Stephen king



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STEPHEN KING

Os Estranhos

(Os Tommyknockers)


Tradução:
LUÍSA IBAÑEZ

Francisco

Alves

Título original: The Tommynockers


Publicado de acordo com o Autor e com os agentes do Autor,

Ralph M. Vicinanza, Ltd.

Copyright © 1987 by Stephen King. Tabitha King, and Arthur B. Greene, Trustee
Copyright da tradução brasileira © 1990 by
LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.
Reservados todos os direitos
ISBN: 85-265-0217-4
Capa:
GIAN CALVI
Revisão:

JORGE LUIZ LUZ DE CARVALHO

JULIO CESAR DA ROCHA

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de livros, RJ.
King, Stephen, 1947-

K64e Os estranhos: (Tommyknockers) / Stephen King; tradução de Luísa Ibañez — Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

(Coleção Mestres do horror e da fantasia)

Tradução de: The tommyknockers

ISBN 85.264-0217.4

Ficção estadunidense. 1. Ibañez. Luísa. II. Título. III. Série.

CDD - 813
90-0510 CDU – 820(73)-3

1990


LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.

Rua Sete de Setembro, 171- Centro

20050 - Rio de Janeiro - RJ

Tel.: (021) 221-319



Para Tabitha King

... promessas a manter.”


PREFÁCIO

Como acontece a muitas rimas de Mamãe Gansa, as estrofes sobre os Tom-myknockers são decepcionantemente simples. É difícil chegar-se à origem desta palavra. O Webster’s Unabridged diz que Tommyknockers tanto podem ser ogres vivendo em túneis, como fantasmas que infestam cavernas ou desertas galerias de minas. Uma vez que tommy é um termo arcaico de gíria britânica, referindo-se a reações do exército (o que tornou o termo tommies uma palavra usada para identificar recrutas britânicos, como em Kipling: “é Tommy isto, e Tommy aquilo...”), o Oxford Unabridged Dictionary, embora não identificando o termo em si, pelo menos sugere que Tommyknockers sejam os fantasmas de mineiros mortos por inanição, mas que continuam batendo por comida e resgate.

A primeira estrofe (“Bem tarde na noite passada e na noite anterior,” etc.) é comum o bastante para que eu e minha esposa a tivéssemos ouvido quando crianças, mesmo havendo sido criados em cidades diferentes, tendo crenças religiosas diferentes e possuindo diferente ascendência — ela, oriunda principalmente de franceses, eu de irlandeses-escoceses.

Todas as demais estrofes são produto da imaginação do autor.

Este escritor — eu, em outras palavras — deseja agradecer à esposa Tabitha, uma crítica inestimável, embora às vezes exasperante (quando nos enfurecemos com os críticos quase podemos ter certeza de que estão certos), ao editor Alan Williams, por sua gentil e cuidadosa atenção, a Phyllis Grann por sua paciência (este livro não foi apenas escrito, mas também expelido e, em particular, a George Everett McCutcheon, que leu cada um de meus livros e os analisou criteriosamente — antes de mais nada, por motivos ligados a armas e balística, mas também por sua atenção à continuidade. Mac faleceu enquanto este livro era reescrito. Aliás, eu fazia obedientemente as correções sugeridas em uma de suas notas quando soube que por fim sucumbira à leucemia, contra a qual vinha lutando por quase dois anos. Senti uma tremenda falta dele, não por ajudar-me a corrigir coisas, mas por fazer parte dos que moram em meu coração.

Devo ainda agradecimentos a outras pessoas, estas em maior número do que me seria possível mencionar: pilotos, dentistas, geólogos, colegas escritores, e inclusive meus filhos, que ouviram a leitura do livro. Também sou grato a Jay Gould. Embora ele torça pelos Yankees, não sendo, portanto inteiramente confiável, seus comentários sobre as possibilidades do que eu denominaria a “evolução dos mudos”, ajudaram a modelar o novo rascunho desta novela (O sorriso do flamingo, por exemplo).

Haven não é real. Os personagens não são reais. Esta é uma obra de ficção, com uma única exceção:

Os Tommyknockers são reais.

Se você pensa que estou brincando, é porque não ouviu os noticiários noturnos.
Stephen King

Bem tarde na noite passada e na noite anterior,

Tommyknockers, Tommyknockers,

batendo à porta.

Quero sair, mas não sei se posso,

porque tenho pavor

do homem Tommyknocker.

LIVRO I

A NAVE NA TERRA


Recolhemos Harry Truman, boiando desde Independence

Perguntamos: “O que nos diz sobre a guerra?”

Ele respondeu: “Bons tempos a levem!”

Perguntamos: “O que nos diz sobre a bomba? Não lamenta o que fez?”

Ele respondeu: “Passem-me essa garrafa e metam-se com a sua vida!”
“Downstream”

The RAINMAKERS




UM
ROBERTA ANDERSON TROPEÇA

1
O reino foi perdido por falta de uma ferradura — é como diz o catecismo, quando o reduzimos à expressão mais simples. Por fim, podemos reduzir tudo a algo similar — ou assim pensou Roberta Anderson, bastante tempo mais tarde. Foi tudo uma casualidade... ou tudo obra do destino. Ela literalmente tropeçou em seu destino, na cidadezinha de Haven, no Maine, a 21 de junho de 1988. Esse tropeção foi a raiz do assunto; todo o resto se tornou história.

2
Naquele entardecer, Roberta havia saído com Peter, um velho cão beagle, agora cego de um olho. Jim Gardener lhe dera Peter em 1976. Roberta saíra da universidade no ano anterior, faltando apenas dois meses para diplomar-se, a fim de ir morar na propriedade do tio, em Haven. Não havia percebido o quanto estava solitária, senão quando Gard lhe trouxera o cão. Peter era um filhote, na época, e Roberta custara a crer que agora estivesse idoso — oitenta e quatro anos, na contagem de idade dos cães. Aliás, era uma forma de também mensurar sua própria idade. Mil novecentos e setenta e seis recuara. Sim, de fato. Quando temos vinte e cinco anos, ainda nos podemos dar o luxo de acreditar que, em nosso caso, envelhecer era um erro de transcrição que, eventualmente, seria corrigido. Ao acordarmos um belo dia e descobrirmos que nosso cão está com oitenta e quatro anos e nós com trinta e sete, essa é uma perspectiva que devia ser reexaminada. Sim, de fato.

Roberta procurava um lugar em que pudesse cortar um pouco de lenha. Já tinha quase duzentos pés cúbicos de lenha cortada, porém queria triplicar a quantidade, o que lhe permitiria atravessar todo o inverno. Havia cortado um bocado de lenha desde que Peter ainda era filhote, afiando os dentes em um chinelo velho (e molhando exageradamente todo o tapete da sala de refeições), porém ainda existia bastante madeira na propriedade. Aquelas terras (que após treze anos continuavam sendo identificadas, pela gente da cidade, como a fazenda de Frank Garrick) ficavam a apenas sessenta e um metros da Rota 9, porém os muros de pedra marcando os limites norte e sul estendiam-se em ângulos divergentes. Outro muro de pedras — este tão antigo que se degenerara em monturos isolados de pedras, cobertas de musgo — delimitava as divisas posteriores da propriedade, avançando, em cinco quilômetros de indisciplinada floresta contendo árvores de primeira e segunda geração. A área total dessa cunha em forma de torta era enorme. Além do muro na margem oeste da terra de Bobbi Anderson, havia quilômetros e quilômetros de florestas pertencentes à Companhia de Papel da Nova Inglaterra. No mapa, tinham o nome de Burning Woods. Floresta Ardente.

Em verdade, Roberta não tinha real necessidade de procurar algum local apropriado para cortar sua lenha. A terra que herdara do irmão de sua mãe era valiosa, porque a maioria das árvores ali existentes era de excelente madeira dura e relativamente intocada pela infestação da mariposa européia. Entretanto, aquele era um dia radioso e quente, após uma primavera chuvosa, o jardim fora semeado (com a maioria das plantas apodrecendo, graças às chuvas) e ainda não era hora de iniciar o novo livro. Assim, ela cobrira a máquina de escrever e perambulava com o velho e fiel Peter de um olho só.

Havia uma velha estrada de lenhadores atrás da fazenda, e Roberta seguiu quase dois quilômetros por ela, antes de desviar-se para a esquerda. Levava uma mochila (contendo um sanduíche e um livro para ela, biscoitos caninos para Peter e punhados de fita alaranjada que, atada à volta dos troncos das árvores que pretendia derrubar quando o calor de setembro fosse chegando a outubro) e um cantil. Tinha no bolso uma bússola Silva. Já se perdera dentro da propriedade uma vez, mas que fora o suficiente para Roberta não desejar ver repetida. Havia passado uma noite terrível na floresta, ao mesmo tempo incapaz de acreditar que estava mesmo perdida na propriedade que — pelo amor de Deus — lhe pertencia, e certa de que acabaria morrendo ali. Era uma possibilidade na época, porque apenas Jim daria por sua falta, mas Jim só aparecia quando não era esperado. Pela manhã, Peter a guiara a uma corrente e a corrente a levara de volta à Rota 9, onde borbulhava alegremente através de manilhas sob o asfalto, a apenas três quilômetros de casa. Atualmente, havia a probabilidade dela já conhecer o suficiente da floresta para encontrar o caminho de volta à estrada ou a um dos muros cercando sua terra, porém a palavra chave era probabilidade. Assim, Roberta levava uma bússola.

Por volta das três da tarde, encontrou um bom maciço de bordos. De fato, já havia passado vários ajuntamentos de boas árvores para o corte, porém este aqui ficava próximo de uma trilha conhecida, com largura suficiente para acomodar o Tomcat. Por volta de 20 de setembro mais ou menos — se alguém não explodisse o mundo, nesse meio tempo — ela engancharia seu trenó ao Tomcat, dirigiria até ali e cortaria alguma madeira. Por outro lado, já tinha caminhado o suficiente por um dia.

— Parecem boas, Pete?

Pete latiu fracamente e Roberta olhou para o beagle com tão profunda tristeza, que isso a surpreendeu e inquietou. Peter estava liquidado. Atualmente, era raro ele correr atrás de pássaros, esquilos, tâmias e uma marmota ocasional; a idéia de Peter afugentando uma corça era hilariante. Seria preciso fazer várias paradas para ele descansar, quando voltassem, mas houvera uma época, não muito distante (ou assim afirmava sua mente, com teimosia), quando Peter sempre se mantinha quinhentos metros à frente dela, esgoelando-se em latidos por entre as árvores. Roberta refletiu que podia chegar o dia em que decidiria ser o bastante; então, bateria no lado do passageiro de sua picape Chevrolet pela última vez e levaria Peter ao veterinário, em Augusta. Só que não neste verão, meu Deus, por favor! Nem neste outono ou inverno, por favor, Deus! Ou nunca, por favor, Deus!

Porque, sem Peter, ela estaria só. A exceção era Jim, porém Jim Gardener ficara ligeiramente distante no correr dos últimos três anos mais ou menos. Ainda um amigo, mas... distante.

— Gostei de você ter aprovado, Pete meu velho — disse ela, amarrando uma ou duas fitas em torno das árvores, mas sabendo perfeitamente que talvez preferisse cortar outro maciço, enquanto as fitas apodreceriam ali. — Seu gosto só é superado por sua boa aparência.

Sabendo o que era esperado de sua parte (Peter estava velho, porém não era burro), ele agitou o coto de cauda e latiu.

— Seja um vietcongue! — gritou Roberta.

Peter obedientemente caiu de lado — um leve gemido escapou dele — e rolou de costas, com as pernas escancaradas. Isso quase sempre divertia Roberta, mas agora, a visão de seu cachorro brincando de vietcongue (Peter também se fingia de morto às palavras hooch ou “My Lay ) era demasiado aproximada daquilo em que estivera pensando. — Levante-se, Peter!

Peter levantou-se devagar, com o focinho ofegante. Seu focinho branco.

— Vamos embora! — Ela lhe jogou um biscoito canino, Pete procurou abocanhá-lo no ar, mas falhou. Farejou em busca do biscoito caído no chão, perdeu a pista, tomou a encontrá-lo. Comeu-o lentamente, sem grande satisfação. — Muito bem — acrescentou Roberta. — Andando!



3
O reino foi perdido por falta de uma ferradura... e, pela escotilha de uma trilha, a nave foi encontrada

Roberta Anderson já estivera ali antes, nos treze anos em que a Fazenda Garrick se tornara a Fazenda Anderson. Reconheceu a encosta da terra, um emaranhado de árvores caídas desnivelando o terreno, todas elas talvez mortas antes da guerra da Coréia, entre as quais um enorme pinheiro de topo fendido. Caminhara pelo lugar antes e não teria problemas para encontrar o caminho de volta à trilha que usaria com o Tomcat. Poderia ter passado uma, duas ou meia dúzia de vezes antes pelo local onde tropeçou, talvez a metros ou centímetros de distância.

Agora, no entanto, seguia Peter, que se tinha movido ligeiramente para a esquerda. Com a trilha à vista, uma de suas velhas botas de caminhar bateu em alguma coisa... bateu com força.

— Ei! — gritou.

Tarde demais, apesar dos braços que se agitavam. Caiu ao chão. O ramo baixo de um arbusto arranhou-a no rosto, com violência bastante para tirar sangue.

— Merda! — exclamou, e um gaio censurou-a.

Peter voltou, primeiro farejando, depois lambendo o nariz.

— Céus, não faça isso, seu bafo fede!

Peter abanou a cauda. Roberta sentou-se no chão. Esfregou a face esquerda, viu sangue na palma e dedos. Grunhiu.

— Que bela queda! — exclamou, olhando para ver em que havia tropeçado.

Provavelmente fora em um pedaço de tronco caído ou em alguma rocha destacando-se do solo. Há rochas em abundância no Maine. No entanto, o que viu foi um brilho metálico.

Ela o tocou, correndo o dedo ao longo da coisa de metal, depois soprando a terra negra da floresta que aderira.

— O que é isto? — perguntou a Peter.

Peter aproximou-se, farejou e então fez algo peculiar. O beagle recuou dois passos caninos, sentou-se e emitiu um único uivo roufenho.

— O que deu em você? — perguntou Roberta.

Peter apenas continuou onde estava. Roberta chegou mais perto, ainda sentada, deslizando sobre o fundilho dos jeans. Examinou o metal no solo.

Apenas uns sete centímetros emergiam da terra coberta de folhas mortas — o suficiente para fazê-la tropeçar. Ali havia uma ligeira elevação e talvez a água corrente das fortes chuvas da primavera houvesse carregado a terra. A primeira idéia de Roberta foi de que os arrastadores de troncos, os lenhadores que haviam trabalhado ali nos anos 20 e 30, deviam ter deixado no local um punhado de seus refugos — os restos de comida de três dias de trabalho, um “fim de semana de lenhadores”, conforme era chamado na época.

Deve ser uma lata, pensou ela. Uma lata de feijões B&M ou de sopa Campbell. Sacudiu a protuberância metálica, da maneira como se sacode uma lata, a fim de arrancá-la da terra. Então, ocorreu-lhe que ninguém, a não ser uma criança de tenra idade, seria capaz de tropeçar na borda saliente de uma lata e cair, o metal fincado na terra não se abalou. Era sólido como uma rocha maciça. Seria talvez alguma peça do antigo equipamento dos madeireiros?

Intrigada, examinou-a mais de perto, não percebendo que Peter se erguera, recuara mais quatro passos e sentara novamente.

O metal era de uma opaca tonalidade cinza — não a cor brilhante de urna lata ou de ferro, em absoluto. Também era mais espesso do que uma lata, tendo talvez uns seis milímetros no topo. Roberta pousou a ponta do indicador direito na borda e sentiu momentâneo e curioso formigamento, como uma vibração.

Afastou o dedo e olhou para ele, intrigada.

Tornou a pousá-lo na borda metálica.

Nada. Nenhuma vibração.

Segurando o metal entre o polegar e o indicador, tentou puxá-lo da terra, como puxaria da gengiva um dente frouxo. Nada aconteceu. Agarrava a saliência bem pelo meio. Ela se afundava na terra — ou foi a impressão que deu — em ambos os lados, em uma largura com menos de cinco centímetros. Mais tarde, contaria a Jim Gardener que podia ter caminhado ali três vezes ao dia, durante quarenta anos, sem nunca tropeçar naquilo.

Afastou a terra solta dos lados, expondo um pouco mais do metal. Com os dedos, escavou ao longo dele um canal com cerca de cinco centímetros de profundidade — o solo cedia com facilidade, de maneira como cede o solo das florestas... pelo menos, até chegarmos ao emaranhado das raízes. O metal continuava a aprofundar-se uniformemente, chão adentro. Pondo-se de joelhos, Roberta escavou ao longo dos dois lados. Tentou sacudir o metal novamente. Mais uma vez, nada aconteceu.

Escavou mais terra com os dedos e rapidamente expôs mais — agora via quinze centímetros de metal acinzentado, logo em seguida vinte, depois trinta.

É um carro, um caminhão ou um puxador de toras, pensou de súbito. Enterrado aqui, no meio de lugar nenhum. Talvez seja alguma espécie de estufa do tipo Hooverville. Certo, mas por que aqui?

Não conseguia encontrar um motivo; não havia qualquer razão para aquilo estar enterrado ali. De tempos em tempos, Roberta encontrava coisas na floresta — cartuchos detonados de rifles, latas de cerveja (das bem antigas, sem topos facilmente abertos com a mão, mas com buracos em forma de triângulo, feitos pelo que, nos longínquos dias dos anos 60, era conhecido como “chave de igreja”), envoltórios de balas e doces, objetos vários. Haven não se situava na direção das duas principais rotas turísticas do Maine, uma das quais cruza a região dos lagos e montanhas até o extremo oeste do estado, a outra subindo o litoral até o extremo leste, porém há muito e muito tempo deixara de ser a floresta primitiva. Certa vez, (ela cruzara o tombado muro de pedra nos fundos de sua terra, na época realmente invadindo os terrenos da Companhia de Papel da Nova Inglaterra) descobrira a desmantelada e enferrujada estrutura de um Hudson Hornet de fins dos anos 40, assentada no que outrora havia sido uma estranha madeireira, mas que agora, mais de vinte anos depois após ter sido interrompido o corte das árvores, se tornara um emaranhado matagal de segunda geração — o que os locais denominavam “madeira inútil”. Tampouco havia qualquer motivo para a presença da carcaça de um carro estar ali... porém era mais fácil de explicar, do que uma estufa, uma geladeira ou qualquer outra maldita coisa realmente enterrada no solo.

Roberta tinha escavado valas duplas com trinta centímetros de comprimento a cada lado do objeto, sem encontrar suas extremidades. Escavou quase trinta centímetros de profundidade, antes que seus dedos arranhassem rocha. Poderia ser capaz de arrancar aquela pedra — isso, pelos menos cedera um pouco — porém não havia motivo para tal. O objeto continuava mergulhado na terra, depois disso.

Peter ganiu.

Roberta olhou para o cão, depois ficou em pé. Seus joelhos bambearam. O pé esquerdo formigou com alfinetadas. Tirou o relógio de bolso das calças — antigo e empretecido, o relógio Simon era outra parte do legado do tio Frank — e ficou espantada, ao ver que passara muito tempo ali. Uma hora e quinze minutos, pelo menos. Já passava das quatro.

— Muito bem, Pete — disse. — Vamos dar o fora!

Peter tornou a ganir, porém não se moveu. E agora, com real inquietação, Roberta viu que seu velho beagle tremia inteiramente, como se estivesse com sezão. Ela ignorava se cães podiam sofrer de sezão, mas talvez os idosos pudessem. Recordou que a única vez que vira Peter tremer daquele jeito tinha sido no outono de 1975 (ou então de 76). Um gato-do-mato andara pela propriedade e durante umas nove noites, mais ou menos, o animal miara e se esgoelara, possivelmente devido a um cio não correspondido. A cada noite, Peter ia para a janela da sala de estar e saltava sobre um velho banco de igreja que Roberta colocara ali, junto da estante de livros. Ele jamais latia. Apenas ficava espiando para o escuro, de orelhas em pé, na direção daqueles guinchos extraterrenos e femininos. Suas narinas dilatavam-se e ele tremia de alto a baixo.

Roberta passou por cima de sua pequena escavação e aproximou-se de Peter. Ajoelhando-se, deslizou as mãos pelos lados da cara do cachorro, sentindo a tremura nas palmas.

— O que há de errado, garoto? — murmurou.

Não obstante, sabia o que estava errado. O olho sadio do cão passava além dela, fixo na coisa enterrada no solo. Voltava depois a fixar-se em sua dona. A súplica impressa na pupila não velada pela odiosa e leitosa catarata era tão clara como palavras: Vamos embora daqui, Bobbi, gosto tanto daquela coisa como gosto de sua irmã.

— Está bem — disse Roberta, apreensivamente.

Ocorreu-lhe, de repente, que não se recordava de jamais haver perdido a noção do tempo como acontecera nesse dia, naquele lugar.



Peter não gostou da coisa. Nem eu tampouco.

— Vamos!

Ela começou a subir a pequena encosta até a trilha. Peter a seguiu com alacridade. Estavam quase chegando lá quando, como a mulher de Ló, Roberta olhou para trás. Se não fosse esse último olhar, de fato poderia ter esquecido inteiramente o que ocorrera, desligar-se daquilo. Desde que abandonara a universidade, antes das provas finais — a despeito das lacrimosas súplicas da mãe e das furiosas recriminações e ultimatos da irmã — Roberta ficara perita em desligar-se das coisas.

O olhar para trás, daquela distância intermédia mostrou a ela duas coisas. Primeiro, a peça metálica não mergulhava na terra como imaginara a princípio. A língua de metal projetava-se do centro de uma declividade mais ou menos suave, não ampla, porém mais ou menos profunda, sem dúvida o resultado do degelo do inverno anterior e das fortes chuvas de primavera, vindas em seqüência. Assim, o solo em ambos os lados do metal protuberante era mais alto, a peça metálica simplesmente desaparecendo em seu interior. A primeira impressão de Roberta, havia sido de que a coisa no solo seria a quina de algo, porém isto não era verdade — ou não necessariamente verdade. Em segundo lugar, aquilo assemelhava-se a um prato — não um prato em que se coma, porém um prato ou placa de metal fosco, exibindo um dos lados ou...

Peter latiu.

— Está bem — disse Roberta. — Já ouvi sua chamada. Vamos!



Vamos... e deixemos isso pra lá!

Ela caminhou pelo centro da trilha, deixando Peter seguir à frente, em direção à estrada da floresta, em seu próprio passo cambaleante, apreciando a verdura exuberante do pico do verão... e aquele era o primeiro dia do verão, certo? O solstício. O dia mais longo do ano. Roberta deu um tapa no mosquito que pousara em sua pele e sorriu. O verão era uma boa época em Haven. A melhor de todas. E, se Haven não era o melhor dos lugares, situado bem acima de Augusta, naquela parte central do estado não trilhada pela maioria dos turistas — continuava sendo um bom lugar para se vir descansar. Houvera um tempo em que ela acreditara sinceramente ficar ali apenas alguns anos, os suficientes para recuperar-se dos traumas da adolescência, da irmã e de sua brusca e confusa saída da universidade (capitulação, como Anne afirmava). Os poucos anos, no entanto, transformaram-se em cinco, os cinco se tornaram dez, os dez chegaram a treze, e vejam só, Peter está velho e você com uma boa dose de fios grisalhos, exibindo-se em uma cabeleira que era tão negra como o Rio Estige (ela tentara um corte de cabelo bem curto, dois anos atrás, quase à maneira de um punk, tendo ficado horrorizada ao perceber que o grisalho ficava ainda mais visível. Desde então, voltara a deixá-lo crescer).

Atualmente, Roberta achava que passaria o resto da vida em Haven, com a única exceção da obrigatória viagem para visitar seu editor em Nova York, a cada um ou dois anos. A cidade a conquistara. A propriedade a conquistara. A terra a conquistara. E, afinal, isso não era tão ruim assim. Talvez fosse tão bom quanto qualquer outra coisa.

Como um prato. Um prato de metal.

Ela quebrou um pequeno galho bem provido de recentes folhas verdes e o agitou em torno da cabeça. Os mosquitos a tinham encontrado e pareciam determinados a extrair dela seu chá festivo. Mosquitos redemoinhando à volta de sua cabeça... e pensamentos como mosquitos, dentro da cabeça. Estes últimos ela não conseguia afugentar.



Aquilo vibrou por um segundo sob meu dedo. Eu senti. Como um diapasão. No entanto, parou quando o toquei. Será possível algo vibrar na terra desse jeito? É claro que não. Talvez...

Talvez houvesse sido uma vibração psíquica. Ela não descria de tais coisas, em absoluto. Talvez sua mente houvesse captado algo sobre aquele objeto enterrado e lhe falara a respeito, utilizando a única maneira possível, isto é, fornecendo uma impressão táctil: a da vibração. Sem dúvida, Peter captara algo sobre a coisa; o idoso beagle não quisera aproximar-se dela.



Esqueça. Ela esqueceu.

Por enquanto.




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