Ústav románských jazyků a literatur bakalářská diplomová práce



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MASARYKOVA UNIVERZITA

FILOZOFICKÁ FAKULTA

ÚSTAV ROMÁNSKÝCH JAZYKŮ A LITERATUR



Bakalářská diplomová práce



BRNO 2010 MAREK ATANASČEV

MASARYKOVA UNIVERZITA

FILOZOFICKÁ FAKULTA

ÚSTAV ROMÁNSKÝCH JAZYKŮ A LITERATUR



Portugalský jazyk a literatura



Marek Atanasčev

A personagem de D. Madalena de Vilhena na obra Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett

Bakalářská diplomová práce



Vedoucí práce: Mgr. Silvie Špánková, Ph.D.

2010

Na tomto místě bych chtěl vyjádřit hlubokou vděčnost paní Mgr. Silvii Špánkové, Ph.D. za její ochotnou pomoc, rady a čas, který věnovala mé práci. Také bych chtěl poděkovat profesorovi Pedro Eiras z Universidade do Porto za jeho doporučení vhodné literatury, která byla následně použita při psaní této práce.

Prohlašuji, že jsem diplomovou práci vypracoval samostatně s využitím pramenů uvedených na příslušném místě.

……………………………………………



1 INTRODUÇÃO..............................................................................

7







2 AUTOR DA OBRA – ALMEIDA GARRETT………………………………….....

9

2.1 Vida de Almeida Garrett...............................................................

9

2.2 Teatro na vida de Almeida Garrett................................................

12







3 FREI LUÍS DE SOUSA…………………………………………………………….......

16

3.1 Frei Luís de Sousa no contexto histórico-cultural……………………...

16

3.2 Frei Luís de Sousa – a especificidade da obra...............................

19

3.3 Frei Luís de Sousa – A acção..........................................................

23

3.3.1 Resumo dos actos...................................................................

25







4 PERSONAGENS............................................................................

29

4.1 Característica das personagens.....................................................

29

4.2 Madalena de Vilhena....................................................................

31







5 CONCLUSÃO................................................................................

44







6 BIBLIOGRAFIA..............................................................................

45


1 Introdução

A obra Frei Luís de Sousa escrita por Almeida Garrett é considerada como uma das maiores obras na história do teatro português. Até a sua publicação, em 1843, não havia nenhuma obra assim elaborada, com as marcas do romantismo e as ideias do liberalismo, e por isso não há dúvidas que na época da sua apresentação se tratava de uma obra revolucionária que fundamentalmente mudou e influenciou o carácter e o ambiente teatral em Portugal.

Nós pessoalmente tivemos a primeira possibilidade de encontrar-nos com esta obra durante os nossos estudos da literatura portuguesa na República Checa mas o nosso interesse aumentou com a escolha da matéria de História do teatro português na Universidade do Porto em que tivemos possibilidade de aprofundar o nosso conhecimento desta peça que conduziu à ideia de escrever um trabalho sobre este tópico.

Portanto, o nosso trabalho dedica-se à obra Frei Luís de Sousa, ao seu autor Almeida Garrett e principalmente à característica de D. Madalena, a personagem que desempenha um papel importantíssimo na obra.

No primeiro capítulo vamos dedicar-nos à vida do escritor, aos efeitos que o influenciaram na sua formação e à sua relação com o teatro.

Depois vamos tomar conhecimento do contexto histórico-cultural, que influenciou as condições de produção e a apresentação do Frei Luís de Sousa, e vamos analisar o texto Memória ao Conservatório Real em que o autor explica a especificidade da sua obra confrontando as tendências típicas da tragédia clássica e do drama romântico. No mesmo capítulo ainda, vamos dedicar-nos à acção da obra, mais precisamente à sua estrutura, e vamos resumi-la.

Após a primeira observação de toda a obra vamos prosseguir à característica geral das personagens. Depois disso, vamos analisar, finalmente, a personagem de D. Madalena e o seu papel na obra. Vamos revelar, através das suas falas, as marcas típicas do romantismo e do classicismo, as quias explicam a sua acção na peça.

