Terciário em pernambuco: os serviços de assessoria, consultoria e planejamento



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GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO

SECRETARIA DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE

FUNDAÇÃO DE AMPARO À CIÊNCIA E TECNOLOGIA - FACEPE

TERCIÁRIO EM PERNAMBUCO: OS SERVIÇOS DE ASSESSORIA, CONSULTORIA E PLANEJAMENTO

COORDENADOR
Leonardo Guimarães Neto

EQUIPE TÉCNICA

Andréa Loureiro Santiago

Antonio Alfredo Oliveira Lima de Menezes Júnior

Caio José Moliterno Duarte

Gustavo José do Nascimento Guimarães

João Crisóstomo Grillo Salles

Osangela Oliveira Silva de Sena

Osmil Torres Galindo Filho

Pedro Rafael Lapa

Paulo Ferraz Guimarães

Valdeci Monteiro dos Santos

Vicenta Garcia Roig




RECIFE - 2003



TERCIÁRIO EM PERNAMBUCO: OS SERVIÇOS DE ASSESSORIA, CONSULTORIA E PLANEJAMENTO
APRESENTAÇÃO
1. INTRODUÇÃO

PARTE I - O TERCIÁRIO EM PERNAMBUCO


  1. O TERCIÁRIO: CONCEITO, ESTRUTURA E CLASSIFICAÇÕES

    1. O Conceito do Terciário

    2. A Evolução do Terciário

      1. A primeira abordagem

      2. A segunda abordagem

    3. A Estrutura dos Serviços: as Classificações mais Relevantes

    4. Considerações Adicionais




  1. IMPORTÂNCIA DO TERCIÁRIO EM PERNAMBUCO

  1. Dimensão Econômica do Terciário: a Participação no Produto

  2. Dimensão Social do Terciário: a Participação no Emprego

  3. Os Principais Pólos dos Serviços em Pernambuco



PARTE II - CARACTERIZAÇÃO GERAL DOS SERVIÇOS DE ASSESSORIA,CONSULTORIA E PLANEJAMENTO




  1. VISÃO GERAL DOS SERVIÇOS DE ASSESSORIA, CONSULTORIA E PLANEJAMENTO

4.1 A Cadeia Produtiva e o seu Núcleo

4.2 Estrutura e Evolução do Núcleo da Cadeia Produtiva

4.2.1 Tamanho dos Estabelecimentos

4.2.2 As Atividades do Núcleo

4.2.3 Distribuição Geográfica

4.2.4 A Natureza Jurídica dos Estabelecimentos

4.2.5 A Qualificação das Pessoas Ocupadas

4.2.6 Considerações Adicionais


PARTE III – O PERFIL DE CADA ATIVIDADE DOS SERVIÇOS DE CONSULTORIA E PLANEJAMENTO


  1. SERVIÇOS JURÍDICOS

    1. Aspectos Gerais

    2. O Perfil do Cliente e do Mercado

    3. Cenários, Estratégias e Projetos Relevantes

    4. Recursos Humanos

    5. Concorrência e Parceria

    6. Articulações e Tendências

    7. Tecnologia e Gestão

    8. Propostas


6. SERVIÇOS DE CONTABILIDADE, AUDITORIA E ASSESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL

6.1 Aspectos Gerais



      1. Segmento de Contabilidade e Auditoria

      2. Segmento de Assessoria em Gestão Empresarial

6.2 Perfil do Cliente e do Mercado

6.3 Cenários, Estratégias e Projetos Relevantes

6.4 Recursos Humanos

6.5 Concorrência e Parceria

6.6 Articulações e Tendências

6.7 Tecnologia e Gestão

6.8 Propostas

7. PESQUISAS DE MERCADO E DE OPINIÃO PÚBLICA


    1. Aspectos Gerais

    2. Perfil do Cliente e do Mercado

    3. Cenários, Estratégias e Projetos Relevantes

    4. Recursos Humanos

    5. Concorrência e Parceria

    6. Articulações e Tendências

    7. Tecnologia e Gestão

    8. Propostas


8. SERVIÇOS DE ARQUITETURA, ENGENHARIA E ASSESSORAMENTO TÉCNICO ESPECIALIZADO

8.1 Aspectos Gerais

8.2 Perfil do Cliente e do Mercado

8.3 Cenários, Estratégias e Projetos Relevantes

8.4 Recursos Humanos

8.5 Concorrência e Parceria

8.6 Articulações e Tendências

8.7 Tecnologia e Gestão

8.8 Propostas

9. SERVIÇOS DE PUBLICIDADE


    1. Aspectos Gerais

    2. Perfil do Cliente e do Mercado

    3. Cenários, Estratégias e Projetos Relevantes

    4. Recursos Humanos

    5. Concorrência e Parceria

    6. Articulações e Tendências

    7. Tecnologia e Gestão

    8. Propostas



PARTE IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

APRESENTAÇÃO

O presente trabalho contou com o apoio da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia (FACEPE), da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, do Governo do Estado de Pernambuco. Vale destacar que sem o apoio e o estímulo dessas instituições este trabalho não poderia ter chegado a bom termo.


Embora se trate de um estudo independente, este documento representa o complemento de outro trabalho, realizado pela mesma equipe, que também contou com o apoio da FACEPE, intitulado “O Setor Terciário de Pernambuco: um Estudo Exploratório”. No referido estudo, o que se tentou foi apresentar uma visão ampla do conjunto de atividades constituído pelos serviços e pelo comércio (atacadista e varejista), com destaque para determinados pólos e complexos de atividades baseados em alguns serviços. Nesse caso foram considerados os serviços de saúde, o denominado varejo moderno, os serviços de turismo, o pólo de educação privada, os serviços de informática, os serviços logísticos e os de comunicação e marketing.
No caso do estudo em questão, há uma abrangência menor, uma vez que os levantamentos se concentraram nos chamados serviços de assessoria, consultoria e planejamento. Como será detalhado posteriormente, estão compreendidos nessa categoria (i) os serviços de atividades jurídicas, (ii) os de contabilidade e auditoria, (iii) os de pesquisa de mercado e de opinião pública, (iv) os de assessoria em gestão empresarial, (v) os serviços de arquitetura, engenharia e de assessoramento técnico especializado e (vi) os serviços de publicidade.
Tanto o presente estudo quanto anterior, realizados com apoio da FACEPE, têm como objetivo o conhecimento de atividades que, embora expliquem aspectos relevantes da economia de Pernambuco e sejam responsáveis por parte, também significativa, do emprego gerado, não têm sido devidamente consideradas nas políticas e nas discussões referentes ao desenvolvimento do Estado. Neste particular, não resta dúvida, que a FACEPE está prestando uma colaboração relevante ao Estado, ao apoiar estudos sobre o setor terciário.


  1. INTRODUÇÃO

Este estudo sobre o terciário que reúne as atividades de assessoria, consultoria e planejamento, realizado para a FACEPE, abrange várias atividades de serviços, geralmente realizadas no âmbito do setor privado. Tem como finalidade estudar o perfil e a dinâmica de cada um dos segmentos considerados mais relevantes, notadamente os serviços jurídicos, os de contabilidade e auditoria, de pesquisa de mercado e de opinião, de assessoria em gestão empresarial, os de arquitetura e engenharia e os serviços de publicidade.


O que se pretende, além do conhecimento do referido segmento, é o exame da necessidade, para o seu pleno desenvolvimento, de ações governamentais, gerais ou específicas, de apoio a este conjunto de atividades, de modo a possibilitar ao Estado avançar na ampliação, melhoria e modernização dos referidos serviços e na geração de emprego em renda, por intermédio da sua expansão.
O presente relatório, que resume os aspectos fundamentais do estudo realizado, abrange quatro partes:

  1. uma primeira que trata do terciário em Pernambuco, notadamente da sua dimensão econômica e social (no que se refere ao emprego gerado) e de uma descrição sumária dos principais pólos dos serviços modernos no Estado; antes da apresentação desses aspectos, nesta parte é feita uma apresentação, também sumária de alguns dos conceitos básicos a respeito do terciário e de sua estrutura, em termos mais abstratos;

  2. uma segunda parte faz, com base nas informações secundárias disponíveis, uma caracterização do comportamento recente das atividades que compreendem o conjunto dos serviços de assessoria, consultoria e planejamento;

  3. a terceira parte do relatório, com base, desta vez, em informações de pesquisa direta, junto aos dirigentes de algumas instituições, traça o perfil das empresas pesquisadas em suas várias dimensões e coleta as propostas mais relevantes dos entrevistados a respeito das políticas e do apoio que consideram importantes;

  4. a quarta e última parte realiza uma síntese das questões mais relevantes anteriormente examinadas e resume, a partir das propostas apresentadas pelos entrevistados, os pontos considerados fundamentais para uma política governamental de apoio ao segmento.

Como se assinalou anteriormente, na realização desse estudo foram levantados dois grandes subconjuntos de informações. Um primeiro que consiste nos dados secundários disponíveis sobre as atividades de assessoria, consultoria e planejamento e que abrangem aspectos relacionados com nível de emprego e número de estabelecimentos que permitem estimativas do nível de atividade do segmento. O segundo subconjunto de informações está constituído pelos levantamentos realizados através de entrevistas semi-estruturadas com os principais dirigentes de empreendimentos de cada atividade considerados nos diversos segmentos de assessoria, consultoria e planejamento.

As referidas entrevistas abrangeram vários aspectos entre os quais merecem ser mencionados:


  1. o perfil do cliente e do mercado de cada atividade;

  2. os cenários futuros concebidos e as estratégias e projetos relevantes;

  3. os recursos humanos e sua avaliação a respeito;

  4. a concorrência à qual estão submetidos os empreendimentos e as parcerias que são concretizadas no desempenho das atividades;

  5. as articulações com atividades complementares e as tendências que vêm ocorrendo no desempenho recente;

  6. a questão tecnológica e a gestão da tecnologia adotada;

  7. as propostas mais relevantes na avaliação dos dirigentes.

Na parte final do estudo são apresentados, sob a forma de considerações finais, os pontos mais relevantes do estudo realizado.



PARTE I - O TERCIÁRIO EM PERNAMBUCO


A primeira parte do relatório, que segue à apresentação e à introdução, compreende dois capítulos. Um primeiro referente ao terciário em geral, que leva em conta os conceitos mais importantes concernentes ao referido setor e detalha aspectos que dizem respeito à sua estrutura. Além disso, no segundo capítulo, é considerado, descendo a um nível mais concreto de análise, o terciário em Pernambuco. Neste caso, são examinados aspectos vinculados à dimensão econômica deste setor no Estado, quando se considera, basicamente, a estimativa de produto interno da economia, bem como a dimensão e importância do terciário no que se refere ao emprego. Na parte final desse capítulo são descritos, de modo sumário, os principais pólos de serviços de Pernambuco.



2. O TERCIÁRIO: CONCEITO, ESTRUTURA E CLASSIFICAÇÕES
São a seguir apresentados três aspectos relacionados com questões mais abstratas do terciário. Um primeiro diz respeito (i) ao conceito geralmente adotado para definição do conjunto de atributos que compreendem os serviços e as atividades comerciais, de acordo com a literatura mais conhecida; (ii) em seguida, um segundo que se refere às explicações mais gerais sobre a dinâmica do terciário, notadamente aos determinantes que explicam o aumento gradativo do seu peso, no contexto das diferentes economias e, finalmente, (iii) são feitas referências aos aspectos geralmente considerados nas análises do terciário relativos à estrutura e às classificações das atividades que o compõem. Muitas das considerações aqui apresentadas já haviam sido abordadas na parte inicial do estudo realizado para a FACEPE1.
2.1. O Conceito do Terciário
Embora esteja disponível um conjunto articulado de conceitos e questões que ajudam a entender, no nível mais geral, a concepção e a evolução que tiveram, nos diferentes sistemas econômicos, as atividades agropecuárias e industriais, estão menos disponíveis, em relação ao terciário, tais conceitos, que somente mais recentemente começam a ser discutidos. Neste particular, há uma certa unanimidade no que se refere à concepção e aos traços mais gerais da evolução do setor agropecuário, o mesmo acontecendo com o setor industrial. Não obstante, no que se refere ao terciário, a sua complexidade e heterogeneidade, tem dificultado a formulação de elementos conceituais e de questões que ajudem a uma melhor compreensão desse conjunto de atividades, de sua dinâmica e de sua estrutura.
No que se refere à sua concepção, a forma mais tradicional de tratamento do terciário diz respeito à sua oposição relativamente aos demais setores produtivos já referidos: o agropecuário e o industrial. Neste caso, o que é enfatizado, em relação a estes últimos, é o fato de serem produtores de mercadorias ou de bens. Trata-se, portanto, de distinguir o terciário relativamente aos demais setores (agropecuário e industrial) assinalando-se que a prestação de serviços possui um caráter intangível e não estocável, contrariamente ao caráter tangível e material das mercadorias e bens, que são o resultado dos setores agropecuário e industrial. Vale aqui fazer referência à consideração de um autor quando assinala que o terciário tem sido do ponto de vista teórico tudo o que não cabe nos demais setores. Ou em suas próprias palavras: “... tudo o que não ganha caráter corpóreo da mercadoria é jogado no Terciário” (Oliveira, s/data, p. 141).
A respeito desse esforço de definição do terciário, François Ecalle, ao considerar, na sua definição dos serviços, alguns elementos anteriormente referidos (“... as atividades das quais o resultado é imaterial e, portanto, não estocável”) constata a sua insuficiência e complementa sua análise assinalando, de modo semelhante à citação anteriormente feita de Francisco de Oliveira, que o que em geral se faz, neste particular, é adotar uma definição negativa: “O terciário está constituído por um conjunto de segmentos que não estão considerados nem na agricultura, nem na extração de matérias primas, nem na construção, nem na indústria ... Uma tal definição em extensão das atividades dos serviços mostra bem que elas se referem a uma categoria heterogênea e que as análises globais que podem ser apresentadas deverão ser necessariamente mais ou menos redutoras” (Ecalle, 1989, p. 7 e 8)2.
Outros autores, a exemplo de estudo recente realizado no âmbito do IPEA e do Banco do Nordeste, ressaltam, além disso, o fato de que os serviços serem consumidos tal como são produzidos e resultantes de um processo no qual a produção e o consumo são coincidentes no tempo e no espaço. Em resumo, os serviços se caracterizariam pelo fato de serem intangíveis, intransferíveis, não estocáveis e exigirem um contato direto entre os produtores e os consumidores (Melo et alii, 1997 e 1997A).
Outro ponto tratado pelos estudiosos diz respeito a um questionamento sobre esta concepção dos serviços. Isto é feito considerando-se as dificuldades de enquadramento de serviços mais recentes como o vinculado ao tratamento de informações. Neste particular, há indagações a respeito do fato de se o processamento de informações se constitui ou não uma mercadoria ou um serviço (Oliveira, s/ data, 141). Outros autores levantam contestações a respeito da grande heterogeneidade dos serviços e de sua crescente complexidade nesta fase mais recente, com a revolução microeletrônica, que introduziu novos produtos e tem-se constituído a base para a reestruturação industrial. A respeito cabe a citação de Melo et alii: “O uso de novas tecnologias vem exigindo o aparecimento de novos serviços e fazendo de muitos deles insumos fundamentais para os demais setores econômicos, particularmente para a indústria. Este processo trouxe consigo novas exigências para a sociedade no campo da educação, treinamento/conhecimento e da saúde. Tais considerações reforçam a idéia da dificuldade de se definir adequadamente o setor Serviços. Evidenciam a impossibilidade de se conferir tratamento homogêneo a serviços tão díspares como os serviços financeiros, jurídicos, de informática, comunicações, engenharia, auditoria, consultoria, publicidade, seguro e corretagem, estes na vanguarda tecnológica, e seus aliados tradicionais, os serviços de transporte, comércio, armazenagem. A este juntam-se ainda os serviços oferecidos à sociedade pela administração pública, defesa/segurança nacional, saúde, educação e os serviços privados ofertados para o atendimento da demanda individual (Melo e alii, 1997, p. 4).
Estas dificuldades, sem dúvida relevantes na qualificação das definições adotadas, induzem, pelo menos num primeiro esforço de concepção dos serviços, à concentração nos três aspectos anteriormente levados em conta - o caráter intangível dos serviços, a proximidade entre a produção e o consumo e o fato de serem coincidentes no tempo e no espaço - que podem constituir apoio no mapeamento, grosso modo, desse setor, para o qual a teoria não conseguiu, ainda, uma boa definição.
2.2. A Evolução do Terciário
As implicações principais da quase ausência de conhecimento sistemático sobre o terciário podem ser percebidas tanto no fato de não existir consenso a respeito de explicações sobre o setor (sua evolução e estrutura, seu papel nas economias) como pelo fato de, no campo mais prático das ações governamentais, não existir, a exemplo do que está disponível para o setor industrial e para a agropecuária, um conjunto de conceitos que ajudem na definição de intervenções e formas articuladas e coerentes de ações, voltadas para o desenvolvimento do setor.
Dois enfoques se destacam nas abordagens comumente adotadas sobre a trajetória do terciário:

  1. as interpretações que buscam a explicação a partir de tendências gerais, com base em correlações entre variáveis, e que tendem a não considerar as particularidades históricas das economias;

  2. outras interpretações que adotam um menor grau de abstração e partem para o exame da evolução histórica das economias, identificando as razões específicas que estão por trás da presença dos serviços e dos fatores responsáveis pelo seu desenvolvimento.



2.2.1. A primeira abordagem

Como ponto de partida para o exame do primeiro tipo de abordagem, pode-se começar por uma síntese de A . S. Bhalla (1973), no estudo que fez sobre o emprego no terciário, em particular voltado para o chamado Terceiro Mundo, mas que tem sugestões importantes para o terciário em geral. Este autor destaca, entre as interpretações que buscam explicar o intenso crescimento do setor terciário nas economias, notadamente as menos industrializadas, que existem três que mais se destacam:



  1. uma primeira se caracterizaria pela abordagem a partir da renda e dos gastos e que utiliza a estrutura da demanda como a variável explicativa relevante; esta corrente seria representada por Colin Clark e seu estudo já clássico (Clark, 1940), que abrange tendências gerais das economias;

  2. a segunda, centraria sua interpretação na produtividade, uma vez que o setor terciário, comparativamente com os demais, é o que registra o mais lento crescimento da produtividade e teria, por esta razão, uma evolução caracterizada pelo uso intensivo da mão-de-obra; o principal representante desta corrente seria V. R. Fuchs (1968);

  3. finalmente, a interpretação centrada na correlação do emprego no terciário com o emprego industrial; entre outros, o autor mais referido neste abordagem é W. Galenson (1963).

Em relação à primeira dessas interpretações, a explicação fundamental residiria na elasticidade-renda que refletiria à intensificação da demanda dos serviços, do que decorreria a crescente participação do setor no produto e no emprego. Isto se traduziria no fato de que a demanda dos serviços, por conta da sua elasticidade-renda maior que o valor unitário, cresceria mais intensamente que a renda gerada na economia em seu conjunto. Neste particular, alguns autores (Melo et alii, 1997) fazem referência à operação da Lei de Engel, segundo a qual do aumento da renda da população resulta um crescimento diferenciado proporcionalmente (para menos e para mais, relativamente à renda) da demanda de determinados bens e serviços. Tal coeficiente definiria os bens ou serviços, de acordo com o crescimento proporcional da sua demanda, relativamente à renda, em bens e serviços inferiores e superiores. Neste caso, os serviços, em grande parte, estariam classificados entre estes últimos, devido a sua crescente participação no total da renda gerada.


A segunda interpretação tem seu foco nas dificuldades que grande parte dos serviços têm de avançar em ganhos de produtividade, em termos comparativos com a agropecuária e, sobretudo, a indústria. Além disso, num contexto de aumento dos salários reais e sua íntima relação com o aumento da produtividade, os preços nos serviços tenderiam a aumentar mais que proporcionalmente aos preços das mercadorias produzidas nos demais setores (Melo et alii, 1997). Daí o aumento não só da participação do setor terciário no emprego como na renda gerada pela economia.
A terceira interpretação - mais vinculada às idéias de W. Galenson - explica o aumento da participação dos serviços associando-o às profundas relações que existem entre este setor e a atividade industrial. No resumo feito por Melo et alii, “... o crescimento do peso dos serviços refletiria a externalização à indústria de atividades tradicionais antes realizadas nas próprias indústrias (terceirização), e/ou, mais importante, a multiplicação de novos serviços resultantes de inovações tecnológicas e da generalização de seus usos no sistema produtivo” (Melo et alii, 1997, p. 9). Estabelecendo uma relação entre esta forma de observar o processo evolutivo da economia e aquela desenvolvida por Ignácio Rangel (Rangel, 1957), que concentrou sua análise na abertura do “complexo agrícola” e o seu desdobramento na manufatura e nos serviços, num processo de especialização que estaria na base de um processo mais amplo de urbanização, o que se pode afirmar é que esta interpretação já parte da constituição de um setor industrial que, seguindo o processo ocorrido na abertura do “complexo agrícola”, aprofundaria a especialização com o surgimento e consolidação de serviços que seriam realizados independentemente das demais atividades, nas quais, originariamente, estariam inseridos. Este processo, já nesta fase do desenvolvimento do capitalismo, caracterizada por uma intensificação maior da concorrência com a globalização e abertura das economias, teria provavelmente, nesta linha de raciocínio, se intensificado com o processo de terceirização que passou a ocorrer nas atividades produtoras de mercadorias quando foi eliminado, do interior das empresas, um conjunto muito complexo de serviços que antes integravam a sua estrutura produtiva: limpeza, refeições, vigilância, manutenção, além de outros.
Autores como François Ecalle (1989) procuram interpretar os serviços caracterizando os fatores determinantes da sua evolução por intermédio de um grande número de relações que justificariam o maior dinamismo da sua expansão relativamente à renda e emprego no sistema econômico. Entre os fatores determinantes este estudioso faz referência às questões vinculadas:

  1. ao consumo final,

  2. ao consumo intermediário,

  3. a particularidade do comércio e dos serviços que denomina de não mercantis,

  4. aos aspectos relacionados com o valor agregado dos serviços e, finalmente,

  5. aos aspectos relativos à duração do trabalho e à produtividade.

No que se refere ao consumo final, Ecalle lembra mais uma vez a Lei de Engel, a respeito da dinâmica maior dos serviços relativamente à renda das famílias, ressaltando, no entanto, que esta maior proporção dos gastos com serviços deve-se não apenas à maior quantidade de serviços adquiridos como ao aumento mais que proporcional dos seus preços. A respeito, assinala que, nos estudos de seu conhecimento, quando considerados os valores a preços constantes, dois tipos de serviços se destacam no aumento dos gastos das famílias: os vinculados à telecomunicações e os serviços de saúde. Chama a atenção, ainda, para outros tipos de serviços cujos gastos realizados pelas famílias, em termos reais, descontada a inflação, teriam reduzido proporcionalmente no confronto com a evolução do total dos gastos de consumo da população (Ecalle, 1989, p. 21). Prossegue assinalando que existem, de qualquer modo, fatores relevantes favoráveis ao consumo crescente dos serviços, lembrando que, uma vez alcançado um certo nível de vida com o atendimento das necessidades básicas, as famílias se voltam para um consumo crescente de serviços que se traduz por uma elasticidade-renda superior a um. Na sua concepção, atuaria, em sentido contrário ao crescente consumo dos serviços, a expansão mais que proporcional dos seus preços, na comparação com a renda recebida pelas famílias. Há uma certa unanimidade entre os analistas a respeito do fato de que parte relevante da explicação para este comportamento dos preços reside no menor crescimento da produtividade da maioria dos serviços, cujos processos produtivos permanecem praticamente os mesmos com o passar dos anos, como foi anteriormente assinalado. Ainda na análise da dinâmica dos serviços, o autor chama a atenção para a competição que existe entre a produção de determinados bens, de um lado, e alguns serviços, de outro. Neste caso, lembra alguns exemplos, como o impacto das máquinas de lavar roupa sobre os serviços de lavanderia, da televisão relativamente aos serviços de diversão, notadamente o cinema e os eletrodomésticos, além da produção de refeições preparadas ou semi-preparadas relativamente aos serviços de alimentação.


Com relação ao consumo intermediário (originário da demanda de outros setores produtivos), o autor chama a atenção para o fato de que, além da competição que a produção de determinados bens provoca em relação aos serviços, existe, no tocante a serviços específicos, uma forte complementaridade que não pode ser deixada de lado. Neste caso, da produção de determinados bens industriais decorre o surgimento e a consolidação de serviços. Os exemplos mais conhecidos são o da produção da indústria automobilística, de um lado, e os serviços de conservação, reparação e auto-escolas, de outro lado. De uma outra perspectiva, que constitui o centro da questão examinada pelo autor (Ecalle, 1989, p. 29), a complementaridade entre as atividades produtoras de mercadorias e os serviços ocorre em relação à produção dos serviços intermediários e que, na denominação posteriormente adotada neste texto, serão identificados como serviços de apoio à produção. O autor mostra, em levantamentos realizados para a economia mundial, que as compras intermediárias de serviços das empresas crescem mais, em termos reais, do que as suas compras de bens ou mercadorias. Os exemplos referidos pelo autor, para ilustrar sua constatação, estão constituídos pelos serviços de marketing, de comercialização, além de um grande elenco de serviços associados ao processo de diversificação e internacionalização das empresas: “No interior dessas empresas, estruturas administrativas descentralizadas podem ser criadas. Esta demanda é estimulada pelo surgimento ou o desenvolvimento de instrumentos de gestão mais e mais aperfeiçoados (planejamento estratégico, auditoria, comunicação...)” (Ecalle, 1989, p. 30 e 31). Continuando sua argumentação, chama a atenção para o que se vem denominando de terceirização, que nada mais é que a externalização ou exteriorização de serviços que, antes eram realizados no interior da empresa produtora de mercadorias, e passam a ser, a partir de determinado momento, transferidos para as empresas de serviços que se transformam em subcontratadas das primeiras. A razão deste comportamento, cada vez mais presente em praticamente todas as economias, é a de maior eficiência, associada a uma preocupação de concentração do processo produtivo das empresas nas atividades que constituem o seu núcleo estratégico.
Com respeito aos chamados serviços e comércio não mercantis, o que o autor assinala, na época da sua análise até final dos anos 80, é uma perda sistemática desse segmento, ocorrida a partir da competição com o comércio e serviços mais modernos e formais que ocuparam o seu espaço. É provável que na década que se seguiu, mesmo no interior dos países industrializados, esta conclusão não tenha validade, tendo em vista as dificuldades crescentes no mercado de trabalho e a expansão dos segmentos informais, em várias partes do mundo, associada a um contexto de menor dinamismo econômico.
Passando para outra questão abordada pelo autor, deve-se registrar a constatação de que o crescimento do valor agregado dos serviços ocorre mais intensamente nos serviços voltados para as empresas do que os vinculados ao consumo das famílias. Neste caso, assinala que há, relativamente, aos gastos das famílias, uma maior estabilidade das despesas com serviços do que em relação ao consumo produtivo de serviços das empresas, relativamente ao total dos gastos, que se apresentariam crescentes. Finalmente, examinando a duração do tempo de trabalho, o autor chama a atenção para a proporção maior que nos serviços têm os contratos de trabalho parcial, embora as variações de país para país sejam significativas. Não obstante este fato, quando se leva em conta na estimativa da produtividade as horas de trabalho e não o número de pessoas ocupadas, o que se constata é que, na maior parte dos casos, o crescimento da produtividade do terciário, relativamente ao total da economia, é menor.
Outras interpretações apontam para aspectos como mudanças culturais que estariam ocorrendo na sociedade, entre elas o próprio processo de urbanização e a maior participação da população feminina no mercado de trabalho.
Provavelmente, a mais pretensiosa das interpretações compreendida por esta abordagem é a que procura estabelecer etapas do desenvolvimento das economias, tendo como marco de referência a prevalência, nas diferentes fases, de um ou outro dos grandes setores. Alguns autores limitam os estágios ou etapas a três momentos e outros chegam a sugerir quatro ou cinco. No resumo que elaboraram a respeito, Fitzsimmons e Fitzsimmons fazem referência ao fato de que Colin Clark e outros economistas teriam limitado sua interpretação a três estágios (primário, secundário e serviços), enquanto que trabalhos mais recentes teriam ampliado o escopo, assinalando a existência de cinco grandes estágios de desenvolvimento das atividades econômicas (Fitzsimmons e Fitzsimmons, 2000)
Na síntese feita pelos referidos autores - que combinam a interpretação de Clark com a de Foote e Hatt - é feito um desdobramento dos serviços constituindo cinco grandes etapas do desenvolvimento da atividade econômica. Na primeira delas, haveria a predominância das atividades agrupadas na agricultura, na mineração, pesca e silvicultura. Seria o estágio primário. Este seria seguido de uma fase caracterizada pelo setor secundário, que compreende a manufatura e a transformação da matéria prima, em geral. O terceiro estágio, denominado de terciário, seria caracterizado pelos serviços de alojamento e alimentação, serviços pessoais e serviços de manutenção e reparação, que limita muito a percepção de Colin Clark, que neste estágio consideraria todo o conjunto de serviços. O quarto estágio (quaternário), que compreenderia, na classificação de Fitzsimmons e Fitzsimmons, a prevalência de serviços de transporte, comércio varejista, comunicação, finanças e seguro, venda de imóveis e administração pública (governo). Finalmente, a quinta fase (quinária), seria caracterizada pelos serviços voltados para o que os autores denominam de aperfeiçoamento e ampliação das habilidades humanas: saúde, educação, pesquisa, lazer e artes (Fitzsimmons e Fitzsimmons, 2000, p. 29). Estes últimos autores não apresentam nenhuma justificativa ou fundamentação para a caracterização dos estágios. De fato, apenas fizeram uma tentativa, pouco cuidadosa, de apresentar um desdobramento do que Colin Clark e outros autores tinham anteriormente elaborado, com mais cuidado e de forma mais aderente aos traços gerais das economias que examinaram, ou tinham como referência nas suas análises.
2.2.2. A segunda abordagem
A outra abordagem tem como foco de sua interpretação, na evolução do terciário, a realidade histórica vivida pelas diferentes economias, portadoras dos elementos que caracterizariam não só a estrutura como o comportamento do referido setor. Neste particular, um primeiro corte que tem sido feito, diz respeito à necessidade de considerar a particularidade, deste setor, nas economias chamadas desenvolvidas e nas economias subdesenvolvidas ou em desenvolvimento, como costumam denominar os organismos internacionais.
Neste caso, chama-se a atenção para o fato de que, diferentemente da forte correlação que existe entre a expansão do terciário e o desenvolvimento das economias mais desenvolvidas - nas quais o aumento da riqueza e da renda determinaria o aumento da participação dos serviços na geração da renda e do emprego - nos países subdesenvolvidos (menos industrializados ou em desenvolvimento), a crescente presença do terciário “não está, necessariamente, associada a etapas avançadas de desenvolvimento” (Melo e alii, 1998, p. 1). Assim, haveria, de um lado, a possibilidade de a explicação para o crescimento do setor terciário estar associada ao maior grau de desenvolvimento que, por si, estimularia o crescimento mais que proporcional de um terciário moderno e complexo, caso dos países mais industrializados e, de outro lado, a possibilidade de tal expansão ser resultante da proliferação de um conjunto de atividades tradicionais, de baixo nível de produtividade e “de refúgio para a mão-de-obra de baixa qualificação”(Melo et alii, 1998, p. 2). Os referidos autores acrescentam que o terciário nas economias subdesenvolvidas se apresentaria como um terciário inchado, em razão de características e determinantes estruturais da sua própria formação econômica e social, tais como concentração da propriedade fundiária, incapacidade da indústria de empregar parcelas crescentes da população em idade de trabalhar expulsa das atividades agrícolas: “Nesta perspectiva, grande parcela das atividades tradicionais de serviços seria a única possibilidade de ocupação de amplos setores da população, portadora de baixa qualificação, significando, conseqüentemente, subemprego e exclusão social” (Melo et alii, 1998, p. 2).
É nessa linha de raciocínio, e de uma crítica ao conjunto das abordagens reunidas no primeiro grupo, que surge e se consolida esta vertente que busca as explicações na especificidade histórica das economias analisadas. É o que assinala Francisco de Oliveira ao considerar que o esquematismo da outra abordagem terminou por deixar de lado “as determinantes históricas da divisão social do trabalho, as relações técnicas que emergem a partir da configuração de certos modos de produção, dando menos atenção a esses aspectos e principalmente menor atenção ao aspecto das relações inter-setoriais” (Oliveira, s/data, p. 140).
Francisco de Oliveira chama a atenção para o caso de economias, como as dos países latino-americanos, nas quais a agricultura, predominantemente voltada para a exportação, exige um terciário bem mais amplo e especializado, o que nada tem a ver com nível de desenvolvimento capaz de explicar a dimensão dos serviços. Múltiplas e complexas são as determinações históricas do processo de divisão social do trabalho, o que pode ser detectado, mesmo a partir do exame superficial de algumas experiências concretas. A divisão internacional do trabalho, no interior da qual países, regiões, sub-regiões ou grandes aglomerados urbanos passam a desempenhar papeis específicos importantes na articulação da economia mundial e no processo de acumulação de capital nesse nível, não pode ser esquecida. Ou mesmo a divisão nacional de trabalho, em países como o Brasil, no qual diferentes áreas, regiões ou sub-regiões brasileiras exercem diferentes funções no contexto nacional e isto determina, em cada uma delas, configurações diferentes para os grandes setores produtivos, entre eles o terciário.
A rede urbana - com sua hierarquia e a forma como se estrutura, aspectos que estão associados à formação econômica do país ou região - é um exemplo concreto de diferentes contextos de evolução dos serviços, de acordo com a posição dos aglomerados urbanos no interior da referida rede, e que mostra, claramente, como a divisão territorial de trabalho opera nas economias definindo o conteúdo e a complexidade do terciário.Uma ilustração destes aspectos pode ser encontrada no recente estudo realizado por diversas instituições a respeito da rede urbana brasileira (IPEA/IBGE/NESUR-IE-UNICAMP, 1999).
Além disso, é importante considerar aspectos aparentemente contraditórios que existem em determinadas situações e momentos, como o surgimento de um terciário informal, refúgio, em grande parte, de pessoas que não conseguem empregos no setor formal urbano e, simultaneamente a isto, a consolidação de um terciário moderno, vinculado a pólos de informática, de logística, à ciência e tecnologia e ao sistema financeiro, ao varejo moderno, aos serviços mais complexos e sofisticados de saúde e educação, mesmo em países e regiões de níveis de renda mais baixos. Isto ocorreria no interior de um processo que se poderia denominar de modernização seletiva, associado, no que se refere aos serviços sociais e pessoais, às desigualdades na distribuição pessoal da renda, processo e características encontradas em grande parte dos países subdesenvolvidos.
São ressaltadas ainda, por autores como Francisco de Oliveira as funções da maior relevância vinculadas a um sistema de dominação, inerente ao processo de acumulação capitalista, no qual os serviços de controle social passam a ter espaços significativos no contexto dos serviços de determinada economia (este tema será retomado adiante). É evidente, também, no período mais recente - de presença marcante dos processos de globalização e abertura econômica - o surgimento e a consolidação de serviços vinculados aos mercados financeiros e ao capital especulativo; além do processo que vêm sendo denominado de terceirização (já referido) que, em alguns casos, está associado a uma intensa competição determinada pela abertura econômica. Trata-se, neste último caso, não só de um processo de terceirização como de terciarização que, constitui, um reforço ao crescimento dos serviços. É importante, ainda, considerar entre esses processos mais gerais, a intensificação da utilização das informações como elementos centrais do desenvolvimento atual das economias, sobretudo a partir do crescimento da informática e do processamento de informações, que criaram condições para o surgimento de vários segmentos do terciário que vêm se consolidando no decorrer da última década.
Uma análise que estabelece algumas relações entre as duas abordagens é a de Claus Offe, no estudo denominado de “O crescimento do Setor de Serviços” (Offe,1989). Depois de fazer um exame crítico dos indicadores adotados em diferentes estudos sobre o crescimento dos serviços, sobretudo em relação ao emprego, o autor parte para uma investigação, geralmente voltada para os países industrializados, na qual considera, como ponto de partida, o esquema resumido no Quadro 2.1.
Quadro 2.1: Representação Esquemática das Principais Explicações do


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