Star Trek episódios da série clássica tradução de Cristina Nastasi



Baixar 0.62 Mb.
Página6/7
Encontro11.07.2018
Tamanho0.62 Mb.
1   2   3   4   5   6   7

Sobre o episódio
Este episódio marcou a última participação da ordenança Janice Rand, interpretado pela atriz Grace Lee Whitney, no seriado, interrompendo uma relação nunca muito bem resolvida com o capitão Kirk. As explicações para esse afastamento diziam respeito ao fato de que não era interessante para o personagem de Kirk ter um único envolvimento romântico sério. Posteriormente, revelou-se que a principal causa da eliminação do personagem foi a própria atriz, que na época era dependente de bebidas e drogas de emagrecimento. Isso norteou a decisão da emissora de despedi-la, uma vez que seu comportamento prejudicava o andamento da produção. Atualmente, Grace Lee Whitney superou seus problemas escrevendo, inclusive, palestras orientando sobre o assunto.

É curioso observar que os dois filhos da atriz podem ser vistos entre as crianças que participam nesse episódio, assim como uma das filhas de William Shatner, a que aparece no colo do capitão Kirk.

A adaptação de James Blish apresenta algumas diferenças significativas em relação ao produto final levado ao ar. A mais importante, entretanto, é que o texto adaptado enfatiza a capacidade analítica e o empenho de McCoy, assim como dá destaque aos elementos químicos e biológicos do processo de pesquisa conduzido por ele.




A Consciência do Rei

Título da adaptação: The Conscience of the King

Título do episódio: The Conscience of the King

Título em português:

A Consciência do Rei (nas duas versões)
Data da primeira exibição: 08/12/66

Data estelar: 2817.6


História de Barry Trives

Direção de Gerd Oswald


Atores convidados:

Anton Karidian: Arnold Moss

Lenore Karidian: Barbara Anderson

Dr. Thomas Leighton: Willian Sargent



A Consciência tio Rei

Uma experiência bem curiosa — dizia Kirk. — Eu já havia visto Macbeth encenado de várias formas, com atores usando peles e até uniformes, mas nunca em trajes arcturianos. Imagino que um ator tem de se adaptar a todos os tipos de público.

— Esse ator em específico, sim — concordou dr. Leighton; havia uma ironia em sua voz, que Kirk não notou. Não parecia haver razão para isso. O jardim dos Leighton, sob o sol brilhante do sistema arcturiano, era cálido e agradável. A hospitalidade do casal, incluindo o espetáculo teatral ao qual assistiram e que fora excepcional. Mas o tempo estava passando e, velhos amigos ou não, Kirk precisava voltar à nave o mais rápido possível.

— Karidian é um ator de grande reputação. — comentou o capitão — Obviamente ele a merece. Mas agora, Tom, vamos tratar de negócios. Ouvi falar que o novo sintético que está desenvolvendo é algo que queremos muito.

— Não existe sintético algum — disse Leighton, soturnamente. — Queria que você prestasse atenção em Karidian. Na voz dele, em particular. Deve lembrar-se, você estava lá.

— Lá, onde? — quis saber Kirk, algo aborrecido.

— Na peça?

— Não — respondeu o cientista, com seu corpo aleijado acomodado confortavelmente numa poltrona.

— Em Tarsus IV, durante a Rebelião. É claro, isso foi há vinte anos, mas não pode ter esquecido. Minha família morta... seus amigos também. E você viu Kodos... e o ouviu, também.

— Está querendo dizer — começou Kirk, lentamente — que me tirou três anos-luz da minha rota apenas para acusar um ator de ser Kodos, o Carrasco? O que acha que devo registrar em meu Diário de Bordo? Que você mentiu? Que desviou uma nave estelar com informação falsa?

— Não é falsa. Karidian é Kodos.

— Não é disso que eu estou falando. Estou falando da história que inventou sobre o processo de comida sintética. Além do mais, Kodos está morto.

— Está? Um corpo queimado, irreconhecível... que tipo de evidência é essa? E existem tão poucas testemunhas, Jim. Você, eu e talvez mais uns seis ou sete, pessoas que realmente viram Kodos e ouviram sua voz. Você pode ter esquecido, mas eu jamais vou esquecer.

Kirk olhou para Martha, que disse gentilmente: — Não posso falar nada, Jim. Desde que ele ouviu a voz de Karidian, tudo voltou à tona. E não posso culpá-lo. Afinal de contas, toda aquela chacina... Tom não foi apenas uma testemunha, ele foi uma vítima.

— Sim, sei disso. Mas vingança não adianta nada... e não posso permitir que toda a Enterprise seja envolvida numa vingança pessoal, independente do que eu sinta a respeito.

— E quanto à Justiça? Se Kodos ainda está vivo, não deveria pagar? Ou, pelo menos, ser colocado fora de circulação... antes que cometa um outro massacre? Quatro mil pessoas, Jim

— Você está certo — admitiu Kirk, relutante. — Está bem, eu vou verificar. Deixe-me checar com o computador da nave e ver o que temos sobre os dois homens. Se sua desconfiança não tiver fundamento, vamos descobrir logo. Se tiver... bem, eu lhe darei ouvidos.

— Muito justo.

Kirk pegou seu comunicador e chamou a Enterprise. — Computador biblioteca... Diga tudo o que tem sobre um homem chamado ou conhecido como Kodos, o Carrasco. Depois, cheque um ator chamado Anton Karidian.

— Processando. Kodos, o Carrasco. Deputado comandante, forças da Rebelião, Tarsus IV, há vinte anos terrestres. População de oito mil colonos terráqueos sofrendo com a falta de alimentos depois que um fungo destruiu suprimentos de comida. Kodos aproveitou a situação para implementar suas teorias de eugenia, massacrando cinqüenta por cento da população de colonos. Procurado por forças da Terra quando a Rebelião conquistou o poder. O corpo queimado foi encontrado e o caso encerrado. Dados biográficos...

— Pule isso — interrompeu Kirk. — Prossiga.

— Karidian, Anton. Diretor e ator principal da companhia teatral itinerante que leva seu nome e é patrocinada pelo Projeto de Intercâmbio Cultural Interestelar. Visitando instalações oficiais nos últimos nove anos. Filha, Lenore, dezenove anos, atriz principal do grupo. Karidian é um recluso, informações indicam que esta é sua última temporada. Créditos...

— Pule isso também. Dados sobre sua vida antes de tornar-se ator.

— Não disponível. Essa é a informação total.

Kirk guardou lentamente seu comunicador. — Bom, eu ainda acho que é uma suspeita sem fundamento, Tom... mas talvez seja melhor eu voltar ao teatro hoje à noite.



Depois da apresentação, Kirk foi aos bastidores e bateu na porta que ostentava uma estrela. Foi Lenore Karidian quem a abriu, ainda linda e um pouco exótica em sua caracterização de Lady Macbeth arcturiana. A atriz ergueu as sobrancelhas em surpresa.

— Vi sua performance esta noite. E na noite passada também. Queria apenas... dar meus parabéns a você e a Karidian.

— Obrigada — disse, polidamente. — Meu pai ficará encantado, senhor...?

— Capitão James Kirk, nave estelar Enterprise.

Isso, mais o fato de ter visto duas vezes a peça, devia impressioná-la, pensou Kirk.

— Estamos honrados. Darei seus cumprimentos a meu pai.

— Não posso vê-lo em pessoa?

Sinto muito, capitão Kirk. Meu pai não vê ninguém em pessoa.

— Um ator que ignora seus fãs? Isso é incomum.

— Karidian é um homem incomum.

— Então falarei com Lady Macbeth. Se não fizer objeções. Posso entrar?

— Ora... é claro — Ela deu espaço para o capitão passar. O interior do camarim estava tomado de malas e pacotes já preparados para serem carregados. — Lamento não ter o que oferecer ao senhor.

Kirk olhou-a diretamente e sorriu. — Está sendo muito modesta.

Ela também sorriu. — Como pode ver, está tudo empacotado. Vamos ter duas apresentações em Benécia; se a Astral Queen puder nos levar, partiremos hoje à noite.

— É uma boa nave. Gosta do seu trabalho?

— Muito. Mas interpretar clássicos nesses tempos em que a maioria das pessoas preferem aqueles absurdos seriados em 3-V... não é tão compensador quanto deveria ser.

— Mas continua.

— Ah, sim — disse, revelando sua determinação. — Meu pai acha que devemos isso ao público. Não que o público se importe muito.

— Os espectadores se importaram esta noite. Você estava perfeita como Lady Macbeth.

— Obrigada. E como Lenore Karidian?

— Estou impressionado — Fez uma pausa. — E acho que gostaria de vê-la de novo.

— Profissionalmente?

— Não necessariamente.

— Acho... que gosto disso. Infelizmente, temos um esquema a cumprir.

— Os esquemas não são tão rígidos quanto parecem. Vamos esperar para ver o que acontece?

— Sim, é claro, e esperar pelo melhor.

A resposta era promissora, para não dizer ambígua, mas Kirk não teve chance de explorá-la mais. Seu comunicador estava tocando com insistência.

— Desculpe-me. É um chamado de minha nave... Kirk falando.

— Spock falando, capitão. Acho que se trata de algo que o senhor deveria saber imediatamente. Dr. Leighton está morto.

— Morto? Tem certeza?

— Absoluta. Acabamos de falar com a Central. Ele foi assassinado... esfaqueado até a morte.

