Star Trek episódios da série clássica tradução de Cristina Nastasi



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Sobre o episódio

A Consciência do Rei é um dos episódios mais bem escritos, dirigidos e interpretados em Star Trek, apesar de dificilmente aparecer numa lista de favoritos ou na lista dos dez mais. Fusão de elementos das peças Hamlet e Macbeth, de Shakespeare, trata-se de uma história que aparentemente foge à linha dramática da série, mas que funciona com perfeição ao levar para o espaço uma pura tragédia shakesperiana. Algumas cenas editadas do episódio final mostravam Karidian vagando pelos corredores da Enterprise, como que para enfatizar sua semelhança com o fantasma do pai de Hamlet.

O aproveitamento da utilização de Shakespeare no seriado é perfeita, tanto em termos de adaptação da situação, quanto de atuação do elenco fixo e dos atores convidados. O episódio introduz um personagem marcante na história do universo ficcional de Star Trek: Kodos, o Carrasco, e seu amargurado alter ego, o ator Karidian.



A Consciência do Rei também marca a segunda e última participação do simpático tenente Thomas Riley no seriado. O ator Bruce Hyde havia sido escalado para viver o tenente Robert Daiken (segundo o roteiro original, que é usado por James Blish em sua adaptação) quando alguém na produção lembrou que ele já trabalhara num episódio anterior, Tempo de Nudez. Dessa forma, reaproveitaram o personagem de Riley e deram a ele um passado. Nesse passado, inclusive, Kirk teria uma participação importante, pois foi o jovem Kirk o responsável por Riley ter escapado ao massacre de Kodos, segundo vários livros que se basearam nesse episódio.

Apesar de sua participação tão rápida, o personagem Riley marcou muito a série por ser uma espécie de proto-Checov, aquele elemento mais jovial de que carecia a nave. Hoje o ator Bruce Hyde é professor universitário e seus alunos constantemente pedem que ele cante "Eu a levarei para casa, Kathleen", a canção que ele "interpretou" em Tempo de Nudez.




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Henry Cuyler Bunner, um contista norte-americano de fins do século XIX, disse certa vez, num comentário bem humorado, que "Shakespeare era um grande dramaturgo que ganhava a vida escrevendo coisas para serem citadas". A brincadeira procede. São incontáveis as citações de Shakespeare em filmes, obras literárias as mais diversas, peças de teatro e até desenhos. Além de discursos, ensaios, artigos e por aí afora.



Star Trek não foge à regra, pois tanto nos episódios da série (Clássica e Nova Geração) quanto nos filmes para o cinema, as citações de Shakespeare talvez só percam, em número, para as citações da Bíblia.

O episódio A Consciência do Rei, apesar de ter sido inspirado numa passagem de Hamlet, parece tei muito mais a ver com Macbeth, por isso vamos a um resumo de seu enredo:



Quando Duncan era rei da Escócia, lá vivia um barão chamado Macbeth. Parente próximo do rei e muito estimado por suas habilidades nas guerras, Macbeth derrotara ainda recentemente um exército rebelde poderosamente auxiliado pelas tropas da Noruega. No caminho de volta dessa grande batalha, os dois generais escoceses Macbeth e Banquo foram surpreendidos pela aparição de três bruxas que, além de lhes chamarem pelo nome, fizeram espantosas profecias: Macbeth seria rei da Escócia, mas os descendentes de Banquo é que herdariam a coroa. Depois disso, as bruxas dissiparam-se no ar.

Apesar das advertências de Banquo, que não confiava em filhos das trevas, as predições das bruxas haviam calado tão fundo no espírito de Macbeth que, a partir daquele momento, seus pensamentos concentraram-se em descobrir meios de alcançar o trono da Escócia.

Macbeth tinha uma esposa, Lady Macbeth, a quem comunicou o estranho acontecimento. Mulher perversa e ambiciosa, convenceu o hesitante marido de que o assassínio do rei era um passo absolutamente necessário para a realização da profecia. Aproveitando a presença do rei, que, junto com seus filhos Malcolm e Donalbain, passaria a noite em seu castelo, o casal decidiu pôr em prática seu diabólico plano.


Sabendo que o marido, apesar de ambicioso, talvez fosse incapaz de cometer o máximo crime que acompanha a ambição desenfreada, Lady Macbeth, com as próprias mãos, armada de punhal, aproximou-se da cama do rei, que já dormia, não sem antes embriagar os dois criados que guardavam a porta do quarto. Quando, porém, Lady Macbeth o observou atentamente, qualquer coisa no rosto adormecido dele recordou-lhe o pai e ela não teve coragem de matá-lo. Voltou para conferenciar com o marido, cuja resolução começara a vacilar. Afinal, ponderou Macbeth, o rei era seu parente próximo, estava ali como hóspede e ele, como anfitrião, deveria fechar as portas aos seus assassinos e não ser o próprio que o apunhalaria. Foi sob estes conflitos de consciência que Lady Macbeth o encontrou. Mas, como fosse uma mulher que dificilmente desistia de seus intentos, com palavras veementes e causticantes censurou-lhe de tal maneira as ineptas resoluções que ele mais uma vez reuniu todas as forças para levar a cabo a sangrenta idéia.