Durante todo o trabalho, especialmente no capítulo em que nos dedicamos à característica de D. Madalena, não só parafraseamos os factos notórios, mas também tentamos introduzir o nosso próprio ponto de vista e as próprias opiniões sobre o texto de Almeida Garrett.



2 Autor da obra - Almeida Garrett

2.1 Vida de Almeida Garrett

João Baptista da Silva Leitão1 nasceu como segundo filho dum bancário em 4 de Fevereiro de 1799 no Porto, mais precisamente na rua do Calvário, às Virtudes, numa casa ainda hoje assinalada com uma lápide municipal.

Em consequência das Invasões Francesas, a sua família foi obrigada a mudar a sua residência para a Ilha Terceira onde Almeida Garrett passou a sua adolescência. Nos Açores o jovem fez estudos humanísticos orientados pelo tio D.Frei Alexandre da Sagrada Família com grande influência do classicismo e arcadismo. Aproveitando a erudição literal dos grandes trágicos gregos e latinos, que tinha conseguido na companhia do seu tio, escreveu as tragédias Xerxes, Lucrécia, Afonso de Albuquerque, Mérope e ao mesmo tempo odes, sonetos, fábulas e composições líricas diversas.

Em 1816, depois do regresso a Portugal continental, fez matrícula no curso de Direito na Universidade de Coimbra, embora o seu tio o tivesse preparado à carreira eclesiástica. Na Universidade de Coimbra começa a sua actividade política, assistindo à revolução liberal em 1820, que Garrett apoiou com entusiasmo não só como escritor, mas também como orador. Isso foi o acontecimento histórico que marcou o seu percurso cívico e político para sempre.

Nesta época publica o poema libertino O Retrato de Vénus, a sua primeira obra de certo fôlego, pela qual foi acusado de materialista e ateu por José Agostinho de Macedo.

Acabando o curso, em 1820, começou a trabalhar como funcionário de ministério em Lisboa e em 1822 casou com Luísa Midosi.

A Vilafrancada, o golpe militar de D. Miguel que, em 1823, acaba com a primeira experiência liberal em Portugal, leva Garrett para o exílio, mais precisamente para a Inglaterra. Mais tarde estabelece-se em França, primeiro no Havre e depois em Paris, por causa de ser desempregado. Isto foi decisivo para a sua vida política e literária, aí entrou em contacto com a nova estética – o romantismo.

Durante a estadia no exílio publica dois poemas narrativos - Camões e D.Branca, que apresenta como uma obra póstuma de Filinto Elísio2 e onde pela primeira vez declara não olhar a regras nem a princípios e não ser um clássico nem romântico, mas procura sinceridade e personalidade nacional. Ambas as obras são de tématica nacionalista geralmente consideradas como marcos fundadores do romantismo renovador.

Em 1826 volta para Portugal, onde funda os jornais O Português e O Cronista, mas já dois anos após o regresso à pátria, em 1828, as circunstâncias políticas obrigaram Garrett a exilar-se pela segunda vez para a Inglaterra.

Em 1832 regressa de novo a Portugal, participando, com Herculano e outros, no desembarque dos liberais no Mindelo e no cerco do Porto, durante o qual começou a escrever a sua obra O Arco de Sant´Ana.

Assumindo o cargo de Cônsul-Geral, em 1834, partiu para Bruxelas, onde se encontra com a arte escrita dos românticos alemães.

Regressado à pátria em 1836, por causa dos conflitos com o governo, Garrett funda o jornal antigovernamental O Português Constitucional e afirmou-se como um claro opositor ao regime junto com o seu amigo Passos Manuel3, com o qual partilha a ideia de fundar e organizar o Teatro Nacional, ou seja, renovar o teatro português como afirma Luiz Francisco Rebello em O teatro romântico ( 1838-1869 ). No mesmo ano ainda se separa de Luísa Midosi e conhece Adelaide Deville.

“Teatro é um grande meio de civilização – escreveu Garrett no prefácio do seu Auto de Gil Vicente – mas não prospera onde a não há; não têm procura os seus produtos enquanto o gosto não forma os hábitos e com ele a necessidade. Havia, pois, que apurar o gosto, incutir o teatro em todas as suas partes, que em todas dela carecia.”4

Após a revolução de Setembro, em 1837, foi nomeado como Inspector-Geral dos Teatros o que lhe finalmente permitiu fundar o Teatro Nacional D. Maria II e o Conservatório Nacional que foi a primeira escola de actores em Portugal.

Logo que tenha sido fundado Teatro Nacional, Almeida Garrett começa a publicar as obras teatrais. Então, depois da sua primeira apresentação pública da tragédia Catão, em 1821 em Lisboa, segue Um Auto de Gil Vicente, em 1838, Dona Filipa de Vilhena, em 1840, O Alfageme de Santarém, em 1842.

“Assim, pela primeira vez na história do nosso teatro, se procurou estruturar como um todo coerente a actividade teatral, dando solução prática aos vários problemas que a organização desta pressupõe, desde a formação de actores e de um repertório daramatúrgico nacional à construção de um edifício ‹‹em que decentemente se pudessem representar os dramas nacionais››, ‹‹sem exceptuar – como diria Herculano em 1839 – os espectadores, que, bem como tudo o mais, era preciso criar de novo››, tudo isto coordenado por um Inspector-Geral dos Teatros, cargo para o qual Garrett foi nomeado ( como era, aliás, de inteira justiça ) e que este exerceu até ser demitido em 1841.”5

A época mais frutuosa na actividade literária de Garrett surge durante o Cabralismo6, quando o escritor deixa todos os cargos políticos, mas não deixa o seu patriotismo empenhado. Nesta época publica as obras mais famosas – Viagens na Minha Terra, que começou a publicar na Revista Universal Lisbonense, e Frei Luís de Sousa, em 1843, O Arco de Sant´Ana e Flores sem Fruto, em 1845. Escreve também a obra Folhas Caídas mas publica-a mais tarde ainda. Durante esta época, em 1841, nasce-lhe também a filha Maria Adelaide da união com Adelaide Deville, que faleceu ainda no mesmo ano.

Tendo a seu cargo a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros, retoma a vida política de novo em 1851 quando é nomeado Visconde.

Dois anos depois publica Folhas Caídas, um conjunto de poemas de um subjectivismo de tipo confessional, uma vez que na sua origem está a paixão assanhada pela Viscondessa da Luz.

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett faleceu em 1854, aos cinquenta e cinco anos, sozinho no seu apartamento em Lisboa, após uma vida cívica e política intensa.



2.2 Teatro na vida de Almeida Garrett

O teatro foi a veia preferencial de Garrett, como é declamado no Dicionário de literatura portuguesa “(...)já na mocidade dizia que a sua imaginação dava sempre forma dramática a qualquer conflito.(...)”7

Almeida Garrett escreveu a sua primeira peça de teatro já quando era muito jovem. Estudando na Universidade de Coimbra, representou com os seus colegas a obra Xerxes e no ano seguinte foi levada à cena uma outra tragédia, Lucrécia, onde se sente grande influência do Arcadismo.

Em Lisboa, em 1821, estreou a tragédia Catão, a primeira peça importante, apresentada no Teatro do Bairro Alto, que se enquadra no conjunto do teatro pré-romântico mas que é certamente, “(...)como observou com toda a pertinência Vitorino Nemesio, uma ‹‹forma superior de panfleto contra o velho regime português em crise, e ao mesmo tempo uma tomada de consciência cívica da geração liberal.››(...)”8 A obra marcou um grande sucesso quando foi representada em Plymouth, em 1828, entre os emigrantes portugueses por causa de manifestar abertamente as opiniões do autor sobre a questão do liberalismo que eram naquela altura parecidas às opiniões dos espectadores.

Como já foi acima mencionado, Garrett por duas vezes tomou caminho do exílio: a primeira em 1823, quando caiu o regime constitucional, a segunda em 1828, depois da reassunção do poder absoluto por D.Miguel.

Regressando à patria, depois dos seus exílios que lhe possibilitaram o contacto com os maiores teatros no mundo, especialmente em Londres e Paris, tomou consciência do estado lamentável do teatro português, o teatro sem qualquer marca da arte dramática, que naquela altura fazia-se representar só pelo nome do mestre Gil Vicente9. Foi “(...)preciso, pois, criar um novo teatro, que satisfaça novas necessidades.(...)”10

Em 28 de Setembro de 1836 o autor de Catão foi convidado por Passos Manuel a apresentar um plano para a fundação de um Teatro Nacional em Lisboa. Após um mês e meio em 12 de Novembro Garrett apresenta o seu “(...)projecto de lei estabelecendo as bases da reforma do teatro português(...)”11 que foi três dias depois aceite como lei.

O Decreto de 15 de Novembro é certamente um dos mais importantes documentos na história do teatro português. Não só que possibilitou a edificação do Teatro Nacional( artigo 20.° ), mas também foram criados a Inspecção-Geral dos Teatros e Espectáculos Nacionais( artigo 1.° ), cuja execução foi realizada em 1837 graças a que o Garrett foi nomeado Inspector-Geral dos Teatros e Espectáculos, que exerceu até 1841, conseguindo a censura das peças de teatro, e o Conservatório Geral de Arte Dramática, que estabeleceu prémios para os autores dramáticos, tentando aperfeiçoar a arte dramática e elevar o nível do teatro português ao nível europeu.

Antes de ter sido realizada a edificação do Teatro Nacional, que foi, por fim, inaugurado em 13 de Abril em 1846 porque a sua edificação era acompanhada por várias dificuldades, o velho Teatro na Rua dos Condes funcionava como ‹‹Teatro Nacional e Normal››, onde se instalou a primeira companhia nacional portuguesa dos actores que foi organizada por Garrett, que aí tinha reunido os melhores artistas, e que era dirigida pelo actor e encenador francês Emile Doux12. A companhia apresentou-se pela primeira vez com o melodrama de Victor Ducange Há 16 Anos ou os Incendiários.

O Conservatório começou a funcionar em 1839 e foi dividido em três secções: a Escola Dramática; a Escola de Música e a Escola de Dança, Mímica e Ginástica Especial.

Percebendo a urgência de ter peças para representar, Garrett começou a escrever novas obras de teatro com o objectivo de criar um repertório dramatúrgico do Teatro Nacional que satisfizesse todo o povo português, incluindo as classes socias mais baixas, porque “(...)aquilo que agradava aos empertigados desembargadores não convém a gente variada e de condição diversa, que não ‹‹posava›› para a história. É preciso introduzir temas mais humanos, isto é, capazes de interessarem um público mais geral.(...)“13 Então, os caracteres humanizam-se, tornam-se mais abertos para os espectadores mesmo como a linguagem, que é mais familiar. Também os temas são mais banais, trata-se sobretudo do tema do amor, que atinge todas as classes sociais, embora seja acompanhado pelo patriotismo e o civismo.

Em 1838, Garrett escreveu Um Auto de Gil Vicente, baseado na vida do fundador do teatro português e na época gloriosa do reinado de D.Manuel, que foi apresentado em frente do público no Teatro da Rua dos Condes e encenado por Émile Doux.

“‹‹O que eu tinha no coração e na cabeça››, escreveu Garrett no prefácio à 1.a edição do Auto( em 1841, juntamente com a Mérope ), ‹‹- a restauração do nosso teatro – seu fundador Gil Vicente – seu primeiro protector el-rei D.Manuel – aquela grande época, aquela grande glória – de tudo isto se fez o drama››. E mais adiante: ‹‹O drama de Gil Vicente que tomei para título deste›› - a tragicomédia Cortes de Júpiter, representada nos Paços da Ribeira em 1521 por ocasião da partida da infanta D.Beatriz para Sabóia - ‹‹não é um episódio, é o assunto mesmo do meu drama: é o ponto em que se enlaça e do qual se desenlaça de pois a acção; por consequência a minha fábula, o meu enredo ficou, até certo ponto, obrigado. Mas eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro.››”14

Dois anos depois da presentação da obra Um Auto de Gil Vicente, que foi acolhida bem pela crítica e pelo público, em 1840, subiu à cena outro drama histórico, Filipa de Vilhena com o título Amor e Pátria, baseado no movimento revolucionário de 1640, e que foi apresentado no Teatro do Salitre.

A 9 de Março de 1842 estreou-se no Teatro da Rua dos Condes O Alfageme de Santarém ou a Espada do Condestável, onde “(...)o Alfageme é a personagem central,... homem da ‹‹classe média››... a espada, pura, limpa de maldades, defensora da pátria e das donzelas ofendidas, é o seu verdadeiro símbolo.(...)”15

Últimas duas obras foram publicadas sem indicação do nome de autor porque Garrett tinha sido demitido das suas funções em 1841, durante o governo de Costa Cabral.

Mas em 1843, Almeida Garrett escreveu Frei Luís de Sousa, a obra que “(...)ultrapassa notavelmente o nível daquele teatro de convenções e conseguiu sobreviver ao esquecimento em que caíram as restantes peças de Garrett.(...)”16

3 Frei Luís de Sousa

3.1 Frei Luís de Sousa no contexto histórico-cultural

Há duas grandes influências histórico-culturais que marcadamente influenciaram as condições de produção e apresentação do Frei Luís de Sousa.

A primeira delas foi já mencionada ditadura de Costa Cabral que duramente represava qualquer marca do liberalismo.

A segunda é ligada ao movimento cultural da primeira metade do século XIX que influenciou pensamento e arte em toda a Europa. Trata-se do romantismo, que foi introduzido em Portugal a partir de 1825 quando foi publicado o poema Camões.

O termo romantismo deriva, com mediações francesas, do adjectivo inglês romantic, utilizado desde cerca de meados do século XVIII com o significado de ‹‹aos antigos romances››( em inglês, romance designa um género narrativo caracterizado pela fantasia, pelo mistério e pela aventura ). O adjectivo romantic, ligado portanto originalmente às manisfestações literárias, podia qualificar uma paisagem, um monumento, etc., mas desde o início do último quartel do século XVII, pelo menos, apresenta um significado inequivocamente estético-literário.

O romantismo tem a sua origem na Alemanha e Inglaterra na segunda metade do século XVIII e foi preparado por várias tendências, sobretudo pelo sentimentalismo, e fenómenos que são conhecidos como preromantismo. Nasce como uma reacção ao iluminismo, o seu racionalismo, e a crise da civilização na época que inicia após a revolução na França e as Guerras Napoleónicas.

Trata-se de uma atitude da vida contrária ao realismo, que procura resolver conflitos entre o homem e o mundo, inclinando ao idealismo, e que se desenvolve plenamente na literatura, cujos autores protestam contra a sociedade, procurando evasão no passado, natureza, religião, no mundo dos sentimentos humanos e paixões.

O romantismo sublinha a fuga dum indivíduo único, muitas vezes de uma personagem marginal da sociedade, ao mundo, representando o seu sofrimento, solidão ou grandeza, discordância fatal e impasse da sua existência. Assim o “eu”, a par da liberdade individual e política, é o valor máximo para os românticos.

Em Portugal, o romantismo foi introduzido por Garrett e Alexandre Herculano. A introdução e difusão das novas ideias foram ligadas a uma mudança da sociedade portuguesa a nível politico e cultural. É preciso mencionar que o romantismo português apresenta características muito próprias, havendo uma relação muito importante com o liberalismo e nacionalismo e sendo uma expressão literária da nova classe dominante: a burguesia.

“O romantismo é a expressão literária e plástica da consciência burguesa. Acredita no progresso, porque o progresso foi a mola económica da burguesia; entoa o canto da liberdade, porque para o burguês parece evidente que a liberdade não é senão o exercício do poder por ele próprio; exalta o sentimento contra a barreira das convenções, porque o sentimento é ele e as convenções são as sobrevivências das barreiras sociais que ainda se opõem à sua caminhada triunfal; inventa a alma do povo, ou o espírito nacional, porque se considera o legítimo representante desses mitos; reinventa a história porque lhe permite reconstituir um pergaminho colectivo e apresentar-se como sendo ele o verdadeiro nobre, o representante das gerações que, durante séculos, desbravam o caminho da liberdade.”17

Então, embora a obra-prima do teatro romântico português, “(...)para Otto Antscherl ‹‹a obra mais brilhante que o teatro romântico produziu››(...)”18, tenha sido escrita durante duas semanas em 1843, foi levada ao grande público em 1850, no Teatro Nacional de D. Maria II, porque na altura, em que o autor escreveu o texto, vivia-se sob a ditadura de Costa Cabral, o inimigo político de Garrett, e sob a censura que impediu a representação da obra, considerada como um símbolo da liberdade, que reflecte a situação política e cultural, e afirmação individuais incómodas para o regime. Segundo as palavras do “Prólogo dos editores” que acompanha a primeira edição “(...)não havia a mínima tenção de entregar à cena Frei Luís de Sousa, nem tão cedo à imprensa, quando se acabou de compor nos fins do inverno passado.(...)”19

A ideia de escrever “(...)‹‹a mais perfeita tragédia do século XIX››, segundo Edgar Quinet(...)”20 era já antiga em Garrett e lhe tinha surgido, alguns anos antes, em 1818, quando, durante as férias de Verão, na Póvoa de Varzim, tinha assistido à representação de uma “Comédia famosa” por uma companhia espanhola de teatro ambulante e que talvez fosse A secreto Agravio, de Calderón21.

Sobre a composição do Frei Luís de Sousa informa Mário Fiúza, parafraseando o biógrafo e panegirista Francisco Gomes de Amorim22:

“Retido em casa, pela ferida resultante de forte canelada, desde proncípios de Março até ao fim de Abril desse ano de 1843, começou e concluiu o maior monumento que existe no teatro português.

Segundo o manuscrito que contém a primeira redacção do drama o Frei Luís de Sousa foi composto de 27 de Março a 8 de Abril de 1843. Se as datas estão certas, gastou Garrett treze dias a criar a sua obra-prima do género dramático.

Não devemos tomar demasiado à letra estas datas de Garrett. O seu biógrafo, Gomes de Amorim, demonstrou cabalmente que as datas por ele citadas nem sempre são verdadeiras, a começar pela do seu nascimento.

Composto o drama, leu-o Garrett ao seu amigo Alexandre Herculano que, no final, não podendo conter o seu entusiasmo, exclamou: ‹‹Abençoada canelada!››”23

A obra foi apresentada pela primeira vez numa leitura a 6 de Maio de 1843, no Conservatório Real, perante um auditório escolhido e culto, e dois meses depois, a 4 de Julho de 1843, o Frei Luís de Sousa foi representado no Teatro da Quinta do Pinheiro por uma sociedade de carácter muito particular, com cenários de Rambois e Cinatti e quatro dramaturgos: António Pereira da Cunha, António de Sousa Lobo, Duarte de Sá e o próprio Garrett que substituiu um amigo na personagem de Telmo Pais.

Em 1847, apesar de todo o empenho da censura oficial, a obra estreou no Teatro do Salitre e três anos depois “(...)entrou finalmente no repertório do Teatro Nacional – e é, de quantas peças ali subiram à cena até hoje, a que maior número de representações alcançou, assim desmentido a profecia de um crítico dela contemporâneo, de que ‹‹dentro de duas ou três dezenas de anos, ninguém falará mais nem na peça nem no senhor Garrett , que hoje vive apenas de uma glória efémera.››(...)”24



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