Lentamente, Kirk guardou o comunicador em seu cinto. Lenore o estava observando, sua expressão era de pura solidariedade.

— Preciso ir. Talvez nos vejamos mais tarde.

— Eu entendo. E espero por isso.

Kirk dirigiu-se imediatamente à residência dos Leightons. O corpo ainda estava lá, acompanhado apenas por Martha, que não disse muita coisa. Kirk não era um especialista nessas situações, mas pegou a mão da mulher delicadamente.

— Na verdade, ele morreu no dia em que aqueles atores chegaram — disse a viúva, calmamente. — A memória o matou, Jim. Você acha que os sobreviventes consegue se recuperar mesmo de uma tragédia?

— Sinto muito, Martha.

— Ele ficou convencido no momento em que viu aquele homem chegar. Já passaram vinte anos desde aquele terror, mas Tom estava certo de que Karidian era o homem. Isso é possível, Jim? Afinal de contas, ele é Kodos?

— Não sei, mas estou tentando descobrir.

— Vinte anos e ele ainda tinha pesadelos. Eu o acordava e ele me contava que ouvia os gritos dos inocentes... o silêncio dos executados. Ele nunca soube o que aconteceu com o resto de sua família.

— Receio que não existam muitas dúvidas a respeito disso.

— É o fato de não saber, Jim... não saber se as pessoas que você ama estão mortas ou vivas. Quando você sabe, você chora, mas as feridas cicatrizam-se e você vai em frente. Quando você não sabe... cada amanhecer é como um novo enterro. Foi isso que matou meu marido, Jim, não aquela faca... tenho certeza.

Ele forjou um sorriso e Kirk acariciou sua mão. — Está tudo bem — disse Martha, como se fosse ela que precisasse consolar alguém. — Pelo menos ele está em paz agora. Ele nunca teve paz antes. Acho que nunca saberemos quem o matou.

— Eu juro que vou descobrir.

— Não importa. Eu já estou cansada de toda essa sede de vingança. É hora de deixar isso de lado. Mais do que hora.

De repente, ela começou a chorar. — Nunca vou esquecê-lo. Nunca.

Kirk chegou à nave tão nervoso que ninguém se atreveu a falar com ele. Indo diretamente para seu alojamento, acionou o intercom. — Uhura!

— Sim, capitão — a oficial de comunicações respondeu, com sua voz firme de sempre.

— Contacte o capitão Daly, da Astral Queen, em órbita da estação. E ponha em canal codificado.

— Sim, senhor. Aqui está.

— John, aqui é Jim Kirk. Pode me fazer um favor?

— Te devo uma dúzia de favores, Jim — respondeu Daly. — E umas duas dúzias de drinks também. Manda ver.

— Obrigado. Quero que você cancele sua passagem por aqui.

— E deixo os atores sem transporte?

— Isso mesmo. Eu os levarei. E, se houver algum problema, eu assumo a responsabilidade.

— Está certo.

— Eu agradeço. Explicarei mais tarde... se puder. Desligando... Tenente Uhura, agora eu quero o computador biblioteca.

— Biblioteca.

— Em referência ao arquivo Kodos. Existem oito ou nove sobreviventes do massacre que são testemunhas. Quero o nome de todos e localização.

— Computando... Em ordem de idade: Leighton, T., falecido. Molson, E., falecido...

— Espere um minuto, eu quero os sobreviventes.

— Esses são sobreviventes do massacre. Os falecidos são vítimas de assassinatos recentes, todos casos abertos. Instruções.

— Prossiga.

— Kirk, J., capitão da 5.5. Enterprise. Wiegand, R., falecido. Eames, S., falecido. Daiken, R., comunicações, 5.5. Enterprise...

— O quê?


— Daiken, R., Comunicações, 5.5. Enterprise, cinco anos de idade na época do massacre.

— Certo, pode parar. Uhura, chame o sr. Spock... Spock, providencie transporte para a companhia Karidian e registre no diário como um caso excepcional; a companhia vai fazer uma apresentação especial para a tripulação. Nosso destino é Eta Benécia. Informe o tempo de chegada tão logo seja processado.

— Sim, senhor. E sobre aquelas amostras de comida sintética, que supostamente pegaríamos com o dr. Leighton?

— Não existe nenhuma amostra, sr. Spock.

— O fato terá de ser registrado, também. Desviar uma nave estelar...

— Sim, é uma questão séria. Bem, uma mancha como essa na ficha do dr. Leighton agora não vai prejudicá-lo. Mais uma coisa, sr. Spock. Quero a privacidade da Companhia Karidian totalmente respeitada. Eles podem ter livre acesso na nave dentro dos limites dos regulamentos, mas o alojamento deles estão fora dos limites. Informe isso a todos.

