Sumário Prefácio a edição brasileira 7



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Michèle Petit
OS JOVENS E A LEITURA

Uma nova perspectiva


Tradução

Celina Olga de Souza

Editora 34 Ltda.



Sumário
Prefácio a edição brasileira 7
Primeiro encontro:

AS DUAS VERTENTES DA LEITURA 15

As duas vertentes da leitura 20

O leitor "trabalhado" por sua leitura 28

Do lado dos leitores 44
Segundo encontro:

O QUE ESTÁ EM JOGO NA LEITURA HOJE EM DIA 59



Ter acesso ao saber 61

Apropriar-se da língua 66

Construir-se a si próprio 71

Um outro lugar, um outro tempo 78

Conjugar as relações de inclusão 86

Círculos de pertencimento mais amplos 93

Terceiro encontro:

O MEDO DO LIVRO 103

A difícil libertação do espírito de grupo 104

Do lado dos poderes:

O pavor de que as linhas se movam 111

Trair os seus? 116

O medo da interioridade 125

Como nos tornamos leitores 138
Quarto encontro:

O PAPEL DO MEDIADOR 147



Uma relação personalizada 149

Transmitir o amor pela leitura:

Um desafio para o professor? 154

A hospitalidade do bibliotecário 162

Ultrapassar umbrais 166

Pontes para universos culturais mais amplos 174

O mediador não pode dar mais do que tem 185
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
A leitura tem o poder de despertar em nós regiões que estavam até então adormecidas. Tal como o belo príncipe do conto de fadas, o autor inclina-se sobre nós, toca-nos de leve com suas palavras e, de quando em quando, uma lem­brança escondida se manifesta, uma sensação ou um senti­mento que não saberíamos expressar revela-se com uma niti­dez surpreendente.

Como toda pessoa que tem o hábito da leitura, eu tam­bém conheci tais momentos. A leitura, tema de minhas investigações, também despertou em mim um continente inteiro que eu tentara esquecer: a América Latina. Morei na Colôm­bia dos treze aos quinze anos. Deixar esse país e mudar para a França foi um sofrimento. "Nunca mais cruzarei o Atlân­tico", pensei. A mulher de Ló não se transformara em está­tua de sal quando se voltou para olhar para trás?

Passaram-se anos, décadas. Foi quando meu destino profissional, ou, mais precisamente, as artimanhas do desejo, fi­zeram com que, num dia de 1998, um editor mexicano, Daniel Goldin, me convidasse para ir a seu país, dar uma pales­tra sobre a leitura. Não imaginava que essas palestras, logo reunidas em livro, iriam viajar por toda a América de língua espanhola. E que eu iria conhecer, nos anos seguintes, milha­res de mediadores de leitura — professores, bibliotecários, psicólogos, escritores etc. — que me diriam: "O que você constatou nas periferias francesas (ou no campo), já o obser­vei onde trabalho".

Hoje, é no Brasil que tenho a oportunidade de ver meu livro publicado, em uma das línguas mais belas da terra. Em 2005, em Paris, comemoramos o "ano do Brasil na França". Por toda a cidade, exposições, concertos, publicações, nos da­vam notícias desse país. Descobri as telas de Frans Post, que, fascinado, representou "todo o Brasil em retratos", de Itamaracá ao rio São Francisco. Vi, encantada, as pinturas de Cícero Dias; passeei por suas telas, dos campos de cana-de-açúcar aos telhados do Recife. Li doze lendas contadas por Clarice Lispector. Segui os relatos de J. Borges e J. Miguel através de suas xilogravuras e me vi sonhando, na esperan­ça de um dia conhecer essas histórias, essas paisagens, des­conhecidas para mim. Outra vez, o desejo agiu. Algum tem­po depois, Patrícia Bohrer Pereira Leite e o centro de estudos A Cor da Letra convidaram-me para participar do II Encon­tro "Formação de Leitores e Literatura Infantil" em São Pau­lo. E Alberto Martins acolheu-me na Editora 34.

As pesquisas que cito neste livro têm hoje dez anos. Des­de então, a ampla difusão das novidades tecnológicas transformou a situação no campo do acesso à informação. Entretanto, no essencial, não coloca em questão as observações reunidas nos capítulos que se seguirão. Relendo-os, pensei muitas vezes nas cenas de violência de que as periferias ur­banas francesas foram palco, em 2005. O mundo todo viu as imagens de carros e equipamentos públicos incendiados — como escolas e algumas bibliotecas. Esses acontecimentos têm causas complexas, que não pretendo analisar aqui. Mas pa­rece-me oportuno falar um pouco sobre as armadilhas da de­mocratização do ensino em meu país.

Em 1985, a palavra de ordem fora lançada com o obje­tivo: "80% de uma geração no bac". Desde então, os filhos das classes populares foram estimulados a prosseguir os estu­dos, a fim de não engrossar o número de desempregados entre os jovens. A massificação do ensino foi desse modo condu­zida a passo forçado, sem oferecer os meios pedagógicos pa­ra acolher esses novos estudantes. Muitos dos jovens oriun­dos de camadas populares que entram na universidade saem, um ou dois anos mais tarde, sem nenhum diploma e com mui­to ressentimento. Têm a impressão de que a escola os iludiu — e uma parte deles participou das revoltas urbanas recentes. O sociólogo Stéphane Beaud conversou com alguns deles que tinham sido alunos "médios". Observou suas formas de estudar e de viver, durante anos. Descobriu que não estavam absolutamente preparados para as exigências da vida de estudante: suas anotações de aula eram malfeitas, incompletas e ilegíveis, seu desconhecimento das bibliografias completo, não dispunham de fichas nem de livros, não pesquisavam na biblioteca etc. Beaud constatou que esses jovens não tinham o hábito de fazer trabalhos individuais. Durante os estudos secundários, os rapazes, em particular, pouco trabalharam em casa ou na biblioteca, para não se passarem por "traido­res do bairro", por "pretensiosos", junto aos colegas — en­quanto as meninas, ao contrário, fizeram de tudo para esca­par do bairro e da vigilância mútua que ali reinava, e freqüen­taram assiduamente as bibliotecas. Já desorientados quando da passagem pela escola por volta dos quinze anos, esses ra­pazes não estavam prontos para enfrentar a universidade.

Extremamente prejudicial é o bloqueio em relação aos livros, a hostilidade à leitura que muitos demonstram. "A relação com a cultura escrita é um elemento essencial para o êxito escolar, é mesmo a chave de tudo", declara Beaud. E também: "O bloqueio dos rapazes em relação à leitura é uma questão fundamental que condiciona seu acesso aos estudos, mas também sua relação com a política". Os que ultrapas­sam esse bloqueio o fazem graças a um encontro feliz com um professor ou com uma garota. Ou, eu acrescentaria, com uma bibliotecária.

Pois trabalhar por conta própria, utilizar documentos com autonomia, familiarizar-se com uma bibliografia ou to­mar notas, são competências que podem ser desenvolvidas na biblioteca — com a condição, é claro, de que um profissio­nal esteja ali para ajudar. As bibliotecas também estão qualificadas para contribuir para uma mudança de atitude em relação à leitura. E o que testemunharam muitos jovens que entrevistei anos atrás, e cujas experiências constituem o cerne deste livro. Vivendo em bairros marginalizados, iam à biblioteca para fazer as lições de casa, encontrar um local estru­turante, um profissional pronto para aconselhá-los, formas de sociabilidade que os protegessem das ruas. Mas também encontraram ali meios de passar a uma outra relação com o conhecimento e com a cultura escrita, mais autônoma, em que a curiosidade pessoal tinha sua parte. Uma outra relação com a leitura.

Graças a mediações sutis, calorosas e discretas ao lon­go de seu percurso, a leitura começou a fazer parte de sua experiência singular. Não se tornariam necessariamente gran­des leitores, mas os livros já não os desencorajavam nem os assustavam. Ao contrário, ajudavam-nos a encontrar pala­vras, a serem um pouco mais atores de sua própria história. Tanto quanto um meio de sustentar o percurso escolar, a lei­tura era, para esses meninos e meninas vindos de famílias muitas vezes iletradas, mas desejosos de traçar seu caminho, um auxílio para elaborar seu mundo interior e, portanto, de modo indissoluvelmente ligado, sua relação com o mundo exterior.

Se tal contribuição da leitura para a descoberta ou para a construção de si não é nova, ela ganha destaque particular nestes tempos em que, bem mais do que no passado, cabe a cada um construir sua própria identidade. Até pouco tempo atrás, a identidade decorria em grande medida de uma linhagem familiar e de um sentimento de pertencimento étnico, religioso, social. Após a travessia dos ritos de passagem, re­produzia-se mais ou menos a vida dos pais. A aceleração das mudanças na época contemporânea fez com que se transfor­massem ou desaparecessem todos os moldes nos quais a vida se desenrolava. Muitas pessoas tiveram suas raízes cortadas sem terem podido adquirir outra cultura. Os modelos fami­liares são freqüentemente debilitados, às vezes, desestrutu-rados. E o sentido da vida não decorre mais, em nossa era de fim das ideologias, de um sistema total que dirá a última pa­lavra, a razão de ser de nossa presença sobre a terra.

Hoje, cada um deve construir sua identidade e experi­mentar, bem ou mal, na busca de sentido, valores, referências, lá onde os limites simbólicos não existem, com todos os ris­cos que isso comporta, particularmente na adolescência. Em muitos países, as pessoas se preocupam justamente com o aumento das condutas de risco entre crianças e jovens. Este é um motivo a mais para nos interessarmos pelo papel que a leitura pode desempenhar na elaboração da subjetividade, na construção de uma identidade singular e na abertura para novas sociabilidades, para outros círculos de pertencimento.

Estes, na maior parte do tempo, fundam-se sobre uma exclusão: é meu país, minha cidade, meu time de futebol, meu pedaço de calçada contra o seu. Compartilhar histórias lidas ou contadas dá, às vezes, o sentimento de que os pertencimentos podem ser mais flexíveis. Na América Latina, muitos mediadores têm a esperança de que o livro — que foi, e ainda é, um instrumento de poder, de discriminação — possa, hoje, dar lugar a sociabilidades abertas, onde a oralidade e a escrita se reconciliem, e onde cada um possa encontrar seu lugar, contribuindo com o que lhe foi transmitido, ou simplesmente escutando e deixando correr sua imaginação.

O espaço íntimo que a leitura descobre, os momentos de compartilhar que ela não raro propicia, não irão reparar o mundo das desigualdades ou da violência — não sejamos ingênuos. Ela não nos tornará mais virtuosos nem subitamente preocupados com os outros. Mas ela contribui, algumas ve­zes, para que crianças, adolescentes e adultos, encaminhem-se no sentido mais do pensamento do que da violência. Em certas condições, a leitura permite abrir um campo de possi­bilidades, inclusive onde parecia não existir nenhuma mar­gem de manobra.

Gosto de fazer viajarem as vozes. Com alegria, imagino que aqueles jovens que escutei na França serão ouvidos no Brasil. É também nos mediadores de leitura desse país que penso, ao escrever este prefácio. Em todos que conheci, me­ses atrás, em São Paulo e em Minas Gerais: Márcia (SP), Cín­tia, Val, Amanda, Angélica, Lando, Renata, Márcia (MG), Alexandre, Renato, Aide, Juliana, Luciana, Devorah, Hilda, Orlando, Camila, Uberlando, Marina, Karoline, Fabiana, Paulo, Mariele, Marciene, Daiane, Jéssica, José... e tantos outros. Agradeço-lhes.

Agradeço a Daniel Goldin, Patrícia Boher Pereira Leite e a Alberto Martins, que me permitiram realizar esta nova aventura. E obrigada a você que abre este livro.

Michèle Petit

Paris, dezembro de 2006




Primeiro encontro

AS DUAS VERTENTES DA LEITURA
Permitam-me manifestar, antes de mais nada, a emoção que sinto por estar na América Latina, de onde sempre me senti próxima, pois foi aqui que passei minha adolescência, há muito tempo. Fui convidada para falar sobre a leitura e a juventude, sendo que foi justamente neste continente que minha relação com a leitura se transformou. Durante minha infância em Paris, tive a sorte de viver cercada de livros, poder fuçar livremente na biblioteca de meus pais, e vê-los, dia após dia, com um livro nas mãos: todas essas coisas que, co­mo sabemos hoje, são propícias para nos tornar leitores. Mas na América Latina eu descobri as bibliotecas, em particular a de um instituto onde meu pai lecionava. Ainda me vejo, então com catorze anos, em um prédio cuja arquitetura mo­derna me encantava, em meio a todos aqueles livros expostos, entre dois pátios. Na França, naquela época, as bibliotecas ainda eram sombrias, austeras, não se tinha livre acesso aos livros, elas pareciam dizer ao adolescente que ele não tinha nada que fazer ali — depois as coisas mudaram, felizmente. Por isso, para mim, a América Latina teve sempre um gosto de livros, de grandes janelas envidraçadas, de tijolos e plan­tas misturados. Um gosto de modernidade. De abertura para o novo.

Deixando minhas recordações de lado, passo às questões que nos levaram a esse encontro. Soube que existe na Amé­rica Latina uma grande preocupação com relação à juventu­de. Na França, essa preocupação também existe. Objetiva­mente, existem todos os motivos para que fiquemos preo­cupados. Embora a França esteja entre os países mais ricos do planeta, a situação média daqueles com menos de trinta anos se deteriorou a partir dos anos 1970, em todos os cam­pos: emprego, renda e moradia. Nossa sociedade se mostra cada vez mais fascinada pela juventude; todos se empenham em "manter-se jovens", até os octogenários, mas, na realida­de, deixamos cada vez menos espaço para os jovens. Estes, principalmente as moças, têm sido as principais vítimas do desemprego e da precariedade do emprego. Mais trágico ain­da é ver, em todo o mundo, jovens serem mortos, feridos, atingidos pela violência, pelas drogas, pela miséria ou a guerra. É preciso dizer, em primeiro lugar, que não existem "os jovens", mas rapazes e moças, dotados de recursos materiais e culturais muito variáveis, dependendo da posição social da família e do lugar em que vivem, expostos de maneira desi­gual aos riscos que mencionei.

Além das razões que já temos para nos preocupar, além também das grandes diferenças entre a situação de nossos países, entre suas histórias e evoluções recentes, parece-me que em quase todo o mundo, a juventude é motivo de preocupação porque os caminhos não estão mais todos traçados, porque o futuro é intangível. Nas sociedades tradicionais, para dizer em poucas palavras, os jovens reproduziam, na maior parte do tempo, a vida de seus pais. As mudanças de­mográficas, a urbanização, a expansão do trabalho assalaria­do, a emancipação das mulheres, a reestruturação das famí­lias, a globalização da economia, as evoluções tecnológicas etc., evidentemente desordenaram tudo isso. Perderam-se mui­tas referências que, até então, davam sentido à vida. Acredito que uma grande parte dessa preocupação venha da impres­são da perda de controle, do medo diante do desconhecido. A juventude simboliza este mundo novo que não controlamos e cujos contornos não conhecemos bem.

E a leitura, em meio a tudo isso? A leitura de livros, sobretudo? Na França, nesta era do visual, alguns a consideram algo supérfluo, como um acessório de teatro que não se usa mais. Já observaram que, de vinte anos para cá, a proporção de leitores entre os jovens diminuiu, quando se poderia espe­rar que aumentasse devido à maior escolarização. Segundo esses, a causa seria a seguinte: aos livros, os jovens preferem o cinema ou a televisão, que identificam com a modernidade, a rapidez e a facilidade; ou preferem a música, o esporte, que são prazeres compartilhados. O livro estaria ultrapassado, de nada adiantaria chorar diante disso.

Outros, ao contrário, lamentam que "os jovens não leiam mais". Não sei o que ocorre na América Latina, mas na Fran­ça é um assunto que aparece regularmente nos jornais, a cada nova estação do ano. Durante muito tempo, o poder, a Igre­ja e os educadores preocuparam-se com os perigos que uma difusão ampla da leitura poderia acarretar. Desde os anos 1960, entretanto, todos lamentam que essa difusão seja insuficiente. E ainda mais nestes tempos de inquietude, em que ignoramos a maneira como esses jovens inabordáveis, aos quais deixamos cada vez menos espaço, poderiam se ligar ao mundo.

Por que essa preocupação? Sem dúvida, alguns temem, não sem razão, a perda de uma experiência humana insubs­tituível. Outro dia escutei George Steiner dizer na televisão que, nos Estados Unidos, 80% das crianças não sabiam o que significava ler em silêncio: ou tinham um walkman no ouvido enquanto liam ou estavam próximas a uma televisão ligada sentindo constantemente seu brilho e seus ruídos. Essas crian­ças não conheciam essa experiência singular que é ler sozinho, em silêncio.

Certos escritores também temem que, no burburinho do mundo, ninguém mais queira saber desse território íntimo que é a leitura, dessa liberdade e solidão que, aliás, sempre assustaram os seres humanos. Temem particularmente que, com o destaque que se dá à "comunicação", ao comércio de informações, nos desviemos para uma concepção instrumentalista, mecanicista da linguagem, e acredito que tenham ra­zões para se preocupar; voltarei a isso nos próximos dias. Mas, em muitos dos discursos de políticos ou intelectuais so­bre a diminuição da freqüência da leitura entre os jovens, parece-me que figuram também outros motivos.

Eu disse anteriormente que, nas formas tradicionais de integração social, se reproduzia, mais ou menos, a vida dos pais. E a leitura, quando se tinha acesso a ela, participava dessa reprodução, e até de um adestramento (para alguns, já era, ao contrário, um modo privilegiado de modificar as linhas do destino social). No início — voltarei a isso em um instante — a leitura foi um exercício prescrito, coercitivo, para subme­ter, controlar à distância, ensinar a se adequar a modelos, in­culcar "identidades" coletivas, religiosas ou nacionais.

Assim, parece-me que alguns sentem saudades de uma leitura que permita enquadrar, amoldar, dominar os jovens. Nos meios de comunicação se ouvem queixas sobre o tema: "os jovens não lêem mais", "é preciso ler", até mesmo "deve-se amar a leitura", o que faz, evidentemente, com que todos fujam dela. Lamentam, sobretudo, que se deixe de ler os grandes textos supostamente edificantes, desse "patrimônio co­mum", como dizem, espécie de totem unificador em torno do qual seria sensato que nos uníssemos.

Em meu país, nos meios de comunicação, o debate sobre a leitura na juventude fica dessa forma muitas vezes reduzi­do a uma espécie de querela entre Antigos e Modernos. Caricaturando um pouco, os Antigos choram, com saudade, a perda das letras, em um tom e com argumentos que não me parecem os mais felizes para conquistar para sua causa os não-leitores, sobretudo se são jovens. Quanto aos Modernos, apelam para uma espécie de relativismo absoluto, afirman­do que esta ou aquela telenovela, segundo eles, seria capaz de suprir nossa necessidade de narração tanto quanto um texto literário muito elaborado ou um grande filme, e que tudo isso é uma simples questão de gosto herdado, de consumo cultu­ral socialmente programado.

Confesso-lhes que nunca me senti à vontade ao ouvir esses discursos que me parecem estar muito longe daquilo que os leitores, de diferentes classes sociais, me diziam no decor­rer das entrevistas que fiz. De minha parte, observo que se a proporção de leitores assíduos diminuiu, a juventude continua sendo, ao menos na França, o período da vida em que a atividade de leitura é mais intensa. E para além das grandes pesquisas estatísticas, ao escutarmos esses jovens falarem, compreendemos que a leitura de livros tem para eles algumas vantagens específicas que a distingue de outras formas de la­zer. Compreendemos que por meio da leitura, mesmo espo­rádica, podem estar mais preparados para resistir aos proces­sos de marginalização. Compreendemos que ela os ajuda a se construir, a imaginar outras possibilidades, a sonhar. A en­contrar um sentido. A encontrar mobilidade no tabuleiro so­cial. A encontrar a distância que dá sentido ao humor. E a pensar, nesses tempos em que o pensamento se faz raro.

Estou convencida de que a leitura, em particular a lei­tura de livros, pode ajudar os jovens a serem mais autônomos e não apenas objetos de discursos repressivos ou paterna­listas. E que ela pode representar uma espécie de atalho que leva de uma intimidade um tanto rebelde à cidadania. É o que tentarei lhes mostrar nesses próximos quatro dias. Gostaria de sensibilizá-los para a pluralidade do que está em jogo com a democratização da leitura entre os jovens. Realmente, sem­pre fico surpresa ao ver até que ponto alguns desses aspectos são desconhecidos ou subestimados. O quanto nós permane­cemos prisioneiros de velhos modelos de leitura e de uma concepção instrumentalista da linguagem.

- Organizei as quatro conferências da seguinte forma:

Na primeira, falarei das duas vertentes da leitura: uma marcada pelo grande poder atribuído ao texto escrito e a ou­tra pela liberdade do leitor. E lhes explicarei como resolvi me colocar, nas minhas investigações, do lado dos leitores, de suas experiências singulares.

A segunda será dedicada à pluralidade do que está em jogo na leitura, insistindo sobre o seu papel na construção de si mesmo, que é muito significativa no período da adolescên­cia e juventude. Para os jovens, como constatarão, o livro desbanca o audiovisual na medida em que permite sonhar, elaborar um mundo próprio, dar forma à experiência. É um aspecto sobre o qual muitos insistem, principalmente nos meios socialmente desfavorecidos onde, freqüentemente, se deseja que os jovens fiquem restritos às leituras mais "úteis". Ora, para os rapazes e moças que encontrei, a leitura representava tanto um atalho para elaborar sua subjetividade quan­to um meio de chegar ao conhecimento. E não acredito que isto seja uma especificidade francesa.

Na terceira, falarei do medo em relação ao livro e em seguida evocarei as diferentes maneiras de se tornar leitor. Por trás dos equívocos dos discursos unânimes que pedem a democratização da leitura, acredito, efetivamente, que o medo do livro ainda existe, assim como o medo da solidão do leitor diante do texto, o medo da divisão do poder simbólico. Essa divisão, que põe em jogo muita coisa, pode ser sempre moti­vo de conflitos, de lutas de interesses, mais evidentes quanto mais se nega a existência deles.

A última palestra, finalmente, será dedicada ao papel dos mediadores do livro, à sua margem de manobra, que as questões tratadas ao longo da exposição nos permitirão compreender melhor.
AS DUAS VERTENTES DA LEITURA
Para começar, como eu havia anunciado, gostaria de fa­lar sobre as duas vertentes da leitura. Para isso, me basearei em uma pesquisa sobre a leitura no meio rural da qual parti­cipei quando comecei a trabalhar com esse assunto. Naque­la ocasião, fiz entrevistas com pessoas de diferentes níveis sociais, que moravam no campo e gostavam de ler. Durante as entrevistas, elas recordavam, de maneira muito livre, todo o seu trajeto como leitores, desde as lembranças da infância. Fiquei impressionada ao constatar que, nos meios rurais franceses, a leitura tal como a conhecemos hoje, solitária, silen­ciosa, não era, na realidade, muito antiga: boa parte de nossos interlocutores, de diferentes gerações, evocavam espontanea­mente lembranças de leitura coletiva, em voz alta, no seio da família, no catecismo e, muitas vezes, no internato. Hoje, a televisão assistida em família talvez esteja mais próxima des­sas histórias orais compartilhadas.

Proponho-lhes, assim, escutar três de nossos interlocuto­res: meio século separa as infâncias que eles evocam.

Jeanne é aposentada e lembra do tempo em que era in­terna: "Tudo que estivesse fora do programa era proibido... Jamais tínhamos tempo livre... Não tínhamos o direito de falar no refeitório. Liam para nós as vidas de crianças-modelo, como Anne de Choupinet, e a vida de santos".

Pierre é agricultor; tem cerca de cinqüenta anos. O livro sobre o qual fala, intitulado A volta da França por duas crian­ças, foi lido por várias gerações de crianças durante a primei­ra metade do século XX. Descrevia o périplo de duas crianças por diferentes regiões francesas e visava dar aos jovens um forte sentimento de identidade nacional:

"Lembro de meus avós. Meu avô lia para mim A volta da França por duas crianças. Havia uma grande lareira, nem me lembro se tinha eletricidade, e depois do jantar minha avó colocava no fogo uma grande panela com vinho e tomilho e punha para ferver. Com mel. E ele nos contava... não sei por que, talvez porque eu fos­se jovem, mas ele lia 'bem' — a gente vivia aquelas his­tórias à medida que ele contava, sabe? Com meu irmão, quando a gente fala dessa Volta da França... conforme eles davam a volta na França, é curioso, podíamos vê-la... isso devia ser por volta de 1945-46".

Christine tem uns quarenta anos. Antes de ir morar no campo, viveu muito tempo na cidade. Fala de seu filho, um adolescente: "É o que tentava lhe explicar, dizia-lhe: 'Não fique na frente da TV; vocês são milhões vendo TV. Se você pegasse um livro, seria o único; talvez dois ou três lendo o mesmo livro, ao mesmo tempo; é uma outra forma de felicidade!'"

Essas três cenas ilustram a distinção entre a leitura cole­tiva, oral, edificante, e a leitura individual, silenciosa, na qual, por vezes, encontramos palavras que nos permitem expres­sar o que há de mais singular. E também a distinção entre aquela época, quando uns poucos controlavam o acesso aos textos impressos e extraíam deles fórmulas para incutir nos outros, submissos e silenciosos, uma identidade religiosa ou nacional, e essa outra época, em que cada um "pega" um li­vro, se apropria dele, encontra palavras e imagens que inter­preta à vontade. Três cenas que lembram que a leitura tem muitas faces e é marcada ao mesmo tempo pelo poder abso­luto que se atribui à palavra escrita, de um lado, e pela irre­dutível liberdade do leitor, do outro, como disse o historiador do livro Roger Chartier.

De um lado, a linguagem escrita permite dominar à dis­tância, pela imposição de modelos amplamente difundidos, quer seja a figura edificante de um santo ou a da criança des­cobrindo o amor pela pátria. Utilizou-se muito a escrita — e utiliza-se ainda — para submeter as pessoas à força de um preceito e prendê-las nas redes de uma "identidade coletiva". É algo, por exemplo, que me impressionou muito em alguns países da Ásia. Antes de trabalhar com a leitura, participei durante um certo tempo de uma pesquisa sobre os empresá­rios chineses de Singapura e Taiwan. Quando os encontráva­mos, esses empresários, dos mais tradicionais aos mais mo­dernos, chamavam nossa atenção para o que denominavam suas "filosofias". Mal chegávamos, eles já nos diziam: "an­tes de tudo, tenho que explicar-lhes a minha filosofia". Le­vavam-nos então até lemas escritos em bela caligrafia chinesa que enfeitavam todos os cantos dos escritórios e das fábricas, e nos traduziam esses preceitos que resumiam o espírito da empresa. Para muitas dessas empresas, aquelas "filosofias" conduziam a alguns princípios de inspiração confuciana que exaltavam o trabalho, a disciplina, a frugalidade, a honestidade, o senso de coletividade etc. Mas esses empresários lhes atribuíam uma grande eficiência para unificar e guiar a con­duta dos empregados que deviam lê-los todos os dias e se imbuírem deles.

Por um lado, isso tem que ver com a especificidade da língua e da história chinesas: pela origem pictográfica dos ideogramas, a língua chinesa é, sem dúvida, mais concreta que as línguas ocidentais, no sentido de que nela as palavras evocam, por meio de imagens, qualidades, ações e relações. Esse caráter "emblemático" da língua confere-lhe o poder de despertar a realidade, de sugerir a ação e de provocá-la ao representá-la. Na China antiga, a primeira obrigação do chefe consistia em fornecer a seus súditos emblemas, divisas e "designações corretas". Era o que lhe permitia impor as regras e a hierarquia social. Como as palavras tinham essa força quase mágica de manter os seres e as coisas no seu devido lugar na ordem social estabelecida, a escrita foi um instrumento fundamental do poder político. Adquirido ao final de uma lon­ga iniciação, o chinês literário era, na China imperial, a língua dos mestres, o cimento do Império. Verdadeiro "esperanto para os olhos", podia ser lido em toda parte, enquanto as pronúncias extremamente variáveis impediam muitas vezes que, num raio de poucos quilômetros, as pessoas viessem a se entender.

Mesmo sem ser chinês, qualquer ser humano preocupa­do em ter influência sobre seus semelhantes parece compreen­der instantaneamente essa função de mandarim da escrita. Darei um ou dois exemplos disso. O primeiro nos foi pro­porcionado por uma menina de sete anos, que entrevistei no decorrer da pesquisa sobre a leitura no meio rural. Chama-se Emilie e fala sobre uma de suas amigas que, para assegu­rar seu poder, passava seu tempo lendo. Cito-a:


"Ela prefere ser a chefe: então ela trabalha, escre­ve, 24 horas por dia, e gosta muito de ler. Porque ela tem que nos passar trabalho; e depois, temos que decorar. [Ela me dá um ou dois exemplos das perguntas que sua amiga lhe prepara.] 'Antes do final do inverno, o pintas­silgo atrairá o quê?' Antes do final do inverno, o pintas­silgo atrairá a sua atenção... 'Seu peito, suas bochechas e seu pescoço se tingem ligeiramente de que cor?' De ro­sa salmão... Você entende como é brincar com ela?...".
E solta um suspiro.

Aos sete anos ela já sabe, por experiência própria, que a manipulação da escrita é um instrumento decisivo de po­der. Tomo o segundo exemplo emprestado ao antropólogo Claude Lévi-Strauss. Em um texto intitulado "Lição de escri­ta", relata um incidente ocorrido quando estava entre os ín­dios Nambikwara, no Brasil. O chefe, que, como qualquer um dos Nambikwara, não sabia ler nem escrever, pediu para Claude Lévi-Strauss um bloco de notas. Depois, preencheu-o com linhas tortas, juntou sua gente, fez cara de quem lia o papel e listou os presentes que o etnologista deveria lhes dar. O que ele esperava? Cito Lévi-Strauss: "Enganar a si mesmo, talvez; mais, porém, surpreender seus companheiros, con­vencê-los de que tinha participado na escolha das mercado­rias, que obtivera a aliança com o branco e que partilhava de seus segredos".3 Mais tarde, ao refletir sobre esse episódio, Lévi-Strauss concluiu que:


"[...] a função primária da comunicação escrita foi favo­recer a servidão. O emprego da escrita com fins desinteressados, visando extrair-lhe satisfações intelectuais e estéticas, é um resultado secundário, se é que não se resume, no mais das vezes, a um meio para reforçar, justificar ou dissimular o outro".
Manipular a escrita permite aumentar o prestígio junto a seus semelhantes. No início, o aprendizado da leitura é, muitas vezes, um exercício que incute o medo, que submete o corpo e o espírito, que incita cada um a ficar em seu lugar, a não se mover. Em Uma história da leitura, Alberto Man­guei lembra que, tanto o chicote como o livro, foram, durante séculos, o símbolo daquele que ensinava a ler. Ainda hoje, o medo e a submissão podem estar sempre em primeiro plano, como podemos ver, por exemplo, no filme do diretor irania­no Abbas Kiarostami intitulado Lição de Casa (1989). Kiarostami mostra crianças a quem pergunta como vão os seus deveres de casa. E no decorrer do filme, vemos que aquilo que procuram inculcar nos alunos ao ensiná-los a ler, não são conhecimentos, mas sim o medo: na escola, essas crianças se sentem literalmente em perigo.

Porém, não se pode jamais estar seguro de dominar os leitores, mesmo onde os diferentes poderes dedicam-se a controlar o acesso aos textos. Na realidade, os leitores apropriam-se dos textos, lhes dão outro significado, mudam o sentido, interpretam à sua maneira, introduzindo seus desejos entre as linhas: é toda a alquimia da recepção. Não se pode jamais controlar o modo como um texto será lido, compreendido e interpretado. Darei um exemplo que tomo de um psicotera­peuta que leu, e fez com que as crianças também lessem, os mitos antigos. Leu uma passagem em que Hércules, com um colar de pedras preciosas, pulseiras de ouro e um xale púr­pura, deixa sua pele de leão e tece a lã. Comentário das crian­ças: "A gente não imaginava que Hércules fosse gay!"

Outro exemplo: a leitura que Omar, um estudante que conhecemos, fez de Madame Bovary, de Flaubert — um dos textos canónicos do currículo escolar francês. Cito Omar: "Emma corneava seu marido, e houve até um processo. Flaubert, em sua defesa, dizia que como havia feito Emma mor­rer, era moral. E agora, quando lemos isso, vemos que Emma corneou seu marido, e isso é tudo". Evidentemente, não es­tou segura de que esse resumo lapidar esteja de acordo com o que o professor de Omar ou as autoridades acadêmicas de­sejem que as crianças retenham deste grande texto da litera­tura francesa.

É por essa razão que sempre se temeu o acesso direto ao livro e a solidão do leitor diante do texto. É por essa razão que, ainda hoje — tocaremos nesse ponto ao tratarmos do medo do livro —, os poderes autoritários preferem difundir vídeos, fichas ou trechos escolhidos, acompanhados de sua interpretação e contendo a menor possibilidade de "jogo", deixando ao leitor a mínima liberdade.

Michel de Certeau tinha uma fórmula bonita para evo­car essa liberdade do leitor. Escrevia: "Os leitores são viajan­tes; circulam em terras alheias; são nômades que caçam furtivamente em campos que não escreveram". E evocava "a atividade silenciosa, transgressora, irônica ou poética, de leitores (ou de telespectadores) que conservam uma reserva de distância na intimidade, sem que os 'amos' o saibam". Dizia também:
"A escrita acumula, estoca, resiste ao tempo pelo estabelecimento de um lugar e multiplica sua produção pelo expansionismo da reprodução. A leitura não se pro­tege contra o desgaste do tempo (nos esquecemos de nós mesmos e esquecemos dela), não conserva ou conserva mal sua conquista, e cada um dos lugares por onde pas­sa é repetição do paraíso perdido".
Essas frases foram extraídas de um artigo intitulado "Ler: uma caça furtiva", um ótimo texto.

Os leitores caçam furtivamente, só fazem o que querem, mas isso não é tudo. Eles também se evadem. De fato, hoje em dia, ao 1er, nós nos isolamos, nos distanciamos dos ou­tros, em uma interioridade auto-suficiente. A leitura é "um teto todo seu", para citar o título de um livro de Virginia Woolf. Distanciamo-nos do mais próximo, das evidências do cotidiano. Lemos nas beiradas, nas margens da vida.

E se a leitura desperta o espírito crítico, que é a chave de uma cidadania ativa, é porque permite um distanciamento, uma descontextualização; mas também porque abre um es­paço para o devaneio, no qual outras possibilidades são cogi­tadas — voltaremos ao assunto nos próximos dias. Mas já lhes digo que, a esse respeito, não se deve opor a leitura con­siderada instrutiva àquela que estimula a imaginação. Uma e outra, uma aliada à outra, podem contribuir para o pensa­mento, que necessita lazer, desvios, passos fora do caminho. "Pensamos sempre em outro lugar", dizia Montaigne.

No interior da França, para empregar uma imagem, poderíamos dizer que, no decorrer do século XX, o leitor (que com freqüência é uma leitora) levantou-se discretamente, dei­xou a sala de convívio e retirou-se em seu quarto. A leitura — que era, de início, uma atividade que se prescrevia para enredar as pessoas na malha das palavras — converteu-se em um gesto de afirmação de singularidade. Tornou-se um atalho, cada vez mais utilizado, para escapar do tempo e do lu­gar em que supostamente se deveria estar; escapar desse lugar predeterminado, dessa vida estática e do controle mútuo que uns exercem sobre os outros.



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