Tabajaras na paraíBA: ressignificaçÃO, identidade étnica e espiritualidade



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TABAJARAS NA PARAÍBA: RESSIGNIFICAÇÃO, IDENTIDADE ÉTNICA E ESPIRITUALIDADE

Mirinalda Alves Rodrigues dos Santos1

Wellida Karla Bezerra Alves Vieira2
Resumo: Este artigo é fruto da vivência no campo e estudos prévios sobre os povos Tabajaras na Paraíba, nosso objetivo, é fazer um breve histórico sobre a questão indígena na Paraíba endossando os Tabajaras ontem e hoje. Além de refletirmos sobre suas buscas étnicas e ligações entre ancestralidade e espiritualidade. Na História Tabajara a memória oral se remete a partir de uma profecia rememorada e aos poucos registros escritos, essa profecia rememorada é mais um elemento de fundamentação para reorientar e transformar toda a dimensão do universo da comunidade Tabajara em um processo de identidade étnica e reconhecimento no contexto das relações sociais.
Palavras-chaves: Tabajaras. Ressignificação. Espiritualidade.

TABAJARAS IN PARAÍBA: RESIGNIFICATION, ETHNIC IDENTITY AND SPIRITUALITY
Abstract: This article is the fruit of experience in the field and previous studies on the peoples Tabajaras in Paraíba, our objective, is to do a brief history of the indigenous issue in Paraíba espousing the Tabajaras yesterday and today. In addition to reflect on their ethnic searches and connections between ancestry and spirituality. In History Tabajara oral memory reference is from a prophecy reenacted and the few written records, this prophecy reenacted is a further element of reasoning to redirect and transform the whole dimension of the universe of the Community Tabajara in a process of ethnic identity and recognition in the context of social relations.
Keywords: Tabajaras. Ressignification. Spirituality.

INTRODUÇÃ

Este artigo é fruto da vivência de uma aula campo na tribo Tabajara, localizado no Conde e Gramame/ PB. A motivação de fazer esse estudo partiu quando começamos a estudar e dialogar sobre os povos Tabajaras na disciplina Rito, Mito e Espiritualidade indígena, em que tivemos a oportunidade fazer uma aula campo no qual visitamos as aldeias desses povos.

O território dos povos Tabajaras localizado no litoral sul paraibano ao longo da sua História há registros de muitas lutas por posse de terras, ao passar do tempo eles foram silenciados brutalmente, tanto nos aspectos físicos como nos psíquicos por lideranças religiosas, políticas, econômicas, entre outros repressores que os fizeram ser expropiados de suas terras, negar sua identidade e seu reconhecimento social.

Há poucas fontes escritas sobre essa etnia apenas algumas referências até o século XIX. Em 2006 a população Tabajara entra em um processo de (re) organização, a princípio a existência desse povo parecia um mito, hoje em dia é uma realidade.

Na História Tabajara a memória oral se remete a partir de uma profecia rememorada e aos poucos registros escritos, essa profecia rememorada é mais um elemento de fundamentação para reorientar e transformar toda a dimensão do universo da comunidade Tabajara em um processo de identidade étnica e reconhecimento no contexto das relações sociais.

Pretendemos nesse trabalho apresentar como foi e está sendo esse processo de ressurgimento desses povos e sua ressignificação de suas tradições e reivindicações de posse de suas terras. Estabelecemos interlocuções com: FARIAS & BARCELLOS (2012). VILHENA (2005). Atualmente há aproximadamente 780 índios Tabajaras reconhecidos pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

O artigo está dividido em seguintes partes: primeiramente faremos um breve recorte sobre as nações indígenas na Paraíba. A seguir um contexto histórico a respeito das lutas e firmação dos povos Tabajaras no litoral sul onde, faremos um aporte teórico a respeito da cultura imposta pelos colonizadores sobre os Tabajaras e por fim, enfocaremos a nossa vivência a partir da visita das aldeias Tabajaras em nosso estado.
2. Paraíba, terra de indígenas.
No século XVI, a Paraíba tinha uma população estimada de indígenas com cerca de 100 mil índios (MELO 1999). No litoral viviam os pertencentes aos Tupis que se dividiam em dois grandes grupos, os Tabajaras e os Potiguaras. Na região do interior encontrava-se a Nação Kariri, que tinha uma grande variedade de tribos dentre elas os Taraírus. José Elias Barbosa (1984) é um dos poucos autores que trazem informações sobre a resistência dessa tribo. Em sua totalidade o indígena paraibano viviam da caça, pesca, coleta e uma primitiva agricultura de subsistência. A maioria deles era nômade, e sua organização social se davam através de tribos, onde era divido todo trabalho ou função de acordo com o sexo, idade ou adequação funcional. Ou seja, trabalho, guerra, homem, mulher, idoso, como narra (CAVALCANTE, 1996, p. 20).

Do escasso Pau- Brasil até a expulsão dos jesuítas das aldeias Araguatis e Jacoca (atual Alhandra e Conde). Deu-se um longo período de resistência indígena a partir das batalhas sangrentas entre os Potiguaras e seus aliados franceses contra o colonizador português. Porém, a fase de catequização e escravização indígena se consolida com a aliança forjada entre tabajaras e portugueses, nos personagens conhecidos deste fato que são João Tavares e o Piragibe. A criação das aldeias missionárias foi ponto estratégico para a conquista definitiva das terras da Paraíba. Porém, só a partir da entrada dos franciscanos na liderança religiosa e catequista dos indígenas iniciou-se um período de trégua e aceitação dos nativos a “nova vida”.

[...] após a expulsão dos jesuítas cresceu muito a devoção e o número de cristãos impulsionados pela grande confiança que tinham nos padres franciscanos sobre os quais recaia o peso de muitos serviços nas aldeias, tanto que passaram a ser considerados como os melhores auxiliares na conversão moral e religiosa entre os índios e os moradores. (SEIXAS, 1979, p.47)
Os franciscanos construíram conventos e igrejas como é o caso da igreja de Nossa Senhora de Assunção em Alhandra, toda em estilo barroco rural. Ao longo dos tempos outros indígenas eram trazidos do interior para essas vilas, esvaziando-se assim as tabas e aldeias indígenas da Paraíba, no intuito de aumentar produção canavieira local. A vila de Alhandra recebia muitos desses indígenas, motivo pelo qual foi ponto determinante na ascensão de aldeia a vila pelo governo da província. Esses dados do crescimento do contingente indígena em Alhandra é destacada por (MEDEIROS, 1999) que menciona que em 1804 havia na vila cerca de 766 indígenas e no ano seguinte apresentava-se 1.372 indígenas. Aos poucos, os nativos foram deixando seus costumes e modo de vida, incorporando as práticas impostas pelo colonizador. Como é o caso das moradias individuais e não mais utilização de sua língua materna. A região geográfica chamada de Sesmaria povoada pela vila de Araguatis e Jacoca corresponde atualmente a Alhandra e Conde onde é berço oficial da etnia indígena Tabajara outrora e na atualidade.
3. POVOS TABAJARAS: breve contexto histórico.
Localizado no território paraibano, nos municípios do Conde e Gramame os povos Tabajaras sempre tiveram histórias de muitas lutas por posse de terras. Historicamente esses povos chegaram na Paraíba em fevereiro de 1585 diante de desentendimentos com os colonizadores portugueses.

Ao passar do tempo após diversas batalhas contra os portugueses e os Potiguaras os mesmos se depararam em uma situação que tiveram de se aliarem os portugueses para a sobrevivência de seus povos, pois estavam eram poucos que sobreviveram nessas batalhas. Assim, estrategicamente houve uma migração do território que se localizavam para o litoral sul da Paraíba.

Desse processo de migração podemos situar os passos dos indígenas Tabajaras, conforme Farias &Barcellos (2012):
A cinco de gosto, dia de Nossa Senhora das Neves é firmada com os Tabajaras a tão encejada paz para os portugueses. Iniciando-se uma fase de sangrentas vitórias contra os Potiguaras e franceses em favor de uma sonhada colonização e dominação do território pela coroa portuguesa. De acordo com os registros, a presença dos indígenas Tabajaras na Paraíba é referenciada por alguns pesquisadores em documentos desde o século XVI. (P.76).

Como esses povos eram constantemente recrutados pelos portugueses para poderem adentrar no interior da capitania da Paraíba objetivando a exploração dessas terras. Podemos observar nessa citação é que os povos Tabajaras desde que foram perseguidos pelos colonizadores foram perseguidos e só vieram a se firmarem em um território nos meados do século XVI com a conquista das sangrentas batalhas com os Potiguaras e franceses.

Nesses territórios os indígenas Tabajaras para sobreviver viviam da agricultura em que plantavam (milho, feijão, mandioca, etc); da pesca e da caça. Como os colonizadores pretendiam “domesticar” os índios conforme sua cultura, os mesmos tiveram que seguir forçadamente aos ensinamentos tais como: mudar o seu modo de ser, pensar, agir e sentir. Nesse sentido as concepções religiosas dos indígenas Tabajaras foi que mais sofreu com essa imposição, abordaremos a seguir como ocorreu esse processo de dominação cultural.
4. Cultura e religião silenciada
Com os aldeamentos dos indígenas Tabajaras controlados pelos colonizadores portugueses a imposição da cultura era uma forma de manter o controle a chamada política colonial. Essa política tinha o objetivo de fazer com que os índios, em específico os Tabajaras a mudarem seus comportamentos e obedecer de forma forçada aos comandos dos colonizadores.

Sem considerar a religião indígena os portugueses juntamente com os jesuítas implantaram a o cristianismo nos nativos, utilizando a catequese como instrumento de dominação. Mas com o passar do tempo, o relacionamento entre os colonizadores e os jesuítas estremeceu devido um bom convívio entre os indígenas com os jesuítas, isso podemos observar na fala de Araújo, Sousa, Souza, Leite, Andrade & Santos (2012):


O relacionamento dos nativos com os Jesuítas preocupou a Coroa portuguesa, pois esta ordem religiosa passou a controlar os indígenas, e isto poderia enfraquecer o poder central da Coroa, a ponto de se considerar que os Jesuítas dominavam “um Estado dentro da Colônia portuguesa”, devido à autoridade que estes religiosos tinham sobre os nativos. Assim, em 1759 os Jesuítas foram expulsos da Colônia Brasil.

A catequização também foi outro instrumento de conquista e manutenção do território para os portugueses. À medida que os indígenas passassem a professar a mesma religião, a vestirem as mesmas roupas e pensarem como os portugueses, passariam a interpretar a realidade a partir do olhar do colonizador, sendo assimilados culturalmente a cada geração. O colonizador europeu se preocupou em ocupar território, mas também se preocupou em ocupar a mente do nativo procurando assimilá-lo culturalmente, de forma que com o tempo, a forma de pensar e agir do colonizador se sobrepujasse em relação aos costumes nativos. (P.3).


Contudo, não podemos deixar de lembrar que a história do Brasil colônia não pode ser desvinculada da conquista colonial europeia, já que a colonização deve ser compreendida como a necessidade de expansão comercial. A ação dos portugueses no Brasil era pretendida para atender os interesses da burguesia e para isso, todos deveriam inserir-se em uma mesma cultura.

Nesse sentido, os povos indígenas, no caso, Tabajaras diante desse processo de expansão comercial perdiam cada vez mais sua identidade, sua cultura, seus valores, suas tradições, entre outros elementos que compõe nossa filosofia de vida enquanto constituinte de uma sociedade. Assim, os colonizadores foram se fortalecendo e destruindo os nativos a qual não se adaptavam a essa nova vida.

Além disso, sua desvalorização como ser humano foi presente no contexto as relações sócias que estavam inseridas, como se os nativos não tivesse nenhuma importância como pessoa. Neste caso, os indígenas eram vistos como gente sem honra (sem religião), não eram considerados seres humanos, mas como animais que precisavam ser destrados.

O que podemos constatar no período colônia é que a igreja que predominava nesse contexto era a católica, no qual a mesma era quem direcionava a imposição do cristianismo nos indígenas, pouco se falava das igrejas evangélicas nessa época. Podemos constatar essa questão na fala de Shalkwik (1997).


[...] A igreja Cristã, nome da igreja evangélica na Holanda. Ela era uma igreja do Estado, conforme a situação da época colonial nos países do ocidente, tanto os católicos como os reformados protestantes. Essa igreja reformada veio para o Brasil com a bandeira holandesa, e foi expulsa com ela. (P. 09).

Nessa perspectiva a igreja evangélica foi tomando espaços no Brasil aos poucos e foi se fortalecendo como a mesma dimensão da igreja católica, no que diz respeito a religião dos indígenas Tabajaras. Com a intenção de domínio da cultura indígena, podemos afirmar que para ambas as religiões dominadoras a religião dos índios não eram consideradas e eram vistas como inferiores e relacionavam como algo do mal e que os índios não podiam perpetuar a sua religião.

Hoje em dia essa concepção ainda prevalece, no contexto atual dos povos Tabajaras a religião evangélica ainda é muito forte no convívio deles, uma vez que conforme Farias &Barcellos (2012): “Na aldeia sítio Barra de Gramame, em área com vinte e um hectares existem duas igrejas evangélicas e nenhuma católica ou de outra denominação” (P. 82).

Essa constatação se dá a partir de estudos feitos nas aldeias das tribos Tabajaras e o nosso objetivo é mostrar no próximo tópico deste artigo o contexto atual desses povos mostrando o (re) surgimento, (re) significação da cultura e o resgate de identidade perdida ao longo do processo histórico a partir da nossa vivência ao visitarmos essas aldeias.

A História Tabajara emerge a partir da memória oral instrumento importante na construção histórica e transmissão de valores e ensinamentos nas culturas primitivas. Na qual resurgiu a partir de uma profecia rememorada dos chamados “Troncos Velhos”, os anciãos das aldeias indígenas. Essa profecia que daria a um jovem a missão de juntar e retomar a terra e a cultura dos Tabajaras outrora rememoradas. É mais um elemento de fundamentação para reorientar e transformar toda a dimensão do universo da comunidade Tabajara em um processo de identidade étnica e reconhecimento no contexto das relações sociais.
Cada pessoa, valendo-se dos elementos de sua cultura, socialmente criados e compartilhados, conta não apenas o que fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez. As fontes orais são únicas e significativas por causa de seu enredo, ou seja, do caminho no qual os materiais da história são organizados pelos narradores para contá-la. Por meio dessa organização, cada narrador dá uma interpretação da realidade e situa nela a si mesmo e aos outros e é nesse sentido que as fontes orais se tornam significativas para nós. (KHOURY, 2001, p. 84.)
Há poucas fontes escritas sobre essa etnia apenas algumas referências até o século XIX. Em 2006 a população Tabajara entra em um processo de (re) organização, a princípio a existência desse povo parecia um mito, hoje em dia é uma realidade.

5. VISITA NAS ALDEIAS TABAJARAS: ressignificação, memória e identidade étnica.
Primeiramente fomos visitar a aldeia Vitória no Conde/PB, em que fomos recebidos por Paulo um dos representantes dessa tribo, fomos bem acolhidos por ele e pelos demais indígenas que ali estavam presentes. O representante nos deixou bem avontade para perguntarmos e tirarmos nossas dúvidas, o mesmo demonstrou que estava disposto a responder nossos questionamentos.

A partir dos diálogos estabelecidos entre nós com os índios Tabajaras, nos deixou a par dos interesses de lutas desses povos, no qual estão passando por uma situação de uma luta por território que vem sendo arrastado desde 2011. Ao qual essa é uma das principais lutas por terra que estão enfrentando contra uma fábrica de cerâmica que está querendo tomar as terras indígenas dos Tabajaras.

Atualmente segundo o representante dessa tribo cinco famílias Tabajaras foram reconhecidas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Os Tabajaras buscam construção de cinquenta casas juntamente co o governo do Estado e a principal meta deles é a demarcação de suas terras.

O que mais nos chamou atenção foi quando o representante falou a respeito das práticas do Toré em que tiveram que fazer um ofício para poder dançar o Toré. Ao falarmos sobre esse assunto a esposa de um dos representantes dos indígenas Tabajaras afirmou que “tiraram nossa cultura, tiraram nosso direito, mas não tiraram a nossa espiritualidade”. Nessa fala, podemos perceber que eles têm o entendimento eu o Toré faz parte de sua cultura e precisam resgatar essa tradição.

Já na aldeia da Barra de Gramame nos deparamos com os outros índios Tabajaras fomos recepcionados pelo Cacique Carlinhos, no qual o mesmo pediu para nos apresentarmos. Quando eles se autoapresentaram nos deparamos em um momento de belíssimo reconhecimento de identidade, pois os mesmos falavam seus nomes junto com a palavra tabajara como, por exemplo: meu nome é João Tabajara e assim sucessivamente. Esse momento foi de suma importância para o autorreconhecimento e construção de identidade de um povo que tiveram sua cultura étnica negada.

O Cacique falou um pouco sobre as lendas na floresta, nas águas afirmando eu as história ditas eram verdadeiras, e que aconteceram com eles. Esse momento foi bastante relevante para termos uma maior compreensão das crenças

Antes dos indígenas dançarem o Toré para nós o Cacique explicou o motivo a qual se faz a dança, afirmando que ela serve para atrair energias boas e espantar o mal. De acordo com Farias &Barcellos (2012): “[...] os povos indígenas adotaram o Toré como expressão mais forte da indianidade nos diversos momentos do cotidiano como ritual religioso, cultural, social e político nas lutas de reivindicação pelos seus direitos”. (P.197).

Quando iniciaram a prática ritual do Toré sentimos uma forte emoção ao vê-los se ressignificar e se reconhecer e as aspectos social, cultural e religioso. Considerando que a dança do Toré é um rito é preciso que nos apropriarmos do significado para tal compreensão, nos debruçando no conceito que Vilhena (2005) traz. Entende-se que o rito é:


[...] expressão e síntese do ethos cultural de um povo, portanto expressão de sua vida há de se salientar que, como ação, é vida acontecendo, processando-se, sendo significada, interpretada, ordenada, criada. O rito é vida criando vida, pois que no caos, na indeterminação, na falta de horizontes e sentido não sobrevivemos. É, portanto, atividade, trabalho, obra que opera, transforma, cria, significa. (P. 55).

Nessa perspectiva fazemos a abordagem a respeito das práticas do Toré, no sentido que os mesmos servem para dar razão à existência próprio indígena Tabajara, essa prática é de suma importância para dar sentido a essa existência. Como um mecanismo que produz o sagrado, assim podemos afirmar que no momento da dança a vida se renasce, dando sentido a sua cultura étnica.

Durante um momento individual com o Paulo, um dos líderes Tabajaras, retornamos o assunto da espiritualidade, tomando como base as turimbas3cantadas no Toré sobre a jurema sagrada. Achamos muito interessante a sua colocação. Ele nos disse que era líder evangélico, mas aquilo era coisa de índio e estava ligada a cultura dele, e que muitos na aldeia Gramame já estavam praticando a jurema de pajelança4, voltando a sua ancestralidade. Na própria obra de FARIAS & BARCELLOS (2012), o Cacique Ednaldo declara-se livre de preconceitos espirituais e diz em algumas noites acende seu cachimbo (fumaçando) e pede forças a seus ancestrais além de consultar um xamã no município de Alhandra para orientação espiritual. Mas reconhecer o valor da pratica da jurema em busca de suas afirmações ancestrais seria um dos caminhos de volta? Essa é uma resposta que sempre se manteve respondida. Pois mesmo distanciados de sua forma primitiva de vida, o indígena paraibano se mantém próximo a sua cultura através da prática do catimbó. René Vanderzande (1975) traz o catimbó como a prática ao culto a jurema, termo mais antigo para identificar essa manifestação religiosa indígena. O culto a jurema se dá em torno da bebida ingerida pelos seus adeptos produzidos pelas sementes ou cascas da árvore considerada sagrada. Onde os mestres juremeiros trabalham juntamente com entidades espirituais mágicas em favor dos que os buscam como cita (NÓBREGA, 2013) enfatizando sua prática na umbanda.
jurema é um ritual indígena, na qual se ingere um chá feito de uma planta chamada jurema. Nesse ritual, que ocorre até os dias atuais, feito por umbandistas, a pessoa participante ingere o chá da sagrada jurema e invoca as entidades ancestrais das matas (índios, caboclos etc). A pessoa passa por alucinações e é “curado” espiritualmente de traumas, “quizilas” e coisas ruins que possam estar tentando aprisionar o seu espírito. (NÓBREGA,2013 p.23).

Porém a prática do culto a jurema era idêntica entre os índios Tuxás5, como descreve (ANDRADE, 2002) onde podemos identificar as semelhanças na liturgia religiosa e traços do sincretismo religioso do espiritismo kardecista, do catolicismo,

Além da influência afro brasileira e religiões orientais que desenvolvem o universo místico dos reinos encantados.
O culto a Jurema, tal como se apresenta entre os Tuxás, desenrola-se em torno da bebida ou o vinho da jurema o qual produz alterações na consciência que auxiliam a propiciar o transe. Orlando Sampaio Silva em sua pesquisa encontrou mais do que elementos mágicos europeus ou assimilação do catolicismo, referencias extraídas do espiritismo Kardecista e da Umbanda. As entidades cultuadas são denominadas de encantados, que são espíritos dos gentios – das línguas nativas – habitantes do reino encantado, que descem para curar e realizar trabalhos para os vivos, também chamados de mestres ou caboclinhos. Cascudo menciona em seu estudo dois reinos encantados: O Vajucá e o do Juremal, sem especificar distinções entre eles (ANDRADE, 2002,p. 225)

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Para os juremeiros e adeptos, a planta da jurema é sagrada e é um canal dotado de seres espirituais. Ancestrais indígenas, caboclos e mestres que trabalharam neste plano espiritual outrora. E que continuam a trabalhar quando invocados nas cerimônias religiosas. Fazendo agora parte do reino dos encantados. As “cidades da jurema” ou “cidades dos encantados” são lugares da presença do arbusto e que em torno dele se realizam os ritos do catimbó. Onde também se encontram enterrados os mestres juremeiros, pois a prática do catimbó não era bem vista pelas autoridades locais da época e os seus líderes e adeptos eram proibidos de ser enterrados junto à população comum. Formando assim uma geografia sagrada como sugere (Salles, 2004):

“As cidades da jurema são lugares sagrados e, como tais constituem a ruptura da homogeneidade do espaço, demarcando, assim uma geografia sagrada. As cidades jurema ou dos encantados estão assim para os juremeiros, espaços diferenciados dos demais, de ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos, entre o mundo da realidade e o mundo dos encantados”. (Salles, p.112)
A jurema sagrada é mais uma herança indígena paraibana, nascida nos berço da sesmaria, onde emerge o povo Tabajara. Possivelmente há influencias dos demais povos indígenas da Paraíba até por que geograficamente era uma área para onde os nativos eram levados quando suas tabas e aldeias eram fechadas. Porém o mais importante é que nesse momento de retomada cultural e étnica não só os valores culturais e morais surgem mais principalmente os espirituais ligados ao sagrado.
6. CONSIDERAÇÕES
Muito conseguimos contemplar desde nossas pesquisas inicias até a nossa visita ao campo. (Aldeia Tabajara). O que conseguimos ver além de nossos olhos humanos é um povo sedento por justiça social, querendo reaver o que foi estupidamente roubado de seus avós e bisavós.

Não falamos apenas da terra, mas dos valores, da cultura, do Toré, dos adornos, dos ritos, da língua, do sagrado, dos direitos. Mencionamos aqui o maior de todos dos direitos que foi tirado dos indígenas de serem reconhecidos como Tabajaras! Esse foi o primeiro maior dos crimes cometidos a esse povo.

Grande ainda é o percurso a ser seguido em busca desta retomada e afirmação de identidade étnica cultural indígena. Tabus a serem quebrados, interesses rompidos, políticas distorcidas.

No entanto, esse é o caminho de regresso a valorização do indígena paraibano na formação da sociedade de nosso estado e de nossa pátria. Concluímos nosso ensaio com uma frase muito citada pelo Cacique Ednaldo em suas palestras sobre a batalha de retomada de seu povo que espelha bem o seu reflexo de luta: “podaram nossas folhas, arrancaram nossos galhos, cortaram nosso tronco, mas se esqueceram das nossas raízes”. E agora, elas “renasceram”.



REFERÊNCIAS
ANDRADE, Maristela Oliveira de. 500 anos de catolicismo e sincretismo no Brasil. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2002.
ARAÚJO, Ismael Xavier de. SOUSA, Viviane dos Santos. SOUZA, Roméria Santana da Silva. LEITE, Jeremias Jerônimo. ANDRADE, Tânia Maria de. SANTOS, Rodrigo Lira Albuquerque dos. Processo de emergência étnica: Povo indígena Tabajara da Paraíba. VII Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação (CONNEPI). Palmas – Tocantins. 2012.
FARIAS, Eliane Silva de. BARCELLOS, Lusival A. Memória Tabajara: manifestação da fé e identidade étnica. João Pessoa: editor da UFPB, 2012.

MELO, Josemir Camilo de. O resgate da História Indígena na Paraíba. Notas para uma pesquisa etnohistoriográfica. Ed. EDUFAL, 1999. ( p. 195 – 219).


MEDEIROS, Manoel Batista de. Três documentos na / da Literatura Indígena do Século XVII. João Pessoa: Ed. UNIPÊ, 1999.
NÓBREGA, Michael Douglas dos Santos. O Barroco no Brasil: Culturas artística, histórica e historiográfica do Barroco na Paraíba colonial / Monografia em História, UFPB - João Pessoa, PB: [s.n.], 2013.
SALLES, Sandro Guimarães de. À sombra da jurema: a tradição dos mestres juremeiros na umbanda de Alhandra. Revista Anthropológicas , ano 8, volume 15, 2004 (p.99-122).
SEIXAS, Wilson. As Juntas das Missões. IN: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Volume 22. Abril de 1979. João Pessoa (p. 45-77).
VANDERZANDE, René. Catimbó. Dissertação de Mestrado, Recife, UFPE.1975.
VILHENA, M. Â. Ritos expressões e propriedades. São Paulo: Paulinas, 2005.


1 Mestre em Ciências das Religiões pelo Programa de Pós-graduação em Ciências das Religiões (PPGCR), na linha de Pesquisa: Educação e Religião, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

2 Mestre em Ciências das Religiões pelo Programa de Pós-graduação em Ciências das Religiões (PPGCR), na linha de Pesquisa: Educação e Religião, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

3 Músicas, canções, cantigas, entoadas cantadas em giras e ritos de Umbanda, Candomblé e Jurema

4 do tupi pajé, curador, sacerdote, xamã) é um termo genérico aplicado às diversas manifestações do xamanismo dos povos indígenas brasileiros. Refere-se aos rituais nos quais um especialista entra em contato com entidades não-humanas (espíritos de mortos, de animais etc.) com o fim de resolver problemas que acometem pessoas ou coletividades.

5 Grupo de indígenas do nordeste, característicos dos estados de Pernambuco e Bahia.


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