— Sim, senhor — não havia, como sempre, emoção na voz de Spock.

— Por fim, sr. Spock, em referência ao tenente Robert Daiken, das Comunicações. Por favor, transfira-o para a Engenharia.

— Senhor, ele veio da Engenharia.

— Estou ciente disso. Eu o estou enviando de volta. Ele precisa de mais experiência.

— Posso pedir maiores explicações, senhor? Ele vai considerar essa transferência uma medida disciplinar.

— Não posso dar detalhes. Execute. E avise-me quando os Karidians vierem a bordo.

Kirk fez uma pausa, pensativo, não resistindo em sorrir. — Acho que levarei a jovem atriz para um passeio pela nave.

— Como desejar, senhor — disse o vulcano em tom neutro, depois de um longo silêncio.



Naquela hora, a sala de máquinas estava vazia e silenciosa, a não ser pelo ruído baixo, mas ininterrupto das unidades de força; a Enterprise estava em movimento. Lenore olhava tudo ao redor, mas parou e sorriu para Kirk.

— Ordenou essas luzes suaves especialmente para a ocasião?

— Gostaria de poder dizer que sim, contudo tentamos duplicar as condições de dia e noite o máximo possível a bordo da nave. Os seres humanos têm um ritmo biológico bem definido, por isso ajustamos o funcionamento da nave a isso — Ele indicou os motores. — Acha interessante?

— Oh, sim... todo esse poder e tudo sob seu controle. Você também é tão eficiente e poderoso, capitão?

— Espero ser mais um homem do que uma máquina.

— Ou uma curiosa combinação de ambos. O poder está a seu comando; mas as decisões...

— ... são provenientes de uma origem muito humana.

— Tem certeza? Excepcional, sim, mas também humano?

— Pode apostar que sim — disse, suavemente.

Os dois ouviram o som de passos e Kirk, relutante, voltou-se para ver quem era. Ordenança Rand, sempre com aparência suave, apesar de uma inabitual expressão severa, segurava um envelope.

— Desculpe-me, senhor — disse ela. — O sr. Spock achou que deveria ser inteirado imediatamente disso.

— Muito bem. Obrigado, ordenança — respondeu o capitão, guardando o comunicado. — Isso é tudo.

— Muito bem, senhor — a moça foi embora sem piscar uma única vez. Lenore a observou afastar-se e aparentou um certo divertimento.

— Uma garota adorável — observou a atriz.

— E muito eficiente.

— Ah, essa é a questão, capitão. Fale-me sobre as mulheres de seu mundo. As máquinas também as mudaram? Tornou-as, como direi, apenas pessoas ao invés de mulheres?

— Não é bem assim. Nessa nave, elas têm as mesmas obrigações e funções que os homens. Elas competem igualmente e não têm privilégios especiais. Mas elas ainda assim são mulheres.

— Posso ver isso. Especialmente por essa moça que acabou de sair. Tão linda. Receio que não tenha gostado de mim.

— Que absurdo — disse ele, sendo mais jocoso do que gostaria. — Está imaginando coisas. A ordenança Rand é muito profissional.

Lenore baixou os olhos. — Você é mesmo humano, afinal de contas. Capitão de uma nave estelar e ainda sabe tão pouco sobre mulheres. Não posso culpá-la.

— A natureza humana não mudou. Cresceu, expandiu... mas não mudou.

— Isso é reconfortante. Saber que as pessoas ainda podem sentir, ter seus próprios sonhos, se apaixonar... tudo isso e o poder também! Como César... e Cleópatra.

Ela aproximou-se lentamente dele. Kirk esperou por um momento e a pegou nos braços.

O beijo foi cálido e demorado. Lenore o interrompeu para olhar nos olhos de Kirk, com uma expressão meio enlevada, meio irônica.

— Eu precisava saber como era — sussurrou. — Nunca beijei um César antes.

— Isso é apenas um ensaio, senhorita Karidian?

— Talvez uma performance, capitão.

Beijaram-se de novo, mais forte. Kirk sentiu algo incomodá-lo no peito e, depois de um momento, afastou-a um pouco pelos ombros.

— Não pare... — pediu ela.

— Não quero parar, Lenore. Mas é melhor ver o que Spock achou tão importante mandar me avisar. Ele tinha ordens de não saber onde eu estava.

— Entendo — disse ela, com uma pontinha de desprezo. — Capitães estelares talvez precisem de permissão antes de beijar. Bem, vá adiante e dê uma olhada em seu recado.

Kirk pegou o envelope e o abriu. A mensagem era breve, direta, bem ao estilo de Spock:
OFICIAL DAIKEN FOI ENVENENADO. ESTADO SÉRIO. DR. McCOY PROCURANDO A CAUSA E O ANTÍDOTO. SUA PRESENÇA É REQUISITADA. SPOCK.
Lenore observou a expressão de Kirk mudar. — Já vi que o perdi. Espero que não permanentemente.