Então, foi até o quarto do rei e o matou com a primeira apunhalada. Mal acabara de perpetrar o crime, julgou ouvir uma voz, que gritava: "Nunca mais dormirás! Macbeth assassinou o sono, o sono inocente, que alimentava a vida. Macbeth nunca mais dormirá!" Com essas horríveis alucinações, voltou Macbeth para junto da esposa que já começava a imaginar que o crime malograra. Macbeth porém, chegou em estado de tamanha agitação que ela o repreendeu pela falta de firmeza e mandou-o limpar as mãos manchadas de sangue, enquanto lhe tomava o punhal com o propósito de besuntar de sangue a face dos criados para incriminá-los. Esta é a primeira cena o episódio A Consciência do Rei, quando Macbeth diz:
What bands are here?

Ha! They plunck out mine eyes!

Will all great Neptune’s ocean wash this blood

Clean from my hand? No: this my band will rather

The Multitudinous seas incarnadine,

Making tbe green one red.

(Ato 2, Cena 2)


Que mãos são estas aqui?

Ah! Estão arrancando meus olhos!

Todo o oceano do grande Netuno

poderia limpar este sangue de minhas mãos?

Não, seria mais fácil que esta mão tingisse as vagas

tumultuosas, mudando o mar de verde

para vermelho.

Na manhã seguinte, descobrem o assassínio e, apesar das demonstrações de pesar do casal anfitrião, caem sobre Macbeth as suspeitas do crime. Os filhos do rei assassinado, Malcolm e Donalbain, temendo conspiração, fogem do país. Tendo assim desertado os sucessores naturais do rei, foi Macbeth coroado herdeiro imediato e desse modo, cumpriu-se literalmente a predição das bruxas. Entretanto, Macbeth e a rainha não se esqueceram da outra parte da profecia, segundo a qual os filhos de Banquo, e não os seus, reinariam depois dele. Macbeth prepara então um banquete para homenageá-lo, mas manda assassinos contratados matá-lo numa emboscada.

Banquo morre, mas seu filho Fleance consegue escapar. Isto provoca acessos em Macbeth, que durante a recepção deixa escapar palavras comprometedoras, por ser atormentado pelo espectro de Banquo.

Perseguido por alucinações, Macbeth decide consultar as bruxas novamente. As entidades lhe advertem para se prevenir contra o barão de Fife. Macbeth, que já estava desconfiado de Macduff, barão de Fife, agradece a advertência. Informado em seguida de que Macduff fugira para a Inglaterra onde, junto com Malcolm, liderava um exército cedido pelo rei, Macbeth se vinga, mandando matar sua mulher e seus dois filhos, estendendo a carnificina a quantos se gabassem do menor parentesco com Macduff. Este, ao receber tal notícia, apressa sua volta à Escócia, ansioso por vingança.

Macbeth vai perdendo pouco a pouco os aliados, horrorizados com tantas atrocidades. Enquanto isso, a rainha, sua única sócia no mal, perde a sanidade, atormentada pela culpa até que morre. Macbeth agora está quase só. Começa a desprezar a vida e a desejar a morte. Mas a aproximação do exército de Macduff desperta nele a velha coragem e ele decide morrer lutando. É o que realmente acontece. Após um violento combate pessoal, Macbeth é derrotado por Macduff, que lhe corta a cabeça e a oferece de presente ao jovem e legítimo rei, Malcolm. Talvez McCoy tivesse esta cena em mente quando disse a Kirk: "E se você concluir que ele é Kodos, o que acontece? Você vai brincar de Deus, carregar sua cabeça pelos corredores em triunfo? Isso não vai trazer os mortos de volta, Jim".

O capitão Kirk sem querer adivinhou com quem estava lidando quando, ao invés de chamar Lenore Karidian pelo nome, no coquetel onde se conheceram, dirigiu-se a ela como "Lady Macbeth". Ao elogiar sua performance no palco, mal sabia ele que Lenore era ainda pior que Lady Macbeth. Enquanto a personagem de Shakespeare participa da sucessão de crimes da peça através de palavras incitadoras, Lenore efetivamente executa seus planos de morte com as próprias mãos. No final ambas as personagens enlouquecem porque talvez, nem mesmo a alma mais perversa consegue se livrar da culpa. Porque, usando as próprias palavras de Lady Macbeth, nem todos os perfumes da Arábia conseguem lavar as mãos que um dia se mancharam de sangue.


"Tratando-se de Shakespeare", disse o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), "sempre se acha que não se falou o bastante; é como se o nome de Shakespeare fosse infinito". Talvez isso seja verdade. O fato é que parece que há muito mais Shakespeare em Star Trek do que sonha nossa vã filosofia!




Susana Lopes de Alexandria


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