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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE ARTES

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

PAULA FALCÃO DE SOUZA


REVOLUÇÃO 2.0

Redes Sociais, Mobilização e os protestos dos indignados do #OccupyWallStreet

VITÓRIA

2011

PAULA FALCÃO DE SOUZA


REVOLUÇÃO 2.0

Redes Sociais, Mobilização e os protestos dos indignados do #OccupyWallStreet

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Comunicação Social do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo.

Orientador: Profº. Drº. Fábio Malini.

VITÓRIA

2011

2011
REVOLUÇÃO 2.0

Redes Sociais, Mobilização e os protestos dos indignados do #OccupyWallStreet

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Comunicação Social do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo.

Aprovada em 08 de dezembro de 2011.

COMISSÃO EXAMINADORA


_______________________________________

Prof. Dr. Fábio Malini

Orientador

______________________________________

Prof. Dr. Fabio Gomes Goveia

______________________________________

Prof. Dr. José Antonio Martinuzzo
Vitória, ______de__________________de 2011.

“A multidão é carne viva que governa a si mesma” (Antonio Negri)



AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a toda a minha família pelo suporte constante, pelas injeções de ânimo e por acreditar em mim. Especialmente aos meus pais, Olívia e Pedro Sérgio, e aos meus irmãos, Renata e Vitor, por terem me feito ser quem eu sou, na convivência, no intercâmbio de ensinamentos, carinho e muito amor.


Agradecer ao Laboratório de Internet e Cultura (Labic-Ufes) também se faz mais do que necessário. Aos companheiros das infindáveis horas de pesquisas, estudos, projetos e distrações; e ao mentor de tudo isso, Fabio Malini, pelos incontáveis conselhos e orientações ao longo do meu processo de dois anos na Iniciação Científica.
A todos os amigos que, cuidadosa e pacientemente, me ajudaram a suportar os eventuais percalços desse longo percurso que é a graduação; e mais, desse curto, porém árduo percurso que é o fim de um ciclo de estudos.
A todos vocês que, de algum modo, fizeram parte da minha vida acadêmica. Muito obrigada! O mérito é de todos nós.


RESUMO

Em dezembro de 2010, um levante revolucionário surpreendente se iniciou na Tunísia e logo se alastrou, por razões específicas, por diversos países do Oriente Médio e norte da África. Tendo como principais motivações as más condições de vida da população, o desemprego, as injustiças sociais e políticas de seus governos, a falta de liberdades e o autoritarismo, as revoltas têm como principal objetivo a luta por reformas constitucionais baseadas em ideais pró-democracia e direitos sociais.


Diretamente provocada pela crise global do capitalismo, a classe trabalhadora se mobilizou contra os regimes políticos autoritários que controlavam os países há décadas. Os protestos do que se convencionou chamar de Primavera Árabe têm convergido técnicas de resistência civil - como greves, manifestações, passeatas e comícios - bem como o uso das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube - para se articular, organizar, comunicar e sensibilizar a população e a comunidade internacional em face das tentativas de repressão e censura na Internet por partes dos Estados. As consequências, até então inimagináveis em regimes fechados, foram a queda de regimes ditatoriais e a possibilidade de maior expressão por parte da sociedade.
Esta Grande Revolta Árabe – ainda em curso - é apenas um indício de como rua e internet já não são coisas separadas, mas sim concomitantes. Casos de revoluções semelhantes ocorrem na Europa, nos Estados Unidos – e hoje pipocam por todo o globo, inclusive pelo Brasil. Estas são demonstrações de que, cada vez mais, os dispositivos tecnológicos de comunicação compartilhada na internet - as chamadas redes sociais - ativam e são ativados por grupos sociais que se aproveitam do adensamento das redes para constituir planos de conflitos sociais cuja finalidade é de produção da liberdade na e para além da rede.
Este trabalho tem como objeto de estudo o mapeamento da colaboração nas redes sociais durante o movimento Occupy Wall Street, que teve como inspiração a Revolta Árabe. O objetivo principal é realizar uma reflexão teórica do campo da comunicação acerca de como os dispositivos tecnológicos se imbricam nas relações sociais, no intuito de compreender a relação entre tecnologia e mobilização social.

Para isso, as questões que norteiam o estudo são: a maneira como as interfaces das redes sociais estão configuradas facilitam a emergência de novos modos de mobilização social? O ciberativismo nessas redes altera o modo de se fazer política? Isto é, agora que essa massa de sujeitos tem, aparentemente, o poder de narrar o mundo à sua maneira a fim de constituir um contrapoder e resistência, é possível que ela tome as rédeas de fato de sua vida política?


PALAVRAS-CHAVE: Mobilização, Redes Sociais, Militância, Revolução 2.0

LISTA DE IMAGENS

Imagem 01: Print Screen site Occupy Together………………………………………51
Imagem 02: Print Screen site 15 October……………………………………………...52
Imagem 03: Print Screen site Adbusters………………………………………………53
Imagem 04: Print Screen site Occupy Wall Street…………………………………….54
Imagem 05: Print Screen grupo Occupy Wall St. no Facebook………………………55
Imagem 06: Print Screen do site Twapper Keeper……………………………………64

SUMÁRIO

Introdução..................................................................................................11
1. Capitalismo Cognitivo: poder, economia e resistência...........................14

I. Conceituação de Economia. As correntes Marxista e Marginalista.............................14

II. Conceituação de Capitalismo nas visões de Max Weber e Karl Marx.......................15

III. Gênese, desenvolvimento e crise do capitalismo tradicional....................................18

IV. Capitalismo Cognitivo e os Bens Intelectuais...........................................................20

V. Poder e Contrapoder...................................................................................................29

Internet: modo de resistência ou dispositivo de vigilância?................................33




Capítulo 2 – Internet: dos portais às timelines..............................................36


  1. Arqueologia da internet: dos portais às timelines.....................................................36

  2. Colaboração e compartilhamento: os pilares da mídia livre.....................................41

III. Multidão e democracia: a mídia somos nós...............................................................44

IV. As lógicas da Cultura da Convergência e da Cauda Longa......................................46


Capítulo 3 – Revolução 2.0: estudo de caso Occupy Wall Street............49

I. #OccupyWallStreet......................................................................................................49

Histórico e Motivações........................................................................................49

II. Espalhamento na Rede: sites relacionados ao movimento.........................................51

Occupy Together.................................................................................................51

15 october............................................................................................................52

Adbusters…………………………………...…………………………………..53

Occupy Wall Street..............................................................................................54

III. Mobilização via Facebook.........................................................................................55

Compartilhamento de Eventos no Facebook.......................................................57

Posts direcionando para sites diversos.................................................................59

Post de frases.......................................................................................................61

IV. Mobilização via Twitter............................................................................................62

Memória na Internet. A Construção Coletiva da Opinião...................................63

O Uso do Twitter no Movimento Occupy...........................................................65

Análise de #OccupyWallStreet............................................................................66

V. O Espalhamento das Revoluções pelo Globo.............................................................77

#PrimaveraÁrabe.................................................................................................77

#SpanishRevolution.............................................................................................78



#MarchaDaLiberdade..........................................................................................79
Conclusão....................................................................................................................80

Referências Bibliográficas.....................................................................................82


INTRODUÇÃO
“Para se tornar a ser vivo, para ser novamente mestre do seu destino, para se reafirmar como sujeito da história, ele deve operar uma reversão da reificação: a revolução, a reversão da reversão, a subjetivação do trabalho morto, a transformação do objeto e do sujeito.” (LAZZARATO, 2006, p.250)
Se, na década de 90, a utopia digital foi a de transformação de todas as organizações e indivíduos online em portais de notícias, o que significava uma inflação de sites e hiperlinks num só domínio, altos custos com gerenciadores customizados de conteúdo e contratação de mão-de-obra cara e especializada - diga-se de passagem: modelo este ventilado pelas corporações de mídia da época -; na primeira década do século XXI, a revolução do compartilhamento pós-Napster difundiu, no sentido inverso, a transformação de todos os usuários em uma página única (perfil) na internet, criando uma nova economia política da informação, cujo valor não decorre do controle das massas e do acúmulo e irradiação de conteúdos; mas da capacidade de conectar pessoas a informações, a ações e a outras pessoas, liberando-as para compartilhar todo tipo de conteúdo na rede. No paradigma do compartilhamento livestream, ao alimentar a criação de novos perfis, o valor reside na quantidade de interações geradas e na socialização dos conteúdos. Já no paradigma dos portais, só há valor se os meios de comunicação social diminuírem, isto é, quanto menor for a socialização das ferramentas de publicação, maior será o poder daqueles que a concentram.
No lugar da busca por “page views” como requer a lógica dos portais; na perspectiva das plataformas livestream, o valor é cada vez mais calculado na abrangência que determinadas replicações, replies, menções, comentários, curtições e compartilhamentos de conteúdos conseguem alcançar e mobilizar no interior das timelines mundo digital afora. É por isso que hoje as organizações de mídia mais valorizadas são aquelas que nada produzem de conteúdo, mas que somente possibilitam, com suas plataformas, que um jornal ou o seu respectivo leitor atue, de modo igual, como criador e reprodutor de mensagens multimídia. Sem dúvida, isso acaba por constituir uma nova hierarquização social, tanto em termos de capitais - a hegemonia de empresas como Facebook, Apple e Google sobre a indústria da notícia -, quanto do ponto de vista da relação capital-trabalho - o furto do tempo social para criar gratuitamente valor e inovação às corporações de tecnologia.
Contudo, é inegável destacar que, nesse novo cenário de mídia, publicar significa que existem muito mais meios de comunicação social e que o “assunto do momento” não é apenas produto da rotina produtiva das instituições da notícia (imprensa), mas gerado pela mistura de veículos formais, coletivos informais e indivíduos, que fazem provocar a emergência não somente de novas formas de espalhar, de modo colaborativo, as notícias, mas sobretudo de contá-las. “A mesma ideia, publicada em dezenas ou centenas de lugares, pode ter um efeito amplificador que pesa mais do que o veredicto de um pequeno conjunto de mídias profissionais” (SHIRKY, 2008, p.67).
Como se pode concluir, na década de 90, era valorizado quem tinha audiência. Muita audiência. Hoje, depois da revolução do compartilhamento, iniciada pela popularização do Napster, quem tem poder não é apenas quem tem mais audiência, mas quem acumula mais interações. Logo, o valor de qualquer rede é calculado com base em quantos grupos alguém pode criar e mobilizar na internet. Isso é o pilar das chamadas redes sociais. E a eficiência dos protestos da rua depende cada vez mais de se saber o resultado desse cálculo. Rua e internet já não são coisas separadas, mas irmãs siamesas, a tal ponto que os protestos sociais se caracterizam hoje como ataques de enxame: em todos os lados alguém faz protesto.
Dessa forma, surge uma série de questionamentos a respeito do possível papel das interfaces das redes sociais na emergência de novos modos de mobilização social, bem como da possibilidade do ciberativismo nessas redes alterar o modo de se fazer política. A primavera árabe – iniciada em dezembro de 2010, e ainda em curso, agora constituindo um devir que atravessa a Europa e América do Norte - é apenas um indício de como rua e internet já não são coisas separadas. Casos de tumultos e mobilizações sociais semelhantes ocorrem na Europa - e pipocam também no Brasil, com o exemplo da Marcha da Liberdade, que ocupou as ruas de diversas capitais brasileiras em junho deste ano. Estas são demonstrações de que, cada vez mais, os dispositivos tecnológicos de comunicação compartilhada na internet - as chamadas redes sociais - ativam e são ativados por grupos sociais que se aproveitam do adensamento das redes para constituir planos de conflitos sociais cuja finalidade é de produção da liberdade na e para além da rede.
Contudo, há uma ampla dúvida sobre o papel das redes sociais na constituição desses novos fluxos de protestos. Há quem, de modo desconfiado, denuncie a rede como um dispositivo de passividade travestida de “mobilização no sofá”, por estimular formas de militância que se concretiza no clickativismo: “uma poluição do ativismo misturado à lógica do consumo. (…) O que define o clickativismo é uma obsessão com métricas. Cada link clicado ou e-mail aberto é meticulosamente monitorado. (…) Com um apelo massivo, clickativistas diluem suas mensagens através de chamadas para ações que são fáceis, insignificantes e impotentes” (WHITE, 2010, online)1.
Assim, há questões interessantes que norteiam o percurso da produção deste trabalho de conclusão de curso: qual é o papel hoje das redes sociais – ou da chamada “sociedade dos perfis” – na constituição e mobilização social na produção de alternativas no interior da crise do capitalismo cognitivo? Como as estratégias de replicação e do compartilhamento se constituem como esfera que ultrapassam e disputam os sentidos estabelecidos nos circuitos tradicionais de mídia? Como foi o uso das redes sociais nos protestos no Egito, Líbia, Espanha e Nova York (ocupação Wall Street)? Quais são as dimensões políticas semelhantes e distintas? Quais foram as ferramentas e as táticas de construção de uma militância que se constitui nas ruas a partir das mobilizações 2.0? Que modalidades de poder e contrapoder passam a funcionar a partir do momento em que o cidadão se empodera de uma função de narrador e comentarista dos fatos sociais? Como explicar os processos de opinião pública, se um fluxo constante de opinião é conformado dentro das redes e não mais somente pelo e no interior de veículos tradicionais de comunicação?

1. Capitalismo cognitivo: poder, economia e resistência


  1. Conceituação de Economia. As correntes Marxista e Marginalista

É importante que se comece este trabalho pela delimitação de linhas gerais do que é denominado “economia”, a fim de compreender sua inserção na sociedade e suas mutações ao longo dos séculos. Paul Singer sintetizou o histórico deste termo2, a começar por definir três significados para a palavra economia: 1- qualidade de ser estrito no uso de recursos ou valores; 2- ampla gama de atividades que compõem a economia de um país. Atividade econômica quando visa ganho; 3- Ciência que tem por objetivo a atividade econômica, visto que a ciência é a sistematização dos conhecimentos sobre a Atividade.


A partir dessas definições, o autor delineou duas facetas da economia, como Atividade e como Ciência. A primeira delas pode ser compreendida em dois âmbitos, na visão marxista ou marginalista. Para os marxistas, a atividade econômica é sempre coletiva, realizada por uma sociedade, mediante uma divisão social de trabalho na qual diversos grupos se especializam na execução de tarefas. Desta maneira, pode-se dizer que o modo de produção hierarquiza os participantes na atividade econômica em classes sociais e estas se constituem por processos sociais – ou seja, os indivíduos já nascem nos modos pré-existentes de produção.
Em contraposição, para os marginalistas, a atividade econômica é, em sua essência, individual. Apesar de reconhecerem que os indivíduos tendem a se relacionar entre si na divisão social do trabalho, afirmam que isso ocorre somente em vista de seus próprios desejos e necessidades. Essa corrente de pensamento enxerga a economia como um processo social que pode só se explica como somatória das atividades de muitos agentes econômicos, cada um agindo em função do grau de satisfação que possa obter em comparação com os sacrifícios que sua atividade lhe impõe, isto é, cada um agindo segundo seus interesses individuais.

Em se tratando de economia como Ciência, vamos ao pensamento dos marxistas. Para eles, economia política é a ciência do social, que abrange em seu campo de estudo o conjunto das atividades que constituem a vida econômica da sociedade. A economia política coloca suas condicionantes sociais e políticas no cerne de suas preocupações – o que significa que os marxistas defendem uma coexistência entre os campos econômico, político e social, com cara um interferindo no outro.

Já para os marginalistas, estes campos são separados e independentes entre si, pois seriam regidos por leis diferentes. As decisões sociais nada teriam de correlacionadas com as decisões políticas, o que conferiria a autonomia dos campos econômico, político, sociológico, etc.
Singer defende que o sistema social que maximiza a liberdade dos indivíduos é a economia de mercado em concorrência perfeita, que tem por principais características: 1- ninguém é tão grande que possa sozinho influenciar o preço; 2- todos os agentes conhecem todas as ofertas e demandas; 3- todos os agentes se guiam só por considerações econômicas, sem sofrer influência de fatores emocionais, preconceitos, etc.
Entretanto, o autor explica que essas condições nunca se realizam na prática, pois na realidade capitalista não só há uma marcante desigualdade entre os agentes, como os agentes menores não possuem recursos para adquirir todos os conhecimentos relevantes - como consta nos itens 1 e 2. A respeito do item 3, Singer afirma ser irreal eliminar a influência externas comportamentais do campo econômico. Todo este artificialismo aponta para o fato de que a teoria marginalista é discutível, afinal, o homem não se torna um robô – livre de influências externas - ao adentrar o mercado.


  1. Conceituação de Capitalismo nas visões de Max Weber e Karl Marx

Para seguir com a análise sobre economia, é preciso historicizar e definir o que se denomina capitalismo na sociedade – isto porque, apesar de o termo ser usado com grande recorrência em meios diversos, é preciso atentar para o fato de muitas pessoas o utilizarem apenas por convenção, sem sequer saber suas implicações, contextualizações e significados reais. Por isso, tentaremos traçar histórico e conceito do capitalismo à luz das idéias dos pensadores Max Weber e Karl Marx. O primeiro defende que o capitalismo se constitui a partir da herança de um modo de pensar as relações sociais. O segundo, que o capitalismo é um determinado modo de produção de mercadorias que encontrou sua plenitude no intenso processo de desenvolvimento industrial inglês – Revolução Industrial.


Afrânio Mendes Catani explica que capitalismo não significa apenas um sistema de produção de mercadorias, mas também um determinado sistema no qual a força de trabalho se transforma em mercadorias e se coloca no mercado como qualquer objeto de troca. O autor afirma, ainda, que, para que exista capitalismo, é necessária a concentração da propriedade dos meios de produção em mãos de uma classe social e a presença de outra classe para a qual a venda da força de trabalho seja sua única fonte de subsistência.
Marx Weber buscou mostrar algumas manifestações de capitalismos em diversas culturas, mas teve seu foco na análise de aspectos que particularizassem esse regime no Ocidente. Isso porque a empresa e o empreendimento capitalistas existiam de longa data e em toda parte, mas foi no Ocidente que se desenvolveu uma gama de configurações nunca antes vistas: 1- formação de um mercado de trabalho formalmente livre; 2- uso da contabilidade racional.
De início, o pensador atenta para o fato de os dogmas “impulso para o ganho” e “ânsia de lucro” não terem origem no capitalismo, visto que sempre existiram. Weber traça também um paralelo entre religiosidade e economia, ao associar diferentes correntes religiosas aos diferentes modos de produção. No Catolicismo, exigia-se o desprendimento dos bens materiais, sendo o trabalho apenas uma fonte de subsistência. Já o Protestantismo valorizava o trabalho profissional como meio de salvação. O Luteranismo defendia que a vocação era uma ordem divina que deveria determinar a profissão do fiel. Já o Calvinismo valorizava o trabalho e a riqueza gerada por ele, não visando luxo e enriquecimento, mas sim para investir em novas formas de trabalho. Essas concepções religiosas acerca do trabalho fizeram com que se reforçasse, historicamente, a noção de que os indivíduos deveriam ceder sua força de trabalho para o sistema vigente.
Como no modo de produção capitalista o indivíduo não tem todas as profissões necessárias para sua sobrevivência, ele depende do trabalho do outro. Dessa forma, os produtos e trabalhos têm de ser trocados, sendo a troca uma condição necessária para o funcionamento do sistema. Marx afirma que no capitalismo os modos de produção estão nas mãos dos capitalistas, que constituem uma classe distinta da sociedade; e também ao dizer que mercadoria é uma coisa ou objeto que satisfaz uma necessidade qualquer do homem, além de ser uma coisa que se pode trocar por outra. Catani segue esta linha de pensamento, ao afirmar que um produto do trabalho só se torna mercadoria quando está no quadro de condições sociais em que impere a propriedade privada; a divisão social do trabalho; e a troca.
Considerada isoladamente, a mercadoria representa uma certa parte do tempo de trabalho socialmente necessário, isto é, a grandeza do seu valor é determinada pela quantidade ou pelo tempo de trabalho destinado à sua produção. Em seu processo de troca, o dinheiro é o equivalente geral para todas as mercadorias. Esse paradigma surgiu de uma “prática comum” que Marx define como inconsciente, fruto de uma prática diária, isto é, para o pensador, o dinheiro não foi conscientemente criado pelos produtores para transpor as dificuldades de troca. A partir do estabelecimento do dinheiro como medida geral, a troca divide-se em duas etapas, sempre tendo o dinheiro como intermediário do processo: 1- a transformação da mercadoria em dinheiro; 2- a transformação do dinheiro em mercadoria. Dessa maneira, cada parte não necessita mais consumir mutuamente as mercadorias da outra, sendo assim, compra e venda já não ocorrem ao mesmo tempo, tornando-se, portanto, mais móveis.
Segundo Marx, a “mais valia” não pode provir da circulação das mercadorias, porque esta só conhece a troca de equivalentes. Para se obter a “mais valia”, seria preciso que o possuidor do dinheiro descobrisse no mercado uma mercadoria cujo valor de uso fosse dotado da propriedade singular de ser fonte de valor. Essa mercadoria é a força de trabalho humana. Sem os meios de produção, a força de trabalho tem pouca utilidade, os artesões, por exemplo, não conseguiriam competir com as fábricas. Separada dos meios de produção, a classe trabalhadora passou a depender da classe dos capitalistas-proprietários dos meios de produção – era preciso vender a força de trabalho em troca de um salário. Surge assim a massa proletariada, assalariada de acordo com o valor da força de trabalho, isto é, com o valor dos meios de subsistência necessários para a manutenção do trabalhador.

A questão é que no regime capitalista a oferta de mão de obra tende a ser maior do que a procura, assim, o trabalhador é forçado a bastar-se com o mínimo vital. É o círculo vicioso do capitalismo. Enquanto o assalariado vende sua força de trabalho para sobreviver, o capitalista a compra para enriquecer. Mesmo que o trabalhador necessite trabalhar, por exemplo, quatro horas para sua sobrevivência, ele é forçado a trabalhar oito – esta produção de excedente é a “mais valia” do capitalista, essência desse sistema de exploração.


Nessa lógica de extorsão, acaba ocorrendo um fenômeno de centralização do capital, descrito por Marx da seguinte maneira: há uma feroz concorrência e saem vitoriosos os capitalistas que criarem melhores condições para produzir, tendo como alternativas, por exemplo, pequenas e médias empresas são compradas pelas maiores; duas empresas grandes se unem para eliminar uma terceira. Surge assim a vocação monopolística.


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