— Não se preocupe com isso — disse, tentando sorrir, mas não conseguindo. — Deveria ter lido o recado antes. Perdoe-me, por favor; e boa noite, Lady Macbeth.

Spock e McCoy encontravam-se na enfermaria quando Kirk chegou. Daiken estava deitado, com as leituras do painel biológico à cabeceira da cama num ritmo meio enlouquecido. Kirk observou o painel, mas os dados nada significavam para ele.

— Ele vai sobreviver? O que aconteceu?

— Alguém colocou tetralubisol no leite dele — informou McCoy. — Serviço mal feito; o negócio é tóxico, mas quase insolúvel, por isso foi fácil identificar. Ele está mal, mas tem chances. Mais do que eu posso falar a seu respeito, Jim.

Kirk dirigiu um olhar agressivo a McCoy e, depois, a Spock. Os dois oficiais observavam o capitão atentamente.

— Muito bem. Percebo que estou na berlinda. Senhor Spock, por que o senhor não começa com a preleção?

— Daiken era a próxima das últimas testemunha do caso Kodos — disse Spock. — Você é a última. Dr. McCoy e eu checamos o computador biblioteca, como você fez, e conseguimos as mesmas informações. Supomos também que você está cortejando a srta. Karidian em busca de mais informações, mas achamos que a próxima tentativa vai ser contra você. É óbvio que você e Daiken são os únicos sobreviventes porque vocês são ambos da Enterprise; mas, se o dr. Leighton estava certo, você não tem mais imunidade, e a tentativa contra Daiken confirma isso. Em resumo, você está convidando à morte.

— Já a enfrentei antes — disse Kirk, em tom cansado. — Se Karidian é Kodos, quero desmascará-lo, é tudo. Fazer justiça é parte do meu trabalho.

— Você está certo que isso é tudo? — perguntou McCoy.

— Não, Magro. Eu não estou certo. Lembre-se que eu estava em Tarsus. Um estudante, metido numa revolução. Eu vi mulheres e crianças forçadas a entrar numa câmara sem saída... e um autoproclamado e enlouquecido Messias chamado Kodos apertar um botão. E então não havia mais ninguém dentro das câmaras. Quatro mil pessoas mortas, desaparecidas... e eu lá, esperando por minha vez... Eu não esqueci, tanto quanto Leighton não conseguiu esquecer. Eu pensei que tinha esquecido, mas estava errado.

— E se você descobrir que Karidian é Kodos? — desafiou McCoy. — E aí? Vai carregar a cabeça dele em triunfo pelos corredores da nave? Isso não vai trazer de volta os mortos.

— Claro que não, mas eles vão descansar em paz.

— A vingança é minha, disse o Senhor — murmurou Spock, pensativo. Os outros dois olharam-no, admirados.

— É verdade, sr. Spock, independente do que isso signifique para um alienígena como o senhor. Mas vingança não é o que eu quero. Estou atrás de justiça e prevenção. Kodos matou quatro mil; se ele está a solta, pode cometer um massacre de novo. Leve também isso em consideração: Karidian é um ser humano, com direitos como todos nós. Merece essa mesma justiça. E, se for o caso, também merece ser retratado.

— Não sei o que é pior — disse McCoy, olhando de Kirk para Spock. — Uma calculadora orelhuda ou um capitão com tendência mística. Vão para o inferno vocês dois. Deixem-me cuidar de meu paciente.

— Com prazer — retrucou Kirk. — Vou falar com Karidian e não me interessa a regra dele contra entrevistas pessoais. Ele pode me matar, se quiser, mas não vai se meter com meus oficiais.

— Em síntese, — observou Spock — acha que Karidian é Kodos.

Kirk agitou as mãos, impotente. —Claro que sim, sr. Spock. Estaria passando por idiota se não achasse. Mas eu quero ter certeza. Essa é a única definição de justiça que eu conheço.

— Eu — concluiu Spock — chamaria isso de lógica.



Karidian e sua filha já estavam acordados quando Kirk bateu em sua porta.

Além disso, já estavam caracterizados para a apresentação a bordo da nave, o que era a desculpa oficial para o fato de a companhia teatral estar viajando na Enterprise. Karidian usava uma espécie de túnica, que já poderia ter sido o manto de Hamlet, o fantasma, ou o rei assassino; de qualquer forma, parecia majestoso, uma impressão que foi reforçada quando o ator sentou-se numa cadeira de encosto alto, muito parecida com um trono. Em seu colo, estava uma surrada cópia do texto da peça, que tinha seu nome escrito a caneta-tinteiro.

