enviar professores, técnicos, administradores...

— Um monte de oficiais vadios, aposto — observou McCoy.

— Sem dúvida. Os meninos vão ficar bem.

Janice Rand olhou o capitão. — Miri... ela... o amava de verdade, o senhor sabe, não é, capitão? Foi por isso que ela se comportou daquela maneira.

— Eu sei — disse Kirk, suavemente. — E estou envaidecido. Mas vou lhe contar um segredo, ordenança. Tenho por política nunca me envolver com mulheres mais velhas.




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