Teatro Completo



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Teatro Completo

Governador do Estado



Antonio Britto

Secretário da Cultura



Carlos Jorge Appel

Diretora do Instituto Estadual do Livro



Tania Franco Carvalhal

Conselho Editorial do IEL



Donaldo Schüler, Henry Saatkamp, La Masina, Luiz Antonio de Assis Brasil, Rita T. Schmidt, Sergio da Costa Franco, Sergio Faraco, Tania Franco Carvalhal (presidente,

Secretária: Agata Pamplona

DEDALUS - Acervo - FFLCH-LE

21300123222

Outras obras do autor pela Editora Sulina

Ovelhas Negras (1995)

Inventário do Ir-remediável (1995)

Pequenas Epifanias (1996)

Caio Fernando Abreu

Teatro Completo

Organização e prefácio:


Luiz Arthur Nunes

Editora Sulina

Porto Alegre

1997


© 1997 by Abreu, Caio Fernando

Capa: concepção e produção de Paria Comunicação

Projeto gráfico: Bentancur Artes Gráficas

Assessoramento de edição e revisão: Paulo Bentancur e

Raimundo Fonteneie
Editor: Luis Gomes
CIP - BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

Bibliotecária responsável: Rosemarie Bianchessi dos Santos — CRB 10/797

C719a Abreu, Caio Fernando

Teatro Completo / Abreu, Caio Fernando

Porto Alegre : Sulina / IEL — Instituto

Estadual do Livro, 1997.

224 p. : ±1.

ISBN 85 205 0132—x

CDU 070

Índices alfabéticos para catálogo sistemático

1. Teatro completo. Título

Todosos direitos desta edição reservados a,,,

ORGANIZAÇAO SULINA DE REPRESENTAÇOES S. A.

Editora Sulina

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Fone: (051) 228-1249 Fax: (051) 228-0734

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Porto Alegre — RS

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

ÍNDICE


PREFÁCIO .7

PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA 11

A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS 41

ZONA CONTAMINADA 61

O HOMEM E A MANCHA 95

CENAS AVULSAS 129

DIÁLOGO 1 131

DIÁLOGO 2 133

DIÁLOGO 3 133

DIÁLOGO 4(0 Aborto) 134

DIÁLOGO 5 135

SARAUDAS9ÀS11 137

1° QUADRO (Overture) 139

2° QUADRO (Como Era Verde o Meu Vale) 142

3° QUADRO (Bonecos Chineses) 144

4° QUADRO (Eles) 151

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO 153

REUNIÃO DE FAMÍLIA 181



PREFÁCIO

Caio Fernando Abreu é reconhecido como um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea. Poucos sabem, porém, que a ficção que escreveu não foi apenas narrativa, épica: contos, novelas e romances. Caio também cultivou a literatura dramática. Não me refiro aqui às várias adaptações feitas para a cena a partir de suas histórias, mas sim às peças de teatro, as que ele compôs diretamente para o palco, o palco que ele tanto amava. O significado e a repercussão da parte conhecida de sua obra eclipsou essa segunda vertente, menor, mas não menos importante.

Caio sempre adorou teatro, via tudo, conhecia todo mundo da classe teatral. No entanto, foi mais do que um espectador aficionado: tornou-se um homem de teatro.

Não de imediato, porém. Nos fins da década de 60 era apenas o amigo querido da nova geração de atores e diretores de Porto Alegre, a sua geração, que se iniciava — assim como ele na literatura — na descoberta apaixonada de uma forma de expressão. Caio era dos que estavam sempre junto, nas salas de ensaio, nas salas de espetáculo, nas mesas de bar onde o assunto era teatro, teatro, teatro. Naquela época, cursávamos o CAD, o Curso de Arte Dramática da Faculdade de Filosofia da UFRGS. Não demorou muito e Caio tornou-se nosso colega. Não concluiria o curso, assim como também não concluiu o curso de Letras. Avesso à rigidez de programas, prazos e currículos, preferia passar pelas coisas como num vôo, num mergulho sem método, mas nem por isso menos alto e profundo. Lembro-me dele numa peça infantil da escola, fazendo o papel de um vovó com uma barba branca de algodão...

Aliás, é interessante a significação que teve o teatro infantil para este solteirão empedernido que detestava crianças (a quem costumava chamar de “crionças”, principalmente quando sua algazarra atrapalhava seus preciosos momentos de criação). Ele excursionou vários meses pelo Rio Grande do Sul atuando na montagem do Serafim-fim-fim de Carlos Meceni, junto de Suzana Saldanha, Nara Keiserman e José de Abreu. A peça era uma recriação do Chapeuzinho Vermelho, e Caio fazia justamente o papel do... autor da história recontada. Algum tempo depois, ele foi autor de verdade de um texto para “crionças”, A Comunidade do Arco-Iris, estreada em Porto Alegre sob a direção de Suzana Saldanha.

Como vêem, embora bissexto, Caio foi autor, conheceu o palco por dentro. E bom ator. A última vez que comprovei esse fato foi quando da leitura que ele fez de sua peça recém-concluída: O Homem e a Mancha, na casa do ator Carlos Moreno, para quem a escrevera de encomenda. Essa leitura ficou-me na memória como uma, uma deliciosa e tocante performance de comicidade e lirismo. Performance que, fiquei sabendo, repetiu publicamente em duas ocasiões, e com enorme sucesso, quando, já doente, voltara a morar em Porto Alegre.

Caio e eu pisamos juntos o mesmo palco em 1976, no espetáculo Sarau das 9 às 11, realização do Grupo de Teatro Província, dirigida por mim. Então fomos parceiros não só “nas tábuas”, como também “de pena”. O Sarau era uma peça de esquetes, e nós os escrevemos a quatro mãos. O último deles, A Maldição do Vale Negro, foi retomado e ampliado dez anos depois para ser montado como um espetáculo completo. Essa recriação, uma encomenda do Teatro Vivo de Irene Brietzke, foi feita novamente em colaboração, durante os feriados de carnaval, no apartamento de Caio na Haddock Lobo em São Paulo. Foram quatro dias de gargalhadas, latinhas de cerveja e pizzas por telefone. E muito café e os milhares de cigarros que ele fumava...

Fabricar uma obra de arte a dois é em princípio algo dificílimo. Mas não para nós. Tinha sido fácil nos esquetes do Sarau e continuou sendo na segunda versão da Maldição. Via de regra, redigíamos juntos: a frase que um inventava puxava a frase do outro. Mas podia acontecer também de um escrever uma cena e do outro retocá-la. Interferíamos reciprocamente em nossas invenções sem nenhum constrangimento. Que sintonia era essa? Era como brincar juntos. Graças à montagem carioca de A Maldição do Vale Negro, dividimos o Prêmio Moliére de melhor autor de 1988.

Uma outra vez em que brincamos de teatro foi quando precisei de textos para um novo espetáculo de esquetes: deColagem, 1977. Caio produziu cinco diálogos curtos. O primeiro deles, o Diálogo do Companheiro, uma pequena obra-prima, eu refiz repetidas vezes e de variadas formas em outros espetáculoscolagem. Tamanha a minha “obsessão” por esse texto, que ele o dedicou a mim na abertura de seu livro de contos Morangos Mofados. Uma outra dessas cenas avulsas, O Aborto, acabou fundindo-se à peça de minha autoria, Love, Love, Love, montagem de 81. “Fundiu-se” é a palavra, não fôssemos nós dramaturgos siameses. Todos esses diálogos de uma página ou menos, serviram-me também de excelente material de exercício em minhas aulas de teatro.

A primeira investida independente de Caio na dramaturgia foi com Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Não saberia precisar a data em que foi escrita. Seguramente logo após os anos que ele viveu em Londres, nos inícios dos 70, experiência que aparece transfigurada na peça. Só sei que a obra foi premiada num concurso do então SNT (Serviço Nacional de Teatro) e selecionada para leituras públicas em todo o Brasil. A de Porto Alegre, no Teatro de Arena, foi dirigida por mim e musicada pelo também saudoso Carlinhos Hartlieb. Pouco tempo depois, a Censura Federal a interditou em todo o território nacional.

As obras teatrais de Caio Abreu s quais o meu nome não esteve de nenhuma forma associado (fora o caso de seus contos e novelas teatralizados) são a já citada Comunidade do Arco-Iris, Zona Contaminada, montada pela primeira vez no Rio de Janeiro por Gilberto Gavronski, e a admirável adaptação para a cena, que ele fez do romance Reunião de Família, de Lya Luft, que Luciano Alabarse teve o privilégio de encenar em Porto Alegre. Esse trabalho é a melhor comprovação de que Caio foi dramaturgo de fato e não um narrador por diletantismo pondo em diálogo suas histórias. Ele sabia e dominava a diferença de gêneros. Na operação por que passou em suas mãos o livro de Lya Luft, o épico vira dramático, o contar vira representar, a narrativa vira cena.

Curiosamente, não assisti nenhuma dessas montagens. Por impedimentos normais, coisas da vida. Minha analista com certeza detectará algum ciúme meu vendo Caio fazer teatro com “outros”. Afinal, na maior parte da sua produção teatral eu estive presente. Não há motivo para ciúmes, mesmo inconfessados. A parceria interrompida por um tempo já foi retomada. Sua última peça, O Homem e a Mancha, o Garoto Bombril não quis realizá-la, e ela terminou nas minhas mãos e nas do ator Marcos Breda, outro amigo seu do coração. Quando a recebemos de um Caio já debilitado, ele nos disse: “Façam logo para dar tempo de eu assistir”.

Não faz um ano que Caio nos deixou. No momento em que ponho ponto final neste prefácio, estamos a uma semana da estréia de O Homem e a Mancha.

Será no Theatro São Pedro. Certamente ele não vai perder.



Porto Alegre, 14 de novembro de 1996.

Luiz Arthur Nunes

PODE SER QUE SEJA

SÓ O LEITEIRO LÁ FORA

Peça em 1 Ato

Prêmio Serviço Nacional do Teatro

Texto selecionado para leitura



PERSONAGENS

JOÃO • LEO • BABY • MONA (CARLINHA BAIXO-ASTRAL)

• ROSINHA • ALICE COOPER • ANGEL

São todos muito jovens. Entre 20/30 anos.



CENÁRIO

Sala de uma casa abandonada. Na verdade, parece mais um quarto de despejo, atulhado de objetos fora de uso: colchões furados, guarda-roupas, espelhos quebrados, cadeiras rasgadas, lixo, enfim, e até mesmo objetos absurdos que ficam ao gosto do diretor.



CENA 1

Quando a ação começa, a cena está completamente às escuras. A luz de uma lanterna vai revelando alguns objetos. Tão lentamente que chegue a ficar monótono e angustiante. A lanterna pertence a João.

LEO — João, onde é que você está?

JOÃO — Aqui, vem cá. Tem uma porrada de coisas. (Esbarra num móvel.) Merda!

LEO — Que foi, cara? Que barulho é esse? Tem alguém aí?

JOÃO — Não. Só uma porra no meio do caminho.

BABY - Tinha uma porra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma porra... Yeah! Everybody now: tinha uma porra no meio do caminho...

LEO — Fala baixo, cara. Pode ter gente aí.

JOÃO — Melhor, se tiver alguém morando a gente fica logo sabendo. Ei, tem alguém aí?

BABY - Anybody here?

LEO (Baixo.) — Mania de falar inglês...

BABY - Língua internacional, meu santo. Quando você está no mundo, falando inglês as possibilidades de comunicação são muito maiores.

JOÃO — Cala boca, Baby!

BABY — Do fundo das trevas só o silêncio nos responde, irmãos. Acho que podemos instalar aqui os nossos domínios. (Tira uma vela do bolso. Acende e deposita em cima de um móvel. A luz aumenta.) Aqui, por exemplo, podemos colocar uma cortina de veludo cor de vinho. Com franjas douradas, é claro, igual àquela que tinha na casa da tia Nenê. Aqui no canto acho que ficará de extremo bom-gosto um aparador com tampo de mármore, igual àquele que tinha na casa da vó Manca. E claro que teremos sempre flores. Rosas. Não, rosas não, muito vulgar. Melhor tulipas. Importadas diretamente dos Países Baixos. Tulipas da Antuérpia. Ou papoulas. Assim poderemos fabricar nosso próprio ópio. Hmmmm, I like so much. What you think about, my fellow?

LEO - Você acha que não vai ter problema?

BABY — O que? Importar tulipas ou plantar papoulas?

LEO — Não, cara. A gente ficar aqui. Sei lá, polícia, vizinho, o dono da casa, essas coisas.

JOÃO (Acende outra vela e deposita sobre outro móvel.) — Olha, eu acho que gente pode ficar pelo menos até amanhecer. Qualquer jeito não temos mesmo para onde ir.

LEO — E ainda por cima tem aquela chuva lá fora...

BABY — Eu por mim fico aqui mesmo. Depois, de manhã sempre acontece alguma coisa. As dez pras sete.

LEO — Por que dez pras sete e não vinte pras oito?

BABY — Porque eu gosto. Acho sonoro. Estético. As coisas mais importantes da minha vida sempre aconteceram às dez pras sete. Sempre acontece alguma coisa.

JOÃO - E também pode não acontecer nada. Já viu lá em cima? Tem três quartos, banheiro, cozinha com fogão, um monte de coisas. Por mim fico morando aqui o resto da vida. Até nem tá muito estragado. A gente pode dar um jeito.

BABY — Basta chamar Mona e sua varinha de condão.

João — Falar nisso, tenho que chamar as outras pessoas. Fico preocupado com a Rosinha naquela chuva. Que é que vocês acham?

LEO - Eu não sei... E se tiver alguém morando?

BABY — Ué, a gente chamou e ninguém se manifestou.

LEO — Mas pode ser que... sei lá, as pessoas tenham saído... Pode ser que voltam daqui a pouco.

JOÃO — Deixa de ser besta, Leo. Você acha que alguém pode viver no meio deste lixo todo?

BABY — Ué, e nós não vamos viver?

JOÃO — Sim, mas é diferente. Amanhã a gente arruma umas vassouras e, sei lá, dá um jeito. Fica com medo não, Leo. Não vai acontecer nada. No máximo, amanhã pinta a polícia e manda a gente embora.

Leo concorda em silêncio, tira uma vela do bolso, acende, coloca ao lado das outras duas e senta num canto, um pouco assustado.

JOÃO - Bem, eu vou lá fora chamar os outros. Não tenha medo, volto já... Afinal, parece que tudo vai terminar bem, não é? Tudo está bem quando termina bem, não é assim? Pelo menos a gente já tem onde dormir esta noite. (Sai.)



CENA 2

Silêncio. Leo rói as unhas e olha em volta lentamente. Baby começa a dedilhar o violão.

LEO — Não sei, não. Não gosto nada disso. Tudo tão velho, tão rebentado, tão sujo. Parece um depósito de lixo. Sabe, eu me sinto como se tivesse acabado. Parece que nada mais vai ser bonito outra vez.

BABY — Olha, cara se você der uma voltinha na cidade ou olhar pela janela vai ver que o depósito de lixo lá de fora é muito maior! Quando a gente está se sentindo assim é só olhar em volta - dar o tal de look-around -, aí você vai ver que não está tão mal assim. A gente dá o tal look-around e canta. Assim, quer ver? Eu quero mesmo muito pouco eu quase não quero nada de tão pouco que eu quero. Talvez eu seja muito louco mas basta um canto e um teto - mesmo furado. Um canto e um papo furado, também. Não tem importância. Ninguém entende nada de nada e enquanto tudo cai eu canto por quase nada. Um vintém, um tostão faz de conta, um pobre cego mas com o olho bem aberto: uma canoa furada um barco sem fundo tudo é mundo e o céu é perto tudo é mundo e eu navego tudo é mundo e eu navego tudo é mundo, vasto mundo e eu nem me chamo Raimundo.

LEO - Que música mais doida, Baby. De onde foi que você tirou esse negócio?

BABY — Da minha cuca, ué. Acabei de compor. Ladies and gentlemen, my last song: Se Eu Me Chamasse Raimundo. Ei, como é que se diz isso em inglês?

LEO - Eu não entendo nada de inglês.

BABY — Pois devia. Sem saber inglês você nunca vai subir na vida. Deixe ver... If I Called Myself Raimundo... Thing like that... RRRaimundo... Que sarro esta pronúncia...

LEO — Me diz uma coisa: você acredita nisso? Você tem certeza absoluta que acredita mesmo nisso?

BABY - Nisso o quê?

LEO — Nisso que você acaba de cantar. Sei lá, quero dizer... você acha que basta mesmo um papo furado, um teto furado?

BABY — Olha, meu santo, certeza eu não tenho mesmo de nada. Nem sequer de que estou realmente vivo. Eu sei de agora, me entende? Agora basta um teto, é melhor do que ficar naquela chuva, fria lá de fora. Amanhã não sei. Pode ser que... Olha, quer saber duma coisa? E melhor não aprofundar muito, não. Quando a gente aprofunda demais acaba caindo sabe onde? No inconsciente coletivo...

LEO - O quê?

BABY — In-cons-ci-en-te co-le-ti-vo. Vê, vê, vê. Já ouviu falar num cara chamado Jung? Mais ou menos isso. Os arquétipos, sacou? Papo furado. Não tá com nada. Não aprofunda não. Me dá um cigarro.

CENA 3

Entra Mona. Traz uma bolsa enorme, uma vela acesa e duas varinhas de incenso na mão.

MONA — Hare krishna, Hare krishna / Krishna Krishna, Hare Rama / Hare Rama, Hare Rama / Rama Rama, Hare Rama, / Forças do Baixo-Astral / fora daqui. / Chegou Mona, inimiga do mal. / Chegou Mona, Rainha do Alto-Astral. / Más vibrações, go home! / Más vibrações, go home! (Incensa um pouco a sala, depois entrega uma varinha para cada um, distribuindo beijinhos.) Pra espantar os maus fluídos. Nossa, Leo, você está com uma cara péssima! O que foi agora? Não está gostando do nosso novo lar?

BABY — Não é nada, não. O tal de inconsciente coletivo...

MONA — Corta! Lá vem você de novo com esse papo xaropento. Já não falei pra você que intelectualismo não é comigo, Baby? Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir, meu irmão, só sentir. Pensar já era. Pensar acabou, não se usa mais. Desde que parei de ler fiquei muito menos neurótica...

BABY — Imagine como você não era antes.

MONA — Sabe com eu era antes? Um monstrinho de óculos cheio de problemas gênero “será que vale a pena viver? — ninguém me ama, ninguém me quer — o que vou fazer do meu futuro?” essas porcarias. Agora chega. Sou Mona, a Rainha do Alto-Astral, não quero nem saber. (Depositando a vela ao lado das outras.) Mas deixa eu dar uma olhada no nosso novo lar. (Dá umas voltas enquanto Baby dedilha no violão. Ninguém me ama ou qualquer coisa do gênero.) Não tá mau, não. Já vi coisa pior.

LEO — Onde? Na lata de lixo?

MONA - Quer dizer então que a sua bed-trip continua a mesma? Puxa, você sempre acha tudo um lixo. Corta essa. Olha, sabe duma coisa que eu aprendi? O segredo do belo está aqui, oh. Na sua cuca, no seu olho que realmente vê, dentro de você. Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico, tudo fica mais bonito.

LEO — Mágico? Nem que eu fosse o Merlin conseguiria achar bonita essa merda toda.

MONA — Corta, corta, corta! (Acende mais uma varinha de incenso.) Três, para fechar o triangulo. Ah, Baby, me diz uma coisa: você olhou o número da casa?

LEO — Eu olhei. É cinqüenta e oito. Mas o que tem isso?

MONA — Como o que tem isso? Esotericamente é um dado importantíssimo. O número sempre diz como vai ser toda a transação da coisa... Cinqüenta e oito? Cinqüenta e oito... deixa ver... Cinco mais oito, quanto dá?

BABY — Dá treze. E se você está querendo saber qual é a carta do Tarot que tem o número treze, eu sei, é a morte.

LEO - Ei, que papo é esse?

MONA — É. Treze é morte mesmo. Mas Morte pode ter muitos sentidos. Não necessariamente morte física ou espiritual mas, sei lá, renovação, renascimento, fim de um ciclo, começo de outro, transmutação. Além disso, tem também o cinqüenta e oito. Deve ter um significado positivo. Deixa ver (Abre a bolsa e tira um livro enorme, consulta-o.) Ah, meu Deus, melhor esquecer essas coisas...

BABY - O que foi?

MONA (Tentando disfarçar.) — Nada não. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah, a transmutação. Pois é, a trans...

BABY — Qual é Mona? Escondendo a jogada? (Tomando-lhe o livro.) Aqui. Cinqüenta e oito, quatro de espadas: “Perigo eminente. Perigo por todas as partes. Remorsos. Arrependimentos estéreis e acerbos”. O que é acerbos?

MONA — Não sei, mas deve ser qualquer coisa bodiante.

BABY (Continua lendo.) — “Sofrimentos morais. Ações repreensíveis. Decepções n& projetos. Mudanças desfav...”

MONA — Chega. Não vale a pena ficar se grilando à toa.

BABY — Ué, você é que acredita nisso.

MONA — Acredito, sim. Mas até onde não me enche a cuca de grilos idiotas. E por falar nisso, qual é o seu signo? Não, não diga. Pode deixar que eu adivinho.

(Observa Baby atentamente.) Essa transação de música pode ser... pode ser Libra... mas não sei não... Você é sarcástico demais para ser Libra. Claro, não tanto quanto um Escorpião. Talvez Gêmeos, não você não é tão inteligente assim... O seu olho tem qualquer coisa de... esse fogo... de Sagitário.

BABY — Libra, Escorpião, Gêmeos ou Sagitário?

MONA - Ah, quer dizer que é um dos quatro, é? Deixa ver.., muito irônico para Libra, muito doce para Escorpião, muito calmo para Gêmeos. E essa transação do inconsciente coletivo.., deve ser Sagitário, o centauro com os pés na terra. Querendo voar junto ao o satã. Só pode ser Sagitário.

BABY - Tem certeza?

MONA — Não, não, ainda não. Afinal, minha reputação está em jogo. Tenho direito a uma pergunta?

BABY - Vai firme.

MONA — Você gosta de vermelho?

BABY - A-do-ro!

MONA — Então é Sagitário mesmo!

BABY - Errou. Sou Leão.

MONA — O quê? Leão? Ah, não pode ser, é a primeira vez em toda a minha vida que erro. Mas você deve pelo menos ter um ascendente em Sagitário, você não tem?

BABY - Não. Meu ascendente é Touro.

MONA — Mas é fogo, claro. Foi por isso que eu me confundi um pouco. Tanto Leão como Sagitário são signos do fogo, sabia? Está na cara que você é fogo.

BABY — Pode ser. De vez em quando até solto umas fumacinhas pelo nariz.

MONA - O que é que você está rindo, baixo-astral? Tomem muito cuidado vocês dois, hein? Vocês precisam despertar o quanto antes o ser aquariano que dorme no fundo de vocês, os seus poderes ocultos. O quanto antes, meus irmãos, o quanto antes — eu sei o que digo. Daqui a pouco vem o fim dos tempos e quem não for mágico não vai escapar.

LEO - Mas escapar do quê, meu Deus?

MONA — Das inundações, terremotos, maremotos, fogo caindo dos céus — tudo de bodiento que você possa imaginar. Vão acontecer coisas medonhas a quem não estiver desperto, a quem não for mágico. Mas você não tem cara de mágico, não. Nem de fogo. Para dizer a verdade, com essa cara você deve ser mesmo é Peixes: um bode só.

LEO — Ei, como é que você sabe que eu sou Peixes?

BABY (E começando a empurrar alguns objetos.) — Chutando, meu irmão, chutando.

MONA (Incensando a cara de Baby.) — Vade-retro, Baixo-Astral, recolha-se s suas trevas sagitarianas. Sei porque sou um espírito muito velho. tive três encarnações no Tibet, duas no Egito e uma em Atlantida — para falar só neste planeta. Estou em contato direto com forças paranormais, já abri as sete portas, sete moradas da minha mente e a minha Kundalini já subiu no mínimo até o quinto chakra.

BABY — Passado, presente e futuro. Tudo com Madame Mona Yoiara, 3 sacerdotisa oriental, por apenas dez cruzeiros. Vinte com mais detalhes. Cada consulta dá direito a um brinde: uma bola de cristal inteiramente grátis. Papo furado. Onde é que estão as pessoas? Alice, João, Rosinha.

MONA — Baby, meu amor, parece que a tua vibração não está harmonizando com a minha. Você está a fim de me irritar. Vai ser difícil: tenho Vênus na décima primeira casa astral, em Libra. (Canta.) Ser eu sou, eu sou, eu sou eu sou amor da cabeça aos pés. Pode agredir, quando chegar o Apocalipse é que a gente vai ver...

BABY — Apocalipse... Apocalipse é esse lixo todo aqui. Por que é que você não corta esse papo furado e vem me dar uma força aqui?

(Leo e Mona começam a ajudar.)

MONA — A Rosinha não está nada bem. Eles foram comprar alguma coisa para comer.

LEO - O que é que tem a Rosinha?

MONA — Gravidez, não é, cara? Mulher é isso aí. Um bode. Acho que estou pagando todo o meu Karma nesta encarnação. Se caprichar nesta, na próxima vou para o espaço, desencarno de vez. Ou então venho homem.

BABY — Claro que você prefere a segunda hipótese...

MONA — Sem essa, Baby. Você sabe muito bem que eu sou andrógina. Mutante da Era de Aquário. (Arrumam alguns colchões como sofas. Mona remexe no meio de algumas coisas e encontra um vaso com flores.) Olhem só que bom presságio: flores!

LEO - De plástico.

MONA — No escuro ninguém nota. (Ajeita o vaso num canto.) Você acha que aqui fica bem?

LEO — Silêncio! Vocês também ouviram? Tem alguém lá fora.

MONA — Ai, meus guias do Oriente. Será que é fantasma? Essa casa é tão velha, deve estar cheia de más vibrações.

LEO — É a polícia, tenho certeza que é a polícia!

BABY — Historinha, historinha, tudo historinha. Inconsciente coletivo outra vez. Devem ser só as pessoas chegando. João, é você?

JOÃO (0ff) - Sou eu. Me ajuda aqui. A Rosinha está passando mal.

(Baby sai para ajudar João. Mona corre a acender mais ama varinha de incenso.)

(Entra Rosinha, amparada por Baby e João. Ela geme sempre. )

MONA — Que é isso, menina? Está tudo bem agora. Não tem mais essa de se sentir mal. Pode desamarrar o bode. Olhe só em volta: já temos uma casa. Você não gosta?

ROSINHA — Ah, não sei, não consigo nem olhar para fora de mim, Mona. Sinto uma dor horrível aqui. Mas não tem nada. Já vai passar. Aqui está bom, quentinho. Lá fora estava chovendo, fazia frio. Daqui a pouco eu fico boa.

JOÃO — Alice foi batalhar pão, também. Como é, não apareceu ninguém?

LEO - Ainda não.

BABY — Não apareceu nem vai aparecer. Nós até tentamos arrumar um pouco isso aqui.

JOÃO — Ficou bonito. Já está quase parecendo uma casa.

MONA — Está maravilhoso. Tem até flores.

LEO — De plástico.

MONA — Baixo-astral. Tenho certeza que vou encontrar coisas ainda mais maravilhosas.

LEO - Você demorou tanto.

JOÃO - Foi a Rosinha. Eu...

ROSINHA — João, fica aqui comigo. Me dá tua mão...

MONA — Ei, vejam só o que eu achei: um monte de roupas. Puxa, parece que tem coisas incríveis. (Vai retirando coisas de dentro de um baú). Baby, me ajuda a cobrir esses colchões. Vamos transformar isso aqui num castelo. (Começam a cobrir tudo com panos.) Olha, pessoal, tive uma idéia maravilhosa. Já que a gente vai ficar aqui a noite toda e ninguém vai dormir, claro, podemos fazer uma coisa ótimo uma festa à fantasia! O que é que vocês acham? (Ninguém parece muito entusiasmado - exceto Baby.) Meu Deus, qual é a de vocês, hein? Vão ficar a noite toda com essas caras de velório, sem dizer nada? Eu me renego a curtir bode, tá sabendo? Me re-ne-go. Na minha bolsa tenho batom, purpurina, sombra... Vamos fazer uma festa enquanto o dia não chega? Já pensou, quando Alice chegar, encontrar todo mundo colorido, numa boa, oferecendo o maior visual.. Ela adora visual... Pode crer. Você, deixa ver... Pode ser loucura minha, mas sempre acho que você grávida assim parece a Virgem Maria.

ROSINHA — Ah, Mona, eu não tenho jeito pra essas coisas.

MONA (Começando a vestir Rosinha.) — Tem sim, senhora. Já pensou? O seu filho pode ser até o próprio Cristo da Era de Aquário? Você precisa corresponder à nobreza do seu futuro filho. Isso aqui é o seu manto virginal. Um pouco de ruge, você está muito pálida, menina. Batom... (Afasta-se para olhar. Rosinha tenta sorrir.) Levante um pouco a cabeça. Assim. Agora faça um ar de... de absoluta pureza... Olhe por cima de todo mundo, para bem longe. Você foi tocada por forças mágicas enquanto dormia. (Acende uma varinha de incenso e vai incensando Rosinha enquanto fala.) Um ser todo feito de luz entrou no seu corpo e plantou essa semente em seu ventre. Deste então você sabe que no seu interior está crescendo a única coisa capaz de salvar o mundo da loucura, das máquinas, do desamor, do medo, da sujeira, da violência, da hipocrisia. A cada dia você sente que chega mais perto o momento em que o seu ventre explodirá, jogando para fora toda essa luz, todo esse amor. Então nós todos estaremos salvos. (Coloca um cesto de palha aos pés de Rosinha.) Pronto: aqui está a manjedoura. Agora você. João, o que é que você quer ser?

JOÃO — Ser? Eu... eu não sei...

MONA — Pois eu sei. Um pirata. Sabe que é assim que eu vejo você? às vezes até penso que você deve mesmo ter sido um pirata numa outra encarnação. Uma pirata bom. (Começa a vesti-lo.) Você assaltava navios armados até os dentes, incendiava, matava aqueles fidalgos gordos cobertos de seda, violava todas as mulheres, roubava todo o ouro e depois - sabe o que você fazia, João? Você distribuía todo o ouro roubado entre os pretos de uma aldeia na costa de Madagascar. Eles adoravam você, uma vez o feiticeiro da tribo fez uma tatuagem no seu peito, o ritual durou sete luas novas. (Vai desenhando com batom no peito de João.) Um círculo mágico fechou todo o seu corpo, menos esse círculo. Você só poderia ser morto no dia em que esse pedacinho do seu peito fosse atingido. E assim ainda não aconteceu, você ainda está vivo, você atravessou os séculos e continua sendo aquele mesmo pirata, um pirata um pouco perdido no meio das cidades, sempre com vontade de voltar para o mar.

BABY - Eu quero ser um príncipe.

MONA — Você é um príncipe. Mas um príncipe solitário. (Começa a vesti-lo.) Você vive num castelo sobre a montanha mais alta e mais escarpada. Alguém lhe prometeu um reino certa vez, um reino de paz e amor, e você está esperando esse reino. As vezes você desce a montanha e vai até a vila e tenta conversar com as pessoas. Você anda sempre disfarçado, elas não sabem que você é um príncipe. Mas você se sente sozinho no meio deles, porque você não pode se mostrar como realmente é. Então você tem sempre a sensação que ninguém o conhece, que ninguém o entende. Você está sempre esperando o reino que prometeram, esse, de paz e amor. Só nesse dia, quando o encantamento quebrar e o seu reino for revelado, só nesse dia todos vão saber que você sempre foi um príncipe. Só nesse dia você mostrará o seu verdadeiro rosto dourado e tocará seu alaúde para que todos fiquem contentes e sintam amor. E você...

LEO - Eu sou Leo.

MONA — Eu sei. Leo, signo Peixes. Do que é que você quer se fantasiar?

LEO — Eu não quero me fantasiar.

ROSINHA — Mas por quê, Leo? Mona inventa estórias tão bonitas...

LEO — Mona inventa estórias. Eu não quero ouvir estórias. Eu sou Leo, isso é tudo.

João não é um pirata, Baby não é um príncipe, Rosinha não é a Virgem Maria.

MONA — Faz de conta...

LEO — Eu já não tenho mais idade para fazer de conta. Eu não quero fingir. Eu não posso fingir que isso aqui é um castelo, que nós somos mágicos e encantados. Isso aqui é uma casa abandonada, cheia de lixo, não é um castelo: nós somos uns coitados mortos de fome, meio loucos e sem ter sequer onde dormir, não somos mágicos nem encantados.

MONA - Você não é. E vou lhe dizer porque. Porque você não consegue ver além do chão, porque você acha que as coisas só tem um lado, esse que o seu olho sujo vê. Você é exatamente igual a esses cinzentos todos que estão lá fora. A gente só consegue ver o que está dentro da gente. E você só consegue ver o sujo, o feio e o doente das coisas. Tudo isso está dentro de você, na sua mente, na sua cuca. Aqui. A sua cuca é que é feia, suja e doente. Nada é horrível, nada é maravilhoso. O seu olho daqui é que transforma tudo. O seu jeito de olhar. O que acontece é que você ainda não aprendeu a olhar.

LEO — Eu não consigo. Olho em volta e acho tudo nojento. O que é que você quer que eu faça?

MONA (Mansa.) — Tente. Sei lá, tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto, uma árvore, um pássaro, um rio, uma nuvem. Pelo menos sorria, procure sentir amor. Imagine. Invente. Sonhe. Voe. Se a realidade te alimenta com merda, meu irmão, a mente pode te alimentar com flores. Eu não estou fazendo nada de errado. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas. Você acha que isso é mau?

LEO - Mas eu não posso fingir que não estou com fome. Eu não posso fingir que este lugar é bonito. Eu não posso fingir que viver é uma coisa boa. Olhe pra mim: faz mais de uma semana que não tomo banho nem faço a barba. Faz quinze dias que uso mesmas meias. Elas já estão pegajosas, grudadas nos meus pés. Não suporto mais o meu próprio cheiro. Não suporto mais não ter banheiro, não ter casa, não ter nada. Olhe a minha boca: um lixo. Eu não posso sorrir mais. Faz dois meses que quebrei um dente e não tenho dinheiro para ir ao dentista. Olhe bem pra mim e me diga: você acha que alguém seria capaz de me amar com esta roupa imunda, com esta boca podre? Você... você mesma que fala de espírito, paz, amor e o caralho: você seria capaz de esquecer toda a sujeira do meu corpo e me dar um beijo?

Silêncio. Mona hesita um pouco, depois, beija-o.

LEO — É mentira! Você me beija porque os outros estão olhando, porque você acha que isso é bonito, porque ficaria muito feio para você não me beijar agora. Paz e amor... paz e amor não são coisa nenhuma quando o que cerca você é lixo. Eu não acredito em você. Eu estou cansado desse seu esoterismo de bolso, dessas suas normas de bem viver à la Seleções do Reader’s Digest... (Irônico.) Se você vem e me diz: agora nós vamos viver juntos e ser felizes para sempre. Vamos ter girassóis no terraço, passarinhos na varanda, almofadas macias, vinhos e queijos todas as noites. Eu vou te amar muito, você vai me amar muito. Tudo bem, meu anjo. Mas eu pergunto: e quem é que vai lavar os pratos, quem vai varrer o chão, quem vai limpar a privada? Quem vai batalhar a maldita grana? Ou vamos estar tão ocupados em nos amar profundamente que não teremos de pensar nessas coisas? Não, não diga nada. Eu já sei: é baixo-astral pensar nessas coisas, não é? Pois para mim baixo-astral é o banheiro imundo, baixo-astral é o lixo, a pobreza, a fome. Amor para mim inclui lençóis limpos, banho tomado e barriga cheia. E isso eu não tenho. Nenhum de nós tem. Para mim, o mundo é uma grande lata de lixo e nós somos apenas as moscas esvoaçando sobre essa merda toda.




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