Lenore era mais fácil de ser identificada: tanto podia ser a louca Ofélia quanto simplesmente uma garota de dezenove anos usando um vestido de noite. Karidian acenou para filha sair e Lenore apenas afastou-se, com uma expressão atenta, optando por ficar junto à porta do alojamento.

Karidian voltou seus olhos brilhantes para Kirk. — O que quer, capitão?

— Quero uma resposta direta para uma pergunta direta. E prometo que não sofrerá agressões a bordo desta nave e que será tratado com toda a justiça a que tem direito.

Karidian apenas concordou, como se não esperasse outra coisa. Seu ar, no entanto, era intimidador. Kirk foi direto:

— Suspeito do senhor, sr. Karidian. E sabe disso. Acredito que a maior performance de sua vida é o papel que tem interpretado fora dos palcos.

Karidian sorriu, um pouco amargo. — Nesses tempos cada homem vive vários papéis.

— Estou interessado em apenas um desses papéis. Diga-me uma coisa: é Kodos, o Carrasco?

Karidian lançou um longo olhar a sua filha, mas ele não parecia vê-la; seus olhos estavam abertos, mas semicerrados, meditativos.

— Isso foi há um longo tempo — disse ele, por fim. — Foi quando eu era um jovem ator, excursionando pelas colônias da Terra... como pode ver, ainda estou fazendo isso.

— Isso não é uma resposta.

— O que você esperava? Se eu fosse Kodos, teria o sangue de milhares em minhas mãos. Deveria eu confessar a um estranho, depois de vinte anos fugindo de uma justiça mais organizada? Fosse o que fosse Kodos naqueles dias, eu nunca ouvi dizer que ele era um tolo.

— Eu lhe fiz um favor. E prometi que será tratado com justiça. Essa não é uma promessa qualquer. Eu sou o capitão desta nave, a justiça a bordo está em minhas mãos.

— Eu o vejo de forma diferente. Está diante de mim como o perfeito símbolo de nossa sociedade tecnológica: mecanizada, uniformizada... e não exatamente humana. Eu odeio máquinas, capitão. Elas nos tiram a humanidade... a luta do homem por alcançar a grandeza através de seu próprio esforço. É por isso que sou ainda um ator ao vivo e não uma sombra num filme de 3-V.

— A alavanca é um instrumento. Temos novos instrumentos, mas os grandes homens ainda lutam e não se sentem superados. Homens malignos usaram instrumentos para assassinar, como Kodos; mas isso não faz dos instrumentos algo maligno. As armas não matam as pessoas. Apenas os homens o fazem.

— Kodos, quem quer que fosse, fez escolhas entre vida e morte. Alguns têm de morrer para que outros possam viver. Isso é o bônus e o ônus dos reis. E provavelmente dos comandantes, também, de outra forma, por que estaria aqui, agora?

— Não me lembro de ter matado quatro mil pessoas inocentes.

— Eu também não. Mas posso lembrar que outras quatro mil pessoas foram salvas por causa disso. Se eu fosse o diretor de uma peça sobre Kodos, essa seria a primeira coisa que eu teria na mente.

— Não foi uma peça. Eu estava lá. Eu vi acontecer. E, desde então, todas as testemunhas que sobreviveram foram sistematicamente assassinadas, exceto duas... Um de meus oficiais foi envenenado. Eu devo ser o próximo. E aqui está o senhor, um homem sobre quem não se sabe nada além dos últimos nove anos, e identificado positivamente pelo falecido dr. Leighton. Acha que posso ignorar isso?

— Não, certamente não. Mas esse é o seu papel. Eu tenho o meu. Eu já tive vários — ele olhou para suas mãos envelhecidas. — Cedo ou tarde, o sangue enfraquece, o corpo envelhece e finalmente, por uma graça divina, a memória falha. Eu já não valorizo a vida... nem mesmo a minha. A morte para mim será a libertação de um ritual. Estou velho e cansado, e o passado é muito vago.

— Essa é sua única resposta?

— Receio que sim, capitão. Já conseguiu tudo o que queria? Não, ninguém consegue. Se conseguiu, então deveria lamentar.

Indiferente, Kirk voltou-se para a saída. Encontrou Lenore olhando-o fixamente, mas como percebeu que nada podia fazer, foi embora.

Ela o seguiu. No corredor, Lenore falou num frio sussurro: — Você é uma máquina. E tem uma grande e sangrenta mancha de crueldade em sua pele de metal. Você poderia tê-lo poupado.

— Se ele for Kodos, — disse Kirk, igualmente frio — então eu já terei sido mais misericordioso do que ele merece. Se não for, então os levaremos a Eta Benécia, sem maiores prejuízos.

— Quem é você — disse Lenore, num tom perigoso — para dizer sem maiores prejuízos?

— E quem eu tenho de ser?

Lenore parecia disposta a responder; um fogo gelado ardeu em seu olhos. Mas, nesse momento, a porta abriu-se e Karidian apareceu, não mais tão alto e imponente como se mostrara antes. Lágrimas começaram a rolar pela face da moça, que procurou proteção nos braços do pai.

— Pai... pai...

— Não importa — disse Karidian, gentilmente, recuperando um pouco de sua personalidade. —Já acabou. Sou o espírito de teu pai, fadado por um certo tempo a caminhar na noite...

— Silêncio!

Sentindo-se um verdadeiro monstro, Kirk os deixou sozinhos em meio ao corredor.



Para a realização do espetáculo, a sala de recreação foi transformada num pequeno teatro, com o circuito interno acionado para que a peça pudesse ser vista por todos os tripulantes, mesmo os que estavam em serviço. As luzes foram diminuídas. Kirk, atrasado, acabara de sentar-se em seu lugar. Como capitão, tinham lhe reservado uma cadeira em frente ao palco, e Kirk não declinou a regalia. Foi quando Lenore surgiu, através das cortinas, caracterizada como Ofélia e com a face muito pálida, talvez pela maquiagem.

A atriz disse numa voz clara e quase eufórica: — Esta noite os "Atores de Karidian" apresentam Hamlet, mais uma das peças ao vivo encenadas no espaço e dedicada à tradição do teatro clássico, que, acreditamos, jamais morrerá. Hamlet é uma peça violenta sobre uma época violenta, quando a vida nada valia e a ambição era Deus. Também é uma peça atemporal sobre culpas, dúvidas, indecisões e a tênue linha que existe entre a Justiça e a Vingança.

Lenore desapareceu entre as cortinas, deixando Kirk intrigado. Não era preciso apresentar Hamlet; aquele discurso parecia destinado diretamente a ele e, embora não precisasse ser lembrado disso, havia compreendido a mensagem.

As cortinas abriram-se e a peça teve início. Mas Kirk perdeu boa parte do prólogo porque McCoy escolheu justamente esse momento para chegar e sentar a seu lado, fazendo grande alvoroço.

—Já cheguei, já cheguei — resmungou o médico. — Em toda a história da medicina, nenhum médico jamais conseguiu chegar numa peça com as cortinas ainda fechadas.

— Calado — disse Kirk, baixinho. — Está chamando muito a atenção.

— Sim, mas ninguém me disse que eu ia perder um paciente no último minuto.

— Alguém morreu?

— Não, não. O tenente Daiken fugiu da enfermaria, é tudo. Acho que queria ver a peça também.

— Mas a peça está sendo transmitida para a enfermaria também!

— Eu sei disso. Agora fique quieto. Como posso ouvir algo com você atrapalhando?

Resmungando algo, Kirk levantou-se e deixou a sala. No corredor, procurou o intercom mais próximo e ordenou uma busca, mas descobriu que McCoy já havia requisitado uma.

Medida de rotina, pensou ele, não era suficiente. A família de Daiken havia sido massacrada em Tarsus... e alguém tinha tentado matá-lo. Não era o momento de correr riscos desnecessários; com a peça em andamento, não apenas Karidian, como toda a nave estava vulnerável a qualquer acesso de paixão... ou vingança.

— Alerta vermelho de segurança — ordenou Kirk. — Procurem em cada canto da nave, inclusive no convés de carga.

Obtendo confirmação, ele voltou para o teatro improvisado. Kirk não se sentia satisfeito ainda, mas não havia mais nada a fazer.

Seus ouvidos foram tomados por uma batida de tambor. O palco estava às escuras, iluminado apenas por um lampejo vermelho, e dois personagens acabavam de sair de cena. A peça já estava em seu ato um, cena cinco. A figura do fantasma materializou-se no feixe de luz vermelha e ergueu seu braço, acenando para Hamlet, mas Hamlet recusava-se a segui-lo. O fantasma — Karidian — acenou de novo, e o tamborilar cresceu em intensidade.

Kirk não podia pensar em nada, a não ser que Karidian era agora um alvo perfeito. Deu uma olhada rápida pela audiência e também sondou a saída do palco.

Fale— disse Hamlet — Eu não seguirei adiante.

Ouça-me — ordenou Karidian.

Estou ouvindo.

Minha hora é quase chegada, quando, ao ardor do enxofre e da tormenta, eu me entregar...

E lá estava Daiken, agachado nos bastidores, com um feiser erguido em direção a Karidian.

— ... deves procurar por vingança...

— Daiken! — murmurou Kirk.

Sou o espírito de teu pai, fadado a caminhar pela noite...

Kirk, sem outra saída, correu para a boca do palco, onde a encenação prosseguia.

— Ele matou meu pai — balbuciou Daiken — e minha mãe.

— ... e de dia forçado a jejuar no fogo, até os torpes crimes cometidos em meus dias...

— Volte para a enfermaria! — ordenou Kirk.

— Eu sei. Eu vi. Ele os matou.

—... serem redimidos e expurgados pelo fogo.

Teve início um burburinho entre os espectadores, que podiam ouvir cada palavra dita fora de cena. Karidian também as ouvia e tentou olhar para Daiken, mas a luz em cena era muito forte para deixá-lo ver alguma coisa. Com voz trêmula, tentou prosseguir:

Eu... eu não poderia contar o segredo de minha prisão...

— Você pode estar errado — disse Kirk. — Não estrague sua vida por causa de um erro.

... e rasgaria tua alma e gelaria teu sangue jovem...

— Daiken, me dê essa arma.

— Não.


Várias pessoas na audiência já estavam de pé e Kirk pôde ver alguns seguranças movimentando-se com cuidado, pelas laterais. Mas era muito tarde, Daiken já mirava diretamente contra Karidian.

Foi quando Lenore emergiu do fundo do cenário. Seus olhos estavam brilhantes, quase em chamas, e, em sua mão, resplandecia uma adaga.

— Está acabado! — disse ela, numa voz teatral. — Não importa, pai, eu sou forte! Vindes, oh, espíritos do ar, libertem-me agora! Corram até aqui, pois nos pórticos de tuas...

— Filha, filha!

Ela não ouvia Karidian. Lenore agora era a louca Ofélia, embora as falas fossem as de Lady Macbeth.

— Todos os fantasmas estão mortos. Quem teria imaginado que traziam em si tanto sangue? Eu o libertei, pai. Afastei o sangue de você. Não fosse ele tão parecido com meu pai em seu sono, eu teria feito...

— Não — implorou Karidian, com a voz em horror. — Não me deixou nada! Você era imaculada de tudo o que fiz, você não era nem mesmo nascida! Queria mantê-la limpa disso tudo...

— Fiz tudo por você! Está a salvo, ninguém pode tocá-lo! Até César, — disse ela, olhando para Kirk — mesmo ele não pode tocá-lo! Kirk aproximou-se do palco, observando o movimento dos seguranças. Daiken parecia catatônico sob as luzes em cena, mas o feiser ainda estava, ameaçador, em sua mão.

— Já chega — disse o capitão. — Vocês dois, venham comigo.

Karidian virou-se para ele, gesticulando teatralmente. — Capitão, tente entender. Eu era um soldado numa grande causa. Existiam coisas que deviam ser feitas... coisas difíceis, coisas terríveis. Você sabe o preço disso, você também é um capitão.

— Pare, pai! — disse Lenore, simulando racionalidade. — Você não tem nada a explicar!

— Sim, tenho. Assassinato. Fuga. Suicídio. Loucura. E o preço jamais é suficiente: minha filha também tem de pagar!

— Por você! Por você! Eu o salvei!

— Ao custo da vida de sete homens inocentes — disse Kirk.

— Inocentes? — Lenore deu uma grande e teatral gargalhada, como interpretando Medéia. — Inocentes! Eles viram tudo! Eles eram culpados!

— Chega, Lenore. A peça acabou. Isso foi há vinte anos. Vocês dois, venham comigo, ou terei de arrastá-los?

— É eu melhor ir — disse Daiken, vindo do fundo e colocando-se no foco da luz, ainda segurando o feiser. — Eu não queria ser tão misericordioso, mas isso já é loucura demais. Obrigado por me impedir, capitão.

Lenore, num movimento ágil, arrancou a arma da mão de Daiken.

— Para trás! — gritou ela. — Para trás, todos!

— Não! — pediu Karidian, sofrido. — Em nome de Deus, filha...

— Capitão César! Você poderia ter conquistado o Egito! Cuidado com os Idos de Março!

Lenore apontou a arma para Kirk e a disparou. Karidian, mais rápido do que ela em sua loucura, colocou-se diante do capitão. O feixe de energia o atingiu em cheio no peito e ele foi ao chão, em completo silêncio.

Lenore começou a choramingar como uma criança e caiu de joelhos junto ao pai. Os seguranças entraram no palco, mas Kirk ordenou que ficassem afastados — Pai! Pai! Oh, morte orgulhosa, que festa é esta tua cena eterna, que a tal príncipe tu tão ferozmente atingistes? — Começou a gargalhar, novamente. — O pano, pai, o pano sobe! Não é hora de dormir! A peça! A peça é a coisa... com que atingiremos a consciência do rei...

Mãos gentis afastaram-na do corpo inerte. Kirk ouvia as palavras de McCoy: — No final das contas, ela nem mesmo sabia as falas corretamente.

— Cuide dela — pediu Kirk, sem inflexão. — Kodos está morto... mas acho que deve caminhar em seus sonhos.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal