Subjetividade e psicologia do self



Baixar 34.95 Kb.
Encontro23.05.2018
Tamanho34.95 Kb.


Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self

ABEPPS
Subjetividade e Psicologia do Self:

Uma Odisséia Pessoal

Robert D. Stolorow



Progress in Self Psychology, vol. 8

1992
O ato de escrever esta "odisséia" foi estimulado por discussões informais ocorridas durante a 12ª Conferência Anual sobre Psicologia do Self em S. Francisco (1989), as quais levantaram questões acerca do relacionamento entre a psicologia do self e a teoria da intersubjetividade. Rastreando as origens dos conceitos de mundo subjetivo e de intersubjetividade no meu próprio desenvolvimento intelectual espero, neste ensaio, esclarecer a natureza do relacionamento entre essas idéias e o arcabouço da psicologia do self.

As raízes formais do meu interesse pela subjetividade retrocedem até o período do meu doutorado em psicologia clínica em Harvard, de 1965 a 1970. Naquele período Harvard era um lugar maravilhoso para um psicólogo clínico crescer intelectualmente. O programa de psicologia clínica realmente não fazia parte de um departamento de psicologia; era dado no Departamento de Relações Sociais, que era constituído de importantes estudiosos de 4 disciplinas – sociologia, antropologia cultural, psicologia social e psicologia da personalidade – todos os quais compartilhavam o interesse comum e uma base de formação em psicanálise. Assim, em vez de estudar a psicologia experimental de ratos, tive o privilégio de aprender com Talcott Parsons acerca da teoria dos sistemas sociais; com John Whiting, acerca de cultura e personalidade; e com Erik Erikson sobre epigênese e formação da identidade.

O programa de psicologia clínica era o primeiro e último baluarte de uma tradição da psicologia acadêmica da personalidade, conhecida como personologia. Esta tradição, fundada por Henry Murray na clínica psicológica de Harvard nos anos 30, sustentava como premissa básica a idéia de que o conhecimento da personalidade humana só pode progredir por meio do estudo sistemático, em profundidade, da pessoa individual. Esta ênfase na pesquisa "idiográfica", de preferência à "nomotética", constituía afastamento radical em relação à filosofia da ciência que dominava então – e continuou a dominar – a psicologia acadêmica neste país. A personologia de Murray atraiu um grupo de estudantes extraordinariamente criativos, muitos dos quais contribuíram para a obra maior dele (1938), Explorations in Personality, um clássico no campo da psicologia da personalidade. Dois dos mais influentes seguidores de Murray foram Robert White e Silvan Tomkins1.

Meus dois principais orientadores durante meu doutorado foram White e Irving Alexander, professor visitante e pupilo de Tomkins. De White tive seminários sobre teoria analítica e o estudo de vidas e adquiri duradouro interesse na compreensão da singularidade da vivência de mundo de cada indivíduo. Alexander ensinou-nos avaliação psicológica da maneira como aprendera de Tomkins. Em vez de preparar-nos para aplicar testes psicológicos em hospitais, seu curso consistia do estudo de uma pessoa durante o ano inteiro, por meio de uma variedade de métodos (análise de material autobiográfico, entrevistas em profundidade, testes projetivos etc.). Uma vez mais a ênfase ficava na investigação sistemática da experiência interior singular do indivíduo.

Infelizmente, a aposentadoria de White em 1968 foi um autêntico golpe de morte para a personologia em Harvard, mas tem havido tentativas de fazer reviver a tradição em outros ambientes. Uma dessas tentativas começou em 1972, quando eu era candidato em formação psicanalítica em Nova York. Eu me interessei em seguir carreira acadêmica em psicologia e fiquei sabendo que estava-se abrindo um lugar em Rutgers, onde Tomkins e George Atwood – que tinha sido profundamente influenciado por Tomkins – faziam parte do corpo docente de psicologia. Lembro-me de uma conversa telefônica em que Tomkins insistia para que eu viesse para Rutgers porque, como ele dizia, comigo no corpo docente, haveria uma "massa crítica" para a criação de um programa de personologia. De fato entrei para o corpo docente de Rutgers e, embora tenha havido diversas reuniões dedicadas ao planejamento de um novo programa de doutorado em psicologia da personalidade personologicamente orientado, este nunca decolou. O único resultado concreto desses esforços – e altamente significativo para mim – foi uma série de estudos em colaboração, primeiro de Atwood e Tomkins, depois meus e de Atwood.

Atwood e Tomkins (1976) escreveram um artigo fundamental, "On the Subjectivity of Personality Theory" que foi publicado num periódico bastante obscuro, The Journal of the History of the Behavioral Sciences. A premissa básica desse artigo, que os autores consideraram como contribuição à psicologia do conhecimento, era que toda teoria psicológica tem raízes na vida psicológica do teórico; os autores afirmavam ainda que a ciência da psicologia da personalidade "só poderá alcançar um grau maior de consenso e generalização se começar a voltar-se sobre si mesma e questionar seus próprios fundamentos psicológicos" (p. 166). Seguindo este princípio, Atwood e eu (1979) embarcamos numa série de estudos psicobiográficos das origens pessoais, subjetivas dos sistemas teóricos de Freud, Jung, Reich e Rank, estudos que formaram a base do nosso primeiro livro, Faces in a Cloud, completado em 1976. A partir desses estudos, concluídos que uma vez que as teorias psicológicas derivam num grau significativo das preocupações subjetivas de seus criadores, o que a psicanálise e a teoria da personalidade precisam é de uma teoria da própria subjetividade – um arcabouço unificador que pudesse dar conta não apenas dos fenômenos psicológicos de que as outra teorias tratam, mas também das próprias teorias.

No último capítulo de Faces in a Cloud esboçamos um conjunto de propostas para a criação de um arcabouço desses, ao qual nos referimos como "fenomenologia psicanalítica", termo que nunca pegou. Influenciados pelos trabalhos escritos de Schafer (1976) e G. Klein (1976), imaginávamos esse arcabouço como uma psicologia profunda da vivência humana, depurada das reificações mecanicistas da metapsicologia clássica. Nosso arcabouço tomava o "mundo representacional"2 subjetivo (Sandler e Rosenblatt 1962) do indivíduo como seu construto teórico central. Não adotamos nenhuma instância psíquica impessoal nem moções motivacionais primordiais para explicar o mundo das representações. Em vez disso, supusemos que esse mundo desenvolve-se organicamente a partir do encontro da pessoa com as experiências críticas formativas que constituem sua história de vida singular. Uma vez estabelecido, passa a poder ser percebido nos temas distintos, recorrentes, e nos significados invariantes que organizam inconscientemente a vivência da pessoa. Em sua essência, a fenomenologia psicanalítica implicava um conjunto de princípios interpretativos para pesquisar a natureza, as origens, as funções e a transformação das configurações de self e outro, que impregnam o universo subjetivo da pessoa.

Embora o conceito de intersubjetividade não tenha sido introduzido em Faces in a Cloud, ele estava claramente implícito nas demonstrações de como o mundo pessoal, subjetivo, de um teórico da personalidade influencia sua compreensão das vivências das outras pessoas; uma das seções do capítulo de introdução tem como subtítulo "O observador é o observado" (p.17). O primeiro uso explícito do termo intersubjetivo no nosso trabalho apareceu num artigo (Stolorow, Atwood e Ross 1978) intitulado "The Representational World in Psychoanalytic Therapy", também completado em 1976. Numa seção que levava o subtítulo "Transference and Countertransference: An Intersubjective Perspective" (p.249), conceituávamos o interjogo de transferência e contratransferência no tratamento psicanalítico como um processo intersubjetivo que reflete a interação dos mundos subjetivos diferentemente organizados de paciente e analista3. Prefigurando muito trabalho por fazer, consideramos o impacto que correspondências e disparidades não-reconhecidas, entre os respectivos mundos de experiências do paciente e do analista, poderiam ter sobre o processo terapêutico.

É bom que fique claro, a partir do relato precedente, que seria bastante errôneo caracterizar as teorias do mundo subjetivo e da intersubjetividade como algo que "cresceu e não cabe mais" na psicologia do self. Com raízes que se estendem para trás até o ambiente intelectual de meus estudos de graduação em Harvard, esse arcabouço já estava delineado, como um esqueleto, um ano antes do batismo formal de psicologia do self, em 1977. É claro que a psicologia do self viria a contribuir para esse esqueleto de arcabouço trazendo muito de sua carne e de seu sangue4. Por volta de 1976 eu tinha escrito uma quantidade de artigos clínicos, alguns sozinho, outros com Frank Lachmann5, que faziam extenso uso dos novos insights de Kohut (1971) sobre a psicologia do narcisismo, mas naquela época eu ainda não via um modo de integrar essas novas compreensões clínicas ao programa teórico mais geral que Atwood e eu estávamos desenvolvendo. A ponte entre os dois foi fornecida finalmente pelo A Restauração do Self de Kohut (1977).

Um ponto nodal no meu próprio desenvolvimento intelectual ocorreu em 1977 quando o periódico de resenhas bibliográficas Contemporary Psychology convidou-me a fazer a resenha de A Restauração do Self, convite que aceitei com prazer. É difícil para mim transmitir a profundidade da satisfação e a intensidade da excitação que senti à medida que lia esse livro. Eu não estava primariamente respondendo às peculiaridades das formulações de Kohut, por mais elegantemente estruturadas e profundamente verdadeiras que me parecessem. Em vez disso, eu estava respondendo mais ao alcance revolucionário de suas propostas teóricas gerais, nas quais ele estava atirando fora os grilhões da metapsicologia clássica e recolocando a psicanálise como "uma fenomenologia do desenvolvimento do self", conforme a chamei em minha resenha (Stolorow 1978b, p. 229). Este estonteante novo paradigma teórico, envolvendo um desvio da primazia motivacional da pulsão para a primazia motivacional da experiência de si mesmo, parecia-me ajustar-se como uma luva às sugestões da fenomenologia psicanalítica que Atwood e eu tínhamos lançado em Faces in a Cloud. Kohut estava tentando, tanto quanto nós, re-enquadrar a psicanálise como psicologia pura.

A discussão do método introspectivo-empático de observação, que Kohut fazia no último capítulo de A Restauração do Self levou-me ao seu artigo original sobre esse assunto e que eu não tinha lido antes (Kohut 1959). Lendo este artigo – que demonstra que os territórios empírico e teórico da psicanálise são definidos e delimitados por seu método introspectivo-empático de investigação – foi uma experiência ainda mais jubilosa para mim do que a leitura do livro, e o artigo continua sendo o meu favorito dentre as obras de Kohut. O que era tão excitante e tinha marca tão intensa de comprovação para mim, foi que Kohut, estudando o relacionamento entre método de observação e teoria em psicanálise, chegara exatamente à mesma conclusão a que Atwood e eu tínhamos chegado estudando as origens subjetivas das teorias psicológicas, a saber, que a psicanálise, em todos os níveis de abstração e generalização, deveria ser uma psicologia das profundezas da experiência humana. Agora eu acreditava que Kohut era verdadeiramente um espírito afim.

Meu primeiro contato pessoal com Kohut deu-se como resultado direto da minha leitura de A Restauração do Self. Citando 2 artigos (Stolorow 1976; Stolorow e Atwood 1976) nos quais eu mostrara como suas novas conceituações do narcisismo e das transferências narcísicas lançavam nova luz sobre as obras de Rogers e Rank, Kohut, implicitamente incluiu-me, no prefácio do livro, num grupo de autores que o tinham criticado por deixar de reconhecer suficientemente as contribuições dos outros. Eu escrevi para ele uma nota em que expressava minha surpresa diante disto e afirmava que eu era admirador entusiasta de sua obra – e não um crítico. Sem muita demora ele enviou-me uma resposta caracteristicamente afável, pedindo desculpas por seu engano. Pouco tempo depois enviei-lhe o rascunho da resenha que eu fizera de A Restauração do Self que, evidentemente, era positiva sem nenhuma ambivalência. Kohut, por sua vez, mandou-me uma carta expressando tanto sua gratidão pela resenha favorável, quanto seu sentido de satisfação por descobrir que alguém, a quem ele nunca tinha ensinado diretamente, tinha podido captar a essência de suas idéias. Acho que foi a minha resenha – e a reação de Kohut a ela – que levou a que eu fosse convidado a participar da primeira conferência nacional de psicologia do self, em Chicago, em 1978, bem como a fazer parte da Comissão de Publicações da Psicologia do Self, que Kohut formara com o objetivo de promover e divulgar o pensamento da psicologia do self.

Nessa altura vi-me firmemente plantado dentro do movimento da psicologia do self – onde permaneço – porém não parei de trabalhar no programa teórico, agora enormemente enriquecido pelas articulações com a psicologia do self, que eu e Atwood tínhamos concebido. Houve uma quantidade de artigos (por exemplo Stolorow 1978a; 1979; 1985; Atwood e Stolorow 1980; 1981; Stolorow e Atwood 1982; 1983) nos quais demos prosseguimento aos nossos esforços no sentido de liberar a teoria psicanalítica de seus estorvos metapsicológicos, bem como no de recolocar seus princípios básicos em termos de uma psicologia pura do mundo subjetivo.

Outro ponto nodal nesse desenvolvimento ocorreu em 1979 quando, na segunda conferência nacional de psicologia do self em Los Angeles, ouvi Bernard Brandchaft apresentar um artigo sobre reações terapêuticas negativas, que atribuía estas a experiências que os pacientes tinham de fracasso selfobjetal na transferência, para as quais a postura interpretativa defeituosa do analista tinha contribuído (Brandchaft 1983). Aconteceu que eu tinha comigo as provas tipográficas de uma seção do livro que escrevera com Lachmann (1980), com o subtítulo "The therapeutic and untherapeutic action of psychoanalysis" (p. 187) que fazia uma afirmação muito semelhante, e avidamente mostrei-as ao Brandchaft. Creio que ambos sentimos uma afinidade intelectual quase imediatamente. Pouco depois disso ele me convidou a apresentar um artigo numa conferência sobre a personalidade borderline na UCLA, no ano seguinte, e eu aceitei, sugerindo que escrevêssemos o artigo juntos. No artigo (Brandchaft e Stolorow 1984) propusemos que a essência psicológica daquilo que é chamado de "borderline" não era uma condição patológica situada unicamente no paciente, mas sim fenômenos que surgiam num campo intersubjetivo, "que consistia de um self precário, vulnerável, e um selfobjeto arcaico que fracassava" (p. 342).

Começou assim uma série de estudos em colaboração (Atwood e Stolorow 1984; Stolorow, Brandchaft e Atwood 1983; 1987) nos quais Atwood, Brandchaft e eu estendemos aquilo que viemos a chamar de "perspectiva intersubjetiva" a um largo cortejo de fenômenos clínicos, incluindo desenvolvimento e patogênese, transferência e resistência, formação de conflito, sonhos, atuações e mesmo estados psicóticos. Em cada caso, fenômenos que tradicionalmente tinham sido foco de pesquisa psicanalítica foram compreendidos não como produtos de mecanismos intrapsíquicos isolados, mas como formando-se na interface de subjetividades que interagiam. Era nossa opinião que o contexto intersubjetivo representa um papel constitutivo em todas as formas de psicopatologia e os fenômenos clínicos não podem mais ser compreendidos psicanaliticamente fora do campo intersubjetivo no qual cristalizam. No tratamento psicanalítico, conforme Kohut (1982; 1984) também enfatizava, o impacto do observador era compreendido como intrínseco ao observado.

Como o nosso conceito de um campo intersubjetivo difere do conceito de Kohut de um relacionamento self-selfobjeto? Uma diferença tem relativamente pouca importância: um campo intersubjetivo é um sistema de influência mútua recíproca (Beebe e Lachmann 1988). A propósito da dimensão selfobjetal da experiência, não apenas o paciente de fato volta-se para o analista em busca de funções selfobjetais, mas também o analista volta-se para o paciente em busca dessas funções (ver Wolf 1979) – apenas esperamos que de um modo menos arcaico. Uma afirmação paralela pode ser feita igualmente quanto ao sistema criança/aquele que cuida dela. Assim, para capturar essa reciprocidade de influência mútua, teríamos que falar de um relacionamento self-selfobjeto/selfobjeto-self.

A segunda diferença é mais importante. Mundo subjetivo é um construto que abarca mais território de experiência do que self. Assim, campo intersubjetivo – o campo constituído pelo interjogo recíproco de dois (ou mais) mundos subjetivos – é mais amplo e mais abrangente do que o relacionamento self-selfobjeto; existe num nível mais elevado de generalização. Dizendo de outro modo, o campo intersubjetivo inclui outras dimensões da experiência além da dimensão selfobjetal. Por exemplo, é bastante amplo para abranger a experiência do paciente (e a do analista) quando o paciente não está experimentando o analista como fonte de funções selfobjetais, mas como fonte de estados afetivos dolorosos e conflituosos. Do nosso ponto de vista, não é suficiente identificar e analisar a experiência que o paciente tem de uma ruptura numa ligação transferencial selfobjetal. É crucial pesquisar, além disso, os princípios invariantes que organizam inconscientemente a vivência do paciente durante a ruptura, quando nenhuma ligação transferencial selfobjetal está em evidência, e identificar as qualidades ou as atividades do analista que se prestam a serem percebidas como confirmações desses princípios.

Desejo enfatizar que, no nosso arcabouço teórico não há a pretensão de substituir o conceito de transferência em geral ou de transferência selfobjetal em particular pelo de campo intersubjetivo. Definimos a transferência como referindo-se às diversas maneiras pelas quais o paciente organiza a experiência que tem do relacionamento analítico (Stolorow e Lachmann 1984/1985; Stolorow, Brandchaft e Atwood 1987). Definida desta maneira, a transferência é sempre multidimensional. Uma dimensão crucial da transferência, delineada por Kohut, é a dimensão selfobjetal. Referimo-nos a uma segunda dimensão como a dimensão repetitiva e conflituosa. Estas e talvez outras dimensões se movimentam continuamente entre o primeiro e o segundo planos da experiência do paciente, de acordo com percepções específicas do analista e das atividades do analista. Uma descrição paralela aplica-se à transferência do analista, que os psicanalistas chamam de contratransferência. O sistema mais amplo criado pela interação mútua recíproca entre a transferência do paciente e a transferência do analista é um exemplo daquilo que chamamos de campo intersubjetivo ou contexto intersubjetivo.

Para mim, o conceito de campo intersubjetivo é um construto teórico que casa perfeitamente com a metodologia de investigação empático-introspectiva. O que investigamos através da empatia e da introspecção são os princípios que organizam a experiência do paciente (empatia), os princípios que organizam nossa própria experiência (introspecção) e o campo psicológico formado pelo interjogo dos dois conjuntos.

Espero ter conseguido esclarecer que a teoria da intersubjetividade não é algo que cresceu a partir da psicologia do self e não cabe mais aí – e seguramente não tem por objetivo superá-la. De preferência a isso, o conceito germinal de intersubjetividade desenvolveu-se paralelamente ao arcabouço da psicologia do self e enriqueceu-se enormemente com este. É meu ponto de vista que a teoria da intersubjetividade proporciona uma ampla rede metodológica e epistemológica dentro da qual a psicologia do self pode criativamente expandir-se.


Obs : Texto traduzido para estudo de participantes da ABEPPS

Distribuição Interna .

Contacto ABEPPS : renatobarauna@pobox.com

www.abepps.org.br

Dezembro de 2004



 Quero agradecer aos Drs. James Fosshage, Frank Lachmann, Joseph Lichtenberg, Estelle Shane e Morton Shane por suas valiosas críticas e sugestões. O capítulo é dedicado à pranteada memória da Dra. Daphne S. Stolorow, minha preciosa companheira durante os melhores anos de minha jornada.

1 Para os psicanalistas, White é mais conhecido por sua teoria da motivação da execução e Tomkins por suas contribuições à teoria do afeto. É menos conhecido o fato de que ambos trouxeram importantes contribuições ao movimento personológico na psicologia acadêmica da personalidade. Acho que poucos analistas têm conhecimento, por exemplo, de Lives in Progress (1952) de White, um clássico do estudo de indivíduos em profundidade. A história do movimento personológico em Harvard, incluída a participação de White nele, está relatada em seu Memoir (1987), publicado particularmente.

2 Mais tarde, nós (Atwood e Stolorow 1984) abandonamos o termo "mundo representacional" porque nos demos conta de que ele estava sendo empregado para referência tanto aos conteúdos imagísticos da experiência quanto à estruturação temática da experiência. A partir daí decidimos utilizar "mundo subjetivo" quando descrevemos os conteúdos da experiência e "estruturas da subjetividade" para designar os princípios invariantes que organizam inconscientemente esses conteúdos ao longo de linha temáticas específicas.

3 O emprego que fizemos do termo intersubjetivo nunca pressupôs o alcance do pensamento simbólico, de um conceito de si mesmo como sujeito, ou da condição intersubjetiva de relacionar-se (intersubjective relatedness), no sentido que Stern (1985) dá a isto. Ainda que a palavra intersubjetivo tivesse sido usada anteriormente por psicólogos do desenvolvimento, nós não estávamos familiarizados com esse emprego precedente quando, independentemente, cunhamos o termo em 1976 e lhe atribuímos uma significação particular dentro do nosso arcabouço que se desenvolvia. Diferentemente dos psicólogos do desenvolvimento, utilizamos intersubjetivo para referir-nos a qualquer campo psicológico formado por mundos de vivência que interagem, qualquer que seja o nível de desenvolvimento em que esses mundos possam estar organizados.

4 Conforme ficou esboçado em outro lugar (Stolorow, Brandchaft e Atwood 1987) considero as contribuições essenciais da psicologia do self para a psicanálise como sendo tríplices: (1) a inabalável aplicação do método de observação introspectivo-empático para definir e delimitar o território da investigação psicanalítica, (2) a ênfase central na primazia da experiência de si mesmo, e (3) os conceitos de função selfobjetal e de transferência selfobjetal.

5 Esses artigos foram incorporados, mais tarde, ao nosso livro (Stolorow e Lachmann 1980), Psychoanalysis of Developmental Arrests.



Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal