The audiovisual of attractions and excess as rhetoric: a reflection upon the audiovisual discourse in favor of the impeachment



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Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação

XXVI Encontro Anual da Compós, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo - SP, 06 a 09 de junho de 2017

O AUDIOVISUAL DE ATRAÇÕES E O EXCESSO COMO RETÓRICA: uma reflexão sobre o discurso audiovisual a favor do impeachment 1


THE AUDIOVISUAL OF ATTRACTIONS AND EXCESS AS RHETORIC: a reflection upon the audiovisual discourse in favor of the impeachment

Adil Giovanni Lepri2


Resumo: Este artigo deseja produzir uma reflexão acerca do audiovisual produzido para a internet mais identificado com grupos conservadores que se organizaram em torno do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. O excesso, a retórica melodramática e o afeto são categorias privilegiadas de análise para serem aplicadas em exemplos de vídeos da página do Facebook e movimento político Revoltados ONLINE e da jornalista e militante pelo impeachment Joice Hasselman.
Palavras-Chave: Melodrama; Audiovisual político; Sites de redes sociais; Atrações.
Abstract: This article seeks to produce a reflection upon audiovisual produced for the internet more identified with conservative groups that organized around the impeachment of president Dilma Rousseff. The excess, the melodramatic rhetoric and affection are privileged categories of analysis to be used in examples of videos from the Facebook fan page and political movement Revoltados ONLINE and of the journalist and impeachment militant Joice Hasselman.
Keywords: Melodrama; Political Audiovisual; Social Network Sites; Attractions.

line 2

1. Introdução


O ativismo na internet tem se tornado uma importante dimensão na organização de causas e lutas relevantes na sociedade brasileira como um todo. Apesar de seu advento não ter sido nas chamadas Jornadas de Junho de 2013, foi então que de certa forma tomou corpo o peso das redes sociais como ferramentas de mobilização e debate político. Nesse sentido o audiovisual tem se tornado uma faceta importante da forma de comunicação nos sites de redes sociais, como o Facebook, e os avanços tecnológicos certamente tem um papel fundamental no que tange ao alcance do aparato de captura de imagens e sons nas mãos de boa parte da sociedade. Mesmo que esse alcance não seja pleno e tão amplo como possa se pensar, é possível tratar a câmera de filmagem como algo muito mais corriqueiro na vida das pessoas a partir de sua instalação em cada vez mais aparelhos celulares.

Pierre Levy, em seu livro “Cibercultura” (1997), atenta para a questão da técnica, no seu sentido condicionante.

Dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem sua presença. Mas muitas possibilidades são abertas, e nem todas serão aproveitadas. As mesmas técnicas podem integrar-se a conjuntos culturais bastante diferentes. (LEVY, 1997, p. 24)

A técnica, então, é condicionante, mas não determinante (Ibidem), é preciso pensar a tecnologia como ferramenta que possibilita mudanças sociais e saltos civilizatórios relevantes, mas não as gesta nem as protagoniza. Levy levanta o exemplo do estribo no período histórico que precede o feudalismo e como este é um condicionante para permitir que existissem os exércitos feudais que lutam grandes e longas batalhas em cima de seus cavalos. Para o autor,

(...) sem o estribo, é difícil conceber como cavaleiros com armaduras ficariam sobre seus cavalos de batalha e atacariam com a lança em riste... O estribo condiciona efetivamente toda a cavalaria e, indiretamente, todo o feudalismo, mas não os determina. (Ibidem, p. 24)

Então, para pensar a questão do ativismo nos sites de redes sociais, sobretudo aquele que utiliza o audiovisual como ferramenta discursiva e de mobilização, é importante pensar a técnica como condicionante para isso, mas jamais determinante da forma como se organiza o meio de comunicação constituído. Ou seja, sem o celular que é câmera, sem o site de rede social que aceita vídeos e sem ferramentas como a possibilidade de postagem direta de vídeos em qualquer perfil no Facebook, não podemos pensar em uma paisagem audiovisual tão ampla composta por vídeos de pessoas ordinárias compartilhando suas visões de mundo ao toque de um botão. No entanto as ferramentas não determinam o processo político que se segue.

É preciso então definir as coordenadas históricas nas quais se centra a análise pretendida aqui. Trata-se do período em torno do pedido de impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff que começa a se gestar publicamente a partir de 2015, quando é formalizado, e se conclui na segunda metade de 2016 com o afastamento definitivo da presidenta votado pelo senado federal. A reflexão acerca dos sentidos sócio-políticos deste processo foge ao escopo deste artigo, porém parece importante uma contextualização do mesmo. Escolho por fazê-la a partir do cientista político André Singer, que em seu artigo “Cutucando onças com varas curtas: o ensaio desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014)” (2015), defende que uma ampla aliança se rompe e outra se forma entre as forças sociais brasileiras no período.

(...) o ensaio desenvolvimentista de Dilma teria, assim, seguido as pegadas da década de 1960. Na partida, a burguesia industrial pede ofensiva estatal contra os interesses estabelecidos, pois depende de política pública que a favoreça. Para isso, alia-se à classe trabalhadora. No segundo ato, os industriais descobrem que, dado o passo inicial de apoiar o ativismo estatal, estão às voltas com um poder que não controlam, o qual favorece os adversários de classe, até há pouco aliados. No terceiro episódio, a burguesia industrial volta-se “contra seus próprios interesses”(Cardoso) para evitar o que seria um mal maior: Estado demasiado forte e aliado aos trabalhadores. Une-se, então, ao bloco rentista para interromper a experiência indesejada. Tal como em 1964, as camadas populares não foram mobilizadas para defender o governo quando a burguesia o abandonou. Mais uma vez o mecanismo burguês pendular ficou sem contrapartida dos trabalhadores. (SINGER, 2015, p. 66)

Para o autor, o rompimento da aliança histórica avalizada pelo lulismo entre a fração organizada da classe trabalhadora e burguesia industrial então se rompe, ao passo que a burguesia especulativa e rentista vai trazer para seu lado os setores produtivistas do país, na criação de um bloco histórico que vai jogar peso na deposição da presidenta. Mas o que é importante notar é o elemento massivo que é ativado como sustentáculo fundamental deste processo. Ainda que seja importante perceber o papel de entidades como a FIESP na defesa do impeachment, é claro o papel desempenhado por uma massa que vai as ruas e precisa de uma narrativa coerente para aderir. Nesse sentido os audiovisuais entram como índices relevantes para a construção de uma narrativa e de mobilização de amplos setores das classes médias que vão as ruas.

A intenção deste artigo então, é a de pensar os audiovisuais feitos para a internet que carregam em si discursos políticos em torno do impeachment da presidenta Dilma Rousseff e como esses textos fílmicos trazem códigos do melodrama e da imaginação melodramática, o excesso convertido em retórica. Para o pesquisador Peter Brooks, uma das principais facetas do melodrama, além do seu caráter excessivo é que “(...) melodrama não só aplica mas é centralmente sobre repetidas mistificações e recusas da mensagem e sobre a necessidade de repetidas clarificações e reconhecimentos da mensagem.” (BROOKS, 1995, p. 28). Para as autoras Ana Lúcia Enne e Mariana Baltar seria “como se toda a narrativa (todos os seus elementos) convergissem para dizer a mesma e única coisa. E esta coisa será, invariavelmente, algo como ‘o bem vence o mal, espanta o temporal’”. (ENNE e BALTAR, 2006, p. 4).

O melodrama, registro narrativo próprio da modernidade, pode então ser pensado como uma forma de contar que restaura certezas, que, em tempos de crise e polarização se recondiciona. Neste artigo pretende-se investigar alguns exemplos de audiovisuais que parecem retomar alguns códigos e registros mencionados. A opção por analisar vídeos produzidos por personagens e movimentos mais identificados com valores conservadores e favoráveis ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff se dá pela necessidade de compreender como e porque se estabelece engajamento com esse tipo de audiovisual. Neste trabalho pretende-se analisar dois exemplos de vídeos da página do Facebook e movimento Revoltados ONLINE e dois exemplos da jornalista e militante pelo impeachment Joice Hasselman.

2. O audiovisual como instrumento político e o ódio como dimensão discursiva


É preciso identificar o audiovisual como importante ferramenta e instrumento de luta política e transmissão de discursos e narrativas. As imagens em movimento têm potência, inclusive aquelas que retratam acontecimentos factuais, como passeatas, acidentes, brigas, e etc. A autora Jane Gaines analisa um certo gênero de filme documentário que ela chama de “documentário radical”, aquele que deseja sobretudo produzir mobilização em torno de uma determinada causa. Para a análise dos audiovisuais produzidos para a internet, portanto, é possível tomar alguns apontamentos feitos em seus textos.

(...) o filme documentário que usa realismo para fins políticos tem um poder especial sobre o mundo do qual é cópia por que deriva seu poder daquele mesmo mundo. (A cópia deriva seu poder do original). O filme radical deriva seu poder (magicamente) dos eventos políticos que retrata.3 (GAINES, 1999, p. 95)

Logo, é necessário compreender como a ilusão de realismo engendrada pelas imagens em movimento é relevante para a construção de narrativas que desenvolvem uma série de certezas acerca de um assunto em particular e, mais do que isso, podem produzir um engajamento no mundo das imagens. A autora, porém, segue por dizer que “(...) só em conexão com momentos ou movimentos que filmes poderiam fazer uma contribuição para a mudança social, e que neles mesmos, não tinham nenhum poder para afetar situações políticas. (ibidem, p. 85). Ou seja, Gaines trata os filmes – e neste caso podemos pensar o mesmo dos vídeos em questão – como índices para a mudança de uma determinada situação política.

Nesse sentido é importante pensar como o caráter corpóreo desses filmes pode suscitar uma resposta similar do espectador no mundo real. Trazer então o pensamento de Sergei Eisenstein é importante na medida em que sua conceituação da Montagem de Atrações, ainda como um procedimento teatral, baliza boa parte da reflexão posterior acerca da mobilização corpórea dos espectadores com relação ao que está sendo encenado, ou o que está na tela.

Colocar o sensual de volta na teoria de estética política iria requerer reconceituação significativa. Na teoria de mudança social e cinema de Eisenstein, os sentidos corpóreos direcionam o espectador, o qual envolvimento não é estritamente intelectual – política não é exclusivamente uma questão da cabeça mas pode também ser uma questão do coração. Relevante aqui, eu acho, é a observação de Jaques Aumont que no vocabulário crítico de Eisenstein, "atração" era suplantada por "pathos".4 (ibidem, p. 88)

Com essa definição em mente é interessante trazer um conceito proposto por Gaines e que traz possibilidades de análises relevantes para os objetos em questão.

O que eu estou chamando de mimetismo político tem a ver com a produção de afeto dentro e através da imagética convencional da luta: corpos ensanguentados, multidões marchantes, polícia zangada. Mas claramente tal imagética não terá ressonância sem política, a política que tem sido teorizada como consciência, no marxismo com consciência de classe, o protótipo para consciência politizada em lutas feministas, antirracistas, gays e lésbicas.5 (Ibidem, p. 91)

Aqui a autora usa a categoria do afeto para analisar a resposta corpórea já colocada em reflexão por Eisenstein na Montagem de Atrações, envolvendo então o conceito de Spinoza na mistura: “Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções” (SPINOZA, 2009, p. 50). Também no que tange o melodrama é importante reiterar sua particular relação com o corpo, para Ben Singer: “Crucial para um grande número de melodramas populares era o sensacionalismo, definido como uma ênfase na ação, violência, emoções, visões incríveis, e espetáculos de perigo físico.” (SINGER, 2001, p. 48)6

Retornando ao caráter excessivo do melodrama podemos trazer uma outra categoria que é importante para a análise que é a do “cinema de atrações”, como cunhado pelo pesquisador Tom Gunning, que seria “(...) uma concepção que vê o cinema menos como uma forma de contar histórias do que como uma forma de apresentar uma série de vistas para um público, fascinante por causa de seu poder ilusório e exotismo” (GUNNING, 2006, p. 64). Nesse sentido então, parece possível se trabalhar com a noção de audiovisual de atrações, trazendo o conceito para os objetos em questão.

Para além do audiovisual como atração é preciso refletir sobre o excesso como retórica em vídeo, calcado nos códigos do melodrama já apontados anteriormente: “O elemento essencial, talvez mais frequentemente associado com melodrama é uma certa qualidade de ‘extenuação’ ou ‘exagero’ resumida pelo termo excesso.” (SINGER, 2001, p. 38-39).7 Retomando Peter Brooks, quando este analisa a retórica do melodrama no teatro, pode-se trazer alguns apontamentos acerca do excesso como retórica, para o autor:

Retórica melodramática, como nossos exemplos acumulados suficientemente sugerem, tende na direção do inflado e sentencioso. Suas figuras típicas são a hipérbole, antítese, e oximoro: estas figuras, precisamente, que evidenciam a recusa de nuance e a insistência de se lidar em conceitos puros e integrais. (BROOKS, 1995, p. 40)8

Destaca-se então o aspecto monolítico da retórica do excesso, nos termos do autor. A dimensão da obviedade está latente no discurso em questão, trazendo à tona a necessidade de restauração de certezas. O autor apresenta então sua hipótese com relação a retórica do melodrama, aqui historicamente situada no período pós revolução na França, como uma estratégia discursiva que vence as repressões.

Nós podemos agora avançar a hipótese que a retórica melodramática, e todo o empreendimento expressivo do gênero, representa uma vitória sobre a repressão. Nós podemos conceber essa repressão como simultaneamente social, psicológica, histórica, e convencional: o que não poderia ser dito em um estágio mais inicial, nem ainda em um estado mais “nobre”, nem dentro dos códigos da sociedade. (Ibidem)9

Nos casos em questão veremos, mais a frente, como se reconfigura esse aspecto de forma diversa na leitura dos audiovisuais analisados.

Os discursos presentes nos vídeos a serem analisados têm, em grande medida, uma verve odiosa ou violenta. A internet parece, por vezes, que é o terreno fértil para a gestação e reprodução de discursos de ódio, no entanto, para a pesquisadora Raquel Recuero, as “(...) mídias sociais tem, em muitos aspectos, dado “superpoderes” para a violência simbólica. As mídias sociais proveram um espaço chave para a reprodução de toda a sorte de discurso, inclusive aqueles violentos” (RECUERO, 2015, p. 3).10 Logo, segundo a autora, podemos pensar no ódio como mais uma dimensão discursiva amplificada, mas que chama a atenção pelo excesso. Carlos Alberto Carvalho aponta, em seu artigo “Banalidade do mal em comentários de leitores: internet e disseminação da intolerância” (2016), para um norte similar, mas otimista quanto as características da internet e dos sites de redes sociais.

A internet, como terra de ninguém, pode ser, contraditoriamente, um promissor lócus para o exercício da pluralidade, da democracia, da diversidade e do convívio na aceitação e pleno reconhecimento das diferenças, mas também o oposto, terreno onde vicejam o ódio, o preconceito, o desrespeito às leis e aos direitos humanos elementares. Construir coletivamente a primeira via é um desafio que se impõe. (CARVALHO, 2016, p. 11)

Nesse sentido, pode ser interessante trazer as reflexões de Hannah Arendt sobre a banalidade do Mal.

Tenho hoje, com efeito, a opinião de que o mal nunca é “radical”, que ele é apenas extremo e de que não possui nem profundidade, nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode invadir tudo e assolar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo. Ele “desafia o pensamento”, como disse, porque o pensamento tenta alcançar a profundidade, ir à raiz das coisas, e no momento em que se ocupa do mal sai frustrado porque nada encontra. Nisso consiste a sua “banalidade”. (ARENDT, 2014, apud CARVALHO, 2016, p. 7)

A reflexão de Arendt parece chegar a uma importante realização. Por mais que pareça totalizante e radical, o mal enquanto discurso e prática política, pode se imbricar por entre as frestas da sociedade tornando-se então, banal, e aí que reside sua ameaça. Esta questão está ligada na dificuldade da sociedade de massas de se sustentar, para Arendt:

O que torna tão difícil suportar a sociedade de massas não é o número de pessoas que ela abrange, ou pelo menos não é este o fator fundamental: antes, é o fato de que o mundo entre elas perdeu a força de mantê-las juntas, de relacioná-las umas às outras e de separá-las. A estranheza de tal situação lembra a de uma sessão espírita na qual determinado número de pessoas, reunidas em torno de uma mesa, vissem subitamente, por algum truque mágico, desaparecer a mesa entre elas, de sorte que duas pessoas sentadas em frente uma à outra já não estariam separadas mas tampouco teriam qualquer relação tangível entre si. (ARENDT, 1981, p. 62)

As reflexões em torno do mal, do discurso de ódio e do excesso são fundamentais para pensar os audiovisuais produzidos para a internet e sua organização discursiva, tanto em termos de conteúdo quanto de forma. A seguir pretende-se construir uma breve análise de alguns exemplos a partir da construção teórica detalhada até aqui.

3. Análise fílmica: Revoltados ONLINE e Joice Hasselman


Os exemplos que serão analisados são 2 vídeos postados pela página e movimento Revoltados ONLINE no Facebook, e 2 vídeos postados pela jornalista Joice Hasselman em seu canal do Youtube. O primeiro vídeo de Hasselman trata-se de um pequeno vlog (vídeo blog) que noticia a chegada de uma carreata a Brasília para protestar contra o governo de Dilma Rousseff, intitulado “Concentração pelo #ForaDilma! - Joice Hasselmann - #Forapt11” (2015). No audiovisual em questão a jornalista filma a si mesma com a câmera na mão um pouco mais alta que o rosto, em leve plongée e fala sobre a chegada de alguns grupos sociais motorizados a Brasília, centro político do país, para uma “grande manifestação” nas palavras da mesma. A câmera virada para si mesmo denota a clara necessidade não de apenas documentar o mundo, mas sim a própria presença neste mundo das imagens. A câmera olho da tradição soviética de Dziga Vertov12 dá lugar, neste caso, a uma espécie de “câmera corpo”, o dispositivo como extensão do próprio corpo de quem filma. Ainda que não seja inédita a manipulação da câmera de filmagem para ressaltar o corpo de quem opera, seja na ficção ou no documentário, aqui acredito que possa se perceber uma certa transformação nesse expediente fílmico, principalmente com relação ao celular e sua câmera frontal. Assim, valorizando a imagem de si mesmo, ressaltando não só os movimentos corpóreos na operação da câmera, mas também sua imagem.

A câmera então se afeta junto com a afetação corpórea, é como se o aparato se tornasse a mímese política que se pretende no espectador. As imagens tremidas, o ruído de vento, de buzinas e do ambiente são valorizados como índices do mundo real para a construção de um espaço fílmico onde a presença de uma massa raivosa é característica privilegiada, o vídeo torna-se atração pois apesar de definir uma clara narrativa verbal é acima de tudo um “pathos do fato” (GAINES, 1999), ou seja, uma mostração de algum acontecimento que engendra uma causa clara e um perigo presente, para a cinegrafista neste caso a causa é a derrubada do governo que traz um perigo constante a sociedade brasileira. Aqui é possível retomar a reflexão do Brooks acerca da retórica do excesso, quando este identifica nela uma reação a repressão, porém no exemplo aqui analisado há a alusão a uma repressão por parte do governo federal em direção aos movimentos pelo impeachment que não necessariamente se faz presente. Pelo menos não no vídeo em questão, ou em boa parte da paisagem audiovisual produzida por Hasselman.

Ainda em registro similar a este podemos trazer o exemplo do vídeo postado pela página Revoltados ONLINE com o título “Bando de safados ! São machos quando estão em bando”13 (2015) que mostra o dirigente do movimento, Marcello Reis, em meio a um grande número de filiados do Partido dos Trabalhadores em um lobby de um hotel onde acontecia o congresso do partido. A presença do que se propõe ser pensado como a “câmera corpo” é mais intensa aqui, no entanto o objeto principal do olhar da objetiva é o mundo ao redor do cinegrafista, tal qual em Vertov. A câmera então afeta-se na medida em que o corpo que a opera é afetado, sendo esse processo o cerne do vídeo em si, que traz poucas palavras do personagem dirigente do movimento para a câmera, acontecendo apenas no início do vídeo de forma breve. O caráter atracional deste vídeo é muito claro, é uma vista sensacional de uma multidão tornada turba, imagens tremidas são pressuposto estético de um vídeo que parece conter algum grau de manipulação consciente da situação, senão do próprio dispositivo, trazendo inclusive o aspecto próprio do melodrama do personagem que enfrente um grande perigo físico. A sensação é praticamente o propósito exclusivo do vídeo, que tem na “câmera corpo” a articulação da mímese política pretendida no espectador, que associado ao excesso presente nas imagens, nos gritos ao fim de “solta ele”, nas imagens quase abstratas que são produzidas a partir do balanço violento da câmera e sons que são manipulados pelo próprio corpo, na medida em que este cobre e descobre o microfone do celular que é usado para a filmagem, causando uma verdadeira sensação de aprisionamento, de ataque selvagem.

Nesses exemplos, é importante também notar o caráter melodramático não só no excesso enquanto chave discursiva e retórica, mas também na definição de um certo “bem” contra um suposto “mal” que assola os personagens, com a obviedade e repetição tão próprias do melodrama e no engajamento corpóreo não só com os corpos presentes nas imagens, mas com os corpos do “mundo real”. A questão da técnica como condicionante é fundamental também, na medida em que é necessário perceber que o celular com câmera condiciona este tipo de audiovisual, mas não determina o caráter do conteúdo ou mesmo o processo político que é alvo de sustentação a partir desses vídeos.

Em outro exemplo de Joice Hasselman, “DILMA IMPEACHMENT OU CADEIA14” (2015), menos claramente atracional mas também excessivo, vemos a jornalista falando para uma câmera estática, que ela não manipula diretamente, em um registro que parece pretender-se jornalístico. Essa é uma chave discursiva mais comum e presente em seu canal. O vídeo traz um enquadramento em plano médio, típico de telejornal televisivo e lembra segmentos de comentário político nesses programas. Referências são feitas por ela a termos do jargão jornalístico como “nariz de cêra” – para qualificar a extensa apresentação que a personagem faz de sua fala – e a menção a apresentação de “outras notícias no meio da tarde” em um dado momento. A retórica é excessiva na adjetivação da presidenta e de outras figuras da política nacional – trazendo aqui também a dimensão da repetição do melodrama e sobretudo o aspecto retórico do excesso no uso de hipérboles.

O vídeo “Reunião com a PM15” (2015), postado pela página Revoltados ONLINE tem similarmente um caráter menos sensacional e atracional, no entanto permanece a dimensão excessiva na retórica e a câmera corpo também se faz presente, desta vez voltada para o personagem que relata uma reunião com a Polícia Militar do Estado de São Paulo. A fala é repleta de repetição e obviedade e uma forte narrativa religiosa, ligando a direção de Deus às ações daquele movimento, trazendo outro típico aspecto do melodrama à tona, a Providência como engrenagem narrativa. (XAVIER, 2003)

Todos os exemplos citados são quase intocados em termos de pós produção da imagem, de montagem. O plano sequência é regra para todos e não há inserção de ruídos ou trilha sonora em nenhum exemplo. É como se fosse o audiovisual de “cara limpa”, sem uma articulação clara de sua gramática para produzir algum efeito determinado. Essa dimensão dos vídeos traz um caráter importante que é aquele de um realismo mais real que a própria realidade, sem intervenções, contribuindo para a noção dos vídeos como testemunhos dos personagens.

Estes vídeos não constituem um amplo corpus de dados, e este artigo não pretende dar conta da totalidade da paisagem audiovisual em torno do assunto do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A tentativa é de pinçar alguns exemplos dentre uma pesquisa exploratória mais ampla de um panorama audiovisual presente na internet, propondo a hipótese de que esta estirpe de vídeos analisada neste artigo, ainda em caráter inicial, dirige uma tendência relevante para o audiovisual político na internet. Pretendeu-se então investigar um certo tipo de caráter atracional e alguma medida de aparecimento de códigos melodramáticos em um certo tipo de vídeo realizado por movimentos e figuras mais identificados com pautas conservadoras para o país.



4. Conclusão


Neste artigo pretendeu-se analisar a forma como os audiovisuais produzidos para a internet e nos sites de redes sociais trazem consigo um caráter atracional e códigos melodramáticos na construção de sua forma e de sua retórica. A mimese política parece ser o objetivo desses vídeos que carregam um forte elemento de afeto corpóreo, usando a categoria proposta aqui de “câmera corpo” como reprodução desta afetação para engendrar um engajamento do espectador.

Mobilizando poucos recursos da gramática audiovisual em sua forma os vídeos causam respostas corpóreas e engajam militância, mesmo que de ocasião, para suas pautas e causas. A atração e o afeto provocam talvez engajamentos menos racionais e mais do “coração”, como aponta Jane Gaines. É importante, portanto, compreender esses audiovisuais e o que os faz dialogar com setores da sociedade para melhor compreender a eficácia de determinados discursos no processo político como um todo.



Referências Bibliográficas

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense-universitária, 1981.

BROOKS, P. The melodramatic imagination Balzac, Henry James, melodrama and the mode of excess. New Haven: Yale University Press, 1995.

CARVALHO, Carlos Alberto. Banalidade do mal em comentários de leitores: internet e disseminação da intolerância. In. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação | E-compós, Brasília, v.19, n.2, maio/ago. 2016

ENNE, A. L.; BALTAR, M. A construção do fluxo do imaginário sensacionalista através de uma “pedagogia de sensações”. In: REDE ALCAR, 2006, São Luís, Maranhão, jun. 2006.

GAINES, Jane M. Everyday Strangeness: Robert Ripley's International Oddities as Documentary Attractions. In. New Literary History, Vol. 33, No. 4, Everyday Life (Autumn, 2002), pp. 781-801.

GAINES, Jane M. Political mimesis. In. GAINES, Jane M. & RENOV, Michael (Org.) Collecting visible evidence. Minneapolis: University of Minnesota Press: 1999.

GUNNING, T. The cinema of attractions: early film, its spectator and the avant-garde In. STRAUVEN, W. (Org.). Cinema of attractions reloaded. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2006

LEVY, Pierre. Cibercultura. Editora 34, 1999.

RECUERO, Raquel. Social Media and Symbolic Violence In Social Media + Society, Abril-Junho 2015, p. 1-3.

SINGER, André. Cutucando onças com varas curtas: o ensaio desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014). In. Revista Novos Estudos n. 102, pp. 39-67, 2016.

SINGER, Ben. Melodrama and modernity: early sensational cinema and its contexts. New York: Columbia University Press, 2001

SPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

XAVIER, Ismail. O olhar e a cena: melodrama, Hollywood, cinema novo, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2003.



Referências Audiovisuais

“Reunião com a PM”, Marcello Reis, 2015. https://youtu.be/CWMptRN4QSM> Acesso em 25/09/2016.

“DILMA IMPEACHMENT OU CADEIA”, Joice Hasselman, 2015. https://www.youtube.com/watch?v=D_OaRtvEkPs> Acesso em 25/09/2016.

“Concentração pelo #ForaDilma – Joice Hasselman - #Forapt”. Joice Hasselman, 2015. https://www.facebook.com/joicehasselmann/videos/977256662346523/> Acesso em 25/09/2016.



“Bando de safados ! Só são machos quando estão em bando”. Marcello Reis, 2015. https://youtu.be/-TkrmbUp8us> Acesso em 25/09/2016.






1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho ESTUDOS DE CINEMA, FOTOGRAFIA E AUDIOVISUAL do XXVI Encontro Anual da Compós, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo - SP, 06 a 09 de junho de 2017.

2 Doutorando do Programa de Pós Graduação em Comunicação da Univerisdade Federal Fluminense. adillepri@gmail.com

3 Tradução livre de: “(…) the documentary film that uses realism for political ends has a special power over the world of which it is a copy because it derives its power from that same world. The copy derives its power from the original). The radical film derives its power (magically) from the political events that it depicts.”

4 Tradução livre de: “Putting the sensuous back into the theory of political aesthetics would require significant reconceptualization. In Eisensteins’s theory of social change and cinema, the bodily senses lead the spectator, whose involvement is not strictly intellectual – politics is not exclusively a matter of the head but can also be a matter of the heart. Relevant here, I think, is Jacques Aumont’s observation that in Eisenstein’s critical vocabulary, ‘attraction’ was supplanted by ‘pathos’”.

5 Tradução livre de: “What I am calling political mimicry has to do with the production of affect in and through the conventionalized imagery of struggle: bloodied bodies, marching throngs angry police. But clearly such imagery will have no resonance without politics, the politics that has been theorized as consciousness, in Marxism as class consciousness, the prototype for politicized consciousness in antiracist and feminist as well as gay and lesbian struggles.”

6 “Crucial to a great deal of popular melodrama was sensationalism, defined as na emphasis on action, violence, thrills, awesome sghts, and spectacles of physical peril.”

7 Tradução livre de: “The essential element perhaps most often associated with melodrama is a certain ‘overwrought’ or ‘exaggerated’ quality summed up by the term excess.

8 Tradução livre de: “Melodramatic rhetoric, as our accumulating examples sufficiently suggest, tends toward the inflated and the sententious. Its typical figures are hyperbole, antithesis, and oxymoron: those figures, precisely, that evidence a refusal of nuance and the insistence on dealing in pure, integral concepts.”

9 Tradução livre de: “We may now advance the hypothesis that melodramatic rhetoric, and the whole expressive enterprise of the genre, represents a victory over repression. We could conceive this repression as simultaneously social, psychological, historical, and conventional: what could not be said on· an earlier stage, nor still on a "nobler" stage, nor within the codes of society”

10 Tradução livre de: “In my opinion, social media have, in many aspects, given “superpowers” to symbolic violence. Social media have provided a key space for the reproduction of all sorts of discourses, including violent ones.”


11 https://www.facebook.com/joicehasselmann/videos/977256662346523/> Acesso em 25/09/2016.

12 Realizador do filme “O Homem com a câmera” (1929), que estabeleceu a noção de câmera olho.

13 https://youtu.be/-TkrmbUp8us> Acesso em 25/09/2016.

14 https://www.youtube.com/watch?v=D_OaRtvEkPs> Acesso em 25/09/2016.

15 https://youtu.be/CWMptRN4QSM> Acesso em 25/09/2016.

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